Mostrando postagens com marcador comportamento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comportamento. Mostrar todas as postagens

abril 30, 2014

As regras da casa


"Traduzida de sua origem grega, a economia fica assim muito mais fácil de entender. Ecologia é o estudo da casa, do ambiente. E anomia é um estado de caos, quando não há regras e vale tudo.
Economistas que passaram por meu consultório entendiam muito de ativos e passivos, custos fixos e variáveis, investimentos (com bons e maus retornos, arriscados ou seguros) e gastos, e de outros pertences dessa curiosa feijoada.
Mas, para minha surpresa, não se davam conta de que o conceito de economia, quase com os mesmos pertences, também se aplica à vida psíquica, e se mostravam gestores desastrados de seu capital mental.
Pareciam fazer investimentos de péssimo retorno (como na gratidão, por exemplo). Ignoravam o custo de um favor pedido. Ou o perigo de um momento de ternura com o inimigo. Carregavam passivos inexplicáveis, sofrendo com eles.
Para quem não é do ramo, ativos são seus bens, aquilo que você possui como patrimônio. Passivo é aquilo que você deve, o peso que você carrega.
Aplicado à vida mental, seu ânimo, sua capacidade de amar, sua liberdade, sua intimidade, sua inteligência, seu alto astral, sua generosidade de espírito, seu gosto pela vida, sua libido, sua ética e sua estética, seu desfrutar das artes em geral, sua habilidade profissional, o gostar do que se faz, sua habilidade em ser pai/mãe, sua afetividade, o fazer amigos, de se comunicar bem --essas coisas todas são parte de seu patrimônio mental, seus ativos psíquicos, disponíveis para investimentos.
É bem verdade que ser coitadinho e lucrar com isso (os "coitadistas") virou um ativo político, mas isso já faz parte das doenças psíquicas chamadas de "perversões".
Por outro lado, o sentimento de culpa, de obrigações alheias ao seu gosto, o sentir-se preso ao passado, as inibições, a vergonha do próprio desejo, a compulsão ao sofrimento, o mau humor, o destempero, o desespero, as neuroses e perversões, os vícios, qualquer coisa/pessoa que nos aprisiona, esses fazem parte do passivo, daquilo que se deve.
Uma síntese, grosseira, mas bem-humorada da psicanálise, diz: "Deveu? F%#&u!"
De fato, o que parece má gestão da economia psíquica, não o é, há sempre uma razão, oculta e enigmática, sim, mas há, cabendo ao psicanalista se debruçar sobre a história do paciente para entender que diabo de passivo estranho ele está penando para pagar.
O sujeito parece estar cumprindo pena de crimes horríveis. Por quê? Aí, o psicanalista precisa ser a um só tempo economista e advogado de defesa.
Um, pega o livro-caixa e faz uma auditoria. O outro quer ver os autos do processo, para saber se o crime de fato existiu, se o tribunal não foi injusto, se a pena prescreveu.
Exemplo: aquele que parece se sabotar para não ser nunca feliz.
Sem que a gente saiba, ele está pagando uma "dívida" por ter nascido inteligente, se dado bem e saído do subúrbio, "esqueceu dos pobres, né?"
Enfim, a psicanálise, aplicada à economia, quer apostar na saúde já existente, acertar as contas do passivo e deixar os ativos líquidos para investimento no desejado."

FRANCISCO DAUDT

abril 21, 2014

Síndrome de Peter Pan


"Publicado há cerca de três décadas, o livro "Síndrome de Peter Pan" mostrava um novo padrão de comportamento social para a época. Seu autor, dr. Dan Kiley, simplificou algumas ideias de Jung, usava o personagem de ficção como parâmetro de um grupo cada vez maior de adultos que não abriam mão de seus privilégios adolescentes.
Peter Pan, para quem não leu o livro nem se lembra da versão da Disney, é um menino que se recusa a crescer. Dotado de poderes mágicos e de uma fadinha de estimação, vivia com "garotos perdidos" na Terra do Nunca, um eterno playground.
A tal síndrome descrita pelo dr. Kiley não era exatamente uma doença, mas um desvio de comportamento de quem cresceu em ambiente de superproteção e que, confrontado com a dura realidade das escolhas cotidianas, preferia se refugiar em ambiente conhecido. Como a criança que ao fechar os olhos se julga invisível, esses adultos entravam em uma espécie de negação primitiva, criando uma bolha em torno de si.
Entre as características dos "Peter Pans" estariam relutância em assumir responsabilidades, cuidado excessivo com a aparência, envolvimento compulsivo em atividades lúdicas e baixa autoconfiança.
Morto há dez anos, Dr. Kiley não viveu o suficiente para ver a condição que definiu transformada em pandemia. Seria interessante ouvir sua opinião em meio a tantas teorias rasas propostas por analistas de tendências, publicitários e antropólogos de aluguel em geral.
Quaisquer que sejam as origens de tanta imaturidade --popular nas piadas machistas dos programas de "humor", no egoísmo de empresários e políticos, no narcisismo de atores e web-celebridades, na futilidade das redes sociais e na alienação geral de praticamente todo mundo--, um fator é inegável: a natureza das mídias digitais, se não causa, certamente estimula esse tipo de comportamento.
"Selfies", check-ins, "badges", Tinder, buscas pelo próprio nome e competições por "curtidas", amigos e seguidores não teriam nada de errado se fossem produtos de nicho, encarregados de manifestar uma fase de exceção marcada pela insegurança. Quando se transformam em regra é natural que demandem análise dos meios por que circulam.
Boa parte das tecnologias de consumo tem a cara de seus donos, a maioria homem, jovem e rico, se beneficiando de uma cultura que fetichiza a juventude. Há pouquíssimos apps para os menos favorecidos e, incrivelmente, para qualquer mulher que não esteja obcecada por sexo, compras, decoração ou moda.
Boas ideias, mesmo quando surgem, acabam rechaçadas por uma panelinha de investidores que considera mulheres (50% do planeta) e pobres (99%) mercados de nicho.
O resultado dessa triste miopia se reflete no estímulo a um comportamento machista, ingênuo e misógino da "cultura geek". Pessoas levemente deprimidas, insatisfeitas e misantropas, que fazem da tecnologia o tema central de suas vidas e buscam sempre a última novidade podem ser bons consumidores, mas não são seres humanos exemplares.
A tecnologia, que sob tantos aspectos é um dos setores mais avançados da sociedade, guarda em si uma infantilidade patológica. Enquanto não nos livrarmos dela, o futuro não será tão bonito como prometem romances adolescentes." 

LULI RADFAHRER

abril 17, 2014

Trinta anos de bode : GABO versus Mario


"A primeira notícia sobre um possível degelo nas relações dos dois consagrados mestres da moderna ficção em qualquer língua, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, foi publicada no início de janeiro no prestigioso jornal The Guardian, no Reino Unido, oriunda (possivelmente) do laptop do correspondente Giles Tremlett, em Madri. A reportagem se referia sobretudo à publicação, em 2007, de uma edição especial comemorativa do 40º aniversário de publicação do consagrado romance Cem Anos de Solidão, de autoria do colombiano García Márquez, tido como uma das obras-primas do século XX e leitura obrigatória para todos interessados em arte, cultura e o realismo mágico, do qual, conforme sabemos, o cubano Alejo Carpentier é renomado precursor.

O legítimo homme du monde peruano Mario Vargas Llosa, autor também do notável A festa do bode, publicado em 2000, outro volume seminal de nos jours, e quaisquer outros jours também, embora distante do realismo mágico, mas chegado à nossa cultura (seu livro sobre Canudos, A Guerra do Fim do Mundo, de 1981, é um clássico, embora poucos tenham sabido ler e entender, tal como se deu da mesma forma, o que muito explica, com o evento histórico), está encarregado da apresentação, apesar de trinta anos de gélida guerra entre os dois mestres do idioma de Cervantes - e de Shakespeare e de Molière e de Gil Vicente e outros tantos, já que passaram por traduções hoje tidas como exemplares, inclusive em nosso Brasil.

Argumenta-se, nos meios literários, que esta introdução nada mais é do que uma adaptação de um estudo crítico assinado pelo talentoso peruano, em 1971, e que levou o título de A História de um Deicídio. Vargas Llosa vem se recusando à republicação do tomo desde o histórico desentendimento, ou rixa e ainda rusga, se preferirem, entre os dois magníficos ficcionistas, num pequeno cinema mexicano, em 1976.

