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março 05, 2014

Vila-Matas, ‘O mal de Montano’


"A ideia da literatura como doença não é exatamente novidade na ficção. Personagens como Dom Quixote e Ema Bovary têm seus destinos arruinados por enxergarem a vida como uma extensão idealizada do que leram: aventuras de cavalaria, no primeiro caso, e histórias românticas, no segundo. A diferença do protagonista de O Mal de Montano (Cosac Naify, 328 págs.), romance que deu ao catalão Enrique Vila-Matas os prêmios Heralde e Médicis, é a consciência do próprio desvio: crítico que inicia a trama numa viagem de visita ao filho, Rosário Girondo se angustia ao perceber que seus diálogos são citações, seus atos imitam passagens de clássicos e pessoas ao seu redor lembram criaturas como Hamlet e o Conde Drácula. A “intoxicação literária” pauta seu relacionamento com a mulher, Rosa, e o faz ir a lugares como Chile, Açores e Budapeste.
Impossível não ver no enredo um complemento de Bartleby e Companhia, a obra-prima de Vila-Matas sobre escritores que desistiram do ofício. Se esta era uma história sobre a “elegância de se calar”, como o autor já disse em entrevistas, O Mal de Montano também tem como ponto de partida o silêncio. Não só porque traz um personagem em crise por ter publicado um livro semelhante a Bartleby, mas porque o tormento de Girondo é causado por um excesso de vozes. Todas as convenções já foram usadas, todas as fórmulas já foram descobertas, todas as rupturas já foram promovidas no eterno presente da ficção universal. Quem as sussurra são outros escritores, claro, que em sua época viveram os dilemas de uma atividade desde sempre tirânica e ingrata. Por que sacrificar a vida em nome dela? Que sentido ainda faz praticá-la hoje?
Como todo artista que de alguma maneira bebeu nas fontes do pós-modernismo, Vila-Matas prefere a ironia das perguntas à solenidade das respostas. Sua vítima predileta são as supostas leis de certa ficção contemporânea. Brincando com os cacoetes estilísticos do romance, do ensaio, do diário, da enciclopédia e da autobiografia, O Mal de Montano trata de destruí-las uma a uma: os personagens mentem, os fatos se contradizem, as certezas do leitor acabam se revelando falsas. Rosário Girondo não fala apenas de como é difícil ser original: ele demonstra na prática, e a sua narrativa é o maior exemplo, como se tornou fácil criar ilusões com a linguagem.
Contraditoriamente, à medida que o romance se livra do andamento algo maneirista de seu início, essas ilusões ganham encantamento autônomo. Aí está o talento de Vila-Matas: com humor, transformar o que seria um mero estudo sobre os limites da criação artística numa prova de suas possibilidades ainda vivas. Como o próprio Girondo descobre, respirar literatura pode ser um ato de resistência em um mundo cada vez menos literário. Ato que traz dentro de si a cura para quem escreve sob o espectro do conformismo".

