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julho 04, 2012

Era uma vez no sertão...



Em seu livro  Gastronomia Sertaneja Ana Rita Suassuna descreve sobre a comida("o cuscuz é o pão na mesa do sertanejo") e sua experiência no sertão. No livro ela reune parte das receitas que não tinham registros formais e eram transmitidas pela oralidade.
Com prefácio do escritor Ariano Suassuna, de quem é prima, Ana Rita que é irmã de seis, mãe de três, avó de sete, é mais estudiosa do que cozinheira, embora vá à cozinha, vez ou outra, para fazer os pratos do sertão. 
Nascida na Paraíba, cresceu numa fazenda na região do Vale do Pajeú, no sertão de Pernambuco. A distância para a Recife tinha como medida "um dia de trem, depois pegava ônibus e ainda andava duas horas a cavalo".Foi ali, onde se plantava algodão e culturas de subsistência, que ela cresceu embrenhada na vida dos sertanejos, no colher, no fazer, no poupar. "A preocupação com a seca era uma coisa tão inerente ao dia a dia que ninguém desperdiçava nada." Lembra o lema do seu pai: "Quem não guarda quando tem não tem quando precisa". 
Naquelas terras, em que viveu até os dez anos, quando foi estudar em Recife, plantava-se milho e feijão. O milho era armazenado na espiga, num cantinho da casa, enquanto os grãos das melhores espigas eram guardados debulhados em potes de barro ou em latas bem tampadas, lacradas com cera de abelha, resina de planta ou sebo de carneiro, para usar na plantação do inverno seguinte. 
Tinha ainda: o feijão-de-corda e o feijão de arrancar ("um pezinho pequeno, um arbustinho que fica cheio de vagem") e tinha o que se plantava nas vazantes,( "a parte úmida junto de qualquer reservatório de água"), batata, jerimum, melancia, melão... 
Ana Rita que não mexe em fogão moderno, ensina que no sertão quase tudo era feito no fogo baixo ("apura o sabor"). "Como fazia fogo baixo no fogão a lenha? A gente afastava as brasas com um ciscador." 
Como toda menina sertaneja, ela brincava de cozinhar : "Era dentro da minha casa, num terraço grande. Meu pai fez uma casinha de vara, coberta de palha, onde tinha as trempes" (aro de ferro com três pés, no qual se apoia panela sobre o fogo)*.O 'cozinhado' só podia ocorrer na fartura*. "A gente ia pro roçado ou para a despensa da casa para tirar as coisas, arroz, feijão, o que fosse, e levava tudo para a casinha. Todo mundo fazia o que sabia. Saía comida de todo jeito, mas o que saísse todos eram obrigados a comer." 
E o café no sertão nordestino? “Conhece café com rapadura? Já ouviu falar de café cabeludo?” "E café de pedra? Você aquecia pedras lisas e redondas, as deixava em brasa, aí botava o pó e despejava a água fria em cima. Era para quem tava no mato" 


Nota: * as 'trempes'onde se brincava de cozinhado, às vezes, eram feitas simplesmente com tres pedras. A expressão 'na fartura' se refere aos períodos em que não havia seca. 

junho 08, 2012

Solitários - o "eu doméstico"

"Se restava qualquer dúvida de que vivemos na era do indivíduo, uma espiada nas estatísticas habitacionais confirma que sim. Há milênios as pessoas se amontoam em cavernas, choupanas de barro ou casas.
Mas, hoje em dia, um em cada quatro lares americanos é ocupado por um morador solitário; em Manhattan, a cifra chega a quase 50%. Alemanha, França, Reino Unido e Japão têm proporções ainda maiores de lares habitados por um só morador.
Há, de fato, muitas vantagens em morar sozinho: a liberdade de andar à vontade pela casa; o espaço e a solidão para recarregar as baterias num mundo tão conectado; o domínio absoluto sobre a cama.
Por outro lado, a casa de um morador só pode virar terreno fértil para excentricidades -aquilo que às vezes é chamado de "comportamento secreto do solteiro".

Está a fim de ficar na cozinha às 2h da manhã, pelado, comendo direto do pote ou bebendo na boca da garrafa? Quem vai ficar sabendo?
Correr sem sair do lugar, conversar consigo mesma em francês preparando o café da manhã , cantar no banho, só tirar do varal a roupa que vai usar, escurecer o quarto e vestir o pijama às cinco da tarde,  jamais fechar a porta do banheiro, largar um soutien no trinco da porta, ler em tempo integral durante dias a fio, ficar sem lavar a louça, raramente fazer o que se  chamaria de 'refeições'...

"O que emerge ao longo do tempo é um "eu doméstico" notavelmente diferente da personalidade que a pessoa apresenta publicamente ao resto do mundo. Todos nós temos personalidades privadas, é claro, mas quem mora sozinho passa bem mais tempo as explorando".

Vai ficando difícil abrir mão das esquisitices. Quanto mais tempo se passa morando sozinha, menos flexível a pessoa se torna- e menos capaz de levar em conta as necessidades dos outros...

Nota: Reflexões a partir do artigo de STEVEN KURUTZ ( NYT)

