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abril 27, 2014

Conspirando com Gabo


"Nem só de literatura são feitas as lembranças de Gabo, agora que o seu corpo já não está entre nós. Acredito que nos sete anos que passei, desde 1973, conspirando com ele, graças ao exílio e a Pinochet, juntando-me a ele, almoçando em sua casa em Barcelona e jantando no Pedregal de San Ángel, sentados nos cafés de Paris e de Roma e até, acho, certa vez, em Estocolmo, sempre conspirando, conjurando, tramando, sempre em busca da maneira mais rápida e imaginativa para acabarmos com as ditaduras que assolavam nossa América Latina.
Que mais poderia desejar um jovem escritor latino-americano, como eu era naquela época, senão passar horas e horas na companhia do autor de Cem Anos de Solidão? Era possível pedir algo mais, em meio àquele caudal de encontros, Gabo abrindo suas agendas de contatos, Gabo atendendo ao telefone nas madrugadas e Gabo entrevistando figuras da resistência, sempre disposto a intervir para salvar uma vida, transpor uma porta, escrever um artigo? Era possível pedir mais?
Eu não tinha sequer me colocado a questão quando o destino me ofereceu, em agosto de 1980, a oportunidade de compartilhar com Gabo e vários outros escritores uma semana inteira em Cocoyoc como jurados de um concurso literário sobre militarismo na América Latina. Digo que o destino me proporcionou essa graça, porque é uma delícia narrar a própria vida com uma frase típica do próprio García Márquez, mas a verdade é que o convite não veio do destino e sim de Julio Scherer, o lendário diretor da revistaProceso. Assim que recebi o convite, tive consciência do que me fizera falta ao longo desses sete anos anteriores, com a revelação de que, durante tantas sessões insubstituíveis e amáveis com Gabo, estimulados pela urgência da política, quase nunca havíamos tido tempo de falar sobre literatura, daquelas obras que, em tempos mais normais, teriam sido tema cotidiano e incessante de conversação.
E aconteceu que a semana que passamos nesse balneário mexicano foi uma interminável tertúlia estética. O tema, para mal dos nossos pecados, era o militarismo na nossa triste América e não o modo como Chekov fazia fluir um conto ou a terna violência com a qual Cervantes tratava e maltratava seus personagens. Mas a Dama do Cachorrinho, o Jardim das Cerejeiras , o Quixote e uma quantidade de outros livros que nos rondavam iam se infiltrando nas conversas que acompanhavam as comilanças e as deliberações. Como não falar de Kafka e de Dante quando discutíamos romances ou as fronteiras imprecisas entre ficção e testemunho, fantasia e jornalismo, quando nos perguntávamos se cabia em nossa seleção um compêndio de fotografias? E foi nessa semana que tive inúmeras ocasiões para discutir Sófocles com Gabo, ou La Vorágine, ou as vicissitudes do thriller. Mas, ele e eu não estávamos sozinhos, e às vezes me bastava simplesmente presenciar às escaramuças de Gabo com Julio Cortázar, outro dos jurados, ou a tenacidade e finura com que ele defendia um texto diante de Pablo González ou René Zavaleta ou Theotonio dos Santos; bastava-me isso para sentir que, vagamente, ia me aproximando de García Márquez de uma maneira nova.
O que trouxe comigo, isto sim, dessa semana foi uma lembrança precisa e imorredoura.
Na primeira noite em que chegamos, enquanto bebericávamos do lado de fora de seu chalé, observei que Gabo segurava debaixo do braço um manuscrito, e não o soltava nem sequer para beber ou para servir-se de um tira-gosto; por nada neste mundo ele queria pôr essas folhas sobre a mesa. Acho que esperava que eu perguntasse do que se tratava, que misterioso e fino objeto ocultava. E não o decepcionei, perguntei. Ele sorriu de maneira quase provocadora e certamente maliciosa e me deixou espiar o título: CRÓNICA DE UNA MUERTE ANUNCIADA. Quis sequestrar o romance imediatamente, esquecer os vários volumes que esperavam meu veredito e benevolência em meu quarto, mas Gabo não permitiu. "As duas mulheres mais importantes da minha vida", sentenciou, referindo-se a Mercedes, sua esposa, e a Carmen Balcells, sua agente, "declararam que se eu deixar este livro sair das minhas mãos antes de ser publicado vão me matar." Era um exagero. Julio Scherer, que ouvia com uma expressão sagaz e um tanto maliciosa nosso diálogo sentado em sua cadeira embaixo dos coqueiros, admitiu que já havia lido a crônica na noite anterior. Mas isso não me dava nenhum direito, tampouco esperança, pois nunca se soube que ninguém decente pudesse negar algo a Scherer quando ele pedia com seu habitual entusiasmo e intensidade. De maneira que decidi não insistir.
Então, para aliviar minha frustração, Gabo me presenteou com uma revelação. Contou que acabara de receber, acrescentando que foi depois que terminou de escrever o romance, uma cópia da autópsia do cadáver de Cayetano Gentile, um amigo seu que em 1951 foi assassinado a facadas e cuja desamparada sombra e destino exigiam havia décadas um depoimento intenso e inesquecível.
Gabo se inclinou para a frente e baixou a voz, como se fosse me confidenciar um segredo extraordinário.
"O único ferimento mortal", disse García Márquez, "encontrado no cadáver foi nas costas, justamente na terceira vértebra lombar, e lhe perfurou o rim. E, sabe de uma coisa? Foi ali, exatamente nesse ponto, que eu, desconhecendo em absoluto esse detalhe, imaginei a lesão do meu personagem Santiago Nasar; pus uma chaga na minha ficção que imitou, recordou e antecipou a exatidão do real."
Os olhos de Gabo brilhavam como os de uma criança maravilhada, como devem ter brilhado os olhos de Bernal Díaz del Castillo quando, não muito distante do local em que eu conversava com meu amigo, viu a capital dos astecas e declarou que o lembrava das cidades fictícias de Amadis de Gaula. E meus olhos também brilhavam por essa viagem instantânea até as origens, pela vertigem que experimentava ao poder aproximar-me da maneira como García Márquez criava suas obras. Para ele, como para nossa América, tudo era ao mesmo tempo verídico e fabuloso, história e invenção, dor e mito.
Então, nossos olhos brilharam simultaneamente, os meus e os dele, por compartilharmos da alegria de quem descobre um rio imenso no instante obscuro em que nasce da fonte mais remota de uma montanha. Porque o arcanjo Gabriel me presenteava com a certeza de que, depois de tudo, talvez não estivéssemos tão sós, se podíamos imaginar a praga da nossa violência e a praga da nossa desventura de uma maneira tão minuciosa, excessiva e perfeita.
Uma certeza que continua e continuará nos presenteando uma América agora de luto.
Ariel DorfmanTRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