Michel Laub

O que diz a CRÍTICA

setembro 13, 2013

Vida capturada


"O ato de escrever pode ser descrito em vários níveis, e alguém já disse que no mais pessoal deles o escritor é um tradutor de si mesmo. Ele transforma o universo inesgotável de sua mente, feito de sensações, sentimentos e intuições em geral abstratas, num outro código, a linguagem, que obedece a leis próprias de coerência.
É uma operação que envolve talento inventivo, não há dúvida. Como numa tradução, as palavras escolhidas para reproduzir o sentido original criam um novo sentido. Que precisa ser forte o suficiente, de maneira autônoma, para transmitir uma intensidade que até aqui só funcionou em outro contexto (histórico, cultural, linguístico, íntimo).
Mas só há liberdade de escolha se houver repertório. O talento não prescinde da técnica e de um esforço de conhecimento horizontal. Expressar o novo num idioma pressupõe conhecer o velho, idem o vigoroso em relação ao frouxo, o sujo em relação ao limpo e assim por diante. Cada palavra ocupa um lugar específico numa cadeia de valores estéticos em constante mutação.
Há poucas décadas, o processo de formalização do vocabulário tinha como principal matriz a fala, e entre um termo se tornar comum em conversas e chegar aos dicionários --ou aos livros, ou à imprensa-- havia um tempo razoável de consolidação, além de uma hierarquia mais rígida entre as instâncias.
Hoje é diferente. Boa parte da matriz já é escrita, dos e-mails às redes sociais, o que muda não apenas a velocidade de incorporação de gírias e clichês. Também o manejo da língua: mesmo ao postar um tuíte, nos acostumamos, o que é menos comum na fala, a escolher com certo cuidado uma palavra em detrimento de outras.
Quando as malandragens que essa escolha permite também se tornam familiares, a aura solene da escrita se enfraquece. O que ela expressa passa a ser visto com mais naturalidade e desconfiança. O bacharelismo ainda renitente na nossa ficção, ou o uso do jargão como instrumento de poder, inevitavelmente vira sinônimo de lero-lero.
É como se o modernismo, que simplificou e potencializou a gramática da elite letrada há mais de um século, começasse a se democratizar. Pense no contraste que é passar o dia imerso na sintaxe coloquial da internet e receber pelo correio, como um museu em papel de formas antigas de tratamento, uma ata de condomínio ou (meu caso frequente e triste) uma notificação do Detran.
Não estou certo se a mudança gerará efeitos positivos para quem vive de escrever. Por um lado, o contato diário do público com a leitura tende a gerar maior exigência, e portanto respostas mais elaboradas dos ficcionistas.
Por outro, uma cultura mais escrita que a de décadas anteriores, que tirou da TV a exclusividade na produção em massa de ideias e narrativas, não é garantia de qualidade. Ler mais não significa entender o que se está lendo, conforme provam os relinchos e dejetos nas caixas de comentários.
De qualquer modo, os desafios do escritor não mudaram. Continua necessário encontrar uma voz particular, que esteja à margem do oceano de timbres produzidos por todos o tempo inteiro. Continua necessário encontrar um espaço de privacidade reflexiva, o mais longe possível de modas formais e ideológicas. E o primeiro passo dessa grande busca, que só pode ser dado por meio da linguagem, ainda é escolher as palavras partindo de um universo limitado e ao mesmo tempo fluido.
A partir de critérios estéticos, cria-se a ética da ficção. O vocábulo exato é um clássico da linguagem pela beleza, feiura, elegância ou estranheza que sua cadência e melodia evocam de acordo com os parâmetros da época. E pela verdade peculiar que estabelece, em conjunto com outros vocábulos exatos em frases e parágrafos e capítulos.
Na esteira do que William Faulkner disse a respeito, o ciclo se completa quando o leitor se vê diante dessa construção, um código feito de sinais gráficos estáticos numa página ou tela, e eis que o movimento da vida capturado pelo escritor --ontem ou 3.000 anos atrás-- está de volta.
É um jeito artificial de evocar algo que nada tem de artificial. Uma tradução que é novamente traduzida pelos filtros pessoais e culturais do leitor. E uma definição, quem sabe, para o mistério e a maravilha da literatura".

