Acontece de a gente esquecer (ou não saber?) que, para além de frutas, as fruteiras produzem lindas flores. Recebi estas imagens num email "Fruteiras em Flor". Tive o cuidado de manter o nome da fruta no cantinho esquerdo abaixo. Veja que lindeza!
outubro 15, 2009
O poder da vingança
"PODE SER que, ao longo da vida, você nunca tenha sido ofendido. Mas, para a imensa maioria dos humanos, não é assim. Quando crianças, esbarramos em adultos que parecem quase sádicos, na sua incapacidade de nos escutarem e entenderem; logo depois, encontramos os "bullies" da turma do fundão da sala de aula, da praia ou da rua. E assim continua.
A vida de cada um escolhe as encruzilhadas em que sofremos mil violências morais ou físicas, grandes ou pequenas. Com elas, em regra, não ganhamos nada, a não ser que a gente acredite numa justiça divina após nossa morte: quem sofre aqui na Terra será recompensado nos céus. Também podemos nos consolar com a ideia de uma "grandeza" moral que nos seria própria, pela "generosidade" com a qual aguentamos as ofensas, esquecendo-as ou mesmo oferecendo gentilmente o outro lado do rosto.
Mas resta uma dúvida (que compartilho com Nietzsche, "Genealogia da Moral", Companhia das Letras): nossa moral aparentemente generosa e a esperança de que Deus, um dia, recompense os ofendidos e puna os ofensores talvez sejam uma grande invenção coletiva, criada, justamente, para que as vítimas sejam confortadas e possam perdoar não tanto aos agressores, mas a elas mesmas, ou seja, perdoar a "covardia" da qual elas acabam se acusando, num eterno lamento por elas não terem revidado na hora.
Disse antes que, com as violências que sofremos, não ganhamos nada. Mas não é bem assim: o lamento de não ter revidado é uma das grandes fontes da ficção. Pense bem: inúmeras vezes, dias e mesmo meses a fio, depois de ter sido insultado, machucado, assaltado, empurrado real ou simbolicamente, você ficou imaginando e aprimorando, em seus detalhes, desfechos diferentes, nos quais você, na hora da ofensa, teria imediatamente resgatado sua honra e punido o agressor, deixando-o tão inerte e silencioso quanto você mesmo ainda lamenta ter ficado. Em suma, o desejo frustrado de se vingar é uma poderosa matriz narrativa, sobretudo nos devaneios privados, em nosso cinema de bolso, que fica escondido por ele ser pouco conforme com os ditados da moral dominante.
Quentin Tarantino, com "Bastardos Inglórios" (que acaba de estrear e é um de seus melhores filmes), leva esse cinema de bolso para as salas: é uma verdadeira festa de vingança, uma fantasmagoria cuja violência é alegre e libertadora.
A história contada não cola direito com os fatos da Segunda Guerra Mundial? Você acha curioso que um bando de soldados dos EUA, infiltrados na França ocupada pelos nazistas, aja como índios apaches saídos de um bangue-bangue, recolhendo os escalpos dos que conseguem matar? Ou se surpreende com o fato de que eles marquem com uma suástica na testa os poucos que eles decidem poupar?
Pois é, reconheçamos a Tarantino a mesma liberdade que nós nos permitimos em nossos devaneios de vingança.
Para o que serve essa liberdade de imaginar? Talvez as ficções e, em particular, o cinema (de bolso ou de sala) tenham algum poder de alterar a história, fazendo justiça, por exemplo. Não digo isso apenas porque, em "Bastardos Inglórios", a vingança final acontece graças a uma sala de cinema. E, é claro, sei que os devaneios, em geral, não se realizam mas também sei que eles nunca são vãos, simplesmente porque são o alimento de nosso desejo.
Um outro filme, lindíssimo, conta com uma distribuição limitada e talvez não chegue às salas do Brasil inteiro (no caso, anote o título e espere o DVD): "Deixa Ela Entrar", de Tomas Alfredson. É um filme sueco, que é apresentado como uma história de terror, e é verdade que há um vampiro no filme. Mas o meu prazer de espectador foi outro...
