Mostrando postagens com marcador arco da velha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador arco da velha. Mostrar todas as postagens

novembro 28, 2013

Uma ausência de modelo


"Sou do tempo em que se discutia qual era o maior país do mundo. Éramos tão ignorantes e ingênuos que, mesmo neste vale de lágrimas, acreditávamos na existência de nações sem problemas.
Um sujeito dizia que a França era o cara; mas um outro arguia que não: o lugar era dos alemães porque, além da excelência nas suas máquinas inquebrantáveis, eles tinham reinventado a religião, a literatura e a música. Já um terceiro lembrava que os americanos ganharam o guerra e que, sem ter tido dissidências internas que desembocavam no Terror ou no Nazismo, davam valor à iniciativa individual e inventaram o filme colorido e musicado. Mal dizia isso, porém, um outro notava a velha Inglaterra da Revolução Industrial e do Estado de Bem-estar Social. O primeiro país a equilibrar democracia com aristocracia, criando equilíbrio entre ricos e pobres. Essas classes que em todo lugar viviam sem classe.
Era a deixa para alguém falar da União Soviética e situá-la como o modelo de um paraíso já em curso. Avassalador e irresistível como a manifestação mais clara das leis do progresso histórico liderada pelo partido - esse instrumento da liberdade concreta e do fim do ardil burguês-capitalismo condenado à morte pelo seu próprio funcionamento.
Tal era o debate nos meus tempos de juventude quando, numa praia de Icaraí sem poluição, eu ouvia o Pezinho, o Silvinho, o Enylton e o Moliterno, para ficar nos mais queridos, nessas preocupações que se reproduziam na casa de vovô Raul quando meus tios discordavam sobre os melhores automóveis, navios, aviões e, creiam-me!, navalhas. Aliás, esse era o único assunto que fazia meu pai falar e introduzir no campo dos países exemplares a Suécia, pois somente ele barbeava-se com o inigualável aço de navalhas escandinavas.
Com a Suécia, surgia a Holanda. Uma Holanda conhecida pelos moinhos de vento pois nada sabíamos de sua trajetória cultural marcada pelo Calvinismo, pelo grande Espinosa e pelas suas famosas p... em vitrines, como a confirmar o que freudianamente sobra quando se combate extremadamente a sexualidade. Havia um imenso toque de provincianismo e de pós-guerra nesses debates, razão pela qual surgia o Japão como eventual bandido e a China como uma espécie de doente perdido e, imaginem, irrecuperável.
Da nossa pátria - esse Brasil feito de lusitanos, índios e negros escravos - que era o lanterninha do mundo, cabia o papel de ator estreante cujas linhas mal decoradas não convenciam no palco onde brilhavam esses gigantes "adiantados" que por suposto e definição haviam dado certo e resolvido tudo.
Isso era tão verdadeiro que ouvi de um professor que a própria língua já determinava o lugar das "raças humanas", conforme era comum classificar as sociedades daqueles dias antigos e ferozes. "Tome o alemão. Só um sujeito inteligentíssimo pode dominar essa língua complexa, criativa e desenhada para a filosofia!", dizia ele. "E o Português?", perguntou um colega. "Bem - respondeu o mestre sorrindo - a nossa língua pátria é boa para o samba, para a anedota e para o mais ou menos!"
Mais tarde, descobri que o professor havia tentado aprender alemão com um refugiado de guerra; um tal de Otto Folterer, e que o instrutor o havia feito desistir por "falta de inteligência". Quando timidamente eu perguntei do meu canto, como é que se explicava que na Alemanha as crianças falavam alemão, ninguém me deu atenção. Eram todos, como os gregos antigos, inteligentíssimos, tal como os holandeses que, não sei bem porque, teriam essa afinidade com os helenos e os germânicos. Segundo a lenda, os holandeses seriam capazes de entender todas a línguas, desde que o estrangeiro falasse devagar, soletrando as palavras.Foi o que ocorreu com o Soares quando ele viajou para o Holanda. Sem saber uma vírgula de holandês, lembrou-se do detalhe e pediu ao esguio e atencioso garçom holandês um bife bem-passado com fritas e um chope gelado pronunciando cada palavra monossilabicamente. Minutos depois, chegou o garçom com o pedido. "Como você me entendeu?", inquiriu o Soares. "Eu também sou da terrinha...", disse o holandês devagar, detendo-se como ele em cada sílaba. "E por que Diabos - explodiu Soares - estamos falando holandês?"
Assim era o nosso mundo, feito de países de elite: grandes, adiantados, civilizados e resolvidos. Neles, nada faltava e, por isso, eram o oposto do Brasil onde faltava tudo, até mesmo uma língua inteligente e um conflito brutal, mas indispensável ao progresso.
Quando eu olho para a crise europeia, apavoro-me com o radicalismo político americano que paralisa o governo, vejo como a grande esquerda francesa e russa esboroou-se, eu tenho uma certa nostalgia desse nosso Brasil inocente, mas que também faz espionagem, explora os médicos cubanos, derruba viadutos, sonha com censura e que, de fato, tem uma língua tão ou mais complicada que o alemão.
Essa língua que os nossos políticos já estão falando por conta das eleições..."

