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novembro 20, 2013

"Sobral - O Homem que Não Tinha Preço"



"Grandeza dos advogados
O major bateu na porta do quarto do hotel. Quem abriu a porta - estamos em pleno regime militar - foi o advogado Sobral Pinto.
Tenho ordens, disse o major, para levá-lo preso. O velho Sobral não se intimidou. O senhor tem ordens de um general, disse ele. Entendo que um major obedeça a um general. Mas - e o homenzinho se exaltou - eu é que não obedeço a ordens suas!
"Preso coisíssima nenhuma!", explodiu o advogado. Ou melhor: "prejo coijíssima nenhuma", terá dito, com as gengivas de quem já tinha mais de 70 anos naquela época.
No comício das diretas da Candelária, em 1984, a mesma vozinha trêmula recitou para centenas de milhares o primeiro artigo da Constituição: "Todo poder emana do povo e em xeu nome xerá ejercido". Sobral Pinto estava com 90 anos.
Um documentário sobre ele entrou em cartaz faz pouco tempo; o Espaço Itaú Frei Caneca exibe-o num único horário, às 18h30.
Dirigido por Paula Fiuza, neta do jurista, o filme é uma oportuna homenagem a um dos cidadãos mais corajosos e íntegros da história republicana. Íntegro demais, talvez, para um documentário completo.
Bem que, no filme, tenta-se mostrar algo que contradiga a imagem do paladino constitucional.
Era passional, desequilibrado, injusto até a medula quando ouvia no rádio um jogo de futebol, contam os parentes. Não ia nunca aos estádios, contudo. Católico das antigas, puniu-se até o fim da vida por ter tido um caso extraconjugal, há muito sepultado, mas nunca esquecido.
Haveria aí bom material para uma obra de ficção: o advogado que luta pelos clientes, que os tira da cadeia, que consegue absolvições, nunca perdoou a si mesmo, nem foi totalmente libertado de suas culpas.
O assunto é abordado de passagem, entretanto, num filme que se concentra, para uso das gerações mais novas, no exemplo incontestável de coerência civil que foi a vida de Sobral Pinto.
Faltam imagens, claro, de épocas mais remotas. Quase só vemos o velhinho de chapéu preto e guarda-chuva. Há fotos, contudo, da atuação de Sobral Pinto quando foi defender Luís Carlos Prestes, encarcerado pela ditadura Vargas.
Como se sabe, o advogado, já com seus 50 anos, invocou a recém-criada Lei de Proteção aos Animais para garantir condições mais dignas ao líder comunista. Talvez tivessem, os dois, algo em comum.
É verdade que Prestes, seguindo a linha do partido, passou a apoiar Getúlio logo em seguida. Podia ser uma contradição do ponto de vista pessoal, coisa praticamente desumana quando se pensa que Getúlio mandou a mulher de Prestes, grávida de sua filha, para morrer num campo de concentração nazista.
Seja como for, estava em jogo uma mesma firmeza de propósitos, uma mesma teimosia, um mesmo sacrifício que, no caso de Prestes, nos horroriza, mas no caso de Sobral Pinto causa admiração. A longevidade desses dois gêmeos, desses dois opostos, talvez se explique um pouco por aí.
Durante a ditadura militar, observa com razão o historiador José Murilo de Carvalho, era provavelmente mais fácil fechar o Congresso do que prender Sobral Pinto. A fragilidade, assim como a velhice, tem suas compensações, e podemos sempre esperar que, em alguns casos, até a truculência tenha seus limites.
Foi o que permitiu, por exemplo, que alguns advogados conseguissem vitórias, obviamente reduzidas, até mesmo em momentos de furiosa repressão militar. Adversários do regime eram presos sem nenhuma ordem judicial, levados sabe-se lá para onde, e submetidos à tortura.
Juridicamente, aquilo era mais um sequestro do que uma detenção. O mecanismo do habeas corpus teve de passar praticamente por uma pirueta interpretativa, pelo que conta um advogado ouvido no filme. Em vez de ser um recurso para libertar o preso, foi usado para que, ao menos, os familiares pudessem localizá-lo --e para que o regime admitisse, oficialmente, tê-lo agarrado sem nenhuma formalidade legal.
Tratava-se, numa palavra, de baderna, feita por militares em nome da ordem e da luta contra a subversão. Memorável, a esse respeito, a frase de outro jurista, acho que Pontes de Miranda, que se recusava a comentar o AI-5, por uma razão bem simples: "o Ato Institucional número 5 não existe".
A beleza, a coragem, o sentido da profissão de advogado saem fortalecidos de "Sobral - O Homem que Não Tinha Preço". O filme vem a calhar hoje em dia.
Durante as ditaduras, há advogados que são verdadeiros heróis. Num regime democrático, quando o lado acusador muitas vezes tem mais razão, o advogado não conta com tanta simpatia.
Ganha mais dos seus clientes, mas paga um preço mais alto. Parece obstáculo, e muitas vezes é, a uma justa punição. Não importa; sem a sua presença, ninguém poderia dizer que a punição foi justa de fato".
MARCELO COELHO

novembro 06, 2013

Sol e chuva


"Quando eu era criança, estranhava muito que a primavera, em São Paulo, não correspondia nada ao que me ensinavam na escola e nos desenhos animados.
Nenhum despertar da natureza, nenhum degelo, nenhuma floração. Só mais tarde aprendi que, nesta cidade, quem procura as flores não deve olhar para baixo, para os canteiros e jardins, mas para o alto: são as árvores que se cobrem de rosa, de azul, de roxo, de vermelho.
Já é alguma coisa, embora um rabugento possa dizer que não há tantas árvores assim, e que nem todas acompanham a nova estação.
Menino rabugento, certamente eu era, e tinha outras reclamações. Ao contrário de um lindo longa-metragem com Zé Colmeia e Catatau, onde nas cenas iniciais o sol derretia os pingentes de neve da caverna, deixando as primeiras gotas de água gelada caírem no focinho dos ursos adormecidos, em São Paulo a primavera não era sinônimo de sol.
De fato. Nada mais incerto que estes dias de outubro e de novembro. Domingo, um calor brutal dava por inaugurada a época das compras natalinas e das férias; segunda-feira, vento e chuva, luzes de casa acesas às quatro da tarde.
Será o nosso "microclima"? A palavra, com sua irritante dose de pedantismo, volta e meia aparece no filme "Pedalando com Molière", de Philippe Le Guay, atualmente em cartaz.
A história se passa num lugar turístico do noroeste da França, a ilha de Ré, em pleno inverno. A estância balneária sofre com o frio da baixa estação; mas o sol aparece às vezes. É o nosso microclima, explica um motorista de táxi, numa tagarelice simpática que nem sempre associamos ao temperamento francês.
Os franceses, pelo menos os de Paris, tiveram fases de extrema antipatia. Depois, parece que houve alguma campanha (hipnose? Alguma substância no vinho de consumo ordinário?) e eles melhoraram.
Passei a entendê-los melhor quando percebi que não eram propriamente ferozes, mas apenas... nervosinhos. No fundo, apesar de toda a história de refinamento, mesuras, perucas e palácios, facilitou-me a vida pensar que os franceses são na verdade perfeitos italianos, explosivos e sanguíneos, só que falando a língua de Racine e Molière.
Voltando ao filme. O bonitão Lambert Wilson (Plástica? Botox? Depilação de sobrancelhas?) faz o papel de um célebre ator de telenovelas. Vai procurar, na fria cidadezinha à beira-mar, um amigo mais velho (Fabrice Luchini, magistral), que por desgosto abandonou os palcos e sets de filmagem.
O objetivo da visita é convencer o amigo, que deseja o isolamento completo, a voltar para o teatro. Encenariam juntos "O Misantropo", comédia a bem dizer sombria de Molière. Na peça, dois amigos debatem visões distintas sobre a humanidade. Alceste, o rabugento, não vê nos homens senão "injustiça, interesse, malícia e traição". Retira-se do convívio dos semelhantes.
O outro, Philinte, pede a Alceste alguma ternura; seria insensato querer a correção do mundo, e por excesso de lucidez se pode errar também. No filme, Lambert Wilson sugere ao ator mais velho que, quando representarem a peça, alternem os papéis. Numa semana Lambert seria o inimigo dos homens, na outra o amigo complacente.
Não estrago nenhuma surpresa se disser que, enquanto ensaiam a peça, os dois atores também terminarão trocando de atitudes. O bonitão da TV, querendo ficar bem com todo mundo, agirá às vezes como o misantropo Alceste. O veterano ator, desenganado e recluso, pode aos poucos impregnar-se da bonomia de Philinte.
São tantas as reviravoltas, tão matemática, tão francesa, a engrenagem do filme, que de dez em dez minutos o espectador tem de se readaptar às mudanças do "microclima" entre os dois personagens.
Sol e chuva se alternam rapidamente, e a fotografia de "Pedalando com Molière" não poderia ser mais poética. O ator velho, no começo, se faz de rogado, diz que não está interessado em participar de nenhum novo projeto.
Pela janela, contudo, passa um raio de sol, quase branco, e seu rosto se ilumina. A psicologia dessa cena, convenhamos, é tão legível quanto a de uma comédia clássica: Fulano diz não quando quer dizer sim.
Mas, do mesmo modo que a leitura da peça vai se refinando conforme a dupla se aplica mais e mais aos seus ensaios, também o filme vai revelando camadas e mais camadas nos sentimentos de seus personagens.
O rabugento tem e não tem razões para desconfiar do mundo. A realidade, a vida, a solidão, a sorte ou o azar no amor não cessam de lhe trazer novas lições; só um morto pode gabar-se de convicções definitivas, e, como na primavera paulistana, não perde quem levanta os olhos um pouco acima do chão".

