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fevereiro 20, 2013

O último tango em Paris e a ligação errada


"Revendo meu caderno de notas, encontrei seu endereço, resolvi telefonar, alô, alô, como vai você, não venha com a desculpa de que eu errei a ligação." Não parece, mas é o início de um sambinha dos anos 50, cujo autor e intérprete não lembro. Lembro o garagista onde guardava meu carro que sempre o cantava enquanto lavava os automóveis entregues à sua guarda.
Volta e meia essa letra mais ou menos infame me vem inteirinha, sobretudo quando, sem muita coisa a fazer, fico que nem o personagem desse samba, "revendo meu caderno de notas" e outros cadernos e papéis avulsos que fui guardando pelo tempo afora.
Acontece que, às vezes, ainda como o personagem do samba, erro de ligação e entro onde não devia nem queria. Foi assim que, numa tarde dessas, encontrei alguns recortes do tempo em que escrevia sobre cinema para uma revista que não existe mais e que me mandava a Paris ou Roma para ver filmes que demoravam a chegar ao Brasil ou que nunca chegavam, e quando chegavam tinham sua exibição proibida pela censura.
Num desses recortes, pomposamente datados de Paris, encontro a pequena resenha que fiz para um filme que provocava espasmos na ocasião, havia gente que atravessava o Atlântico para ver a preciosidade que, antecipadamente sabia-se, jamais seria exibida em telas castas como as nossas daquele tempo.
O filme era "O Último Tango em Paris", que outro dia passou numa das TVs a cabo, quase anonimamente e sem fazer os estragos morais que se temia. Transcrevo a resenha, tal como foi publicada ali pelos inícios dos anos 70:
"Filme inqualificável, esse de Bertolucci, mais escândalo do que sucesso em Paris e agora em Nova York. Uma temática infanto-juvenil (a exaustão do sexo como forma de diálogo) diluída num moralismo de congregado mariano e tratada por um cineasta que domina o seu ofício, mas ainda não tem nada a dizer. Seu mérito mais ostensivo é a coragem de mostrar, a ousadia de condenar aquilo que mostra -uma ousadia de cruzado medieval que nada fica a dever à simpática cara-de-pau dos membros do Exército da Salvação. Bertolucci abriu as porteiras -e agora o dilúvio. Como qualquer dilúvio, fará bem à humanidade, exceto aos cineastas do chamado Terceiro Mundo, que resistem a qualquer dilúvio saneador. Marlon Brando arfa durante o filme inteiro e mostra-se desinformado em matéria de certas brincadeiras. Utiliza-se da celebrada manteiga da Normandia para indevidos fins, demonstrando total ignorância dos macetes que qualquer menininho do Brasil conhece desde cedo.
Maria Schneider estoura na tela como ninfômana e atriz -as duas coisas em igual medida. A favor de Bertolucci, uma façanha: Jean-Pierre Léaud, aquele canastrão embrionário e obrigatório dos filmes de Godard, aqui aparece realizado, conseguindo um papel que lhe cai sob medida e para o qual não precisou fazer esforço: o do jovem idiotizado pelo cinema. Ele tem o físico, o entusiasmo e a vida pregressa para ser ele próprio o idiota, não o da família, mas o do cinema.
A música é quase excepcional. "O tango é uma maneira de caminhar pela vida" -disse Borges. E um reparo final: Marlon Brando só deixa de arfar na cena em que Maria Schneider, depois de cortar as próprias unhas, aplica-lhe uma massagem estimulante. No fundo, um filme mais inútil do que impróprio para maiores de 18 anos, que daqui a algum tempo será exibido nos colégios de freiras e nos quartéis das Forças Armadas".
É isso aí. Um escritor profissional, como o cronista, obriga-se a escrever tanto que, embora erre muito, é impossibilitado de errar sempre. É mais ou menos como nas antigas apostas da Loteria Esportiva, em que se cravava palpites em 13 jogos, nas hipóteses de vitória, derrota ou empate. Era mais fácil fazer os 13 pontos do que errar em todos, sempre se acertava em um ou dois jogos.
Anos depois, o mesmo Marlon Brando fez furor num filme ítalo-americano em que, no papel de um poderoso chefão da Máfia, aparecia com as bochechas cheias de algodão, arfando o tempo todo por outros motivos que não os provocados pela lasciva mocinha do último tango em Paris. Alguns atores nacionais achavam que arfar era moda e quase todos arfavam, uns mais, outros menos, até mesmo quando faziam discursos cívicos pela reforma agrária e contra o imperialismo.
Bem, voltemos ao sambinha com que inicio esta crônica. Lembro agora o nome dele, "Joãozinho Boa-Pinta", parece coisa do Haroldo Barbosa ou do Miguel Gustavo. E tem um segmento que considero um primor na poética popular: "Não sei se ainda posso lhe chamar de meu amor, não sei se ainda tenho aquela velha intimidade...".
Remexi meus papéis avulsos, tal como o Joãozinho Boa-Pinta revia seu caderno de notas. De repente, encontrei o nome e o telefone de uma intimidade que, sem ser velha, era antiga. Antes que caísse em tentação e discasse aquele número, pensei melhor e fiquei sem a desculpa de que errara na ligação.
CARLOS HEITOR CONY
16.04.2004

