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novembro 03, 2013

Sob nova orientação


"Talvez a tarde amena e clara, que se firmou depois de uns chuvisquinhos matinais, tenha contribuído para a placidez quase silenciosa, então reinante entre os frequentadores do boteco. Nenhuma novidade. O pessoal do cânter, já disposto nas mesas mais próximas da calçada, apreciava, com animação discreta, a passagem de moças e senhoras indo e vindo da praia, "potrancas esplendorosas, cujo baloiçar de ancas sublimes transporta o homem aos píncaros do delírio erótico, ai se eu pudesse dar uma alisadinha em cada uma", no dizer arrebatado do doutor Amoroso, que não por acaso ostenta este cognome. Em mesas bem próximas, Dick Primavera, diante de um notebook e três celulares, harmonizava, com a desenvoltura costumeira, seus múltiplos afazeres comerciais com o atendimento à extensa rede de admiradoras, sempre em busca de alguns minutos de seu tempo; Coração de Leão descrevia em minúcias seus mais recentes achaques, que incluem quase todas as doenças do catálogo médico que ele sempre consulta; doutor Leo Bom Gogó anunciava que vai puxar dois sambas e uma marchinha no próximo carnaval e ainda dispunha de um dia livre na agenda.
Tudo, portanto, na mesma de sempre, com a importante exceção da ausência, já pelo terceiro domingo consecutivo, do sempre aguerrido comandante Borges. Andaria, talvez, às voltas com o aperfeiçoamento do notório Plano Borges? Envolvera-se em algum duelo, dos muitos para os quais desafiara os insolentes? Ainda se dedicava a estudar os prós e contras da forca e da guilhotina, como métodos de combate à corrupção na vida pública?
- Nada disso - disse ele, com um risinho maroto, depois de cumprimentar todos individualmente e beijar com elegância as mãos das senhoras. - Eu tirei um tempo para namorar, tinha até esquecido como é, perdi ritmo de jogo. E eu sou velho, mas ainda tenho mercado, não envergonho.
- Mas que grande notícia! Vai trazer a namorada aqui, para apresentar?
- Não, não vou, já desisti, a degenerescência é total.
- A degenerescência? As mulheres...
- Não quero entrar em detalhes, os detalhes são inúmeros e de ordem muito diversa. Por exemplo, eu tenho posição firmada e fundamentada, quanto a essa questão dos pelos pubianos. Parece besteira, mas não é, é muito importante para a simbologia do amor, eu acho isso que está acontecendo uma irresponsabilidade muito séria, estão mexendo com a sobrevivência da espécie.
- Mas não há um certo exagero nisso? Quer dizer...
- Não pode raspar tudo e fazer plástica! Descaracteriza toda a área, como se fosse a casa da mãe Joana, aquilo ali não é qualquer lugar, pense bem, é patrimônio da Humanidade! É muito pior que construção sem licença ambiental, muitíssimo pior! Abala todo o inconsciente humano! Não pode! Não pode, é um crime! Chega! A testa é falsificada, o queixo é falsificado, a boca é falsificada, o pescoço é falsificado, os peitos são falsificados, a bunda é falsificada, as panturrilhas são falsificadas, as coxas são falsificadas e agora a zona básica de operações é falsificada! Não pode! Esse território é importante demais para ficar a cargo das mulheres, elas não entendem nada disso! Ainda mais essas mulheres irresponsáveis e inconsequentes, cujo primeiro gesto é patolar o indivíduo e cujo primeiro papo é sobre as preferências dela na cama! Todo mundo já viu todas as mulheres nuas, mostrando até as amídalas, não está certo! Não se pode aceitar uma coisa destas sem revolta! É caso de revolta popular! Revolta! Sedição! Fuzilamento! Às galés! Não pode, eu, eu...
- Calma, comandante, tome fôlego, olhe a apoplexia outra vez.
- Vocês me provocam. Não falo mais no assunto, sou um cavalheiro.
- É verdade. Acho que esta é a primeira vez em que você entrou aqui sem abordar os grandes problemas brasileiros.
- Ah, isso é passado. Esse negócio de falar no Brasil, me aborrecer à toa, não, isso é passado. Outro dia eu pensei e vi que não tem mais Brasil, a gente acha que tem porque se viciou, mas não tem mais. Veja esse rapaz sergipano que agora recusou a seleção brasileira e vai jogar pela Espanha. Você já pensou isso em 1960? Ele só não seria linchado porque todo mundo ia concluir que era um louco. Agora não, agora não tem mais país mesmo, não tem seleção como antes, todo mundo joga igual, não tem nem país do futebol, é tudo repetição besta, futebol aqui dá prejuízo, lá fora dá muito lucro e futebol é grana e grana não tem nacionalidade. Não tem essa besteira de Brasil-Brasil-Brasil, isso é coisa para os iludidos de minha marca, que agora estão abrindo os olhos. Agora tem o Brasil das mulheres e o Brasil dos homens até nos discursos das autoridades, o Brasil dos negros, o Brasil dos brancos e o Brasil dos pardos, o Brasil dos héteros e o Brasil dos gays, o Brasil dos evangélicos e o Brasil dos católicos, Brasil com bolsa família e Brasil sem bolsa família e nem sei mais quantas categorias, tudo dividido direitinho e entremeado de animosidades, todo mundo agora dispõe de várias categorias para odiar! A depender do caso, o sujeito está mais para uma delas do que para essa conversa de Brasil, esquece esse negócio de Brasil, não tem mais nada disso!
- Também não é assim, comandante. Lembre-se das manifestações.
- Por que é que eu vou me lembrar, se ninguém mais se lembra? Ninguém me pega com isso, já estou em outra. Agora estou escolhendo em qual dos Brasis vou ficar, não posso mais perder tempo.
- Já tem algum em vista?
- Já. O dos ladrões. Tem muita concorrência, mas é o que oferece mais futuro e segurança. Você entende alguma coisa de formação de quadrilha?"

