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julho 25, 2014

Zelo

Jesus é um homem; Cristo, uma ideia. A quem pertence uma ideia? À humanidade, provaria Paulo de Tarso
"Os primeiros capítulos de "Zelota" - do escritor e estudioso de religiões americano-iraniano Reza Aslan - descrevem a Palestina no período em que Jesus veio ao mundo. A multiplicação de seitas entre a população carente, a aceitação dos valores romanos pela elite judaica, a presença ostensiva das legiões no território ocupado e o terror do apocalipse lembram, em tudo, os dias de hoje no Oriente Médio.
Com o avanço das tropas israelenses sobre Gaza, e a Síria embrenhada numa guerra civil sem solução, o paralelo entre a rejeição dos profetas do século 1º à civilização romana e a negação do Islã a se render ao capitalismo global é quase inevitável.
Mas a leitura de "Zelota" fala tanto do conflito entre Ocidente e Oriente naquela estreita faixa do planeta, como também elucida uma outra contenda, em curso aqui, neste sítio que permaneceu Paraíso até 1500 d.C.: a dos direitos sobre a imagem do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.
Sem revelar nada que não seja conhecido, o autor parte da morte na cruz --punição prevista aos que cometessem crimes contra o Estado-- para separar o Jesus histórico da figura de Cristo. O revolucionário, do pacifista.
Contrário à romanização dos hebreus, Jesus ambicionava estabelecer o Reino de Deus sobre a Terra, prometido a Davi por Javé. Para tanto, seria preciso expurgar abastados e sacerdotes subservientes a Roma e bani-la do solo sagrado. Jesus pregava uma revolução.
Ela viria, três décadas depois da crucificação e com trágicas consequências. Em 66 d.C., grupos radicais conquistaram Jerusalém e queimaram os arquivos contendo a dívida do povo. Farta, Roma enviou o general Tito --mais tarde imperador-- à antiga Canaã e a varreu do mapa.
Do Templo de Jerusalém, só sobrou o Muro das Lamentações.
As imagens dos bombardeios a Gaza, estampadas nos jornais de hoje, bem ilustrariam a passagem histórica.
O massacre, comparável à invasão babilônica, tornou os sobreviventes avessos aos que defendiam o confronto direto com os Césares. Nesse cenário, surgiu Paulo de Tarso. Paulo afasta Jesus da causa judaica, elimina o caráter territorial do Reino de Deus e converte os gentios. Cristo é criação do letrado Paulo.
Jesus é um homem; Cristo, uma ideia. A quem pertence uma ideia? À humanidade, provaria Paulo. Em três séculos, o Império Romano se renderia ao Nazareno.
Em 2010, as famílias dos engenheiros responsáveis pela construção do Cristo Redentor perderam para a Arquidiocese do Rio de Janeiro, na Justiça, o direito sobre a imagem da estátua. O precedente deu à Cúria poderes para coibir o uso indevido, segundo a Igreja, do monumento. Os distribuidores do blockbuster "2012" sofreram processo e os italianos foram impedidos de vesti-lo com a camisa azul da seleção.
Essa semana, a Arquidiocese liberou o episódio dirigido por José Padilha para a película "Rio, Eu te Amo", onde o personagem de Wagner Moura, num sobrevoo de asa-delta, acusa o Senhor cara a cara de virar as costas para os problemas mundanos.
A Mona Lisa resistiu aos bigodes de Duchamp; Rodin, se vivo, teria orgulho da multiplicação de charges do Pensador e os punks se apropriaram da cruz. O veto inibe o ícone. Bem fez a Cúria em liberar.
Tratar o Redentor como posse é medir o Reino de Deus em metros quadrados. O convertido Saulo ensina que a mensagem deve circular livre de dogmas e de acordo com seu tempo.
O poder do Templo de Jerusalém era baseado no fato de ali, e somente ali, no Santo dos Santos, ser possível a comunicação com o Altíssimo. Sua arquitetura era voltada para dentro, com muros altos que separavam os milhares de visitantes em pátios internos, um labirinto que se afunilava até a presença divina.
A exclusividade transformou o santuário num lucrativo mercado de oferendas e corrompeu o clero. É o que denuncia Jesus, pouco antes de promover o quebra-quebra que o levaria à prisão.
A natureza do Cristo da Guanabara é oposta. Plantado do cume do Corcovado, basta olhar para o alto para se dirigir a Ele.
Entendo que a Cúria zele pelo Nosso Senhor. Os engenheiros também têm razões para reivindicar seu quinhão, respeitando, é claro, os 60 anos do falecimento dos autores, todos mortais, não sujeitos à ressuscitação.
Mas o imaginário a Deus pertence.

FERNANDA TORRES

abril 30, 2014

Alugando um apartamento em 1962


"Você não tem ideia do que era o Brasil em 1962. Andávamos de bonde, o Rio - então uma "cidade maravilhosa" - era mais importante do que São Paulo; Niterói, onde eu morava e insisto em morar, tinha um restaurante chamado Petit Paris onde Sergio Mendes tocava piano; só rico andava de avião e você ia trabalhar de paletó e gravata. A praia de Icaraí tinha águas transparentes e, na barca para o Rio, víamos golfinhos. A televisão ainda não importava, por isso "íamos ao cinema", escolhendo ver filmes franceses, americanos, italianos, russos ou alemães. Tomávamos chopes, pois não havia essa frescura de vinho de hoje. As ruas eram vazias de veículos, comprávamos linhas de telefone e pedia-se um 
interurbano quando se queria falar para o Rio...
Todo intelectual era "conscientizado" e "de esquerda" de modo que a "politização" se tornou uma chatice e uma religião que, em poucos minutos, deflagrava discussões amargas porque quem não queria as "reformas de base" e sonhava em revolver as "estruturas arcaicas" do Brasil, era xingado de "reacionário" e "alienado".
Eu era recém-casado com uma moça linda, tinha um filhinho e estava alugando um apartamento. Fomos falar com o proprietário, um português abastado que vivia de alugar imóveis.
- Muito prazer. Quanto o senhor quer de aluguel?
- Qual é a sua profissão? Respondeu o dono.
- Sou professor e pesquisador do Museu Nacional, retruquei orgulhoso como todo pobre.
- Então você não vai poder me pagar! O aluguel é alto para um professor.
- Passar bem! Despedi-me injuriado.
A experiência confirmava minhas convicções. Eu havia falado com um explorador do povo. Naquele dia, vituperei contra o capitalismo e, apaixonado pelo conceito de "confisco", sonhei com a revolução que iria mudar o País, dando apartamentos, casas e sítios para os despossuídos. Apaixonei-me pela palavra "confisco" muito usada pelos líderes políticos daquele momento. Um deles, poeta conhecido e admirado, disse para mim num momento de regozijo revolucionário: "Agora, só falta instalar os sovietes".
Discuti muito com meu pai (que havia abandonado a Escola Militar) o qual, não cansou de me advertir: um dia, os militares tomam conta...
Sorri de sua "falsa consciência".
No domingo seguinte, saí acintosamente de uma missa no meio de um sermão de um padre reacionário. Redefini minha relação com a religião e aderi ao "agnosticismo" de um querido professor. Era, agora, um materialista devidamente antenado com o meu tempo de conscientização.
Esse ato revolucionário, único de minha hoje longa vida, me custou uma briga sartriana com minha mulher. O quarto foi testemunha de uma discussão filosófica, deixando de ser o palco do amor. Eu assinalava que não era um "pequeno-burguês"; ela pensava no leite do nosso filho.
Na margem esquerda do Rio Tocantins, perto da então cidade de Itupiranga, no Pará, eu esperava um barco. Ali, vivia numa palhoça miserável um coletor de castanha. Resolvi conscientizá-lo e sugeri que eles precisavam fundar um sindicato. O homem me olhou assustado e perguntou: o que é um sindicato.
Eu, politizado, não sabia.
Em setembro de 1963, embarquei para os Estados Unidos com uma bolsa da Fulbright Comission. Ficaria um ano acadêmico em Harvard, estudando antropologia com um mentor inglês, ali radicado. Tornei-me amigo de uns poucos esquerdistas, que estudavam em Harvard e no MIT. Lembro ao leitor que, àquela época, ouvíamos notícias pelo rádio e lendo jornais, que chegavam com semanas de atraso.
No dia 2 ou 3 de abril, um amigo me telefonou e informou que a "nossa revolução cubana havia começado". Imediatamente, comuniquei o fato a um vizinho, estudante de Física. Uns 20 minutos depois, o mesmo amigo me comunicou que o Brasil sofria um "golpe militar". Pensei no meu pai.
Deprimido, perguntei-me de onde vinha o poder dos golpistas se nós somente falávamos em operários, camponeses, estudantes e no povo oprimido e simpático à causa revolucionária? Como não havia resistência? Onde estava o dispositivo militar? Havia algo errado na minha teoria. Ali nasceu o meu interesse no carnaval e no papel dos elos pessoais no Brasil.
Voltei em setembro de 64 para novamente voltar a Harvard em 67, onde fiquei até 70.
De 70 a 2014, muita água correu debaixo da ponte e hoje temos a esquerda no poder. Estão aí o corporativismo e o aparelhamento. Os elos pessoais que não ensejam a coragem de dizer não aos amigos, falam alto e valem milhões de dólares. Talvez eles fossem as tais "estruturas arcaicas" que parte de minha geração queria mudar".