Justiça seja feita a um e outro: nunca tocaram nos detalhes daquilo que, ao que parece, começou com palavrório, tão comum naqueles que vivem da palavra escrita e falada, mas que chegou às vias - e como! - de fato. Tamanha discrição só serviu para alimentar a curiosidade natural, e malsã também, sejamos honestos por uma vez na vida, daqueles que se interessam pela literatura da América hispânica e ainda por suas querelas, num nível mais baixo, mas nem por isso menos humano, all too human conforme sentenciou o Bardo Imortal. O fato de que na política os dois aspirantes ao Parnaso assumam posições radicalmente - mas radicalmente mesmo - diferentes sempre constou da equação que os mais corajosos tentaram explicitar e resolver.

Detalhes?

García Márquez já publicou o primeiro volume de suas memórias. Consta, segundo relatos vindos daqueles que fazem parte de sua roda, igreja e catedral (onde se deve conversar, segundo Vargas Llosa), que Gabo, como é chamado na intimidade de seu lar e de outros lares também, quer a todo custo evitar entrar de novo "naquele cineminha mexicano" de 1976, e que ainda está lá para, se quisesse, contar a história, que nós aqui, mediante diversas viagens e entrevistas (trabalhamos mais que Truman Capote em A Sangue Frio, embora munidos de gravador digital mais que portátil), conseguimos reunir e deixar a última palavra com a pessoa mais importante dessa discórdia toda: você, leitor!

Agora, leia, digira os dados e chegue à sua própria conclusão, que é a única que conta. Obra mais aberta não há nem poderá haver. Depois, nos diga - e este é o teste - quem você acha que está com a razão: Gabo ou Mario?

O local

Trata-se de um pequeno cinema, de seus duzentos lugares, que já conheceu melhores dias. Hoje em dia, limita-se a passar cópias desgastadas de velhos filmes mexicanos e cubanos maltratados pelo tempo e por curadores descuidados. Presentes ídolos que não estão mais entre nós, e dos quais poucos jovens ouviram falar: Maria Antonieta Pons, Ninon Sevilla, Tito Junco. Sempre em números especiais, Pedro Vargas e Toña la Negra. Agustín Lara, o grande Agustín, também comparece! Vez por outra, quase que por distração, levam algo com Pedro Armendáriz e Maria Félix, dirigidos por Emílio Fernandez (lembram-se de The Wild Bunch, que no Brasil chamou Meu ódio será tua herança?) e fotografados pelo genial, assim o dizem, Gabriel Figueroa.

Muitos anos antes, em 1976, já que estamos sendo precisos com evento beirando o histórico, diante de um sol pastoso de julho, Gabo e Mario, depois de tomar umas tequillas e chupar umas goiabinhas, ambos apreciadores ferrenhos da Sétima Arte, passaram diante do Cine Cortés, ali mesmo na Calle de los Conquistadores, naquele bairro afastado de Ciudad de Mejico, onde tinham a certeza de não serem reconhecidos por seus admiradores. Sim, meus amigos, vivíamos numa época em que não só as modelos anoréxicas e os astros parrudos de Hollywood faziam sucesso nas paragens que os tolos gostam de chamar de "O Terceiro Mundo". Gabo e Mario eram o orgulho do Continente que dera ao mundo Bolívar e O'Higgins, para citar apenas dois ídolos e heróis. A pena (o computador ainda não tinha sido inventado) também era uma espada e a espada... uma pena? Não creio. Alegres e extrovertidos, os dois amigos notaram que estavam exibindo Casablanca, produção da Warner de 1942 inexplicavelmente tornada obra-prima pelo medíocre, mas prolífero, Michael Curtiz, em condições normais um diretor rotineiro, que, não obstante, nos legou inegáveis chef-d'oeuvres, tais como The Sea Hawk, 1940, e The Adventures of Robin Hood, feito dois anos antes. Um mistério que ambos, Gabo e Mario, não sabiam - talvez ainda não saibam! - explicar. Pois entraram os dois e - atenção, muita atenção - se sentaram no meio da quinta fila.

No que passamos então a nossos depoimentos exclusivos.

Depoimento de Jesús Maria Iberrurtí, ex-lanterninha, 81 anos, cego de um olho.

"Sim, senhor. Lembro-me como se fosse hoje. Os dois cavalheiros, quarentões ambos, não paravam de fumar, e eram só charutos finos, o que é proibido, pelas regras do estabelecimento, mas fazíamos vista grossa diante de clientes mais finos. Eu já vira o tal do filme umas vinte vezes e, desculpe-me, eu o odiava. Baixo sentimentalismo, canções estrangeiras, péssima dublagem em espanhol, atuações que não poderiam beijar os pés de uma Sarita Montiel ou Luis Mariano. Entraram com o filme já começado e uns vinte minutos depois estavam aos socos e pontapés. Com o auxílio do guarda (Pablo de Tal. Foi impossível localizá-lo. Consta que teria morrido afogado, tentando atravessar a nado a fronteira com os Estados Unidos.), que fui catar no café Los Libertadores, conseguimos expulsá-los. Nunca ouvi tanto palavrão na minha vida. Nem parece que eram homens de berço. Não sei qual era o pomo da discórdia, mas um deles, o bigodudo, mais baixo e entroncado, não cessava de se referir à conduta sexual das senhoras, tanto a esposa quanto a progenitora do outro, o mais alto e de terno branco, camisa listrada azul, mas sem gravata. Essas pessoas dificultavam muito meu trabalho."

Depoimento de Mérida Pinión, academicista, 77 anos.

"Parecia um sonho! Dois dos maiores escritores do planeta brigando na minha frente. Nem consegui prestar atenção no filme do Cary Grant. Tenho a certeza que foi por minha causa. Mario já se voltara duas vezes (só mais tarde, muito mais tarde, ficamos íntimos, e como! Qui, qui, qui!), eu estava três filas atrás dos dois, e perguntara se a fumaça estava incomodando. Fiz-me de desentendida, que não sou de falar ou ir com qualquer um, mesmo que se chame Vargas Llosa ou García Márquez. Como resposta, ouvi um palavrão. Gabor, hoje eu sei que foi Gabor, tomou-lhe satisfação e, não a tendo, deu-lhe uma - com o perdão da má palavra - porrada na cara. Daí saí correndo e mais não vi. Mais tarde, em casa de amiga, escrevi um conto a respeito. Foi incrível! Publicaram no Brasil dois meses depois."

Depoimento de um coronel ao qual ninguém escreve, 107 anos presumíveis.

"Hein? O quê? Fale mais alto. Minha memória já não é mais o que era. A crise de Suez, disse você? Pois não. Foi lá pelos idos de 1962 e o presidente americano, Harvey de Tal, se não me engano, quase bombardeia de forma atômica Costa Rica. Ou Honduras. Uma dessas calouras fuleiras que insistem em nos imitar. Era um tempo irado, cheio de ventos, mas eu vivia razoavelmente com os cobres de minha pensão. Dava para servir um café às visitas, coisa que hoje, como está vendo, me é difícil. Naquela época era muito perigoso falar em política, principalmente nas alfaiatarias. Não me pergunte por quê. Somos estranhos como as éguas que, por motivo algum, relincham no meio da noite. Quando sair sua revistinha, promete me mandar um exemplar?"

Depoimento de Juan ******, 68 anos, autor não-publicado.

"Prefiro o anonimato. Prefiro também a prosa de Carlos Fuentes à dos dois paspalhões que brigavam por uma guimba de charuto. Em Fuentes, uma sentença começa com a simplicidade de um ovo. Depois, bica sua existência até adquirir asas, parte meio sem jeito para o vôo, encontra sua corrente de ar, onde respira e navega, forma seu verbo como se o tivesse catado em vegetação próxima, junta-o a advérbios e adjetivos boiando em poças d'água da redondeza, esquiva-se das armas furtivas dos caçadores, passa com desdém diante das fuças dos cães que o buscam, mergulha numa lagoa, sai com um sujeito no bico e um predicado preciso numa das garras, para finalmente pousar e - surpresa - ver-se no caso acusativo. Escrever é isso. É Fuentes. Colombianos correm do pau e se aviltam diante do primeiro socialismo que lhe fizer cócegas no ego. Peruano? Só rindo. Por que acha que a expressão "não há cu de peruano que agüente" surgiu? Não há de ter sido por nada. Brigaram os beldroegas por analfabetismo e desmesurada ambição política. Vargas Llosa presidente do Peru! Só rindo, só rindo."