JOÃO UBALDO RIBEIRO

outubro 27, 2013

Mentindo em Berlim, sem meias



"A tecnologia cibernética e a globalização dificultam muito a vida dos escritores viajantes, cujos veneráveis patronos talvez sejam Heródoto, Marco Polo e, no caso da língua portuguesa, o grande Fernão Mendes Pinto, também ingratamente conhecido como "Fernão, Mentes". Era muito bom, quando se podiam fazer relatos assombrosos de monstros marinhos que engoliam navios inteiros sem mastigar, reis e imperadores que moravam em palácios de ouro maciço, rinocerontes voadores e portentos para qualquer gosto ou fantasia. Sumiram até mesmo os mentirosos de renome local, como os de Itaparica, hoje reduzidos a uma meia dúzia desalentada, que não pode competir com a tevê e mal reúne plateias minúsculas de dois ou três gatos-pingados, mesmo assim descrentes, desrespeitosas e contestadoras, que duvidam até de façanhas singelas, como a descrita numa das histórias contadas pelo finado Lamartine. O tocante episódio teve início quando o papagaio de Lamartine, presente da sua dele santa esposa, a também saudosa dona Naninha, fugiu de casa, onde vivia solto, poucas semanas antes de seu dono chegar à então avançada idade de sessenta anos, ocasião festiva para todos.
Para todos, mas não mais para Lamartine. O papagaio, fluente em várias línguas, cantor, imitador e assoviador exímio, cujo fino trato social se invejava até em círculos elevados, era o grande companheiro de Lamartine, parceiro de conversa e de observação do cotidiano, autor de chistes memoráveis e ditos até hoje celebrados, amigo de todas as horas. Mas, num inacreditável assomo de apunhalante ingratidão, não apareceu para o papo das cinco da manhã e, depois de toda a ilha procurar, dias seguidos, saber inutilmente de seu paradeiro, concluiu-se que havia fugido para sempre, abandonando, de maneira infame e reprovável, o amigo de tantos anos. Nem mesmo as artes sedutoras de alguma papagaia mais da pá virada podiam ser responsabilizadas, porque Jefferson, o papagaio, que por sinal era o rei do baixo linguajar, estava cansado de saber que qualquer papagaia, ou mesmo mais de uma, por mais safadinha que fosse, teria boa acolhida na casa do amigo, sem perguntas ou cobranças.
Não, não era aquilo, era ingratidão mesmo, privação dos sentidos, ou até demonstração de fraqueza de caráter e maus princípios, forçoso reconhecer. Apesar de dona Naninha ter organizado uma festança de aniversário, Lamartine fazia o possível, mas não conseguia sufocar a dor da traição. Na festa, dava um sorrisinho chocho aqui e ali, só por boa educação, e fingia contentamento, mas a tristeza era invencível. E estava assim sorumbático, encostado numa das coluninhas do alpendre, quando, bem do lado de onde sopra o apreciado vento nordeste, entre fiapinhos de nuvens alvas lá em cima e frondes de coqueiros cá embaixo, começa a ouvir-se uma espécie de crá-crá-crá longínquo, que logo se torna mais próximo, ao tempo em que, em harmonioso roteiro sobre os contornos da Ponta de Nossa Senhora, um verdadeiro esquadrão de papagaios, com um líder à frente, adeja gracioso na direção da varanda de Lamartine, cantando, em tom afinadíssimo, a música apropriada para o momento.