Roberto Damatta

outubro 22, 2013

A Beatriz de Vinicius


Se eu lhe disser que fui amigo de Vinicius de Moraes, que convidado por ele assisti à estreia do histórico show de bossa nova no Au Bon Gourmet, em 2 de agosto de 1962, e três dias depois pranteamos juntos, na varanda do Alcazar, a morte de Marilyn Monroe e discutimos o filme Bonequinha de Luxo, você na certa acreditará, embora nada disso seja verdade. Fui ao show graças a uma companheira de redação no Correio da Manhã, jamais conversei sobre Bonequinha de Luxo ou Marilyn com o poeta, a quem, aliás, conheci muito superficialmente.
Colaboramos, na mesma época, no Diário Carioca, ele numa coluna de música intitulada Bossa Nova e eu comentando filmes, mas só fomos nos cruzar pela primeira vez quatro ou cinco anos mais tarde, na redação do Pasquim.
Levado para o Pasquim por Tarso de Castro, Vinicius nele publicou meia dúzia de textos (perfis de Antônio Maria, Ciro Monteiro, Di Cavalcanti e Carlos Leão, uma entrevista com Chico Buarque, um poema sobre câncer e uma ode à mulher), e no curto tempo em que por lá circulou trocamos apenas impressões e bobagens sobre cinema, nossa praia comum. Detalhou-me seu relacionamento com Orson Welles e a atriz francesa Renée Falconetti (a Joana d'Arc de Dreyer), ambos de passagem pelo Rio em 1942, sua participação na mais fugaz revista de cinema séria já lançada no Brasil, Filme, suas frustradas tentativas de fazer cinema aqui e em Hollywood, seu total desprezo pelo filme Orfeu Negro, de Marcel Camus.
Quase fui seu primeiro biógrafo. Em 1990, Luís Schwarcz convocou um pequeno grupo de jornalistas para levar adiante uma coletânea de biografias para a Cia. das Letras. Ruy Castro inaugurou-a com o formidável Anjo Pornográfico, sobre a vida e obra de Nelson Rodrigues. A princípio escalado para biografar Glauber Rocha, acabei me fixando em Vinicius, mas, como precisava ganhar dinheiro e a prometida bolsa que custearia o projeto nada de sair, joguei a toalha, e o crítico literário José Castello incumbiu-se da empreitada, tempos depois.
O que havia pesquisado acabaria tendo serventia 16 anos depois, quando produzi para a Jobim Music o Cancioneiro Vinicius e o Cancioneiro do Orfeu. De qualquer modo, foi pena eu ter batido mesa. Duvido que minha biografia resultasse igual ou melhor que a do Castello, mas nela Tati de Moraes, primeira mulher do poeta, estaria mais presente. Tati se recusava a falar sobre Vinicius com quem quer que fosse. Só comigo, confidenciou ao amigo em comum Newton Goldman, ela se abriria. Nenhum mérito pessoal; apenas me beneficiei da velha amizade que nos unia desde o início da década de 1960.
Ao desistir da biografia, decidi poupá-la da desagradável tarefa de relembrar os 12 anos que viveu com Vinicius e as cicatrizes que aquela convivência lhe deixara. De mais a mais, se ainda fosse viva quando retomei minhas pesquisas para tocar os Cancioneiros (Tati morreu em 1995, aos 84 anos), sua contribuição não seria tão relevante, pois Vinicius só iniciou sua carreira musical bem depois da separação.
Eu era pouco mais que um adolescente e conhecia Tati apenas de leitura. Ela fazia críticas de cinema na Última Hora e eu, no Correio da Manhã. Ao sermos apresentados por Gilberto Souto, numa projeção na cabine da United Artists, confessei-me surpreso com seu verdadeiro sexo (Tati, para mim, era nome de homem); ela riu e nos tornamos amigos instantâneos e companheiros de assíduas sessões de cinema privadas. Um dia, ela largou a crítica e passou a viver de traduções. Traduziu Ibsen, Greene, Lessing, Lillian Hellman e Lorca, às vezes de parceria com Clarice Lispector.
Miudinha e magérrima, mas forte e severa, a voz rouca de tanto fumar, tinha a alma chique, opiniões sólidas e a língua afiada. A "retardosa rosa Mournful and Beatrix" da última das Cinco Elegias, foi a mulher mais importante da vida do Vinicius, que, tombeur de femmes, se uniria a mais oito nas décadas seguintes. Dizem que chegou a escrever algumas das crônicas cinematográficas assinadas pelo marido no jornal A Manhã, no início dos anos 1940. É possível e até provável.
Conheceram-se em 1938. Ela, nascida Beatriz Azevedo de Mello, muito esperta, bonita e culta, era adorada pelos intelectuais modernistas de São Paulo e por Monteiro Lobato, que batizou de Tati o peixinho vermelho de Reinações de Narizinho. Pensando nela, Raul Bopp inventou "a filha da rainha Luiza" de Cobra Norato. Além de dois filhos, Tati deu ao poeta o empurrão decisivo que o levou à carreira diplomática e para a esquerda.
Graças a ela, Vinicius perdeu o ranço religioso trazido do Colégio Santo Inácio e livrou-se da influência do catolicão Octávio de Faria. A guinada à gauche consumou-se no convívio diário com o escritor socialista americano Waldo Frank, também ciceroneado pelo poeta durante a guerra. Com Welles, Vinicius discutiu cinema e caiu na esbórnia. Com Frank, passou a olhar o Brasil e o mundo por uma ótica diferente.
Frank não só o forçou a descobrir um Brasil miserável que parecia muito além dos seus olhos como lhe serviu de musa para a criação de sua obra mais ambiciosa. Os dois batiam perna pela extinta favela do Pinto, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, quando o escritor americano, observando os negros do morro, comentou: "Eles parecem gregos. Os gregos antes da cultura grega". Começou a brotar ali a ópera popular afro-brasileira Orfeu da Conceição, cujo primeiro ato foi escrito no carnaval de 1942, na casa do cunhado Carlos Leão, e o resto em Los Angeles, onde Vinicius serviu como cônsul de 1946 a 1950.
Lá chegou sonhando com um curso de cinema na Universidade da Califórnia, onde tomou algumas aulas de direção e roteiro. O que de mais prático tinha a aprender o fez com Welles, acompanhando as filmagens de A Dama de Xangai e Macbeth. Passou quatro anos em Los Angeles, aproveitando-se dos prazeres que Hollywood lhe podia oferecer - premières, visitas a estúdios, festas em casas de artistas, principalmente na mansão de Carmen Miranda, shows de jazz - e materializando outros desejos antigos, como aprofundar-se em ciências sociais e música erudita.
Aos poucos cansou-se da ensolarada Califórnia, dos americanos e do cotidiano hollywoodiano. "A vida aqui é muito mais chata do que você está pensando", desabafou em carta a Rubem Braga, a poucos meses de sua volta ao Brasil. Antes, conheceu e extasiou-se com o México, aonde fora recolher material inédito sobre a passagem de Einstein por aquelas paragens, nos anos 30. Tati já saíra de sua vida, o cinema continuou".

Sérgio Augusto

agosto 22, 2013

A Kombi


"A Volkswagen anunciou que vai encerrar a produção do furgão Kombi. Construído em sua linha de montagem de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, o veículo era produzido no Brasil desde 1957.
A Kombi despertou lembranças de minha primeira visita ao Brasil. Cheguei da Inglaterra à Universidade de Princeton (nos Estados Unidos) em setembro de 1964, para trabalhar em meu doutorado sob a orientação do professor Stanley Stein.
Ele me encorajou a pedir uma verba de pesquisa ao programa metropolitano de treinamento de pós-graduandos, dirigido pelo professor Charles Wagley, da Universidade Columbia. A verba cobria os custos de viagem ao Brasil e uma estadia de quatro meses.
O voo de Miami ao Rio de Janeiro fez escala em Belém para reabastecimento. Fui o único passageiro a desembarcar. Era madrugada, e tive de esperar no aeroporto até de manhã, quando um funcionário apareceu para carimbar o meu passaporte.
Por fim, chegou um Caravelle francês para o restante do voo, e fui o primeiro a embarcar, como cabia ao único passageiro internacional.
Enquanto o Caravelle voava acompanhando a costa brasileira, a cada escala uma nova leva de passageiros embarcava e uma nova rodada de bebidas era servida, inclusive aos pilotos, que reparei estarem cada vez mais alegres em nosso caminho até a Bahia.
Eu não fazia ideia de onde ficaria em Salvador. Acompanhei alguns passageiros até uma Kombi para a viagem até a cidade. Decidi que iria aonde eles fossem, já que eles presumivelmente sabiam aonde estavam indo, e eu não.
Parecíamos deslizar à beira de uma praia iluminada pela lua. Grupos de palmeiras altas e barracos ocasionais eram visíveis na beira da praia, onde amantes estavam sentados, abraçados, contemplando o púrpura profundo do oceano. Talvez eu estivesse bêbado, mas foi uma chegada mágica.
A Kombi se sacudiu por uma rua de paralelepípedos até o hotel Palace, na rua Chile. Na manhã seguinte, acordei e o quarto estava escuro. Atravessei o quarto e abri a janela.
Abaixo de mim, vi uma cidade espantosa. Igrejas coloniais, praças repletas de pessoas de todas as cores e, naquele exato momento, surgindo no horizonte de uma ampla e reluzente baía, pequenas velas brancas, primeiro apenas algumas, mas depois aparentemente centenas, vindo lentamente em minha direção para o porto lá embaixo.
Mas isso é nostalgia pelo passado. Passados quase 50 anos, é triste saber que a Kombi agora também está se tornando história".