Depoimento de 14 putas tristes, entre 70 e 80 anos, várias esquinas.

"Nós sempre vemos juntas Casablanca quando passam. Nesse dia a que o senhor se refere éramos 25. Todas pagamos entrada, sim senhor, apesar do gerente ter feito proposta indecorosa, ainda que interessante. Trabalho é trabalho, arte é arte. Choramos então, choramos hoje, nós que sobramos. Quando el negro Sam cantava aquela canção, o senhor sabe qual é, nesse pedaço não dublavam. Nos derretíamos feito manteiga. Hoje igualzinho. Esses dois marmanjos de que o senhor fala estavam rindo na hora que el Umfrey pede para ele tocar a música para ele. Nós reclamamos em alto e bom som. Apesar de parecerem gente fina, nos responderam com palavras cabeludas, expressões de baixo calão. Erêndira, que era da pá virada e vivia com o pito aceso - tinha uns olhos azuis que só vendo! -, partiu para cima dos dois e, se o baleiro não separasse, o mais magrinho teria se machucado, está sabendo? O mais baixinho e forte estava com o pau para fora. Parecia um taco de beisebol: grande, grosso, uma loucura! Esse comigo não teria vez, por dinheiro algum. Não quero falar mal de ninguém, que isso foi há muito tempo, mas eu gostaria de saber o que é que os dois estavam fazendo naquela hora da tarde num cinema vagabundo. Me explica isso?, o senhor que me parece pessoa de instrução. Essa vida tem cada uma. Durma-se com um barulho desses. Ou não se durma. O senhor sabe onde eu quero chegar, não sabe?"

****

E aí está, leitor amigo. Agora você está de posse dos dados que conseguimos, num louvável esforço de reportagem, obter. (Sorry, o baleiro também sumiu, como se a terra o tivesse tragado.) Não foi mole, como diria uma dessas senhoras da última entrevista. Salientamos que todo esse texto é uma seleção de longos depoimentos, muitos deles sofridos, realizados nas mais precárias das condições. A Cidade do México lembra o que vai ser, mais uns aninhos, o Rio de Janeiro. Ou São Paulo. Dizem. Forme agora sua opinião. Escreva para os escribas em questão. Blogueie, se for essa a sua. Veja de novo Casablanca, se achar que vale a pena. O que não pode, mas não pode mesmo, é ficar aí feito um idiota só lendo, lendo e lendo. Vá até a esquina, dê um passeio ou ainda... convide um amigão, desses do peito, para ir com você, de tarde, a um cineminha, depois de tomar umas e outras. Veja, por exemplo... Não. O programa eu deixo com você. Digo, vocês".

Ivan Lessa

Nota: Gabo faleceu hoje. link

abril 05, 2014

Os russos


"O professor de geografia do oitavo ano revelou à turma que a palavra lucro vem de outra, logro, que quer dizer roubo.
- Todo lucro é roubo.-concluiu.
Impressionada, a classe se debruçou sobre o tema, usando como exemplo uma carrocinha de pipoca. Se o dono da carroça empregar alguém para remexer a panela e tirar disso o seu sustento, estará se apropriando do esforço alheio, o que é reprovável.
Meu filho, presente em sala, se mostrou avesso à ideia de que o investimento não merece retorno. Mas, assim como na redução lógica do professor havia uma condenação moral embutida, a rejeição do menino trazia outro exagero. A feroz defesa que fez do livre mercado soava algo reacionária.
Me formei em escolas liberais da zona sul do Rio de Janeiro.
A anistia aconteceu no primeiro ano do meu secundário. Livres da ditadura, que exilou intelectuais, artistas, militantes e catedráticos de esquerda, os professores ganharam o direito de falar abertamente, em sala, sobre as suas convicções políticas.
A liberdade de expressão foi uma conquista inestimável.
Nas matérias de história e geografia, em especial, combatia-se o fatalismo do subdesenvolvimento com a aversão ao imperialismo. A direita, os milicos e os americanos encarnavam os cavaleiros do nosso Apocalipse.
Trinta e quatro anos distanciam a minha sétima série do oitavo ano do meu filho. Na época, a divisão entre capitalismo e comunismo ainda era clara, não mais.
A competitividade econômica do oeste revelou-se eficaz e foi adotada pelo igualitarismo vermelho do leste; mas a especulação financeira, que culminou com a bancarrota de 2008, foi paga pelo Estado. Acabaram-se, assim, as fronteiras que separavam um lado do muro do outro.
Você pode argumentar que, para ensinar, é preciso partir dos fundamentos; que só é possível entender o atual paradoxo depois de expor aos imberbes os ideais puros nos quais se baseiam ambas correntes.
Mas 50 anos depois do golpe, 40 depois da anistia, 30 da perestroika, 20 do Real e 12 da eleição do PT, eu guardo a suspeita de que o Brasil é um país que se situa em algum lugar entre a "Veja" e a "Carta Capital". Entre o meu filho e o professor dele.
No capítulo 11 da parte seis de "Anna Kariênina", Liévin - o único personagem imune ao traço de reprovação cômica com que Tolstói descreve o resto dos abastados - fala do desprezo que sente pela elegância custosa dos grandes centros e da sua admiração pelos mujiques do campo.
Em uma caçada na companhia de dois hedonistas natos, parentes chiques de São Petersburgo, a conversa recai sobre a decência e o lucro.
Depois de desdenhar da iniciativa privada, o jovem fazendeiro defende que o único ganho legítimo é aquele adquirido através não da astúcia de terceiros, mas da força do trabalhador.
- Qualquer lucro que não corresponda a um trabalho investido é desonesto -afirma ele.
A mesma explanação do mestre de geografia do fundamental 2 proferida ali, pelo herói russo, meio século antes dos caipiras da revolução bolchevique varrerem do mapa os entediados condes, duques e princesas do romance.
A literatura me veio como solução.
Tolstói se vale de igual conceito, mas o enriquece de figuras que negam, rebatem, discutem. A contradição humana é o narrador. Se o objetivo é ampliar os horizontes do aluno para que ele forme uma visão mais completa do mundo, não conheço cartilha melhor.
A provocação do professor, sem o contexto, soa como doutrina, e nenhuma doutrina sobreviveu às últimas intempéries.
Hoje, é quase impossível discernir movimento de classe de manobra política; interesse partidário de real empenho pela população. Não defendo que um guri de 14 anos dê conta de "Guerra e Paz", mas um capítulo já faria efeito.
A opinião do educador, se proferida por Liévin, traria maior resultado; a pilhéria do cunhado perdulário, que sugere que o parente acabe com a culpa doando a fazenda aos empregados, enriqueceria a discussão, e os 137 anos que separam a adúltera de Tolstói dos jovens cariocas dariam a perspectiva histórica da reflexão.
A arte é um sério antídoto contra as certezas.
E uma baita aliada da educação."