MARCELO COELHO

outubro 30, 2013

O cavaleiro azul


"A "Sagração da Primavera", de Stravinsky, comemorou cem anos de sua estreia há poucos meses, e escrevi a respeito aqui na "Ilustrada". Na pintura, o equivalente daquela revolução foi sem dúvida o quadro "Les Demoiselles d'Avignon", que Picasso pintou em 1907.
O potencial de escândalo era tamanho que mesmo alguns contemporâneos e amigos de Picasso, como Henri Matisse, se recuperaram mal daquele quadro. Não eram apenas os ângulos cortantes, o susto daquelas mulheres nuas como que iluminadas por um flash fotográfico, a violência de cacos de vidro da composição.

Máscaras indígenas ou africanas apareciam como que coladas ao pescoço de duas daquelas mulheres nuas, fazendo com que as outras parecessem até realistas pela comparação.
Com isso, "Les Demoiselles d'Avignon" dava um grande passo além das pinturas sonhadoras, musicais, a que Matisse se dedicava na mesma época. Por meio da "arte primitiva", entravam em cena --como na "Sagração da Primavera"-- o medo, a violência, o poder paralisante, o olhar de Medusa do mundo moderno.
Aí por volta de 1912, 1913, cubismo e futurismo já estavam em vias de superação. Na Alemanha, pelo menos, já surgiam críticas às visões de Picasso e Marinetti.
Foi em 1912, com efeito, que Franz Marc (1880-1916) e Wassily Kandinsky (1866-1944) publicaram o "Almanaque do Cavaleiro Azul", (aqui) álbum de ensaios, reproduções artísticas e partituras em defesa do expressionismo e da arte abstrata.



Essa publicação acaba de sair traduzida no Brasil, com organização de Jorge Schwartz, num volume lindíssimo (Edusp-Museu Lasar Segall).
Pela primeira vez no mundo, a quase totalidade dos quadros, gravuras, desenhos e esculturas que faziam parte da edição original aparece reproduzida em cores.
Na época, o livro publicado por Reinhard Piper tinha apenas quatro imagens coloridas. Em inglês, uma edição modesta, feita pela Da Capo Press, é uma tristeza de fotos esmaecidas em preto e branco.
Marc e Kandinsky colocam, lado a lado, quadros de Cézanne e esculturas da Oceania; bordados do Alasca e desenhos de crianças; xilogravuras medievais e alto-relevos do Benin; um Cristo de El Greco e quadrinhos populares alemães.
Pode-se ver e rever essa festa de imagens sem atinar muito o que há, afinal, de parecido entre tantas coisas. Mas o elogio do popular, do primitivo, do "informe", do "malfeito", do "naif", se quisermos, ganha nessas páginas uma força revolucionária, uma generosidade, uma verdade que saltam aos olhos.
Tratava-se, diz Franz Marc, de buscar "símbolos que pertencem aos altares da futura religião espiritual e atrás dos quais desaparece o produtor técnico".
Os textos de Kandinsky e de August Macke (1887-1914) são ainda mais místicos. A forma artística, escreve Macke, "é a expressão de forças misteriosas".
"Ouvir o trovão", prossegue, "é sentir o seu mistério". O relâmpago "se expressa, a flor também".
Não fazia mais sentido, assim, buscar o desenho "certo", a forma "perfeita". Para o pintor expressionista, a diferença não será entre o bonito e o feio, mas entre o vivo e o morto. Mortas serão as imitações da arte acadêmica; vivo, o desenho imperfeito de uma criança, ou a máscara de um feiticeiro africano.
Não fica muito claro por que motivo esses artistas escolheram o nome de "Cavaleiro Azul" para título daquele livro. Inspirado na teosofia, Kandinsky achava que a cor azul canalizava o máximo da espiritualidade. Franz Marc era notável ao fazer quadros de corças, tigres, cavalos.
Muitas das ilustrações que escolheram para o "Almanaque" representam São Jorge e outros heróis medievais enfrentando dragões ou decapitando inimigos. Menos do que um intuito "belicoso", no estilo do elogio à guerra dos futuristas italianos, havia ali a tentativa de se ligar ao passado: o passado medieval, o passado primitivo, o passado das crenças camponesas.
Em todos esses momentos, estaria presente a dissolução do mundo clássico, do mundo civilizado, das imagens da perfeição greco-romana.
O edifício da civilização europeia estava desabando, pensavam os expressionistas. Pelas rachaduras daquele edifício, eles julgavam ver uma luz nova, como numa revelação, num apocalipse.
As formas da arte moderna poderiam ser esquisitas, distorcidas, mas é assim que a realidade se apresenta na madrugada, pouco antes do amanhecer. São "fantasmagorias antes da aurora", diz o "Cavaleiro Azul".
A aurora, entretanto, seria de outro tipo. Um ano depois, começaria a Primeira Guerra Mundial; August Macke e Franz Marc morreram no front".