Sim, é o que vocês estão pensando. O irrepreensível Jefferson não desertara seu amigo Lamartine, nem tampouco se enrabichara por uma papagaia-dama, das muitas que por aí batem asas ao léu. Evidente que essas suposições eram falsas. Como pensam mal os que não conhecem a grandeza de coração e a devoção das amizades verdadeiras! Ele, sem dizer nada, para não estragar a surpresa, voara um belo dia para os matos, antes do amanhecer, a fim de realizar seu plano. Com o prestígio que tinha, não tardou a organizar um enorme coral de papagaios. E foi assim, todos ensaiados, que fizeram a revoada em torno da casa de Lamartine, cantando - adivinharam outra vez - "parabéns pra você". Homem não chora, mas dessa vez ele chorou. E Jefferson voltou para seu poleiro, onde permaneceu até a morte de Lamartine, pois todo mundo sabe que papagaio pode viver oitenta anos, mas não resiste à morte do dono.
É triste supor que muitos de vocês, quem sabe a maioria, não acreditam nesta história. Eu acredito; era menino, quando ouvi Lamartine contá-la e, nesse tempo, essas coisas podiam acontecer. Xepa me disse que acharam uma foto de outro tatu sendo fisgado, desta vez no Baiaco. É o terceiro, só nos últimos dois anos, e há os que acreditam que a pesca do tatu será regulamentada, mais cedo ou mais tarde, com multa de tatu e taxa de tatu. Mas, mesmo que a existência dessa foto se confirme, novamente vai ser desacreditada, nestes tempos céticos de factoides, photoshop e armações na internet.
Aqui, neste quarto de hotel em Berlim, não me ocorre uma única mentirinha decente para lhes contar, sem ser imediatamente desmoralizado. Mas invoco o fantasma de Lamartine, que, aliás, viu muitos, e ele me acode. Não apareceu pessoalmente, mas acho que me soprou a lembrança de que já ouvi vários conhecidos e até motoristas de táxi exclamarem "ohne Strümpfe!" ("sem meias!"), ao perceberem que não estou usando meias. Espantam-se porque não sinto frio. É verdade, circulei uma semana inteira por aqui, encasacado, mas sem meias. Bobagem, dirão os de má vontade, também não faz tanto frio lá, nesta época do ano. Ao que retrucarei que já morei em Berlim e saía sem meias no inverno. Pronto, eis aí uma bela notícia para as páginas de ciência dos jornais: há indivíduos que não usam meias no inverno do centro da Europa sem problemas, exceto, vez por outra, serem vistos como meio grossos - e eu sou um exemplo vivo, pois até patinar descalço no gelo garanto que posso encarar. Claro, há sempre a possibilidade de algum desmancha-prazeres entre vocês querer que eu faça uma demonstração no próximo inverno, mas aí eu desconverso e nego tudo, tenho aprendido com os bons exemplos".