FERNANDA TORRES

fevereiro 06, 2014

Rolezinhos



"Na Europa da minha juventude, não havia shopping centers - e, se não me engano, isso não mudou. Havia, isso sim, lojas de departamentos: a Rinascente em Milão, Harrods em Londres e, em Paris, o Bazar de l'Hôtel de Ville, a Samaritaine, as Galeries Lafayette, o Bon Marché.
As lojas de departamentos são os primeiros grandes templos do consumo, como Zola contou deliciosamente no "Paraíso das Damas". Nelas, pode haver um café/restaurante no último andar, mas não há uma área de alimentação, nem cinemas, nem teatros: são lugares funcionais --para comprar, não para passear. Ninguém, em Milão, teria a ideia de dar um rolê na Rinascente. O rolê seria no Corso Vittorio Emanuele, fora da loja.
Em Manhattan também há lojas de departamentos (Saks, Lord and Taylor, Bergdorf, Barneys, Bloomingdale's, Macy's etc.), mas não são lugares para rolê - eventualmente, para expedições quase militares em dia de liquidações anuais. O único shopping center de Manhattan é o Manhattan Mall, do qual, aliás, os nova-iorquinos tendem a fugir.
Nas áreas suburbanas e rurais dos EUA, os shopping centers se parecem com os do Brasil. Mesmo assim, foi no Brasil que eu aprendi que dar rolês em shopping é um programa. Passeamos pelos shoppings, e não é para comprar nem para lamber vitrines. Por quê, então?
Uma amiga me diz que ela passeia pelos shoppings para ter a impressão de estar fora do Brasil, ou seja, num espaço público que não seja ansiógeno e violento. Claro, é uma ilusão fugaz; basta olhar para as vitrines para constatar que tudo é brutalmente mais caro do que no exterior --pelos impostos, pela produtividade medíocre ou pela corrupção endêmica, tanto faz. Mesmo assim, insiste minha amiga, a ilusão de civilidade é um alívio.
Hoje, à brutalidade de impostos, corrupção e mediocridade produtiva acrescentam-se os "rolezinhos" dos jovens da periferia. O que eles querem, afinal?
Talvez eles gostem de apavorar. Não seria de se estranhar. É um axioma: para quem vive na incerteza (de seu status, do reconhecimento dos outros, de seu lugar no mundo), apavorar é um jeito de encontrar no medo dos outros uma confirmação de sua própria relevância. Apavoro, logo existo: espelho-me na preocupação dos seguranças e na cara fechada dos clientes que voltam correndo para o estacionamento.
Mas apavorar é um efeito colateral. Os jovens dos "rolezinhos" pedem sobretudo uma bola branca: a admissão ao clube. A prova, a roupa que eles preferem e que grita para ser reconhecida como luxo.
Tudo bem, alguém perguntará, eles pedem acesso a quê? À classe privilegiada? Ao consumo de quem tem grana?
Não acredito em nada disso, aposto que eles pedem acesso ao próprio lugar para o qual eles vão: eles pedem acesso ao shopping. O que esse lugar tem de mágico? De desejável? Qual é seu valor simbólico?
Na nossa cultura (justamente pela quase inexistência de espaços públicos minimamente frequentáveis, ou seja, pelo horror que a rua é para todos, ricos e pobres), os shoppings integram a lista histórica dos refúgios.
Ao longo da história, nem todos os refúgios foram democráticos. Na época de minha adolescência, discutia-se para saber quem ganharia um lugar no refúgio antiatômico (os critérios eram variados, mas, por exemplo, a idade avançada não era um ponto a favor). Mais tarde se discutia para saber quem subiria na única nave espacial que levaria um grupo seleto para outro planeta, visto que a morte da Terra ou do Sol era próxima e inelutável --apreciem minha coragem: para as duas seleções, escolher ciências exatas seria uma vantagem considerável.
Mas, antes disso tudo, houve uma época em que os refúgios eram abertos. Por exemplo, as igrejas em épocas de pestilência ou de invasão por exércitos saqueadores: todos podiam entrar. Duvido que eles acreditassem numa intervenção milagrosa que salvasse a todos, mas a própria civilidade do ato de rezar em comum era provavelmente um gesto de resistência contra a barbárie, que reinava lá fora.
Agora, o primeiro refúgio da história foi elitista: na Arca de Noé, era só um casal por espécie, e uma família de humanos, a do próprio Noé.
Falando nisso, como é que funcionou a Arca de Noé? Os lobos, as hienas, os chacais etc. declararam trégua e comeram só sucrilhos durante o tempo das águas ou então, irresistivelmente, eles comiam um cordeiro ou um bezerro de vez em quando?"


CONTARDO CALLIGARIS

fevereiro 05, 2014

Henfil 70 Anos


O cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil - Divulgação


Se estivesse vivo, Henrique de Souza Filho faria 70 anos hoje. Quem? Henfil, ora! Quem não o conheceu em sua época? Afinal, seu traço rápido e cheio de movimento deu origem a personagens que entraram para o imaginário brasileiro nos anos 70 em especial: a Graúna, o bode Francisco Orellana, o cangaceiro Zeferino, os Fradinhos. Henfil foi superconhecido de uma geração que ficava esperando, com água na boca, seus novos cartuns.
Com seus personagens, Henfil brincava com os estereótipos. Graúna, o Cangaceiro e o bode, por exemplo, apareciam sempre em trio. O cangaceiro Zeferino era um clichê do nordestino machista e violento. Graúna era analfabeta, mas de inteligência viva. Ela poderia encarnar aquilo que Ariano Suassuna definiu em seu Auto da Compadecida: “a esperteza é a coragem do pobre”. O bode Orellana ironizava o intelectual livresco (a comida preferida do bode eram os livros), com muita cultura, porém com profunda ignorância das condições reais em que vivia o povo e como ele pensava.
Com essa trinca, Henfil comentava a situação do País, que vivia sob uma férrea ditadura. No caso, captava a situação do interior nordestino, a caatinga, a indústria da seca, o coronelismo e o mandonismo da região, com seus próceres sempre alinhados com o governo. Afinal, lucravam muito à custa da miséria alheia. Continuam lucrando, aliás.
O traço rápido e irreverente de Henfil era sua forma de pensar um Brasil cuja luz no fim do túnel podia ser a de um trem vindo em direção contrária, como dizia outro mestre do humor, Millôr. Corajoso e ácido, fustigava a ditadura através das brechas deixadas pela censura, mas não poupava quem a combatia de forma romântica e idealizada. Daí a implicância com a oposição livresca, que caracterizou no bode Orellana, com seu apetite por celulose e o chapeuzinho coco na cabeça.
O medo generalizado de viver sob um regime autoritário era expresso através de outro dos seus personagens, Ubaldo, o Paranoico, que, como o nome diz, tinha medo de tudo, até do que não precisava ter. Mas, como lembrava seu autor, mesmo os paranoicos às vezes têm seus perseguidores reais. O medo existia e, embora paralisante, tinha raízes no mundo real, na sociedade que não oferecia garantias individuais contra a prepotência, em especial depois da decretação do Ato Institucional n.º 5 em dezembro de 1968.
Essas frestas da ditadura, Henfil ocupava alegremente, por assim dizer. São antológicos alguns dos seus desenhos no Pasquim, o famoso “hebdô”, que marcou a renovação da linguagem jornalística do País. O Pasca tirou a gravata do texto e do desenho com um time brilhante e afiado: Millôr, Ziraldo, Jaguar, Paulo Francis, Ivan Lessa, Sérgio Augusto e, claro, Henfil. O espírito da coisa era oralidade nos textos, desenvoltura nos desenhos e senso crítico sem complacência. Era o lugar ideal para cada um, e, em especial, para o mineirinho Henfil, que chegou ao Rio para bagunçar o coreto.

Alguns dos seus desenhos no Pasquim são antológicos. Criou uma série que era dinamite pura, intitulada O Sobrevivente. Tinha desenhos como um assaltante esfaqueando uma velhinha para roubar-lhe a bolsa, um empresário da construção civil dirigindo-se a um operário caído do andaime, um urubu comendo o fígado de um condenado, um avião americano lançando bombas sobre vietnamitas. A fala dos protagonistas de cada cartum era sempre a mesma: “Tenho de sobreviver, entende?”. No caos gerado pela ditadura, sobrevivência era a palavra de ordem. E os patifes a invocavam para justificar seus atos.
Não poupava ninguém. Criou, também no Pasquim, um “cemitério dos mortos-vivos”, aCasa do Caboco Mamadô, no qual enterrava os dedos-duros. Gente do meio artístico que supostamente teria se passado para o lado da ditadura e denunciado colegas. Na época, havia uma definição muito clara entre o “lado bom” e o outro, que ficava a favor de um governo ilegítimo, que perseguia, prendia, torturava e matava. Esse, digamos assim, maniqueísmo, tinha sua justificativa histórica numa época em que a maior parte da sociedade civil vivia farta da ditadura e ansiava pela volta da democracia.
Se os militares eram os vilões no campo interno, os Estados Unidos eram o alvo, no externo. Henfil, como toda a esquerda, via com péssimos olhos o intervencionismo americano em vários países do mundo, e exultou quando o Vietnã venceu a guerra. A mais improvável das vitórias, um povo corajoso de um país minúsculo botando para fora do seu território a maior potência do mundo. Henfil saúda o fato com um desenho em que Henry Kissinger conversa com um vietcongue e lhe diz: “Vamos sair, mas é uma retirada honrosa, viu? Não precisa empurrar!”. Enquanto fala, o exército americano bate em retirada, com o rabo entre as pernas.