MARCELO COELHO

agosto 21, 2013

O dedo no nariz


Nas "Confissões de um Poeta", Ledo Ivo relembra um dia de grande chuvarada, na praça da Matriz de não sei que cidade brasileira. Da igreja saía um grupo de seminaristas em excursão.
O aguaceiro veio de repente, e todos correram para se proteger. Todos, menos o superior da diocese. "Corre, corre, dom Fulano!", gritavam os seminaristas. Mas o prelado prosseguia no mesmo passo.
"Bispo não corre", sentenciou dentro da batina ensopada, pisando nas poças com seus sapatos pretos.
Os tempos mudaram, como atesta um vídeo que circulou na internet, com o papa Francisco. Cometi a imprudência de compartilhá-lo no Facebook.
Choveram protestos, até dos leitores mais fiéis. Do que se tratava? A meu ver, nada de mais.
Sentado no banco traseiro de um carro prateado, com câmeras e repórteres querendo entrar pela janela, Francisco fazia uma discreta higiene no nariz.
O polegar, dentro da narina, descreveu uma rápida meia-lua. Algo foi retirado de lá. Depois de uma breve pausa, o papa...
Sim, o papa comeu a melequinha! Compartilhei a notícia sem comentário. Meu objetivo não era tripudiar a imagem do pontífice. O vídeo certamente era invasivo. Mas achei bom, achei normal, gostei, sorri.
Há coisas muito piores a fazer do que ingerir esse tipo de matéria. Fiz isso uma vez, quando criança, e não estava sozinho na ocasião.
Lembro-me bem. Estava na casa de uma tia, muito católica por sinal, e que tinha problemas de surdez. Talvez por isso, ela ficava às vezes ausente da cena, sem prestar atenção em nada. Dizia mesmo que, quando a conversa ficava chata, ela desligava o aparelho.
Sei que ela estava sentada à minha frente, com os seus olhos puros e verdes fixados em mim. Foi como se me hipnotizasse. Pus o dedo no nariz, e naquela única vez, experimentei o gosto --salgado, seco, sem nojo-- do que retirara lá de dentro.
Com uma risada de surpresa, ela saiu de seu transe --e eu também. Como fui capaz da proeza? Eu sabia que não era algo que se faz em público.
Pode ser que eu precisasse certificar-me de que ela estava ali. Pode ser, também, que eu precisasse certificar-me da minha própria existência. Tínhamos sido colhidos, quem sabe, numa espécie de vazio temporal.
Um buraco negro, vá lá, em que a nossa própria existência, e a consciência de estar nela, desapareceram silenciosamente. Não era eu, não era ela; a impropriedade --das mais leves, afinal-- se cometera sem sujeito.
De resto, todo mundo põe o dedo no nariz. Tive o prazer de fazer essa revelação, já adulto, a um menino a quem repreendiam a constância nessa atividade.
Só não sei por que tantas pessoas fazem isso dentro do carro. Basta olhar para os lados quando o sinal está vermelho. Alguns cantam. Outros põem o dedo no nariz. Sabemos (me incluo nessa) que qualquer um pode nos surpreender nessa inocente intimidade.
Estar dentro do carro, mesmo com o vidro aberto, aparentemente nos torna imunes à crítica. O carro é o meu castelo. O teto de lata é, ainda assim, um teto. De lá, posso xingar qualquer pedestre. Por que não o dedo no nariz?
Os jogadores de futebol (mas não os de basquete ou de vôlei) fazem pior em campo; o uso de cotonetes em público, embora não corriqueiro, conhece menor reprovação.
Escarradeiras eram comuns nos tempos de Machado de Assis; até recentemente, a cera do ouvido podia ser retirada com a unha do mindinho, desde que a fizessem crescer, "à catita": esse o termo.
O "processo civilizador", para lembrar o conhecido livro de Norbert Elias, impõe crescentes disciplinas sobre as atividades corporais. Está provavelmente errado quem pensa que a Idade Média era uma época de puritanismo; em Chaucer, Boccaccio ou Dante fala-se mais da "questão do corpo" do que em qualquer catálogo de arte contemporânea.
Mais do que deseja a austeridade protestante, a cultura católica palpita de corpo em toda parte. Os quadros dos santos explodem de chagas e de sangue. Sempre achei estranho, aliás, o guardanapo que o padre usa na missa depois de tomar o vinho. No cristianismo, de resto, Deus se fez de carne, carne que come peixe e pão, carne que atravessaram pregos.
A imprensa cerca o papa. Ele põe o dedo no nariz. Há muita simbologia nisso. Quem quiser que atire a primeira pedra".

MARCELO COELHO

junho 06, 2013

Stravinsky hoje


"O senhor acha, perguntaram a Stravinsky na década de 1960, que sua música é agora mais compreendida do que na época da "Sagração da Primavera"? Como se sabe, a estreia do balé, em 1913, produziu um dos maiores escândalos da história da música.
Não, "não compreendem melhor agora", respondeu Stravinski. Simplesmente "os escândalos passaram de moda", enquanto a música continuava difícil.
Ou melhor, acrescentou. Não é que o público tivesse de "compreender melhor" a sua música. Mas tinha, isso sim, "de ouvir melhor".
E quanto ao futuro?, perguntou o repórter polonês. O público vai acabar compreendendo? Ninguém sabe o que é o futuro, respondeu Stravinsky, decerto cansado diante de perguntas a que deve ter respondido com muita frequência.
Em qualquer peça de música clássica, e não apenas no caso de Stravinsky, o problema da incompreensão existe. Podemos gostar de Mozart e Beethoven, mas quem, num concerto, está "entendendo" tudo o que se passa?
Sem contar as músicas que, de tanto sucesso, tornaram-se quase impossíveis de acolher com inteligência.
A Quinta Sinfonia de Beethoven, por exemplo. O "tã-tã-tã-taaam" transformou-se num rótulo de si mesmo, é algo que quase não se ouve mais: apenas se reconhece.
Talvez tenha sido por isso que, no começo do século 20, a arte moderna tenha se voltado tantas vezes para o "primitivo", para o "selvagem" - e a estreia da "Sagração da Primavera", que completou cem anos na semana passada, ficou como um dos maiores exemplos dessa atração pela "barbárie".
É que a "civilização", num sentido muito particular, tornara-se um impedimento para a arte. Quem ouve muito uma música já não a escuta mais. A "selvageria", portanto, pretendeu apenas raspar a pátina, o verniz, a cera do ouvido de uma plateia civilizada demais - e Paris, onde o balé estreou, era o lugar ideal para isso.
Esse processo de superexposição a determinadas obras de arte explica, também, a importância dos intérpretes em música clássica. O grande intérprete consegue fazer com que uma obra já muito conhecida seja descoberta como novidade.
Na música barroca, por exemplo, tudo foi reinventado a partir dos anos 1960, quando começou a pesquisa pelos instrumentos originais e por uma nova fidelidade às partituras de época.
O resultado paradoxal dessa maneira de interpretar os barrocos (sem verniz, com mais secura e menos calda de caramelo) foi que Vivaldi e Haendel se tornaram... quase stravinskianos também. O futuro, sobre o qual indagava o repórter na entrevista com Stravinsky, chegaria impondo uma revolução sobre o passado.
O próprio Stravinsky se encarregou disso. Depois da fase "russa" e "bárbara" dos balés com Diaghilev, reescreveu partituras de Pergolesi (1710-1736), e entrou numa fase "neoclássica". O curioso é que uma obra como seu concerto para violino, por exemplo, apesar de muito menos barulhento e dissonante do que a "Sagração", no fundo é ainda mais difícil de ouvir.
Não se traduz em ideias como "violência primitiva", "poder telúrico", "ritmo primal" que nos ajudam a apreciar a "Sagração".
Talvez seja uma obra de menor qualidade mesmo. Em todo caso, o desenvolvimento posterior de Stravinsky não foi, como dizem, uma "regressão", uma desistência de qualquer missão revolucionária que o mestre desempenhara no começo do século.
Ao longo de sua vida, assumindo diferentes "estilos", Stravinsky foi se tornando mais reconhecível por quem ele era, enquanto compositor individual, e menos como um mero "médium" da crise estética modernista.
Modos de deslocar o ritmo, um gosto cítrico na instrumentação, a recusa das técnicas de transição, a "montagem" mais que o desenvolvimento, aparecem em peças menos escandalosas, mais "civilizadas", tanto quanto nas escarpas, cavernas e fogueiras da "Sagração".
Compositores e intérpretes posteriores se tornaram "stravinskianos" em alguns momentos, sem que o termo se reduzisse a ser sinônimo de "modernistas". Foi um longo caminho até que Stravinsky se tornasse, afinal, apenas Stravinsky, e não o equivalente de uma força anônima, a encarnada na "Sagração".
O compositor sobreviveu ao próprio mito - o que não deixa de ser um ganho da civilização. Vitórias desse tipo são raras; vale a pena comemorar".