KENNETH MAXWELL

julho 22, 2013

Unidade na diversidade


"Nos anos 50, numa escapada a Hollywood, Ibrahim Sued entrevistou Edward G. Robinson (1893-1973), astro de clássicos do cinema como "Alma no Lodo" (1931), "Pacto de Sangue"(1944) e "Paixões em Fúria" (1948). Robinson, grande colecionador de pintura e falando duas ou três línguas, era quase um intelectual em comparação com a média dos atores. Isso não o impediu de perguntar a Ibrahim, "Com esse nome, como você pode ser brasileiro?".
Robinson era apenas mais um americano a ver o Brasil como uma espécie de México do sul, com todos os clichês inerentes. Como podia acreditar que aquele sujeito de 1,90 m, olhos claros e com um nome das Arábias fosse brasileiro? Ibrahim, por sua vez, perdeu a chance de perguntar-lhe como alguém chamado Emanuel Goldenberg e nascido na Romênia podia ter se tornado o Edward G. Robinson, que ninguém suspeitaria de não ser americano.
Na verdade, nenhum dos dois sabia que a composição étnica do Brasil era muito mais rica que a dos EUA. E que o próprio Edward G. Robinson talvez tivesse parentes no Brasil -tão brasileiros quanto os de Ibrahim.
O 1,5 milhão de peregrinos no Rio para a Jornada Mundial da Juventude - incluindo chineses, croatas, letões, poloneses, angolanos, suecos, ucranianos e outras 20 nacionalidades - devem estar surpresos com a variedade de origens, cores e compleição dos brasileiros com que estão interagindo. E, principalmente, ao constatar que nenhum grupo parece se sentir "mais brasileiro" do que os outros.
A prova é que, com tanta gente de fora no Rio, as ruas não registraram nenhuma alteração notável no aspecto dos transeuntes. Todo mundo que aqui está poderia, sem esforço, passar por brasileiro. Essa noção de unidade na diversidade talvez se constitua num dos mais belos legados da versão carioca da Jornada Mundial da Juventude.

RUY CASTRO

Nota: Ibrahim Sued criou um estilo próprio e reinventou a forma de abordar os fatos políticos e a vida de pessoas públicas, além de influenciar gerações de profissionais.
Não era um conhecedor do português falado por aqui, nem do lado de lá do Atlântico,  mas criou inúmeras expressões que marcaram época como: De leve, Ademã que eu vou em frente, Bonecas e Deslumbradas, Vagões e Locomotivas,  Cavalo não desce escada, dentre outras...
Na foto com Araci de Almeida.

maio 16, 2013

O melhor


"Era uma época cheia de perigos. Sarampo, caxumba, catapora, bicho do pé. Engolir chiclete era perigoso porque colava nas tripas. Fazer careta era perigoso porque se batesse um vento você ficaria com o rosto deformado pelo resto da vida. Pé descalço em ladrilho: pneumonia. Melancia com leite: morte certa. Banho depois de comer: congestão.
Um dia fizeram uma cabana num terreno baldio. Ainda havia terrenos baldios. A cabana era o mundo secreto deles, da turma. Ganhou um nome: Clube da Sacanagem. Ninguém precisava saber o que acontecia lá dentro. Os cigarros roubados de casa. As revistinhas. Mas a primeira coisa que o menino fez dentro da cabana foi comer melancia com leite e não morrer.
Com o tempo, os perigos mudavam. Desatenção na escola, falta de estudo, notas baixas: fracasso, nenhum futuro, ruína. Sexo sem camisinha: doença, gravidez indesejada, ruína. Amizades perigosas: drogas, dependência, nenhum futuro, ruína, morte.
- E banho depois da comida?
A ironia não era entendida.
- Pode.
O grande amor deixava olhar, mas estabelecera um ponto nas suas coxas do qual era proibido passar. Como o Paralelo 38, que dividia as duas Coreias. E ela era rigorosa. No caso de transgressão, soavam os alarmes e havia o perigo até de intervenção americana.
Mas bom, bom mesmo, era o orgulho de um pião bem lançado, o prazer de abrir um envelope e dar com a figurinha rara que faltava no álbum, o volume voluptuoso de uma bola de gude daquelas boas entre os dedos, o cheiro de terra úmida, o cheiro de caderno novo, o cheiro inesquecível de Vick Vaporub. Mas melhor do que tudo, melhor do que acordar com febre e não precisar ir à aula, melhor até do que fazer xixi em piscina, era passe de calcanhar que dava certo.
É ou não é?"

Luis Fernando Veríssimo

Tão arcaico quanto



"Já reparou que não se vê mais nas ruas gente de mãos nos bolsos? Que são raros os homens que ainda usam as calças acima do umbigo? Que quase ninguém mais usa gravata-borboleta? Que já não se vende paletó com duas calças? Que os colarinhos com barbatanas, assim como o lenço no bolso do paletó, se extinguiram? E que flor na lapela, hoje, é exclusividade da Velha Guarda das escolas de samba em dia de desfile?Ninguém mais carrega o pente no bolso da camisa --aliás, há quanto tempo não se vê um homem se penteando em público? Ninguém mais ouve radinho de pilha --os próprios porteiros o abandonaram. E lápis atrás da orelha também não se vê há muito, nem no caixa das melhores padarias.Por que ninguém mais dá bananas? Não devíamos ter abandonado esse gesto tão expressivo de indignação. Ao mesmo tempo, ninguém mais anda pelas ruas, distraído, chutando tampinhas. Ninguém mais sai do restaurante mascando palito. Ninguém mais usa palito de fósforo para cavoucar o ouvido. Ninguém mais bate carteiras. Ninguém mais bate palmas no portão. E ninguém mais fica encostado no poste, assobiando.Ninguém mais enfeita a geladeira com pinguins de louça. Ninguém mais decora o jardim com estátuas de anões. E ninguém mais usa CD-ROM --quanto a este, os menores de 30 anos não sabem o que é e talvez nunca tenham ouvido falar.Quem diria? Há apenas 15 anos, o CD-ROM (comicamente chamado no Brasil de "CD-rum") era a "ferramenta" que iria absorver, resumir e comportar todo o conhecimento do Universo. Iria substituir as bibliotecas, o livro, o cinema, os museus, a TV e, quem sabe, o cérebro. Quem poderia adivinhar que, em tão pouco tempo, sua glória se extinguiria e ele ficaria tão arcaico quanto os anões de jardim e os pinguins de geladeira".