abril 21, 2014

Síndrome de Peter Pan


"Publicado há cerca de três décadas, o livro "Síndrome de Peter Pan" mostrava um novo padrão de comportamento social para a época. Seu autor, dr. Dan Kiley, simplificou algumas ideias de Jung, usava o personagem de ficção como parâmetro de um grupo cada vez maior de adultos que não abriam mão de seus privilégios adolescentes.
Peter Pan, para quem não leu o livro nem se lembra da versão da Disney, é um menino que se recusa a crescer. Dotado de poderes mágicos e de uma fadinha de estimação, vivia com "garotos perdidos" na Terra do Nunca, um eterno playground.
A tal síndrome descrita pelo dr. Kiley não era exatamente uma doença, mas um desvio de comportamento de quem cresceu em ambiente de superproteção e que, confrontado com a dura realidade das escolhas cotidianas, preferia se refugiar em ambiente conhecido. Como a criança que ao fechar os olhos se julga invisível, esses adultos entravam em uma espécie de negação primitiva, criando uma bolha em torno de si.
Entre as características dos "Peter Pans" estariam relutância em assumir responsabilidades, cuidado excessivo com a aparência, envolvimento compulsivo em atividades lúdicas e baixa autoconfiança.
Morto há dez anos, Dr. Kiley não viveu o suficiente para ver a condição que definiu transformada em pandemia. Seria interessante ouvir sua opinião em meio a tantas teorias rasas propostas por analistas de tendências, publicitários e antropólogos de aluguel em geral.
Quaisquer que sejam as origens de tanta imaturidade --popular nas piadas machistas dos programas de "humor", no egoísmo de empresários e políticos, no narcisismo de atores e web-celebridades, na futilidade das redes sociais e na alienação geral de praticamente todo mundo--, um fator é inegável: a natureza das mídias digitais, se não causa, certamente estimula esse tipo de comportamento.
"Selfies", check-ins, "badges", Tinder, buscas pelo próprio nome e competições por "curtidas", amigos e seguidores não teriam nada de errado se fossem produtos de nicho, encarregados de manifestar uma fase de exceção marcada pela insegurança. Quando se transformam em regra é natural que demandem análise dos meios por que circulam.
Boa parte das tecnologias de consumo tem a cara de seus donos, a maioria homem, jovem e rico, se beneficiando de uma cultura que fetichiza a juventude. Há pouquíssimos apps para os menos favorecidos e, incrivelmente, para qualquer mulher que não esteja obcecada por sexo, compras, decoração ou moda.
Boas ideias, mesmo quando surgem, acabam rechaçadas por uma panelinha de investidores que considera mulheres (50% do planeta) e pobres (99%) mercados de nicho.
O resultado dessa triste miopia se reflete no estímulo a um comportamento machista, ingênuo e misógino da "cultura geek". Pessoas levemente deprimidas, insatisfeitas e misantropas, que fazem da tecnologia o tema central de suas vidas e buscam sempre a última novidade podem ser bons consumidores, mas não são seres humanos exemplares.
A tecnologia, que sob tantos aspectos é um dos setores mais avançados da sociedade, guarda em si uma infantilidade patológica. Enquanto não nos livrarmos dela, o futuro não será tão bonito como prometem romances adolescentes." 

LULI RADFAHRER

abril 17, 2014

Trinta anos de bode : GABO versus Mario


"A primeira notícia sobre um possível degelo nas relações dos dois consagrados mestres da moderna ficção em qualquer língua, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, foi publicada no início de janeiro no prestigioso jornal The Guardian, no Reino Unido, oriunda (possivelmente) do laptop do correspondente Giles Tremlett, em Madri. A reportagem se referia sobretudo à publicação, em 2007, de uma edição especial comemorativa do 40º aniversário de publicação do consagrado romance Cem Anos de Solidão, de autoria do colombiano García Márquez, tido como uma das obras-primas do século XX e leitura obrigatória para todos interessados em arte, cultura e o realismo mágico, do qual, conforme sabemos, o cubano Alejo Carpentier é renomado precursor.

O legítimo homme du monde peruano Mario Vargas Llosa, autor também do notável A festa do bode, publicado em 2000, outro volume seminal de nos jours, e quaisquer outros jours também, embora distante do realismo mágico, mas chegado à nossa cultura (seu livro sobre Canudos, A Guerra do Fim do Mundo, de 1981, é um clássico, embora poucos tenham sabido ler e entender, tal como se deu da mesma forma, o que muito explica, com o evento histórico), está encarregado da apresentação, apesar de trinta anos de gélida guerra entre os dois mestres do idioma de Cervantes - e de Shakespeare e de Molière e de Gil Vicente e outros tantos, já que passaram por traduções hoje tidas como exemplares, inclusive em nosso Brasil.

Argumenta-se, nos meios literários, que esta introdução nada mais é do que uma adaptação de um estudo crítico assinado pelo talentoso peruano, em 1971, e que levou o título de A História de um Deicídio. Vargas Llosa vem se recusando à republicação do tomo desde o histórico desentendimento, ou rixa e ainda rusga, se preferirem, entre os dois magníficos ficcionistas, num pequeno cinema mexicano, em 1976.

Justiça seja feita a um e outro: nunca tocaram nos detalhes daquilo que, ao que parece, começou com palavrório, tão comum naqueles que vivem da palavra escrita e falada, mas que chegou às vias - e como! - de fato. Tamanha discrição só serviu para alimentar a curiosidade natural, e malsã também, sejamos honestos por uma vez na vida, daqueles que se interessam pela literatura da América hispânica e ainda por suas querelas, num nível mais baixo, mas nem por isso menos humano, all too human conforme sentenciou o Bardo Imortal. O fato de que na política os dois aspirantes ao Parnaso assumam posições radicalmente - mas radicalmente mesmo - diferentes sempre constou da equação que os mais corajosos tentaram explicitar e resolver.

Detalhes?

García Márquez já publicou o primeiro volume de suas memórias. Consta, segundo relatos vindos daqueles que fazem parte de sua roda, igreja e catedral (onde se deve conversar, segundo Vargas Llosa), que Gabo, como é chamado na intimidade de seu lar e de outros lares também, quer a todo custo evitar entrar de novo "naquele cineminha mexicano" de 1976, e que ainda está lá para, se quisesse, contar a história, que nós aqui, mediante diversas viagens e entrevistas (trabalhamos mais que Truman Capote em A Sangue Frio, embora munidos de gravador digital mais que portátil), conseguimos reunir e deixar a última palavra com a pessoa mais importante dessa discórdia toda: você, leitor!

Agora, leia, digira os dados e chegue à sua própria conclusão, que é a única que conta. Obra mais aberta não há nem poderá haver. Depois, nos diga - e este é o teste - quem você acha que está com a razão: Gabo ou Mario?

O local

Trata-se de um pequeno cinema, de seus duzentos lugares, que já conheceu melhores dias. Hoje em dia, limita-se a passar cópias desgastadas de velhos filmes mexicanos e cubanos maltratados pelo tempo e por curadores descuidados. Presentes ídolos que não estão mais entre nós, e dos quais poucos jovens ouviram falar: Maria Antonieta Pons, Ninon Sevilla, Tito Junco. Sempre em números especiais, Pedro Vargas e Toña la Negra. Agustín Lara, o grande Agustín, também comparece! Vez por outra, quase que por distração, levam algo com Pedro Armendáriz e Maria Félix, dirigidos por Emílio Fernandez (lembram-se de The Wild Bunch, que no Brasil chamou Meu ódio será tua herança?) e fotografados pelo genial, assim o dizem, Gabriel Figueroa.

Muitos anos antes, em 1976, já que estamos sendo precisos com evento beirando o histórico, diante de um sol pastoso de julho, Gabo e Mario, depois de tomar umas tequillas e chupar umas goiabinhas, ambos apreciadores ferrenhos da Sétima Arte, passaram diante do Cine Cortés, ali mesmo na Calle de los Conquistadores, naquele bairro afastado de Ciudad de Mejico, onde tinham a certeza de não serem reconhecidos por seus admiradores. Sim, meus amigos, vivíamos numa época em que não só as modelos anoréxicas e os astros parrudos de Hollywood faziam sucesso nas paragens que os tolos gostam de chamar de "O Terceiro Mundo". Gabo e Mario eram o orgulho do Continente que dera ao mundo Bolívar e O'Higgins, para citar apenas dois ídolos e heróis. A pena (o computador ainda não tinha sido inventado) também era uma espada e a espada... uma pena? Não creio. Alegres e extrovertidos, os dois amigos notaram que estavam exibindo Casablanca, produção da Warner de 1942 inexplicavelmente tornada obra-prima pelo medíocre, mas prolífero, Michael Curtiz, em condições normais um diretor rotineiro, que, não obstante, nos legou inegáveis chef-d'oeuvres, tais como The Sea Hawk, 1940, e The Adventures of Robin Hood, feito dois anos antes. Um mistério que ambos, Gabo e Mario, não sabiam - talvez ainda não saibam! - explicar. Pois entraram os dois e - atenção, muita atenção - se sentaram no meio da quinta fila.

No que passamos então a nossos depoimentos exclusivos.

Depoimento de Jesús Maria Iberrurtí, ex-lanterninha, 81 anos, cego de um olho.