JOÃO UBALDO RIBEIRO


julho 19, 2012

Transtornos e desordens


"De uns tempos para cá, é cada vez mais forte a tendência a não se ver o indivíduo como responsável pelos próprios atos. No terreno da ciência social esquerdoide, o sujeito é assaltante porque lhe faltaram oportunidades, não teve educação, vive numa sociedade consumista, foi vítima de bullying e mais quantos indicadores se concebam, em pesquisas cujos resultados são definidos pela própria formulação e, muitas vezes, não passam de manipulações pseudoestatísticas, destituídas de base sólida. Enxergam-se relações de causa e efeito inexistentes, que resistem até mesmo à óbvia verdade de que a ampla maioria dos que enfrentaram e enfrentam essas situações não é de delinquentes.
No terreno da psicanálise de boteco, o sujeito surra mulher e filhos porque foi também surrado, principalmente pela mãe. Ou - pois a psicanálise de boteco tem o condão de adaptar suas explicações e a causa que, num exemplo, surte determinado efeito em outro surte efeito contrário - porque não foi surrado e nem sequer advertido e, assim negligenciado pela mãe, nutre amor e ódio pela figura materna, na qual desconta seus recalques baixando a porrada na santa mãe de seus filhos, os quais também apanham porque dividem as atenções da dita figura materna. Ou qualquer outra especulação asnática, das muitas que volta e meia ainda ouvimos.
Agora, por meio da entusiástica colaboração de cientistas, psiquiatras e, principalmente, fabricantes de drogas psicoativas, vamos ingressar definitivamente na era em que qualquer comportamento ou qualquer emoção serão vistos como uma doença mental, no sentido mais lato do termo. Aliás, pouco se tem usado a expressão "doença mental". O chique agora, que repetimos como papagaios bem ensinados, é "transtorno", "desordem" ou "distúrbio". Sabemos que certamente a maioria dos psiquiatros e das psiquiatras, bem como a maioria dos cientistos e cientistas, embora talvez não a maioria dos fabricantes e fabricantas de drogas, não é constituída de enganadores venais e inescrupulosos, que tomam dinheiro dos fabricantes para promover a vendagem bilionária de remédios. Mas muitos e muitas são (está certo, vou parar com este negócio de flexionar os gêneros de tudo, sei que é chato; mas é só porque quero mostrar como certas coisas enfeiam e aleijam nossa já tão perseguida língua portuguesa) e a bandidagem deles combinada vai de vento em popa.
O número de transtornos e desordens aumenta exponencialmente e já se observou que, anunciado um novo mal, de que antes não havia relato, logo surgem novos "pacientes", gente que agora padece de síndromes também antes nunca descritas. E os males do espírito, digamos, muitas vezes não geram sintomas físicos, ou, se geram, são de difícil definição etiológica, de forma que o diagnóstico vira conceitual e subjetivo: eu acho que você está deprimido porque acho que seu quadro configura o que eu acho que é depressão.
Não há mais preguiça, há transtornos ou desordens de atenção, de motivação, de interação social, de tudo o que se possa imaginar. Não há mais agressividade, rudeza no trato, timidez, temperamento calado, nada disso, só há transtornos e desordens. Quando expira a patente de uma droga, seu fabricante se apressa a criar, novamente com a ardorosa colaboração de cientistas e psiquiatras contratados ou subvencionados generosamente, uma nova doença, a que a mesma droga se aplique, mudando apenas de nome. Emoções antes normais em qualquer ser humano podem facilmente revelar-se transtornos ou desordens, conforme o freguês e a moda psiquiátrica corrente. Não se fica mais triste, fica-se deprimido. Não se fica mais ansioso pela antecipação de alguma coisa, fica-se com distúrbios de ansiedade. E para tudo há uma pílula.
Claro, chegaremos, se já não chegamos e ainda não nos demos conta, ao ponto em que todo indivíduo, se confrontado com um hipotético "padrão normal", será portador de vários transtornos, distúrbios e desordens. Qualquer acontecimento que afete suas emoções, seu estado de ânimo ou mesmo seu bem-estar físico deverá ser objeto de controle medicamentoso. Posso até imaginar que talvez já exista, e no futuro poderá prosperar, a figura do PP, o Personal Psychiatrist, não para receitar ou atender no consultório seu cliente milionário, mas para acompanhá-lo ao longo de todo o dia, ministrando-lhe a droga apropriada para a manifestação de qualquer de seus inúmeros distúrbios.
A infância, com a falsa descoberta de um número alarmante de bebês portadores de transtorno bipolar, passou a ser uma doença. Assim como, com toda a certeza, a puberdade, a adolescência, a jovem maturidade, a meia-idade e a velhice. Tudo doença, é claro, bola nisso tudo, bola em toda a existência, você é que pensa que é sadio, é porque não procurou direito sua doença. E, aliás, sugere a prudência que escolhamos logo nossos transtornos, desordens e distúrbios, porque do contrário poderemos estar sujeitos a que escolham por nós. E ninguém escapará, porque o objetivo é englobar toda a Humanidade.
O problema não é a ciência decretar que, de uma forma ou de outra, somos todos malucos. Isso todo mundo às vezes pensa. O problema é quando decidem qual é a nossa maluquice e nos forçam a uma "normalidade" que não queremos e não temos por que aceitar. A chancela da ciência pode ser adulterada. E não é impossível que, em determinadas situações, divergências com o Estado, ou com grupos de poder, acarretem muito mais que censura às artes e à imprensa. Podemos ser forçados a agir "normalmente" e considerados insanos, se discordarmos da normalidade oficial. Na União Soviética, houve tempo em que quem divergia do Estado era carimbado como doido varrido e encafuado num hospício. Tenho medo de não me encaixar na portaria da Anvisa que defina a normalidade e ser obrigado a tomar um Abestalhol por dia".
João Ubaldo Ribeiro