Acho que já contei: quando era criança, eu tinha uma pequena orquestra imaginária, que levava sempre comigo. Ela me servia para combater o tédio, sobretudo quando acompanhava meus pais em intermináveis visitas a museus. Passei bom momentos com a minha orquestra, mas confesso que teria adorado ter também outros amigos imaginários, mais eficientes na hora dos apuros. Uma vampira que gostasse de mim teria sido perfeita. Já imaginou? Alguém que saísse das sombras e arrancasse os pescoços, as cabeças e os braços dos idiotas que me azucrinavam a vida?
Pois é, "Deixa Ela Entrar" é a história de um menino que tem (ou inventa?) a amiga imaginária da qual ele precisa, para se vingar. De uma amiga assim, todos precisamos."
CONTARDO CALLIGARIS
A vida de cada um escolhe as encruzilhadas em que sofremos mil violências morais ou físicas, grandes ou pequenas. Com elas, em regra, não ganhamos nada, a não ser que a gente acredite numa justiça divina após nossa morte: quem sofre aqui na Terra será recompensado nos céus. Também podemos nos consolar com a ideia de uma "grandeza" moral que nos seria própria, pela "generosidade" com a qual aguentamos as ofensas, esquecendo-as ou mesmo oferecendo gentilmente o outro lado do rosto.
Mas resta uma dúvida (que compartilho com Nietzsche, "Genealogia da Moral", Companhia das Letras): nossa moral aparentemente generosa e a esperança de que Deus, um dia, recompense os ofendidos e puna os ofensores talvez sejam uma grande invenção coletiva, criada, justamente, para que as vítimas sejam confortadas e possam perdoar não tanto aos agressores, mas a elas mesmas, ou seja, perdoar a "covardia" da qual elas acabam se acusando, num eterno lamento por elas não terem revidado na hora.
Disse antes que, com as violências que sofremos, não ganhamos nada. Mas não é bem assim: o lamento de não ter revidado é uma das grandes fontes da ficção. Pense bem: inúmeras vezes, dias e mesmo meses a fio, depois de ter sido insultado, machucado, assaltado, empurrado real ou simbolicamente, você ficou imaginando e aprimorando, em seus detalhes, desfechos diferentes, nos quais você, na hora da ofensa, teria imediatamente resgatado sua honra e punido o agressor, deixando-o tão inerte e silencioso quanto você mesmo ainda lamenta ter ficado. Em suma, o desejo frustrado de se vingar é uma poderosa matriz narrativa, sobretudo nos devaneios privados, em nosso cinema de bolso, que fica escondido por ele ser pouco conforme com os ditados da moral dominante.
Quentin Tarantino, com "Bastardos Inglórios" (que acaba de estrear e é um de seus melhores filmes), leva esse cinema de bolso para as salas: é uma verdadeira festa de vingança, uma fantasmagoria cuja violência é alegre e libertadora.
A história contada não cola direito com os fatos da Segunda Guerra Mundial? Você acha curioso que um bando de soldados dos EUA, infiltrados na França ocupada pelos nazistas, aja como índios apaches saídos de um bangue-bangue, recolhendo os escalpos dos que conseguem matar? Ou se surpreende com o fato de que eles marquem com uma suástica na testa os poucos que eles decidem poupar?
Pois é, reconheçamos a Tarantino a mesma liberdade que nós nos permitimos em nossos devaneios de vingança.
Para o que serve essa liberdade de imaginar? Talvez as ficções e, em particular, o cinema (de bolso ou de sala) tenham algum poder de alterar a história, fazendo justiça, por exemplo. Não digo isso apenas porque, em "Bastardos Inglórios", a vingança final acontece graças a uma sala de cinema. E, é claro, sei que os devaneios, em geral, não se realizam mas também sei que eles nunca são vãos, simplesmente porque são o alimento de nosso desejo.
Um outro filme, lindíssimo, conta com uma distribuição limitada e talvez não chegue às salas do Brasil inteiro (no caso, anote o título e espere o DVD): "Deixa Ela Entrar", de Tomas Alfredson. É um filme sueco, que é apresentado como uma história de terror, e é verdade que há um vampiro no filme. Mas o meu prazer de espectador foi outro...
