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fevereiro 06, 2014

Rolezinhos



"Na Europa da minha juventude, não havia shopping centers - e, se não me engano, isso não mudou. Havia, isso sim, lojas de departamentos: a Rinascente em Milão, Harrods em Londres e, em Paris, o Bazar de l'Hôtel de Ville, a Samaritaine, as Galeries Lafayette, o Bon Marché.
As lojas de departamentos são os primeiros grandes templos do consumo, como Zola contou deliciosamente no "Paraíso das Damas". Nelas, pode haver um café/restaurante no último andar, mas não há uma área de alimentação, nem cinemas, nem teatros: são lugares funcionais --para comprar, não para passear. Ninguém, em Milão, teria a ideia de dar um rolê na Rinascente. O rolê seria no Corso Vittorio Emanuele, fora da loja.
Em Manhattan também há lojas de departamentos (Saks, Lord and Taylor, Bergdorf, Barneys, Bloomingdale's, Macy's etc.), mas não são lugares para rolê - eventualmente, para expedições quase militares em dia de liquidações anuais. O único shopping center de Manhattan é o Manhattan Mall, do qual, aliás, os nova-iorquinos tendem a fugir.
Nas áreas suburbanas e rurais dos EUA, os shopping centers se parecem com os do Brasil. Mesmo assim, foi no Brasil que eu aprendi que dar rolês em shopping é um programa. Passeamos pelos shoppings, e não é para comprar nem para lamber vitrines. Por quê, então?
Uma amiga me diz que ela passeia pelos shoppings para ter a impressão de estar fora do Brasil, ou seja, num espaço público que não seja ansiógeno e violento. Claro, é uma ilusão fugaz; basta olhar para as vitrines para constatar que tudo é brutalmente mais caro do que no exterior --pelos impostos, pela produtividade medíocre ou pela corrupção endêmica, tanto faz. Mesmo assim, insiste minha amiga, a ilusão de civilidade é um alívio.
Hoje, à brutalidade de impostos, corrupção e mediocridade produtiva acrescentam-se os "rolezinhos" dos jovens da periferia. O que eles querem, afinal?
Talvez eles gostem de apavorar. Não seria de se estranhar. É um axioma: para quem vive na incerteza (de seu status, do reconhecimento dos outros, de seu lugar no mundo), apavorar é um jeito de encontrar no medo dos outros uma confirmação de sua própria relevância. Apavoro, logo existo: espelho-me na preocupação dos seguranças e na cara fechada dos clientes que voltam correndo para o estacionamento.
Mas apavorar é um efeito colateral. Os jovens dos "rolezinhos" pedem sobretudo uma bola branca: a admissão ao clube. A prova, a roupa que eles preferem e que grita para ser reconhecida como luxo.
Tudo bem, alguém perguntará, eles pedem acesso a quê? À classe privilegiada? Ao consumo de quem tem grana?
Não acredito em nada disso, aposto que eles pedem acesso ao próprio lugar para o qual eles vão: eles pedem acesso ao shopping. O que esse lugar tem de mágico? De desejável? Qual é seu valor simbólico?
Na nossa cultura (justamente pela quase inexistência de espaços públicos minimamente frequentáveis, ou seja, pelo horror que a rua é para todos, ricos e pobres), os shoppings integram a lista histórica dos refúgios.
Ao longo da história, nem todos os refúgios foram democráticos. Na época de minha adolescência, discutia-se para saber quem ganharia um lugar no refúgio antiatômico (os critérios eram variados, mas, por exemplo, a idade avançada não era um ponto a favor). Mais tarde se discutia para saber quem subiria na única nave espacial que levaria um grupo seleto para outro planeta, visto que a morte da Terra ou do Sol era próxima e inelutável --apreciem minha coragem: para as duas seleções, escolher ciências exatas seria uma vantagem considerável.
Mas, antes disso tudo, houve uma época em que os refúgios eram abertos. Por exemplo, as igrejas em épocas de pestilência ou de invasão por exércitos saqueadores: todos podiam entrar. Duvido que eles acreditassem numa intervenção milagrosa que salvasse a todos, mas a própria civilidade do ato de rezar em comum era provavelmente um gesto de resistência contra a barbárie, que reinava lá fora.
Agora, o primeiro refúgio da história foi elitista: na Arca de Noé, era só um casal por espécie, e uma família de humanos, a do próprio Noé.
Falando nisso, como é que funcionou a Arca de Noé? Os lobos, as hienas, os chacais etc. declararam trégua e comeram só sucrilhos durante o tempo das águas ou então, irresistivelmente, eles comiam um cordeiro ou um bezerro de vez em quando?"


CONTARDO CALLIGARIS

fevereiro 04, 2014

Igualdade no Panthéon



"Aos grandes homens a pátria agradecida", diz o lema sobre a entrada do Panthéon, o monumento francês a algumas das figuras mais importantes do país. E isso suscita uma pergunta: e as "grandes mulheres"?
Embora os tempos tenham mudado desde que o Panthéon foi concluído, em 1790, a escolha das pessoas que devem ser sepultadas aqui, assim como o lema, não reflete essas mudanças.
De acordo com a tradição, cada presidente francês tem a honra de transferir uma figura notável falecida para a estrutura, ao lado de Voltaire e Rousseau (que se detestavam), Victor Hugo e Marie Curie, a única mulher entre as 73 pessoas sepultadas no local a estar ali por mérito próprio (a outra mulher no Panthéon foi incluída por insistência de seu marido). Assim, quando o presidente François Hollande pediu ao público sugestões sobre quem incluir, não surpreendeu que o debate tivesse rapidamente se voltado à questão de corrigir o desequilíbrio de gênero.
A equipe do presidente e Philippe Bélaval, diretor do Centro de Monumentos Nacionais, foram inundados de recomendações com nomes de mulheres importantes para serem sepultadas no Panthéon.
Grupos formados por organizações feministas no Facebook atraíram milhares de votos em favor de mulheres. E, quando a revista "Le Point" fez uma pesquisa com 5.000 pessoas, duas mulheres receberam o maior número de votos: a anarquista e professora Louise Michel, que viveu no século 19, e irmã Emanuelle, freira que passou a maior parte da vida na Turquia e no Egito, entre os pobres, e tinha posição liberal quanto ao uso de anticoncepcionais.
No ano passado, manifestantes diante do Panthéon ergueram retratos de Olympe de Gouges, ativista dos direitos das mulheres e adversária da escravidão, que era legal nas colônias francesas na época em que ela viveu.
Outra candidata potencial é Simone de Beauvoir, intelectual e teórica política. Muitos na França a consideram tão importante quanto seu amigo e eventual companheiro Jean-Paul Sartre, segundo Gwladys Bernard, da organização feminista La Barbe.
Mulheres que foram ativas na resistência francesa ao nazismo são citadas com frequência. É o caso de Germaine Tillion, intelectual e etnógrafa que foi enviada ao campo de concentração de Ravensbrück, e de Lucie Aubrac, cujas tramas ousadas para salvar seu marido judeu e outros prisioneiros dão uma leitura fascinante.
Uma decisão deve ser anunciada em fevereiro.
As mulheres conquistaram o direito ao voto na França apenas em 1944, quase 40 anos depois da Finlândia e 25 anos depois da Alemanha e do Reino Unido. E, diferentemente do Reino Unido, da Alemanha e da Dinamarca, a França ainda não elegeu uma líder mulher.
Completado no início da Revolução Francesa, o Panthéon já foi visto por muitos como uma estrutura divisionista. Para muitos que eram a favor do velho regime ou de aspectos dele, o monumento teria sido dedicado à esquerda política.
A historiadora Mona Ozouf disse que a inclusão de mulheres pode ajudar a reforçar o status do Panthéon como monumento nacional, não apenas político. Para ela, as pessoas sepultadas ali devem ser vistas como fonte de inspiração para os cidadãos franceses.