março 30, 2012

Bares mortos

"Você sente que o mundo mudou quando, ao voltar a seu bar favorito depois de longa folga, não reconhece ninguém ao redor. São outros os rostos, outra a cor dos drinques nas mesas, outra a música de fundo no ambiente, outros, até, os garçons. E, definitivamente, outros os retalhos de conversa que saem das mesas vizinhas -falam de um mundo a que você não pertence mais. Esse novo bar e esse novo mundo parecem frios e hostis. Mas é possível mudar de bar -ou de mundo.
Quem quer que tenha tido um passado em bares conheceu essa experiência. F. Scott Fitzgerald viveu-a em 1931, quando voltou a Paris depois do crack da Bolsa de Nova York, em 1929. Ao sentar-se ao balcão e ver os cacos de seu rosto no espelho, atrás das garrafas, nem ele se reconheceu. O mesmo já havia acontecido com seus antigos companheiros de farra na Paris dos anos loucos. Todos tinham pedido o chapéu antes dele, falindo ou morrendo.
Já Ernest Hemingway, antevendo essa possibilidade, nunca quis ter um pouso fixo. Dividia-se por bares de Nova York, Paris, Madri, Havana, às vezes dois em cada cidade -"Mi mojitos en La Bodeguita, mi daiquirís en La Floridita"-, e, com isso, tinha para onde correr se um bar o abandonasse. Sempre se considerou maior que esses bares, razão pela qual todos que frequentou, e não foram poucos, sacralizaram a mesa a que um dia ele se sentou.
Em minha trajetória etílica, também frequentei bares, no Rio e em São Paulo, que, sem que percebêssemos, estavam se transformando ou morrendo sob nossos pés. É feio ser o último da turma a pedir a saideira ou a conta. Melhor tentar sair mais cedo, antes que emborquem as cadeiras nas mesas, e nós com elas.
Parei de beber em 1988, aos 40. Nem cedo nem tarde, acho. Sobrevivi a todos os lugares onde bebi, mas por um triz."
RUY CASTRO

Nota: Escolhi  a foto que  ilustra lembrando  dos "bares ideológicos"  ( expressão cunhada  por Nelson Rodrigues)  frequentados por pessoas que  defendiam suas posições políticas  e intelectuais . Na mesa do boteco se reformava o mundo .... Em tempo de bom mocismo, caretice, do 'politicamente correto' que  ninguém  ousa destoar,   o que seria um  autêntico  "papo de boteco"?  

janeiro 11, 2012

Lado B : fita cassete







A fita cassete, sucessora (regravável) do vinil (bolachão), era um padrão de fita para gravação de áudio, inventada pela Philips e lançada oficialmente no mercado em 1963.
Medindo 10cm x 7cm o cassete era constituído basicamente por 2 carretéis, a fita magnética e todo o mecanismo de movimento da fita alojados em uma caixa plástica. De fácil manuseio e utilização permitia que a fita fosse colocada ou retirada em qualquer ponto da reprodução ou gravação. 


Representou uma enorme revolução na medida em que possibilitava gravar, a partir do vinil, as músicas de nossa preferência, o que fazia da fita-cassete um objeto personalizado. No início, a pequena largura da fita e a velocidade reduzida- para permitir uma duração de pelo menos 30 minutos por "lado"- comprometiam a qualidade do som. Com o passar do tempo, recursos tecnológicos foram sendo incorporados, tornando a qualidade muito boa para ouvidos que ainda não conheciam o Dolby!

Os primeiros gravadores/toca-fitas eram portáteis, mas no final dos anos 70 com a invenção do walkman, super compacto de bolso com fones de ouvido, houve a explosão do som individual.



Com a chegada dos CDs, durante a década de 1990, ainda vivemos um tempo em que era comum presentear amigos com disco contendo as músicas que diziam muito de nós e do que queríamos transmitir ou compartilhar. Hoje isto também já não mais acontece. Cada um "baixa" suas próprias músicas... 
Expressões como "vira a fita", ( porque a nossa música preferida sempre estava do outro lado?!),ou"vira o disco" que também significava pedir para "mudar de assunto", hoje são tão desconhecidas quanto "discar", que era aplicada ao telefone...

Nota: visite tapedeck

dezembro 28, 2011

o amor que não tem rosto


“Psiquê (palavra grega que significa tanto alma, como borboleta) era uma jovem tão bela que de todas as partes acorria gente para admirá-la. Passou mesmo a ser objeto de culto, sobrepondo-se a Vênus (Também conhecida como Afrodite, a deusa da beleza e do amor), cujos templos se esvaziaram. A deusa indignou-se com o fato de uma simples mortal receber tantas honras. Pediu a seu filho Eros (Cupido, no panteão romano) , o deus do Amor, que atingisse a jovem com suas flechas, fazendo-a enamorar-se do homem mais desprezível do mundo. Entretanto, ao ver a princesa, o próprio Eros apaixonou-se e, contrariando as ordens da mãe, não lançou suas setas.
Enquanto as irmãs de Psiquê casaram-se com reis, a jovem mortal, cobiçada por um deus, permaneceu só. Apreensivo, seu pai consultou o oráculo de Apólo. Este aconselhou o soberano a levar a filha, vestida em trajes nupciais, até o alto de uma colina. Lá, uma serpente iria tomá-la como esposa. As ordens divinas foram executadas e, enquanto a jovem esperava que se consumasse seu destino, surgiu Zéfiro(Na mitologia grega, é o vento do Oeste). O doce vento transportou-a até uma planície florida, às margens de um regato. Esgotada por tantas emoções, Psiquê dormiu. Quando acordou, estava no jardim de um palácio de ouro e mármore. Ouviu, então uma voz que a convidava a entrar. À noite, oculto pela escuridão, Eros amou-a. Recomendou-lhe, insistentemente, que jamais tentasse vê-lo. Durante algum tempo, apesar de não conhecer o amado, Psiquê sentia-se a mais feliz das mulheres. Saudosa de suas irmãs, pediu ao marido para vê-las. Zéfiro encarregou-se de levá-las ao palácio. Invejosas da riqueza e felicidade de Psiquê, as jovens insinuaram a dúvida em seu coração. Declararam que o homem que ela desconhecia devia ser o monstro previsto pelo oráculo. Aconselharam-na, então, a preparar uma lâmpada e uma faca afiada: com a primeira, veria o rosto do marido; com a segunda, poderia matá-lo, se fosse mesmo o monstro. À noite, enquanto Eros dormia, Psiquê apanhou a lâmpada e iluminou-lhe o rosto. Viu, então, o mais belo jovem que já existira. Emocionada com a descoberta, deixou cair uma gota do óleo da lâmpada no ombro do deus. Este despertou sobressaltado e foi embora, para não mais voltar. Afastando-se, disse-lhe em tom de censura: “O amor não pode viver sem confiança”.
Cheia de dor, a jovem pôs-se a errar pelo mundo, implorando o auxílio das divindades. Entretanto, como não quisessem desagradar a Vênus, nenhuma delas a acolheu. Psiquê resolveu dirigir-se à própria Vênus. A deusa encerrou-a em seu palácio e impôs-lhe os mais rudes e humilhantes trabalhos: separar grãos misturados; cortar a lã de carneiros selvagens; buscar um frasco com a água negra do rio Estige. Na primeira tarefa, Psiquê foi ajudada pelas formigas. Na segunda, os caniços da beira de um regato sugeriram-lhe que recolhesse os fios de lã deixados pelos carneiros nos arbustos espinhosos. E, na terceira, uma águia tirou-lhe o frasco da mão, voou até a nascente do Estinge e trouxe-lhe o líquido negro. Finalmente, Vênus incumbiu-a de ir aos Infernos para obter um pouco da beleza de Prosérpina. Uma torre descreveu-lhe o itinerário para o reino das sombras. Orientou-a também para pagar o óbolo ao barqueiro Caronte e abrandar a ferocidade d cão Cérbero, oferecendo-lhe um bolo.
Bem sucedida na prova, Psiquê voltava com a caixa contendo a beleza, quando resolveu abri-la. Imediatamente foi tomada de um profundo sono. Eros, que a procurava, acordou-a, picando-a com a ponta de uma flecha. Em seguida, o deus do amor dirigiu-se ao Olimpo e pediu a Júpiter para esposar a mortal. Foi atendido, mas antes, era preciso que Psiquê recebesse o privilégio da imortalidade. O próprio Júpiter ofereceu ambrosia à jovem, tornando-a imortal. O casamento celebrou-se solenemente entre os deuses. Da união de Eros e Psiquê nasceu a Volúpia.”
Dicionário de Mitologia Greco-Romana

