Mostrando postagens com marcador Maria Rita Kehl. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maria Rita Kehl. Mostrar todas as postagens

março 27, 2013

A verdade e o recalque

"Hoje se comemora o Dia Internacional do Direito à Verdade. A data foi escolhida pela ONU em dezembro de 2010 para lembrar o assassinato do defensor de direitos humanos em El Salvador, monsenhor Oscar Romero, em 24 de março de 1980. A relação estabelecida pela resolução da ONU entre dignidade humana e direito à verdade fez com que a Comissão Nacional da Verdade (CNV) decidisse comemorá-la nas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro.
"A verdade liberta", proclamou ao telefone meu amigo, o psicoterapeuta Nelson Motta Mello, ao saudar a formação da CNV, em maio de 2012. Poupo o leitor do debate sobre o estatuto ontológico da verdade, que nem Cristo (nem Lacan) respondeu a contento.
Se não nos é possível estabelecer com precisão o que é a verdade, não há dificuldade em entender os efeitos da sua falta -ou da sua interdição- tanto na vida psíquica quanto na dinâmica social. A psicanálise freudiana poderia ser entendida, "lato sensu", como uma metapsicologia do direito à verdade psíquica.
Foi no final do século 19, quando a moral da nova classe emergente na Europa impunha o silêncio sobre as representações da vida sexual, que Freud anunciou sua hipótese a respeito do sofrimento histérico: "A histérica sofre de reminiscências". As enigmáticas crises de conversão das histéricas não passavam, para o inventor da psicanálise, de tentativas de dizer com o corpo verdades que estavam impedidas de recordar em pensamento e anunciar na fala.
O discurso corporal da histeria é composto de fragmentos recalcados de lembranças e/ou fantasias sexuais interditadas, que buscam expressão através do sintoma. Aos poucos, Freud compreendeu que o estatuto da "verdade" de suas pacientes histéricas nem sempre correspondia ao senso comum: o que o tratamento psicanalítico revela são fragmentos da verdade psíquica, cujas conexões com os fatos objetivos da vida passam por caminhos singulares e tortuosos.
É que o recalcado só pode chegar à consciência através das formações secundárias, que deformam a marca primordial do vivido (inacessível ao próprio sujeito) para se adequar às formas corriqueiras da linguagem. Apesar das dificuldades de interpretação e das limitações da técnica nos primórdios da psicanálise, a possibilidade de expressar a fantasia recalcada revelou que a verdade psíquica é capaz de libertar o neurótico das repetições sintomáticas.
Em 1914 Freud estabeleceu, em "Recordar, Repetir, Elaborar", uma importante relação entre o esquecimento promovido pelo recalque e a repetição do sintoma neurótico: a compulsão à repetição seria a maneira enviesada que o neurótico encontra para tentar trazer à consciência uma cena, uma fantasia ou um pensamento, recalcado.
O sintoma seria movido pela compulsão à repetição de um trauma e/ou de um gozo interditado, a cumprir duas funções antagônicas, a de promover um retorno em ato do que foi esquecido e permitir, ao mesmo tempo, um simulacro do prazer proibido. Ao dar vazão ao recalcado, os sintomas constituem o "modo de recordar" encontrado pelo neurótico. Contra a dobradinha patológica esquecimento/sintoma, Freud propôs a elaboração do trauma.
Tal necessidade de elaboração pode ser observada tanto nas modalidades individuais de retorno do sofrimento psíquico individual quanto nas repetições de fatos violentos e traumáticos que marcam as sociedades governadas com base na supressão da experiência histórica.
Todos os Estados totalitários se apoiam na supressão do direito à informação. Só assim conseguem silenciar, pelo menos por um tempo, a propagação das violações, dos abusos, das violências contra o cidadão praticadas em "nome da ordem", a revelar que na vida social não há direito perdido que não tenha sido usurpado por alguém. Falta de liberdades, de direitos e de acesso à informação são elementos fundamentais na consolidação do terrorismo de Estado.
Se o estabelecimento da verdade histórica, nas democracias, está sujeito a permanente debate, o direito de acesso a ela deve ser incontestável. A garantia do direito à verdade opõe-se à imposição de uma versão monolítica, característica dos regimes autoritários de todos os matizes. Ela exige a restauração da memória social, estabelecida no debate cotidiano e sempre exposta a reformulações, a depender das novas evidências trazidas à luz por ativistas políticos e pesquisadores.
Este é o estatuto da verdade buscada pela CNV: além da revelação objetiva dos crimes praticados por agentes do Estado contra militantes políticos, estudantes, camponeses, indígenas, jornalistas, professores, cientistas, artistas e tantos outros -cuja prova está documentada em arquivos públicos, muitos deles considerados ultrassecretos-, o relatório final produzido pela comissão pode restaurar um importante capítulo da experiência política brasileira.
A verdade social não é ponto de chegada, é processo. Sua elaboração depende do acesso a informações, mesmo as mais tenebrosas, mesmo aquelas capazes de desestabilizar o poder e que, por isso, se convencionou que deveriam ser mantidas em segredo. Se o reconhecimento dos fatos que um dia se tentou apagar não costuma trazer boas notícias, em contrapartida a supressão da verdade histórica produz sintomas sociais gravíssimos -a começar pela repetição patológica de erros e crimes passados.
Melhor encarar as velhas más notícias e transformar a vivência bruta em experiência coletiva, no sentido proposto por Walter Benjamin. Para isso é preciso construir uma narrativa forte e bem fundamentada, capaz de transformar os restos traumáticos da vivência do período ditatorial em experiência coletiva. "Para que se (re)conheça, para que nunca mais aconteça."
Freud poderia ter lido Marx a respeito das repetições farsescas dos capítulos mal resolvidos da história. Se o sintoma neurótico é a verdade recalcada que retorna como uma espécie de charada que o sujeito não decifra, o mesmo vale para os sintomas sociais. O Brasil ainda sofre com os efeitos da falta de acesso à verdade dos períodos vergonhosos de sua história, desde a escravidão até a ditadura militar. O modo como a ditadura negociou sua dissolução com a sociedade brasileira -uma negociação entre quem tinha as armas na mão e quem até então estivera sob a mira delas- funcionou como um verdadeiro convite ao esquecimento.
O apagamento rápido (e forçado) dos crimes da ditadura lembra os efeitos perversos do esquecimento dos crimes da escravidão. No segundo caso, a falta de reconhecimento do estatuto criminoso de três séculos de escravidão impediu a promoção de políticas de reparação às populações afrodescendentes recém-libertas do cativeiro. Os sintomas do esquecimento estão aí até hoje, na perpetuação muitas vezes impune do trabalho escravo em fábricas e fazendas, a lembrar a advertência de Nabuco de que a prática continuada da escravidão perverteria a elite brasileira.
Não é absurdo pensar que o Brasil, país do esquecimento fácil, do perdão concedido antes por covardia e complacência do que por efeito de rigorosas negociações, seja um país incapaz de superar sua violência social originária. Os sintomas da brutalidade consentida ressurgem nas execuções policiais que vitimam jovens nas periferias de São Paulo, nas favelas do Rio e em todas as outras grandes cidades brasileiras. Ressurge nos assassinatos de defensores da floresta e pequenos agricultores, por jagunços e policiais a mando de grandes grileiros de terras.
E se repete como farsa em episódios recentes, como o da bomba lançada no dia 7 contra a sede da OAB do Rio de Janeiro, acompanhada das mesmas ameaças sinistras com que agentes da repressão tentaram intimidar os que articulavam, na década de 1980, a volta do Estado de Direito. Ou nas acusações de militares da reserva contra investigações conduzidas pela CNV, como se fosse o trabalho da comissão, e não os abusos cometidos no passado, o que mancha a imagem das Forças Armadas.
Ou ainda em artigos como os de Contardo Calligaris, colunista da Folha, que conjeturou sobre a suposta conveniência de torturar alguém, sem levar em consideração que a comunidade internacional já decidiu que a tortura é crime de lesa-humanidade.
Só a arte nomeia os crimes silenciados no Brasil. As instalações de Cildo Meireles e Nuno Ramos. O teatro da Companhia do Latão, d'Opovoempé e outros grupos corajosos. O rap de Mano Brown e outros manos; faixas dos últimos CDs de Caetano Veloso e de Chico Buarque. Os filmes de Sérgio Bianchi, Rubens Rewald e, recentemente, do pernambucano Kleber Mendonça Filho.
Muitos comentários elogiosos a "O Som ao Redor" se referiram ao contato inevitável que a vida urbana promove com os ruídos emitidos pelos vizinhos, que nem as muralhas protetoras dos grandes condomínios conseguem isolar. Sim, os barulhos inconvenientes da vida na cidade geram tensão e desconforto num filme de enredo aparentemente banal.
Mas essa não é a razão da grandeza do filme, que a crítica foi unânime em elogiar. Poucos críticos compreenderam o tema do retorno do recalcado, revelado na cena final, em que os dois seguranças da rua são chamados cordialmente pelo patriarca para executar um desafeto na fazenda -à antiga maneira dos senhores de engenho- e, na contramão da lógica da dominação cordial, revelam ter vindo cobrar o antigo assassinato de seu pai ("por causa de uma cerca...").
A última cena ilumina as razões da inclusão de uma foto de representantes das ligas camponesas, organizada nas décadas de 50 e 60 e dizimadas pela ditadura, inserida entre as imagens que compõem a abertura do filme. No último segundo do filme, um estampido forte -foi tiro ou o rojão da moça insone contra o cachorro do vizinho?- vem revelar a verdadeira natureza do incômodo som ao redor, metáfora de velhas brutalidades, jamais elaboradas ou reparadas, que estão na origem da história da luta pela terra e na base do eterno poder do mais forte no Brasil".
MARIA RITA KEHL  (24.03)