ALISSA J. RUBIN 

setembro 23, 2013

'HELAS'


"Deus criou o Céu e a Terra e o Dia e a Noite, e deu nome às plantas, aos bichos e às coisas. Mas também era preciso dar nome aos sentimentos e às emoções, a perplexidades e a situações inusitadas e, sentindo-se despreparado para a tarefa, Deus criou os franceses.
Os franceses têm a expressão certa para tudo, inclusive para o inexprimível, que eles chamam de "je ne sait quoi". O francês é a única língua do mundo com uma definição para a incapacidade de definir. Eles não apenas têm um nome para "fazer beicinho", "bouder" como inventaram uma peça da casa que teoricamente existe só para a mulher se recolher enquanto o faz, o "boudoir". Outra expressão francesa que não ocorreria a mais ninguém é "esprit d’escalier", ou o espírito que só se faz presente quando a gente já está descendo a escada, depois de falhar na hora de ser brilhante. Se não fossem os franceses, não saberíamos como chamar a sensação de que a boa frase ou a resposta arrasadora geralmente só nos vêm quando não adianta mais. Na escada ou, mais recentemente, no elevador.
Outra boa frase francesa era "epater les bourgeois". Caiu em desuso, em primeiro lugar, porque todas as frases prontas francesas foram ficando antigas num mundo cada vez mais americano, mas também porque foi ficando cada vez mais difícil espantar a burguesia. Depois da revolução sexual e do escancaramento da privacidade, nada mais espanta ninguém e o que antes chocava hoje vira moda.
O que ainda funciona - tanto que, no Brasil, se transformou num gênero jornalístico - é "epater la gauche", contrariar o pensamento convencionalmente progressista, ou apenas correto, com reacionarismo explícito. Os "epateurs" da esquerda podem ser divertidos, mas como em todo "succès d’escandale" (que remédio, sou um antigo) nunca se sabe se o sucesso se deve ao talento para escandalizar ou se o escândalo dispensa o talento, e basta ser contra para aparecer. De qualquer maneira, "hélas", aos poucos as frases feitas francesas vão perdendo a atualidade e - ça va sans dire - a utilidade".
Luiz Fernando Veríssimo

setembro 21, 2013

RENOIR


"Renoir" retrata a vida do pintor impressionista Auguste Renoir na visão do diretor Gilles Bourdos, foi sugerido pela França para as indicações ao próximo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
O filme se passa em 1915, na Riviera Francesa, onde o pintor Renoir já sofrendo das doenças da idade e Andrée, uma jovem que se converte em modelo do artista e transtorna a vida de toda a família, incluindo a de Jean, filho do artista.
 



julho 14, 2013

A Espuma dos Dias


Marcado por um frescor quase adolescente, repleto de brincadeiras e jogos de linguagem, namorando com o surrealismo sem abraçá-lo totalmente, “A Espuma dos Dias” é um romance de afirmação da liberdade: nas relações afetivas e sociais entre os personagens, as barreiras de classe são destruídas e as práticas amorosas são reinventadas. Há amores para todos os gostos, sem hierarquia de valor: os puramente carnais, os platônicos, os loucos, os infelizes, os desesperados. Nas entrelinhas, Vian denuncia as condições de vida e trabalho que alienam os indivíduos de sua realização, amarrados que estão ao círculo vicioso do consumismo. Critica também a religião e seus laços já então crescentes com o dinheiro. Não sem motivo, o livro foi redescoberto e transformado em objeto de culto nos tumultuados anos 60, quando uma nova geração foi às ruas para protestar e quase derrubou o Governo. (Máquina de Escrever)