MARCELO COELHO

Nota : Leia aqui  A VAIA INAUGURAL 

maio 15, 2013

Tarado é quem reprime


"Obeso, bundudo, de terno e colete, um senhor de certa idade dá ordens peremptórias ao garçom. "Menino! Aqui. Mais gelo! Mais ge-lo!"
A palavra se repete sempre em maior volume, crescendo em precisão, em clareza, em especificidade. "Ge-lo! GE-LÔ!"
Trata-se do Doutor Camarinha, o ginecologista alcoólatra de "O Casamento", adaptação teatral do romance de Nelson Rodrigues em cartaz no Tuca.
Difícil dar ideia por escrito da variedade de sugestões que, na voz do ator Élcio Nogueira Seixas, transparecem nesse simples pedido por mais gelo.
Há, naturalmente, a bebedeira do doutor. Tudo é motivo de comemoração, e ele quer mais gelo como alguém poderia querer mais de tudo -mais música, mais mulheres, mais barulho.
Ao mesmo tempo, sente o prazer do mando, da ordem, da dominação. Repete a palavra "gelo" como se o garçom fosse incapaz de entendê-la. Ou quem sabe porque há muito ruído no salão de festas.
Por ser alcoólatra, talvez o Doutor Camarinha quisesse frisar que está pedindo apenas gelo, e não mais uma dose da bebida. Ou o contrário: tudo não passa de um código entre ele e o garçom, que sabe perfeitamente como encher o copo.
Tudo isso seria o bastante se o universo de Nelson Rodrigues fosse puramente realista. Mas sabemos, como diz o anúncio para desligar os celulares no início da peça, que na imaginação de Nelson Rodrigues "tudo pode acontecer".
O Doutor Camarinha pede gelo de um modo diferente. Ele tem aquele tipo de exigência obsessiva, de fixação no detalhe, de relação com o objeto, que é típica do perverso, do fetichista sexual.
Ele diz "gelo, ge-lo, GE-LO" como alguém poderia dizer "velas!" ou "chicotes!". É implicante, detalhista, cri-cri, absurdo, no que tange a seu pedido.
Esse ambiente de perversão generalizada, de sexualização do que não é sexualizável, marca sem dúvida toda a obra de Nelson Rodrigues. O outro burguês da peça, vivido memoravelmente por Renato Borghi, é o doutor Sabino Uchoa Maranhão ("nome límpido e nostálgico de defunto", segundo o próprio).
O doutor Sabino implica com a secretária, que disca o telefone antigo com a ponta do lápis. "Por que não usa o dedo? O dedo, doutora Noêmia", e ele mostra o dedo, "o dedo!" Ele grita. "O dedo serve para discar!"
E o verbo "discar", ainda mais quando usado no infinitivo, ganha obscuras conotações. Roland Barthes dizia que os atos da perversão sempre se declinam de forma intransitiva. "Você escreve?" -a pergunta já é suspeita, reflete Barthes. Do mesmo modo, uma das mocinhas da peça pergunta à amiga: "E com ele, você fez? Fez tudo?".
Tudo, e mais do que tudo, de fato acontece nessa peça; é o que se espera de Nelson Rodrigues: incesto, assassinato, estupro, arremessando cada personagem contra o outro na satisfação mais bestial e triste dos instintos. O ato sexual, desculpa-se um padre, "o ato sexual é só uma mijada".
Mais pecaminoso, evidentemente, é ter esse pensamento.
Esses pais de família, essas mocinhas casadoiras, não se revelam apenas quando se entregam ao desejo.
O que "O Casamento" ajuda a entender é precisamente o contrário. A repressão aos instintos sexuais é tão pornográfica, tão bestial, tão sombria quanto o ato de libertá-los.
Quando o Doutor Camarinha pede gelo ao garçom, ou faz um discurso contra o homossexualismo ("nem os ratos escapam dessa desgraça!"), ele está tomado por instintos tão irracionais e grotescos quanto os que julga ver nas pessoas que critica.
Situada, como não podia deixar de ser, no Rio de Janeiro dos anos 1950, a encenação de "O Casamento" traz muitos toques estilísticos, no figurino por exemplo, da década de 1970.
Engano pensar, contudo, que aquele mundo repressivo desapareceu junto com as lambretas, a revista "Manchete" e o iê-iê-iê. Basta ver o pastor Feliciano e seus adeptos.
O chefe de igreja pentecostalista que se esfrega em cédulas de dinheiro, o padre pedófilo, o evangélico que abusa de meninos estão todos os dias nos jornais. São perfeitos personagens de Nelson Rodrigues.
"Uma bichinha", diz Renato Borghi já no fim da peça, "não pode desprezar cinco milhões de patacas!". Era um ato de desapego ao dinheiro incompatível com seu comportamento sexual. Deve ser por isso que tantos líderes evangélicos são contra os gays.
Pensando bem, o melhor que posso esperar desses deputados é que sejam completos corruptos. A corrupção não é de todo ruim; suponho que seja a melhor arma contra o fanatismo".

MARCELO COELHO

março 27, 2013

Keep calm and carry on


"A moda pegou, com mais de 70 anos de atraso. Camisetas, mensagens no Facebook, capas de caderno, não há lugar onde não esteja reproduzido o velho cartaz britânico: "Keep calm and carry on".
Ou seja, "fique calmo e vá em frente". O slogan, pelo que vejo na Wikipédia, foi criado pelo governo inglês em 1939, para ser divulgado na eventualidade de uma invasão nazista. A versão clássica traz a coroa do império encimando as palavras, que se destacam sobre o fundo da bandeira do Reino Unido.
O cartaz não foi muito usado na época, e ficou nos arquivos governamentais. Uma rara cópia foi encontrada num sebo em 2000, e só nos últimos anos a frase virou febre. O mais comum é encontrá-la com letras brancas, sobre um fundo monocromático.
A graça da coisa está em modificar o slogan para todo tipo de situações. "Keep calm e faça um boletim de ocorrência." "Keep calm and call Batman." "Keep calm e aguarde o feriadão." "Keep calm e coma chocolate." A lista é infinita.
Existem também as modalidades inversas, que começam com "Get excited", e com "Freak out": "Dê a louca e quebre tudo", por exemplo.
Manter a calma eu acho melhor. Qualquer pessoa pode apreciar a sugestão, mas não é casual que a moda tenha começado na Inglaterra.
Teoricamente, o slogan deveria servir como incentivo à resistência. Poderia ter sido utilizado durante o bombardeio alemão sobre a Inglaterra, num momento em que o país estava sozinho contra Hitler.
Talvez não tenha sido sequer necessário difundir os tais cartazes. Enquanto choviam sobre Londres as bombas da blitz, a pianista Myra Hess apresentava, imperturbável, seus recitais de Beethoven; há um filme em que ela aparece, com um bombeiro ao seu lado para qualquer emergência.
Teríamos aí um bom motivo para a frase entrar na moda. Manter as mesmas atividades, num clima de ameaça, equivale a dar um sentido novo, e mais alto, à própria rotina.
O slogan traz também o sabor nostálgico de uma época em que governo e população poderiam, por vezes, parecer uma coisa só. As bombas caem sobre todos.
A liderança de Churchill naqueles anos de guerra -que também volta a ser reverenciada atualmente- colocava em cena algumas funções do Estado democrático que, talvez, estejam em desuso.
Coordenação, organização, motivação, por exemplo. Uma coisa são as reações individuais que possamos ter diante de um problema; outra, a atitude que sabemos ser melhor adotar coletivamente. Uma terceira coisa é um governo que, ouvida a vontade da maioria, torna-se legítimo ao apontar o rumo a ser seguido.
Depois de décadas de individualismo e desregulamentação, entretanto, o "keep calm and carry on", parece adquirir o sentido oposto. Em primeiro lugar, imagino que a força da crise econômica europeia tenha tido seu peso na ressurreição do cartaz.
Mantenha-se calmo, aguente, que um dia passa. A frase naturalmente se aplica a tudo o que não tem solução, ou cuja solução está entregue a um governo fraco, incompetente e corrupto: o trânsito nas cidades brasileiras, a criminalidade, o desemprego, os aeroportos, tudo o que quisermos.
Ao mesmo tempo, o slogan foi "privatizado", por assim dizer. Torna-se um convite ao conforto (fique calmo e coma chocolate), ao aperfeiçoamento pessoal (keep calm and play volleyball), ao consumo (fique calmo e use jeans da nossa marca).
As adaptações deixam de lado a segunda parte da frase -"carry on", "siga em frente". Seguir em frente não é tão fácil. Embora não tenha tanto destaque, essa recomendação me parece a mais significativa para o momento atual.
Trata-se do slogan de todo zumbi. Como se sabe, esses monstros também voltaram à moda. Depois dos filmes de vampiro, no estilo de Anne Rice, dos filmes de catástrofe e dos filmes de história em quadrinho, recorre-se ao velho depósito do terror "trash" para manter em movimento a indústria cinematográfica.
Vem aí uma superprodução de zumbis com Brad Pitt. Na época em que o capitalismo financeiro era mais charmoso, Brad Pitt era um dos belos atores de "Entrevista com o Vampiro". Os zumbis são um pouco como essas instituições financeiras que quebraram em 2008 mas seguem vivas até agora, arrastando seus pedaços e "seguindo em frente". Pedem calma, naturalmente, ao distinto público".
MARCELO COELHO