Roberto Damatta

abril 17, 2014

Trinta anos de bode : GABO versus Mario


"A primeira notícia sobre um possível degelo nas relações dos dois consagrados mestres da moderna ficção em qualquer língua, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, foi publicada no início de janeiro no prestigioso jornal The Guardian, no Reino Unido, oriunda (possivelmente) do laptop do correspondente Giles Tremlett, em Madri. A reportagem se referia sobretudo à publicação, em 2007, de uma edição especial comemorativa do 40º aniversário de publicação do consagrado romance Cem Anos de Solidão, de autoria do colombiano García Márquez, tido como uma das obras-primas do século XX e leitura obrigatória para todos interessados em arte, cultura e o realismo mágico, do qual, conforme sabemos, o cubano Alejo Carpentier é renomado precursor.

O legítimo homme du monde peruano Mario Vargas Llosa, autor também do notável A festa do bode, publicado em 2000, outro volume seminal de nos jours, e quaisquer outros jours também, embora distante do realismo mágico, mas chegado à nossa cultura (seu livro sobre Canudos, A Guerra do Fim do Mundo, de 1981, é um clássico, embora poucos tenham sabido ler e entender, tal como se deu da mesma forma, o que muito explica, com o evento histórico), está encarregado da apresentação, apesar de trinta anos de gélida guerra entre os dois mestres do idioma de Cervantes - e de Shakespeare e de Molière e de Gil Vicente e outros tantos, já que passaram por traduções hoje tidas como exemplares, inclusive em nosso Brasil.

Argumenta-se, nos meios literários, que esta introdução nada mais é do que uma adaptação de um estudo crítico assinado pelo talentoso peruano, em 1971, e que levou o título de A História de um Deicídio. Vargas Llosa vem se recusando à republicação do tomo desde o histórico desentendimento, ou rixa e ainda rusga, se preferirem, entre os dois magníficos ficcionistas, num pequeno cinema mexicano, em 1976.

Justiça seja feita a um e outro: nunca tocaram nos detalhes daquilo que, ao que parece, começou com palavrório, tão comum naqueles que vivem da palavra escrita e falada, mas que chegou às vias - e como! - de fato. Tamanha discrição só serviu para alimentar a curiosidade natural, e malsã também, sejamos honestos por uma vez na vida, daqueles que se interessam pela literatura da América hispânica e ainda por suas querelas, num nível mais baixo, mas nem por isso menos humano, all too human conforme sentenciou o Bardo Imortal. O fato de que na política os dois aspirantes ao Parnaso assumam posições radicalmente - mas radicalmente mesmo - diferentes sempre constou da equação que os mais corajosos tentaram explicitar e resolver.

Detalhes?

García Márquez já publicou o primeiro volume de suas memórias. Consta, segundo relatos vindos daqueles que fazem parte de sua roda, igreja e catedral (onde se deve conversar, segundo Vargas Llosa), que Gabo, como é chamado na intimidade de seu lar e de outros lares também, quer a todo custo evitar entrar de novo "naquele cineminha mexicano" de 1976, e que ainda está lá para, se quisesse, contar a história, que nós aqui, mediante diversas viagens e entrevistas (trabalhamos mais que Truman Capote em A Sangue Frio, embora munidos de gravador digital mais que portátil), conseguimos reunir e deixar a última palavra com a pessoa mais importante dessa discórdia toda: você, leitor!

Agora, leia, digira os dados e chegue à sua própria conclusão, que é a única que conta. Obra mais aberta não há nem poderá haver. Depois, nos diga - e este é o teste - quem você acha que está com a razão: Gabo ou Mario?

O local

Trata-se de um pequeno cinema, de seus duzentos lugares, que já conheceu melhores dias. Hoje em dia, limita-se a passar cópias desgastadas de velhos filmes mexicanos e cubanos maltratados pelo tempo e por curadores descuidados. Presentes ídolos que não estão mais entre nós, e dos quais poucos jovens ouviram falar: Maria Antonieta Pons, Ninon Sevilla, Tito Junco. Sempre em números especiais, Pedro Vargas e Toña la Negra. Agustín Lara, o grande Agustín, também comparece! Vez por outra, quase que por distração, levam algo com Pedro Armendáriz e Maria Félix, dirigidos por Emílio Fernandez (lembram-se de The Wild Bunch, que no Brasil chamou Meu ódio será tua herança?) e fotografados pelo genial, assim o dizem, Gabriel Figueroa.

Muitos anos antes, em 1976, já que estamos sendo precisos com evento beirando o histórico, diante de um sol pastoso de julho, Gabo e Mario, depois de tomar umas tequillas e chupar umas goiabinhas, ambos apreciadores ferrenhos da Sétima Arte, passaram diante do Cine Cortés, ali mesmo na Calle de los Conquistadores, naquele bairro afastado de Ciudad de Mejico, onde tinham a certeza de não serem reconhecidos por seus admiradores. Sim, meus amigos, vivíamos numa época em que não só as modelos anoréxicas e os astros parrudos de Hollywood faziam sucesso nas paragens que os tolos gostam de chamar de "O Terceiro Mundo". Gabo e Mario eram o orgulho do Continente que dera ao mundo Bolívar e O'Higgins, para citar apenas dois ídolos e heróis. A pena (o computador ainda não tinha sido inventado) também era uma espada e a espada... uma pena? Não creio. Alegres e extrovertidos, os dois amigos notaram que estavam exibindo Casablanca, produção da Warner de 1942 inexplicavelmente tornada obra-prima pelo medíocre, mas prolífero, Michael Curtiz, em condições normais um diretor rotineiro, que, não obstante, nos legou inegáveis chef-d'oeuvres, tais como The Sea Hawk, 1940, e The Adventures of Robin Hood, feito dois anos antes. Um mistério que ambos, Gabo e Mario, não sabiam - talvez ainda não saibam! - explicar. Pois entraram os dois e - atenção, muita atenção - se sentaram no meio da quinta fila.

No que passamos então a nossos depoimentos exclusivos.

Depoimento de Jesús Maria Iberrurtí, ex-lanterninha, 81 anos, cego de um olho.

"Sim, senhor. Lembro-me como se fosse hoje. Os dois cavalheiros, quarentões ambos, não paravam de fumar, e eram só charutos finos, o que é proibido, pelas regras do estabelecimento, mas fazíamos vista grossa diante de clientes mais finos. Eu já vira o tal do filme umas vinte vezes e, desculpe-me, eu o odiava. Baixo sentimentalismo, canções estrangeiras, péssima dublagem em espanhol, atuações que não poderiam beijar os pés de uma Sarita Montiel ou Luis Mariano. Entraram com o filme já começado e uns vinte minutos depois estavam aos socos e pontapés. Com o auxílio do guarda (Pablo de Tal. Foi impossível localizá-lo. Consta que teria morrido afogado, tentando atravessar a nado a fronteira com os Estados Unidos.), que fui catar no café Los Libertadores, conseguimos expulsá-los. Nunca ouvi tanto palavrão na minha vida. Nem parece que eram homens de berço. Não sei qual era o pomo da discórdia, mas um deles, o bigodudo, mais baixo e entroncado, não cessava de se referir à conduta sexual das senhoras, tanto a esposa quanto a progenitora do outro, o mais alto e de terno branco, camisa listrada azul, mas sem gravata. Essas pessoas dificultavam muito meu trabalho."

Depoimento de Mérida Pinión, academicista, 77 anos.