julho 16, 2011

De cinema e de lembranças II

"Cinema é a maior diversão". Este era o slogan de Luiz Severiano Ribeiro que, se não era o único distribuidor, era o proprietário dos Cines São Luiz. Naquele tempo, em que ir ao cinema era um "evento", exigia-se que os frequentadores se trajassem  à altura de um espetáculo da "sétima arte"! Dos homens era exigido usar paletó (havia a possibilidade de alugá-los numa loja próxima), enquanto as mulheres desfilavam nos seus vaporosos vestidos (antes de conhecerem o tubinho e a mini-saia). As amplas e luxuosas salas de espera eram decoradas com lustres que pareciam os de Versalhes!!! 
Todos queriam ver e ser vistos, no meio do frisson que  antecedia o apagar das luzes para o início solene da sessão (sem cheiros de pipoca nem ranger de embalagens). A abertura das pesadas cortinas vermelhas era anunciada pela cessação da música. Durante muitos anos se ouviu o LP  "metais em brasa" cuja melhor faixa era a música do filme "O Homem do Braço de Ouro" que ficava no Lado A. Ou isto era no cinema do interior? Já me confundo...
Aos domingos, antes do "show da vida" segurar as pessoas em frente à TV, a sessão das oito era a mais concorrida. Havia quem aproveitasse a ida ao centro para comprar, na banca de revistas da praça, o jornal "do sul", que só chegava mesmo à noite. Notícias fresquíssimas diante das "Notícias da Semana" que víamos, achando natural, por meses seguidos, junto com o trailer dos filmes que seriam lançados. Um parêntese para contar que havia quem falasse alto "eu venho" e em resposta irritada se ouvia   "traz tua irmã". Que molecagem!!!
Mais do que divertir, alguns filmes eram, sem sombra de dúvida, especiais e a maioria deles marcava a vida das pessoas. Passava os chamados filmes "épicos" (de tão longos, em alguns havia intervalo), "de guerra", faroeste, suspense e dramas que, em geral, eram adaptados de romances de autores consagrados. Roteiros originais ainda eram poucos. Em geral, os enredos permitiam distinguir claramente  o bandido do mocinho, vilania não era atributo disseminado entre as personagens. Na luta do bem versus mal, adivinha quem vencia? E estórias de amor havia sempre o happy end. Das vidas das estrelas e galãs hollywoodianos só nos era dado conhecer o lado glamouroso. Os studios metro (do leão, hoje se sabe que também era gay), condor (ouvia-se um "xô"na platéia para fazê-la voar) passavam uma imagem que, depois se veio a saber, não correspondia à realidade de muitos deles. Por outro lado, não eram censurados os filmes faroestes apesar de suas ferozes matanças de índios. Uma violência que, segundo os códigos morais vigentes, não nos parecia gratuita e por isso não chocava. Minha mãe não gostava de faroeste. Queixava-se de que havia muita poeira o que a fazia passar o filme espirrando. Efeitos especiais só muito depois foram chegando, para felicidade de meu irmão que saía do cinema de mãos molhadas de tanto suor e emoção. Para mim, aquilo era ficção "científica". Até hoje não aprecio. 
Durante a semana, o filme era comentado em quase todas as rodas. Não ir ao cinema era um 'castigo' e uma perda irrecuperável. Quando iria passar novamente? Para assegurar que menores não assistissem "filmes impróprios", um representante do "juizado" se mantinha na entrada do cinema. Ali permanecendo até os vinte primeiros minutos de seu início (marcado pelo apagar das luzes). Uma descoberta providencial para quem aos quinze anos se interessava por todo tipo de  filme, não excluindo os 'censurados'que, de tão ingênuos,  hoje passariam na TV aberta, na sessão da tarde. Se no filme havia uma boa trilha sonora, o que não era raro, então nos deixava maravilhados e nos levava a assistir mais de uma vez. Só Freud explica, ter insistido tanto com meu pai para  assistir comigo O Candelabro Italiano. Foi a única vez que fomos juntos ao cinema.
Estas lembranças me ocorrem a propósito do comentário deste filme e de um email que recebi de um amigo em que diz haver assistido  dezoito filmes nos últimos dias, todos em DVD! Falava de sua nostalgia, inclusive das bolinações que no'escurinho do cinema', longe dos olhares indiscretos e repressivos, aconteciam.
Mas a postagem seria sobre o que dizem de HANAMI - Cerejeiras em Flor que me pareceu ser um filme "das antigas". Daqueles que tocam, além dos olhos, a alma e o coração.
Uma amiga disse no FB ser "pungente"! 
À primeira vista parece estranho que uma produção alemã aborde a cultura japonesa em sua essência. Segundo os "críticos", bastam alguns minutos de Hanami – Cerejeiras em Flor para entender o porque da escolha da terra do sol nascente como pano de fundo para uma trama sensível e rica em simbolismos.
Ainda que trate , sem meias palavras, temas como velhice,  solidão e  morte, a abordagem tem uma certa leveza...Vamos conferir!?