março 06, 2013

Escolha o seu vício



Naquele seu esforço frenético para obter a empatia do espectador, o filme "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" (2001) mostrava um personagem que tinha a mania de ficar estourando casulos de plástico bolha.
A plateia adorava, e de lá para cá a mania do plástico bolha se institucionalizou bastante. Saiu outro dia a notícia de um recorde, registrado no "Guinness": 743 m² de plástico bolha estourados em dois minutos, por um grupo de estudantes universitários de New Jersey.
Há também um programa de computador para você estourar bolinhas com o mouse. Mas não é a mesma coisa.
A atividade conta com a minha simpatia, mas na verdade pertenço a outro grupo de neuróticos obsessivos. Resisto bem ao plástico bolha. Sou, acima de tudo, um descascador de películas.
Vernizes que se soltam de móveis, tintas que se soltam de paredes; capas de livros plastificados; adesivos que não querem desgrudar do carro; cutículas, casquinhas, peles secas de verão: essa é a minha praia.
São dois tipos psicológicos bem diferentes. O estourador de plástico bolha gosta de resolver tudo de uma vez só. Age mecanicamente. É eficaz no seu ofício.
O arrancador de pelinhas está em geral condenado ao fracasso. Puxa demais o plástico que protegia a capa do livro, e termina levando o papel junto. Encontra uma cutícula sequinha no polegar, e puxa-a até chegar à carne viva.
Ao mesmo tempo, é mais observador e científico. O homem do plástico bolha pode fazer isso enquanto assiste à TV ou fala no telefone. O descascador gosta de analisar a superfície da coisa, procura a direção certa da puxada, alterna períodos de atividade e de descanso.
Comparado à produtividade do estourador de plástico, o espírito do descascador é mais felino e ocioso.
Num caso, tem-se o Japão -abrupto e limpo. No outro, a China: paciente, silenciosa, interminável.
Vê-se de que modo são genéricos e insuficientes os diagnósticos da psiquiatria. Ambos podem ser classificados, se a mania for séria, no campo do Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o popular TOC.
Até pelo som da palavra pode-se perceber que o TOC se aplica melhor ao clube do plástico bolha. Os descascadores, como eu, deveriam reivindicar outro acrônimo. Quem sabe Slic (síndrome laminar impulsivo-compulsiva), ou Irde (impulso recorrente de dissociação epitelial).
Trata-se de enfermidade mais perigosa: tenho um polegar corroído, vários livros em petição de miséria e marcas permanentes na pele onde, em algum verão, pernilongos pousaram.
Mas a compulsividade, feitas as contas, não é o pior dos males. O motor que aciona a tribo do plástico bolha também é o motor que move o mundo. Ninguém seria campeão de pingue-pongue se não fosse um estourador de plástico direcionado para um objetivo nobre.
É imenso, na verdade, o número das atividades humanas que obedecem à lei do plástico bolha. No tempo em que se escreviam cartões de Natal, tive uma vez de sobrescritar (a palavra é da época) dezenas de envelopes.
Coisa chatíssima, até o momento em que você começa. "Só mais um, só mais um, depois eu paro", eu dizia para mim mesmo.
Sem dúvida, é o que torna suportável a maioria dos trabalhos repetitivos que a indústria humana já inventou. Quem está livre dessa obrigação provavelmente não sossega antes de encontrar um substituto. Abdominais numa academia, brigadeiros num bufê, cruzinhas num calendário, dígitos num dial etc... (você continua na ordem alfabética).
Estou tentando me livrar do descascamento de pelinhas. Consegui, pela primeira vez na vida, dedicar-me para valer (isto é, umas duas horas por dia) aos exercícios de piano.
Para quem não nasceu com o dom da coisa, estudar piano é tão ou mais estéril do que arrancar películas ou estourar bolhas. Os exercícios de Carl Czerny (1791-1857) reúnem as páginas mais tolas e chatas de toda a história da música clássica.
Chatas? Isso foi antes de eu me dedicar aos estudos de Hanon (1819-1900). Que não são nada perto dos de Ettore Pozzoli (1873-1957), esses sim, insuperáveis na monotonia. Vê-se que, quanto mais avançamos no tempo, mais chatos ficamos.
O que é uma vantagem. Diante do piano eletrônico (com fones de ouvido, para chatear apenas a mim mesmo), repito dezenas, centenas de vezes a mesma passagem do polegar. Ele, coitado, agradece o descanso no descascamento.
Sinto-me eficiente, produtivo, saudável. Logo serei admitido no clube dos estouradores de bolhas.