...
"Escrito em 1946 por Boris Vian, "A Espuma dos Dias" conquistou um lugar no coração dos adolescentes franceses análogo a "O Apanhador no Campo de Centeio", de J.D. Salinger, entre os jovens norte-americanos. É a história de amor impossível do dândi Colin e sua amada, cândida e bela Chloé.
Impossível porque, logo depois que se casa, numa cerimônia que tem até uma limusine transparente e outros requintes, a mocinha, vivida no filme por Audrey Tautou, a eterna Amélie Poulain, descobre que um nenúfar cresce dentro de seu pulmão e deve ser extirpado para que ela não sufoque até morrer.
Romain Durys, na pele de Colin, torra toda a herança que garantia seu estilo de vida bon vivant com os médicos que tentam salvar a mulher da morte certa. E o resto está na história que estreia nesta sexta, nos cinemas do país...
Não faltam no livro excessos descritivos para alimentar os exageros visuais de Gondry. Tanto que o diretor de "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" e de alguns dos clipes mais malucos de Björk considera esse filme uma espécie de resumo de toda a sua obra visual.
"Todo mundo que conheço já leu esse livro, e os franceses amam essa história", diz Gondry. "Senti a pressão para não decepcionar o público, mas tentei me ater às impressões que ficaram da minha primeira leitura desse romance."
Talvez isso explique o turbilhão cronológico da história. "De fato, é um filme 'retrofuturista'", diz o diretor. "Queria criar um mundo igual ao de hoje, mas pensando que as coisas seguiram outra direção a partir dos anos 1940, um mundo paralelo."
Gondry e Vian, aliás, também têm seus paralelos.
Tanto um quanto o outro fizeram obras marcadas pelo trânsito entre a cultura europeia, de berço, e os Estados Unidos. Enquanto Gondry se rendeu a Hollywood, Vian, que morreu em 1959 e só não viajou para a América por problemas de saúde, era trompetista de jazz e fez dessa música a trilha sonora de sua escrita, quase um mantra libertário no pós-guerra.
"Essa era a música da liberdade", diz Gondry. "Mas sou muito mais crítico à cultura americana do que ele. Meu tributo a esse sonho dele de ir para a América aparece no filme no vagão de trem que eu usei para filmar a sala de jantar de Colin. É como uma lanchonete americana."
Mas fora do vagão de trem e da ambientação psicodélica dos bailes de jazz da época, Gondry caçou locações em Paris para dar um toque surreal à narrativa de Vian.
Uma delas foi a sede do Partido Comunista, projeto de Oscar Niemeyer na capital francesa, que surge no filme como a oficina em que operários escrevem o romance em linha de montagem, cenário que não está no livro, mas faz homenagem ao processo de escrita do original.
"Esse lugar tem mesmo uma pegada de ficção científica", diz Gondry. "Niemeyer foi um grande arquiteto, melhor que Le Corbusier, e tem algo delicado nesse projeto."
Nada delicado é o sofrimento dos personagens da trama, cada um sucumbindo a um vício ou a pressões do trabalho. Vian, em tradução visual de Gondry, parece comentar um tema bastante atual -a precarização da mão de obra num momento de colapso político e financeiro.
Isso fica explícito numa das cenas mais fortes do filme, em que Colin, já falido, vai trabalhar como operário que empresta o calor do corpo como adubo para uma plantação de metralhadoras -ele fica nu, sobre um monte de terra, para nutrir armas que brotam como flores.
"Nossa época é mais deprimente que a do livro", disse Audrey Tautou...  "Há ali uma metáfora sobre o mundo do trabalho e da cadeia de produção, mas a fantasia do filme distancia isso tudo da realidade e cria uma história atemporal. É um esboço sobre a sociedade, um conto moderno acima de tudo."

SILAS MARTÍ

junho 03, 2013

Homens do lixo

"Leio matéria na BBC Brasil sobre o último escândalo francês: parece que 31% dos 150 mil restaurantes que existem no país servem pratos industrializados que são esquentados no fogão ou até em micro-ondas.
Em qualquer outra região do mundo, talvez a revelação não fosse tão indigesta. Mas em França? Em Paris?
Os chefs locais estão horrorizados com a blasfêmia e, conta a jornalista Daniela Fernandes, o parlamento pretende legislar sobre a matéria, reservando a palavra "restaurante" apenas para restaurantes. Sim, aqueles estabelecimentos que antigamente usavam lume e panelas para cozinhar ingredientes frescos.
Entendo a histeria francesa. Mas, honestamente, não estaremos a ser demasiado exigentes com o pessoal?
Alguns empregados ouvidos por uma reportagem de TV foram mais sensatos do que a histeria de chefs e políticos. E perguntaram, com naturalidade desarmante: mas para quê cozinhar produtos frescos quando a maioria não distingue a diferença?
É uma boa pergunta. Que implica outra: e por que motivo o cliente médio, e sobretudo o turista médio, é incapaz de reconhecer o lixo que mastiga?
A resposta é óbvia: porque o lixo faz parte do seu cardápio diário. Aliás, não seria de excluir que a substituição de lixo por comida de verdade pudesse ter o efeito contrário: horrorizar alguns palatos e afugentar a clientela. Como dizia um velho amigo meu (e excelente garfo), as pessoas adoram "pizzas" porque as "pizzas" não têm espinhas.
E se alguém desaprova a minha observação, que responda com honestidade: como se distingue peixe fresco de peixe congelado? E, já agora, como se distingue um prato cozinhado no momento de um prato embalado em fábrica, esquentado no fogão e coberto por dois ou três molhos especiais (e com nome apropriadamente francês)? Com honestidade, disse eu.
Pedir intervenção estatal por tudo e por nada é coisa de crianças. Não são os restaurantes que têm de mudar. São os clientes. De preferência, ganhando os hábitos e as exigências que não têm.
Quem não é capaz de reconhecer a comida de plástico que tem no prato, mil perdões, é porque merece mesmo comer plástico".