junho 20, 2011

Cinema, cheiros e lembranças

Estas divagações começaram a propósito do filme INFIEL, da Liv Ulman, roteiro de Ingmar Bergman, que foi objeto da coluna do Pondé desta segunda feira(post que antecede a este). Não me parecendo apropriado, transferi para cá, porém continuam lá as imagens da cena do'abandono'(não localizei o trailer) ...
As emocionantes (e emocionadas) imagens nos remeteram à uma observação de Woody Allen, a propósito do cinema americano, expostas no projeto que deu origem ao felliniano Memórias. Segundo ele, e não temos como discordar, filme americano não reproduz rostos e ações de pessoas comuns. Criam personagens míticas, charmosas, que vivem situações fantásticas e, por isso, seus intérpretes permanecem no imaginário coletivo. Tal idéia é diametralmente, oposta ao chamado 'cinema de diretor'. Estes (diretores) criam personagens que, antes de serem sensíveis e profundos, têm aparência de gente comum, como qualquer um de nós ali na platéia, no entanto, não raramente, nos levam à uma viagem (quase sempre dolorosa) rumo ao autoconhecimento...
Assisti o filme INFIEL  numa sessão,à falta de público, quase exclusiva, no Cine Luz, em Curitiba. De tanto tempo que faz, acredito que tenha sido logo após o seu lançamento(não tinha blog para registrar).

O Cine Luz situava-se na Pr.Santos Andrade, por um feliz acaso, na mesma quadra do prédio onde eu trabalhava, que ficava na esquina. Talvez o Luz não mais exista. Sabia-se que o prédio pertencia à Fundação Cultural de Curitiba, portanto não corria o  risco de sofrer o 'despejo' que, naquelas alturas, era uma ameaça que pairava sobre o Ritz. A sala era mau conservada e decadente,  os banheiros careciam de urgentes e básicos reparos que nunca eram realizados. Algumas poltronas já não tinham braços, o que me fazia pensar nos gordos e nos namorados que estariam livres daquela barreira. Deixava estes lugares para eles. Não sei se vinham à noite. O certo é que,  à tarde, não apareciam. No geral, era pouco frequentado o Luz. Inexistindo ar condicionado, ficava gelado no inverno e uma estufa no verão. Aquele já era um tempo em que os jovens não mais namoravam, menos ainda no 'escurinho do cinema'. Por outro lado, no Luz não passava blockbusters, nem se vendia pipoca(para nós,cinéfilos,aqueles baldes de pipoca são uma afronta, uma heresia,um horror!) O certo é que o cheiro do decadente Luz era outro: cheirava a mofo. Alguma vez chegou a não haver sessão por  'falta de luz'. Logo no Luz!!? Mas a qualidade dos filmes nos fazia assíduos e fiéis...
Em qualquer destes meus dias dedicados ao prazeroso ócio, vou tomar pé acerca do destino que tiveram àqueles velhos cinemas de rua : o Astor e o Condor foram os primeiros a sucumbir, dando lugar a bingos. Tinha ainda o Plaza, o Bristol, o Avenida...Ia esquecendo o Palace e o Itália que ficavam na cobertura do CCI .
As salas da Fundação sobreviveram um pouco mais. O Ritz, ficava no calçadão da XV (a rua das flores) no subsolo da C&A , no tempo em que havia em frente um Franz Café, onde os encontros eram marcados. Depois nem isto. O café mudou para a Praça Espanha e ali passou a ser inconveniente andar à noite ou nos fins de semana, quando as lojas estavam fechadas. Não bastasse isto, atravessar a Praça Osório, à noite, a caminho de casa, transformou-se numa arriscada aventura. Mas voltando ao Ritz, não imagino que se tenha transformado em 'igreja'. Afinal, aquela porta estreita dando para aquele subsolo, não condiz com a fachada de um mercado de milagres. Estaria mais para catacumba....
A sala da Cinemateca deve ter sobrevivido.

Ficava (ou fica) no espaço que tem pretensão de 'museu do cinema'(expõe algumas projetores antigos). A sala da Cinemateca tinha um cheiro  inconfundível de borracha, para mim cheirava à borracha de pneus (me dou conta, de serem os modernos pneus totalmente inodoros). O revestimento do piso exalava aquele odor forte e enjoativo que,lá pelas tantas, mergulhada na telona, eu conseguia abstrair. O que durava até as luzes reacenderem. Quebrado o encanto, tinha que sair rápido pois o cheiro do ambiente  me deixava nauseada.
Nem bem concluía esta postagem, saí em busca de  imagens dos cinemas e, sem querer me deparei com esta notícia recente: leia aqui

maio 31, 2011

Direto do coração

Recebi este texto via e-mail. Reconhecendo-me nele,  em algumas passagens, quebrei a ´corrente´e trouxe-o para cá.