MARCELO COELHO

fevereiro 06, 2013

Um dedo mindinho



"Durante 12 mil anos, qualquer habitante do sul da França podia entrar sem problemas naquela caverna -a não ser pelos ursos que andavam por ali. Depois, houve um desabamento, e a entrada do lugar ficou fechada por mais 20 mil anos.
A caverna de Chauvet só foi reencontrada em 1994, e tornou-se tema do documentário de Werner Herzog atualmente em cartaz no CineSesc.
No começo, pensei que tudo se tratava de um trote, de uma falsificação. Redescobertas pelos pesquisadores, as pinturas daquela caverna, feitas há 32 mil anos, pareciam perfeitas demais para ser verdade.
Há cavalos, leões e rinocerontes, que dificilmente algum humano moderno, sem treinamento específico, poderia desenhar.
Rinocerontes no sul da França? Sim, peludos, além de leões sem juba. Naquela época, o frio era bem maior. Tanto que muitas geleiras ainda não tinham derretido, e com isso o nível o mar estava muitos metros abaixo do que é hoje. Era possível ir a pé da França à Inglaterra, atravessando o que é hoje o canal da Mancha.
Trinta e dois mil anos: desse oceano de tempo, os estudiosos viram emergir as pegadas de um menino de oito anos, ao lado da marca das patas de um lobo. Seriam talvez amigos, especula Werner Herzog. Ou terá havido um intervalo de séculos entre um e outro?
Também se encontram, em meio à quantidade de pinturas, de ossos, de estalactites e de cinzas, as marcas de um único artista. É talvez o momento mais emocionante de todo o documentário.
Os arqueólogos identificaram, numa parede da caverna, coberta das impressões das palmas das mãos de muitos trogloditas, a presença de uma pessoa que tinha o dedo mínimo ligeiramente torto.
A marca dessa mão volta a aparecer mais adiante, em outro salão da caverna, junto às pinturas mais espetaculares de todo o conjunto.
"Este sou eu", parece dizer a marca na parede, "e isto foi o que eu fiz".
O inglês James Elroy Flecker (1884-1915) ficou famoso pelos versos que escreveu "A um Poeta, daqui a Mil Anos". Ele se dirige a algum "estudioso da doce língua inglesa", e imagina esse futuro amigo, "que não vejo, que não conheço, e que ainda não nasceu", lendo sozinho, à noite, as palavras de seu poema.
"Eu era um poeta, eu era jovem", diz Flecker. E, "já que não posso ver teu rosto, nem apertar a tua mão, envio-te minha alma, através do espaço e do tempo. Você vai entender".
Em inglês fica melhor. "O friend unseen, unborn, unknown,/ Student of our sweet English tongue,/ Read out my words at night, alone:/ I was a poet, I was young./ Since I can never see your face,/ And never shake you by the hand,/ I send my soul through time and space/ To greet you. You will understand."
Nossa época desconfia muito desses entendimentos através dos milênios. Os pintores da caverna de Chauvet deveriam ter uma visão de mundo completamente diversa da nossa, e o sentido daqueles cavalos e bisontes na parede está tão perdido quanto o pensamento dos próprios cavalos e bisontes retratados lá.
Tanto relativismo termina sendo impossível de sustentar. No mínimo, sabemos que quem retratou o bisonte queria, de fato, retratar um bisonte, e isso é visível para nós.
Seria apenas um ato religioso, um ritual mágico? Não haveria nenhuma intenção de beleza, de decoração, de arte naquilo?
Ah, o conceito de arte, de "obra", de "autoria", muda com o tempo. É verdade. Mas vale invocar o argumento do escritor católico G. K. Chesterton, em "O Homem Eterno" (editora Mundo Cristão). Por que imaginar, diz ele, que o homem das cavernas tinha apenas uma mente pragmática e utilitária, fazendo desenhos apenas para ter boa sorte nas caçadas?
Esse espírito interesseiro conviria mais a um burguês britânico do século 19 do que a um "primitivo"... O homem das cavernas não seria capaz de sorrir, de brincar, de fazer desenhos por prazer?
De tanto respeito à alteridade, de tanto relativismo, terminamos usando a palavra "outro" com O maiúsculo: o "Outro". É tão Outro que não nos julgamos capazes de entendê-lo.
O raciocínio termina por ser equivalente ao de quem, por desprezo, chama de "primitivos", de "trogloditas", os artistas da caverna. Mas eles nos estenderam as mãos.
Em volta daquele lugar, ainda vagavam hordas de Neandertais. O pintor daqueles cavalos e leões marcava, para o futuro, o território dos homens".
MARCELO COELHO

janeiro 02, 2013

Arrependimentos terminais


"Poderia ser uma boa ideia para o final de ano. Em "Antes de Partir" (editora Jardim dos Livros), uma cuidadora especializada em doentes terminais fala do que eles mais se arrependem na hora de morrer.
A época, como se sabe, é boa para arrependimentos e resoluções, e não sofro especialmente de medo quando se trata de temas trágicos. Se alguém, como Bronnie Ware, aguentou tratar de pacientes desenganados por muitos anos, não seria impossível prestar um pouco de atenção no que ela quis contar.
Infelizmente, "Antes de Partir" acaba se revelando um livro de autoajuda, não muito diferente das dezenas que existem por aí. Às vésperas da morte, as pessoas com quem Bronnie Ware conversou não têm muito de notável a dizer.
Há cinco arrependimentos básicos, cada um dos quais explicado e reexplicado em capítulo próprio.
"Não deveria ter trabalhado tanto", diz um dos pacientes. "Desejaria ter ficado em contato com meus amigos", lembra outro. "Desejaria ter a coragem de expressar meus sentimentos", confessa um terceiro. Outro alerta: "Não deveria ter levado a vida baseando-me no que esperavam de mim".
Por fim, a chave de ouro: "Desejaria ter-me permitido ser mais feliz". Claro que, nesse nível de generalidade, tudo se equivale. Mas esses arrependimentos também dizem um bocado sobre o tipo de personalidade mais comum em nossa época.
Há cem anos, ou 50, quem sabe, sem dúvida seriam outros os arrependimentos terminais. "Gostaria de ter sido mais útil à minha pátria", diria alguém. "Gostaria de ter deixado um patrimônio maior para meus descendentes", poderia suspirar o pai de família. "Deveria ter sido mais obediente a Deus", confessaria um terceiro.
Ideias de autosacrifício, de dever, de empenho na construção do futuro da comunidade, tudo isso compunha um tipo de personalidade sem dúvida mais rígido e convencional, para quem os conceitos de honra, de virtude e de disciplina ainda faziam sentido.
É o que desaparece nos arrependimentos contemporâneos. Menos do que morrer com a sensação do nome limpo e do dever cumprido, morre-se com a sensação de um ego insatisfeito.
A insatisfação existe porque o ego, afinal, é insaciável. Por mais que eu me dedique a ser feliz em cada momento, a ser sincero com meus desejos, a fugir das obrigações, sempre vou achar que não me dediquei o bastante a mim mesmo. A vida autocentrada será, desse modo, inevitavelmente frustrante. Mais que isso, vida e frustração se tornam sinônimos. Quando o paciente terminal reclama de não ter pensado mais em si mesmo, ele no fundo está reclamando apenas de não estar podendo viver mais.
Não digo, é claro, que seja fácil morrer em qualquer circunstância. Mas o problema dos pacientes de Bronnie Ware, e dos leitores de seu livro, não é a falta de autoajuda. É o excesso de autoajuda; quem só se preocupa em atender a si mesmo sempre se sentirá desatendido.
O paradoxo é que a autora, conforme vai contando suas experiências, demonstra uma extrema capacidade para se dedicar aos outros. É vegetariana, por que não suporta a ideia de ver animais sacrificados. Depois de muitos anos prestando conforto a pacientes terminais, resolveu dar aulas de música para detentas (ela também compõe canções no estilo folk) e, para mudar um pouco de ambiente, faz shows para crianças em idade pré-escolar.
Nascida na Austrália, Bronnie Ware largou seu trabalho num banco para levar uma vida errante, e começou seu trabalho de cuidadora meio por acaso, no interior da Inglaterra.
É possível que tratar de pacientes terminais corresponda ao desejo de mudar sempre de casa, de vida e de lugar; durante um tempo Bronnie Ware morou no próprio carro, que aliás caía aos pedaços. A depressão, e um quase suicídio, estavam à espreita.
Ela se considera uma "doadora natural" -e sua maior dificuldade está, diz ela, em saber receber a ajuda dos outros. Com certa maldade, seria possível observar que no mundo da autoajuda perfeita ninguém estaria ligando muito para ajudá-la de qualquer modo.
Mas não é verdade. Seu livro tem um precedente respeitável na filosofia de Alain (1868-1951), para quem só as pessoas felizes podem ajudar plenamente o próximo. A felicidade não é um direito, dizia; é um dever. Que cada um cumpra o seu em 2013".
MARCELO COELHO

novembro 14, 2012

No fim do túnel



"Militantes antirreligiosos fizeram circular uma mensagem audaciosa nos ônibus de Londres. "Provavelmente Deus não existe", diziam os cartazes. "Então, pare de se preocupar e aproveite a vida."
No livro "Unapologetic", publicado neste ano na Inglaterra, o escritor inglês Francis Spufford critica a iniciativa. Como assim, "aproveite a vida"? Em que mundo esses caras estão?
Imagine, diz ele, uma senhora de meia-idade, com sua sacola de compras do supermercado, voltando para casa, onde irá encontrar aquele que foi o homem de sua vida, agora tomado pelo mal de Alzheimer, que acaba de espalhar mais uma vez suas fezes pela parede.
Ou então imagine o garoto numa cadeira de rodas, com as pernas torcidas como um saca-rolhas pelos espasmos da doença, sem poder falar; ele é capaz apenas de teclar suas mensagens no computador, mas isso também está ficando cada vez mais difícil.
"Aproveite a vida?" Para Spufford, que responde ao ateísmo de Richard Dawkins e Christopher Hitchens, quem criou esse slogan é que vive no mundo da carochinha.
Adotou-se, diz ele, a mentalidade típica da publicidade comercial: todo mundo é feliz, saudável e bonito e, se aparece alguém de cabelo branco, é porque se trata de um daqueles anúncios de aposentadoria privada, em que há muita disposição para os prazeres da "melhor idade".
Spufford não é teólogo. Escreveu um romance de ficção científica e ensaios sobre a história da tecnologia. "Unapologetic", que poderia ser traduzido como "Sem Justificativa", ou "Sem Pedir Desculpa" (por ser cristão), traz argumentos muito amigáveis, dirigidos a quem não vê sentido no modo de vida religioso.
Como sou uma dessas pessoas, logo pensei numa resposta aos exemplos da mulher de meia-idade e do menino de cadeira de rodas. É cruel dizer-lhes para "aproveitar a vida". Mas também é duro dizer que um Deus misericordioso quer que essas desgraças lhes aconteçam.
Mesmo assim, talvez até prefiram acreditar em Deus. Mas o fato de ser preferível não torna alguma crença mais verdadeira.
Os argumentos a favor e contra podem estender-se, é claro. Constituem um dos principais temas de "Expresso do Pôr do Sol", peça do norte-americano Cormac McCarthy, em cartaz no Tucarena até 25 de novembro.