RUY CASTRO

fevereiro 04, 2013

Outros carnavais

"Numa carta de 1939, endereçada a Sérgio Milliet, Mário de Andrade lembrava, com melancolia e alguma ambiguidade, o ataque cardíaco sofrido por seu pai, em fevereiro de 1917 -uma fatalidade que impediu o escritor de aproveitar a folia carnavalesca. "Quando meu pai ficou doente, eu estava me preparando pra ir num grande baile de Carnaval", contava ele na carta ao amigo. "Minha tia me dera um cetim verde-alface sublime e caríssimo. Eu mesmo desenhei um pierrô miraculoso." O traje já "estava passadinho, num manequim, no meu quarto", quando aconteceu a infelicidade que o impediu de usá-lo.

Mário, que estava com 23 anos quando perdeu o pai, teve tempo para se esbaldar nas loucuras momescas -o que fez, aliás, com satisfação, tanto em São Paulo quanto no Rio. Em 1923, já autor de "Pauliceia Desvairada", jogou-se pela primeira vez na farra carioca e babou, como se pode ver no longo poema "O Carnaval Carioca", daquele mesmo ano.
A descoberta do Carnaval do Rio foi, aliás, um acontecimento vital, mas também conceitual, para os modernistas de São Paulo, que viram na manifestação multicolorida, erótica e miscigenada um índice pujante da brasilidade. No "Manifesto Antropófago", publicado em 1928, Oswald de Andrade, como se sabe, lançou a famosa sentença: "O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça".
Não que fosse desanimada a festa paulistana daqueles tempos. Havia corsos, cordões e bailes de fantasia; a imprensa dava destaque, publicava fotos, notas, crônicas. Havia a diversão da "elite branca", com influências venezianas e europeias, e a festa negra, em seus redutos, onde se tecia o samba paulista.
No mesmo ano de 1923, em que Mário se entregou à "invasão furiosa das sensações" na "pagodeira" inesquecível da Guanabara, a revista "Cigarra" rebatia críticas à suposta "falta de espírito" da festa paulistana, dizendo que era argumento velho e falacioso: "Quer na avenida Paulista, onde o corso esteve brilhantíssimo, quer na avenida Rangel Pestana, para onde toda a população alegre se dirigiu, e em toda parte, o Carnaval não teve diques nem limites", dizia um editorial sobre a festa. Além de tudo isso, e das disputas de "serpentina, confetes e tubos de perfumes", a revista defendia seu argumento lembrando que "nada menos do que cinco clubes carnavalescos saíram à rua com suas alegorias".
Um cronista também contava, em tom farsesco, que até mesmo um "Cordão Literário" teria passado a todo vapor pelo centro da cidade. Segundo o relato, um grupo estava reunido na Redação da revista quando foi surpreendido por "palmas estrepitosas" que vinham da rua. Correram à janela para ver o que se passava e constatou-se que "ali estavam, fantasiadas, as letras paulistanas quase em peso". Do poeta Vicente de Carvalho a Monteiro Lobato, que, segundo a descrição, brincava "fantasiado de si próprio, isto é de Jeca, com chapéu de taquara e cigarrão atrás da orelha"...
Sábado passado, andei pela Vila Madalena. Vi, em galerias, obras que Lobato decerto não gostaria e, pelas ruas, gente fantasiada para brincar com um festejado bloco que só toca música dos Beatles. Não pude deixar de lembrar do refrão de uma música da pernambucana Lulina, em que uma garota paulistana repete, com seu sotaque característico: "Puta meu, tipo a nossa cara!".
MARCOS AUGUSTO GONÇALVES


janeiro 14, 2013

Almanaques


"Vermes do Passado 
Recebo do amigo João Antonio Buhrer, colecionador de lixo gráfico, um exemplar do "Almanaque Brasil" para 1957, que ele deve ter encontrado na gaveta de uma avó (não necessariamente dele) ou pelo qual pagou R$ 1 numa feira de velharias. O "Almanaque Brasil" concorria com o "Almanaque Capivarol" e outros, e era tão revelador quanto. E o que ele revelava? Que, a julgar pelos anúncios, os brasileiros de 1957 -em plenos "anos dourados"- eram uma antologia de mazelas.
Confira pelos remédios. Problemas de rins, bexiga e ácido úrico? Tomava-se o Uredol. Ou o Urolítico. Ou os Comprimidos Diuréticos do Abacateirol. Tremedeira, impaludismo, maleita e sezão? Palutônico era a solução. Disfunções menstruais, tipo escassez ou excesso? Reguladores infalíveis eram o Xavier, o Menstrol, o Eugynol e o Fluxo Sedatina (que avó, mãe e filha, todas deviam usar). E as fraquezas sexuais se combatiam com o Sexuol (só para homens) e o poderoso Uterol, que os cavalheiros deviam evitar.
Azia, má digestão, dores de estômago? Ninguém dispensava a Magnesia Phosphatada -assim mesmo, com essa ortografia pré-cabralina. Gripes, resfriados, dores de cabeça? Usava-se o Transpirol, embora algumas correntes filosóficas, mais ortodoxas, preferissem o Peitoral de Cereja. E não havia caspa que chegasse perto de cabelo, barba e bigode se o cidadão aplicasse Pilogênio.
Alguns medicamentos eram batizados com fascinantes palavras "porte-manteaux", que, de tão criativas e bem construídas, pareciam inventadas por Haroldo de Campos. O Tencrivermil, por exemplo, fulminava oxiúros, lombrigas e solitárias. O Uterovarol dedicava-se à lanternagem do útero e do ovário. O Prisoventril, como é óbvio, à prisão de ventre. E a Panvermina, a vermes e opilação.
Hoje, o Brasil é outro. Os vermes já não se abatem com purgantes".
Ruy Castro

Nota: No Brasil, os almanaques eram distribuídos nas farmácias.
ALMANAQUE BERTRAND
Fundado em 1899,  pela Bertrand Livreiros de Portugal, o Almanaque Bertrand voltou a ser editado. Fui presenteada por um amigo com o de 2012/2013 (foto) .