junho 24, 2012

O sonho da blindagem própria


"Antigamente, desde os bons tempos do Banco Nacional da Habitação, no século passado, falava-se muito no sonho da casa própria, todo mundo tinha o sonho da casa própria. Hoje, quase não se escuta mais a expressão. Imagino que é porque, como verificamos todos os dias em comerciais de televisão e pronunciamentos oficiais, o governo já resolveu o problema da moradia. Os brasileiros (e brasileiras, vivo esquecendo a nova regra; atualmente, falou no macho, tem que falar na fêmea e, portanto, acostumemo-nos: alunos e alunas das escolas públicas, passageiros e passageiras do voo tal, cavalos e éguas do Jockey Club, cachorros e cadelas do Kennel Club, motoristos e motoristas, fisioterapeutos e fisioterapeutas, governantes e governantas, delinquentes e delinquentas, etc.), os brasileiros e brasileiras, dizia eu, agora são mostrados em filmetes radiosos, cheios de dentes, envergando trajes impecáveis e estampando nos rostos a felicidade. Como os demais compatriotas e compatriotos seus, já moram em espaçosas casas próprias, com área de lazer, esgoto tratado, água encanada, transporte acessível, assistência médica e tudo mais que os governos fazem pelo bem público, com os quatro ou cinco meses de nossos salários que na marra afanam. Abate-se o porcentual normal de ladroagem, de desperdício e de propaganda e o que sobra, embora por vezes não muito, é rigorosamente aplicado em investimentos e serviços públicos.
O sonho da casa própria chega perto da obsolescência (perdão por estes novos parênteses, sei que são chatos e sinal de má escrita, mas é somente uma coisinha rápida: alguma entidade malévola me sugeriu escrever "obsoletibilizado", mas segurei a mão a tempo - deve ser porque, não faz muito, ouvi entrevistados na televisão dizendo "proporcionabiliza" e "originalizou", esse negócio pega), mas outro vem ocupar seu lugar, ditado pela eterna insatisfação do brasileiro, que, depois de conseguir uma casa, ainda quer ter o direito de que ninguém a invada para furtar, violentar ou matar. Por essa razão, meu palpite, também baseado em diversas notícias e reportagens que vêm circulando, é que abraçaremos um novo sonho, bem mais moderno, qual seja o sonho da blindagem própria. O Brasil está assumindo a liderança mundial, não só na fabricação e utilização de blindagens de todos os tipos, como no desenvolvimento de tecnologias avançadas, já se prevendo a formação de uma vastíssima cadeia produtiva e comercial.
Creio que a novidade começou em São Paulo, que é onde mora o dinheiro, mas está se espalhando por todo o País. Primeiro vieram os automóveis, cujos fabricantes, em breve, certamente oferecerão (perdão mais uma vez, mas aproveito para conclamar a solidariedade dos amigos, admiradores e usuários do operoso verbo "oferecer", ora vivendo seus últimos dias esquecido e abandonado, pois que ninguém mais oferece nada e, sim, disponibiliza) modelos blindados, diretamente da linha de montagem. E algum empreendedor pode estar pensando em fechar um convênio com o Exército, para produzir a versão civil do Urutu. Blindam-se vitrines, vidraças, guichês, portarias, bilheterias, portas, paredes e, enfim, praticamente tudo. O número de firmas especializadas aumenta, o de técnicos também, declara-se um boom do blindado.