Esse era o espírito da época. Mas Henfil também gozava a própria formação religiosa, travada e autoritária, que trazia como herança de Minas Gerais. Daí a dupla de frades, um o oposto do outro. Um baixinho, outro comprido. Um sádico e safado, o outro querendo dar uma de santarrão. Por isso, o frade Cumprido era sempre vítima do Baixim. O Cumprido diz que devemos amar a todos como irmãos. O baixinho reaparece com um mendigo sujo e malcheiroso e dá a ordem: “Abraça o irmão!”. Os Fradinhos tinham de ser dois. O alto representava as boas maneiras e os bons princípios, um verniz de civilidade que não aguentava grandes contrariedades da vida real. Já o baixinho era o instinto puro. Sádico, sensual e debochado. A tal ponto que, ao vê-lo feliz, o Cumprido já imagina com medo o que ele teria aprontado: “Internei a minha mãe no pronto-socorro público”.

Enfim, a crítica, sempre ligada nos problemas do País. Fossem os problemas macro, como a ditadura e a economia voltada para as classes ricas, ou suas consequências, como o mau atendimento nos hospitais, a carestia ou o desemprego, Henfil estava sempre de olho. Foi desses artistas ligados em seu tempo e com aguda consciência política do seu trabalho. É dele o slogan Diretas-Já para a campanha para as eleições presidenciais pelo voto popular em 1984. Como se sabe, a emenda das diretas não passou e o primeiro presidente civil após o golpe, Tancredo Neves, foi eleito pelo Colégio Eleitoral. Henfil morreria de aids em 1988, aos 43 anos, contaminado por uma das inúmeras transfusões de sangue tomadas para combater a hemofilia.

De que lado estaria hoje? Difícil dizer e nunca é prudente falar em nome dos mortos. Mas por certo estaria espicaçando algum poderoso.




‘Fradim’ de volta às prateleiras 
Uma parceria entre a ONG Henfil e o Instituto Henfil está viabilizando a reedição das 31 revistas Fradim, publicadas por Henfil entre os anos de 1971 e 1980. Os primeiros títulos ficaram prontos em setembro, e mais de uma dezena deles está à venda exclusivamente pela internet (no site www.lojavirtual.cursinhohenfil.org.br). A coleção deve estar completa até o fim do semestre. Um apanhado geral da material, que resgata os personagens clássicos de Henfil, pode ser conferido em Número Zero, uma edição especial feita para marcar o projeto de reedição.

Luiz Zanin Oricchio

fevereiro 04, 2014

Igualdade no Panthéon



"Aos grandes homens a pátria agradecida", diz o lema sobre a entrada do Panthéon, o monumento francês a algumas das figuras mais importantes do país. E isso suscita uma pergunta: e as "grandes mulheres"?
Embora os tempos tenham mudado desde que o Panthéon foi concluído, em 1790, a escolha das pessoas que devem ser sepultadas aqui, assim como o lema, não reflete essas mudanças.
De acordo com a tradição, cada presidente francês tem a honra de transferir uma figura notável falecida para a estrutura, ao lado de Voltaire e Rousseau (que se detestavam), Victor Hugo e Marie Curie, a única mulher entre as 73 pessoas sepultadas no local a estar ali por mérito próprio (a outra mulher no Panthéon foi incluída por insistência de seu marido). Assim, quando o presidente François Hollande pediu ao público sugestões sobre quem incluir, não surpreendeu que o debate tivesse rapidamente se voltado à questão de corrigir o desequilíbrio de gênero.
A equipe do presidente e Philippe Bélaval, diretor do Centro de Monumentos Nacionais, foram inundados de recomendações com nomes de mulheres importantes para serem sepultadas no Panthéon.
Grupos formados por organizações feministas no Facebook atraíram milhares de votos em favor de mulheres. E, quando a revista "Le Point" fez uma pesquisa com 5.000 pessoas, duas mulheres receberam o maior número de votos: a anarquista e professora Louise Michel, que viveu no século 19, e irmã Emanuelle, freira que passou a maior parte da vida na Turquia e no Egito, entre os pobres, e tinha posição liberal quanto ao uso de anticoncepcionais.
No ano passado, manifestantes diante do Panthéon ergueram retratos de Olympe de Gouges, ativista dos direitos das mulheres e adversária da escravidão, que era legal nas colônias francesas na época em que ela viveu.
Outra candidata potencial é Simone de Beauvoir, intelectual e teórica política. Muitos na França a consideram tão importante quanto seu amigo e eventual companheiro Jean-Paul Sartre, segundo Gwladys Bernard, da organização feminista La Barbe.
Mulheres que foram ativas na resistência francesa ao nazismo são citadas com frequência. É o caso de Germaine Tillion, intelectual e etnógrafa que foi enviada ao campo de concentração de Ravensbrück, e de Lucie Aubrac, cujas tramas ousadas para salvar seu marido judeu e outros prisioneiros dão uma leitura fascinante.
Uma decisão deve ser anunciada em fevereiro.
As mulheres conquistaram o direito ao voto na França apenas em 1944, quase 40 anos depois da Finlândia e 25 anos depois da Alemanha e do Reino Unido. E, diferentemente do Reino Unido, da Alemanha e da Dinamarca, a França ainda não elegeu uma líder mulher.
Completado no início da Revolução Francesa, o Panthéon já foi visto por muitos como uma estrutura divisionista. Para muitos que eram a favor do velho regime ou de aspectos dele, o monumento teria sido dedicado à esquerda política.
A historiadora Mona Ozouf disse que a inclusão de mulheres pode ajudar a reforçar o status do Panthéon como monumento nacional, não apenas político. Para ela, as pessoas sepultadas ali devem ser vistas como fonte de inspiração para os cidadãos franceses.

ALISSA J. RUBIN 

janeiro 31, 2014

A Vênus das Peles



Vénus de Vison é o retrato mordaz de um autor atraiçoado pela própria criação.
....
"Para além das excelentes personagens, a longa-metragem de Polanski destaca-se igualmente pelos pequenos pormenores como os objectos invisíveis que se revelam através dos sons, genialmente presentes. Sabemos onde está a chávena, o pires ou a colher mesmo sem os ver. Ao mesmo tempo, tecnicamente, o realizador movimenta-se como ninguém num único espaço, coloca-nos muitas vezes na pele de Vanda - o início e final do filme são os exemplos mais flagrantes e que aguçam o carácter quase imaginário da personagem -, a fotografia de Pawel Edelman joga com luz e sombra tão perfeitamente como Vanda sabe iluminar o palco do teatro perante o olhar incrédulo de Thomas. A acompanhar toda a atmosfera teatral e dominadora - até do espectador - está a delicada e muito adequada banda sonora de Alexandre Desplat". (AQUI)