fevereiro 12, 2013

'Vamos brincar separados'


"Este ano, tá combinado, nós vamos brincar separados." A marchinha parece coisa do Zé Kéti, não tenho certeza, fez sucesso num ano qualquer dos Carnavais do passado. Prevendo um acidente de percurso, há uma advertência: "Se acaso o meu bloco encontrar o seu, não tem problema, ninguém morreu".
Admiro e louvo de coração, tronco e membros os blocos que saem antes e durante o Carnaval. Só os amaldiçoo quando estou dirigindo e esbarro num deles, dou sempre azar, são os maiores, os mais animados e lentos.
Tenho um amigo que, numa situação dessas, deu uma ligeira cutucada num folião entusiasmado, com uma complicada fantasia, que, depois, ficou sabendo que se tratava de uma alegoria feérica, intitulada "Raízes da Cultura Amazônica, Fauna, Flora e Soberania Ameaçadas". Não houve mortos nem feridos, mas tentaram linchar o motorista, deram pontapés furiosos na lataria. Mais uma vez, a Amazônia fora atingida.
O mundo é pequeno, as ruas são estreitas e os blocos são muitos. Daí a hipótese lembrada na letra da marchinha: "Não tem problema, ninguém morreu". Os abrolhos pessoais de cada um ficam temporariamente suspensos, pelo menos, "até quarta-feira" -que, por sinal, é o nome da marchinha. Ninguém precisa morrer nem promover velório, todos vão em frente, menos o desgraçado motorista que quebrou a cara pegando um bloco imenso, fluvial, entupindo as pistas principais e as ruas vicinais.
Garante o livro de Eclesiastes que há tempo para tudo, inclusive para plantar beterraba ou cenoura, para viver ou morrer. O encontro de dois blocos, "você pra lá, eu pra cá", como diz a marchinha, faz parte do Carnaval e da vida em geral. E ninguém morre, inclusive porque ninguém comete a façanha de morrer duas vezes".
CARLOS HEITOR CONY

janeiro 08, 2013

Prece para um ano novo


"Depois do bife com batatas fritas, das pernas da Claudia Raia e da introdução de "No Tabuleiro da Baiana", do Ary Barroso, a maior criação de Deus foi o Diabo, o próprio, também conhecido como Demônio ou Satanás. E, segundo Guimarães Rosa, o Arrenegado, o Cão, o Sujo, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Tisnado, o Coxo, o Coisa-Ruim, o Marrafo, o Não-Sei-Que-Diga, o Rapaz, o Sem-Gracejos (apud "Grande Sertão: Veredas").
Tirando-se o citado Sem-Gracejos da história, nem haveria história, o mundo seria uma chatice, todo mundo tocando cítara e sem direito de votar, como nos tempos da ditadura, e sem poder ir para o diabo que o carregue.
Pensando assim, desde que li as obras completas de Tomás de Aquino, não me arrependo de ter, aos nove anos de idade, vendido minha alma ao Diabo a troco de um canivete de duas lâminas de um tal Sacadura, terror das ruas de Lins de Vasconcelos, onde nasci e vivi até que desconfiei que a barra ficara pesada para os meus lados. O que me obrigou a buscar refúgio num seminário, onde tentei desfazer o pacto diabólico -uma redundância, por sinal, porque, sem pacto ou com pacto, o Diabo já tinha o domínio do fato ("data venia" aos nossos ilustres ministros do Supremo Tribunal Federal).
Muita gente acredita que a maior obra de Deus foi a luz, o "fiat lux", que terminou virando uma caixa de fósforos. Em tempo de tantos apagões, que dona Dilma não cansa de explicá-los, até que seria uma boa se tivéssemos uma nova edição, revista e aumentada, da criação do homem. Mesmo sem homem, mas com o Diabo, que, entre seus feitos satânicos, me deixou literalmente na mão, sem o canivete de duas lâminas do Sacadura. Com o qual eu poderia fazer justiça, livrando-me de todo o mal, amém".
CARLOS HEITOR CONY