João Pereira Coutinho

março 25, 2013

A dor de envelhecer


“Envelhecer é muito difícil para todo mundo. Temos de aceitar que vamos perder nossas características físicas. E mais: envelhecer dói. Quando visitamos os idosos e perguntamos como é ser velho, a resposta – quase que em 100% dos casos – é ‘dói, todo dia dói’.”
* * *
Há alguns anos, Hugo Aguilaniu, geneticista da École Normale Supérieure de Lyon, na França, se deu conta de que seu trabalho ia além das pesquisas genéticas sobre o envelhecimento. Que não bastava avançar nos estudos para aumentar a longevidade sem encarar outra importante missão: a cura dos idosos. "Essa é a prioridade e a urgência de hoje", diz. "A pesquisa não está mais focada em estender a vida. Nosso objetivo, agora, é o de melhorar a qualidade do envelhecimento", relata o cientista. 
Integrante do Programa Cátedras Francesas do Estado de São Paulo, ele passou duas semanas no Brasil para ministrar um curso sobre genética do envelhecimento na pós-graduação da USP - a convite de Alicia Kowaltowski. 
A discussão é pertinente. O mundo terá um bilhão de idosos dentro de dez anos. O dado, de estudo divulgado pela ONU no ano passado, é um alerta para todas as nações: é preciso correr contra o tempo e adotar medidas que assegurem, desde já, o bem-estar da população - que fica mais velha a cada dia. Segundo a organização, uma em cada nove pessoas no mundo tem 60 anos ou mais, o equivalente a 11,5% da população mundial. 
No Brasil, já são 23,5 milhões de idosos (12% da população) - de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2011. E a cada mostra do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é comprovada a tendência de envelhecimento do País. "A população brasileira está envelhecendo cada vez mais rápido", diz Aguilaniu. "Os franceses já ganharam seis horas de expectativa de vida por dia. No Brasil, essa velocidade é ainda maior, de nove horas por dia. Isso quer dizer que o bebê que nasce hoje terá uma expectativa de vida nove horas superior ao que nasceu ontem", explica.
Mas o problema é que, infelizmente, "envelhecer ainda dói", diz Aguilaniu. Hoje, segundo ele, as pesquisas mostram que os idosos sofrem, em média, 15 anos por causa das chamadas doenças associadas ao envelhecimento. "Queremos acabar com esse longo período ruim pelo qual passamos na velhice."
Quer dizer que há um caminho para se encontrar a mais perfeita fórmula da juventude? Hugo Aguilaniu tem a resposta: "Já conhecemos moléculas capazes de aumentar a longevidade de mamíferos. A chance de se chegar a uma droga que aumente a vida do ser humano é enorme. E vai acontecer logo". Mas, calma. "Temos outra missão: a de matar os mitos. Todos queremos encontrar a fonte da juventude, mas é preciso pensar como sociedade, não individualmente. Imagine se todos nos tornássemos imortais?"
Os melhores trechos da conversa: 
O Brasil já está velho? 
HA - E cada vez mais rápido. Na França, ganhamos seis horas de expectativa de vida por dia. Um bebê que nasce hoje terá uma expectativa de vida seis horas superior ao bebê que nasceu ontem. No Brasil, essa velocidade é ainda maior, de nove horas por dia. São quatro meses e meio por ano. Isso mostra que o problema do envelhecimento da população é muito importante. A população da França já está velha. Aqui no Brasil, o problema é maior, porque a população ainda é jovem, mas vem envelhecendo muito rápido. E tem um outro fator essencial: a queda da taxa de fecundidade. 

Qual é a maior dificuldade do Brasil em relação ao envelhecimento?
HA - Este é o debate político que tem de acontecer imediatamente. São muitos os idosos que precisam de ajuda. Na França, que convive com o envelhecimento da população há um tempo, já é difícil, já não se dá conta do recado. A velhice tem um custo muito alto. Quem cuida dos idosos cobra um valor extremamente elevado. E há também os custos com hospital, medicamentos. É um impacto enorme sobre a sociedade e seu crescimento econômico. 

A sociedade tem essa noção?
HA - Não. As pesquisas têm evoluído muito rápido e, hoje em dia, já conhecemos moléculas capazes de aumentar a longevidade de mamíferos. Isso quer dizer que a chance de chegarmos a uma droga que aumente a longevidade do ser humano é enorme. E vai acontecer logo. Se pensarmos que a população já está envelhecendo muito rápido e que, de repente, entrará um molécula que prolongará ainda mais a vida, a demografia vai explodir. Poderia matar o crescimento do Brasil de um dia para o outro, por exemplo. 

Na sua opinião, qual é o papel do poder público? 
HA - A França só agora está se dando conta de que envelheceu. Mesmo falando há anos sobre a importância de se pensar em políticas para a velhice, só recentemente comecei a receber ligações de pessoas do governo preocupadas com a questão do envelhecimento. Ganhamos 25 anos de vida, vivemos até os 85, mas as pessoas ainda querem viver como se fossem morrer aos 60. É preciso reorganizar a sociedade. E fazer com que as pessoas percebam que elas não farão o mesmo trabalho a vida toda. Passaremos a ter o trabalho para os jovens e o trabalho para os mais velhos. As empresas terão de se reorganizar. Será uma mudança global. 

Nesse contexto, qual o impacto da sua pesquisa? 
HA - Nosso trabalho, nesse momento, é melhorar a qualidade do envelhecimento. Sabemos que é possível alterar em qualquer animal - inclusive no ser humano - a percepção do tempo. 

E como se faz isso? 
HA - Mexendo com os genes, para que eles mandem informações "erradas" sobre o tempo. A partir daí, o corpo passa a viver com um tempo que não é o real, tendo uma longevidade maior. Em 1993, um grupo de pesquisadores da Califórnia encontrou o primeiro gene capaz de passar por esse processo. Hoje, já sabemos que 50 genes têm tal capacidade. No momento, a pesquisa não está mais apenas focada em estender a vida, mas, sim, em melhorar a qualidade do envelhecimento. Nosso objetivo é que as pessoas possam viver com boa saúde até a morte. Queremos eliminar o longo período ruim pelo qual passamos na velhice. Hoje em dia, idosos sofrem, em média, durante 15 anos. É muito tempo. Se conseguirmos diminuir isso em 10%, já será uma grande vitória. 

E o limite da ética? Até quando é possível estender a vida?
HA - Biologicamente, acredito que ninguém possa responder a essa pergunta. Trabalho com um verme - o Caenorhabditis elegans - que tem longevidade normal de 19 dias. Mas hoje, em nosso laboratório, temos animais de quase 1 ano de idade. Se fizermos a transição para o ser humano, são 800 anos. Mas claro que não é tão simples assim. Não dá para saber se há um limite biológico, mas o ético, com certeza, existe. As pessoas querem viver muito. Todos têm a fantasia da imortalidade, de encontrar a fonte da juventude, mas é preciso pensar como sociedade, não individualmente. Imagine se todos nos tornássemos imortais? É um pensamento que pode parecer filosófico, mas é biológico também. 

Como assim?
HA - Quando analisamos esses animais que tiveram suas vidas prolongadas, descobrimos que eles passaram a reproduzir muito menos. Aparentemente, esse processo nos mostra que só é possível uma coisa ou outra: viver muito tempo ou investir nas próximas gerações. E ainda não sabemos o porquê. Estamos trabalhando para descobrir. 

E já existem pistas? 
HA - Está provado que a restrição calórica contribui para o prolongamento da vida. Mas, quando comemos menos, a reprodução diminui. Queremos encontrar o gene que tenha o benefício da restrição calórica na longevidade, sem atingir a reprodução. 