"Parecia um sonho! Dois dos maiores escritores do planeta brigando na minha frente. Nem consegui prestar atenção no filme do Cary Grant. Tenho a certeza que foi por minha causa. Mario já se voltara duas vezes (só mais tarde, muito mais tarde, ficamos íntimos, e como! Qui, qui, qui!), eu estava três filas atrás dos dois, e perguntara se a fumaça estava incomodando. Fiz-me de desentendida, que não sou de falar ou ir com qualquer um, mesmo que se chame Vargas Llosa ou García Márquez. Como resposta, ouvi um palavrão. Gabor, hoje eu sei que foi Gabor, tomou-lhe satisfação e, não a tendo, deu-lhe uma - com o perdão da má palavra - porrada na cara. Daí saí correndo e mais não vi. Mais tarde, em casa de amiga, escrevi um conto a respeito. Foi incrível! Publicaram no Brasil dois meses depois."

Depoimento de um coronel ao qual ninguém escreve, 107 anos presumíveis.

"Hein? O quê? Fale mais alto. Minha memória já não é mais o que era. A crise de Suez, disse você? Pois não. Foi lá pelos idos de 1962 e o presidente americano, Harvey de Tal, se não me engano, quase bombardeia de forma atômica Costa Rica. Ou Honduras. Uma dessas calouras fuleiras que insistem em nos imitar. Era um tempo irado, cheio de ventos, mas eu vivia razoavelmente com os cobres de minha pensão. Dava para servir um café às visitas, coisa que hoje, como está vendo, me é difícil. Naquela época era muito perigoso falar em política, principalmente nas alfaiatarias. Não me pergunte por quê. Somos estranhos como as éguas que, por motivo algum, relincham no meio da noite. Quando sair sua revistinha, promete me mandar um exemplar?"

Depoimento de Juan ******, 68 anos, autor não-publicado.

"Prefiro o anonimato. Prefiro também a prosa de Carlos Fuentes à dos dois paspalhões que brigavam por uma guimba de charuto. Em Fuentes, uma sentença começa com a simplicidade de um ovo. Depois, bica sua existência até adquirir asas, parte meio sem jeito para o vôo, encontra sua corrente de ar, onde respira e navega, forma seu verbo como se o tivesse catado em vegetação próxima, junta-o a advérbios e adjetivos boiando em poças d'água da redondeza, esquiva-se das armas furtivas dos caçadores, passa com desdém diante das fuças dos cães que o buscam, mergulha numa lagoa, sai com um sujeito no bico e um predicado preciso numa das garras, para finalmente pousar e - surpresa - ver-se no caso acusativo. Escrever é isso. É Fuentes. Colombianos correm do pau e se aviltam diante do primeiro socialismo que lhe fizer cócegas no ego. Peruano? Só rindo. Por que acha que a expressão "não há cu de peruano que agüente" surgiu? Não há de ter sido por nada. Brigaram os beldroegas por analfabetismo e desmesurada ambição política. Vargas Llosa presidente do Peru! Só rindo, só rindo."

Depoimento de 14 putas tristes, entre 70 e 80 anos, várias esquinas.

"Nós sempre vemos juntas Casablanca quando passam. Nesse dia a que o senhor se refere éramos 25. Todas pagamos entrada, sim senhor, apesar do gerente ter feito proposta indecorosa, ainda que interessante. Trabalho é trabalho, arte é arte. Choramos então, choramos hoje, nós que sobramos. Quando el negro Sam cantava aquela canção, o senhor sabe qual é, nesse pedaço não dublavam. Nos derretíamos feito manteiga. Hoje igualzinho. Esses dois marmanjos de que o senhor fala estavam rindo na hora que el Umfrey pede para ele tocar a música para ele. Nós reclamamos em alto e bom som. Apesar de parecerem gente fina, nos responderam com palavras cabeludas, expressões de baixo calão. Erêndira, que era da pá virada e vivia com o pito aceso - tinha uns olhos azuis que só vendo! -, partiu para cima dos dois e, se o baleiro não separasse, o mais magrinho teria se machucado, está sabendo? O mais baixinho e forte estava com o pau para fora. Parecia um taco de beisebol: grande, grosso, uma loucura! Esse comigo não teria vez, por dinheiro algum. Não quero falar mal de ninguém, que isso foi há muito tempo, mas eu gostaria de saber o que é que os dois estavam fazendo naquela hora da tarde num cinema vagabundo. Me explica isso?, o senhor que me parece pessoa de instrução. Essa vida tem cada uma. Durma-se com um barulho desses. Ou não se durma. O senhor sabe onde eu quero chegar, não sabe?"

****

E aí está, leitor amigo. Agora você está de posse dos dados que conseguimos, num louvável esforço de reportagem, obter. (Sorry, o baleiro também sumiu, como se a terra o tivesse tragado.) Não foi mole, como diria uma dessas senhoras da última entrevista. Salientamos que todo esse texto é uma seleção de longos depoimentos, muitos deles sofridos, realizados nas mais precárias das condições. A Cidade do México lembra o que vai ser, mais uns aninhos, o Rio de Janeiro. Ou São Paulo. Dizem. Forme agora sua opinião. Escreva para os escribas em questão. Blogueie, se for essa a sua. Veja de novo Casablanca, se achar que vale a pena. O que não pode, mas não pode mesmo, é ficar aí feito um idiota só lendo, lendo e lendo. Vá até a esquina, dê um passeio ou ainda... convide um amigão, desses do peito, para ir com você, de tarde, a um cineminha, depois de tomar umas e outras. Veja, por exemplo... Não. O programa eu deixo com você. Digo, vocês".