"Sim, senhor. Lembro-me como se fosse hoje. Os dois cavalheiros, quarentões ambos, não paravam de fumar, e eram só charutos finos, o que é proibido, pelas regras do estabelecimento, mas fazíamos vista grossa diante de clientes mais finos. Eu já vira o tal do filme umas vinte vezes e, desculpe-me, eu o odiava. Baixo sentimentalismo, canções estrangeiras, péssima dublagem em espanhol, atuações que não poderiam beijar os pés de uma Sarita Montiel ou Luis Mariano. Entraram com o filme já começado e uns vinte minutos depois estavam aos socos e pontapés. Com o auxílio do guarda (Pablo de Tal. Foi impossível localizá-lo. Consta que teria morrido afogado, tentando atravessar a nado a fronteira com os Estados Unidos.), que fui catar no café Los Libertadores, conseguimos expulsá-los. Nunca ouvi tanto palavrão na minha vida. Nem parece que eram homens de berço. Não sei qual era o pomo da discórdia, mas um deles, o bigodudo, mais baixo e entroncado, não cessava de se referir à conduta sexual das senhoras, tanto a esposa quanto a progenitora do outro, o mais alto e de terno branco, camisa listrada azul, mas sem gravata. Essas pessoas dificultavam muito meu trabalho."

Depoimento de Mérida Pinión, academicista, 77 anos.

"Parecia um sonho! Dois dos maiores escritores do planeta brigando na minha frente. Nem consegui prestar atenção no filme do Cary Grant. Tenho a certeza que foi por minha causa. Mario já se voltara duas vezes (só mais tarde, muito mais tarde, ficamos íntimos, e como! Qui, qui, qui!), eu estava três filas atrás dos dois, e perguntara se a fumaça estava incomodando. Fiz-me de desentendida, que não sou de falar ou ir com qualquer um, mesmo que se chame Vargas Llosa ou García Márquez. Como resposta, ouvi um palavrão. Gabor, hoje eu sei que foi Gabor, tomou-lhe satisfação e, não a tendo, deu-lhe uma - com o perdão da má palavra - porrada na cara. Daí saí correndo e mais não vi. Mais tarde, em casa de amiga, escrevi um conto a respeito. Foi incrível! Publicaram no Brasil dois meses depois."

Depoimento de um coronel ao qual ninguém escreve, 107 anos presumíveis.

"Hein? O quê? Fale mais alto. Minha memória já não é mais o que era. A crise de Suez, disse você? Pois não. Foi lá pelos idos de 1962 e o presidente americano, Harvey de Tal, se não me engano, quase bombardeia de forma atômica Costa Rica. Ou Honduras. Uma dessas calouras fuleiras que insistem em nos imitar. Era um tempo irado, cheio de ventos, mas eu vivia razoavelmente com os cobres de minha pensão. Dava para servir um café às visitas, coisa que hoje, como está vendo, me é difícil. Naquela época era muito perigoso falar em política, principalmente nas alfaiatarias. Não me pergunte por quê. Somos estranhos como as éguas que, por motivo algum, relincham no meio da noite. Quando sair sua revistinha, promete me mandar um exemplar?"

Depoimento de Juan ******, 68 anos, autor não-publicado.

"Prefiro o anonimato. Prefiro também a prosa de Carlos Fuentes à dos dois paspalhões que brigavam por uma guimba de charuto. Em Fuentes, uma sentença começa com a simplicidade de um ovo. Depois, bica sua existência até adquirir asas, parte meio sem jeito para o vôo, encontra sua corrente de ar, onde respira e navega, forma seu verbo como se o tivesse catado em vegetação próxima, junta-o a advérbios e adjetivos boiando em poças d'água da redondeza, esquiva-se das armas furtivas dos caçadores, passa com desdém diante das fuças dos cães que o buscam, mergulha numa lagoa, sai com um sujeito no bico e um predicado preciso numa das garras, para finalmente pousar e - surpresa - ver-se no caso acusativo. Escrever é isso. É Fuentes. Colombianos correm do pau e se aviltam diante do primeiro socialismo que lhe fizer cócegas no ego. Peruano? Só rindo. Por que acha que a expressão "não há cu de peruano que agüente" surgiu? Não há de ter sido por nada. Brigaram os beldroegas por analfabetismo e desmesurada ambição política. Vargas Llosa presidente do Peru! Só rindo, só rindo."

Depoimento de 14 putas tristes, entre 70 e 80 anos, várias esquinas.

"Nós sempre vemos juntas Casablanca quando passam. Nesse dia a que o senhor se refere éramos 25. Todas pagamos entrada, sim senhor, apesar do gerente ter feito proposta indecorosa, ainda que interessante. Trabalho é trabalho, arte é arte. Choramos então, choramos hoje, nós que sobramos. Quando el negro Sam cantava aquela canção, o senhor sabe qual é, nesse pedaço não dublavam. Nos derretíamos feito manteiga. Hoje igualzinho. Esses dois marmanjos de que o senhor fala estavam rindo na hora que el Umfrey pede para ele tocar a música para ele. Nós reclamamos em alto e bom som. Apesar de parecerem gente fina, nos responderam com palavras cabeludas, expressões de baixo calão. Erêndira, que era da pá virada e vivia com o pito aceso - tinha uns olhos azuis que só vendo! -, partiu para cima dos dois e, se o baleiro não separasse, o mais magrinho teria se machucado, está sabendo? O mais baixinho e forte estava com o pau para fora. Parecia um taco de beisebol: grande, grosso, uma loucura! Esse comigo não teria vez, por dinheiro algum. Não quero falar mal de ninguém, que isso foi há muito tempo, mas eu gostaria de saber o que é que os dois estavam fazendo naquela hora da tarde num cinema vagabundo. Me explica isso?, o senhor que me parece pessoa de instrução. Essa vida tem cada uma. Durma-se com um barulho desses. Ou não se durma. O senhor sabe onde eu quero chegar, não sabe?"

****

E aí está, leitor amigo. Agora você está de posse dos dados que conseguimos, num louvável esforço de reportagem, obter. (Sorry, o baleiro também sumiu, como se a terra o tivesse tragado.) Não foi mole, como diria uma dessas senhoras da última entrevista. Salientamos que todo esse texto é uma seleção de longos depoimentos, muitos deles sofridos, realizados nas mais precárias das condições. A Cidade do México lembra o que vai ser, mais uns aninhos, o Rio de Janeiro. Ou São Paulo. Dizem. Forme agora sua opinião. Escreva para os escribas em questão. Blogueie, se for essa a sua. Veja de novo Casablanca, se achar que vale a pena. O que não pode, mas não pode mesmo, é ficar aí feito um idiota só lendo, lendo e lendo. Vá até a esquina, dê um passeio ou ainda... convide um amigão, desses do peito, para ir com você, de tarde, a um cineminha, depois de tomar umas e outras. Veja, por exemplo... Não. O programa eu deixo com você. Digo, vocês".