Será possível aumentar o tempo de reprodução da mulher?
HA - Há pesquisas intensas nesse campo. Até agora, conseguimos aumentar a longevidade, mas o período de reprodução da mulher continuou o mesmo. Isso cria uma desigualdade a mais entre o homem e a mulher. E nós, geneticistas, costumamos dizer que, a partir do momento em que o ser humano não pode mais se reproduzir, ele está morto geneticamente. 

As pesquisas já descobriram os genes para não se ter mais cabelo branco? Ou rugas?
HA - Estamos olhando para aspectos fisiológicos, não estéticos. Mas é lógico que acabam aparecendo. Quando mexemos nos genes da longevidade, descobrimos que ficamos com um aspecto mais jovem também - mesmo que, para nós, pesquisadores, não seja um ponto fundamental. 

Como você vê essa obsessão pela juventude? 
HA - A estética não prolonga o tempo de vida. Ela apenas melhora a aparência. Não é ruim, mas é o "viver o agora". As pessoas querem ser bonitas e jovens hoje, porque não sabem o que será amanhã. Porém, há outro ponto: a vontade de viver muito. As pessoas estão dispostas a fazer qualquer coisa para prolongar a vida. Mas temos de tomar muito cuidado com toda essa fantasia. E uma política de estado é capaz de regular isso.

Como?
HA - Do mesmo jeito que existem restrições para os fumantes, para bebidas, tem de haver ações que mostrem para a população que não adianta tomar pílulas em busca de mais anos de vida. Até porque ainda não conhecemos a pílula que vai funcionar. Existirá, com certeza, mas ainda não existe. As pessoas que tomam um monte de pílulas para viver mais estão se enganando. Não funciona. 

Até porque as questões do envelhecimento vão além do aspecto físico. 
HA - Envelhecer é muito difícil para todo mundo. Temos de aceitar que vamos perder nossas características físicas. E mais: envelhecer dói. Quando visitamos os idosos e perguntamos como é ser velho, a resposta - quase que em 100% dos casos - é "dói, todo dia dói". E é horrível ouvir isso. Um de nossos principais objetivos é diminuir a dor dessas pessoas.

É muito comum as pessoas chegarem à velhice sozinhas. 
HA - Exato. Ao envelhecer, é psiquicamente essencial aceitar ajuda. Na França, que é um país muito mais individualista, as pessoas estão sofrendo também de solidão. Elas não aguentam a ideia de que precisam de alguém. 

Mas há quem queira cuidar desses idosos? 
HA - As pessoas não conseguem conceber o fato de que podem receber os pais quando ficam velhos. O que seria natural, afinal, é um troca. Pais criam seus filhos e, depois, chega a hora de os filhos ajudarem os pais. Na França, as pessoas ficam sozinhas e morrem sozinhas. E, muitas vezes, se passam muitos meses até que se encontrem os idosos mortos em casa - o que é absurdo. Em alguns casos, eles não têm mais família. Mas o que choca é que muitos têm, sim. Eles estão, simplesmente, abandonados.

É capaz de responder quanto tempo mais a gente vai viver?
HA - Qualquer pessoa que garanta saber a resposta está mentindo. Não dá para saber. Muitos pesquisadores dizem que, se conseguirmos reparar todas as coisas que "quebram" - como em um carro -, não haveria limite, alcançaríamos a imortalidade. Não faço parte dessa linha de pensamento. O que acho possível é uma expectativa de vida de 120, 125 anos. Mas é mera especulação. 

E você quer viver quanto?
HA - Quero viver hoje e só. O amanhã é o amanhã. Minha filosofia é viver cada dia como se fosse o último.
Thais Arbex

janeiro 08, 2013

A decadência da França



"Gérard Depardieu já é cidadão russo. Foi recebido pelo próprio Vladimir Putin, depois de polêmica feia com o governo de François Hollande.
Eis a questão: Depardieu está cansado de pagar impostos. Durante a sua longa carreira, já pagou mais de € 145 milhões (cerca de R$ 384 milhões). Chega. Sobretudo quando o governo de Hollande promete taxar com redobrada dureza os mais ricos do país.
Comento essa história com alguns amigos progressistas que não se conformam: se o Estado francês deseja aumentar para 75% o Imposto de Renda de quem ganha mais de € 1 milhão (R$ 2,6 milhões), como é possível que Depardieu se recuse a contribuir?
Claro que o verbo, na minha opinião, não é "contribuir". É "permitir". No caso, "permitir" ser roubado pelo Estado. Mas o problema, no fundo, é outro: quando Depardieu diz adeus à França e aceita um passaporte de Putin, talvez seja a França, e não Depardieu, que esteja com problemas sérios.
Aliás, bastaria perguntar aos meus amigos progressistas quando estiveram eles em Paris pela última vez. O silêncio seria geral. Paris é uma cidade que já não existe no radar deles.
Sem falar do óbvio: qual foi o último romancista francês que eles leram em 2012? Qual foi o filme a que assistiram? Que exposição os motivou ou encantou?
E, filosoficamente falando, quem é o grande pensador francês da atualidade? Melhor ainda: seriam eles capazes de ler esse pensador na língua original?
"É a economia, estúpido!", dizia um conhecido marqueteiro americano nas eleições presidenciais de 1992 entre Clinton e Bush (pai). No caso da França, a economia é apenas o começo do problema.
E esse começo é o mesmo dos países do sul da Europa: o euro, uma quase imposição gaulesa para que a União Europeia engolisse a temível reunificação da Alemanha, permitiu à França uma década de endividamento e gastos públicos como se não existisse amanhã.
Os resultados, que a revista "The Economist" resumiu recentemente, arrepiam qualquer cristão: o Estado consome 57% do PIB (a maior fatia de toda a zona do euro). A dívida pública saltou dos 22% do PIB (em 1981) para os 90% (em 2012). O desemprego atinge 25% da população jovem.
Perante tudo isso, a solução de François Hollande é taxar tudo que se mexe: trabalho, capitais, patrimônio. E depois? Quando não existir mais nada nem ninguém para "contribuir"?
Depois, a França chegará a duas conclusões dolorosas.
A primeira é que, ao adiar as reformas necessárias para que a sua economia seja minimamente competitiva, Paris capitulou perante a Alemanha: Angela Merkel é hoje a líder informal da Europa, não François Hollande.
E, segunda, que há um cheiro de declínio no território preferencial dos franceses: o da cultura.
Anos atrás, a revista "Time" provocou polêmica ao cartografar esse declínio com números. Na França, publica-se muito -mas os livros não sobrevivem fora das fronteiras francesas. Na França, filma-se muito -mas os filmes também não sobrevivem fora do país.
O mais celebrado artista plástico francês -Robert Combas- é personagem secundário nos circuitos artísticos internacionais (que estão em Londres, Nova York e até Berlim). A cultura pop francesa é uma piada (ou, no limite, uma imitação grotesca dos rappers americanos).
Se não fossem moda e gastronomia, que só com muita benevolência podem ser consideradas "alta cultura", o que seria da França, hoje?
Formulo essa questão e o leitor, conhecendo a minha costela anglófila, imagina um riso perverso.
Imagina mal. Em 2012, o melhor livro que li foi francês ("O Mapa e o Território", de Michel Houellebecq). Em 2012, o melhor filme a que assisti foi uma produção parcialmente francesa ("Amour", de Michael Haneke). E, para ficar na filosofia, o melhor tratado de política que li no ano findo também foi francês (uma história do liberalismo de Pierre Manent).
Só que tudo isso são exceções que só confirmam o meu desgosto: eu gostaria de ter mais França, e não menos, nas estantes de minha casa. Isso só não é possível porque o declínio é real.
Sem enfrentar esse declínio, os meus amigos progressistas podem encontrar em Gérard Depardieu o bode expiatório. Infelizmente, não será o bode a ressuscitar o rebanho".
JOÃO PEREIRA COUTINHO