"LEOPOLD VON SACHER-MASOCH nasceu em 1836 na cidade de Lemberg,situada na Galícia, província ao sul da Polônia que, desde 1772, estava incorporada ao Império Austro-Húngaro. Hoje sua terra natal fica em território ucraniano. Entretanto,definia-se a si mesmo como alemão, invocando sua identidade com a língua germânica, ria qual pensava e "sentia". Tal identidade não impediu que sua verdadeira terra, a Galícia e os legendários Cárpatos, fossem o cenário de seus primeiros escritos, que ainda guardavam um caráter regionalista. Filho de família aristocrática, aprendeu empequeno o francês, língua em que se alfabetizou juntamente com o alemão, para enfimestudar filosofia e ciências. Desde cedo alimentou o sonho de se tornar um escritorimportante e reconhecido. Para tanto, elaborou o projeto de publicação de um conjuntode livros que se chamaria O legado de Caim, no qual retrataria aspectos da condição humana. Esse tema era, de fato, o que mais o instigava, e que viria a ser o motor de suaprodução literária. Tanto que o presente romance, A Vênus das peles, foi a obra que o imortalizou, exatamente por abordar, de modo direto e corajoso, em um aspecto tão misterioso e intrigante da alma humana que é o prazer sensual que se pode extrair do sofrimento.
0 masoquismo, como ficou conhecida essa tendência, é algo que desafia toda lógica utilitarista ou biológica, oferecendo-se como um dos enigmas mais formidáveis dos aspectos trágico e simbólico da condição humana.A curiosa história de Severin, que se faz escravizar por Wanda, contém os mais diversos ingredientes da paixão encerrada pelo sofrimento físico e moral. Descerra, de maneira explícita e detalhada, o universo das fantasias poderosas que nutrem a paixão e regem aquela excitação que se condiciona aos sofrimentos físico e moral.
Deixar-se amarrar e ser chicoteado pela amante corresponde ao primeiro; obedecê-la cegamente, deixar-se humilhar por ela, entregar-se-lhe como posse e, requinte da fantasia, assisti-la entregar-se a outro amante, corresponde ao segundo. Mais do que retirar o véu que costuma cobrir as fantasias mais estranhas e secretas, o texto de Masoch põe em marcha as ações necessárias a sua consubstanciação, ali condensadas no instituto emblemático do contrato.
Antes da publicação de A Vênus das peles,
Sacher-Masoch já era um escritor conhecido por diversas obras, entre as quais se destacava o livro
Conto galiciano,de 1858. Mas sua consagração como escritor maior viria com a publicação de romances que, embora pudessem ser vistos como obras sentimentais por olhos ingênuos ou desavisados, não tardaram a ser identificados como portadores de um plus de erotismo que transcendia os romances tradicionais. A partir daí, ele passou a ser visto primordialmente como um escritor maldito.Entretanto, por uma ironia, a fama que auferiu na qualidade de escritor seria sobrepujada por aquela que adveio da utilização de seu próprio nome na invenção da palavra masoquismo.
Justa ou injustamente, Masoch passou a ser mais conhecido conhecido como aquele escritor que emprestou seu nome a este termo do vocabulário psiquiátrico do que pela sua própria obra. Vamos aos fatos".

Flávio Carvalho Ferraz  ( Introdução)  Link para a   continuação

janeiro 19, 2014

Nem todos dizem "eu te amo"


"Prêmio especial dado ao cineasta Woody Allen na cerimônia do Globo de Ouro, há uma semana, gerou protestos de Mia, sua ex-mulher, e de Ronan Farrow, filho do casal, nas redes sociais. Acusado por ambos de pedofilia e incesto, Allen é notório exemplo de que a arte não deve ser avaliada pela vida de quem a produz.
No domingo último, na entrega do prêmio Globo de Ouro a figurões do cinema, em Los Angeles, havia um prêmio especial para Woody Allen. Como sempre, ele não foi recebê-lo pessoalmente. A tarefa coube a Diane Keaton, sua ex-namorada, amiga e atriz. Quem assistia à cerimônia pela TV e fazia comentários pelas redes "sociais" era a ex-mulher de Woody, a também atriz Mia Farrow. Ao ouvir o nome de Woody Allen, ela escreveu: "Hora de pegar um sorvete e mudar de canal para assistir a Girls'".
Seu filho com Woody, Ronan, 26 anos, foi mais enfático: "Perdi a homenagem a Woody Allen", escreveu. "Eles colocaram a parte em que uma mulher confirmou publicamente que ele a molestou aos sete anos?".
Os comentários se referem a um escândalo de 1992 envolvendo Woody Allen, Mia Farrow e seus filhos naturais e adotivos --os dois formavam um casal, embora não fossem casados e vivessem em apartamentos separados, em Nova York. Como muitos usuários dessas redes ainda não eram nascidos quando a história aconteceu, é provável que as mensagens tenham caído no vazio. Mas ainda há quem se lembre.
Em janeiro daquele ano, ao visitar o apartamento de Woody na Quinta Avenida com ele ausente, Mia encontrou fotos de sua filha adotiva, a coreana Soon-Yi, nua e em poses sensuais. O choque foi grande --Woody era um pedófilo, seduzira sua filha, 37 anos mais nova do que ele. Foi esta a versão que, pouco depois, em seu apartamento no outro lado do Central Park, Mia apresentou para seus dez filhos --nove adotivos, um deles a pequena Dylan, de 7 anos, e o que tivera com Woody, Ronan (então chamado Satchel), 4. O caso foi para os tribunais, onde aflorou a chocante acusação de que Woody também abusara sexualmente de Dylan.
Pode-se imaginar a repercussão desse julgamento. Woody e Mia já tinham feito 13 filmes juntos, entre os quais três dos maiores da carreira do diretor, como "A Rosa Púrpura do Cairo" (1985), "Hannah e Suas Irmãs" (1986) e "A Era do Rádio" (1987). As plateias tendiam a identificá-lo com seu personagem nas telas --o homem tímido e inseguro, mas decente e digno de proteção. Mia, ex-mulher de Frank Sinatra e do compositor e pianista André Previn, também renascera para o mundo: depois de uma estreia explosiva como protagonista em "O Bebê de Rosemary", de 1968, eclipsara-se e só se provara de novo uma atriz sensível e competente nos filmes de Woody. Era um relacionamento perfeito. Por que aquilo estava acontecendo?
Nos seis meses que durou o julgamento, sobraram versões e contraversões que deixaram todo mundo mal. Mia teria inventado a história de Dylan para se vingar de Woody por ele a ter trocado por Soon-Yi. Woody e Mia estariam juntos apenas formalmente, porque a vida sexual entre ambos acabara desde que ela tivera Satchel em 1987. Mia seria uma neurótica, dada a tentar salvar seus casamentos adotando crianças asiáticas e africanas, física ou mentalmente deficientes --mas como ser uma boa mãe para dez filhos ao mesmo tempo, cada qual falando uma língua? E, quanto a casos com homens maduros, ela própria tinha o que contar: aos 21 anos, em 1966, casara-se com Sinatra, 51. "Algumas gravatas de Frank são mais velhas do que Mia", disse um amigo do cantor.
O casamento durou apenas dois anos, em parte porque Mia nunca quis aprender a cozinhar macarrão. Em 1969, ela tomou André Previn de sua amiga Dory Previn, que tinha o dobro de sua idade. Com Previn, Mia começou seu programa de adoção em massa de crianças do Terceiro Mundo, o que levou alguém a defini-la como "baby-sitter da Unicef".
REPUTAÇÃO As acusações abalaram também a reputação de Woody. Ao rever seus filmes, as pessoas se deram conta de que, em vários deles, algum de seus personagens faz sexo com a enteada, a cunhada, a mulher do amigo, a sogra e até com uma ovelha (Gene Wilder, em "Tudo o que Você sempre Quis Saber sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar", 1972). E, claro, havia "Manhattan" (1979), que trata de seu romance com a adolescente Tracy, vivida por Mariel Hemingway. A própria Tracy seria baseada em Stacey --atenção para a sonoridade-- Nelkin, uma menina de 17 anos que ele teria namorado em 1976 e que faz uma ponta em "Annie Hall" ("Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", 1977).
Mas, se Allen podia ser um pedófilo e incestuoso --como Mia o acusou no tribunal--, não seria com Soon-Yi, porque ela tinha 18 anos em 1992 e não era sua filha, nem adotiva. Era uma moça feita e ambiciosa, queria ser atriz ou modelo. Woody tinha 56 anos, mas essa diferença era pouco maior que a de Sinatra para Mia em 1966. Quanto à outra história, bem mais grave, Mia nunca conseguiu provar que Woody tivesse molestado Dylan.
Quando isso estava acontecendo, há 22 anos, eu próprio comecei a achar que era o fim de Woody Allen. Seus filmes tinham prestígio, mas não eram sucessos comerciais. As plateias não o perdoariam e seus financiadores iriam abandoná-lo. Havia um precedente triste: o caso de "Fatty" Arbuckle (1887-1933), um dos grandes da comédia muda, mestre de Buster Keaton e amado pelo público. Uma garota de programa morreu numa orgia promovida por ele num hotel em San Francisco, em 1921. Depois de três julgamentos, "Fatty" saiu inocentado e o tribunal lhe pediu perdão. Mas o público nunca mais quis saber dele.
O caso de "Fatty" Arbuckle foi uma exceção. Charles Chaplin, Carlitos (1889-1977), ainda mais querido, foi a julgamento em 1944 nos EUA por tráfico de brancas e saiu quase sem arranhões. Entre muitos outros, o poeta François Villon (1431-63) conheceu longamente a prisão por assassinato; o Marquês de Sade (1740-1814), por libertinagem; o também poeta Paul Verlaine (1844-96), por tentar matar seu namorado Rimbaud; o teatrólogo e "wit" Oscar Wilde (1854-1900), por homossexualismo; o contista O. Henry (1862-1910), por latrocínio; e o romancista e teatrólogo Jean Genet (1910-86), por renitente vadiagem. Alguns morreram em função da prisão, outros a superaram em vida mesmo, e todos foram reabilitados pela posteridade. O próprio Sinatra levou a vida sob suspeita de ligações com a máfia, mas qual de seus fãs se importava com isto?
O britânico P.G. Wodehouse (1881-1975), um dos humoristas mais adoráveis do século 20, colaborou por ingenuidade com os nazistas na ocupação de Paris na Segunda Guerra e foi preso pelos aliados. Mas acabou perdoado --ninguém podia passar sem seu delicioso personagem, o mordomo Jeeves. O poeta americano Ezra Pound (1885-1972), declaradamente torcedor do fascismo, também foi preso e condenado por traição no pós-Guerra, mas fosse você perguntar a Augusto e Haroldo de Campos e a Décio Pignatari --e à maioria dos grandes poetas internacionais-- se isto lhes fazia diferença.
E o racista e antissemita Richard Wagner (1813-83), cuja música embalava Hitler e pode ter sido tocada em campos de concentração na Alemanha? Nunca foi tão admirado quanto hoje. O francês Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) era igualmente antissemita, o que nunca turvou a apreciação mundial por seu romance "Viagem ao Fim da Noite" (1932). E ninguém desconhece a história do cineasta Elia Kazan (1909-2003), que entregou nomes no macarthismo e carregou para sempre a pecha de dedo-duro --o que não o impediu de continuar trabalhando e fazer grandes filmes, como "Sindicato de Ladrões" (1954), "Vidas Amargas" (1955) e "Terra do Sonho Distante" (1963).
Esses nomes são sempre citados quando se discute se a estatura da obra de arte deve ser medida pela largura ou fundura do artista. A resposta, pelo visto, é não --ou não necessariamente -, mesmo quando se refere ao pensamento puro. Vide Martin Heidegger (1889-1976), já estabelecido como o filósofo do século quando se descobriu que fora também nazista.
Woody Allen, embora um caminhão lhe tenha passado por cima, não foi destruído pelo escândalo. Levantou-se, voltou a produzir e já fez 22 filmes desde então. Todos continuam a querê-lo --inclusive o Rio, que lhe acena com milhões para que venha filmar aqui. Na vida real, ele também vai bem: casou-se em 1997 com Soon-Yi e estão juntos até hoje, com duas filhas adotivas.
Mia Farrow não se conforma. Há meses, deixou escapar numa entrevista que Ronan "poderia ser filho de Sinatra", não de Woody. E, de fato, pelas fotos do garoto, isso parece uma certeza - os mesmos olhos azuis, a boca insolente, o rosto desafiador. Para Mia, que melhor vingança contra Woody do que, tantos anos depois, insinuar que o corneou?
Mia só se esquece de que, em 1986, quando isso teria acontecido, ela estava com 41 anos. E Sinatra, com 71. Não apenas Soon-Yi via nos coroas o ó do borogodó".