Ivan Lessa

Nota: Gabo faleceu hoje. link

abril 05, 2014

Os russos


"O professor de geografia do oitavo ano revelou à turma que a palavra lucro vem de outra, logro, que quer dizer roubo.
- Todo lucro é roubo.-concluiu.
Impressionada, a classe se debruçou sobre o tema, usando como exemplo uma carrocinha de pipoca. Se o dono da carroça empregar alguém para remexer a panela e tirar disso o seu sustento, estará se apropriando do esforço alheio, o que é reprovável.
Meu filho, presente em sala, se mostrou avesso à ideia de que o investimento não merece retorno. Mas, assim como na redução lógica do professor havia uma condenação moral embutida, a rejeição do menino trazia outro exagero. A feroz defesa que fez do livre mercado soava algo reacionária.
Me formei em escolas liberais da zona sul do Rio de Janeiro.
A anistia aconteceu no primeiro ano do meu secundário. Livres da ditadura, que exilou intelectuais, artistas, militantes e catedráticos de esquerda, os professores ganharam o direito de falar abertamente, em sala, sobre as suas convicções políticas.
A liberdade de expressão foi uma conquista inestimável.
Nas matérias de história e geografia, em especial, combatia-se o fatalismo do subdesenvolvimento com a aversão ao imperialismo. A direita, os milicos e os americanos encarnavam os cavaleiros do nosso Apocalipse.
Trinta e quatro anos distanciam a minha sétima série do oitavo ano do meu filho. Na época, a divisão entre capitalismo e comunismo ainda era clara, não mais.
A competitividade econômica do oeste revelou-se eficaz e foi adotada pelo igualitarismo vermelho do leste; mas a especulação financeira, que culminou com a bancarrota de 2008, foi paga pelo Estado. Acabaram-se, assim, as fronteiras que separavam um lado do muro do outro.
Você pode argumentar que, para ensinar, é preciso partir dos fundamentos; que só é possível entender o atual paradoxo depois de expor aos imberbes os ideais puros nos quais se baseiam ambas correntes.
Mas 50 anos depois do golpe, 40 depois da anistia, 30 da perestroika, 20 do Real e 12 da eleição do PT, eu guardo a suspeita de que o Brasil é um país que se situa em algum lugar entre a "Veja" e a "Carta Capital". Entre o meu filho e o professor dele.
No capítulo 11 da parte seis de "Anna Kariênina", Liévin - o único personagem imune ao traço de reprovação cômica com que Tolstói descreve o resto dos abastados - fala do desprezo que sente pela elegância custosa dos grandes centros e da sua admiração pelos mujiques do campo.
Em uma caçada na companhia de dois hedonistas natos, parentes chiques de São Petersburgo, a conversa recai sobre a decência e o lucro.
Depois de desdenhar da iniciativa privada, o jovem fazendeiro defende que o único ganho legítimo é aquele adquirido através não da astúcia de terceiros, mas da força do trabalhador.
- Qualquer lucro que não corresponda a um trabalho investido é desonesto -afirma ele.
A mesma explanação do mestre de geografia do fundamental 2 proferida ali, pelo herói russo, meio século antes dos caipiras da revolução bolchevique varrerem do mapa os entediados condes, duques e princesas do romance.
A literatura me veio como solução.
Tolstói se vale de igual conceito, mas o enriquece de figuras que negam, rebatem, discutem. A contradição humana é o narrador. Se o objetivo é ampliar os horizontes do aluno para que ele forme uma visão mais completa do mundo, não conheço cartilha melhor.
A provocação do professor, sem o contexto, soa como doutrina, e nenhuma doutrina sobreviveu às últimas intempéries.
Hoje, é quase impossível discernir movimento de classe de manobra política; interesse partidário de real empenho pela população. Não defendo que um guri de 14 anos dê conta de "Guerra e Paz", mas um capítulo já faria efeito.
A opinião do educador, se proferida por Liévin, traria maior resultado; a pilhéria do cunhado perdulário, que sugere que o parente acabe com a culpa doando a fazenda aos empregados, enriqueceria a discussão, e os 137 anos que separam a adúltera de Tolstói dos jovens cariocas dariam a perspectiva histórica da reflexão.
A arte é um sério antídoto contra as certezas.
E uma baita aliada da educação."

FERNANDA TORRES

Paraíso construído


Publicado em inglês sob o mesmo título (The grandmothers), As avós, de Doris Lessing, aparece no Brasil apenas com uma das quatro histórias que compõem, originalmente, a publicação.
A Companhia das Letras classifica a obra como romance, mas o texto é considerado, pelos críticos de língua inglesa, como uma novela, sem dúvida por causa de sua pequena extensão, mas também graças à etimologia da palavra “novela”, que tem a ver com novidade. Mas será que ainda se pode considerar novidade esses textos que se preocupam com o feminino, e que giram em torno de uma espécie de utopia onde a sociedade aceita, embora não compreenda bem, um matriarcado idealizado e fantasioso, tingido de lesbianismo e de édipo?
Talvez a novidade esteja na maneira despreocupada e “natural” em que se descrevem comportamentos fronteiriços aos tabus abordados. A história de As avós se passa num lugar paradisíaco; um “pequeno promontório”, banhado por um “mar brincalhão”, bem diferente do oceano bravio que rugia além da “bocejante baía”, e trata de duas mulheres, amigas desde o tempo do colégio, que não se separam, nem mesmo ao casar. A maternidade também se revela mais um vínculo entre as duas, que tomam como amantes o filho uma da outra. Finalmente, elas resolvem abdicar deste arranjo não-questionado para que seus filhos se casem e procriem. Cada um tem uma filha, e essas crianças, quase que imperceptivelmente, passam à esfera de fascínio que as duas mulheres parecem possuir, sem se esforçar para tal. Inesperadamente, algumas cartas antigas vão parar nas mãos de uma das noras, que se horroriza e resolve interromper a situação idílica em que a história se abre.
O que mais causa estranhamento, em minha opinião, não são as ousadias do texto — que, em si, não é mais tão ousado — na Grécia antiga, em tempos imemoriais, Édipo já tinha levado a mãe para a cama, e tinha até tido uma prole inteira com a fogosa Jocasta, que reservava a castidade para o nome, pelo visto. O estranho do texto está em tudo aquilo que é deixado de fora da história. Tal como o mar bravio e ameaçador, tudo está contido pela “barreira dos dentes”, imagem de Homero, mas que cabe à perfeição neste caso. Nesta baía as águas são mansas, o sol é intenso, tão intenso que as personagens de Lessing não têm uma palheta de cinzas: são perfeitamente recortadas, de encontro ao cenário encantador, e ofuscam com sua beleza e serenidade, “gente serena e radiante, como são os que sabem usar o sol”, ou deusas e deuses imortais, vivendo neste quase Olimpo africano. Nesta ilha de bem-aventurança, eles não são os únicos despreocupados. À sua volta espalham-se “pessoas tão felizes quanto eles”, vivendo vidas atraentes:
E essas vidas eram de uma facilidade incrível. Pouca gente no fundo tem uma vida tão agradável, tão sem problemas, tão sem censuras: ninguém, nesse litoral abençoado, passava a noite acordado, chorando por seus pecados ou por dinheiro, muito menos por comida. Que gente mais bem-apessoada, brilhante e suave de sol, de esportes, de boa comida. 
Quanta diferença da África que Doris Lessing retrata na sua conferência de aceitação do prêmio Nobel. Lá se descrevem as dificuldades, as faltas, a miséria em toda sua crueza: ela fala de amigos escritores, de pele negra, que aprenderam a ler sozinhos, nos rótulos de latas apanhadas no lixo. Conta-nos de um que cresceu numa área rural destinada aos negros no Zimbábue, numa terra seca e árida, onde só logram brotar esparsos arbustos. Nesse ambiente desolado, ele encontrou uma enciclopédia infantil jogada no lixo, e foi assim que conseguiu se “educar”. Ela nos conta da corrupção do governo de Mugabe, um regime de terror, mas onde, apesar dos pesares, numa vila em que as pessoas tinham ficado três dias sem comer, ainda assim falavam de livros e da maneira de obtê-los, e de como alcançar educação. Certamente que esses retratos foram laboriosamente excluídos da narrativa, e somente suspeitamos que o mundo pode não ser tão idílico quando o ex-marido de Roz decide ir morar fora desse paraíso, numa terra árida:
Lá se foi Harold para a universidade, rodeada não por oceanos e ventos marítimos, não por canções e lendas do mar, e sim por areia, mato ralo e espinhos.
Enquanto isso, no paraíso habitado por Roz e Lil, a perfeição se aprimora com a transformação dos dois meninos em belos adolescentes: “[...] e eram os dois tão lindos que as duas endireitaram o corpo na cadeira para olhar uma para a outra, dividindo a incredulidade”. Digressando sobre o assunto da beleza juvenil, diz a autora: “A beleza de jovens rapazes — ora, isso não é coisa assim tão fácil. As meninas sim, cheias de óvulos tentadores, as mães de todos nós, isso faz sentido, elas têm de ser belas e em geral o são, mesmo que só por um ano, ou um dia. Mas os meninos — por quê? Para quê? Há um momento breve, por volta dos dezesseis, dezessete anos, em que eles têm uma aura poética. São como jovens deuses”.
A narrativa se constrói, então num cenário, separado do mundo por esses “dentes” podres, onde tudo se arranja como numa utopia. Os conflitos se desfazem com pequenas rusgas — o primeiro se soluciona com uma “dentada” aplicada por Ian na perna de seu par, Tom. Cenhos franzidos, viagens, palavras caladas e traços de lágrimas são passageiros, e a vida vai se ajustando, sem custos maiores. Muitos anos se passam antes que outra “dentada” seja aplicada, desta vez na perna de Ian, pelas rochas que encerram o mundo paradisíaco. A sensação de irrealidade perpassa todo o texto, está presente no cérebro dos leitores e nas palavras dos próprios personagens. Aqui e ali aparecem pequenas frases reveladoras dessa situação mítica. Veja-se, por exemplo, como a idéia de envelhecimento se transforma em alguma hipótese alheia à vida engendrada nesta sociedade perfeita:
[...] um dia, quando a viu deitada sobre os travesseiros, logo depois de concluírem o ato do amor, alisando a pele envelhecida e solta do braço, ele deixou escapar um grito, agarrou-a e exclamou: “Não, não faça isso, não faça isso, nunca pense numa coisa dessas. Eu não vou deixar você ficar velha.”[...] “Não, Roz, por favor, eu amo você.
E por isso eu não posso envelhecer, é isso Ian? Não tenho permissão para envelhecer?
Essa sensação de onipotência provoca uma espécie de estranhamento que nos faz desejar “corrigir” essa fábula. E, dentro da narrativa, as coisas parecem tender para esse mesmo desejo, com o casamento dos dois rapazes com moças que eles encontraram fora desse mundo mítico, lá onde a paisagem se muda e resseca. Inconformado com a expulsão do paraíso, Ian protesta: “Por quê, para quê? Nós somos perfeitamente felizes. Porque você quer estragar tudo?”
Em verdade, desde o início pairava sobre o grupo a sensação de que a perfeição era passageira, e estava fadada a desaparecer. A beleza efêmera, que se surpreende um ano, ou um dia, é paralela à felicidade passageira, pois há sempre um preço a ser pago:
Lil disse a Roz que se sentia tão feliz que isso a deixava com medo. “Como é que algo pode ser assim tão maravilhoso?”, cochichou ela, com medo de ser ouvida — por quem? Não havia ninguém por perto. O que ela queria dizer, e Roz sabia, é que uma felicidade assim tão intensa tinha que ter seu castigo.
Mas o castigo não chega, as coisas se arranjam surpreendentemente fáceis, nesta fábula de um édipo que se olha no espelho, e que resolve os tabus recriando um cruzando as imagens obliquamente. A suspeita de homossexualidade, que parece incomodar Lil, se dissolve, embora atinja, de modo mais suave, o relacionamento dos rapazes, que fazem tudo juntos, que se pegam em brigas, se tocam e depois resolvem suas neuroses nos corpos de suas respectivas mães. As Jocastas do texto evitam o próprio fruto de seus úteros, mas levando para a cama o filho da outra, também estão realizando suas fantasias mais duradouras. O intrigante é que a autora tenha resolvido dar ao seu livro o título de As avós. Se formos analisar o texto, há muito pouco sobre sua vida de avós, e isso chama a atenção, mais uma vez, sobre o que é deixado do lado de fora da narrativa. E, se achamos que o espelhamento é um dado essencial na construção da novela, já que os pares se espelham e multiplicam, podemos conjecturar que esse espelho se volta para a própria autora: nas avós, nessas mulheres já passadas dos sessenta anos, que podem imaginar idílios em lugares idílicos, as pulsões ainda se revelam com toda a força e exuberância necessárias para a vida. E são essas as forças que, com mais ou menos aptidão, sustentam a mão da escritora octogenária, avó de todas elas."