Ivan Lessa

Nota: Gabo faleceu hoje. link

janeiro 19, 2014

Lobo Antunes



"Trata-as em diminutivo, assim por cima do ombro, as crónicas, "uns contitos", fragmentos, "aguarelazitas", "esboços", "fantasias", "palavrinhas", "pequeninos nadas", "piscinas para crianças" com água pela cintura e onde nunca se perde o pé. E, no entanto, é nas suas crónicas que tantas vezes António Lobo Antunes se revela e expõe de uma forma tão íntima - a ele e a nós, nos nossos pequenos devires de inseto, sempre a formigar na mesquinhez dos dias. 
Mais velho de seis irmãos - gosta de se dizer "filho mais velho de dois filhos mais velhos" -, António Lobo Antunes lembra-se de quando eram pequenos: adoecia um, adoeciam todos. E o pai, "um pai muito pouco ternurento", médico anatomopatologista, ia até ao quarto dos seus rapazes, sentava-se numa das camas e lia-lhes poesia. Ou fazia com eles um jogo temível. Citava uma frase e eles tinham de acertar em quem a houvera escrito. Ou punha a tocar os primeiros acordes de uma sinfonia para os filhos lhe adivinharem a autoria. A VISÃO propôs a um dos escritores maiores da literatura mundial o mesmo jogo, um pouco perverso. Lançar-lhe algumas das frases que ele escreveu nas crónicas quinzenais desta revista (coligidas em Quinto Livro de Crónicas) e decifrar-lhe sentidos ocultos, escavar-lhe as profundezas e outros canais subterrâneos. "Isto é muito difícil, porque me faz perguntas e eu não tenho respostas, só ainda mais perguntas. E quando penso que tenho uma resposta, ela transforma-se numa pergunta dentro de mim... E a seguir a essa não resposta vem um vazio angustiado... Eu estou cheio de perguntas e cada vez tenho menos certezas. Penso que os livros vão ficar, mas o que passei nos últimos seis anos [com o cancro e a recidiva], fizeram-me questionar tudo e até estar-me nas tintas para que os livros fiquem ou não". "O que é que me interessa isso, se eu morro." 
VISÃO: 'Devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso" - é um dos títulos que deu à crónica em que fala da pouca importância que lhes dá, quando as retira ao acaso da gaveta e as envia para a editora...
ANTÓNIO LOBO ANTUNES: Foi Einstein que disse essa frase. E é tão verdadeira, não é? [Pausa.] Às vezes mostravam-lhe um conjunto de equações e ele dizia "é esta": "Porque é a mais simples e a mais bonita." As crónicas nasceram um bocado assim, há 20 anos, quando o Vicente Jorge Silva me convidou para um suplemento de domingo do Público. Aceitei com a condição de o Zé [Cardoso Pires] poder alternar comigo, pois andávamos ambos bastante aflitos de dinheiro. Pensei que deveriam ser assim uma coisa levezinha, divertida e não sei quê... Nunca pensei que tivessem tanto sucesso e que viessem sequer a ser traduzidas lá fora... Espanta-me, porque onde jogo a minha vida é nos livros... O problema para mim, depois de escrever uma crónica, é regressar ao ritmo do livro. 
"As crónicas são um galope diferente, que me seca a cadência do livro e me atrapalha o ritmo. O segredo de escrever é ser estrábico, ter um olho na bola e outro nos jogadores (...) descobri-me lagarto numa pedra, à coca, muito quietinho, rodando as pupilas para sítios diferentes, guloso da mosca de uma frase." 
Faço a crónica num dia. Mas, depois, já não consigo voltar a pegar no livro que estava a escrever. Tenho de voltar a despir-me de tudo...  
> Nas crónicas, fala muito do seu passado, da sua infância, da guerra, da doença, dos avós. Mas, depois, também diz: "O passado é a coisa mais imprevisível do mundo, não para de se transformar." 
A frase é do [George] Orwell, eu sempre canibalizei muita coisa. O meu pai tinha uma mania para nós, seis irmãos rapazes, horrorosa. Dizia: "Quem não sabe quem escreveu esta frase não sai no sábado." Ou então punha meia dúzia de compassos de uma sinfonia a tocar e ameaçava: "Quem não sabe quem compôs isto não sai no domingo." E a Memória de Elefante [primeiro livro, 1979] estava cheio desse jogo com o leitor. Se calhar era uma pequena vingança contra o meu pai. 
> Mas, por outro lado, também refere: "Estou cheio de citações, que gaita. Pareço um cigano a mostrar o ouro falso dos anéis..."
A gente quer que as pessoas nos admirem por fazermos uma bela metáfora ou fazermos uma pirueta, mas o importante no livro é que ele seja eficaz. O que interessa andar a mostrar plumas, e penas e proezas? A mim o que me interessa é escrever. O que está à volta custa-me um bocado, a exposição pública, tudo o que rodeia os livros. A minha vida é muito retirada, não vou a lançamentos. E finalmente lá consegui que a editora se deixasse disso. Durante anos e anos, escrevia os livros e deitava-os fora no fim.Um amigo meu viu um maço de papéis, jogado a um canto, perguntou-me o que era. Era a Memória de Elefante. Levou-o a várias editoras que não o quiseram e o livro acabou por ser publicado em 1979. Mas foi tarde demais, porque, nessa altura, eu já tinha escrito dois. 
> Porque é que deitava tudo fora?
Porque ainda não tinha encontrado a voz. Pensava "ainda não é isto, ainda não é isto, ainda não é isto...". Eu sou canhoto, escrevia com a mão esquerda. E quando tento desenhar com a direita sai diferente. E a Memória de Elefante já foi escrita com a mão direita. Mas as receitas do hospital continuava a escrevê-las com a esquerda. Os gestos mais finos, de desenhar ou pregar um botão também os fazia com a esquerda. Não tenho talento para desenhar, é evidente, mas o meu pai tinha e obrigava-nos a fazer cópias de quadros famosos, como nos obrigava a ouvir música. Nos primeiros anos de casados, os meus pais tiveram logo quatro filhos e, então, quando um estava doente, adoeciam todos. Ele vinha com um livro, sentava-se numa das camas e começava a ler para nós, sobretudo poesia. Aos 19 anos, eu só escrevia poesia, queria ser poeta. Então descobri que não tinha qualquer jeito e fiquei desesperado com aquilo... Fazia umas tentativas muito canhestras e a minha poesia era, de facto, muito má... Havia pouco dinheiro lá em casa. O meu pai era médico, só estava no hospital e não ganhava muito. Ia uma vez por semana ao consultório, mas muitas vezes não levava nada aos doentes, trazia-os para casa, para jantarem connosco. O mestre dele, o Egas Moniz, dizia que nunca se devia levar dinheiro a artistas - e de repente todos eram artistas, até os bandarilheiros [risos]. De maneira que foi assim que conheci uma série de gente interessante. Era um homem que não se dava com quase ninguém, um homem muito fechado, mas um homem de paixões, até ao fim: a leitura e a pintura, a música... Fui fazer a primeira comunhão a Pádua por causa de uma promessa, por eu não ter morrido de meningite, em bebé... 


Ler mais: http://visao.sapo.pt/entrevista-a-antonio-lobo-antunes=f762828#ixzz2qrE7YYQo

janeiro 02, 2014

Entre tempos e sentimentos


"O famoso brasilianista Richard Moneygrand me escreve neste período de festas desejando o que ele chama de óbvio: votos de felicidade e saúde. "Não falo mais em dinheiro - diz - porque sei que para nós, professores, escritores e pesquisadores, isso não vem ao caso. O que nos sobra em ideias falta em dinheiro. São raros os que conseguiram guardar ou até mesmo manter a fortuna herdada. Ganhar bem com docência e livros de sociologia só se você virar escritor, mas, mesmo assim, você teria que ser um Balzac, um Thomas Mann ou um Hemingway - e ser vendido a Hollywood. Mas lhe desejo tudo de bom, como ordena a data e o tempo."
Meu amigo abre 2014 com essa notificação exagerada, mas fala de algo real: as datas obrigam a fazer coisas e despertam de fora para dentro e do todo para a parte, certos sentimentos. As emoções são muito mais obrigatórias do que automáticas, como descobriu faz tempo um certo Marcel Mauss.
Sou amigo de Dick faz uns 50 e tantos anos - há meio século. Ficamos muito mais impressionados quando a temporalidade surge sem números mas com um nome. Cinco dezenas falam mais do que 50 anos, quando se trata de certas emoções como o amor ou o ódio, que, supostamente, são sentidos e não promovidos, exceto nas vinganças e da má-fé entre pessoas e famílias. No amor e no ódio, vale mais o adjetivo, já que o amor seria "eterno" ou "infinito" e o ódio, "mortal". Os sentimentos nos levam para longe do relógio e do calendário. Mas retornam quando o tempo precisa ser sentido e vivido.
O amor, como a fidelidade, a fé, a lealdade, a temperança, e coisas mais tenebrosas como a inveja, o ressentimento, a ingratidão e o abandono são duros de medir. Quanto tempo dura a ingratidão? Ou a avareza que, dizem, não tem cura? Mas o ódio e certos tipos de amor podem ser medidos como ocorreu com um amigo quando ele se apaixonou pela moça mais linda da aldeia e, cinco minutos depois, quando ela lhe sorriu, desapaixonou-se porque em vez de pérolas, encontrou entre os seus lábios rubros, uma dupla fieira de dentes podres.
Confirmando essas dificuldades filosóficas deixadas aos cronistas sem assunto e aos que se atrevem a falar de tudo, dizer-se-ia que a vergonha teria fim, exceto no Brasil. O mesmo ocorre com a honra. Mas tal não é o caso da culpa, a qual permanece intacta na paisagem humana, mesmo quando aparentemente soterrada por outros acontecimentos. Marcamos o tempo de modo regular, mas os sentimentos e eventos a ele ligados, são desmedidos.
Na mesma mensagem, Richard Moneygrand, que é um mestre viciado em citações, menciona um ensaio no qual um estudioso de países antigamente chamados de "atrasados" ou "subdesenvolvidos", faz uma descoberta sensacional: quanto mais atrasado o país, mais os seus relógios estão fora de sincronia. O relógio do aeroporto marca 10 horas; mas da estação rodoviária, 10h30; o da catedral, 9h50; ao passo que o do palácio do governo crava 10h45. Já nos países em que alguns dos meus mais queridos amigos gostariam de morar - Suécia, Dinamarca, Suíça, Finlândia -, todos os relógios públicos e privados estão sincronizados. Rigorosamente marcando a mesmíssima hora, minutos e segundos!
Num Brasil antigo, isso era a mais pura verdade. Hoje, eu afirmo que pelo menos os 270 milhões de relógios dos nossos telefones celulares estão em sintonia, marcando o tempo certo e obrigando os seus donos a andarem no tempo determinado por suas obrigações.
Na era de Dom João Charuto o tempo era feito pelas pessoas. Havia o tempo do Rei, sereno e grandioso; e o tempo do povo e dos escravos: exato, exigente e rotineiro. Hoje, vivemos o tempo de cobrança de certos papéis sociais. Ninguém atura mais médicos que não chegam na hora e funcionários públicos relapsos. O mesmo vale para administradores públicos que, sendo importantes, chegam atrasados porque se consideram os mais importantes. Presidentes, quando chegam, aparecem com horas de atraso, governadores com algumas horas; prefeitos com alguns minutos. Mas tudo se complica quando eles se encontram. Diante do presidente, o governador chega em cima da hora e, diante deste, o prefeito é um cronômetro.
E por aí segue essa lógica do tempo medido em relação à seriedade e ao progresso dos países. Bem mesmo faziam os povos tribais que seguiam a Lua e o Sol, cujo tempo começava quando eles resolviam fazer alguma coisa. Assim, era a tarefa social que marcava o tempo e não o contrário. Quando se comia era tempo de comer. Não havia uma "hora do almoço", entenderam?
Por favor, caro leitor ou leitora, não se esqueçam que hoje é 1.º de janeiro de 2014. Não percam a hora de dizer a todos e a cada um dos seus que o seu amor por eles não tem tempo ou hora.
Feliz ano-novo!