Estas são capas de algumas edições anteriores. A de 1917 num lindo art-nouveau !!!





janeiro 06, 2013

Instantâneos da história

 As origens do fotojornalismo no Brasil: um olhar sobre O Cruzeiro (1940-1960) -   aqui 

"No final dos anos 1920, com as limitações da indústria gráfica, os jornais raramente traziam aos leitores notícias ilustradas. A fotografia era praticada sob limitações, como o formato das câmeras, as chapas de vidro e o uso necessário de tripés. Os lentos processos de revelação e copiagem eram seguidos pela transposição da imagem para o clichê e pela impressão nos jornais.
O fotógrafo, que operava sob condições precárias - chapas de baixa sensibilidade, iluminação gerada pelo pó de magnésio e, frequentemente, com a câmera apoiada-, raramente obtinha um flagrante. As fotos eram posadas, tirando-lhes o encanto do momento, da espontaneidade.
Na virada da década, o Brasil experimentava um quadro político de transição, às vésperas da Revolução de 1930. A criação de uma publicação com características modernas para a época foi uma sugestão de Getúlio Vargas, ainda presidente do Estado do RS, a José Bertaso. Nascia, assim, em Porto Alegre, em 1929, a "Revista do Globo".
Alguns anos antes, Getúlio, então ministro da Fazenda, em troca de apoio político, havia financiado a iniciativa de Assis Chateaubriand de criar a revista "O Cruzeiro". A imprensa brasileira ganhava uma nova linguagem gráfica, complementando as reportagens, até então, pobremente ilustradas. Nascia, ao mesmo tempo, o fotojornalismo, ferramenta que daria dinâmica ímpar à informação. O fotojornalismo chegou ao Brasil à sombra de uma aventura política que mudou o país. E a ela permaneceria próxima, tão parte do nosso dia a dia.
A grande mostra dessa proximidade estava nas imagens - hoje de grande valor histórico - de um grupo de gaúchos amarrando seus cavalos no obelisco existente na avenida Rio Branco, no Rio. Imagem dinâmica que se seguiu à emblemática fotografia do carro oficial que transportava em seu interior o já ex-presidente Washington Luís para fora do Palácio do Catete, a caminho do exílio.
Em um dos seus primeiros números, na edição de 10 de novembro de 1928, "O Cruzeiro" publicara um anúncio que instituía um prêmio de 500 mil-réis destinado ao fotógrafo, profissional ou amador, que apresentasse o instantâneo inédito de um acontecimento que pudesse ser considerado sensacional pelo assunto e pela técnica de execução.

A partir desse espírito, pela objetiva de fotojornalistas da equipe de "O Cruzeiro", começou a ser ilustrada a história dessa grande aventura brasileira. Pautado pelo chefe de reportagem, lá vai ele, mundo afora, o andarilho dotado de coragem e criatividade: não sabe o que lhe aguarda, prefere mesmo não saber.
Hoje numa cidade moderna, ontem no sertão, antes numa tribo de índios, com os xavantes, por exemplo, fotografados pela primeira vez, frente a frente, por José Medeiros. Ou com os ianomâmis, que hospedaram o fotógrafo por 40 dias, numa aldeia de onde ficou impossível sair pela força das águas numa cheia de um rio.
Um dia, sem comida, entrou em confronto com o colega Arlindo Silva, velhos amigos, os dois armados, pela disputa de uma coxa de macaco. Fome faz dessas. Depois, riram muito e dividiram a pouca carne. Ou fechado numa camarinha, como nos 15 dias em que Medeiros acompanhou a iniciação de iaôs, as filhas de santo, na Bahia. Ou fotografando estoicamente o colega José Leal ser surrado pela polícia, em Pernambuco, a mando de um chefe de polícia cuja mulher foi delatada pelo jornalista, nas páginas de "O Cruzeiro", por ostentar joias roubadas.
Na Assembleia Legislativa de Alagoas, José Medeiros estranhou que, numa tarde de sol e imenso calor, vários deputados entrassem na casa com pesadas capas de chuva: as metralhadoras só foram reveladas quando o tiroteio começou. Orlando Villas-Bôas estranhou um grupo de índios xavantes cantando de forma diferente do habitual. Foi na direção da cantoria e se deparou com José Medeiros deitado numa rede, cercado de uns dez índios, a quem ensinava a letra de "Nature Boy".
Por aí afora, as aventuras de uns e outros foram se sucedendo. Contar todas é impossível. Eugênio Silva, do bureau de MG, exercia suas folgas pescando no rio das Velhas e devolvendo às águas os peixes que fisgava. Acompanhou Guimarães Rosa, a cavalo, para documentar as andanças do escritor pelos "grandes sertões veredas". Ficaram grandes amigos, e Eugênio chorou a morte do acadêmico, três dias depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras.
Indalécio Wanderley, especialista em concursos de misses, propôs casamento a uma candidata desde que ela abandonasse a disputa. Casaram-se e tiveram filhos.
Luciano Carneiro veio para o Rio pilotando um teco-teco, tirou brevê de paraquedista com Charles Astor e partiu para o aventureirismo que a fotografia brasileira esperava. Foi procurar, África adentro, o dr. Schweitzer, médico que mantinha uma colônia de leprosos em Lambarene. De lá, trouxe magistral documentário, operado com câmera Leica, em preto e branco, fotos feitas com a luz ambiente.
Viajou para a Coreia para cobrir a guerra. Para convencer um coronel que poderia saltar com as tropas americanas -por sugestão do militar-, Luciano subiu numa mesa e mostrou como se jogar no espaço. Foi aprovado, saltou, fotografou durante o tempo em que esteve solto no espaço. Foi à frente de batalha e voltou para o Rio, são e salvo. Morreu num acidente como passageiro de voo comercial, voltando de Brasília, onde fora fotografar um desfile de debutantes.
Henri Ballot, que trabalhava no escritório da revista em São Paulo, fazendo dupla com Jorge Ferreira, era dotado de grande coragem. Acompanhando Orlando Villas-Bôas, legou ao arquivo da revista os melhores momentos de um Brasil central sendo descoberto. Na juventude, foi membro da Força Aérea da França Livre, braço de pilotos franceses da RAF, a Força Aérea Real, da Inglaterra.
Ballot voava num Spitfire quando foi abatido sobre a Alemanha. Levado para um hospital americano, foi pela mão de uma enfermeira que tomou contato com a sua primeira câmera fotográfica. Saiu da convalescença, meses depois, já fotógrafo. Depois, trouxe para a aventura fotojornalística a mesma coragem de piloto de guerra. [...]