MICHEL LAUB

agosto 16, 2013

Jornalismo cultural


"Há duas semanas foi anunciado o fechamento da revista "Bravo!", onde trabalhei por oito anos. Em abril, foi a vez do caderno "Sabático", do "Estadão", que tratava de literatura. Na última década, outros veículos culturais tiveram o mesmo destino, entre eles a "Palavra", a "Bizz", a "Set" e a "EntreLivros".
Sempre que um evento assim ocorre, lamento pelo desemprego de colegas talentosos. Em seguida, me junto aos debates sobre a crise dos modelos de financiamento da imprensa, em particular a escrita. O tom geral é de lamento pelo fim de bons projetos editoriais, que nunca terão a rentabilidade de similares dedicados a dietas e fofocas.
Não é uma avaliação errada. A imprensa cultural sofre em um contexto que parece conspirar contra o esforço reflexivo. Tornou-se quase proibida a matéria "difícil", tanto na linguagem quanto no conteúdo, como se ninguém pudesse ser desafiado a conhecer e entender aquilo que ainda não conhece e entende.
Ocorre que essa é a visão "mainstream". Ou a visão do jornalista. Na do público, nunca houve tanto espaço para falar de livros, peças, discos, exposições, movimentos estéticos. Artistas se comunicam diretamente com fãs, opiniões pulverizadas tomam o lugar da crítica tradicional. Dá para se informar usando fontes no mundo todo, de jornalões em papel a blogs ultraespecializados, em um vasto espectro temático e ideológico.
Como se tornar comercialmente viável nesse cenário? Se eu soubesse, estaria em uma jacuzzi de leite paga com honorários de consultor. Posso opinar é sobre relevância jornalística e cultural. Tenho certeza de quem não vai tê-la: os que seguirem apostando em antigas instâncias de autoridade, que faziam o filtro do saber disponível somente porque detinham os meios tecnológicos para tanto.
Idem os que acreditam no mínimo denominador, tentando salvar veículos ao torná-los "acessíveis". Diante de uma cultura tribalizada, de grupos que se aprofundam em seus interesses específicos, em uma produção incansável e apaixonada de narrativas e opiniões, ser generalista e superficial é um caminho seguro para se tornar anódino.
Ao mesmo tempo, a tribalização tende a reiterar valores em vez de discuti-los. Aderir a eles é legítimo e, em muitos casos, desejável, mas não é jornalismo - atividade ligada à busca (talvez utópica) por equilíbrio, por distanciamento na coleta de dados que vão permitir conclusões para além de interesses e ideias em bloco.
Não há pensamento em cultura - como não há em política - sem confronto. Cada elemento do mundo digital - a interatividade, a fragmentação, o gosto pelo novo e pela síntese - tem mais de uma faceta. A fonte estimulante de conhecimento pode virar um fetiche, quando não um "ethos" autoritário. Os pequenos consensos da internet são tão nocivos quanto os grandes consensos da velha mídia.
Identificar e dizer isso publicamente é menos simples do que parece. Com o mercado do jeito que está, soa até leviano pregar que o jornalista deva ir contra hábitos e gostos do leitor. Mas não vejo outra saída para quem acredita na profissão. "Ir contra" não significa encarnar o polemista automático. Às vezes, é o contrário: resistir à volúpia de etiquetar e julgar tudo. Escrever um bom ensaio ou reportagem só é possível com embasamento, o que demanda trabalho e repertório construído com paciência, além de abnegação para resistir aos ganhos imediatos da notoriedade.
Não estou certo de que o velho humanismo, do qual a melhor imprensa cultural é herdeira, sobreviverá nas próximas décadas. Torço para que sim, assim como torço para que surjam novas formas de remuneração para profissionais e empresas, tanto nos modelos que conhecemos quanto nos do futuro.
Enquanto isso não ocorre, resta o otimismo da ação. No caso do jornalista, trata-se da recusa à indulgência com os outros e com si próprio. Se vale para épocas de abundância, que recompensam até materialmente o lugar-comum, por que seria diferente quando a crise nos empurra para a liberdade?"