Roberto Damatta

dezembro 15, 2013

O que me disse a flor



"Durante um passeio pela avenida Atlântica, sentei-me sob uma das árvores que há ali, próximo aos edifícios, quando, ao meu lado, no banco, caiu uma flor amarela, igual a muitas que estavam ali no chão.
Peguei-a e tive uma surpresa ao olhar para dentro dela, côncava como um cálice. É que o fundo do cálice era de cor lilás intenso e, do centro dele, erguia-se um pistilo que parece um requinte decorativo posto ali para me encantar. Mas, encantar a mim que, por acaso, peguei essa flor? A flor, suas cores, seu pistilo têm a delicadeza encantadora de uma obra de arte. Mas uma obra de arte que não foi feita por nenhum artista, por ninguém.
Observo ainda que o pistilo é constituído de pequenos anéis feitos de uma matéria semelhante a pluma e lindamente completado por quatro fios também lilases. Que capricho, que harmonia em tudo aquilo! A natureza cria beleza para si mesma? A beleza é natural a tudo o que ela cria?
Certamente, você dirá que ela cria também bichos horríveis e repugnantes. É verdade, mas isso torna ainda mais incompreensível o esplendor das coisas belas que ela cria. E, no caso dessa flor, do pistilo dessa flor, fascinou-me o esmero, o capricho, a delicadeza das pequeninas rodelas de pluma amarela, que pareciam ter sido feitas com o deliberado propósito de fascinar. Mas a quem? Mas por quem?
O que eu desejo transmitir a vocês, nesta crônica, é o espanto de que fui tomado, naquela tarde, ao descobrir essa flor. E havia dezenas delas pelo chão, algumas já murchas, outras esmagadas pelos pés dos transeuntes, num desperdício de belezas. Será mesmo um desperdício? Não, ela é assim mesmo em tudo ou quase tudo.
Quando o homem ejacula lança centenas de milhões de espermatozoides, embora apenas um deles tenha a possibilidade de atingir o óvulo e fecundá-lo. Creio que ela pretende, com esse excesso, tornar inevitável a fecundação e o surgimento de outro ser vivo.
Mas meu espanto não para aí. Outro dia, via na televisão um documentário filmado em águas profundas do oceano, aonde a luz do sol não chega. Era um mundo outro, habitado por seres que não sei se devo chamá-los de peixes. Sei que eram estranhíssimos; nadavam, é certo, mas suas nadadeiras eram algo nunca visto, de uma matéria transparente, flexível, que mudava de cor a cada instante.
Tinham cabeça, boca? Não sei. E quase todos traziam consigo antenas em cuja ponta uma pequena lâmpada acendia e apagava. São próprios àquela outra dimensão do planeta, onde se criam outros seres, outras vidas, outra beleza.
Eram peixes? Eram flores? Eram ficção? É que, como no caso da flor amarela que me caiu no colo, eram criações poéticas da natureza. Pois é, ando ultimamente grilado com esses exageros da natureza que não sei explicar. Na verdade, a realidade do mundo excede qualquer lógica. Ou a lógica dele é outra?
Mas não é: já pensou nas descobertas feitas pelos físicos que levaram a descobrir essa maravilha que é o átomo? Fico pensando: descobriram quais partículas constituem o núcleo do átomo e, a partir daí, conseguiram desintegrá-lo. E temos a energia atômica! Não é estranho que seja tudo tão complexo e, ao mesmo tempo, tão bem organizado e que a inteligência humana seja capaz de entender isso?
Gente, quando faço essa pergunta, lembro-me de que o universo é constituído de bilhões e bilhões de galáxias, constituídas, por sua vez, de quatrilhões de sóis. O sistema solar a que pertencemos é quase nada nesse universo infinito. E nosso planeta, que importância tem? Um grãozinho de poeira. E nós, seres humanos, menos que um grãozinho de poeira nessa imensidão. Não obstante, conseguimos pensá-la".

Ferreira Gullar

dezembro 14, 2013

Feijoada radical



"No Rio, em 1960, Jean-Paul Sartre foi levado a uma feijoada no apartamento do jornalista José Guilherme Mendes. A folhas tantas, resolveu ir à cozinha e inspecionar o famoso prato brasileiro, que não conhecia. Pediu licença e destampou a panela. Contemplou aquela sarabanda de carnes indefinidas borbulhando no feijão preto e exclamou: "Mais... C'est la merde!".
É por essas e outras que o prestígio de Sartre não para de cair, e o de seu rival e desafeto Albert Camus, de subir. Camus era "pied-noir", habituado às agrestias da Argélia --deve ter comido coisa até pior na Casbah, a megafavela de Argel. Já Sartre era esnobe, só comia carne branca e jovem, e não se passava nem pela Simone de Beauvoir. Bem, pior para Sartre. Com ou sem a sua opinião, a feijoada está prestes a se tornar patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O espantoso é que ainda não fosse. Com tudo que já fez por nós nos últimos 200 anos, por que nos esquecemos de elegê-la fundamental na nossa cultura? Será porque, ao contrário da capoeira, do jongo e da Folia de Reis --todos entronizados--, ela não corra risco de extinção e inunde o país a cada sábado e quarta-feira? Pois, até por isso, a feijoada deveria ser louvada - ela não precisa de subsídio.
Quanto a mim, toda semana, em casa ou na rua, debruço-me sobre o grande prato nacional. Principalmente --que minha médica não me leia-- se, em vez dos rotineiros paio, linguiça e carne-seca, ele vier enriquecido com costela, pé, orelha, focinho ou bochecha.
Sou íntimo de algumas das maiores feijoadas cariocas: a de Leila, na quadra do Salgueiro; a de Tia Surica, na Portela; e a de Jorge Ferraz, no Renascença. Mas, neste verão, pretendo radicalizar: a qualquer hora dessas, vou encarar uma feijoada vegetariana".

RUY CASTRO

dezembro 06, 2013

Mandela 'um tesouro perdido'