Acho que já contei: quando era criança, eu tinha uma pequena orquestra imaginária, que levava sempre comigo. Ela me servia para combater o tédio, sobretudo quando acompanhava meus pais em intermináveis visitas a museus. Passei bom momentos com a minha orquestra, mas confesso que teria adorado ter também outros amigos imaginários, mais eficientes na hora dos apuros. Uma vampira que gostasse de mim teria sido perfeita. Já imaginou? Alguém que saísse das sombras e arrancasse os pescoços, as cabeças e os braços dos idiotas que me azucrinavam a vida?
Pois é, "Deixa Ela Entrar" é a história de um menino que tem (ou inventa?) a amiga imaginária da qual ele precisa, para se vingar. De uma amiga assim, todos precisamos."
CONTARDO CALLIGARIS
outubro 14, 2009
M A U C
Estas são algumas das interessantes pinturas do artista cearense STENIO BURGOS que estão expostas no MAUC. Acredite: o museu só fica aberto no 'horário comercial' (fecha às 17hs.),de segunda a sexta! Será que nesta 'bela' capital nordestina lazer (cultural) tem que ser mesmo só forró? Durante todo o 'feriadão', o museu esteve fechado.Clicando no título, leia sobre o artista. 



outubro 13, 2009
O filme da semana
BASTARDOS INGLÓRIOS por JOÃO PEREIRA COUTINHO:
"SAIO DE casa para assistir a "Bastardos Inglórios", o último filme de Quentin Tarantino. Trinta minutos depois, a dúvida metafísica: sair ou não sair, eis a questão.
Decido ficar. Decido bem. A minha saúde pode não aguentar tanta risada. Mas, ó deuses, se eu morrer agora, morrerei feliz.
E morrerei feliz pelas exatas razões que perturbaram a crítica "séria" e "moralista", sobretudo na Europa. Quentin Tarantino parodiou a Segunda Guerra Mundial e transformou os judeus nos verdadeiros carrascos do processo?
O meu reino não é deste mundo. Envio apenas um conselho aos filistinos: quem quer saber história, estuda e lê história. Salas de cinema são salas de cinema. Repitam comigo. E repitam também: "Bastardos Inglórios" é, primeiro que tudo, um filme sobre o cinema. Ou, precisando, um filme sobre o poder literalmente salvífico e redentor que o cinema tem sobre a história.
Começa por ter esse poder na própria transfiguração da verdade. Vocês, caros leitores, estão habituados a filmes sobre o Holocausto onde os judeus são meros carneiros nas matanças nazistas? Filmes de um sentimentalismo vulgar que apenas diminui o sofrimento real e inimaginável, e por isso mesmo infilmável, dos judeus na Segunda Guerra?
"Bastardos Inglórios" começa por subverter o clichê: os judeus, agora, não são apenas vítimas; também são vingadores, matando nazistas com uma violência paródica e catártica. Liderados por um "redneck" da América profunda (Brad Pitt, primoroso), eles aterram na França ocupada para matar alemães como se matam ratazanas. À paulada.
Paralelamente às pauladas, encontramos também uma sobrevivente judia e francesa, Shosanna (Mélanie Laurent, primorosa), que também ajuda os "Bastardos". Depois de ver a própria família massacrada pelas "ratazanas", ela resolve tratar do assunto montando a sua vingança. Pelas chamas.
Não é fácil aceitar essa inversão essencial de papéis. Desconfio, aliás, que é exatamente por isso que a política defensiva de Israel, hoje, continua a provocar tanta fúria na consciência piedosa do mundo. Como é possível que os judeus, nossos eternos cachorrinhos de estimação, sejam também lobos contra os seus inimigos? Gostamos das vítimas enquanto elas são vítimas. Tarantino explode essa covardia suave.
Mas "Bastardos Inglórios" não se limita a usar o cinema para conceder uma retribuição fantasiosa às vítimas da história. Em "Bastardos Inglórios", é também no cinema, espaço físico de destinos alternativos, que se constrói um desfecho histórico alternativo.