março 05, 2014

Vila-Matas, ‘O mal de Montano’


"A ideia da literatura como doença não é exatamente novidade na ficção. Personagens como Dom Quixote e Ema Bovary têm seus destinos arruinados por enxergarem a vida como uma extensão idealizada do que leram: aventuras de cavalaria, no primeiro caso, e histórias românticas, no segundo. A diferença do protagonista de O Mal de Montano (Cosac Naify, 328 págs.), romance que deu ao catalão Enrique Vila-Matas os prêmios Heralde e Médicis, é a consciência do próprio desvio: crítico que inicia a trama numa viagem de visita ao filho, Rosário Girondo se angustia ao perceber que seus diálogos são citações, seus atos imitam passagens de clássicos e pessoas ao seu redor lembram criaturas como Hamlet e o Conde Drácula. A “intoxicação literária” pauta seu relacionamento com a mulher, Rosa, e o faz ir a lugares como Chile, Açores e Budapeste.
Impossível não ver no enredo um complemento de Bartleby e Companhia, a obra-prima de Vila-Matas sobre escritores que desistiram do ofício. Se esta era uma história sobre a “elegância de se calar”, como o autor já disse em entrevistas, O Mal de Montano também tem como ponto de partida o silêncio. Não só porque traz um personagem em crise por ter publicado um livro semelhante a Bartleby, mas porque o tormento de Girondo é causado por um excesso de vozes. Todas as convenções já foram usadas, todas as fórmulas já foram descobertas, todas as rupturas já foram promovidas no eterno presente da ficção universal. Quem as sussurra são outros escritores, claro, que em sua época viveram os dilemas de uma atividade desde sempre tirânica e ingrata. Por que sacrificar a vida em nome dela? Que sentido ainda faz praticá-la hoje?
Como todo artista que de alguma maneira bebeu nas fontes do pós-modernismo, Vila-Matas prefere a ironia das perguntas à solenidade das respostas. Sua vítima predileta são as supostas leis de certa ficção contemporânea. Brincando com os cacoetes estilísticos do romance, do ensaio, do diário, da enciclopédia e da autobiografia, O Mal de Montano trata de destruí-las uma a uma: os personagens mentem, os fatos se contradizem, as certezas do leitor acabam se revelando falsas. Rosário Girondo não fala apenas de como é difícil ser original: ele demonstra na prática, e a sua narrativa é o maior exemplo, como se tornou fácil criar ilusões com a linguagem.
Contraditoriamente, à medida que o romance se livra do andamento algo maneirista de seu início, essas ilusões ganham encantamento autônomo. Aí está o talento de Vila-Matas: com humor, transformar o que seria um mero estudo sobre os limites da criação artística numa prova de suas possibilidades ainda vivas. Como o próprio Girondo descobre, respirar literatura pode ser um ato de resistência em um mundo cada vez menos literário. Ato que traz dentro de si a cura para quem escreve sob o espectro do conformismo".

Michel Laub

O que diz a CRÍTICA

fevereiro 09, 2014

'Philomena'


"Philomena" começa com a imagem de um jornalista político, Martin Sixsmith (Steve Coogan), em depressão após perder seu emprego no governo britânico. Em seguida é que entra Philomena (Judi Dench), senhora que, em sua juventude, na Irlanda, vivia num orfanato. Após uma gravidez inesperada, foi forçada pelas freiras a entregar seu filho de um ano a adoção.
No dia em que o filho completaria 50 anos, Philomena tem em mãos a foto do menino que uma jovem freira lhe entregou em sigilo. É sua única prova da existência do menino. Sua angústia se manifesta com força nesse dia: quem seria hoje o menino, onde estaria, como se saiu na vida, será que algum dia ele pensou na mãe, ou chegou a lembrar-se dela?
Daí começa a busca, na qual Martin se envolve por pura falta de opção. Ele despreza esse tipo de "matéria de interesse humano", mas é um profissional e vai se empenhar na busca.
Além de profissional, na verdade, Martin não é um grande fã do catolicismo: é ateu declarado e não compreende como Philomena pode ainda ser tão fiel à sua fé, depois da atrocidade que lhe fizeram as freiras.
A partir daí a história se bifurca. Temos, por um lado, o drama (o melodrama, na verdade) de Philomena: a dor de não saber nada sobre próprio o filho, a dura luta para conseguir alguma informação só a partir da foto que, milagrosamente, ainda tem consigo.
O segundo drama diz respeito à Igreja Católica, seus usos, costumes, certas crenças, seu apego à negação da sexualidade. Esse é o aspecto da história que mais parece interessar a Stephen Frears. A primeira parte da ação (a doação, na verdade venda de crianças) ocorre em 1957, pré-Concílio Vaticano 2º. E a segunda parte, em 2009, ainda no período de ortodoxia antissexualidade que marcou os pontificados de João Paulo 2º e Bento 16.
Esse aspecto intransigente do catolicismo surge com força seja na figura da madre superiora (e a estranha teia que tece envolvendo a perda da castidade e os sofrimentos a que Philomena e outras "pecadoras" estariam condenadas), seja na de Michael, o filho, de cuja homossexualidade tomaremos conhecimento (sabe-se: os últimos papas foram restritivos quanto à sexualidade e ao uso de métodos anticoncepcionais).
Se do ponto de vista da formulação intelectual esse é o eixo principal do filme, é a busca do filho perdido e o que a cerca que se mostra não raro comovente, não só pelas razões óbvias, como pela ligação que vai se criar entre essa mulher simplória e esse jornalista sabido, como a lembrar que a verdade não é feita apenas de simplicidade, mas também não só de sofisticação. Nem só de coração e nem só de intelecto.
Diga-se a bem da verdade, Frears se desincumbe melhor da parte do coração. A do intelecto (a crítica à igreja) sucumbe pela frágil demonização de um ou outro personagem.