"O que esperaria a sabedoria convencional de uma pessoa normal que passasse 27 anos na prisão, apenas por defender seus ideais, aliás nobres? Que ele saísse da prisão vomitando ódio e ressentimento e que buscasse a vingança contra os opressores, dele próprio e de seu povo, os negros sul-africanos.
Para sorte da África do Sul, Nelson Rolihlahla Mandela não era uma pessoa normal, mas "um tesouro perdido", para usar a expressão com que a então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, definiu o ex-presidente ao encontrá-lo em 2009, já aposentado --e como estadista, talvez o último do século 20.
Mandela saiu da prisão para apertar a mão de Frederik Willem de Klerk, então presidente do regime de apartheid, que segregava os negros de uma maneira tão brutal que, quando começou a acabar, em 1994, havia no país 750 mil piscinas, uma para cada duas famílias brancas, ao passo que, na outra ponta, 10 milhões de famílias negras não dispunham de água potável em suas habitações.
O simples gesto já era uma demonstração de tolerância e de espírito de conciliação. Tanto que ele e De Klerk acabaram ganhando juntos o Nobel da Paz (1993).
Na sua primeira entrevista após ser eleito presidente, em 1994, deu uma verdadeira aula magna de paciência, certamente aprendida em seu longo cativeiro.
Perguntei como ele pretendia fazer para evitar que a óbvia impossibilidade de atender rapidamente à demanda dos negros por uma vida mais digna, reprimida por séculos, não provocasse uma explosão de frustrações capaz de dinamitar a transição.
Sereno, com o jeito de avô sábio e bondoso que todo neto gostaria de ter (já estava com 76 anos), respondeu:
"Quando dermos a primeira casa para quem não a tem, todos os seus vizinhos ficarão com a certeza de que também terão a sua, mais cedo ou mais tarde, e esperarão".
Esperaram, de fato, tanto que, na Presidência Mandela (1994/99), a África do Sul praticamente sumiu da mídia internacional, o que contrariou o padrão africano dos anos recentes ou mesmo o de países que saíram de longos períodos autoritários.
A África do Sul de Mandela não viveu uma das duas seguintes situações, talvez ambas, que usualmente ocupam a mídia:
1. Uma guerra tribal sangrenta e interminável.
2. A fragmentação em diferentes países etnicamente homogêneos, com a consequente "limpeza" das etnias minoritárias.
Esse espírito conciliador obviamente nasceu na prisão de Robben Island, em que ficou confinado na maior parte do período que passou preso (1963 a 1990).
Afinal, Mandela foi um dos criadores do Umkhonto we Sizwe ("A Lança da Nação"), o braço armado do CNA (Congresso Nacional Africano), o partido com o qual ele liderou a luta dos sul-africanos negros (e alguns poucos brancos) contra o apartheid.
No julgamento que o condenou, quando já estava preso, definiu a sua luta assim:
"Eu celebrei a ideia de uma sociedade livre e democrática, na qual todas as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e o qual espero alcançar. Mas, se for necessário, é um ideal pelo qual estou pronto para morrer".
Mandela viveu e alcançou. Foi, de todo modo, um longo e penoso percurso desde o nascimento (18 de julho de 1918), na vilazinha de Mvezo (hoje parte da província de Cabo Oriental).
Conforme escreveu em sua autobiografia, era "um lugar distante, pequeno distrito afastado do mundo dos grandes eventos, onde a vida corria da mesma forma havia centenas de anos".
Nascido Rolihlahla Mandela, coube a ele iniciar uma pequena mudança na rotina de sua vila ao se tornar o primeiro membro da família a frequentar uma escola, na qual ganhou o nome inglês "Nelson".
Estudou cultura ocidental e iniciou o curso de direito na Universidade de Fort Hare, na qual sua vida ganharia a inflexão que o lançaria na luta contra o apartheid --o que, por sua vez, o levaria à clandestinidade (1961) até se tornar o prisioneiro 46.664 de Robben Island.
Saiu da cadeia (1990) quase diretamente para a Presidência (1994).
Seu período de governo parece um caso clássico de copo meio cheio, meio vazio. Se a transição do apartheid para uma democracia multirracial foi pacífica, a violência comum só fez se agravar, a ponto de ter sido o centro da campanha eleitoral para a sucessão de Mandela.
Havia, então, 50 mortes violentas por dia, a taxa mais elevada do mundo, de acordo com dados do Instituto de Estudos para a Segurança, de Johannesburgo.
Um dado, mais que todos, chocava: a cada 11 minutos uma mulher era violentada.
Outros problemas foram atenuados, mas permanecem graves: na educação, por exemplo, nos cinco anos Mandela, foram construídas 100 mil novas salas de aula e 1,5 milhão de crianças, antes à margem do sistema, passaram a frequentar a escola.
A qualidade do ensino, no entanto, continuava precária, e parte do gasto se perdia pelos ralos da ineficiência e da corrupção. Comparações similares poderiam ser feitas para praticamente todos os setores.
Mandela, contrariando padrão muito comum na África, não concorreu à reeleição. Entregou tanto o Congresso Nacional Africano como o poder a seu discípulo Thabo Mbeki e se retirou como uma espécie de monumento vivo.
Tanto que as atrações relacionadas a Mandela figuram entre as dez buscas mais populares na página do Departamento Nacional de Turismo da África do Sul (www.southafrica.net). Sete delas foram declaradas patrimônio nacional.
Ele se casou três vezes. A primeira mulher de Mandela foi Evelyn Ntoko Mase, da qual se divorciou em 1957, após 13 anos. Depois se casou com Winnie Madikizela --o casamento duraria 38 anos. O divórcio ocorreu em 1996, com as divergências políticas entre o casal vindo a público.
No seu 80º aniversário, Mandela casou-se com Graça Machel, viúva de Samora Machel, outro ícone africano, como líder guerrilheiro primeiro e, depois, presidente de Moçambique.
Teve seis filhos, 17 netos e 14 bisnetos --e parecia mais à vontade no papel de avô do que no de estadista mundialmente celebrado".

CLÓVIS ROSSI

dezembro 02, 2013

Sob as ordens de mamãe


"Quase 25% dos brasileiros entre 25 e 34 anos moram com os pais. São dados divulgados há dias pelo IBGE. Sessenta por cento desse contingente são homens. Isso equivale a quase 30 milhões de marmanjos sob as ordens de mamãe. Não admira que as mulheres se queixem de que não há mais homem para casar. Para que casar se eles têm a velha para lhes passar as cuecas, aplicar o termômetro e assoprar a sopa?
Como será o cotidiano desse homem que, apesar da idade avançada, ainda mora com a família? Usará o aparelho de barbear do pai ou terá o seu próprio? Terá direito a lamber a forma de bolo como quando era criança? Será obrigado a limpar o xixi fora do vaso, como sua mãe não se cansou de ensinar? Colecionará flâmulas, selos e figurinhas, como fazia em garoto? E terá de levar a namoradinha para a escada de serviço a fim de uns amassos, ou seus pais lhe permitirão dormir com ela em seu quarto desde que não façam muito barulho?
Perdão pelo óbvio, mas, enquanto morar com o pai e/ou a mãe, o sujeito adiará irremediavelmente seu amadurecimento. Mesmo que contribua para a economia da casa, continuará vivendo uma simbólica menoridade.
Há algo de libertador em acordar no próprio apartamento, pegar o jornal no corredor e preparar o café da manhã para a bela moça que passou a noite com você. Ou em tomar banho com a porta aberta, arrumar a cama e levar a roupa suja para a lavanderia. Ou em se esticar no sofá para assistir ao futebol, cochilar e acordar de madrugada com todas as luzes acesas sem alguém ralhando conosco.
Há também o risco de, ao insistir em morar com a mãe, você lhe empatar a vida. E se ela for uma coroa em doce disponibilidade, ali pela casa dos 50, e ainda capaz de sentir e provocar arrepios? Pois é. Donde, quando mamãe sugerir que você passe a tarde no shopping, não discuta - vá".

RUY CASTRO

novembro 28, 2013

Uma ausência de modelo


"Sou do tempo em que se discutia qual era o maior país do mundo. Éramos tão ignorantes e ingênuos que, mesmo neste vale de lágrimas, acreditávamos na existência de nações sem problemas.
Um sujeito dizia que a França era o cara; mas um outro arguia que não: o lugar era dos alemães porque, além da excelência nas suas máquinas inquebrantáveis, eles tinham reinventado a religião, a literatura e a música. Já um terceiro lembrava que os americanos ganharam o guerra e que, sem ter tido dissidências internas que desembocavam no Terror ou no Nazismo, davam valor à iniciativa individual e inventaram o filme colorido e musicado. Mal dizia isso, porém, um outro notava a velha Inglaterra da Revolução Industrial e do Estado de Bem-estar Social. O primeiro país a equilibrar democracia com aristocracia, criando equilíbrio entre ricos e pobres. Essas classes que em todo lugar viviam sem classe.
Era a deixa para alguém falar da União Soviética e situá-la como o modelo de um paraíso já em curso. Avassalador e irresistível como a manifestação mais clara das leis do progresso histórico liderada pelo partido - esse instrumento da liberdade concreta e do fim do ardil burguês-capitalismo condenado à morte pelo seu próprio funcionamento.
Tal era o debate nos meus tempos de juventude quando, numa praia de Icaraí sem poluição, eu ouvia o Pezinho, o Silvinho, o Enylton e o Moliterno, para ficar nos mais queridos, nessas preocupações que se reproduziam na casa de vovô Raul quando meus tios discordavam sobre os melhores automóveis, navios, aviões e, creiam-me!, navalhas. Aliás, esse era o único assunto que fazia meu pai falar e introduzir no campo dos países exemplares a Suécia, pois somente ele barbeava-se com o inigualável aço de navalhas escandinavas.
Com a Suécia, surgia a Holanda. Uma Holanda conhecida pelos moinhos de vento pois nada sabíamos de sua trajetória cultural marcada pelo Calvinismo, pelo grande Espinosa e pelas suas famosas p... em vitrines, como a confirmar o que freudianamente sobra quando se combate extremadamente a sexualidade. Havia um imenso toque de provincianismo e de pós-guerra nesses debates, razão pela qual surgia o Japão como eventual bandido e a China como uma espécie de doente perdido e, imaginem, irrecuperável.
Da nossa pátria - esse Brasil feito de lusitanos, índios e negros escravos - que era o lanterninha do mundo, cabia o papel de ator estreante cujas linhas mal decoradas não convenciam no palco onde brilhavam esses gigantes "adiantados" que por suposto e definição haviam dado certo e resolvido tudo.
Isso era tão verdadeiro que ouvi de um professor que a própria língua já determinava o lugar das "raças humanas", conforme era comum classificar as sociedades daqueles dias antigos e ferozes. "Tome o alemão. Só um sujeito inteligentíssimo pode dominar essa língua complexa, criativa e desenhada para a filosofia!", dizia ele. "E o Português?", perguntou um colega. "Bem - respondeu o mestre sorrindo - a nossa língua pátria é boa para o samba, para a anedota e para o mais ou menos!"
Mais tarde, descobri que o professor havia tentado aprender alemão com um refugiado de guerra; um tal de Otto Folterer, e que o instrutor o havia feito desistir por "falta de inteligência". Quando timidamente eu perguntei do meu canto, como é que se explicava que na Alemanha as crianças falavam alemão, ninguém me deu atenção. Eram todos, como os gregos antigos, inteligentíssimos, tal como os holandeses que, não sei bem porque, teriam essa afinidade com os helenos e os germânicos. Segundo a lenda, os holandeses seriam capazes de entender todas a línguas, desde que o estrangeiro falasse devagar, soletrando as palavras.Foi o que ocorreu com o Soares quando ele viajou para o Holanda. Sem saber uma vírgula de holandês, lembrou-se do detalhe e pediu ao esguio e atencioso garçom holandês um bife bem-passado com fritas e um chope gelado pronunciando cada palavra monossilabicamente. Minutos depois, chegou o garçom com o pedido. "Como você me entendeu?", inquiriu o Soares. "Eu também sou da terrinha...", disse o holandês devagar, detendo-se como ele em cada sílaba. "E por que Diabos - explodiu Soares - estamos falando holandês?"
Assim era o nosso mundo, feito de países de elite: grandes, adiantados, civilizados e resolvidos. Neles, nada faltava e, por isso, eram o oposto do Brasil onde faltava tudo, até mesmo uma língua inteligente e um conflito brutal, mas indispensável ao progresso.
Quando eu olho para a crise europeia, apavoro-me com o radicalismo político americano que paralisa o governo, vejo como a grande esquerda francesa e russa esboroou-se, eu tenho uma certa nostalgia desse nosso Brasil inocente, mas que também faz espionagem, explora os médicos cubanos, derruba viadutos, sonha com censura e que, de fato, tem uma língua tão ou mais complicada que o alemão.
Essa língua que os nossos políticos já estão falando por conta das eleições..."