RUY CASTRO

dezembro 28, 2013

Quanto tempo devemos cochilar para obter mais descanso e benefícios cerebrais?


"Você já deve ter ouvido falar dos benefícios de tirar uma soneca. Esse tempo breve de sono tem um efeito semelhante ao de reiniciar seu cérebro, te dando mais ânimo para prosseguir com as atividades do dia. Mas um cochilo pode ser tanto uma arte quanto uma ciência. 
O jornal “The Wall Street Journal” oferece recomendações para o planejamento de sua soneca perfeita, incluindo por quanto tempo de tirar um cochilo e quando.
Os especialistas em sono entrevistados para o artigo dizem que um cochilo de energia de 10 a 20 minutos lhe dará a melhor performance para o trabalho. Porém, dependendo do que você quer que o cochilo faça por você, outras durações podem ser o ideal.

Cochilos nos ajudam a pensar melhor

Para um rápido impulso de alerta, os especialistas dizem que um cochilo de 10 a 20 minutos é suficiente para voltar a trabalhar em um instante. Essa duração normalmente lhe limita a estágios mais leves do sono de movimento não rápido dos olhos (NREM, do inglês “non-rapid eye movement”), tornando mais fácil levantar-se imediatamente depois de acordar.
Para o processamento de memória cognitiva, no entanto, uma soneca de 60 minutos pode ser melhor, explicou a médica Sara Mednick, especialista em problemas do sono e autora do livro “Take a Nap!” (“Tire um cochilo!”, em tradução livre). Incluir o sono de ondas lentas, o tipo mais profundo, ajuda a lembrar de fatos, lugares e rostos. A desvantagem: alguma sonolência ao acordar.
Finalmente, o cochilo de 90 minutos provavelmente envolverá um ciclo completo de sono, o que ajuda a criatividade e a memória emocional e processual, tais como aprender a andar de bicicleta.
Acordar após o sono REM (sigla do inglês para “rapid eye movement”; em português, “movimento rápido dos olhos”) geralmente significa uma quantidade mínima de inércia do sono, garante a médica.

Um cochilo melhora a sua memória – mas só se você sonhar

Além dessas recomendações, uma sugestão surpreendente é tirar a sua soneca em uma posição que fique sentado, com a coluna ligeiramente ereta. Isto irá ajudar a evitar um sono profundo. Cochilos com duração de 30 minutos também devem ser evitados, já que o deixariam “no meio do caminho”, com uma sensação de embriaguez e desnorteamento que pode chegar a durar outros 30 minutos depois de acordar até que os efeitos restauradores do descanso sejam sentidos. E se você se encontrar sonhando durante seus cochilos de energia, pode ser um sinal de que você está privado de sono.
Agora que já sabemos quanto tempo nossos cochilos devem durar, resta saber o melhor momento do dia para apelar para esse relaxamento. Sara desenvolveu uma roda interativa que nos permite descobrir o horário ideal para o nosso cochilo, de acordo com os nossos hábitos diários. Clicando neste link, você pode interagir com a Nap Wheel (em inglês).

Mito ou realidade: precisamos de 8 horas de sono por noite?

Para saber qual é a hora da sua soneca, arraste o ponteiro central, da “hora de despertar”, até o horário em que você normalmente acorda. Ao abrir o site, o ponteiro estará indicando 7h da manhã. Em seguida, é só seguir as horas no sentido horário até chegar ao ponto do dia em que as esferas do sono REM (azul) e a do sono de ondas lentas (amarelas) se cruzam. No caso dos que acordam às 7h, este momento é às 2h da tarde.
Segundo Sara, esta é uma estado perfeitamente equilibrado em que o REM e sono de ondas lentas são igualmente proporcionados e no qual “A Melhor Soneca de Todas” ocorre. Cochilos ocorridos antes deste ponto de passagem terão mais REM, e cochilos que ocorrem após terão mais ondas lentas. [Life Hacker]

Os belos dias

Os Belos Dias é um filme simpático que inspira, não só aos mais velhos, mas a todos que gostam de sonhar.  Baseado no romance "Une jeune fille aux cheveux blancs", de Fanny Chesnel e dirigido por Marion Vernoux, o longa-metragem, de pouco mais de 90 minutos, conta a estória de Caroline, uma dentista recém-aposentada, cuja melhor amiga acabara de morrer de câncer.


Seu marido e filhas,  preocupados com a sua aparente apatia, a presenteiam com uma matrícula temporária em um clube especial: Os Belos Dias (uma metáfora irônica).

O "clube", na verdade, é uma espécie de recanto para a terceira idade, onde vários tipos de entretenimento são oferecidos aos frequentadores: cursos de teatro, informática, cerâmica, dança. Como sói acontecer, os "velhos" são tratados como se fossem idiotas ao que ela reage, veementemente, retirando-se, logo no primeiro dia,  do curso de teatro.
Porém, estando com dificuldade em solucionar um problema de informática, busca o instrutor desta área e nele encontra muito mais do que esperava... 