INÁCIO ARAUJO

fevereiro 06, 2014

PERA PALACE - O quarto de Agatha Christie



"O mundo era maior, mais caro, e para os poucos que podiam pagá-lo o Pera Palace foi construído. Um opulento baile de abertura em 1895 celebrou a nova casa dos passageiros do Orient Express que desembarcavam no terminal de Sirkeci, em Constantinopla, saídos da Gare de L'Est, numa Paris a 3.000 quilômetros e 80 horas dali.
Depois dos palácios otomanos, o hotel foi o primeiro endereço da cidade a receber eletricidade e água quente. Também ganhou o primeiro elevador do país, uma extraordinária gaiola de ferro rococó que hoje apenas funciona no passeio guiado oferecido aos hóspedes por um concierge de chapéu após o check-in. Debruçado sobre o Bósforo, sofreu poucas mudanças antes da grande renovação de 2006 que durou quatro anos e lhe retirou apartamentos (eram mais de 150 e hoje são 115), além de deixá-lo com aquele cheiro anódino encontrado em hotéis de cinco estrelas por todo o planeta.

O suntuoso hall em mármore com seis cúpulas retráteis que abrem seus vidros turquesa para o vão central do edifício exibe uma mistura de orientalismo, art nouveau e neoclássico. Na virada do século, a salada francófila entre beaux-arts e estilo otomano ainda deveria ser inacreditável ou cafona para alguns olhos, mas hoje tudo é simplesmente "magnífico". É o que repete a guia de um grupo de japoneses que subitamente lota o lobby apontando câmeras fotográficas para o extravagante teto. Eles usam chapéus de pescador, elas, coletes de tweed. Depois, beberão chá --as mulheres num canto, os homens no outro.

Estou entre eles, tentando escrever e respirar a atmosfera do lugar que já teve entre seus hóspedes conspiradores, escritores, espiões, cineastas, beldades, políticos. Ou gente como Mata Hari, Alfred Hitchcock, Graham Greene, Sarah Bernhardt e Mustafa Kemal Atatürk, o pai-fundador da Turquia moderna, que chegou a morar por lá --seu quarto, o 101, é hoje um museu.
Outros célebres quartos, no entanto, ainda podem ser reservados. Há o 412 (Greta Garbo) e o 420 (Ernest Hemingway) --este tem dois frigobares, com doses alcoólicas proporcionais a conhecida sede do escritor. O mais emblemático deles é o 411, que a romancista Agatha Christie usou com frequência entre 1926 e 1932. Saía por módicos € 280 (R$ 920) na noite na data da publicação desta coluna. Como reza a lenda que ali ela escreveu "O Assassinato no Expresso do Oriente", grande sucesso de uma escritora que já vendeu 2 bilhões de livros, há quem acredite que o investimento possa valer à pena.
Desconfio que não. O turismo se apropria de tudo até esvaziar o significado ou a mística de qualquer lugar --e cinco minutos depois da chegada do grupo de japoneses, percebo o ridículo de pretender escrever algo ali, de querer ser o escritor dentro da fotografia (dos turistas do século 21 ou de um álbum de fotos em preto e branco no entreguerras, tanto faz) e me vejo como uma daquelas jovens americanas recém-chegadas a Paris que abre um moleskine num café e abre os olhos e narinas buscando inspiração.
O que eu encontraria no Pera Palace seria outra coisa. Além do fetiche literário para quem pode pagá-lo, o quarto 411 guarda a chave de um estranho caso relacionado a sua célebre hóspede. Agatha Christie desapareceu por 11 dias em 1926, aos 36 anos, quando já era conhecida em todo o mundo. Até hoje, muitos sustentam que a solução do mistério que ultrapassou a sua morte tenha estado por décadas sob o assoalho daquela suíte. Nos noites em que dormi no hotel, eu teria motivos para acreditar que sim".

J.P. CUENCA

janeiro 25, 2014

Meus encontros com Kafka


“Kauka.”
“Como é o nome?”
“KAUKA!”
“Muito prazer.”
Esse diálogo, que certamente não é dos mais espirituosos, foi meu primeiro encontro com Franz Kafka. Ao ser apresentado a ele, não entendi o nome. Entendi Kauka em vez de Kafka. Foi um equívoco.
Hoje, o “Kauka” daquele distante ano de 1921 é um dos escritores mais lidos, mais estudados e — infelizmente — mais imitados do mundo. Mas só Deus sabe quantos são os equívocos que formam essa glória. O romancista de “O Processo” é, para alguns, o satírico que zombou da burocracia austríaca; e para outros o profeta das contradições e do fim apocalíptico da sociedade burguesa; e para mais outros o porta-voz da angústia religiosa desta época; e para mais outros o inapelável juiz da fraqueza moral do gênero humano e do nosso tempo; e para mais outros um exemplo interessante do Complexo de Édipo, etc., etc., etc. Tudo, em torno de Kafka, é equívoco. Equívoco também foi aquele meu primeiro encontro com “Kauka”.
Foi em 1921, em Berlim. Embora só contando os anos do século, eu já tinha passado por duras experiências de guerra e revolução. Estudante universitário, agora, que sonhava com uma carreira literária. Berlim, naqueles anos do primeiro pós-guerra, foi um centro de vanguardas: expressionismo, dadaísmo, os primeiros pintores abstracionistas, simpatizantes do comunismo e fundadores de seitas religiosas e vegetarianas, uma boêmia na qual os jovens austríacos desempenhavam papel grande e barulhento — e alguns grandes escritores de verdade: Döblin, Arnold Zweig, Werfel. No Café Românico, centro da boêmia, esses homens feitos ocupavam mesas especiais, de que ninguém ousava aproximar-se sem ser especialmente convidado; o que não aconteceu nunca. Olhávamos para lá com inveja, escutando para apanhar, talvez, um pedaço de conversa. Rara foi a oportunidade de um convite para as tardes de domingo, no apartamento de um ou outro daqueles escritores, no bairro boêmio, mas elegante, do Bayrischer Platz, hoje um montão de ruínas. E numa dessas tardes cheguei a conhecer pessoalmente Franz Kafka.
Conheci poucos entre os presentes. Fui sumariamente apresentado. Sentindo-me um pouco perdido no meio dessa gente toda, não tendo a coragem de aproximar-me do centro da reunião, da grande e belíssima atriz D. F. — que tinha fama de Messalina — retirei-me para um canto já ocupado por um rapaz franzino, magro, pálido, taciturno. Eu não podia saber que a tuberculose da laringe, que o mataria três anos mais tarde, já lhe tinha embargado a voz. E então se desenrolou “aquele” diálogo:
“Kauka.”
“Como é o nome?”
“KAUKA!”
“Muito prazer.”
Foi este o começo e o fim do meu primeiro encontro com Franz Kafka. Ao sair do apartamento, perguntei a meu amigo e introdutor: “Quem é aquele rapaz magro com a voz rouca?” Respondeu: “É de Praga. Publicou uns contos que ninguém entende. Não tem importância”.