"Nunca trocaria meus amigos surpreendentes, minha vida maravilhosa, minha amada família por menos cabelos brancos ou uma barriga mais lisa.
Enquanto fui envelhecendo, tornei-me menos crítica  e mais amável comigo mesma ...
Não me censuro por comer biscoito extra,  por não fazer a minha cama ou pela  compra de algo bobo, de que  não precisava, como uma escultura de cimento, mas que parecia tão ´avant garde´ no meu pátio. Tenho direito de ser desarrumada, de ser extravagante...
Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento.
Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo ou jogar no computador até as quatro  horas e dormir até meio-dia?
Dançarei ao som daqueles sucessos maravilhosos dos anos 60 /70. E se , ao mesmo tempo, desejo  chorar por um amor perdido ... ?
Eu vou.
Vou andar na praia em um maiô excessivamente esticado sobre um corpo decadente, e mergulhar nas ondas com abandono, se eu quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros. Eles, também, vão envelhecer.
Sei que eu sou,  às vezes,  esquecida.
Mas, há mais algumas coisas na vida que devem ser esquecidas.
Eu me recordo das coisas importantes.
Claro, ao longo dos anos, meu coração foi quebrado.
Como não pode quebrar seu coração quando você perde um ente querido, ou quando uma criança sofre, ou mesmo quando algum amado animal de estimação é atropelado por um carro? 

Mas, corações partidos são os que nos dão força, compreensão e compaixão.
Um coração que nunca sofreu é imaculado e estéril e nunca conhecerá a alegria de ser imperfeito.
Sou tão abençoada por ter vivido o suficiente para ter meus cabelos grisalhos e ter os risos da juventude gravados para sempre em sulcos profundos em meu rosto.
Muitos nunca riram, muitos morreram antes de seus cabelos virarem prata.
Conforme você envelhece, é mais fácil ser positiva. Preocupar-se menos com o que os outros pensam. 

Não me questiono mais. Ganhei o direito de estar errada.
Assim, para responder sua pergunta, eu gosto de ser velha. Me libertei.
Gosto da pessoa que me tornei. Não vou viver para sempre, mas enquanto ainda estou por aqui, não vou perder tempo lamentando o que poderia ter sido nem me preocupar com o que será.
Vou comer sobremesa todos os dias (se me apetecer)."
E, quem sabe, ainda me apaixonar!!!

março 27, 2011

Saídos da internet

Tenho um amigo  que   ri  com muita frequência  (será verdade que os gordinhos riem mais?) . Não sendo  uma amizade  virtual sei  o que o faz  rir. Além de o seu riso ser  fácil, ele  ri, gostosamente,  em alto e bom som .  Estes risos, sorrisos ou mesmo gargalhadas  são manifestados no feicebuque  com  "LOL"  que ele escreve, junto, separado, grande, pequeno,  muitos ou poucos. Enfim, estão sempre lá e eu os entendia e aceitava. É imensurável a boa vontade que se deve ter com as idiossincrasias dos amigos... pois não?   Afinal de contas, quando  o Papai Noel  ri  é   Ho!H0!Ho!  Os " lol, lol, lol"  dele, no  contexto,  eram  as suas grandes risadas e pronto.
Estou, literalmente, estarrecida. Fiquei sabendo que existe um  " ingles   da internet",  que ainda não chegou  aos dicionários. Neste novo  dialeto,  além deste   LOL , existem outros termos como WAG,  FYI  e outros.
Como dizem que o dia em que não se aprende nada é um dia desperdiçado,  hoje já cumpri a minha cota.
Não vou  deixar de tomar satisfação com meu amigo prof de ingles  (viu Tom?) . Ele vai se justificar bonitinho por  ter me deixado  sem saber uma coisa tão importante (ops!). Ou ser por mim 'esnobado' por haver  aprendido antes dele, que vai ter que engolir aquele seu  by the way!!!  Omg !!! (já  aplicando meus novos conhecimentos) Tbh  acho que vai ser a primeira opção... ;(

março 26, 2011

Viajar é uma aventura da alma



Quando penso em visitar um país (ou uma cidade) incluo no projeto leituras relacionadas. Não só  informações turísticas e culturais, guias de sobrevivência, blogs,  um pouco de história, bem como  literatura -  cinema,  desde que  possível.*
Assim, no fim do ano passado, ao começar a pensar em ir a Istambul ( viagem que acontecerá no próximo abril)  a leitura óbvia foi o livro homônimo, do escritor turco ganhador do prêmio Nobel (em 2006) Orhan Pamuk . Embora  traga fotografias, reflexões sobre arte e história, a meu ver, não deixou de ser um livro de memórias, de suas memórias. 

Recentemente, deparei-me com O Selo do Sultão de Jenny White. A autora tem diversas obras não ficcionais (este é o seu primeiro romance) sobre a sociedade e a política da Turquia. 

 O Selo do Sultão tem lugar no panorama cultural e histórico da Turquia do século XIX . As referências (orelhas e contracapa) permitem que se espere um breve aprofundamento na milenar e maravilhosa cultura turca,  uma confluência de tradições árabes, armênias e bizantinas. 

No entanto, a trama se desenrola em torno da morte, em  circunstâncias inexplicáveis, de duas preceptoras inglesas do palácio real. Uma delas portava uma jóia com a marca exclusiva do sultão (daí o título). 

 Quem gosta de mistérios policiais vai ter prazer em se distrair com o livro. Cheguei ao 'meu' suspeito tão logo este apareceu em cena. Tem todo o estereótipo. Ainda não se confirmou como sendo o assassino pois são 389 páginas e li apenas 125. Para o seu genêro, até que não é um mau romance.... 
Acontece que  nele também não encontro  o cheiro das especiarias, a textura das sedas e o turbilhão de sentimentos que isto em mim desperta.  A autora  não explora a beleza, a magia, os mistérios de Istambul (toda cidade tem seus mistérios, que o diga o Zafon que tão bem explorou os de Barcelona). 
Meu 'faro' é bom, mas  as vezes  falha... 
* BAL (trailer)

dezembro 11, 2010

VARANASI

"E pensar
que enquanto brinco com idéias duvidosas,
a cidade que canto persiste
em um lugar predestinado do mundo ,
com sua topografia precisa,
povoada como um sonho"
'Benares' , JL Borges