janeiro 04, 2013

Esplendor e decadência da Grécia


"Para provar que nada tenho contra os deuses gregos, aqui vai uma declaração de amor a todas as divindades, gregas ou não, pois nem só de grego vive um deus. Acontece que nem mesmo o meu piedoso amor salvou os deuses gregos de uma avacalhação generalizada, que pouco a pouco foi substituindo o temor e a poesia que envolviam tantas e tamanhas divindades.
Vejam o caso da dupla Afrodite-Vênus. Depois de ser cantada em prosa e verso, depois de ter dado o nome a um planeta e a uma camisa, depois de ter sido esculpida, pintada e adorada, hoje é simplesmente tolerada em nomenclaturas calhordas de coisas calhordas. Mesmo assim, até isso parece que vai acabar, pois com o advento dos antibióticos, em breve acabarão as doenças que levam o nome da grega Afrodite. Mas nem só de doença venérea vive uma deusa grega. O próprio nome grego, Afrodite, ainda serve para os afrodisíacos, assim como seu colega de Olimpo, Eros, serve para literatura erótica.
Mas não pensemos que os deuses gregos ficam limitados a problemas constrangedores do baixo ventre --ou como preferem os médicos de Hugo Chávez, a problemas na "região pélvica", o que vem a dar no mesmo.
Os deuses gregos também servem para designar comportamentos que escapam do baixo e até do alto ventre. Embora romano, Baco tem na Grécia um doublé eficiente, Dionísio, e ambos geraram vocábulos excitantes, como dionisíaco e, sobretudo, bacanal.
E por falar em bacanal, há que se considerar a grossa bandalheira em que vivia o Olimpo, onde os deuses, não enquadrados nas tabelas funcionais do Dasp*, nada tinham o que fazer a não ser consumir o tempo da eternidade. Daí que para consolar o tédio, nada como uma bacanal com direito a tudo ou uma orgia dionisíaca capaz de dar inveja ao Zé Celso Martinez Corrêa.
A dupla fescenina sabia fomentar adultérios, incestos, sodomias. Para consolar o tédio, nada como fomentar bacanais dionisíacos, naqueles bons tempos ainda não haviam inventado o fomento da agricultura --Ovídio cantaria a idade de ouro onde o Ministério da própria nada teria a fazer. À falta do que fomentar, os deuses eram especializados em fomentar prevaricações, estupros, raptos de donzelas, não havia Código Civil nem o ministro Joaquim Barbosa para impedir a Olímpica farra.
E assim eram os deuses gregos, deuses de um povo forte em filosofia e nas artes.
Do outro lado de não sei qual mar, havia um povo que comia o pão que o diabo amassou ou estava amassando. Esse povo era monoteísta, acreditava num só Deus, e se julgava o povo eleito desse Deus. Apesar de povo eleito, vivia como escravo e habitava infectas cavernas, ora nos hórridos desertos, ora nas montanhas empedradas que nem água tinham. Mas esse povo eleito chamava suas cavernas e suas pedras de "terra da promissão". E alguns séculos mais tarde, esse Deus único, senhor dos Exércitos, Alfa e Omega, botaria no chinelo todos os deuses helênicos e romanos juntos.
Com a chegada do barbado Jeová por nossas bandas, acabou-se a farra. Esse Jeová era um moralista, convocou um camarada esperto para subir ao Sinai - e antes que Nietzsche encontrasse um anacoreta na montanha, que orava, chorava e murmurava, Moisés desceu com duas tábuas da Lei, quentinhas, saídas do forno da sarça ardente.
É bem verdade que as duas tábuas não chegaram a estragar a brincadeira --nem adiantava, Vênus, Baco e Dionísio não foram considerados "eméritos", continuaram no ofício. Não sei o que pensaria Júpiter, que seduziu suas filhas, irmãs, cunhada, que seduziu as mulheres de seus amigos e filhos, não sei o que pensaria Júpiter de nosso sexto e nono mandamentos. Mas nada como um dia depois do outro. Somente mais tarde, homens ímpios e impuros atacariam também este Jeová com emocionantes fogueiras contra ou a favor da Santa Causa.
Mas paremos com essa erudição haurida em almanaque. Daqui a dois meses o Carnaval vem aí, com suas gregas de grandes coxas, afrodescendentes e com a macia pele brilhando de suor, seus gregos de lábios pintados, efebos e faunos falsificados, mas dispostos a manter a tradição.
Foi no que deu a Grécia, feita as contas.
Carlos Heitor Cony