Não sabemos o que teria sucedido à Alemanha se Hitler tivesse sido eliminado em 1939, ou em 1943, ou em 1944: três datas, três tentativas sérias. Provavelmente, o Reich teria desabado mais cedo. Mas sabemos que, em "Bastardos Inglórios", Hitler e seus gângsteres são eliminados na sala de cinema. Como se a sala de cinema fosse também um tribunal último, capaz de repor um simulacro de Justiça num mundo tão radicalmente injusto. Existe humor em Tarantino. Existe violência. Existe, palavra essencial, extravagância. Mas o amor ao cinema, como arte e possibilidade, é provavelmente maior do que a soma das três partes.
Disse humor, disse violência, disse extravagância exatamente por essa ordem. Reitero. Esse trio explica a minha estima literária por Tarantino, um diretor que, antes de pensar com imagens, pensa com palavras. Haverá algum diretor vivo que escreva diálogos como Tarantino?
Sim, Woody Allen seria um nome válido. Mas Woody Allen é um mestre do "punch line", essa procura desesperada da piada inesperada. Tarantino é um mestre das preliminares. Ele sabe que a piada está no adiamento da piada. Por isso os diálogos de Tarantino nos parecem tão luminosos, no sentido espiritual do termo: eles são a última exibição de racionalidade antes da carnificina irracional.
Em "Cães de Aluguel", os bandidos discutem o significado real do tema "Like a Virgin", de Madonna, momentos antes do assalto bancário que corre barbaramente mal. Em "Pulp Fiction", meditamos com Jules (Samuel L. Jackson) e Vincent (John Travolta) sobre o significado sexual de uma massagem nos pés, momentos antes de massacrarem um grupo de pagadores relapsos.
Em "Bastardos Inglórios", esse prazer sádico de esticar a corda é cultivado da primeira à última sequência. Como se os diálogos fossem meras antecâmaras de uma violência que se promete e anuncia.
E, quando ela chega, nunca a expressão "comic relief" foi tão apropriada."
"SAIO DE casa para assistir a "Bastardos Inglórios", o último filme de Quentin Tarantino. Trinta minutos depois, a dúvida metafísica: sair ou não sair, eis a questão.
Decido ficar. Decido bem. A minha saúde pode não aguentar tanta risada. Mas, ó deuses, se eu morrer agora, morrerei feliz.
E morrerei feliz pelas exatas razões que perturbaram a crítica "séria" e "moralista", sobretudo na Europa. Quentin Tarantino parodiou a Segunda Guerra Mundial e transformou os judeus nos verdadeiros carrascos do processo?
O meu reino não é deste mundo. Envio apenas um conselho aos filistinos: quem quer saber história, estuda e lê história. Salas de cinema são salas de cinema. Repitam comigo. E repitam também: "Bastardos Inglórios" é, primeiro que tudo, um filme sobre o cinema. Ou, precisando, um filme sobre o poder literalmente salvífico e redentor que o cinema tem sobre a história.
Começa por ter esse poder na própria transfiguração da verdade. Vocês, caros leitores, estão habituados a filmes sobre o Holocausto onde os judeus são meros carneiros nas matanças nazistas? Filmes de um sentimentalismo vulgar que apenas diminui o sofrimento real e inimaginável, e por isso mesmo infilmável, dos judeus na Segunda Guerra?
"Bastardos Inglórios" começa por subverter o clichê: os judeus, agora, não são apenas vítimas; também são vingadores, matando nazistas com uma violência paródica e catártica. Liderados por um "redneck" da América profunda (Brad Pitt, primoroso), eles aterram na França ocupada para matar alemães como se matam ratazanas. À paulada.
Paralelamente às pauladas, encontramos também uma sobrevivente judia e francesa, Shosanna (Mélanie Laurent, primorosa), que também ajuda os "Bastardos". Depois de ver a própria família massacrada pelas "ratazanas", ela resolve tratar do assunto montando a sua vingança. Pelas chamas.