Ao longo de uma hora e pouco, dois excelentes atores (Cacá Amaral e Guilherme Sant'Anna) discutem bravamente a questão. Mais do que isso: Cacá Amaral, no papel de um professor universitário branco, acaba de ser salvo de se atirar da plataforma de um trem.
É um ex-presidiário negro, convertido ao cristianismo, quem o impede de se matar. No papel de "Black", Guilherme Sant'Anna é um anjo de astúcia e vitalidade, tentando desmontar a descrença furiosa de "White". Como bom ateu, o diálogo me pareceu desequilibrado a favor de uma ótica cristã. A peça mostra bem os motivos biográficos que fizeram o ex-presidiário abraçar a escolha "correta".
Os argumentos de "White" em favor do suicídio, entretanto, são impessoais e vagos. Ele declara, por exemplo, que toda sua fé na cultura e no progresso desapareceu "nas cinzas dos campos de extermínio"; sendo toda esperança de felicidade uma mentira, o melhor é se jogar na frente de um trem.
Evidentemente, nem todo ateu quer se jogar na frente de um trem. A moral da história seria outra: sem acreditar "em alguma coisa", você não consegue viver. O cristianismo pode ser essa "alguma coisa", e certamente "Black" é feliz com sua religião. Livrou-me de um monte de encrencas, diz o ex-presidiário. Certamente. Mas ainda falta escrever uma peça em que o ateu, vivendo feliz seu modesto destino, tenta tirar o religioso das encrencas em que ele se mete.
Imagine, por exemplo, um jovem homossexual que renega seu amor por outro homem simplesmente pelo fato de que sua religião não permite esse tipo de coisa. Ou a mãe que se recusa a abortar e gera um filho com grave deficiência, quando poderia ter outro normal numa gravidez posterior.
"Expresso do Pôr do Sol" não vai muito longe nesse tipo de debates, que naturalmente varariam a madrugada toda. De todo modo, para quem não está disposto a se atirar nos trilhos de um trem, não deixa de ser um bom ponto de partida para a discussão".

MARCELO COELHO

setembro 26, 2012

É o fim do mundo



Afraninho é um garoto fora de série. Aos nove anos, já leu as principais obras de José de Alencar (1829-77), de Raul Pompeia (1863-95) e de Nélida Piñon. As tias do interior dizem que ele é um crânio.
Como toda criança de sua idade, Afraninho também passa muitas horas no computador. Só que, em vez de perder tempo com bobagens, ele costuma acessar sites de alto conteúdo cultural.
Ultimamente ele tem se dedicado muito a acompanhar, pelo site do Supremo Tribunal Federal, o julgamento do mensalão. Mas quando os ministros dão uma folga, Afraninho volta ao seu sítio preferido. (Ele prefere dizer "sítio" em vez de "site".)
É a página da Academia Brasileira de Letras (www.academia.org.br). Lá, Afraninho pode acompanhar o que de melhor se faz na literatura brasileira, ademais de manter-se ao corrente das atividades de seus acadêmicos preferidos.
Soube, por exemplo, que "atendendo a convite da Fiat feito à Academia Brasileira de Letras, o Acadêmico Carlos Nejar esteve presente, dias 13 e 14 do corrente, à Exposição de Caravaggio, no Museu de Arte de São Paulo".
Nervosos, céleres, os pequenos dedos de Afraninho movimentam o mouse (ratinho? Camundongo? Camondongo, como preferem alguns?).
Outra notícia. O Acadêmico Evanildo Bechara comemora, com palestra, os quatro anos do Acordo Ortográfico. Já a presidente da ABL, Ana Maria Machado, informa que proferiu aula magna, em francês, na Universidade Blaise Pascal de Clermont-Ferrand.
Os alunos da Faculdade de Editoração e Ciências do Livro ouviram, assim, uma palestra na qual a autora "evocou sua trajetória em contato constante com os livros".
Afraninho ia redigir um bilhete de congratulações quando algo chamou sua atenção no site da ABL.
Começava a ser transmitida, ao vivo, conferência do professor Jorge Coli, dentro do ciclo Mutações, organizado por Adauto Novaes.
Afraninho já tinha acompanhado outras transmissões do gênero, versando sobre Valéry ou sobre a morte das utopias.
O tema escolhido por Jorge Coli não deixava de ser alvissareiro: "O Sexo Não é Mais o Que Era". Bom motivo para Afraninho acompanhar as considerações do renomado crítico. "Se o sexo ainda fosse o que eu penso que é, seria sem dúvida pouco recomendável que, na minha idade, eu seguisse a conferência."
O título, todavia, iludiu o ajuizado garoto. Os comentários de Jorge Coli vinham acompanhados de imagens de elevado teor erótico.
Afraninho ficou de cabelo em pé, coisa que não lhe acontecia desde a última palestra de Marilena Chaui.
Uma das primeiras imagens era o célebre quadro de Courbet (1819-1877), que retrata, em close e de modo praticamente frontal, uma especificidade da anatomia feminina que nosso protagonista, bastante arguto para a idade, não tardou em reconhecer.
Seu cérebro, entretanto, estava despreparado e imaturo para a devida apreciação do que Jorge Coli exibia sem pudor.
A obra, cá entre nós, não é tudo o que dizem. Sua fama, para além da ousadia temática, reside no título que lhe foi dado por Courbet, o qual não passa de um trocadilho: "A Origem do Mundo".
Confuso, Afraninho indagava-se se aquela pintura não seria outro quadro célebre, o "Isto Não é Um Cachimbo", de Magritte. Suas dúvidas não puderam ser dissipadas.
Depois de outra imagem pesada, agora de Jeff Koons, e depois de Jorge Coli pronunciar uma palavra mágica, verdadeiro abracadabra para todo intuito de censura (a palavra "boceta"), algum funcionário da Academia Brasileira de Letras resolveu interromper a transmissão. A presidente da ABL, de volta de Clermont-Ferrand, subscreve a atitude saneadora.
Afraninho agora navega em outros sites da internet. Faz sucesso entre as crianças, por exemplo, o "Mundo Canibal"*. Aparece ali um desenho animado humorístico. Um velho desdentado se decepciona ao saber que a loira a quem pagou por uma felação era transexual. Amputa-lhe o pênis; o sangue espirra na tela do computador.
Surpreendi meu filho de oito anos às gargalhadas com isso. Naturalmente, proibi o acesso ao site. Quanto ao site da ABL, tampouco o recomendaria a crianças de sua idade, por outros motivos.
De certo modo, a censura é bem-vinda. Para cada fictício Afraninho que se desencaminhou com a "A Origem do Mundo", haverá dez ou vinte marmanjos sabendo agora que, no site da ABL, coisas interessantes também podem acontecer. Ou podiam.
MARCELO COELHO

Nota: *a imagem é do Mundo Canibal e não ilustrava o texto original.