Acabo de ler   Morte em Varanasi   que  faz parte do  livro, - embora  constitua uma narrativa independente,  Jeff em Veneza   de  Geoff Dyer.  Encerrada a sua leitura  fiquei  curiosa por  'rever' as cenas  e paisagens  descritas.  Escrevi  Varanasi no google. As imagens  com as quais terminei por montar este slide,  confirmam o quanto  Varanasi  foi bem  descrita.  Lamento que não possam retratar os (maus)  odores,  ruídos, confusão  e poeira. Enfim, o caos.   Não  encontrei  em nenhuma delas  a presença de  animais: macacos (muito à  vontade entregues à sua macaquice, contribuindo  para o clima geral de doença),  vacas (sagradas), cachorros (fonte de constante e horrorizado fascínio dos visitantes) , cabras, passarinho, burro, pato e  gansos ("em certos lugares era provável que houvesse merda até de deus"),  além das muitas pipas  e  extravagantes deuses (as) -  algumas com cabeça de elefante que viajam montados em ratos ...
 O personagem (e  narrador)  é um jornalista  ingles  que  foi enviado a Varanasi  para escrever um artigo de turismo sobre a cidade e termina  'engolido' por ela.
 "Olhei livros sobre Varanasi, mas havia mais coisas do que eu poderia ter a esperança de absorver. Era onde Shiva resolvera morar. Era onde o mundo começara.  O cruzamento (tirthas) eram sagrados, certos cruzamentos eram especialmente auspiciosos, mas toda Varanasi era um cruzamento, entre este mundo e o próximo.  Basicamente, não havia lugar na Terra  que valesse mais a pena visitar, muito embora, em certo sentido, Varanasi não fosse deste mundo....
A  totalidade do tempo estava ali - e provavelmente do espaço também.  A cidade era uma mandala, um cosmograma. Ela continha o cosmos."
....Eu não renunciei ao mundo; simplesmente fui ficando menos interessado em certos aspectos dele, menos envolvido com ele, e essa diminuição de interesse foi aos poucos correspondida. É assim que funciona. O mundo para de escolher  você; você  para de se sentir escolhido pelo mundo".
...Algumas pessoas param de acreditar que a felicidade cruzará seu caminho. A ponto de me tornar uma delas, comecei a aceitar  que meu destino era ser infeliz. Mas o que aconteceu em Varanasi foi que alguma coisa acabou eliminada da equação, de forma que não havia nada em que a infelicidade pudesse se prender. Essa alguma coisa era eu.  Eu tinha enganado o destino.....Eu realmente não quero dar a impressão de ser alguém que se   recuperou, ou se converteu, ou  despertou. Só estou dizendo que em Varanasi eu não sentia mais que estava esperando. A espera terminara. Acabara. Eu tinha me eliminado da equação."    

Cada vez  me interesso  menos em visitar a  Ìndia  e  tenho mais dificuldade em  pensar nela  como país emergente....

outubro 27, 2010

1964


Quando vejo uma imagem como esta me espanto pensando em como, numa época que não existia tantas mídias, morando no interior do Ceará, tenho fotos desse mesmo ano de 64, usando este cabelo, maquiagem, etc. Observe como a Amy Winehouse não criou nada...:)

julho 17, 2010

La tapenade noire au basilic

Une recette facile de tapenade aux olives noires, qui sent bon la Provence. A tartiner sans modération. Pour 6 personnes.
Ingrédients: 250 g d'olives noires dénoyautées, 3 filets d'anchois, 1 cuillerée à café de câpres, 2 gousses d'ail, Huile d'olive (à votre goût),1 poignée de feuilles de basilic.
Mettez tous les ingrédients dans un mixeur et mélangez jusqu'à l'obtention d'une pâte onctueuse en ajoutant progressivement l'huile d'olive.
Remuez de temps en temps avec une cuillère, afin que l'ensemble soit homogène. La texture ne doit pas être complètement lisse, mais encore granuleuse, afin d'exprimer pleinement saveurs et arômes.


Nota: O blog funciona como meu banco de memória, onde tenho arquivado as coisas de que gostaria de continuar lembrando (embora tenha medo de um dia sequer reconhecê-lo). Como não sabemos o que nos espera, vou fazendo os meus registros.
Talvez seja interessante explicar que este comentário se deve à provocação de uma amiga (via email). Ela reclama de eu não me manifestar a propósito dos textos postados, se concordo ou desaprovo. Enfim, pede-me uma crítica...(que seria ótimo de acontecer nos deliciando com um rouge!?)
Na verdade, não são poucas as vezes em que gostaria de eu própria ser o (a) autor (a) deles. Noutras, apraz-me imaginar o quanto certas idéias provocativas devem incomodar aos conservadores e hipócritas. Nada disto é importante mas, em ambos os casos, leio, ocupo meu tempo e minha cabeça e, por que não? me divirto :)
No geral, observa-se que a maioria das postagens, em prosa ou em verso, é simplesmente, poesia...com umas pitadas de romantismo, paixão, irreverência e, eventualmente, alguma melancolia. Desta, depois de uma certa idade, ninguém escapa, variando apenas o grau, o nome que se dá a ela e a dificuldade de cada um(a) em se reconhecer na situação.
O resto é puro deleite...Basta de divagações!
Na Provence, destino de minha primeira viagem como aposentada, se encontra tapenade nas feiras, de vários sabores e aromas. Estava lendo o L'Express.fr quando me deparei com esta receita fácil para tapenade de azeitonas pretas, que cheira a Provence. Bateu uma vontade...
Não consigo traduzir tartiner, mas fique com espalhar, lambuzar bem muito e troque esta 'limonadinha' (da foto) por um rosé. Quiçá um pastis. Ça va mieux!
Vamos ao que interessa:
Rendimento: 6 porções (para pessoas não esgalamidas)
Ingredientes:
250 g de azeitonas pretas sem caroço
3 filés de anchova
1 colher de chá de alcaparras
2 dentes de alho
Azeite (a gosto)
1 punhado de folhas de manjericão
Coloque todos os ingredientes no liquidificador e bata até obter uma pasta lisa gradualmente adicionar o azeite.
Mexa, de vez em quando, com uma colher para que fique uma pasta homogênea. A textura não deve ser completamente lisa, mas granular, para expressar os sabores e aromas.