Não é fácil aceitar essa inversão essencial de papéis. Desconfio, aliás, que é exatamente por isso que a política defensiva de Israel, hoje, continua a provocar tanta fúria na consciência piedosa do mundo. Como é possível que os judeus, nossos eternos cachorrinhos de estimação, sejam também lobos contra os seus inimigos? Gostamos das vítimas enquanto elas são vítimas. Tarantino explode essa covardia suave.
Mas "Bastardos Inglórios" não se limita a usar o cinema para conceder uma retribuição fantasiosa às vítimas da história. Em "Bastardos Inglórios", é também no cinema, espaço físico de destinos alternativos, que se constrói um desfecho histórico alternativo.
Não sabemos o que teria sucedido à Alemanha se Hitler tivesse sido eliminado em 1939, ou em 1943, ou em 1944: três datas, três tentativas sérias. Provavelmente, o Reich teria desabado mais cedo. Mas sabemos que, em "Bastardos Inglórios", Hitler e seus gângsteres são eliminados na sala de cinema. Como se a sala de cinema fosse também um tribunal último, capaz de repor um simulacro de Justiça num mundo tão radicalmente injusto. Existe humor em Tarantino. Existe violência. Existe, palavra essencial, extravagância. Mas o amor ao cinema, como arte e possibilidade, é provavelmente maior do que a soma das três partes.
Disse humor, disse violência, disse extravagância exatamente por essa ordem. Reitero. Esse trio explica a minha estima literária por Tarantino, um diretor que, antes de pensar com imagens, pensa com palavras. Haverá algum diretor vivo que escreva diálogos como Tarantino?
Sim, Woody Allen seria um nome válido. Mas Woody Allen é um mestre do "punch line", essa procura desesperada da piada inesperada. Tarantino é um mestre das preliminares. Ele sabe que a piada está no adiamento da piada. Por isso os diálogos de Tarantino nos parecem tão luminosos, no sentido espiritual do termo: eles são a última exibição de racionalidade antes da carnificina irracional.
Em "Cães de Aluguel", os bandidos discutem o significado real do tema "Like a Virgin", de Madonna, momentos antes do assalto bancário que corre barbaramente mal. Em "Pulp Fiction", meditamos com Jules (Samuel L. Jackson) e Vincent (John Travolta) sobre o significado sexual de uma massagem nos pés, momentos antes de massacrarem um grupo de pagadores relapsos.
Em "Bastardos Inglórios", esse prazer sádico de esticar a corda é cultivado da primeira à última sequência. Como se os diálogos fossem meras antecâmaras de uma violência que se promete e anuncia.
E, quando ela chega, nunca a expressão "comic relief" foi tão apropriada."
Querida Marina
"O VINICIUS ESCREVEU um poema intitulado "O Haver". O "Haver" era o nome de uma página dos antigos livros de contabilidade onde se registrava o que havia sobrado, o ganho, o "a receber", por oposição ao "Deve", onde se registravam as dívidas, o que deveria ser pago. É um poema de velhice, balanço do que sobrou na vida.
Eu também já estou no tempo de fazer o balanço entre as dívidas e os haveres. Minha vida se divide em três fases. Na primeira fase, o meu mundo era do tamanho do universo e era habitado por deuses, verdades e absolutos. A esperança que eu escrevia na página do "Haver" era do tamanho da luz do sol ao meio-dia.
Na segunda fase, meus haveres encolheram. Meu mundo passou a ser habitado por heróis revolucionários que portavam armas e cantavam canções de transformar o mundo. A esperança que iluminava o universo passou a iluminar apenas os horizontes da história.
Na terceira fase, mortos os deuses, mortos os heróis, mortas as esperanças teológicas e políticas, fiquei pobre de verdade e o meu mundo se encolheu mais ainda -e chegou não à sua verdade final, mas à sua esperança final, que teima em se alegrar com coisas pequenas.
A esperança é a última que morre. O Vinicius reconheceu essa chama entre os seus haveres e a chamou de "pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança".
Diferente do otimismo. O otimismo é "sorriso por causa de", quando há razões para sorrir. A esperança é "sorriso a despeito de", quando não há mais razões para sorrir.