julho 08, 2012

"Diderot"



Uma criança velha
"No dia 5 de janeiro de 1757, Luís 15 entrava numa carruagem quando um lacaio chamado Robert François Damiens tentou assassiná-lo com um golpe de punhal. O rei sangrou muito, mas depois de uma semana estava recuperado. Quis perdoar Damiens; o Parlamento de Paris -instituição mais judicial do que legislativa- entendeu de modo diferente. Damiens foi condenado a ter a carne arrancada com tenazes, nos mamilos, nas pernas e nos braços. Chumbo derretido deveria ser jogado nos ferimentos. Em seguida, seu corpo seria despedaçado por quatro cavalos, cada qual amarrado a um de seus membros.
"Vai ser um dia duro", disse ele, ao ouvir a condenação. Assim foi feito, num espetáculo público.
Agora é moda ver na Revolução Francesa a origem de todos os males do terror político. Costuma-se esquecer que, durante o Antigo Regime, a tortura era um espetáculo público, ao qual se costumava levar crianças pequenas para assistir. Denis Diderot (1713-84] foi considerado muito sensível pelos pais, por ter passado mal depois de ir a um desses programas; ele tinha três anos.
A execução de Damiens chegou num péssimo momento para o filósofo de 44 anos. Ao lado do matemático Jean Le Rond D'Alembert [1717-83], Diderot se dedicava ao maior empreendimento cultural do século, a publicação da "Enciclopédia".
A tarefa, envolvendo cerca de 150 colaboradores, destinava-se a oferecer a suma de todo o conhecimento humano, tanto em questões filosóficas e científicas, quanto no tocante aos ofícios práticos. Nos verbetes, recomendações técnicas se alternavam com a crítica aos costumes, aos preconceitos da época e às imposições das autoridades religiosas e políticas.
O projeto da "Enciclopédia" exigiu 20 anos e considerável investimento financeiro para completar-se. Contando inicialmente com a aprovação oficial, em pouco tempo os enciclopedistas veriam a maré política voltar-se contra eles.
O atentado ao rei deu ocasião para medidas especialmente restritivas à liberdade de pensamento. Em abril de 1757, Luís 15 deu a conhecer um decreto pelo qual "todos aqueles que estiverem convencidos de ter composto, mandado compor, e impresso artigos inclinados a atacar a religião, a comover os espíritos e a perturbar a ordem e a tranquilidade dos nossos Estados serão punidos de morte".
A complicada e muitas vezes emocionante história editorial da "Enciclopédia" ocupa vários capítulos da volumosa "Diderot", biografia escrita por Arthur M. Wilson [1902-79]. É esse livro, com 787 páginas, mais 205 de notas, que acaba de ser lançado no Brasil, numa tradução ruinzinha [trad. Bruna Torlay, Perspectiva, 1.024 págs., R$ 180].
Wilson demorou 36 anos para completá-lo. O original foi publicado em dois volumes. O primeiro, que saiu em 1957, ressente-se de certa secura, tendo de acompanhar os inícios, bastante incertos, da carreira de Diderot.
Depois de concluir seus estudos de teologia, o filósofo passou um bom tempo na vida boêmia, sustentando-se precariamente com traduções do inglês. Escreveu um livro de comentários matemáticos, um tratado explicando a teoria musical de Rameau, um panfleto sobre a prática médica e uma novela libertina, "As Joias Indiscretas", notável, entre outras coisas, por imaginar uma vagina falante.
Já era, como se vê, um espírito "enciclopédico". Mas foi por causa de textos mais especulativos - como "O Passeio do Cético", os "Pensamentos Filosóficos" e a "Carta sobre os Cegos", que se pergunta que conceitos de Deus e da moral teríamos, caso possuíssemos menos do que cinco sentidos - que Diderot passou cerca de um mês preso, na torre de Vincennes. Foi o período de sua amizade com Jean-Jacques Rousseau.
Na década de 1750, Diderot encontrou energia para inaugurar um novo gênero teatral, o "drama burguês", em que assuntos sérios e de alta emotividade não mais eram protagonizados por reis e príncipes, como na tragédia clássica, mas por cidadãos comuns, comerciantes e pais de família, em suas vestes contemporâneas e preocupações domésticas.
A segunda parte da biografia de Arthur Wilson foi terminada em 1972, e começa no capítulo 26 da atual edição da Perspectiva. Encontramos aqui um Wilson mais à vontade para se aproximar da pessoa de seu biografado.
Uma vez que se libertava do trabalho de escrever milhares de verbetes para a "Enciclopédia", contando basicamente com a ajuda de um só colaborador importante -o metódico, mas pouco inspirado cavaleiro de Jaucourt-, Diderot ia dando vazão a seu vertiginoso gênio especulativo e à sua inclinação, que chegava às raias da imprudência, para ajudar os outros.
Por três anos, assim, Diderot foi enganado por um espião político, a quem abrigou em sua própria casa, pensando que necessitava de caridade. Nesse clima, é natural que Diderot tenha deixado muitas de suas obras sem publicar. Poderia, é claro, conseguir que fossem editadas num país mais livre, como a Holanda. Ou conseguir o apoio de algum soberano.
O apoio, na forma de ajuda financeira, chegou, para surpresa e relutância do filósofo, da parte de Catarina 2ª, a Grande, da Rússia. Diderot retribuiu com uma viagem a São Petersburgo (que o fez detestar ainda mais o despotismo) e com um plano educacional para o império -evidentemente, não adotado pela soberana.
É mais um exemplo da modernidade de Diderot. Numa época em que mesmo alguns iluministas temiam a educação "do populacho", ele vislumbrava um sistema de ensino acessível a todos.
Diderot seria também um dos pioneiros da crítica ao colonialismo. Emprestou tempero literário e filosófico ao severo estudo do abade Raynal, "História das Duas Índias", que denunciou as violências europeias na América e no Oriente.
Pode-se creditar ainda a Diderot o título de fundador da moderna crítica de arte. Por anos, Diderot encarregou-se de escrever apreciações sobre as mostras oficiais de belas-artes. Seus "Salons" saíam no periódico mais exclusivo e mais "avançado" da época, a "Correspondência Literária".
Esse gênio tão variado se refletia, ademais, no interior de seus próprios escritos. Suas obras mais importantes, como "O Sonho de d'Alembert" e "O Sobrinho de Rameau", desafiam comentadores pelas copiosas digressões e pela multiplicidade dos pontos de vista. Como resultado, retém-se de seu pensamento o aspecto mais radical -sua negação do livre-arbítrio, coerente com o materialismo, e mesmo o quase ateísmo, dos momentos mais ousados; e também uma frase, que lhe fez mais mal do que bem, ao ser associada com o terror revolucionário de Robespierre.
É aquela em que, num poema só publicado em 1796, Diderot se refere ao dia em que o último rei seria estrangulado com as tripas do último padre. Arthur Wilson esclarece: os versos, "que Diderot mui provavelmente teria assinado", são uma paráfrase de Jean Meslier, escritor ateu de começos do século 18.
A personalidade de Diderot, que emerge aos poucos na biografia, não é endeusada por Wilson. Vaidoso e sentimental, o filósofo era o que chamaríamos de um tipo "latino": falava sem parar, gesticulando e cutucando as pessoas; Wilson trata com equilíbrio, ademais, a ruptura entre Diderot e Rousseau.
"Eu morrerei como uma criança velha", escreveu Diderot. "Há alguns dias, dei com a cabeça num bloco de mármore; minha neta, que tem três anos, me viu com um enorme galo na cabeça, me disse, 'ah, vovô, também bates o nariz nas portas?' Eu ri, e pensei comigo mesmo que não havia feito outra coisa desde que vim ao mundo."
Diderot, no entanto, sabia bem a quantidade de portas que abriu para o futuro, a cada acidente desse tipo. O livro de Arthur Wilson relata-os com minúcia, clareza e simpatia.

MARCELO COELHO

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