2

 Franz Kafka
Meu segundo encontro com Franz Kafka, talvez cinco anos mais tarde, foi outra vez em Berlim, no escritório de uma casa editora. Antes de ir para a Itália, onde continuei os estudos universitários, tinha feito alguns trabalhos para aquela editora, chamada Die Brücke (A Ponte), mas nunca consegui receber dinheiro. Voltando para Berlim, em 1926, ouvi que a casa acabava de entrar em falência. Fui para lá. O diretor me deixou esperar na antessala, mais de meia hora. Num cantinho vi um montão de livros, todos iguais. Tirei um exemplar, abri: “O Processo”, romance de Franz Kafka. Distraído, comecei a ler sem prestar muita atenção, quando o ex-diretor da ex-Brücke me bateu nas costas.
“Pagar não posso, querido”, dizia o homem, “mas se você quiser, pode levar, em vez de pagamento, esse exemplar e, se quiser, a tiragem toda. O Max Brod, que teima em considerar gênio um amigo dele, já falecido, me forçou a editar esse romance danado. Estamos falidos. Nem vendi três exemplares. Se você quiser pode levar a tiragem toda. Não vale nada”.
Fiquei triste. Tinha esperado um pagamento de 130 marcos, e o homem me quer dar seu encalhe. Agradeci vivamente, e com certa amargura. Mas levei comigo aquele exemplar que já tinha aberto.
Foi a maior burrice de minha vida inteira. Toda aquela tiragem foi vendida como papel velho e inutilizada. Um exemplar da 1ª edição de “O Processo” é hoje uma raridade para bibliófilos. Nos Estados Unidos paga-se mil dólares por um livro desses, ou mais. Se eu tivesse aceito o presente, seria hoje milionário… Aliás, fugindo da fúria nazista, em Viena, março de 1938, perdi minha biblioteca inteira, que foi depois confiscada e dispersada. Mas cheguei, mais tarde, a receber na Bélgica um grupo de volumes que tinha, pouco antes do desastre, emprestado ao cônsul geral dos Estados Unidos em Viena e que este fez questão de devolver ao legítimo dono. Um desses livros foi aquele exemplar da 1ª edição de “O Processo” que, desse modo, fica até hoje comigo. E não me pretendo separar jamais do livro, pois foi meu segundo encontro com Kafka.
Li mesmo, naqueles dias distantes de 1926, “O Processo”; a história de um homem, de vida normalíssima, que é, certo dia, preso por esbirros de um tribunal desconhecido, interrogado em porões sinistros, denunciado por ter cometido crime do qual ignora a natureza, instruído numa catedral escura e vazia que “a culpa sempre está acima de todas as dúvidas”, condenado e executado. Li, sem compreender o alcance e significação do relato. Mas impressionou-me fundo o ambiente do romance, as ruas estreitas, as casas decaídas e sinistras, a catedral escura e vazia, a irrupção do incompreensível e irracional em nossa vida de rotina. O romance deu-me a impressão do déjà vu: quando nos encontramos, no sonho, numa paisagem onde nunca estivemos e que, no entanto, nos é estranhamente familiar, como se já a tivéssemos visto. Um pesadelo.
Deu-me a mesma impressão no segundo romance, “O Castelo”, que saiu naqueles dias, levando à beira da falência mais outra editora. A história de um homem que pretende fixar residência numa cidade tiranicamente dominada pelos senhores do imponente castelo em cima da colina. Não lhe dão permissão para ficar. Só precariamente lhe toleram a existência incerta. É uma luta desesperada, e a autorização de residir, só a alcançará o homem na agonia. Outro mau sonho, do qual custou despertar.
Nesse meu segundo encontro com Kafka despedi-me dos seus livros com a firme convicção de se tratar de visões de extrema irrealidade. Como se Kauka estivesse morto e Kafka, nunca existido.

3


Descobri a realidade de Kafka em Praga: onde nunca antes estive.
Naqueles anos, fiz várias vezes a viagem Berlim-Viena, ida e volta, passando por Praga. Mas nunca antes me ocorrera saltar do trem na Estação Presidente Wilson, situada fora da cidade, que mal vi de longe, as luzes noturnas ou então a névoa fina da madrugada.
Numa madrugada assim — parece que foi em 1930 — assaltou-me a vontade de descer do trem para ver a cidade. Não sei o tcheco, e tinham-me dado o conselho de falar francês, de preferência ao alemão, pois era tensa a atmosfera em Praga; quase todos os dias, choques violentos entre tchecos e alemães. Cheguei no centro da cidade justamente para assistir a um choque de rua, mas foi de antissemitas contra judeus, odiados pelos tchecos porque costumavam falar alemão, e odiados pelos alemães porque eram judeus. Contaram-me um pequeno diálogo entre dois judeus praguenses:
— Veja como estamos sendo perseguidos.
— Em compensação, somos o povo eleito por Deus.
— Mas eu acho que já está na hora para Deus eleger um outro povo…
Vi, na Cidade Velha de Praga, um desses judeus, à porta de sua loja, esperando fregueses, uma cara em que milênios de perseguição e de estudo talmúdico tinham inscrito mil rugas, mas a boca cheia de sarcasmo e nos olhos um ar de grande suficiência, um complexo de superioridade. Um velho assim, intolerante como o diabo por causa da intolerância diabólica dos outros, deve ter sido o severo pai de Kafka, subjugando o filho – e assim encontrei a imagem de Kafka nas ruas estreitas e entre as sinistras casas decaídas em torno da sinagoga onde, conforme velha lenda, um rabino medieval tinha construído o Golem, um homem de barro, vivificado por um pedaço de papel com o secreto nome de Deus na boca. Certamente, uma daquelas lojas tinha pertencido ao velho Kafka. Certamente, nos porões daquelas casas tinha-se reunido o misterioso tribunal que condenou à morte o inocente culpado de “O Processo”… Preferi fugir desse ambiente.
Mas Praga é Praga. É uma das cidades mais belas do mundo. Atravessando o rio, o Vltava imortalizado pelo poema sinfônico de Smetana, levantei, na ponte, os olhos e vi lá em cima na colina o enorme Hradschin, o antigo Palácio Real, muito perto e no entanto parecendo inacessível nas alturas; e reconheci o “Castelo” de Kafka. Subi. Entrei, ao lado do castelo, na catedral gótica de São Vito, escura e vazia: e reconheci a igreja na qual o condenado, n´´O Processo”, ouve a voz da Lei. Enfim, eu tinha encontrado a realidade atrás daquele sonho fantástico.
Foi este meu terceiro encontro com Franz Kafka. Tinha-o reconhecido como filho de sua cidade de Praga, que lhe foi madrasta: o homem era austríaco, alemão, tcheco e judeu ao mesmo tempo, tipo dos “displaced persons” cujo lamento enche este nosso século. Kafka antecipara o destino de milhões de judeus e alemães, italianos e franceses, holandeses, poloneses e russos, “displaced persons” todos eles. E por isso tinha ele sentido tão bem que o próprio gênero humano é uma “displaced person” no Universo. E sua obra estava destinada a tornar-se expressão simbólica da angústia do nosso tempo.

Entreato

Pouco depois, eu mesmo era “displaced person”. Vim, enfim, para o Brasil, onde escrevi, salvo engano, o primeiro artigo em língua portuguesa sobre Franz Kafka. A repercussão foi considerável. Não teria sido tão grande se não começasse, logo depois, a “onda de Kafka” nos Estados Unidos e, depois, no mundo inteiro. E tão imitado se tornou o escritor de Praga que, enfim, se chegou a confundir o original e as cópias, até nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade, secamente acertando como sempre, notar: “FRANZ KAFKA, escritor tcheco, imitador de certos escritores brasileiros”.