Huuuuuuuuuummmmmmmmmmmmmm....

junho 17, 2010

Tapajós

Desde que passei a ficar atenta a como se envelhece, percebo que alguns velhos, quando têm para quem, contam suas estórias e iniciam seus relatos com a expressão “ Certa ocasião...” ui!
Dou por mim contando estórias e me policiando para evitá-la. Mas caio em outras armadilhas do gênero. Das tantas repetidas vezes em que, numa mesma conversa, explicava que numa certa idade bla, bla, bla....ou a partir de uma certa idade....bla bla bla , me veio o nome para o blog .
Há outras. Pois bem, (esta então!) ontem à noite atravessei o país do sul ao norte. Troquei de avião mais de uma vez, mudei de fuso horário, retornei ao anterior e não preguei o olho, o que atribuo a um café forte que tomei no aeroporto de Floripa (numa certa idade,café à noite, dá nisto!)
Depois de ler a revista de bordo, me cansar do livro que trazia, apaguei a luzinha que parecia nem incomodar ao vizinho que dormia a sono solto. Insone, me pus a pensar: o Tapajós seria um afluente da margem esquerda ou da margem direita do Amazonas? Tentei recuperar a lição (tomava-se a lição!)... Juruá, Purus, Madeira e Tocantins...tinha ainda o Negro, o Xingu e o Tapajós. Mas de que margem seriam uns e outros?
Sou do tempo que a gente tinha que saber coisas como esta, além das capitais e as principais cidades de cada país do mundo. Quem fez 'exame de admissão' ao Curso Ginasial não só conhecia pelos nomes, como sabia localizá-los no mapa que vinha desenhado nas provas. Estávamos, assim, considerados aptos a prosseguir na decoreba: as declinações Rosa, rosæ ...do latim, uma língua que nos diziam ser morta, o que para quem tinha 10 anos, não fazia o menor sentido aprender.
Foram tantas as informações que atravessei a vida sem nunca precisar delas e eis que, um belo dia, a caminho daquela que é conhecida como a ' pérola do Tapajós', me deparo, no meio da noite, com esta dúvida atroz.
Fui ver o próprio, antes mesmo de ter oportunidade de perguntar ao Google a questão que passou a ser da maior relevância: afinal, em qual margem estamos?

junho 11, 2010

O FILHO DA MÃE


Diferentemente do Chico que não foi à Budapeste para escrever o romance homônimo, Bernardo Carvalho viajou à São Petersburgo para escrever uma história de amor. Escreveu sobre o amor mais devastador que, ao suspender qualquer noção de justiça, pode dar origem às guerras: o amor entre mãe e filho.
“....As mães tem mais a ver com as guerras do que imaginam. É o contrário do que todo mundo pensa. Não pode haver guerra sem mães. Mais do que ninguém, as mães tem horror a perder (….)
Todo mundo tem mãe. Até o pior canalha, o pior carrasco. Não deixa de ser uma espécie de fanatismo.”

Em O FILHO DA MÃE , sem nunca perder de foco o motivo recorrente da maternidade e tendo como pano de fundo a guerra da Tchetchenia de 2003, volta-se à figura da mãe, retratada nas diversa estórias.
Não havia lido nada do Bernardo de Carvalho. Na semana passada, o ouvi numa entrevista/debate num programa da Antena 2 (emissora da RTP).
Agora, buscando entre os 'não lidos' da minha estante, deparei-me com este que recomendo. Havia sido deixado comigo no ano passado. Trouxe-me ótimas lembranças dos dias em que estivemos em Paris. Era primavera. Dele caíram pétalas vermelhas e o folder de uma galeria na Saint Honoré (Galerie Natalie Boldyreff!).
Na página 186, foi sublinhada pelo Huguinho :"As histórias de amor podem não ter futuro, mas têm sempre passado. É por isso que as pessoas se agarram a tudo o que as remete de volta ao que perderam".
Esta continuação fica por minha conta: " Os livros que elas leem sempre dizem respeito ao passado. Romances históricos, memórias, biografias, tudo tem que ser escrto em retrospectiva, senão não faz sentido. Ninguém quer ler o que está por vir, à beira do abismo. As pessoas precisam se agarrar ao que já conhecem. Os modernismos não podiam mesmo durar. Nem as revoluções. Ninguém vai construir uma casa à beira do abismo."


Nota: Link no título para ler o que o autor diz sobre sua obra e sua afirmação 'melodramática'.

maio 04, 2010

SEM SOLUÇÃO

É impossível ser feliz sozinho?

Por que tanto medo?
Você nasceu sozinho e sozinho baixará à sepultura, não tem jeito...
Por que tanta aflição?
Aquela história de que é impossível ser feliz sozinho foi criada apenas para solucionar o verso daquele cantor, como é mesmo o nome dele?
Está triste? Passa. Até uva passa...
Dói? Dói muito, a dor que deveras sente, porque dor de coração dói na alma, no braço, no calcanhar, no queixo, dói tudo e mais um pouco, porque a dor da alma de verdade é aquela que você cultivou para ser a não-dor, para ser o não-fim, para ser a lindeza de um amor tranquilo, e quando desaba, sai debaixo...
Mas por que tanto desespero?
O vazio do peito cresce e abarca, entope de tanta ausência?
Fazer o quê, meu caro, se o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou, não é?
Não?
Tem dúvidas?
E qual o amor que não resta dúvidas, qual o fim que deixa certezas, qual a vida que prescinde da morte e vice versa?
Olha, vai lá, sai pra rua, deixa pra trás essa poeira que, é bom que você saiba, nunca vai assentar, viu?
Levanta e anda, porque a paralisia só faz a dor doer ainda mais.
Corre, grita, arfa, xinga, morde e engole.
Pense em todas as besteiras que puder pensar, surte todos os surtos e suba e desça, encolha até virar uma fatia fininha de sentimento algum.
Porque a dor que deveras sente é a pior, meu amigo, a que mais dói.
A dor de quem fica enquanto o outro vai.
Ou dor de quem vai enquanto o outro fica.
Tanto faz.