março 17, 2012

Freud explica - Luto e Melancolia

"Uma das inovações de Freud encontra-se na sua maneira de repensar as relações entre normalidade e patologia. Freud dizia que um cristal, quando se quebra, respeita os sulcos que existiam antes, mas que eram invisíveis ao olho humano. Assim, se quisermos entender a estrutura do cristal, devemos partir de seu estado quebrado.
Da mesma forma, se quisermos entender a estrutura da normalidade, devemos partir deste no qual a normalidade se quebra. Nada do que é patológico nos é estranho, pois ele diz em voz alta o que sentimos em silêncio.
Poucos são os textos de Freud em que vemos esse pressuposto em operação com tanta radicalidade quanto em "Luto e Melancolia".
A nova edição da tradução (a primeira digna desse nome em língua portuguesa) de Marilene Carone (1942-1987), traz dois belos estudos escritos por Maria Rita Kehl* e Urania Tourinho, além de uma introdução à tradução.
Um dos méritos do texto está em sua capacidade de inserir a etiologia da melancolia no interior de uma reflexão mais ampla sobre as relações amorosas.
Freud sabe que o amor não é apenas o nome que damos para uma escolha afetiva de objeto. Ele é a base dos processos de formação da identidade subjetiva. Esta é uma maneira de dizer que as verdadeiras relações amorosas colocam em circulação dinâmicas de formação da identidade, já que tais relações fornecem o modelo elementar de laços sociais capazes de socializar o desejo.
Isto talvez explique por que Freud aproxima luto e melancolia a fim de lembrar que se tratam de duas modalidades de perda de objeto amado.
Um objeto de amor foi perdido e nada parece poder substituí-lo. No entanto, o melancólico mostraria algo ausente no luto: o rebaixamento brutal do sentimento de autoestima. Como se, na melancolia, uma parte do Eu se voltasse contra si próprio, através de autorrecriminações e acusações.
A tese fundamental de Freud consiste em dizer que ocorreu, na verdade, uma identificação do Eu com o objeto abandonado de amor.
Tudo se passa como se a sombra desse objeto fosse internalizada, como se a melancolia fosse a continuação desesperada de um amor que não pode lidar com a situação da perda.
Incapacidade vinda do fato de a perda do objeto que amo colocar em questão o próprio fundamento da minha identidade. Mais fácil mostrar que a voz do objeto ainda permanece em mim, isto através da autoacusação patológica contra aquilo que, em mim, parece ter fracassado.
Essa é uma maneira de dizer que a melancolia é o cristal quebrado que nos mostra a natureza radicalmente relacional de nossas identidades. Conhecer tal natureza sempre foi a melhor forma de lidar com seus desafios.
VLADIMIR SAFATLE
*