Nota: *  Dasp  Era um Departamento criado pela Constituição de 1937,  incumbido de organizar os órgãos do Estado, para o aperfeiçoamento da máquina pública, além de elaborar a proposta orçamentária do governo e prestar assessoria ao presidente da República     
Ilustração Júpiter e Hera (Caracci XVI)

novembro 06, 2012

O lorde e o mordomo


"Creio já ter contado por aí, em livro ou em crônica, a história do lorde inglês e seu mordomo, que devia se chamar James, como todo mordomo que se preze. Os dois estavam diante do janelão, olhando a paisagem da verde e querida Inglaterra, quando James, hierático, ao lado da cadeira de rodas onde ficava seu amo e senhor, disse para dizer alguma coisa: "Acho que teremos chuva, my lord".
O lorde continuou olhando a paisagem, mas colocou as coisas em seu devido lugar: "Não, meu caro James. Eu terei a minha chuva. Você terá a sua chuva".
Não sou lorde nem tenho mordomo. Mas tenho minha própria chuva enquanto todos os outros, o papa, o Valério, o Barack Obama, o Joaquim Barbosa, sobretudo todas as mulheres que me conheceram mas que eu não consegui conhecer, toda essa gente tem a sua chuva - eu tenho a minha.
Por mais que lamentasse a tragédia do furacão Sandy e lesse enfastiado as previsões sobre a eleição nos Estados Unidos, por mais solidário com as baleias ameaçadas de extinção e não tenha opinião sobre a dosimetria aplicada pelo STF aos réus do mensalão, tudo isso faz parte da chuva do tal James - um James coletivo, metáfora do inferno que são os outros, de acordo com um dos meus mordomos preferidos, J.P. Sartre.
Embora não seja lorde de porra nenhuma, volta e meia uso uma cadeira de rodas para deslocamentos maiores, problema recente com o maior osso do meu esqueleto: o fêmur.
Não preciso dos verdes campos da Inglaterra para saber se vai chover. Um cadeirante, mesmo provisório, vê o mundo de forma até certo ponto divertida.
Furacão em Nova York, guerra civil na Síria, crise do euro, os novos rumos da MPB são problemas que deixo de bom grado para os James da vida".
CARLOS HEITOR CONY