dezembro 03, 2012

QUEM TEM MEDO DE DERRIDA? EU!

"Tremam na base: acaba de sair no mundo anglo-saxônico a primeira biografia de Jacques Derrida, o ideólogo da desconstrução. Anotem aí: Derrida, A Biography, de Benoit Peeters ...


O biógrafo ralou: papeou com mais de 100 pessoas que conviveram com o biografado, contou com uma mãozinha da viúva de Derrida e passou a pente fino um ramalhete de cartas inéditas. Ironicamente, o livro anterior de Peeters é uma biografia de Hergé, o pai do Tintin.

Derrida nasceu na Argélia, então encaçapada pelos franceses. Seus pais eram descendentes dos judeus espanhóis que se refugiaram no norte da África durante a Inquisição. Em 1870, a comunidade judaica argelina recebeu a cidadania francesa (ao contrário da população muçulmana). Jacques veio ao mundo em 1930 e durante a adolescência queria ser craque de futebol, como outro pied-noir que batia um bolão, Albert Camus.
O personagem que brota da biografia é vulnerável, sensível, dado a surtos de melancolia, neurótico, hipocondríaco e sempre à beira do suicídio. Uma alma atormentada e lírica. Mas também um obsessivo-compulsivo, maníaco pelo controle e monstruosamente arrogante. A maioria dos entrevistados evocou a aptidão de Derrida para falar sem parar durante horas a fio. Consta que era espirituoso e daria um bom stand-up comedian.
Quando os nazistas ocuparam a França, os judeus argelinos foram privados da cidadania e Derrida acabou expulso da escola. Puxou o carro para Paris.
Outra característica de Jacques: com aquele topete tipo Zé Bonitinho, foi um sedutor inveterado, da escala de um Georges Simenon (que proclamava ter comido 10 mil mulheres em 64 anos). Seu romance epistolar (The Post Card) é composto de cartas a uma amante anônima.
Aparentemente, o axioma doutrinário de Derrida era: pra quê simplificar se a gente pode complicar? O primeiro livro dele foi uma tradução de Husserl – o texto do formulador da Fenomenologia tinha 43 páginas; a introdução do tradutor, 170. 
Ah, que saudades da limpidez de um Montaigne. Aliás, o hermetismo gênero Derrida foi um dos alvos de um dos mais divertidos trambiques da história cultural do século 20".
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novembro 02, 2012

A Paris de Chico Buarque


"Sou vizinha de Chico Buarque, mas raramente o vejo. Nas poucas ocasiões, está andando na praia do Leblon ou descendo a pé a rua Igarapava. Sempre apressado. Já li que esse é o seu truque para não ser importunado, assim como usar roupas com as mesmas cores, que desvalorizam eventuais flagrantes dos paparazzi - vá provar que a foto não é antiga... Já em Paris, Chico caminha e caminha, frequenta cafés e se deixa ficar em livrarias, tranquilamente. 
Pelo menos essa é a imagem que guardei dele depois de assistir algumas vezes ao DVD À flor da pele, de uma série retrospectiva sobre sua obra, no qual ele discorre sobre a temática feminina. Pois é: entre uma música e outra, entre uma "Tatuagem" e uma "Esse cara", Chico fala de seu encanto pela figura feminina, tendo Paris como cenário. Suspirem, mulheres, suspirem... 
Dado esse primeiro contexto, entendam a minha decisão de, pela primeira vez na vida, abandonar a postura blasé de não-tiete, fruto talvez da dupla condição de jornalista e carioca. Eu já estava com viagem marcada para Paris quando o caderno de turismo do Globo, com estranha discrição, publicou um breve roteiro com dicas do artista sobre os lugares que frequenta na cidade, onde mantém apartamento. Consta que o correspondente Fernando Eichenberg, que assina a coluna, é amigo de Chico, o que explicaria a inconfidência e também o pouco destaque para conteúdo tão precioso. Arranquei a página. Coloquei dentro do guia amarelado. Eu já tinha feito algumas viagens a Paris, e, dessa vez, queria fugir de roteiros que incluíssem torre Eiffel e Louvre. 

Sem dúvida, estava diante de uma oportunidade: ia conhecer a Paris de Chico Buarque. Por sorte, o hotel reservado ficava no bairro do Marais, onde boa parte das dicas se concentrava, bem como na região de St-Germain des Prés. Em destaque, o rio Sena, às margens do qual Chico passara alguns dias do último verão parisiense flanando - não solitariamente, como no DVD, mas ao lado da namorada Thaís Gulin, segundo o colunista/amigo que priva de sua intimidade (ou pelo menos privava, antes da exposição de seus lugares preferidos). Tudo certo, roteiro e hotel escolhidos, faltava só acertar a estratégia com o adversário, digo, com o marido. Achei melhor deixar essa parte para depois das primeiras taças de vinho (da Borgonha, uma indicação reiterada de Chico) já em Paris, e comentei apenas ter comigo uma lista de pequenos museus e restaurantes próximos ao hotel. O plano deu certo: ele fez alguma "cara de marido" no começo, mas acabou aceitando, com resignação bem humorada (chegou a pedir mesa para três em um bistrô), a companhia de Chico Buarque durante nossa curta estadia. A Paris de Chico se limita, basicamente, a um quadrilátero envolvendo as ilhas de la Cité e St-Louis e os primeiros quarteirões próximos às duas margens do Sena. 