setembro 04, 2011

Flânerie bipolar


*
"O PLANETA MELANCHOLIA não é o Sol negro do poema de Nerval. É uma Lua incansável, cuja órbita desgovernada a aproxima da Terra indefesa até provocar uma colisão devastadora. 
O filme de Lars von Trier mistura ficção científica com parábola moral, sofisticada e um tanto ingênua, como convém ao gênero. A destruição do mundo pela melancolia é precedida de um longo comentário sobre a perda de sentido da vida, pelo menos entre os habitantes da sociedade que Trier critica desde "Dançando no Escuro" (2000) e cujo imaginário o cineasta dinamarquês, confiante em seu método paranoico-crítico, conhece pelo cinema sem jamais ter pisado lá: os EUA.
Ao longo do filme, Trier semeia indicações de sua familiaridade com a história da melancolia no Ocidente. O cineasta, que se fez "persona non grata" em Cannes com provocações descabidas em defesa de Hitler, mostrou compreender a posição do melancólico como a de um sujeito em desacordo com o que se considera o Bem, no mundo em que vive. Em "Melancholia", esta é a posição de Justine (Kirsten Dunst), prestes a se casar com um rapaz tão obsequioso em contentá-la que presenteia a noiva com a foto das macieiras em cuja sombra ela deverá ser feliz.
Feliz? A perspectiva do futuro congelado numa imagem perpétua congela também o desejo de Justine, que se desajusta de seu papel e estraga a festa caríssima organizada pela irmã, cheia de rituais destinados a produzir os efeitos de "happiness" exigidos dos filhos da sociedade da abundância.
Se não tivesse o mérito de desvendar a estupidez da fé contemporânea nos "efeitos de felicidade" como medida de todas as coisas, o filme de Trier já terá valido por reabilitar a figura da melancolia como indicador do sintoma social.
Por mais de dois milênios, as oscilações da sensibilidade melancólica indagaram a cultura ocidental a respeito da fronteira que separa o louco e o gênio. Desde a Antiguidade clássica, o melancólico, incapaz de corresponder à "demanda do Outro", denunciava o que não ia bem, no laço social.
A crise que leva Justine a arrebentar seu compromisso amoroso, sua festa de casamento e seu emprego numa única noite é conduzida com precisão didática pelo diretor. Uma observação cruel da mãe (representação perfeita da mãe do melancólico freudiano), seguida da indiferença do pai, deflagra em Justine uma verdadeira crise de fé. De repente, a noiva se exclui da cena na qual deveria ser a principal protagonista. Não acredita mais. Despenca da rede imaginária que sustenta o que se costuma chamar de realidade, ficção coletiva capaz de dotar a vida de significado e valor.
Justine, incapaz de olhar o mundo através do véu de fantasia que conforta aos outros, "os tais sãos" (como no verso de Pessoa), enxerga o que a cena encobre. Ela não teme a chegada de Melancholia porque nunca foi capaz de se iludir sobre a finitude de tudo o que existe. Justine "vê coisas". Árida vida a de quem vê demais porque não sabe fantasiar.
Desde a Antiguidade o melancólico foi entendido, no Ocidente, como aquele que ocupa um lugar de exceção na cultura. O pathos melancólico foi explicado por Hipócrates e Galeno com base na teoria dos quatro humores que regulam o funcionamento do corpo e da alma. As oscilações da bile negra fariam do melancólico um ser inconstante, a um só tempo doentio e genial, impelido a criar para aplacar as oscilações de seu temperamento.
No cerne de sua reflexão "O Homem de Gênio e a Melancolia" (O Problema XXX), Aristóteles já discernira uma questão ética a respeito dos excessos emocionais do melancólico e uma questão estética sobre o gênio criador. Daí o incômodo papel que lhe coube: questionar os significantes que sustentam o imaginário de sua época.
A tradição inaugurada por Aristóteles termina com Baudelaire já no século 19 -o último dos românticos, o primeiro dos modernos, segundo outro melancólico genial, Walter Benjamin. Para suportar os altos e baixos de seu temperamento e dar algum destino à sua excentricidade, alguns melancólicos dedicaram-se a tentar compreender seu mal.
O classicismo inglês produziu o mais completo compêndio sobre a melancolia de que se tem conhecimento, obra da vida inteira do bibliotecário de Oxford Robert Burton (1577-1640).
Sua "A Anatomia da Melancolia", publicada em 1621 e reeditada várias vezes nas décadas seguintes, é um compêndio de mais de 1.400 páginas contendo tudo o que se podia saber sobre a "doença" de seu autor. A editora da Universidade Federal do Paraná acaba de lançar no Brasil o primeiro volume de "A Anatomia da Melancolia" [trad. Guilherme Gontijo Flores, 265 págs., preço não definido].
É pena que o primeiro volume se limite ao longo introito do autor a seus leitores. Esperamos que em breve a Editora UFPR publique uma seleção dos capítulos do livro, que inicia com as causas da melancolia -"Delírio, frenesi, loucura" [...] "Solidão e ócio" [...] "A força da imaginação"...- segue com a descrição dos paliativos para aliviar o sofrimento ("alegria, boa companhia, belos objetos...") para ao final abordar a melancolia amorosa e a melancolia religiosa.
O autor assinou a obra como Demócrito Júnior, a afirmar sua identificação com o filósofo que, segundo a descrição de Hipócrates, afastou-se do convívio com os homens e, diante da vacuidade do mundo, costumava rir de tudo. O riso do melancólico é expressão do escárnio ante as ilusões alheias.
A empreitada de Burton só foi possível em uma época em que a melancolia era entendida não apenas como uma doença, mas como um fenômeno da cultura. O texto seminal de Aristóteles já continha uma reflexão sobre a capacidade criativa do melancólico, atribuída à instabilidade que o impele a expandir sua alma em todas as direções do universo.
Tal processo de desidentificação encontra-se também no diagnóstico freudiano, ao qual falta, entretanto, a contrapartida da mimesis. Solto da rede imaginária que o enlaça a si mesmo e ao mundo, o melancólico contemporâneo só conta de encarar o Real com a aridez do simbólico.
Algo se passou, na modernidade, para que a inconsistência imaginária do melancólico deixasse de estimulá-lo a reinventar as representações do mundo e ficasse à mercê da Coisa. A receita preparada para Justine tem gosto de cinzas; fios de lã invisíveis impedem suas pernas de andar. Diante desse horror, ela prefere a colisão com Melancholia.
A melancolia deixou de ser entendida como um desajuste referido às normas da vida pública quando Freud arrebatou o significante de seu sentido tradicional a fim de trazer para o campo da psicanálise o diagnóstico psiquiátrico da então chamada psicose maníaco-depressiva -que hoje a medicina retomou sob a designação de transtorno bipolar.
Freud não privatizou a melancolia por acaso: a própria psicanálise deve sua existência ao surgimento do sujeito neurótico gerado nas tramas da família burguesa, fechada sobre si mesma e fundada em compromissos de amor. A psicanálise freudiana é contemporânea ao acabamento da forma subjetiva do indivíduo e à privatização das tarefas de socialização das crianças.
Vem daí que o melancólico freudiano não se pareça em nada com seus colegas pré-modernos: o valente guerreiro exposto à vergonha diante de seus pares (Ajax), o anacoreta em crise de fé (Santo Antônio), o pensador renascentista ocupado em restaurar a ordem de um mundo em constante transformação (como na gravura de Dürer*). Nem faz lembrar, na aurora modernidade, o "flâneur" a recolher restos de um mundo em ruínas pelas ruas de uma grande cidade (Baudelaire) de modo a compor um monumento poético para fazer face à barbárie.
O melancólico freudiano é o bebê repudiado pela mãe, pobre eu transformado em dejeto sobre o qual caiu a sombra de um objeto mau. O que se perdeu na transição efetuada pela psicanálise foi o valor criativo que se atribuía ao melancólico, da Antiguidade ao romantismo. Perdeu-se o valor do polo maníaco do que hoje a medicina chama de transtorno bipolar.
Onde o melancólico pré-moderno, em seus momentos de euforia, era dado a expansões da imaginação poética, hoje a mania leva os pacientes "bipolares" a torrar dinheiro no cartão de crédito. O consumo é o ato que expressa os atuais clientes da psicofarmacologia, apartados da potência criadora que sua inadaptação ao mundo poderia lhes conferir.
Já não existem melancólicos como os de antigamente? Os neurocientistas que o digam. A psiquiatria e a indústria farmacêutica já escolheram seu substituto no século 21: no lugar do significante melancolia, instala-se a depressão como grande sintoma do mal-estar na civilização do terceiro milênio. Quanto mais se sofistica a oferta de antidepressivos, mais a depressão se anuncia no horizonte como expressão privilegiada do mal-estar, a ameaçar sociedades que se dedicam a ignorar o saber que ela contém.
Tal produção ativa de ignorância a respeito do sentido da melancolia está no centro da parábola de Lars von Trier. John, cunhado de Justine, afirma sua fé no mundo das mercadorias. Abastece a casa com comida, combustível, geradores de energia. Confia na informação científica divulgada pela internet. Verifica no telescópio a aproximação do planeta ameaçador.
Sua defesa é tão frágil que, diante do inevitável, suicida-se com uma overdose das pílulas da esposa. Claire, por sua vez, tem grande fé na encenação da vida. O fracasso do casamento espetacular da irmã não a impede de planejar outro pequeno ritual, na bela varanda da casa, com música e vinho, para esperar a chegada de Melancholia. Excelente final para um melodrama hollywoodiano, que Justine descarta com desprezo.
Justine não tem ilusões a respeito do fim. Mesmo assim, para proteger o sobrinho do horror final, mostra-se capaz de criar a mais onipotente das fantasias. Constrói com ele uma frágil tenda "mágica" sob a qual se abrigam para esperar a explosão de luz trazida pela colisão com Melancholia.
O triângulo formado por três galhos presos na ponta não chega a criar uma ilusão: são como traços de uma escrita, como um significante a demarcar, "in extremis", um território humano em face do Real."
MARIA RITA KEHL