Roberto Damatta

novembro 03, 2013

Sob nova orientação


"Talvez a tarde amena e clara, que se firmou depois de uns chuvisquinhos matinais, tenha contribuído para a placidez quase silenciosa, então reinante entre os frequentadores do boteco. Nenhuma novidade. O pessoal do cânter, já disposto nas mesas mais próximas da calçada, apreciava, com animação discreta, a passagem de moças e senhoras indo e vindo da praia, "potrancas esplendorosas, cujo baloiçar de ancas sublimes transporta o homem aos píncaros do delírio erótico, ai se eu pudesse dar uma alisadinha em cada uma", no dizer arrebatado do doutor Amoroso, que não por acaso ostenta este cognome. Em mesas bem próximas, Dick Primavera, diante de um notebook e três celulares, harmonizava, com a desenvoltura costumeira, seus múltiplos afazeres comerciais com o atendimento à extensa rede de admiradoras, sempre em busca de alguns minutos de seu tempo; Coração de Leão descrevia em minúcias seus mais recentes achaques, que incluem quase todas as doenças do catálogo médico que ele sempre consulta; doutor Leo Bom Gogó anunciava que vai puxar dois sambas e uma marchinha no próximo carnaval e ainda dispunha de um dia livre na agenda.
Tudo, portanto, na mesma de sempre, com a importante exceção da ausência, já pelo terceiro domingo consecutivo, do sempre aguerrido comandante Borges. Andaria, talvez, às voltas com o aperfeiçoamento do notório Plano Borges? Envolvera-se em algum duelo, dos muitos para os quais desafiara os insolentes? Ainda se dedicava a estudar os prós e contras da forca e da guilhotina, como métodos de combate à corrupção na vida pública?
- Nada disso - disse ele, com um risinho maroto, depois de cumprimentar todos individualmente e beijar com elegância as mãos das senhoras. - Eu tirei um tempo para namorar, tinha até esquecido como é, perdi ritmo de jogo. E eu sou velho, mas ainda tenho mercado, não envergonho.
- Mas que grande notícia! Vai trazer a namorada aqui, para apresentar?
- Não, não vou, já desisti, a degenerescência é total.
- A degenerescência? As mulheres...
- Não quero entrar em detalhes, os detalhes são inúmeros e de ordem muito diversa. Por exemplo, eu tenho posição firmada e fundamentada, quanto a essa questão dos pelos pubianos. Parece besteira, mas não é, é muito importante para a simbologia do amor, eu acho isso que está acontecendo uma irresponsabilidade muito séria, estão mexendo com a sobrevivência da espécie.
- Mas não há um certo exagero nisso? Quer dizer...
- Não pode raspar tudo e fazer plástica! Descaracteriza toda a área, como se fosse a casa da mãe Joana, aquilo ali não é qualquer lugar, pense bem, é patrimônio da Humanidade! É muito pior que construção sem licença ambiental, muitíssimo pior! Abala todo o inconsciente humano! Não pode! Não pode, é um crime! Chega! A testa é falsificada, o queixo é falsificado, a boca é falsificada, o pescoço é falsificado, os peitos são falsificados, a bunda é falsificada, as panturrilhas são falsificadas, as coxas são falsificadas e agora a zona básica de operações é falsificada! Não pode! Esse território é importante demais para ficar a cargo das mulheres, elas não entendem nada disso! Ainda mais essas mulheres irresponsáveis e inconsequentes, cujo primeiro gesto é patolar o indivíduo e cujo primeiro papo é sobre as preferências dela na cama! Todo mundo já viu todas as mulheres nuas, mostrando até as amídalas, não está certo! Não se pode aceitar uma coisa destas sem revolta! É caso de revolta popular! Revolta! Sedição! Fuzilamento! Às galés! Não pode, eu, eu...
- Calma, comandante, tome fôlego, olhe a apoplexia outra vez.
- Vocês me provocam. Não falo mais no assunto, sou um cavalheiro.
- É verdade. Acho que esta é a primeira vez em que você entrou aqui sem abordar os grandes problemas brasileiros.
- Ah, isso é passado. Esse negócio de falar no Brasil, me aborrecer à toa, não, isso é passado. Outro dia eu pensei e vi que não tem mais Brasil, a gente acha que tem porque se viciou, mas não tem mais. Veja esse rapaz sergipano que agora recusou a seleção brasileira e vai jogar pela Espanha. Você já pensou isso em 1960? Ele só não seria linchado porque todo mundo ia concluir que era um louco. Agora não, agora não tem mais país mesmo, não tem seleção como antes, todo mundo joga igual, não tem nem país do futebol, é tudo repetição besta, futebol aqui dá prejuízo, lá fora dá muito lucro e futebol é grana e grana não tem nacionalidade. Não tem essa besteira de Brasil-Brasil-Brasil, isso é coisa para os iludidos de minha marca, que agora estão abrindo os olhos. Agora tem o Brasil das mulheres e o Brasil dos homens até nos discursos das autoridades, o Brasil dos negros, o Brasil dos brancos e o Brasil dos pardos, o Brasil dos héteros e o Brasil dos gays, o Brasil dos evangélicos e o Brasil dos católicos, Brasil com bolsa família e Brasil sem bolsa família e nem sei mais quantas categorias, tudo dividido direitinho e entremeado de animosidades, todo mundo agora dispõe de várias categorias para odiar! A depender do caso, o sujeito está mais para uma delas do que para essa conversa de Brasil, esquece esse negócio de Brasil, não tem mais nada disso!
- Também não é assim, comandante. Lembre-se das manifestações.
- Por que é que eu vou me lembrar, se ninguém mais se lembra? Ninguém me pega com isso, já estou em outra. Agora estou escolhendo em qual dos Brasis vou ficar, não posso mais perder tempo.
- Já tem algum em vista?
- Já. O dos ladrões. Tem muita concorrência, mas é o que oferece mais futuro e segurança. Você entende alguma coisa de formação de quadrilha?"