A revista trazia em seu trajeto uma série de assuntos nunca bem explicados -Jean Manzon, autor de fotos posadas; verdades somadas a meias verdades, estas assinadas por David Nasser- e que comprometiam o que era esperado de uma publicação que havia conquistado alto grau de credibilidade junto ao público de todo o país.
Luiz Carlos Barreto, junto com Indalécio Wanderley, jovens cearenses, começaram na redação da revista "A Cigarra", editada pela Empresa Gráfica O Cruzeiro. Tinham a ideia de formar uma dupla, Indalécio, fotógrafo amador, e Barreto, recém-saído das fileiras da Polícia do Exército.
A convivência nos corredores da redação os levou para as páginas da grande revista. Finalmente integrados na equipe de "O Cruzeiro", cada um foi para o seu lado, amadurecidos para o dia a dia que a pauta da redação determinava.
Numa viagem à França, Barreto acompanhou Chateaubriand a Cannes para um almoço oferecido a grandes nomes da imprensa internacional pela proprietária do Grupo Life-Time, Clare Boothe Luce. Como Chatô dormia a qualquer momento, em qualquer lugar e a qualquer hora, pediu que o fotógrafo, dispensado de fotografar, sentasse à mesa, à sua frente, para acordá-lo caso fosse tomado pelo infalível sono.
"Seu Barreto", Chatô nos tratava a todos desta forma cordial, "essa americana é uma chata, fala demais, vou ter que sentar ao lado dela. Se eu dormir, cutuque a minha canela para me acordar." Dito e feito, no decorrer do almoço, Chatô dormiu e acordou várias vezes, resultado da prosaica ação praticada por Barreto.
No Rio, ao voltar, Leão Gondim ouviu do grande chefe a reclamação de que Barreto poderia ter sido "mais delicado", mostrando a canela marcada pelas cicatrizes deixadas pela boa ação praticada pelo jovem repórter.
Indalécio ocupou-se em fotografar para capas de "O Cruzeiro", em especial a cantora Dóris Monteiro, à época mais um caso amoroso de Assis Chateaubriand.

Mário de Moraes teve sua aventura internacional no México, em 1956, ao tentar entrevistar o assassino do ex-comissário soviético Leon Trotsky, o "profeta armado da Revolução Russa de 1917", tarefa até então tida como impossível, já que ele, conhecido como Jacques Monard, nunca havia dado entrevista. Quando um repórter insistia, ele ficava furioso, tendo até agredido alguns jornalistas. Na penitenciária mexicana onde Monard se encontrava, Mário de Moraes conseguiu uma entrevista com o diretor-geral. Disse que estava fazendo uma reportagem para "O Cruzeiro" sobre o sistema penitenciário mexicano, tido como um exemplo mundial em organização:
"Levou-me a conhecer o estabelecimento, e, na visita, acabamos nas oficinas, onde Monard trabalhava, e fomos apresentados. Não lhe dei a menor importância, já que isso fazia parte do meu plano. Conversamos um pouco, até que, levado por uma vaidade mórbida, o assassino de Trotsky me indagou se eu sabia quem era ele, disse que não, e ele foi contundente:
"- Sou Jacques Monard, o assassino de Leon Trotsky.
"Eu chegara aonde queria, fui arrancando-lhe informações, e Monard foi claro, matara Trotsky porque ficara desiludido com ele. A história provou que isso era falso: Monard conseguira aproximar-se de Trotsky por meio de uma secretária do ex-comissário soviético, e, cumprindo ordens (possivelmente de Stálin), matou-o com uma picareta de alpinista, que levara escondida debaixo de seu sobretudo. Quando percebi que já tinha o suficiente para dar um "furo" internacional, contei a Monard que era jornalista. Ele ficou a ponto de me atacar, mas terminou aceitando o fato, afinal reconheceu que revelara para mim o que não havia dito e nenhum outro jornalista. Poucas fotos foram discretamente feitas, a meu pedido, com a minha Leica, por um funcionário da penitenciária."
Jacques Monard chamava-se realmente Ramón Mercader e era agente da polícia secreta de Stálin. Ele fora condenado a 20 anos de prisão no México. Quando saiu da cadeia, foi para a União Soviética, mas faleceu em Cuba.
Ubiratan de Lemos era um repórter investigativo e foi dos poucos que nunca se arvorou a fotografar. Mário de Moraes, também redator, fotografava. Numa época em que o bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, era o reduto/destino de retirantes vindos do Nordeste, viajando, penosamente, em caminhões apelidados de pau de arara, os dois voaram para Fortaleza e, de lá, acompanharam uma leva de gente que vinha buscar uma nova oportunidade de vida no sul. A matéria - com fotos de forte dramaticidade - foi publicada com grande destaque em seis páginas. Deu à dupla de repórteres o primeiro Prêmio Esso de Reportagem, instituído naquele ano".
FLÁVIO DAMM

Nota : Trecho do depoimento de um pioneiro do fotojornalismo brasileiro sobre sua experiência na revista "O Cruzeiro", que circulou de 1928 a 1975 e é tema da exposição no Instituto Moreira Salles em São Paulo (rua Piauí, 844), até 31/3, e do livro que o IMS lança neste mês.

dezembro 30, 2012

Sem pedras no caminho


"Carlos Drummond de Andrade ("o maior poeta que o Brasil já teve", na opinião de Manuel Bandeira) recebe aquele estudantezinho atrevido que, de saída, lhe pergunta, sem a menor cerimônia, já amigo de "tu":

- Onde nasceste? 

A vontade de Drummond seria responder: "Em Itabiriste". Mas contém e fica à espera. O menino, decididamente da extrema esquerda, quer que todos assumam posição no mundo de hoje. E pergunta:

- Drummond, qual é a posição de escritor nos dias que vivemos?

Este não hesita e dispara:

- A posição de escritor pode ser de pé, sentada ou deitada, conforme lhe resulte mais cômodo. 

E, diante do espanto do menino, aconselha:

- Menino, se você não é comunista, vá sendo logo, que é para deixar de ser depressa. Eu também já fui e deixei.

[...]

Nota : Leia AQUI a deliciosa entrevista com Carlos Drumond de Andrade,  conduzida por Pedro Bloch, publicada originalmente na revista Manchete, nº 582 de 15/06/1963 E  MAIS
( erotismo - poesia e psicanálise em entrevista inédita)

novembro 30, 2012

Nouvelle Cuisine





Conjunto paulista que começou a aparecer na mídia em 1987, o Nouvelle Cuisine, fazia shows em casas de espetáculo no Rio e em Sampa. Seus componentes na época eram Guga Stroeter (vibrafone e bateria), Flávio Mancini Jr. (contrabaixo), Carlos Fernando (voz), Luca Reale (piano e clarineta) e Maurício Tagliari (guitarra). No repertório, versões em formato "jazz acústico" de standards dos anos 30 a 50, de autores como Duke Ellington, George e Ira Gershwin, Rodgers & Hart, Charles Mingus, Tom Waits e outros conquistaram a crítica. Em 1988 veio o primeiro disco, "Nouvelle Cuisine", incluindo "My Funny Valentine", "Embreceable You" e outros: 
1. Embraceable you (Ira Gershwin - George Gershwin)
2.  Blues in the night (Harold Arlen - Johnny Mercer)
3. Riquixá (Pousse-pousse)-  Fernando Cembranelli - Guga Stroeter - Luca Reale)
4.    So long Frank Lloyd Wright (Paul Simon)
5.    My funny valentine (Richard Rodgers - Lorenz Hart)
6.  Lullaby of birdland (George Shearing - George David Weiss)
7.  My one and only (Ira Gershwin - George Gershwin)
8.   St. Louis blues (William Christopher Handy)
9. Day dream (Billy Strayhorn - Duke Ellington - John La Touche)
10.   Chelsea bridge (Billy Strayhorn)