Nota: Leia mais aqui

junho 19, 2012

A sustentabilidade do carioca



"Não herdei de ninguém: foi a vida que me fez cultivar um espírito de porco que os anos aperfeiçoaram. Para usar uma palavra que está em moda: é um espírito de porco que adquiriu "sustentabilidade". Ao menos nesse departamento, eu estou atualizado.
Em função dessa sustentabilidade, vejo sem entusiasmo a Rio+20, que até agora só serviu para piorar o tráfego aqui na Lagoa, onde moro. Não tenho qualquer entusiasmo por esse tipo de evento, não sei em qual ano estive na Suécia para cobrir o casamento da rainha Silvia com o rei local e me botaram num enorme anfiteatro onde o tema em discussão foi a salvação das baleias. Ignoro se elas foram salvas. De qualquer maneira, fiz o que me pediram: assinei um manifesto num dos raros momentos em que dei uma folga ao meu espírito de porco.
Pior do que isso: por ocasião da Eco 92, tive de editar um álbum (até que luxuoso) em três línguas, patrocinado pela ONU, pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo governo do Estado do Rio. Foi uma tarefa profissional que tentei fazer da melhor maneira possível. Um dos pontos mais simpáticos da reunião, ao qual dei o devido destaque, foi o projeto da despoluição da baía de Guanabara, cuja sujeira escandalizou todas as delegações estrangeiras.A comissão que tratou do problema descobriu que no escudo oficial da cidade figuram dois golfinhos, que eram abundantes no tempo dos tamoios que aqui viveram.
A conclusão do relatório foi a promessa formal de que os golfinhos voltariam às nossas águas abençoadas pelos braços abertos do Redentor sobre a Guanabara.
Vinte anos depois, é mais fácil encontrar na nossa baía os ossos de Dana de Tefé* do que um dos golfinhos que continuam a sustentar o brasão histórico da cidade".
CARLOS HEITOR CONY


Nota: *Gratidão aos ossos de Dana de Tefé. Sobre o tema  aqui  e veja  mais

fevereiro 07, 2012

Lembranças do Francis

entrevista com Gisele aos 15 anos
"Vi no Canal Brasil o documentário sobre o 15º aniversário da morte do jornalista Paulo Francis. Bom programa, inclusive com o final wagneriano de "Tristão e Isolda", talvez seu trecho lírico preferido.
Ele foi um dos personagens mais instigantes de nosso meio cultural e marcou época na segunda metade do século 20. Eu estava em Roma quando ele morreu em Nova York e confesso que me senti um pouco perdido.
Foi o primeiro leitor dos originais de alguns romances que publiquei. Polêmico, às vezes contraditório e sempre brigão, tinha duas faces: a do intelectual superdotado, que se exaltava, odiando, como Horácio, o vulgo e o profano, e o homem mais do que educado e gentil, desses que raramente encontramos, que não existem mais.
O Luiz Schwarcz lembrou a amizade que Paulo dedicava aos amigos. Num fim de semana, sabendo que Jorge Zahar, doente, estava deprimido, tomou um avião na sexta. No sábado, apanhou amigos comuns (Ruy e Millôr) e levou-os a fazer companhia ao editor, que morreria pouco depois. No domingo à noite, embarcou de volta para Nova York. Passou um de seus últimos fins de semana integralmente ao lado de um dos amigos que mais admirava.
Todos os que tiveram sua amizade podem contar episódios iguais. Seu último jantar no Rio foi em minha casa, em companhia do Ruy. Levei-o ao hotel em Copacabana. Ao saltar, não se esqueceu daquela cortesia que quase ninguém usa mais: pediu que eu agradecesse à minha mulher o modesto jantar que lhe oferecemos.
Em 1965, oito amigos seus foram presos em frente ao hotel Glória. Ao saltarmos no quartel, Glauber Rocha apontou para a calçada: "Olha, o Paulo Francis!" Ele nos acompanhara à distância, solidário, temendo que fossemos maltratados".
CARLOS HEITOR CONY