julho 10, 2010

Roberto Piva

Há método em sua loucura
"Alô, condessa? O que você está fazendo nessa vidinha (cobras e lagartos) de papai & mamãe na (cobras e lagartos) Vila Madalena cheia de petistas universotários (sic)? Nesse bairro você sai de minissaia e os carinhas dizem: "Oooiii..." Você tem que morar no Centro, em que quando você passa, os homens fazem "ssssssss"." Provocações assim eram feitas ao telefone em altos brados bêbados, no horário inconveniente das duas da madrugada. O chato do outro lado da linha, acreditem, era meu feroz e controverso amigo Roberto Piva. Monarquista pour épater, me apelidou Condessa von Kehl. Gostávamos muito um do outro. Eu admirava sua poesia exaltada aliada à sua vida de risco; e logo entendi que com ele, adepto fervoroso da verdade que fere, a amizade estava acima de todas as suscetibilidades. Mais de uma vez eu desliguei na cara dele e despluguei o telefone para conseguir dormir, mais de uma vez o expulsei de minha casa por comportamento inconveniente diante das crianças. Ele se indignava com minha caretice, mas não se ofendia. Um sinal inequívoco, a meu ver, de grandeza interior.
No alto/ do Viaduto o louco colava pedacinhos de céu/ na camisa de força/ destruindo o horizonte a marteladas (Paisagem em 78 r.p.m. em Paranoia, 1963).
Parodiando o velho bigodudo de quem ele foi grande leitor, eu diria que Roberto Piva praticou, com rara maestria, uma "poesia a marteladas". Em algumas passagens, o efeito das imagens em apaixonada oposição que caracterizavam seus versos não era apenas o de demarcar seu campo, seu time, sua profissão de fé. Servia também para atrair adesões incondicionais e afastar os que, pior que seus inimigos, poderiam ser tachados por ele de idiotas. Contra Eliot pelo Marquês de Sade (...) contra o Jardim Europa pela Praça da República, contra o céu pela terra, contra Virgílio por Catulo, contra a lógica pela Magia (...) contra Cristo por Barrabás, contra os professores pelos pajés... (A Catedral da Desordem em Os Que Viram a Carcaça, 1962). Piva não recorria ao método paranoico-crítico só para escrever: ele também era assim para viver, escolher amigos e amantes, brigando para extrair deles, de nós, (a marteladas...?) o mesmo ágalma da inspiração que o movia.
"Só acredito em poeta experimental que leva uma vida experimental", dizia. Foi o principal desbravador de uma geração em que as liberdades individuais desviantes da norma, como o homossexualismo, o uso de drogas, a vagabundagem escancarada, a invasão performática dos espaços públicos na cidade que ele amava e odiava, eram praticados como forma de heroísmo. Mas sua excentricidade não se alinhava, como seria de se esperar, a nenhuma veia melancólica. Exuberante, sensual, prolixo, Roberto Piva só foi solitário nos momentos em que realmente não encontrou quem quisesse acompanhá-lo até o limite de suas extravagâncias místico-sensualistas: Eu não me apoio em nada/ a lua não se apoia em nada (Visão de São Paulo à Noite em Paranoia).
Quando simpatizava com alguém, quando vislumbrava através de todas as aparências em contrário um possível aliado, costumava acionar sua poderosa máquina aliciadora sem pudor e sem limites. Precisava de aliados como de amigos e de amantes. Não queria formar um partido e sim uma legião. De anjos terríveis. Em sua poesia o desejo é violento. O amor é violento. Os poemas da mais escancarada ternura amorosa são violentos. Vou moer teu cérebro, vou retalhar suas coxas imberbes & brancas. (...) vou incinerar teu coração de carne & de tuas cinzas vou fabricar a substância enlouquecida das cartas de amor. (20 Poemas com Brócolis, 1980.)
Sua sofisticação era existencial, não material. Nesse segundo aspecto, foi tão pobre que aprendeu a tirar leite das pedras. Pedia aos que tinham carro que o levassem a Jarinu, a Cananeia, à Serra da Cantareira ? lugares perto de São Paulo onde houvesse um pouco de mata para matar sua sede de experiências xamânicas, sua fome de escuridão e de mistério. Contentava-se com pouco. Sua imaginação transformava um matinho em Mairiporã na selva amazônica.
Apesar disso tudo, engana-se quem imaginar que o percurso poético de Roberto Piva fosse pautado por qualquer espontaneidade complacente. Piva não era louco. Praticava a loucura como método, mas tinha um controle absoluto de sua obra, de seu percurso literário/filosófico/místico/existencial, assim como de sua imagem pública. Uma vez fui entrevistá-lo para a Gazeta de Pinheiros: tratou-me com gentileza, mas, literalmente, conduziu sua própria entrevista do começo ao fim. Mais tarde, em 1986, eu apresentei um programa de entrevistas ao vivo para a Rádio Cultura de SP, o Radar Cultural. Convidei Renato Pompeu e Roberto Piva para um debate sobre arte e loucura. Renato, o "verdadeiro" louco, relatou sua experiência manicomial com muita sobriedade e resistiu à sedução do Piva, que tentou o tempo todo levá-lo para seu campo, do elogio à loucura. Ao fechar o programa, Renato reafirmou que a verdadeira experiência da loucura não é nada produtiva. "Eu só escrevo quando não estou louco." Piva arriscou então um gran finale ao vivo, na lata: "Pois eu prefiro enlouquecer que escrever. Só escrevo quando não estou na orgia bebendo, me drogando, transando, pirando..."
Quase perdi o emprego ? mas não o amigo ? por causa dessa bravata.
Maria Rita Kehl