Estas são do terceiro álbum, "Novelhonovo" em que apresentou repertório brasileiro: Ismael Silva, Dona Ivone Lara, Chico Buarque e Gilberto Gil. A faixa "Stormy Weather" foi a unica a registrar a época dos grandes nomes do jazz : 







Nota: Leia aqui sobre o Nouvelle Cuisine

novembro 28, 2012

TELEVISÃO DE PAPEL


"Em livro a fase de ouro de "O Cruzeiro", publicação pioneira no Brasil dedicada a fazer toda semana um retrato ilustrado do país e de seu povo. Foi nos anos 40 e, principalmente, nos efervescentes anos 50 do século passado que o Brasil ganhou uma real identidade nacional, baseada em projetos ufanistas e mobilizações populares. A Marcha para o Oeste, que Getúlio Vargas empreendeu
para preencher as imensas áreas desocupadas no interior, fez surgir dezenas de pistas de pouso, vilas e cidades e promoveu o contato com tribos indígenas desconhecidas.
Juscelino Kubitschek implantou a indústria automobilística e começou a construir Brasília e a fiscalizar a obra – tantas vezes embarcou num avião que ganhou o apelido de “presidente voador”. No Rio de Janeiro, os concursos de Miss Brasil, a partir de 1954, despertavam comoção nacional e o desempenho da representante brasileira no Miss Universo tinha ares de final de Copa do Mundo.
As imagens desse tempo em que os acontecimentos ganhavam contornos épicos chegaram pela primeira vez a todos os cantos do país nas páginas da revista O Cruzeiro, do empresário da comunicação Assis Chateaubriand, a pioneira na cobertura e na distribuição nacional de notícias. A população pôde enfim incorporar ao seu dia a dia elementos que lhe eram distantes, de guerras e revoluções à vida dos astros de Hollywood. Tudo isso na forma de fotografias caprichadas – esta, a chave do sucesso de O Cruzeiro".
Fábio Campana

Rita Hayworth




julho 12, 2012

Vizinhos


"Parece que é "chique" a pessoa dizer que mora há anos num lugar e não conhece nenhum vizinho. Que triste, digo eu.
Há 50 anos, mudei de casa e minha filha era pequena. Minha mãe se deu ao trabalho de dar a volta no quarteirão batendo de porta em porta para ver se tinha criança da idade da Gabi. Eu que não ia viver em um lugar onde minha filha ficasse isolada...
Na minha infância, o muro entre as casas não afastava, era um ponto de encontro. A calçada da frente era para brincar de amarelinha, jogar pedrinha e trocar novidades.
Relações de vizinhança eram alimento da vida. Ninguém tinha medo de ser invadido, o código de conduta era interiorizado por todos.
Conversar era conversar, mas assunto algum invadia o horário das refeições. Isso não era dito, era da natureza das relações, que precisavam ser protegidas, pois vizinhos eram vizinhos por muito tempo. Não tinha isso de ficar mudando de casa. A vizinhança era uma grande família.
Na década de 50, quando apareceu em nossa vida o aparelho de TV, algumas coisas começaram a mudar. Surgiu o televizinho, que também não aparecia em horário de refeição. O horário da família era sagrado. Logo a TV conseguiu vaga na vida de quase todos, tirando das calçadas as crianças e os adultos que papeavam nas portas.
Daí a se orgulhar de não conhecer ninguém é quase um salto para um vazio afetivo.
Receitas, conselhos e palpites atravessavam as fronteiras das casas, antigamente. Conheciam-se as fraquezas dos filhos, a infidelidade de maridos... Mas esses assuntos não eram verbalizados.
A intimidade era respeitada, pois, quando isso não acontece, as relações se ressentem. É sempre melhor falar sobre a minha goiabeira que ainda não deu flor quando a sua já deu do que arriscar o bem viver por uma fofoca.
Esse código de conduta vinha testado e era levado a sério. As relações de vizinhança mantinham-se por vidas. Pouco se perguntava, quase nada se palpitava e o que se percebia ficava com a gente: não era falado nem na frente nem pelas costas.
Hoje, isso virou fumaça.
Relações entre vizinhos são efêmeras como os endereços, neste mundo onde predomina a mobilidade. Mudamos de bairro, de país, como se nada houvera. Se é bom, se é ruim, não sei. Tudo apenas está diferente.
Lembrar do passado não é obrigatoriamente querê-lo de volta. A memória nem sempre serve ao saudosismo. No caso da vizinhança, ela foi importante no tempo em que comunicações interpessoais tinham limites estreitos. Não havia internet, Skype ou telefone celular -o fixo era raro e caro. O telegrama era o último recurso para comunicar urgência e emergência".

ANNA VERONICA MAUTNER é psicanalista

julho 11, 2012

Conexão francesa



"A atriz Anna Karina está chegando ao Brasil para um festival de cinema em Brasília. Em outros tempos, 1965, 1966, a notícia de sua presença em espaço aéreo brasileiro bastaria para acelerar os corações em todos os cinemas de arte, botequins e Redações cariocas. Anna não era bonita, nem precisava -era mulher de Jean-Luc Godard, estrela de seus filmes, musa da nouvelle vague e capa quase cativa da revista "Cahiers du Cinéma".
Com Godard, Karina filmou, entre outros, "Uma Mulher é Uma Mulher" (1961), "Viver a Vida" (1962) e "Pierrot le Fou" (1965). Tinha de dividir a tela com os pôsteres, letreiros, capas de livros e outras bossas que Godard inseria em suas cenas. Mas, às vezes, ele a deixava em close por cinco minutos ouvindo "Tu T'laisses Aller" num jukebox, com Aznavour, em "Uma Mulher é Uma Mulher", 
ou o conto "O Retrato Oval", de Poe, com a voz dele, Godard, em "Viver a Vida". Éramos loucos por aqueles filmes, não havia nada mais moderno.
Então as coisas se inverteram. O cinema brasileiro foi descoberto pela "Cahiers" e começou a ganhar palmas, ursos e leões de ouro nos festivais europeus. Nossos cineastas e atores iam a Roma, Paris e Cannes como quem ia a Madureira e ficaram íntimos de Rossellini, Buñuel, Antonioni. Alguns até namoraram as atrizes dos mestres.
Em certo momento, virou tudo uma coisa só: o Quartier Latin, Ipanema, fumar Gitanes sem filtro, ir ao Paissandu. Um crítico brasileiro nunca mais tomou banho. Culminou quando uma revista publicou fotos de Glauber Rocha e Godard batendo bola num campinho em Roma. Glauber chutava e Godard defendia.
Foi bom, mas durou pouco. A nouvelle vague acabou, e o cinema novo, também. Duas gerações se passaram. Anna Karina ameaça ser confundida em Brasília com Greta Garbo e lhe perguntarem se ela veio do cinema mudo".
RUY CASTRO