Tendo como base algum ponto central deste polígono, e sendo bom andarilho, dá para fazer tudo a pé, com chapéu e cachecol, dependendo da época do ano. Só que estar hospedado neste miolo significa estar em um dos metros quadrados mais caros da cidade, ou seja, do mundo. O hotel, por mais modesto, será caro. Graças ao onipresente metrô parisiense (que inveja), pode-se optar por hospedagem mais distante, com mais conforto.
Particularmente, acredito que a boa localização vale cada euro em Paris. Além disso, para apreciar a gastronomia francesa à la Chico, há preços para todos os bolsos.
O compositor/escritor sugere opções baratas e divertidas, como comer crepe na Rue du Temple, andando, ou quiche em um dos cafés da Place des Vosges e da Ile Saint-Louis. 

No almoço, ele costuma ir ao simpático La Tartine, na Rue de Rivoli 24, também com preços razoáveis, e esse o primeiro restaurante onde aportei, preferindo as opções da fórmula do dia (fui de camarão e Zé preferiu a carne) ao tartare de salmão recomendado por Chico (as entradas são seu prato francês preferido). Saímos satisfeitos, com a comida, o atendimento e a vizinhança. Já o ritual do jantar pede um lugar mais sofisticado, soprou-me Chico ao ouvido. Mas era tarde demais quando adentrei o La Mediterranée, na Place de l'Odeon - eu de tênis e Zé com casaco acolchoado recém adquirido na H&;M para enfrentar o frio inesperado. Apesar do horário antecipado e das muitas mesas vazias, fomos acomodados em um canto bem escondido, sem vista para a praça, sob olhares frios dos garçons. Resolvemos vestir a carapuça e economizar: pedimos o prato (peixe) e a taça de vinho mais baratos do cardápio, depois de recusar a entrada. E ainda dividimos a sobremesa. Fazer o quê: estava tudo delicioso e, pasme, farto. Mas se você for ao outro restaurante indicado por Chico para o jantar, o aconchegante Le Petit Pontoise, não se preocupe com a indumentária. Trata-se daquele típico bistrô parisiense servido pelos donos, apertado e barulhento, com comida caprichada e sem maiores frescuras. Não é barato, dessa vez chegamos tarde e enfrentamos uma pequena fila, mas mesmo assim valeu a pena.
Na volta, atravessando a Pont de la Tournelle, com a Notre Dame iluminada ao fundo, e aquecida pelo vinho da Borgonha, pensei: valeu, Chico! 


A Place des Vosges, no Marais, recomendada para uma breve quiche, era pertinho do meu hotel, por isso tive a oportunidade de explorá-la mais de uma vez. Com certeza Chico não vai àquele recanto adorável apenas para comer quiche: no calor, é irresistível espalhar-se pelos gramados ou bancos da praça, só para apreciar a arquitetura simétrica dos prédios ao redor, com arcadas intactas há 400 anos.
Debaixo delas, que formam um quadrado perfeito, estão escondidos não só cafés e restaurantes como galerias de arte maravilhosas. É caminhar e caminhar. 

No passeio completo pelas arcadas descobrimos a Maison de Victor Hugo, museu instalado em um dos apartamentos onde o escritor morou, em frente à praça. Um bom pequeno museu, e de graça. Mas o autor de Os miseráveis não está entre os escritores franceses de Chico. No bate-bola com o correspondente do Globo, ele destaca como leituras preferidas as duas primeiras obras de Céline (que, pressuponho, sejam os livros Viagem ao fundo da noite e A igreja), O estrangeiro, de Albert Camus, e A espuma dos dias, de Boris Vian.

Como não tinha tempo para explorar vestígios dos escritores preferidos de Chico em Paris, acabei me contentando, no campo da tietagem literária, com o passeio pelos aposentos de Victor Hugo (que escrevia em pé, em uma escrivaninha alta) encontrados ao acaso, e também os de Marcel Proust. Mais que isso, confesso ter tirado um exagero de fotos da mobília e dos objetos do quarto onde Proust se trancafiou para escrever Em busca do tempo perdido. Como assim Chico não gosta de Proust? O quarto de Proust, na verdade, está reconstituído no Museu Carnavalet, que mostra a história de Paris e não foi lembrado por Chico nas indicações. Precisei incluí-lo no passeio por minha conta, diante da dificuldade de me ater à sua lista. O seu museu preferido (aonde vai "sempre") é o Picasso, que estava fechado para reforma. 

Para levar as netas, ele gosta do Museu da Mágica e da Fechadura, que não me pareceram atraentes sem criança a tiracolo. Por fim, havia suas sugestões de museus para serem apreciados pela arquitetura. As dicas estavam um tanto cifradas, talvez por conta de sua intimidade com os locais.

Por exemplo: museu Beaubourg é como os parisienses chamam o Georges Pompidou, meu velho conhecido mas que imaginei ser outro, menos turístico. Quando ele se referiu a um museu do Mundo Árabe, falava do prédio do instituto, um projeto do arquiteto Jean Nouvel realmente muito interessante.

Mas eu não queria só apreciar fachadas. Além das dicas buarquianas, a ideia era realmente seguir a rota dos pequenos museus de Paris, discretos e sem multidões de turistas; e indiretamente Chico acabou me apresentando um deles. 
Ao destacar como seu local preferido a Place de Furstenberg, em Saint-Germain, me fez descobrir o museu Delacroix, situado no número 6. 