junho 26, 2010

Tristes trópicos

"O deputado Aldo Rabelo é um patriota. Anos atrás, criou um projeto de lei contra o uso público de palavras estrangeiras no País. Não me lembro se a lei não foi aprovada ou não pegou. Somos surpreendidos agora por nova investida patriótica do representante do PC do B: substituir o verde-folha do nosso pendão por um tom mais chique, o verde-dólar. Nada contra a evolução cromática do símbolo pátrio. Mas não se esperava tamanho revisionismo da parte de um velho comunista: o projeto de revisão do código florestal proposto por Rabelo é escandaloso.
Ou não: se o PC do B ainda tem alguma coisa a ver com a China, nada mais compreensível do que a tentativa de submeter o Brasil à mesma voracidade do país que hoje alia o pior de uma ditadura comunista com o pior do capitalismo predatório: devastação da natureza, salários miseráveis, repressão política.
E nós com isso? Nós, que não somos chineses - por que haveremos de nos sujeitar aos ditames da concentração de renda no campo que querem nos impingir como se fossem a condição inexorável do desenvolvimento econômico? Não sou economista, mas aprendo alguma coisa com gente do ramo. Sigo o argumento de uma autoridade quase incontestável no Brasil, o ex-ministro do governo FHC e hoje social democrata assumido, Luis Carlos Bresser Pereira. A concentração de terras e a produtividade do agronegócio, boas para enriquecer algumas poucas famílias, não são necessárias para o aumento da riqueza ou para sua distribuição no campo. Nem para alimentar os brasileiros. A agricultura familiar - pasmem: emprega mais, paga melhor e produz mais alimentos para o consumo interno do que o agronegócio. Verdade que não rende dólares, nem aos donos do negócio nem aos lobistas do Congresso. Mas alimenta a sociedade.
Vale então perguntar quantos brasileiros precisam perder seus empregos no campo, ser expulsos de seus sítios para viver em regiões já desertificadas e improdutivas, quantas gerações de filhos de ex-agricultores precisam crescer nas favelas, perto do crime, para produzir um novo rico que viaja de jatinho e manda a família anualmente pra Miami? Quanto nos custa o novo agromilionário sem visão do País, sem consciência social, sem outra concepção da política senão alimentar lobbies no Congresso e tentar extinguir a luta dos sem-terra pela reforma agrária?
Meu bisavô Belisário Pena foi um patriota de verdade. Um médico sanitarista que viajou em lombo de burro pelo interior do País para pesquisar e erradicar as principais doenças endêmicas do Brasil no início do século 20. O relato da expedição empreendida por ele e Arthur Neiva pelo norte da Bahia, Pernambuco, sul do Piauí e Goiás, em 1912, virou um livro que eu ganhei do professor Antonio Candido. A pesquisa começa pela descrição do clima, ou seja, da seca, e segue a descrever a "diminuição das águas" no interior. Reproduzo a grafia da época: "Não há duvida de que a água diminue sempre no Brazil Central; o morador das marjens dos grandes rios não percebe o fenômeno, mas o depoimento dos habitantes das proximidades dos pequenos cursos e de coleções d"agua pouco volumosas é unânime em confirmar este fato. De Petrolina até a vila de Paranaguá, não se encontra um único curso perene. O Piauhy, encontramo-lo cortado (com o curso interrompido); o Curimatá, completamente sêco; para citar os maiores (...) Acresce que, em toda a zona, o homem procura apressar por todos os meios a formação do deserto, pela destruição criminosa e estúpida da vejetação".
Os professores Jean Paul Metzger e Thomas Lewinsohn, no Aliás de domingo passado, acusam a falta de embasamento científico do projeto de Aldo Rabelo. Mas mesmo sem o aval de cientistas sérios, já é de conhecimento geral o que meu bisavô constatou em 1912: a evidente relação entre o desmatamento, a diminuição das águas e a desertificação do interior do País.
O novo código de "reflorestamento" propõe reduzir de 30 para 7,5 metros a extensão obrigatória das matas ciliares nas propriedades rurais. Uma faixa vegetal mais estreita do que uma rua estreita não dá conta de impedir o assoreamento dos rios que ainda não secaram, nem barrar a devastação pelas cheias como a que hoje vitima tantos moradores da Zona da Mata. Quem nunca observou, sobrevoando o Brasil central, que os rios que não têm mais vegetação nas margens estão secos? Outra piada é isentar as pequenas propriedades da reserva florestal obrigatória. Se até o gênio do mal que mora em mim já teve essa ideia, imaginem se ninguém mais pensou em dividir grandes fazendas em pequenos lotes "laranjas" para se valer do benefício?
Por desinformação ou má-fé, os defensores do desmatamento alardeiam que essa é uma disputa entre desenvolvimentistas e amantes do "verde". Mentira. O objeto da disputa é o tempo. O projeto de Rabelo defende os que querem agarrar tudo o que puderem, já. No futuro, ora: seus netos irão estudar e viver no exterior. Do outro lado, os que se preocupam com as gerações que vão continuar vivendo no Brasil quando todo o interior do País for igual às regiões mais secas do Nordeste atual - algumas das quais já foram ricas, verdes e férteis, antes de ser desmatadas pela agricultura predatória. Que pelo menos contava, no início do século 20, com o beneplácito da ignorância".