MICHEL LAUB

junho 07, 2013

Morte (e vida) dos sentimentos


"Num texto antigo, cômico e triste sobre a indústria dos "filmes adultos" (http://goo.gl/oMhkw), Martin Amis define uma das características da pornografia: a capacidade de identificar, e então explorar de forma vil e inapelável, o que o leitor-espectador-consumidor deseja.
É uma longa dança da sedução, para usarmos uma metáfora óbvia sobre o tema, um cardápio imenso de assuntos, registros e abordagens até que o sujeito(a) descubra, aos 13 ou 70 anos, no canto de uma foto, em dez segundos de um filme, aquilo de que realmente gosta.
Amis vê na pornografia a "morte dos sentimentos", o que faz sentido no seu relato. Fico em dúvida é se existe uma hierarquia tão clara de reações de um indivíduo diante de uma narrativa, tenha ela o caráter que tiver. Se a afinidade erótica, digamos assim, é tão menos nobre que a piedade, a revolta, o horror, a ternura.
Pense num melodrama. Se ele se basear num dos itens neutros do cardápio, os que não são feitos sob medida para mim - cenas de hospital, por exemplo -, a empatia tende a ser baixa. Já a situação que me interessa intimamente é outra coisa: eu nunca direi que "Marley e Eu" é um filme ruim, embora seja um filme muito ruim, porque vê-lo sempre me faz lembrar do cachorro da minha irmã.
Daí a questão: o que diferencia os apelos de uma obra "séria" daqueles de uma obra vulgar? Por que os clichês sadomasoquistas de "Cinquenta Tons de Cinza" falariam a instintos ou sentimentos inferiores aos de quem elogia as anunciadas cenas de sexo explícito dos filmes novos de Lars von Trier ("Ninfomaníaca") e Abdellatif Kechiche ("La Vie d'Adèle", que ganhou a Palma de Ouro em Cannes semana passada)?
É ingênuo achar que a arte paira acima da animalidade humana. Como prova a gastronomia, e não à toa ela é pauta de segundos cadernos, um prazer que parece apenas fisiológico pode se tornar categoria estética. Uma posta de atum vira experiência cultural por meio do discurso, que por sua vez se baseia em história, vivência, conhecimento técnico.
Com o sexo não é diferente. Claro que "Ninfomaníaca" e "La Vie d'Adèle" não equivalem a um vídeo do Porn Hub. Encaixada no discurso artístico, com sinais reconhecíveis de elevação - complexidade narrativa, manejo de signos, contexto, ironia, debate ético, autoria chancelada -, uma penetração pode transcender a esfera meramente física e representar o que alguns chamam de alma.
Mas, como no caso da comida, a mais elaborada das justificativas não elimina a apreciação pura, imediata. O paladar, a libido ou as inclinações estéticas só podem ser adestradas até certo ponto, e o crítico pode tão somente não gostar de atum. Um close de genitália causa excitação, indiferença ou repulsa, e nos três casos --antes de começarmos a elaborar o que acabamos de ver-- não estão em ação nossa inteligência ou gosto mediado pela cultura.
Por isso acho engraçada a pretensão de críticos que se dizem isentos de preconceitos e afinidades. Estendam o exemplo da genitália para itens supostamente mais respeitáveis, ou iscas supostamente mais honestas: a beleza do rosto da atriz ou do ator, o sentido a favor de uma ideologia, as piscadas de olho da obra para serem reconhecidas como sinal de erudição pelo público.
Um bom exercício depois de ler textos cheios de certezas sobre o que é bom ou ruim, puro ou impuro na arte, é botar o nome de quem escreveu no Google Images. Ali estará, na escolha de suas roupas, de seu penteado, da pose para a câmera, a lembrança de um ser humano como todos nós, sujeito aos estímulos citados e a tantos outros, cuja resposta depende de mais fatores - alguns aleatórios e inconscientes - que os ensinados em Redações e universidades.
Avaliar com honestidade uma obra não é superar essa limitação, e sim reconhecê-la. O lugar-comum "tudo é questão de gosto" tem muito de autoritário, porque algum consenso cultural a história pode e deve formar. Só não dá para desprezar assim de pronto a subjetividade. Entre o sublime e o baixo-ventre, com todos os humores e rancores do caminho, a distância é menor do que parece".