JOÃO UBALDO RIBEIRO

novembro 01, 2013

VERDADES PERECÍVEIS


"Acumulei mais verdades definitivas que o Concílio de Trento. 
Fardo pesado.
Levei meio século para perceber que só há uma verdade inquestionável, a de que todos morreremos, mais cedo ou mais tarde.
Tudo o mais é verdade perecível, circunstancial, mesmo aquelas que vêm revestidas do solene título de verdades científicas.
O homem já acreditou que o sol girava em torno da terra. E quem duvidou disso naquela época acabou na fogueira. Ou abjurou.
Hoje, milhões de pessoas acreditam que o homem coloca o planeta em risco por agredir o meio ambiente. Falam em nome da ciência. Pois há cientistas que gargalham dessa sandice e de outras. O que não impede a proliferação de seitas que se dedicam à adoração da natureza, de forma tão primitiva quanto o os homens da caverna e as tribos do sudeste africano ainda hoje.
Eu acreditei nas verdades definitivas de teorias que têm respostas para tudo. Da origem do mundo ao futuro da humanidade. Da evolução das espécies ao psiquismo das abelhas rainhas. Da explosão do Cracatoa à revolução chinesa.
Eu que não tenho crença religiosa, sou agnóstico, mas acreditei religiosamente que há método infalível para investigar todos os fenômenos naturais e históricos. Cheguei a confiar nessa fórmula e suas leis pétreas para compreender os achaques pessoais da artrite reumatoide e dos desastres do amor.
Nem a artrite nem os desastres do amor têm explicação racional e definitiva. Sou testemunha disso. No máximo, há remédios para amenizar esses males. Amargos. Principalmente quando se perde um grande amor.
Mas como se desfazer dessas verdades definitivas que costumam se transformar em senso comum?
Algumas delas, mesmo depois de gastas pelo tempo e pelo uso, ficam arraigadas. A outras nos apegamos com a mesma afetividade e hábito que nos apegamos a objetos e pessoas. Muitas nem percebemos que guardamos dentro de nós e que interferem todo o tempo em nossas vidas, embora saibamos que não são verdades, muito menos definitivas, como a teleologia da luta de classes.
As descobertas, os avanços tecnológicos, que parecem evidências de que o homem acumulou conhecimento suficiente para instalar o admirável mundo novo, repousam sobre verdades provisórias. Nunca completas e definitivas. Há uma física para construir geladeiras, outra para mandar astronautas ao espaço.
Verdade definitiva, apenas a de que nascemos para estar num mundo que não escolhemos, para morrer todos os dias um pouco, enquanto nos distraímos com a necessidade de amar e ser amado".
Esta é minha crônica na Ideias de novembro.


outubro 27, 2013

Mentindo em Berlim, sem meias



"A tecnologia cibernética e a globalização dificultam muito a vida dos escritores viajantes, cujos veneráveis patronos talvez sejam Heródoto, Marco Polo e, no caso da língua portuguesa, o grande Fernão Mendes Pinto, também ingratamente conhecido como "Fernão, Mentes". Era muito bom, quando se podiam fazer relatos assombrosos de monstros marinhos que engoliam navios inteiros sem mastigar, reis e imperadores que moravam em palácios de ouro maciço, rinocerontes voadores e portentos para qualquer gosto ou fantasia. Sumiram até mesmo os mentirosos de renome local, como os de Itaparica, hoje reduzidos a uma meia dúzia desalentada, que não pode competir com a tevê e mal reúne plateias minúsculas de dois ou três gatos-pingados, mesmo assim descrentes, desrespeitosas e contestadoras, que duvidam até de façanhas singelas, como a descrita numa das histórias contadas pelo finado Lamartine. O tocante episódio teve início quando o papagaio de Lamartine, presente da sua dele santa esposa, a também saudosa dona Naninha, fugiu de casa, onde vivia solto, poucas semanas antes de seu dono chegar à então avançada idade de sessenta anos, ocasião festiva para todos.
Para todos, mas não mais para Lamartine. O papagaio, fluente em várias línguas, cantor, imitador e assoviador exímio, cujo fino trato social se invejava até em círculos elevados, era o grande companheiro de Lamartine, parceiro de conversa e de observação do cotidiano, autor de chistes memoráveis e ditos até hoje celebrados, amigo de todas as horas. Mas, num inacreditável assomo de apunhalante ingratidão, não apareceu para o papo das cinco da manhã e, depois de toda a ilha procurar, dias seguidos, saber inutilmente de seu paradeiro, concluiu-se que havia fugido para sempre, abandonando, de maneira infame e reprovável, o amigo de tantos anos. Nem mesmo as artes sedutoras de alguma papagaia mais da pá virada podiam ser responsabilizadas, porque Jefferson, o papagaio, que por sinal era o rei do baixo linguajar, estava cansado de saber que qualquer papagaia, ou mesmo mais de uma, por mais safadinha que fosse, teria boa acolhida na casa do amigo, sem perguntas ou cobranças.
Não, não era aquilo, era ingratidão mesmo, privação dos sentidos, ou até demonstração de fraqueza de caráter e maus princípios, forçoso reconhecer. Apesar de dona Naninha ter organizado uma festança de aniversário, Lamartine fazia o possível, mas não conseguia sufocar a dor da traição. Na festa, dava um sorrisinho chocho aqui e ali, só por boa educação, e fingia contentamento, mas a tristeza era invencível. E estava assim sorumbático, encostado numa das coluninhas do alpendre, quando, bem do lado de onde sopra o apreciado vento nordeste, entre fiapinhos de nuvens alvas lá em cima e frondes de coqueiros cá embaixo, começa a ouvir-se uma espécie de crá-crá-crá longínquo, que logo se torna mais próximo, ao tempo em que, em harmonioso roteiro sobre os contornos da Ponta de Nossa Senhora, um verdadeiro esquadrão de papagaios, com um líder à frente, adeja gracioso na direção da varanda de Lamartine, cantando, em tom afinadíssimo, a música apropriada para o momento.
Sim, é o que vocês estão pensando. O irrepreensível Jefferson não desertara seu amigo Lamartine, nem tampouco se enrabichara por uma papagaia-dama, das muitas que por aí batem asas ao léu. Evidente que essas suposições eram falsas. Como pensam mal os que não conhecem a grandeza de coração e a devoção das amizades verdadeiras! Ele, sem dizer nada, para não estragar a surpresa, voara um belo dia para os matos, antes do amanhecer, a fim de realizar seu plano. Com o prestígio que tinha, não tardou a organizar um enorme coral de papagaios. E foi assim, todos ensaiados, que fizeram a revoada em torno da casa de Lamartine, cantando - adivinharam outra vez - "parabéns pra você". Homem não chora, mas dessa vez ele chorou. E Jefferson voltou para seu poleiro, onde permaneceu até a morte de Lamartine, pois todo mundo sabe que papagaio pode viver oitenta anos, mas não resiste à morte do dono.
É triste supor que muitos de vocês, quem sabe a maioria, não acreditam nesta história. Eu acredito; era menino, quando ouvi Lamartine contá-la e, nesse tempo, essas coisas podiam acontecer. Xepa me disse que acharam uma foto de outro tatu sendo fisgado, desta vez no Baiaco. É o terceiro, só nos últimos dois anos, e há os que acreditam que a pesca do tatu será regulamentada, mais cedo ou mais tarde, com multa de tatu e taxa de tatu. Mas, mesmo que a existência dessa foto se confirme, novamente vai ser desacreditada, nestes tempos céticos de factoides, photoshop e armações na internet.
Aqui, neste quarto de hotel em Berlim, não me ocorre uma única mentirinha decente para lhes contar, sem ser imediatamente desmoralizado. Mas invoco o fantasma de Lamartine, que, aliás, viu muitos, e ele me acode. Não apareceu pessoalmente, mas acho que me soprou a lembrança de que já ouvi vários conhecidos e até motoristas de táxi exclamarem "ohne Strümpfe!" ("sem meias!"), ao perceberem que não estou usando meias. Espantam-se porque não sinto frio. É verdade, circulei uma semana inteira por aqui, encasacado, mas sem meias. Bobagem, dirão os de má vontade, também não faz tanto frio lá, nesta época do ano. Ao que retrucarei que já morei em Berlim e saía sem meias no inverno. Pronto, eis aí uma bela notícia para as páginas de ciência dos jornais: há indivíduos que não usam meias no inverno do centro da Europa sem problemas, exceto, vez por outra, serem vistos como meio grossos - e eu sou um exemplo vivo, pois até patinar descalço no gelo garanto que posso encarar. Claro, há sempre a possibilidade de algum desmancha-prazeres entre vocês querer que eu faça uma demonstração no próximo inverno, mas aí eu desconverso e nego tudo, tenho aprendido com os bons exemplos".

JOÃO UBALDO RIBEIRO