MARIA RITA KEHL - O Estado de S.Paulo

junho 18, 2010

A pátria em Copas

"A lembrança mais antiga que eu guardo de uma Copa do Mundo é reconstruída da perspectiva do banco de trás do Consul 1950 de meu pai. Paramos no pedágio a caminho da fazenda de meu tio e meus pais perguntaram se o funcionário sabia o placar do jogo. Não sei se havia um rádio na cabine do pedágio. No carro, certamente não havia. O ano era 1958 e eu, bem pequena, adorava o clima de excitação que reinava entre os adultos. Na fazenda em que passávamos as férias, de inverno meu avô improvisou uma antena de bambu comprida e torta para tentar ouvir as partidas em ondas curtas. O mundo era muito grande em 1958. A Suécia era inacessível. A locução dos jogos, naquela voz fanhosa, acelerada, impossível de acompanhar, chegava a nós através de roncos e chiados que soavam como a respiração nervosa do Oceano Atlântico. Do outro lado do mundo, Garrincha, Pelé e Vavá vingavam o Brasil da derrota de 1950. Como é possível que uma criança, que mal sabia o que era um drible e ignorava a existência metafísica do impedimento, participasse do sentimento oceânico que tomava conta do País durante a Copa do Mundo?
(...)"

Maria Rita Kehl no Estadão,
Para a continuação, link no título.