janeiro 22, 2010

Paz na Terra

ENCONTRO COM antigo colega do seminário, hoje padre, na porta da igreja. Eu esperava uma filha, e ele esperava a hora de fazer sua prédica sobre o mês de maio. Havia uma chuva miúda, o vento saía do túnel novo e varria as duas avenidas que vomitam automóveis vindos da cidade, em busca de Copacabana.
Lá dentro, na igreja, há calor e beatas. Alguém reza em voz alta, mas as buzinas dos carros soam mais fortes.
-Milagre?
-Não. Espero alguém.
Ele faz cara compreensiva, embora compreendendo outra coisa.
-Como vai essa ovelha tresmalhada?
-Já não sou tresmalhado, nem sequer sou ovelha.
-Isso depende de você. Olha, mais dia menos dia, você não aguenta mais.
Mudo de assunto:
-E o papa?
Há um brilho comovido nos olhos do padre.
-Você gosta dele?
A pergunta parece sem sentido, era claro, não tinha nada contra o papa.
-Pois olha, é um homem admirável.
E começa a falar. Do papa, descemos aos cardeais, depois aos bispos. Deu-me notícias que o nosso dom Jorge Marcos de Oliveira continuava o mesmo "Turcão" que conhecemos no seminário. Isso significa muita coisa de ternura e admiração.
"Turcão" era o camarada mais inteligente do seminário e do mundo. Bispo em Santo André, já falecido, tornou-se notável pelo seu zelo e pela sua competência pastoral. Vítima do noticiário dos jornais, dom Jorge muitas vezes foi apresentado como "moderno" demais, amigo demais dos trabalhadores. Esse "moderno" é justamente o "Turcão" do seminário.
Mas a sineta toca lá dentro e o padre entra.
-Vou falar sobre o mês de Maria. Na saída, voltamos a conversar.
-Posso ouvir?
-Não. Não aconselho. Vá esperar seu alguém.
O padre entra e eu vou atrás. Sento no banco mais escuro e triste. Beatas por todos os lados, lá no canto um homem idoso e curvado tosse com estrondo.
Acendem-se as luzes e o padre entra.
-Meus amigos, ia falar hoje sobre o mês de Maria. Mas encontrei lá fora um amigo de infância e mocidade, companheiro de ideal e de antigas lutas, hoje do outro lado da trincheira. Falar sobre o mês de maio seria ocioso para ele. Para vocês, outros padres falarão melhor do que eu sobre esse assunto. Pois falarei sobre um tema que tanto pode servir a vocês quanto a ele e a mim. A paz.
Não a paz dos guerreiros, a paz dos políticos, dos financistas. A paz paz, pacificamente instalada no coração e na angústia do homem. Lembrou a encíclica "Paz na Terra", não era qualquer paz que interessava para o homem.
E lembrou dois trechos do Evangelho. Quando Cristo diz: "Eu não vim trazer a paz, mas a guerra"; e quando, já ao fim de seus dias na Terra, faz sua grande oferta: "Eu vos dou a minha Paz".
Lá no fundo sinto o bruto orgulho de ter um amigo falando bonito e bem. Revivo algumas cenas de nossa infância, nossos estudos, o dia em que, juntos, começamos a estudar filosofia, quando apostamos tirar dez em ontologia. Toda a ternura antiga e não sabida vem à tona.
A prédica acaba, as beatas se ajoelham para a missa e eu saio trôpego, sem saber se devo ficar ou se devo partir imediatamente, infinitamente, em busca dos caminhos que escolhi sem ter preferido.
Lá fora, o vento que o Atlântico sopra vem por dentro dos túneis que engolem massas compactas de carros, as luzes vermelhas piscando histericamente na noite que desce sobre a cidade atrofiada de ossos e músculos cansados.
Na igreja, começa a missa, o mesmo rito antigo que Joyce colocou no pórtico de seu "Ulisses" e eu coloquei no pórtico de minha adolescência frustrada: "Subirei ao Altar de Deus". Que Deus? Que Altar? Há trincheiras ou, feitas as contas, não estamos todos do mesmo lado atirando contra o nada?
A chuva para. O mundo está lavado e um hálito fresco sobe do chão. Perto do carro, minha filha me espera. Meu carro será em breve um ponto histérico a mais, a ser devorado pela goela insaciável dos túneis e da vida. Olho para trás, o padre inicia o ofertório e se oferta. Paz.
Minha filha estende a mão e me chama para o chão, que nos traga sem ofertas, com lágrimas que começam a brotar em silêncio, secas no fundo e na treva.