Caroline, então com 60 anos, acaba vivendo um tórrido affair com o jovem que tem a idade de suas filhas, colocando à prova um futuro que parecia não lhe reservar nenhuma surpresa.
Fanny Ardant é o ponto alto do filme. Construído de uma maneira muito delicada, como talvez só uma diretora soubesse fazê-lo.




dezembro 27, 2013

Filmes para gente grande



"Em geral, nesta época do ano, somos invadidos pelos filmes aos quais é possível assistir em família, com as crianças. De fato, para muitos, no dia 25, uma sessão coletiva de cinema é um alívio –uma trégua silenciosa depois do interminável (e, às vezes, penoso) almoço de Natal.
No entanto, aleluia: nestas últimas semanas chegaram ao menos três filmes que são para gente grande: "Jovem e Bela", de François Ozon, "Azul É a Cor Mais Quente", de Abdellatif Kechiche, e "A Grande Beleza", de Paolo Sorrentino.
Nenhum deles é para famílias na tarde de Natal; suponho que seja por isso que muitos sentiram a necessidade de se defender contra os três, com unhas e dentes.

Sobre "Jovem e Bela", já escrevi (http://migre.me/h8kKP). É um filme tocante e verdadeiro sobre uma adolescente que, na fantasia e na prática da prostituição, encontra um caminho para crescer.
Houve quem conseguisse declarar, sem muita coerência, que 1) ninguém tem fantasia de prostituição (oh, dó!), 2) quem tem essa fantasia não a pratica (oh, dó!), e 3) se alguém a tem e a pratica, certamente não é adolescente de classe média (oh, mais dó!).
O filme é imperdível –especialmente para quem tiver interesse em entender a grandeza e a coragem da experiência adolescente, com ou sem prostituição.
Com "Azul É a Cor Mais Quente", que é a história da paixão entre duas jovens mulheres, aconteceu que muitos, comovidos (a contragosto?) pelo filme, afirmaram que ele merece ser visto por ser uma grande história de amor, perda, dor e separação. O fato de que o amor em questão seja entre duas mulheres seria, em suma, sem relevância.
Ou seja, assista ao filme, mas, para apreciá-lo, esqueça-se de que se trata de duas mulheres. Acreditarei na boa fé desses comentários quando as mesmas pessoas, escrevendo sobre "Romeu e Julieta", acharem oportuno observar: pouco importa que se trate de um jovem moço e de uma menina, poderiam ser dois homens ou duas mulheres, o que importa são os sentimentos.

Mas quero falar de "A Grande Beleza", que acaba de estrear. A reação de defesa, nesse caso, consistiu em ler o filme como uma crítica moral ao mundo que ele apresenta.
No passado, Jep Gambardella (o extraordinário Toni Servillo) escreveu um romance que teve um certo sucesso, mas que ele mesmo considera pouco relevante. Ele vive numa Roma rica e mundana, decidida a se convencer de que ela está se divertindo muito.
Alguns dizem que o filme retrata a decadência da Itália. O que sobrou da grandeza passada são as artes da vaidade –a moda, o design, o estilo: somos os reis do supérfluo. Outros saem do cinema convencidos de que Sorrentino, como eles, tem ojeriza pela vida "vã" do protagonista. Jep trabalha pouco, vira as noites, bebe além do devido: ele é fútil.
Mas não é bem assim. Marcello, o protagonista de "A Doce Vida", de Fellini, ele, sim, era um desadaptado na futilidade de Roma (e do mundo): esperava reencontrar uma inocência perdida e escrever enfim algo que valesse a pena.
O espírito de Jep (e de Sorrentino) é outro. Tem mais a ver com a elegância e a coragem da bandinha que continuou tocando enquanto o Titanic afundava. Em Roma isso tem um sentido especial: a festa continuou com os bárbaros às portas; e ela continua agora que os bárbaros já chegaram há tempos. É uma prova de decadência? Ou de sabedoria?
Aos olhos dos engajados (como Stefania, no filme), Jep talvez pareça desprezivelmente cínico. Mas ele é o último dos românticos, que vive como se a única resposta honesta ao vazio do mundo fosse a fragilidade da beleza: a beleza de Roma ou a de um terno perfeitamente cortado, tanto faz.
São desculpas pela futilidade? Talvez. Mas, cuidado, uma vida fútil poderia ser a única maneira de não mascarar a futilidade da vida. Qual é o efeito moral certo do "lembre-se da morte"? Ou melhor, qual é o melhor jeito de se lembrar da morte? Uma austeridade sisuda ou, ao contrário, o difícil exercício de não levar a vida a sério?
Criança, nos anos 1950, assisti a "O Salário do Medo", de Clouzot. Ainda hoje me lembro que o piloto (Mario?) de um dos caminhões de dinamite, fadados a explodir, enquanto se barbeava, dizia que, se ele tiver que morrer, queria ao menos ter uma aparência decente.
"A Grande Beleza" é um dos nove filmes pré-selecionados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Torço por ele.
Para os amigos filósofos, uma sugestão (já antiga): "Aesthetics and Ethics: Essays at the Intersection", de J. Levinson (Cambridge)".

Contardo Calligaris

dezembro 12, 2013

Está todo mundo deprimido


Está todo mundo deprimido, a felicidade foi embora.
Se em uma reunião pudéssemos fazer raios-X das bolsas e dos bolsos, encontraríamos, entre os gêneros de primeira portabilidade, comprimidos de antidepressivos. O que antes tinha emprego discreto, hoje virou conversa de salão. Discute-se qual medicamento cada um toma, como reagiu, há quanto tempo, se o genérico substitui bem o oficial e por aí vai. E se a fala corre solta, sem o comedimento anterior, é porque uma forte propaganda convenceu muita gente de que a depressão é uma doença como outra qualquer, como quebrar o braço em um acidente ou contrair malária. Essa propaganda de fortes coloridos interesseiros da indústria farmacêutica, associada a uma medicina que se orgulha em ser baseada em evidências – aquela em que o médico não dá um passo sem pedir um monte de exames – veiculou a ideia de que você não tem nada a ver com a sua depressão, que os sentimentos são cientificamente mensuráveis e, em decorrência, controláveis.
Sobre isso, Heiddeger contava uma história engraçada. Dizia que um cientista afoito em provar suas teses de medição da felicidade e da tristeza, começou a visitar os velórios de sua cidade carregando tubos de ensaio, nos quais recolhia a quantidade de lágrimas que viúvos vertem a cada três minutos. Podemos imaginar a cena!
Mutadis mutandis, se alguém já viu um interrogatório desses que querem medir o estado depressivo – com algumas nobres exceções - verá que é difícil escapar de ser tachado de doente, quando perguntas como essas lhe são dirigidas, simultaneamente: -“Você tem dormido pouco, ultimamente?”, ou: -“Você tem dormido muito, ultimamente?”. 
Por que essa euforia da depressão? Será mesmo, como muitos respondem, por uma desregulação dos níveis do neurotransmissor serotonina? A serotonina ficou até popular, todo mundo fala dela como do colesterol. Ela é íntima. Agora, por que a serotonina ficou alterada de repente em tanta gente? Alguma epidemia viral de vírus anti-serotonina ou coisa que o valha? Não parece.
Prefiro pensar que se há muita depressão – lato sensu – é porque sofremos uma revolução dos parâmetros que atuam na formação da identidade. Na saída da sociedade moderna para a pós-moderna, não temos mais termômetros de certo e errado que serviam para as pessoas se orientarem se estavam bem ou mal. Com o fim desse maniqueísmo, nossos tempos exigem maior responsabilidade individual no seu bem estar. Aí, muitos fraquejam. Dou um exemplo simples: uma pessoa cruza com um conhecido na rua e o cumprimenta. O outro não responde e segue seu caminho. Qual a primeira pergunta que vem na cabeça de quem fez o cumprimento? O que vem é: -“O que foi que eu fiz?”, no sentido de uma bobagem que ele teria cometido motivo da falta de resposta ao cumprimento. Quando a identidade, como nesse caso, titubeia, ela se regenera, paradoxalmente, na auto-depreciação. Daí para se sentir deprimido é um pequeno passo. E, para complementar a receita, como estamos na época da medicalização da vida, na qual se acredita que para tudo tem remédio, pronto, tasca antidepressivo nele.
Triste tempo esse, realmente, em que tentam dessubjetivar a responsabilidade pessoal frente aos sentimentos. Mas não vai funcionar, como nunca funcionou na história da humanidade quando já tentaram amordaçar o desejo humano.
Ser feliz dá um trabalho danado, chega até a assustar, mas não mata não".

Jorge Forbes