E, diz aqui um jornal, a novidade mais palpitante, no panorama geral da blindagem, é o cada vez mais cobiçado quarto do pânico. Não basta que o edifício tenha garagem, portaria e elevador blindados e que as portas e janelas do apartamento também sejam blindadas. O indispensável agora é o quarto do pânico, bastante inspirado nos abrigos contra armas nucleares que os americanos construíam no quintal, na época da Guerra Fria. No caso dos apartamentos brasileiros, é facilmente previsível uma, digamos, mudança de paradigma. As antigas dependências de empregadas, cada vez mais inúteis, agora terão seu espaço reservado para o quarto de pânico.
Nunca vi um quarto de pânico, mas sei que o essencial, evidentemente, é total blindagem contra ataques de fora. Podem atirar, tocar fogo, meter o pé de cabra à vontade, que não entram. E, lá dentro, tudo depende da imaginação e, principalmente, do dinheiro do dono. Água encanada e banheiro, claro, geladeira, alimentos para alguns dias, equipamento de comunicação com o exterior, ar condicionado, televisão e o que mais se queira. A ideia, me parece, é, ao acontecer no edifício um arrastão, ninguém ficar nervoso por causa de uma ameaça afinal tão corriqueira quanto um jacaré no Pantanal. Os moradores ganham tempo com suas portas blindadas e se socam no quarto do pânico durante dias, se for necessário, até se assegurarem de que podem sair em segurança.
Para os e as que têm muito medo de assaltos ou já passaram por um, as perspectivas não deixam de ser alvissareiras. A classe média deverá contentar-se com apenas um quarto de pânico básico, modelo econômico, mas capaz de enfrentar comodamente um arrastão de até uma semana. Já os ricos e ricas poderão ter, não quartos, mas apartamentos de pânico. Ou edifícios de pânico, ou condomínios de luxo de pânico, quarteirões de pânico, bairros de pânico. O sujeito ou a sujeita que bolar e patentear um restaurante de pânico fica milionário ou milionária, porque é meio estressante o que está acontecendo com quem vai jantar fora, sabendo que vai, mas não sabendo se volta, como os que embarcavam numa caravela do tempo de Pedro Álvares. Melhor dizendo, quem souber aproveitar as oportunidades vai dar-se bem. As perspectivas são bastante mais promissoras do que se houvesse um plano nacional de segurança pública, como muitos e muitas reclamam, sem enxergar que a blindagem gera emprego e renda, de longe superando as ações de segurança pública. E quem quiser segurança terá toda a liberdade para nunca sair do seu quarto de pânico".
João Ubaldo Ribeiro