MICHEL LAUB

março 29, 2013

Formas de matar um escritor



"Exemplo de frase atribuída a Clarice Lispector na internet: "Ainda bem que sempre existe outro dia, e outros sonhos, e outros risos, e outras pessoas, e outras coisas". Outro exemplo: "Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome".
Ambas estão num site que, reagindo ao que o mundo virtual faz contra autores como Luis Fernando Veríssimo e Caio Fernando Abreu, dispõe-se a conferir a autenticidade de citações. Tarefa digna, embora eu fique em dúvida sobre o que é pior: a Clarice falsa (sonhos e pessoas) ou a verdadeira (desejo sem nome).
Quer dizer, a Clarice transformada em autoajuda ou a tirada de contexto, numa vulgarização do registro original. A segunda frase é o ponto de vista de uma personagem -a protagonista de "Perto do Coração Selvagem"-, e fora do ambiente claustrofóbico e idiossincrático do romance vira apenas banalidade.
Há muitas formas de matar um escritor, e a mais segura talvez seja botá-lo num pedestal, escondendo as falhas e oscilações que o tornam humano -e, portanto, próximo do que a literatura deve ser. Acontece quando o transformamos num oráculo, com verdades a revelar sobre temas que pouco ou nada têm a ver com os seus.
Caso dramático é o de ficcionistas cujo mérito maior não é a capacidade de síntese, ou mesmo as ideias. "Grande Sertão: Veredas" é um clássico por vários motivos, um deles o acúmulo caudaloso e virtuoso de termos raros e palavras inventadas por Guimarães Rosa, num ritmo e ambientação a serviço de uma grande narrativa de aventura.
É um efeito que só se potencializa por causa desse fluxo -ao qual o leitor precisa dedicar tempo, paciência e atenção diversos do que exige uma simples frase. Destacar do romance uma fala como "pão ou pães, é questão de opiniães", do jagunço Riobaldo, é escolher (e indiretamente apontar como essência) apenas o que Rosa tem de diluído -uma celebração algo ingênua, ou algo demagógica, de uma suposta sabedoria popular.
Se a fala até pode ser charmosa pela sintaxe, sonoridade e empatia que evoca no contexto de "Grande Sertão", na vida real equivale a uma criança dizendo espertezas diante de adultos. "Viver é muito perigoso", outra máxima conhecida do livro, não é uma tolice, ok, mas repita-a sem a muleta de um medalhão das letras, em tom compenetrado, numa festa ou reunião de trabalho, e saboreie o efeito que causará.
Claro que citar é inevitável. Há autores talhados para isso, de frasistas como Nelson Rodrigues e Paulo Francis a romancistas cujos diálogos valem de maneira autônoma. Isso ocorre quando os personagens estão no mesmo nível do criador, sem que o último precise se rebaixar ou distanciar -com ironia, crueldade, paternalismo ou condescendência- para exprimir a voz dos primeiros.
Também quando não emprestamos às frases uma filosofia moral adaptada a conveniências. Transformar Rubem Braga num militante da ecologia, como fez um programa recente de TV por causa de um trecho sobre passarinhos, é alistar o cronista numa batalha que não era a sua, ao menos nos termos ideológicos de hoje. E trair o que ele tinha de particular, sua melancolia cética e nunca açucarada, na contramão de qualquer bom sentimento da moda.
Da mesma forma, "o que desejo ainda não tem nome" talvez diga algo de "Perto do Coração Selvagem", mas usar isso em confissões de Facebook - como se houvesse grande transcendência nos anseios indizíveis do eu feminino- é puxar para si uma sugestão de mistério, profundidade, alma complexa. Um egocentrismo tão contemporâneo e distante do que o texto de Clarice significou, inclusive em risco de incompreensão e fracasso, à época em que foi escrito (1943).
A boa ficção usa mentiras para dizer a verdade, e as citações malfeitas são o contrário: usam verdades (trechos reais) para mentir (atribuir ao livro um sentido que ele não quer ter). Ao contrário do que pensa quem as promove, é um desserviço à literatura. Apenas mais um, num tempo em que pouca gente tem disposição para abrir um romance -ou pensar qualquer coisa- e ir além de meia dúzia de slogans".
MICHEL LAUB