Nota: Nascida na Dinamarca, em 1940, Ana Karina estudou dança e pintura mas foi cantando em cabarés e trabalhando como modelo que  começou sua carreira . Chegou em Paris em 1958, com 17 anos, sem saber falar francês e sem dinheiro! Em certo dia, foi abordada por uma mulher  que a pediu para fazer algumas fotos. Era de uma agência. Trabalhou para Pierre Cardin e Coco Chanel. Além de cinema,  fez teatro e cantava. A bela ainda escreveu tres livros! 
Letra de Tu t' laisses aller

julho 04, 2012

Era uma vez no sertão...



Em seu livro  Gastronomia Sertaneja Ana Rita Suassuna descreve sobre a comida("o cuscuz é o pão na mesa do sertanejo") e sua experiência no sertão. No livro ela reune parte das receitas que não tinham registros formais e eram transmitidas pela oralidade.
Com prefácio do escritor Ariano Suassuna, de quem é prima, Ana Rita que é irmã de seis, mãe de três, avó de sete, é mais estudiosa do que cozinheira, embora vá à cozinha, vez ou outra, para fazer os pratos do sertão. 
Nascida na Paraíba, cresceu numa fazenda na região do Vale do Pajeú, no sertão de Pernambuco. A distância para a Recife tinha como medida "um dia de trem, depois pegava ônibus e ainda andava duas horas a cavalo".Foi ali, onde se plantava algodão e culturas de subsistência, que ela cresceu embrenhada na vida dos sertanejos, no colher, no fazer, no poupar. "A preocupação com a seca era uma coisa tão inerente ao dia a dia que ninguém desperdiçava nada." Lembra o lema do seu pai: "Quem não guarda quando tem não tem quando precisa". 
Naquelas terras, em que viveu até os dez anos, quando foi estudar em Recife, plantava-se milho e feijão. O milho era armazenado na espiga, num cantinho da casa, enquanto os grãos das melhores espigas eram guardados debulhados em potes de barro ou em latas bem tampadas, lacradas com cera de abelha, resina de planta ou sebo de carneiro, para usar na plantação do inverno seguinte. 
Tinha ainda: o feijão-de-corda e o feijão de arrancar ("um pezinho pequeno, um arbustinho que fica cheio de vagem") e tinha o que se plantava nas vazantes,( "a parte úmida junto de qualquer reservatório de água"), batata, jerimum, melancia, melão... 
Ana Rita que não mexe em fogão moderno, ensina que no sertão quase tudo era feito no fogo baixo ("apura o sabor"). "Como fazia fogo baixo no fogão a lenha? A gente afastava as brasas com um ciscador." 
Como toda menina sertaneja, ela brincava de cozinhar : "Era dentro da minha casa, num terraço grande. Meu pai fez uma casinha de vara, coberta de palha, onde tinha as trempes" (aro de ferro com três pés, no qual se apoia panela sobre o fogo)*.O 'cozinhado' só podia ocorrer na fartura*. "A gente ia pro roçado ou para a despensa da casa para tirar as coisas, arroz, feijão, o que fosse, e levava tudo para a casinha. Todo mundo fazia o que sabia. Saía comida de todo jeito, mas o que saísse todos eram obrigados a comer." 
E o café no sertão nordestino? “Conhece café com rapadura? Já ouviu falar de café cabeludo?” "E café de pedra? Você aquecia pedras lisas e redondas, as deixava em brasa, aí botava o pó e despejava a água fria em cima. Era para quem tava no mato" 


Nota: * as 'trempes'onde se brincava de cozinhado, às vezes, eram feitas simplesmente com tres pedras. A expressão 'na fartura' se refere aos períodos em que não havia seca. 

junho 24, 2012

Crônicas

"Tirei hoje do fundo da gaveta, onde jazia a minha pena de cronista. A coitadinha estava com um ar triste, e pareceu-me vê-la articular por entre os bicos, uma tímida exprobração. Em roda do pescoço enrolavam-se uns fios tenuíssimos, obra dessas Penélopes que andam pelos tetos das casas e desvãos inferiores dos móveis. Limpei-a, acariciei-a, e, como o Abencerragem* ao seu cavalo, disse-lhe algumas palavras de animação para a viagem que tínhamos de fazer. Ela, como pena obediente, voltou-se na direção do aparelho de escrita, ou, como diria o tolo de Bergerac, do receptáculo dos instrumentos da imoralidade. Compreendi o gesto mudo da coitadinha, e passei a cortar as tiras de papel, fazendo ao mesmo tempo as seguintes reflexões, que ela parecia escutar com religiosa atenção:

Vamos lá; que tens aprendido desde que te encafuei entre os meus esboços de prosa e de verso? Necessito mais que nunca de ti; vê se me dispensas as tuas melhores idéias e as tuas mais bonitas palavras; vais escrever nas páginas do Futuro. Olha para que te guardei! Antes de começarmos o nosso trabalho, ouve amiga minha, alguns conselhos de quem te preza e não te quer ver enxovalhada . . . Não te envolvas em polêmicas de nenhum gênero, nem políticas, nem literárias, nem quaisquer outras; de outro modo verás que passas de honrada a desonesta, de modesta a pretensiosa, e em um abrir e fechar de olhos perdes o que tinhas e o que eu te fiz ganhar. O pugilato das idéias é muito pior que o das ruas; tu és franzina, retrai-te e fecha-te no círculo dos teus deveres, quando couber a tua vez de escrever crônicas. Seja entusiasta para o gênio, cordial para o talento, desdenhosa para a nulidade, justiceira sempre, tudo isso com aquelas meias-tintas tão necessárias aos melhores efeitos da pintura. Comenta os fatos com reserva, louva ou censura, como te ditar a consciência, sem cair na exageração dos extremos. E assim viverás honrada e feliz.
.....
Passo às letras e às artes".
Machado de Assis  

Nota: Publicado originalmente em O Futuro , Rio de Janeiro, em  15/09/ 1862 . Continue a ler AQUI
abencerragem do francês ¨abencérage¨ que deriva do árabe -  aben-as-sarraj ¨ ( ¨ o filho do seleiro¨ )