A imagem que o Vinicius escolheu para descrever sua pequena esperança é comovente: "Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas, essa tristeza diante do cotidiano; ou essa súbita alegria ao ouvir passos na noite que se perdem sem história".
Álvaro de Campos escreveu um verso bruto: "E a luxúria única de já não ter esperanças?" Não ter esperança é estar em paz, não ter causas por que lutar, o fim do esforço... Viver o presente, o presente apenas, como se o futuro já não se anunciasse, como se fosse inútil saber o que ele anuncia.
A luz do círio aceso se transforma em sombras fantasmagóricas nas paredes arruinadas daquilo que, no passado, foi uma catedral onde moravam os deuses. Muitos deuses e muitos heróis moraram dentro de mim. Hoje, não sei onde se meteram... Sou uma catedral em ruínas... Mas aí eu ouço passos na noite...
Olho e vejo que alguém, no escuro, carrega uma chama. Me animo. Escrevo: é o meu jeito de soprar cinzas. Meu círio se acende. Fico alegre. A luz põe alegria no olhar.
O que é um olhar? O olhar não se encontra nos olhos. Não adianta olhar fundo nos olhos. O olhar não está lá. Foi Sartre que disse que "o olhar do outro esconde os seus olhos." Cecília Meireles confirma: "O sentido está guardado no rosto com que te miro". Não os olhos; o rosto... Os olhos, retirados do rosto, são peças anatômicas sinistras. O segredo do seu olhar mora no rosto com que miro você.
Quero ver o seu olhar, Marina. Quero ver o seu rosto, onde mora o sentido, e não dois olhos retirados do seu rosto. O seu rosto, moldura dos seus olhos, fala mais e diferente que os seus olhos. Não quero ver os seus olhos na televisão. Quero ver o seu rosto, onde mora o seu olhar..."
RUBEM ALVES
Eu também já estou no tempo de fazer o balanço entre as dívidas e os haveres. Minha vida se divide em três fases. Na primeira fase, o meu mundo era do tamanho do universo e era habitado por deuses, verdades e absolutos. A esperança que eu escrevia na página do "Haver" era do tamanho da luz do sol ao meio-dia.
Na segunda fase, meus haveres encolheram. Meu mundo passou a ser habitado por heróis revolucionários que portavam armas e cantavam canções de transformar o mundo. A esperança que iluminava o universo passou a iluminar apenas os horizontes da história.
Na terceira fase, mortos os deuses, mortos os heróis, mortas as esperanças teológicas e políticas, fiquei pobre de verdade e o meu mundo se encolheu mais ainda -e chegou não à sua verdade final, mas à sua esperança final, que teima em se alegrar com coisas pequenas.
A esperança é a última que morre. O Vinicius reconheceu essa chama entre os seus haveres e a chamou de "pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança".
Diferente do otimismo. O otimismo é "sorriso por causa de", quando há razões para sorrir. A esperança é "sorriso a despeito de", quando não há mais razões para sorrir.
A imagem que o Vinicius escolheu para descrever sua pequena esperança é comovente: "Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas, essa tristeza diante do cotidiano; ou essa súbita alegria ao ouvir passos na noite que se perdem sem história".
Álvaro de Campos escreveu um verso bruto: "E a luxúria única de já não ter esperanças?" Não ter esperança é estar em paz, não ter causas por que lutar, o fim do esforço... Viver o presente, o presente apenas, como se o futuro já não se anunciasse, como se fosse inútil saber o que ele anuncia.
A luz do círio aceso se transforma em sombras fantasmagóricas nas paredes arruinadas daquilo que, no passado, foi uma catedral onde moravam os deuses. Muitos deuses e muitos heróis moraram dentro de mim. Hoje, não sei onde se meteram... Sou uma catedral em ruínas... Mas aí eu ouço passos na noite...
Olho e vejo que alguém, no escuro, carrega uma chama. Me animo. Escrevo: é o meu jeito de soprar cinzas. Meu círio se acende. Fico alegre. A luz põe alegria no olhar.