A praça é na verdade um pequeno largo, sem jardins ou bancos, mas faz parte de um conjunto de ruelas adoráveis do bairro, e costuma abrigar filmagens por causa da discreta localização. Que maravilha é conhecer o trabalho de um artista na intimidade de sua casa, de seus móveis e objetos, como se fosse um convidado, e não um turista no meio da multidão, como é comum na Europa. Com certeza, Chico já visitou a casa de Eugène Delacroix, mas compreensivelmente prefere Picasso... No roteiro, ele destaca também, entre suas referências francesas, a atriz Jeanne Moreau, o filme Acossado e o cantor Jacques Brel, que na verdade era belga. Talvez Chico converse sobre Jean-Luc Godard e Picasso com a namorada de cabelos cor de abóbora, sem idade suficiente para tanta Paris, aproveitando o fim de noite na Bastilha - outro lugar citado. 
Ou talvez tenha guardado seus verdadeiros tesouros parisienses só para ela, enquanto despista as fãs por outras trilhas. Não importa. O blues, ou melhor, a crônica, já valeu a pena".
Marta Barcellos

novembro 01, 2012

Aroma de bananas

Depois de meia noite,  na terceira quinta-feira do mês de novembro, a partir de pequenas aldeias e cidades, mais de um milhão de garrafas de Beaujolais Nouveau começam uma jornada, através de uma França, ainda adormecida, para Paris e embarque imediato para todas as partes do mundo. Banners proclamam a notícia: Le Beaujolais Nouveau est arrivé
Foi dada a largada para uma corrida mundial para ser o primeiro a servir  este novo vinho. Levado por motocicleta, caminhão, balão, helicóptero, jato, elefante, corredores e riquixás ele chega ao seu destino final. Poucas semanas antes,  este vinho era um cacho de uvas em um vinhedo. Mas por uma colheita rápida, uma rápida fermentação e um engarrafamento rápido, tudo está pronto, na hora fixada pela lei francesa.
O Beaujolais Nouveau não pode ser lançado senão na terceira quinta feira do mês de novembro (este ano será dia 15)!
A curiosa história do Beaujolais Nouveau é um belo exemplo de marketing no mundo do vinho. O vinho em si não tem nada de especial, mas por tudo que o cerca, o mundo todo acha sempre bacana e agradável beber um Beaujolais Nouveau assim que é lançado. Há sempre os desavisados a querer bebê-lo em qualquer época do ano!
Com um processo de produção diferente dos vinhos que estamos acostumados a beber, o Beaujolais Nouveau, feito 100% com a uva Gamay, uva de grande importância na Borgonha (a principal é a Pinot Noir), passa por um processo chamado Maceração Carbônica:os cachos são colocados inteiros dentro de cubas, onde é adicionado Gás Carbônico, o que retira o oxigênio lá presente. Desta forma, acontece uma fermentação intracelular no interior de cada frutinha e depois esta fermentação vira extracelular, pois as peles das uvas se rompem, liberando oxigênio. Este processo de produção geralmente confere aromas de banana ao vinho o que é uma das suas principais características.
O Beaujolais Nouveau é um vinho leve, bem aromático e para ser servido em temperaturas mais baixas que os tintos mais encorpados, por volta de 12/13 graus. Excelente como aperitivo e melhor ainda na beira de uma piscina num dia quente!
É um vinho sério, mas descompromissado, para ser bebido descontraidamente e não num restaurante para acompanhar pratos de alta gastronomia! 
E o mais importante: Um vinho para consumo imediato!
Depois de alguns meses, fica sem graça e ruim de beber. Ele não é feito para ser um vinho de guarda!


Nota :  Saiba mais aqui e veja a programação Beaujolais-Nouveau-2012

outubro 29, 2012

Les arts florissants de William Christie




"William Christie conseguiu mesclar sua vocação e seu passatempo. Fundador de uma das melhores orquestras barrocas do mundo, ele trouxe sua música para o extraordinário jardim que cultiva há 30 anos.


  


 O jardim mistura excentricidades e formalismos e foi tombado pelo governo francês como patrimônio histórico. Foi o primeiro jardim tombado na França com o criador ainda vivo desde Giverny, de Claude Monet.


Era um "jardim secreto" para Christie e alguns poucos amigos, onde ele encontrou privacidade numa vida cheia de viagens e apresentações. Ele passa metade da vida fora daqui, dirigindo e tocando com a orquestra que fundou em 1979, a Les Arts Florissants,(ouvir)  ministrando aulas na Juilliard School, em Nova York, e em outras instituições e encontrando ideias para o seu jardim de 15 hectares.


O jardim contém estilos e ambientes diferentes -como um pátio formal, barroco, e um teatro de topiaria em forma de templo budista-, concebidos como palcos vivos para as apresentações.

Mas só neste ano ele criou um festival musical aqui, onde por vários dias em setembro ele e sua orquestra tocaram obras de Handel, Charpentier, Corelli, Couperin e outros.

"A ideia de criar um mundo inteiro à parte é muito importante. Então sempre fui ambivalente [à ideia de abrir o jardim a estranhos]", disse Christie. "Esse jardim tem uma exuberância, uma extravagância, barroca. Eu o mantenho há muito tempo, então, quando ele começou a ficar apresentável, decidi que faria algo mais aberto ao público."

Nascido em Buffalo (Nova York), Christie chegou à França em 1970 para escapar da Guerra do Vietnã. Cravista formado pela Universidade Yale, ele foi contratado pela BBC e depois construiu uma vida na França. Aqui ele ficou famoso por devolver aos franceses seu repertório barroco.

O jardim de Christie é uma paleta de verdes, construída sobre quatro plantas básicas -teixos, carpinos, buxos e limoeiros-, segundo o consultor de jardinagem John Hoyland. "Mas a gama de verdes e sua vibração, a forma como o vento se move através dele e a luz - é simplesmente magnífico", afirmou ele.
Dena Kaye, amiga e uma das patrocinadoras de Christie, disse que "encher o jardim com música é ótimo, algo monumental". Kaye, filha do ator americano Danny Kaye, trabalha com Christie em planos para que uma ONG franco-americana prossiga seu trabalho na orquestra e preserve o jardim e o festival. Christie, 67, teme que o governo francês, nestes tempos de aperto orçamentário, não possa mais dar tanto apoio à cultura.
Ele disse que é inspirador abrir seu jardim, mas também um grande alívio quando os visitantes partem.
"Você fica ansioso pelo momento em que pode ir ao jardim a qualquer momento do dia ou da noite. E lá está você, totalmente sozinho."
STEVEN ERLANGER

Nota: album/les-arts-florissants-10-years