LUIZ CAVERSAN

abril 19, 2010

Calçadas Portuguesas


Fotógrafos, pra lá de amadores - como eu, estão sempre preocupados em evitar ou eliminar o 'chão' que teima em aparecer em suas fotos. Em Portugal isto não precisa acontecer ….Ao contrário, as calçadas devem ser mostradas. São lindas! (link no título).
Ainda não vai ser hoje que irei caminhar sem que esteja sempre a olhar para o chão. A 'meteo' anuncia ' FOG'!!! E eu que pensava em fog como um 'fenômeno' londrino! Então, teremos ' fog à portuguesa' !
À moda portuguesa, ontem almocei cabrito! Nem só de bacalhau vive o homem...
Mas ainda no tema comida (acho que estou com fome), tenho reserva para o almoço no Bota Alta. Cheguei a pensar em desistir. O que era para ser um 'evento' memorável, acabou por perder o sentido, desde que a Islandia mandou dizer que existe.
Mas nem tudo é tragédia. Há momentos em que abre um sol maravilhoso. É só estar disponível para aproveita-lo enquanto dura. Não é por muito tempo. Quando isto acontecer, hoje, irei ao jardim botânico....
As fotos acima são da Praça do Rossio. O desenho de suas calçadas teriam servido de inspiração para as de Copacabana (!?). Tudo leva a crer...

abril 18, 2010

ARTE

Em Lisboa, onde me encontro para uns dias de ócio, tem chovido de vez em quando. À primeira vista, seria o que poderia me reter em casa por mais tempo. No entanto, o que tem me segurado mesmo é a TV!!!
Grande parte da 'mídia' eletrônica européia é pública (a maioria dos canais de TV são abertos). Os que não são públicos são americanizados. Próximo à entrada (que não se vê nas fotos da minha ' casa portuguesa'), há o aviso de que 300 estariam disponíveis (!).
O 'grande público', também aqui, dá preferência aos canais que transmitem as conhecidas baboseiras: programas de auditório comandados por 'celebridades', relatos de dramas familiares, novelas, 'faça vc mesmo', 'como emagrecer', sexo para tudo que é gosto e por aí vai. Vulgaridade é uma praga universal!
A 'salvação' está no Arte que é o canal franco-alemão para quem quer fugir da mesmice. No 'Artê' (como os franceses pronunciam) - sigla de "Associação relativa às televisões européias" – é onde se encontra o refúgio da inteligência, da cultura e do bom gosto.
A audiência do Arte deve ser próxima de um - (traço) , o que não é o mais importante para quem quer apostar no alto nível da programação. É bem verdade que os níveis de audiência do Arte só podem ser suficientes numa televisão sustentada por governos ricos, dispostos a fazer uma TV de qualidade.
Um canal de televisão com uma programação exclusivamente voltada para a cultura: 'filmes de arte' , concertos e documentários imperdíveis. Que outro canal pode se dar ao luxo de dedicar duas horas de seu horário nobre a um documentário sobre Nijinsky & Neumeier? Dentre outras preciosidades que tenho visto por aqui...
Chove em Lisboa ...'não estou nem aí'!

Nota: Para saber por onde anda a fumaça do vulcão tenho que ir a outros canais. O Arte não se permite a 'vulgaridade' dos noticiários...rsrsr
Link no título para um trechinho Neumeier's "Nijinsky" partes 1 e 2

abril 10, 2010

Fraseando entre sonhos e desejos

"Eu gostaria de ter nascido na Argélia. Quando você nasce na África do Norte, você sonha com a França, mas quando você nasce em Paris, não sonha com nada.”
(Sarkozy)

"Todos nós temos nossas máquinas do tempo. Algumas nos levam pra trás, são chamadas de memórias. Outras nos levam para frente, são chamadas sonhos."
(Jeremy Irons)

"Lembre-se de alguma coisa inútil ...
...é preciso amar o inútil: Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas; escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas: A música, este céu que nem promete chuva, aquela estrelinha que está nascendo ali...está vendo aquela estrelinha? Há milênios não tem feito nada, não guiou os Reis Magos, nem os pastores, nem os marinheiros perdidos. Não faz nada. Apenas brilha. Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. Pois é preciso amar o inútil, porque no inútil está a beleza. No inútil também está Deus!"

(Lygia Fagundes Telles)


"Só envelhecemos de verdade quando começamos a trocar nossos sonhos por arrependimentos".
(John Barrymore)

"As rugas devem indicar apenas onde os sorrisos estiveram".
(Mark Twain)

"A amizade é irmã do amor, mas não na mesma cama."
(Sophie Arnould)

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
(Clarice Lispector)

"O amor é quando a gente mora um no outro".
(Mario Quintana)

"Não escrevo para tornar a vida do meu leitor melhor. Escrevo e leio para não me sentir só".
(LF PONDE)

"É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas, e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido
em infinitamente angustiadas mãos, e abandonar até
o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.
É estranho não mais desejos desejar. Estranho,
passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,
tudo o que antes tinha unidade. Estar morto
é laborioso e cheio de recomeços, até que aos poucos
nos apercebamos da eternidade."

(RM Rilke)

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente".
Mário Quintana


Nota: Estas foram 'salvas' na última limpeza de minhas 'gavetas'...

março 17, 2010

"(...) é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir
é preciso chegar...
Ah, como esta vida é urgente!... no entanto
eu gostava mesmo era de partir...
e - até hoje - quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas."


Mário Quintana