CARLOS HEITOR CONY

setembro 18, 2009

Rapsódia dos anos mais antigos

"ALGUNS EXCELENTES escribas em atividade, Ruy Castro, Arthur Xexéo, Joaquim Ferreira dos Santos e outros, já entrados em alguns anos de crônica e de mundo, volta e meia escrevem comoventes rapsódias aos tempos idos, sobretudo aos anos 30, 50 e 60 -datas que ficaram marcadas em suas mentes, corações e carnes. Evocam uma idade de ouro, em que as escolas podiam não ser risonhas e francas, mas o mundo em geral, e em particular o cinema, eram não o paraíso perdido, mas a Babilônia reencontrada de Scott Fitzgerald, aberta aos sonhos e cobiças dos grandes Gatbsy que éramos todos.
Lembro um desses rapsodos, talvez o mais radical e, por isso mesmo, o mais desesperado. Chamava-se Salvyano Cavalcanti de Paiva II, o pai dele era o primeiro da dinastia e o filho ficou sendo o Salvyano III, uma linhagem como a dos papas e a dos reis. Era potiguar e ao mesmo tempo nova-iorquino, californiano, texano e romano dos anos fellinianos. Numa edição dominical do jornal em que escrevia extensos e bem fundamentados artigos, deixou uma rapsódia ensinando-me a mim, "prisioneiro da teologia e do reacionarismo catolicão", as belezas da velha Galeria Cruzeiro, o encanto do "New Deal", as piadas das "Seleções", Josephine Baker cantando "J'ai deux amours", as pernas de Ginger Rogers.
As pernas de Ginger Rogers! Salvyano não sabe que, lá no Seminário, onde me refugiei das tentações do diabo, do mundo e da carne, tinha eu de me aferrar com unhas, dentes e rosários ao angélico São Luiz Gonzaga, padroeiro da castidade, para afugentar os maus pensamentos que me invadiam a alma quando ouvia, esporadicamente, num rádio vizinho, o "Cheek to Cheek", o "Isn't it a Lovely Day?" de "O Picolino", ou mesmo aquele inocente e triunfal "The Continental", de "A Alegre Divorciada".
Mas isso é problema meu e de São Luiz Gonzaga. O santo valeu-me em inúmeras oportunidades e hoje, com melhor perspectiva para julgar-me, tenho raiva do santo. Muitas vezes rezei até que decorei:
"Oh Luiz santo, adornado de angélicos costumes, eu indignissímo devoto vosso, vos recomendo a castidade da minha alma e do meu corpo. Não permitais que se implante em minha alma qualquer mancha de impureza; mas quando me virdes em tentação ou perigo de pecar, afastai para longe de mim os pensamentos imundos..."
O que tive de pensamentos imundos não foi mole -apesar da prestimosa intercessão do santo. O duelo Ginger Rogers x São Luiz Gonzaga arrastou-se por algum tempo, com eventuais vantagens para o santo, mas Ginger Rogers sempre dando de goleada. Hoje, se se repetisse o duelo, São Luiz não teria de se medir com Ginger Rogers, mas teria pela frente a nutrida e confortável Scarlett Johansson ou a ainda confortável Demi Moore. Isso sem falar no plantel nacional, com suas Elviras Pagãs e Julianas Paes. Acredito que o santo tomaria um banho!
Por aí se pode ver que o agressivo saudosismo do Salvyano II e seus asseclas muito erraram ao enumerar o leite e o mel que corriam pela Canaã dos anos mais antigos do passado. Aos olhos deslumbrados do então adolescente e já sólido potiguar que aqui desembarcou nos meados dos anos 30, o Rio pareceu-lhe o paraíso do já citado Scott Fitzgerald.
Não vou citar Balzac, mas o Salvyano II já devia ter lido "Um Começo de Vida". Todo o provinciano, ao chegar à grande cidade, enamora-se dela e com ela firma um pacto de fidelidade eterna: jamais! O rapaz mantém-se, quase sempre, fiel ao pacto. Mas a cidade, essa se transforma, se prostitui, recebe novos rapazes e com eles firma novos e abomináveis pactos.
Não contente em trair, e amaldiçoadas pelos bíblicos profetas, as cidades terminam por maltratar o eleito da véspera, agredindo-o em suas lanchonetes desconfortáveis, em seus cinemas sem refrigeração, em suas ruas esburacadas, em suas enchentes de verão e em suas solidões de inverno.
Não estou aqui para aconselhar ninguém a imitar os profetas, sacudindo o pó de suas sandálias contra o Rio. Salvyano era o único jornalista do Brasil que usava galochas. Sua rapsódia equivalia a um sacudir de sandálias não contra a cidade, mas contra o Tempo. E o Tempo é pior do que as cidades."

CARLOS HEITOR CONY