junho 15, 2012

Momentos históricos

"Esta vida de saltimbanco das letras às vezes me dá uns sustos. Antigamente, escritor só precisava escrever. Hoje, suspeito que as editoras, em breve, passarão a exigir dele diplomas de marketing, habilidades de vendedor e proficiência em conferências e entrevistas. Some-se a isso a apregoada morte dos direitos autorais e poderão vir aí aulas de canto, dança, sapateado, piadas, violão, piano, mágica, leitura de bola de cristal e o que mais possa entreter uma plateia exigente, a ponto de ela aceitar pagar para ver o escritor. Foi o que sugeriu um advogado da abolição dos direitos autorais. Indagado como os escritores iriam sobreviver sem remuneração, o reformista retrucou, com um certo desdém por lhe haver sido feita indagação tão destituída de importância, que eles poderiam sustentar-se por meio de aparições públicas, em shows, espetáculos e o que mais lhes parecesse poder render uns trocados. Com os livros pirateados de todas as formas, desde xerox até cópias baixadas gratuitamente da internet, se tornará comum um livro ser lido por milhões de pessoas, e vender em um ano uns 80 exemplares, de maneira que, para defender a verba do supermercado, é melhor que o escritor se adapte aos novos tempos.
Creio que o grande público se aliará a essas mudanças, porque se sabe que, na opinião mais corrente, os escritores não trabalham. Discam um 0-800 da vida, cujo número completo não revelam nem sob tortura, que lhes fornece um canal inspirador, o qual eles só fazem escutar e transcrever, para depois algum infeliz revisar e publicar. Além disso, como se lê sempre nos jornais, vendem suas garatujas para Hollywood e ganham US$ 10 milhões com o primeiro livro, passando então a viver como a gente também vê em filmes americanos, ou seja dormindo com nove em cada dez estrelas de cinema, promovendo bacanais, acendendo charutos com notas de mil euros e fretando aviões para levar os amigos a uma tourada em Madri e esticar no mesmo dia, para um bistrô de outro amigo em Paris, onde cada um receberá de brinde uma trufa branca de R$ 10 mil o quilo, com a farra terminando somente no dia em que o escritor precisar de mais US$ 10 milhões e passar uma semana ocupado na preparação de novo sucesso hollywoodiano.
Para os que ainda não pegaram o dinheiro de Hollywood, a rotina deverá ser menos opulenta, mas não obstante atraente. Os editores se transformarão em empresários de espetáculos e os escritores terão um sem-número de vias para defender a graninha do supermercado e já posso ver os cartazes, em teatros, auditórios, circos, escolas e onde quer que haja espaço para a literatura. O romancista e sua harpa paraguaia, com a participação de Los Guaranis de Mossoró! O contista lerá de graça as mãos de quem comprar um livro (comprando três, o leitor terá direito a quiromancia para toda a família)! Hoje, sensacional strip-tease de três poetisas na Livraria Fuzarca, entrada franca para quem declamar de cor uma quadrinha de uma delas!
Vivendo entre essas perspectivas, que às vezes são levemente inquietantes, é natural que eu ontem tenha tomado um dos sustos a que me referi. Acordei cedo e demorei bastante para entender por que a cama me parecia diferente e a paisagem pela janela também. Só muito gradualmente fui lembrando que não estou no Rio, mas em Londres. Que é que eu vim fazer em Londres, meu Deus do céu? Num lento esforço de reportagem tentei voltar gradualmente à realidade. Vasculhei a mente. Não podia ser a demonstração de capoeira, fui reprovado no exame final e tenho de fazer cinco anos de reciclagem. E Canetinha e Lapiseira, a dupla sertaneja que pretendo integrar, com um parceiro cujo nome o contrato ainda não permite divulgar, mas vai ser uma bomba, ainda está nos acertos preliminares. Mas Londres?
Na mesa de cabeceira, um lembrete escrito me deu novo susto. Um amigo meu que mora em Londres ia passar daí a pouco, para me levar a Covent Garden. Covent Garden, onde os artistas de rua tradicionalmente fazem seus exibições, para depois passar o chapéu entre os espectadores. A idade opera misérias e, pelo visto, me haviam designado para uma demonstração de xaxado enquanto tentariam empurrar meus livros e, falhando isto, recorreriam ao chapéu, começo de carreira é isso mesmo, não se pode rejeitar nada.
Mas, por não ter trazido as alpercatas e o chapéu de cangaceiro, fiquei preocupado com um fiasco e telefonei para o amigo. Ele logo me tranquilizou. Que é isso, nada disso, eu tinha vindo fazer uma palestra, ainda não cheguei ao estrelato do xaxado. E a palestra ainda estava no estágio de abotoar os passantes e oferecer uma caipirinha grátis a quem topasse comparecer, isso era trabalho para os promoters. Por enquanto íamos somente dar umas voltas pelo centro e apreciar algumas das muitas comemorações de rua com que os ingleses marcavam os 60 anos de reinado de Elizabeth II.
Logo estávamos circulando, as ruas fervilhando, tudo fervilhando. Andando à toa, chegamos ao Palácio de Buckingham e paramos em frente. Desde a rainha Victoria, ele estava ali, quanta história tinha visto, de quantos momentos célebres tinha sido testemunha, quantos pronunciamentos momentosos lá tinham sido feitos! É, respondeu meu amigo, e o Brasil faz parte. Como assim, alguma frase brasileira ecoava naquelas paredes veneráveis? Claro, disse ele, o presidente Lula ficou hospedado aqui, se emocionou e fez seu comentário histórico. Verdade, que comentário ele fez?
- Ah, ele declarou que, poucos anos antes, ninguém ia acreditar que ele estaria ali, fazendo cocô no banheiro da rainha. Mas esse povo é muito preconceituoso, acho que ninguém botou a declaração brasileira no acervo do palácio."
João Ubaldo Ribeiro