março 20, 2010

Corpos estreitamente vigiados

"Uma das representações mais antigas da melancolia que se conhece, ao menos no Ocidente, remonta à Idade Média. Está associada ao rígido controle das pulsões imposto pela Igreja Católica aos monges recolhidos ao isolamento dos mosteiros. Na iconografia medieval da melancolia encontra-se com freqüência a figura de um pobre monge assolado por figuras diabólicas que representam toda a sorte de tentações a que ele deveria resistir. A acedia, prostração da vontade que acometia o cristão dedicado a sacrificar todos os prazeres mundanos para melhor servir a Deus, é uma forma melancólica de rendição diante das exigências imperiosas de um corpo que, como viria a proclamar Lacan sete ou oito séculos mais tarde, não tem condições de sublimar todas as demandas de satisfação pulsional. 
A repressão auto imposta exige tanto esforço da consciência e tamanha disciplina do corpo que acaba por enfraquecer o próprio sentido do sacrifício. A acedia, “retração da alma diante do objeto de seu desejo” (Yves Hersant, “L’acédie et sés enfants” em: Jean Clair, Mélancolie, génie et folie en Occident ), apela ao Diabo, uma vez que o penitente sente-se esmagado pelo tamanho da renúncia que se obriga a fazer. A figura lendária de Santo Antonio atormentado pelas tentações foi objeto de uma novela escrita por Flaubert, já no século XIX. “No fundo, não amo a Deus...”, queixa-se o personagem, abatido pelo “demônio do meio-dia” da melancolia. 
O princípio do prazer é o que dá sentido à vida, escreveu Freud, já bem perto da nossa era. A recusa radical a todos os prazeres destrói o sentido da nossa passagem por este mundo, ainda quando esta se orienta em direção aos mais altos ideais. 
Tão longe, tão perto. O que sabemos nós sobre a acedia medieval, em pleno século XXI? Existe alguma afinidade entre os sacrifícios auto-impostos pelos antigos monges e a liberdade com que os filhos do terceiro milênio predispõem-se ao desfrute de todos os prazeres? Existe alguma semelhança entre a antiga condenação cristã contra o gozo e a convocação permanente que apela a que o sujeito contemporâneo se entregue sem reservas a todas as tentações? 
Bem: nem todas. As tentações da gula, por exemplo, são hoje ainda mais malditas do que na idade das trevas. As da preguiça e da indolência, nem se fala. O prazer, em nossa era, está intimamente vinculado ao movimento e à atividade. Os corpos pós-modernos têm que dar provas contínuas de que estão vivos, saudáveis, gozantes. Ao trabalho, moçada! A quietude não tem nenhum prestígio na era da publicidade, das raves embaladas a ecstasy, dos filmes de ação. Estamos liberados para usufruir todas as sensações corporais, mas para isso o corpo deve trabalhar como um escravo, como um remador fenício, como um condenado a trabalhos forçados. Anorexias, bulimias, seqüelas causadas pelo abuso de anabolizantes e de moderadores de apetite sinalizam a permanente briga contra as tendências do corpo a que se entregam, sobretudo, os jovens, numa sanha disciplinar de fazer inveja ao pobre Santo Antonio.
Tão longe, tão perto. Temos a liberdade, ou melhor, temos a obrigação de nos permitir todos os prazeres sexuais. Seria ótimo, se não fosse obrigatório. Quem não conhece o caráter desmancha-prazeres até das práticas mais libertinas, quando impostas pelo superego? Seríamos livres se não nos sentíssemos obrigados a dar provas permanentes de nossa capacidade de gozar. Seríamos mestres do hedonismo se não estivéssemos tão vigilantes em relação às performances sexuais, tão preocupados com as menores imperfeições de um corpo que se oferece ao outro como pura imagem. Seria ótimo, enfim, se estes corpos estreitamente vigiados não tivessem perdido algumas de suas capacidades básicas, essenciais ao próprio prazer. 
Como por exemplo, a capacidade do abandono contemplativo. Há muita atualidade em Aristóteles, que inspirou Freud a escrever que o prazer dá sentido à vida. A Ética de Aristóteles não prega contra os prazeres, como viria a fazer o cristianismo, mas propõe uma hierarquia entre eles. Aristóteles não condena os prazeres puramente corporais: considera-os inferiores. Para ele, o prazer superior é o da contemplação: esta capacidade de conectar-se com o mundo num certo estado de silêncio do corpo e de desligamento da consciência auto-vigilante. A contemplação exige que se esteja em paz com o corpo e que a consciência esteja aberta ao momento, livre da pressão das fantasias e das exigências do superego. Condições semelhantes às exigidas para o desfrute dos prazeres sexuais. Mas nunca estivemos tão submetidos à tirania das fantasias prêt-à-porter e aos imperativos superegóicos da moral do gozo.
A modernidade resulta de um longo processo de disciplina e de auto-observação dos corpos. O Processo Civilizador, do sociólogo alemão Norbert Elias, é uma minuciosa investigação sobre a gênese da formação do que é hoje, para nós, o corpo civilizado normal. A socialização das crianças pequenas, desde as primeiras formações das sociedades de corte, consistia (como ainda hoje) no aprendizado de uma série de controles corporais. Aprende-se desde cedo como é que se anda no meio dos outros, como é que se come em presença de estranhos, como se controlam os impulsos corporais em público. A criação da moderna esfera privada nas sociedades liberais é indissociável da introjeção dos mecanismos de controle dos impulsos e dos afetos, na vida pública. Freud considerava o desenvolvimento de uma instância psíquica encarregada do auto-controle como um avanço da civilização. A auto-disciplina afetiva e corporal é condição do engajamento dos sujeitos na ordem social, diria Foucault, para quem a submissão voluntária é o braço subjetivo do poder. O auto-policiamento permanente é o preço a ser pago pela vida moderna, sobretudo nas cidades. 
Mas houve uma transformação importante nos termos desse controle, acompanhando a mudança do capitalismo, desde a fase produtiva do início do século XX até a fase consumista dos nossos dias. Passamos de uma economia psíquica do adiamento do prazer para outra, do imperativo do gozo. A moral do self made man foi substituída pela moral do body-building. Isto não significa que em nossa era os corpos em exibição no mercado da imagem não estejam submetidos a formas de controle talvez tão rigorosas quanto as que torturavam os monges medievais. Fazer do corpo uma imagem oferecida ao olhar crítico do Outro exige muita disciplina, muito controle e, sim, muita repressão.
A quietude contemplativa, assim como a fruição sexual, só são possíveis se o corpo não estiver permanentemente vigiado pelo eu, auto consciente da imagem que pretende apresentar em público. Não devemos confundir a dimensão libertária do desejo com a dimensão superegóica da cultura do narcisismo corporal. Jean-Jaques Courtine detectou uma continuação do puritanismo na cultura norte-americana do body-building . Para Courtine, a sanha do fisioculturismo que data dos anos 1980 “não corresponde a um laisser-aller hedonista, mas a um reforço disciplinar, a uma intensificação dos controles. Ele não corresponde a uma dispersão da herança puritana, mas antes a uma repuritanização dos comportamentos cujos signos, de modo mais ou menos explícito, multiplicam-se hoje”.
Hoje, o chamado amor próprio depende da visibilidade. Não se trata apenas da beleza. Não basta ter um rosto harmonioso, um corpo bem proporcionado. É preciso aumentar a taxa de visibilidade, ocupar muito espaço no mundo. É preciso fazer a imagem crescer. Inflar os bíceps, as nádegas, os peitos, aumentar as bochechas, esticar o comprimento dos cabelos. A receita de beleza no terceiro milênio deve ser: muito tudo. 
Não importa que com isso as mulheres fiquem mais ou menos parecidas com os standarts oferecidos pelos esteticistas. Um homem pode olhar as moças no bar ou na fila do cinema e classificá-las pelas características das intervenções que elas fizeram: seios de silicone, olhos arregalados por botox, cabelos alongados, lifting, dentes branqueados. Do ponto de vista delas o que importa é garantir um lugar de destaque nas vitrines do mercado das imagens.
Seria ingenuidade criticar a nova onda das formas siliconadas em nome de um ideal de corpo natural. O corpo humano nunca foi natural. As tribos mais primitivas se distinguem umas das outras pelas alterações estéticas, simbólicas e rituais nos corpos de seus membros. Do botox aos botocudos, do silicone às anquinhas, das escaras às tatuagens atuais, os corpos humanos são sempre desnaturados pelas práticas culturais. O que há de novo é o poder da tecnologia intervir cada vez mais na estrutura dos corpos, e o poder do marketing, que torna essas intervenções quase imprescindíveis. Não deixa de ser irônico que o padrão estético imposto pela tecnologia mais avançada se assemelhe ao dos corpos femininos do século XIX: s nádegas protuberantes, modeladas nas academias, substituem as anquinhas; as barrigas lisas imitam as cinturinhas de vespa obtidas com o uso de espartilhos. As filhas do pós-feminismo não medem sacrifícios para atrair os olhares masculinos. Ou a inveja das outras mulheres. Ou a aprovação do espelho, esta versão caseira da telinha.
E a prova dos nove do sucesso, qual será? O acesso aos mistérios do sexo e do desejo sexual? Não creio. O desejo não se dirige à perfeição, dirige-se ao enigma. Quanto ao erotismo, será que o sexo praticado entre os bombados e as siliconadas é mais interessante, mais inventivo, mais sacana do que o sexo entre pessoas fisicamente comuns? Conseguiremos ser, ao mesmo tempo, escravos da imagem e mestres da libertinagem?
Como o Santo Antonio de Flaubert, que já não é mais capaz de amar o Deus que lhe impõe tantas renúncias, os jovens escravizadores dos corpos do século XXI já perderam de vista a divindade à qual oferecem seus sacrifícios. A forma contemporânea da acedia medieval é o tédio que vitima jovens casais, apartados do saber inconsciente sobre o desejo sexual na medida em que obedecem cegamente à exigência superegóica de construir um corpo reduzido à dimensão de imagem sem interioridade, sem história, sem nenhum vestígio das imperfeições da vida".