4

O âmbito enorme dessa glória póstuma, uma das maiores do Século XX, senti-a mais vivamente quando, em 1953, passei uns meses na Europa. Vi livros de Kafka, no original e em traduções, e estudos sobre Kafka nas livrarias da França e da Itália, da Espanha e da Bélgica, da Dinamarca e da Holanda, da Alemanha e da Iugoslávia, assim como na Inglaterra e na Suíça. Vi artigos sobre Kafka nas revistas literárias. Encontrei frases de Kafka, que há poucos anos ainda eram propriedade exclusiva de herméticas seitas literárias, citadas em artigos de fundo político. Em toda parte. E na Áustria?
Franz Kafka não foi tcheco, porque escreveu em alemão. Não foi alemão, porque se considerava judeu. Não foi judeu, porque não tinha a fé dos seus antepassados nem o sentimento nacional dos seus contemporâneos. Foi aquilo que eram todos os cidadãos de Praga, fossem tchecos, alemães ou judeus, nascidos nos anos de 1880: um austríaco. Mas ninguém é profeta em sua terra. Na Áustria de hoje Kafka ainda é, apenas, objeto de discussões entre literatos. Os outros… Bem, eu fiz a experiência; e foi meu quarto encontro com Franz Kafka.
Em Viena, o escritor nunca se tinha demorado muito. Nada, na cidade, lembra sua presença invisível. E se tivesse, os oito anos de dominação nazista teriam tido tempo suficiente para apagar os vestígios. Mas ninguém pode apagar a morte, não é? Pois em Viena, Kafka morreu.
Ou antes, perto de Viena: na pequenina cidade de Kierling. Ali existe ou existia naquele tempo uma casa de saúde para a qual o transportaram doente e onde morreu. Fiz a peregrinação para Kierling.
Foi o mesmo mês em que Kafka, em 1924, morrera: junho. A paisagem mais risonha do mundo, vinhedos em toda parte, o sol do meio-dia não é forte demais, como no Medi­terrâneo, mas basta para fazer amadurecer um vinho inebriante. Ao longe, já desapareceu a cidade de Mozart e Beethoven. O trem, bitola estreita e muita fumaça, para quase em frente à igreja. Um carregador aproxima-se. Estou sem malas. O homem me quer mostrar o caminho para o lugar onde se vende o melhor vinho.
— Onde fica a casa de saúde do Dr. Hoff­mann?
— Está fechada. O doutor morreu.
— E quem mora lá agora? A casa ainda existe?
— Lá mora o Dr. Hugo, o filho. Também é médico. Mas…
O homem não terminou a frase. Com gesto mudo, mostrou-me o caminho. Não compreende por que fiz a viagem, de Viena, onde há tantos médicos melhores, médicos famosos. Certamente, é a primeira vez que alguém veio do Brasil para consultar em Kierling o Dr. Hoffmann; quem sabe como esse homem me receberá. O gesto do carregador, na estação, não foi animador.
Encontro com facilidade a casa. Fechada. O letreiro no portão, “Dr. Hugo Hoffmann, médico, clínica geral, consultas entre 3 e 6 horas”, está meio apagado. O consultório não parece dos mais procurados. Campainha rouca. Tão rouca como foi a voz do mais famoso paciente dessa casa. Minutos de espera. É o próprio Dr. Hugo Hoffmann quem abre, gordo, pesado, careca, olhos hostis:
— Ainda não são 3 horas…
— O senhor é filho do proprietário da clínica…
— Meu pai morreu há 19 anos. A casa de saúde está fechada. Se deseja outra, encontrará o endereço de uma na lista dos assinantes de telefone.
— Perdão, doutor, não sou doente, apenas quis perguntar por um paciente de seu falecido pai… Franz Kafka.
O homem ficou vermelho: — Kafka? Kafka? Já me perguntaram, não conheço, não conheci, não sei de nada, nada, nada. E com ruído estrondoso o Dr. Hoffmann fechou a porta.
Comportamento misterioso. O homem poderia transformar sua casa em museu, pedindo ingresso pago, mostrando a cama, os instrumentos com que o mais famoso paciente da Casa de Saúde Dr. Hoffmann foi operado, etc., etc. Prefere gritar que não sabe nada, nada, nada. Não haveria lá dentro nenhuma reminiscência?
No silêncio do meio-dia de verão fiz a volta da casa fechada. Através das grades olhei para dentro do jardim. Debaixo das árvores, umas velhas cadeiras. Certamente ali repousaram os doentes. Uma janela meio aberta: um quarto pequeno, cama branca, na mesinha uma garrafa de água. Talvez ali Franz Kafka morreu em 3 de junho de 1924; ao meio-dia.
Trinta anos é muito tempo. Ninguém, em Kierling, se lembra. Mas onde foi enterrado? O vigário é um bocado mais amável que o Dr. Hoffmann Filho. Abre o livro de registros, depois vira-se para mim:
— Kafka? Kafka? Não será nome judeu? Mas então ele não consta do meu livro de óbitos. Isto é uma paróquia católica apostólica romana.
— E os registros civis?
— Ah, estes foram transportados para Viena em 1930. Já tivemos um caso assim, questão de uma herança. Não adianta, os registros perderam-se em 1944, quando a cidade foi bombardeada.
O vigário, certamente, nunca leu aquela história de Kafka na qual uma alma só encontrou a paz definitivamente quando seu nome foi apagado, por Deus, no registro dos mortos.

5

 Franz Kafka
Voltei de Kierling para Viena, ignorando que ali encontraria, mais uma vez, a sombra de Franz Kafka.
Amigos explicaram-me o caso do Dr. Hoffmann: provavelmente um ex-nazista que se assusta ao ouvir nome de judeu morto, com medo de ser denunciado como assassino. Afirmaram-me que não existem mais nazistas em Viena, mas que não foi possível apagar os vestígios todos de tantos anos de dominação. As bibliotecas públicas ainda estariam mais ou menos expurgadas; falta dinheiro, não é possível comprar todos os livros que foram destruídos. Se eu quiser acreditar ou não, a administração pública austríaca é tão vagarosa como a de todos os países; na veneranda Biblioteca Nacional ainda não encontraram tempo de retirar os livros de Kafka do chamado “inferno”, onde guardam os livros obscenos, proibidos, etc.
Parecia-me, por minha vez, que um “inferno” é o melhor lugar para os livros de Franz Kafka, cujos personagens nunca chegaram a entrar no Castelo e foram condenados à morte sem culpa formada. Mas a curiosidade não me deixou em paz. A Biblioteca Nacional da Áustria é uma das mais ricas do mundo. Está abrigada num palácio barroco que é, talvez, o maior e o mais suntuoso da cidade. Quando rapaz, nunca entrei na grande sala de leitura, que antes parece salão para a coroação de um imperador, sem sentir bater o coração, no silêncio dos livros e no silêncio dos bibliotecários. Perturbar-lhes a paz, um pouco, seria obra salutar; e divertida.
Pois os bibliotecários na Europa não são como os daqui. Entre nós, são moças encantadoras que sabem tudo de catalogação e classificação, mas não entendem nada do que está nos livros. Em compensação, são bonitas. E quando o serviço as obriga a subir escadas para as estantes em cima, contribuem para ampliar nossa visão panorâmica do mundo. Nada disso nos oferece um bibliotecário europeu, que é homem de 50 anos e usa barba comprida. Em compensação, sabe o que está dentro dos livros: mas só de certos livros. São eruditos especializados em certas disciplinas que não têm muito valor econômico. São assiriólogos, peritos em astrofísica, especialistas em histórias dos impérios iranianos da Idade Média, estudiosos das línguas dos índios peruanos ou da filosofia pré-socrática ou da flora e fauna da Groenlândia. Ninguém pode viver disso, mas é preciso que alguém estude isso e para esse fim o Estado os emprega como bibliotecários. Sabem tudo, das suas ciências abstrusas. Mas qualquer pergunta fora disso nos abre panoramas da sua ignorância enciclopédica.
Fui para a Biblioteca Nacional. Nos fichários procurei em K: não achei nada. O bibliotecário encarregado dos catálogos encaminhou-me para o subdiretor, lá na poltrona. Homem velho, mal-humorado porque interrompido na leitura de um manuscrito medieval. Expliquei a necessidade urgente de verificar o texto exato de uma frase numa obra de Kafka. O erudito olhou-me por cima dos óculos, como penetrando o fundo de minha alma. Por um instante senti-me como se tivesse 15 anos, tremendo no colégio perante professor severo. Mas a resposta restabeleceu-me a serenidade – até me teria alegrado, se não se misturasse com a hilaridade uma ponta de tristeza,de tantos anos passados e de tanta vida perdida. Pois a resposta do Sr. diretor foi esta: Não conheço. Como foi o nome? KAUKA?


Ensaio publicado no livro “Reflexo e Realidade”, de Otto Maria Carpeaux.