fevereiro 01, 2013

Existe amor no FB




"Num dos textos mais bonitos da língua portuguesa, o "Sermão do Mandato", padre Antonio Vieira comenta as ignorâncias que impedem o amor de florescer no vale de lágrimas onde vivemos: não conhecer a si mesmo, não entender o amor, não saber onde o amor vai dar, não enxergar a natureza do objeto amado.
Não sei se Jonathan Franzen leu o padre Vieira, mas num ensaio curto, na verdade o discurso de formatura que abre a coletânea "Como Ficar Sozinho" (Companhia das Letras), de certo modo aderiu a um esporte comum quando o assunto são as redes sociais: atualizar os quatro preceitos, definindo o que seriam as relações sentimentais verdadeiras.
Franzen tem uma posição clara, referindo-se ao Facebook: "Se uma pessoa (...) dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é (...). A perspectiva da dor (...), da perda, da separação, da morte, é o que torna tão tentadora a ideia de evitar o amor e permanecer em segurança no mundo do curtir".
A tendência de quem lê esse tipo de artigo é simpatizar. Afinal, difícil passar dez minutos lendo posts de conhecidos sem se deparar com ignorância, narcisismo, arrivismo e desespero existencial travestido de alegria, sem falar naqueles vídeos de publicidade e humor. Mas dá para perguntar, também, se não há idealização em ver uma essência humana perdida a cada vez que acessamos o mundo virtual.
Melhor dizendo, não haveria uma crença exagerada na autonomia desse mundo? Como se gastar horas por dia em frente ao computador equivalesse a um "sonho anestesiado de autossuficiência", na definição de Franzen. "Passar pela vida e não sofrer é não viver", completa o escritor americano, e fico pensando se ele acredita mesmo que alguém escape de pagar contas, se explicar para o cônjuge furioso ou fazer tratamento de ciático apenas por causa de Mark Zuckerberg.
Talvez o engano se deva à pouca familiaridade com uma tecnologia que pode ser fim ou instrumento, dependendo de como é usada. Qualquer um que tenha trocado mensagens eletrônicas não profissionais sabe que, numa adaptação inevitável aos códigos de uma escrita que imita a fala, inclusive com suas modulações de sentido (ironia, ênfase, hipérbole) e expressão afetiva (doçura, raiva, choro), é possível que daí nasçam amizade, inveja, desprezo e até amor.
O que não significa, óbvio, a substituição da presença física. Nem a supervalorização dessa presença. Quando Franzen encerra o discurso com a expressão "seres reais", não sei a que ponto elevado da alma se refere. Mesmo no mundo pré-digital, um flerte começava na superfície -gostos, aparência física, maneira como se fala. Tudo isso é possível no Facebook, e quanta chateação é poupada quando uma pretendente nota que seu pretendido é analfabeto funcional. Ou quando espia suas fotos e percebe que jamais se sentirá atraída por ele.
Se não quisermos julgar o mérito de tais ações, fiquemos com o critério estatístico, as possibilidades que a tecnologia acabou trazendo para quem a utiliza. Digamos que o candidato seja um viúvo de 75 anos, cujo destino uns anos atrás era passar o resto das tardes sozinho, numa padaria triste, tomando Underberg em copo de requeijão e olhando para o vazio. O que há de errado em ele fazer contato com outra viúva que se arrasta pelo éter virtual? E que esse contato seja inicialmente frívolo, até ridículo?
Ou esperavam que o viúvo se apresentasse falando do enterro da mulher, do reumatismo, dos filhos que não o visitam há décadas -em resumo, do seu verdadeiro eu? Caso a investida dê certo, e aí será no mundo concreto, como etapa seguinte ao prólogo virtual, isso tudo virá à tona. Ou não. Viver no engano pode ser bom ou ruim -cabe aos envolvidos, e não a nós, imersos nessa nova forma de moralismo, decidir o quanto de intimidade se quer revelar e conhecer.
No "Sermão do Mandato", padre Vieira usa um exemplo de indivíduo que, do início ao fim, foi consciente e praticante das quatro condições do amor: Jesus Cristo. Mas talvez não seja um bom exemplo, vide a maneira como seu "affair" terminou. Então, perdoemos o resto da humanidade, que é filha de Deus, mas não tanto, por usar os atalhos disponíveis -incluindo o Facebook, por que não?- para chegar lá".
MICHEL LAUB

Nota: AQUI para o ensaio mencionado.