fevereiro 20, 2010

Antibiografia

Não, Antonio Prata, não é questão de arrependimento pelo que não fiz. As experiências perdidas constituem uma rede de lembranças legítimas. Pode até ser que o vivido mesmo, pão pão, queijo queijo, ocupe uma parte bem reduzida de nossas memórias. Penso que existe um acervo de saudades lotado de imagens do que se viveu só através de relatos alheios, da literatura e da imaginação. É possível ter saudades, por exemplo, da infância da sua avó, se ela te contou episódios com graça, imaginação e alguma nostalgia. Algumas cenas contadas por ela passam a te pertencer também.
As saudades do que eu queria ter feito e não fiz se constroem de trás pra frente. É depois, só depois, que você se dá conta de que prestou atenção ao que acontecia à sua direita e não percebeu algo muito mais interessante que se passava à esquerda. Ou vice-versa. Claro, existem também as escolhas. Nesse caso, penso que se eu quisesse mesmo, mesmo, fazer x em vez de y, teria feito. Essa coleção de vacilos escreve uma história. No horizonte virtual das possibilidades que foram deixadas pra trás deve haver um duplo meu, vivendo a vida que foi dos outros.
Não morei fora do Brasil, como tantos companheiros de geração. Nem com bolsa de estudos, nem lavando pratos on the road. Ficou na memória o aceno de Paris no postal mandado pela amiga que saiu da nossa moradia comunitária para estudar lá. Por alguma razão sentimental, achava interessantíssima a vida que tinha aqui, apesar do sufoco militar. Também não estive presa. Não lamento, é óbvio, mas tiro o chapéu para os que levaram a luta a tal extremo. Minha modesta militância contra a ditadura não foi considerada perigosa. Mas para mim, foi formadora: um terço, digamos, do que aprendi de importante nesta vida devo ao convívio com os colegas jornalistas e editores dos tabloides em que trabalhei.
Não fui mochileira exemplar, apesar de ter feito a peregrinação obrigatória pelas praias (em média, decepcionantes) do Nordeste. Mas não me encorajei a conhecer Machu Picchu, por exemplo, no tempo em que era obrigatória a viagem no teto do trem da morte lotado, com direito a dor de barriga por beber água de torneira.
Tinha uma vaga noção da importância do que acontecia muito perto de mim. O acaso decidiu o que vi e o que não vi, o que aproveitei e o que perdi. Não vi o show Opinião, de meu amigo 30 anos mais tarde Augusto Boal. Será que não? Então por que não me esqueço de Carcará, cantado por Maria Bethânia, desafiadora, com seu corpo de menino? Nem de Zé Keti - "podem me prender, podem me bater..."? E se também perdi Arena Conta Zumbi, como posso contar, digo, cantar, até hoje, o espetáculo quase todo? Quase me esqueço de que passei várias férias no Rio sem saber que existia o Zicartola. Esse não existe mais nem pra remédio. Mas sei tudo de Cartola, de cor. Perdi Pobre Menina Rica do Vinícius de Morais, e ouvi o disco até gastar. De Morte e Vida Severina, unanimidade nos anos 60, decorei todos os trechos do poema musicados pelo Chico Buarque.
Não recebi o impacto dos primeiros filmes de Glauber Rocha, nem do Godard dos anos 60. Mas não me entrego não - em matéria de filmes e livros, tudo se recupera. Viva os livros e filmes que não li nem vi. Por conta deles estou salva do tédio, até morrer.
A lista das coisas perdidas não tem fim. Só as canções eu não deixei passar. As canções me salvaram de ficar fora do mundo. Estavam todas no ar, trazidas pelo vento diretamente para minha memória musical. Respirei as canções, sonhei canções, entendi o Brasil desde o primeiro samba, porque existem as canções. Vivi sempre a condição dessa cidadania dupla, uma vida no chão, outra no plano das canções que recobrem o mundo ou, pelo menos, o país em que nasci. As canções ampliaram o meu tempo, transcenderam o presente e, numa gambiarra genial, juntaram um monte de pontas soltas desde antes de eu nascer até.
As canções: já que não virei cantora - opa: eis aí um arrependimento sincero! -, espero quem sabe um dia escrever alguma coisa à altura delas.

Maria Rita Kehl no Estadão

fevereiro 17, 2010

Meu tempo

Convém que me apresente nesta estreia. Além da combinação única e aleatória de proteínas, aminoácidos, H2O e tal, sou feita de quê? De tempo, assim como vocês. Tempo vivido e tempo imaginado. Feita de passado, o de meus ancestrais, transmitido pelos gens, a cultura, o inconsciente; mais a história de vida que me trouxe até aqui. É só o que temos: um corpo e uma história, já que o presente é uma partícula, deletada tão logo eu acabe de escrever partícula. E o futuro, lamento dizer, não existe. A não ser, é claro, sob a forma de fantasias e projetos. Mas fantasias e projetos são feitos de quê? De restos, fiapos, pedaços não resolvidos do passado. No futuro só o que existe na certa é a morte esperando a gente. Deixa quieto.
Àqueles dez anos inaugurais de perplexidade e inquietação, chamo de infância. Tão minha e tão perdida. Ao longo período da dita maturidade eu me refiro como "outro dia mesmo". Já o pedaço da vida que vai do fim da adolescência (aquela chatice) até os 30, mais ou menos, costumo chamar de "o meu tempo". Nisso não estou sozinha. Pra muita gente, a referência óbvia para "meu tempo..." é a juventude. Os anos de formação, como diziam os românticos do 19. Período das experiências que definiram o que pretendíamos ser, assim como as promessas que continuam a acenar no horizonte das possibilidades.
Um bom amigo que morre de medo de se tornar ultrapassado costuma me contestar com outro refrão: meu tempo é hoje! Mas Paulinho da Viola, que canta o verso de Wilson Batista, "meu mundo é hoje", tem lá suas ressalvas ao império do presente absoluto: "...mas não me altere o samba tanto assim". Defendo o modesto passadismo do sambista. A juventude é um período movediço em que se vai meio às cegas por caminhos excitantes, ou idiotas, ou desastrosos, sem saber o que se quer encontrar. Daí a necessidade de estabelecer, a posteriori, alguma solidez pelo menos às recordações daquele tempo. Redescobrir na memória um filme já superado e atribuir a ele significados incríveis; reler um livro que nos fez a cabeça aos 20 anos (Sidharta, todo mundo lia Sidartha - que não li, sei lá por que); reencontrar a praia dos melhores verões como se ainda fosse deserta, passar pela rua onde a casa que foi comunidade hippie está para virar um prédio. São tentativas de consolidar aquele riquíssimo período em que se estabelecem, por tentativa e erro, nossas grandes referências exogâmicas, cosmopolitas, universais.
Tem gente que entra na juventude como se o mundo fosse continuação do quintal familiar. Vai de cabeça sem medo, sem nem se dar conta de que caminha no escuro. Faço parte do outro grupo: para mim, tudo era grande demais. Eu ia, ansiava por ir, mas com um respeito danado pela imensidão à minha frente. Por isso meu tempo não foi tecido apenas das coisas que efetivamente fiz. Sou fiel ao que fiquei devendo à minha geração, essa rede de identificações imaginárias a que julgamos pertencer. A história daquilo que não fiz é minha biografia em baixo-relevo, indelével como todos os desejos não realizados.

Maria Rita Kehl
no Estadão de sábado