O que é um olhar? O olhar não se encontra nos olhos. Não adianta olhar fundo nos olhos. O olhar não está lá. Foi Sartre que disse que "o olhar do outro esconde os seus olhos." Cecília Meireles confirma: "O sentido está guardado no rosto com que te miro". Não os olhos; o rosto... Os olhos, retirados do rosto, são peças anatômicas sinistras. O segredo do seu olhar mora no rosto com que miro você.
Quero ver o seu olhar, Marina. Quero ver o seu rosto, onde mora o sentido, e não dois olhos retirados do seu rosto. O seu rosto, moldura dos seus olhos, fala mais e diferente que os seus olhos. Não quero ver os seus olhos na televisão. Quero ver o seu rosto, onde mora o seu olhar..."
RUBEM ALVES
outubro 12, 2009
Coleções
Que me lembre, nunca tive coleção de nada. Naquele tempo, os meninos colecionavam flâmulas. Acho que eram de times de futebol.Tinham a forma de um triângulo pontudo.Não se usava pregar na parede dos quartos. Isto de cada um ter o seu quarto, o seu espaço, não existia na maioria das nossas casas.
Alguns colecionavam embalagens de 'carteiras' de cigarros (acho que importados) outros, chaveiros. Houve um tempo, depois que passou da moda o álbum do Marcelino Pão e Vinho, que as meninas colecionaram uns bonequinhos da Disney, trocados no distribuidor por tampas de coca-cola. Beber coca-cola era uma raridade. Os bonequinhos eram feitos de ' matéria plástica' branca. A gente inventava de pintá-los com as cores que eles tinham na revista em quadrinhos, mas nunca ficava muito bom. Depois eles começaram a vir coloridos, numa só cor. Alguns eram considerados 'fáceis'. A gente tentava trocar os repetidos...
No meu colégio de meninas católicas, algumas colecionavam 'santinhos'. Em geral, eram lembranças da primeira comunhão de amigas ou primas . Havia uns calendários com uns pequenos e coloridos que elas recortavam para 'enfeitar' os cadernos. Nunca gostei. No máximo, colava as florzinhas da embalagem do sabonete lux que vinham abaixo da foto das 'estrelas' de cinema ('nove entre dez usavam lux'). Do que eu gostava mesmo era de fazer "albúm de artista". Minhas tias eram professoras e usavam um 'diário de classe' onde registravam as matérias das aulas, a frequência dos alunos, notas etc. Não sei como, nem porque, quando terminava o ano letivo, estes livros não eram devolvidos à escola e ficavam nas gavetas na casa de minha avó. A gente fazia cola com goma (levando a colher direto ao fogo) e pregava as fotos que recortávamos das revistas. Ainda hoje dou por mim fazendo "álbum de artista" aqui no notebook. Resolvi acabar com ele, trazendo para cá.
Alguns colecionavam embalagens de 'carteiras' de cigarros (acho que importados) outros, chaveiros. Houve um tempo, depois que passou da moda o álbum do Marcelino Pão e Vinho, que as meninas colecionaram uns bonequinhos da Disney, trocados no distribuidor por tampas de coca-cola. Beber coca-cola era uma raridade. Os bonequinhos eram feitos de ' matéria plástica' branca. A gente inventava de pintá-los com as cores que eles tinham na revista em quadrinhos, mas nunca ficava muito bom. Depois eles começaram a vir coloridos, numa só cor. Alguns eram considerados 'fáceis'. A gente tentava trocar os repetidos...
No meu colégio de meninas católicas, algumas colecionavam 'santinhos'. Em geral, eram lembranças da primeira comunhão de amigas ou primas . Havia uns calendários com uns pequenos e coloridos que elas recortavam para 'enfeitar' os cadernos. Nunca gostei. No máximo, colava as florzinhas da embalagem do sabonete lux que vinham abaixo da foto das 'estrelas' de cinema ('nove entre dez usavam lux'). Do que eu gostava mesmo era de fazer "albúm de artista". Minhas tias eram professoras e usavam um 'diário de classe' onde registravam as matérias das aulas, a frequência dos alunos, notas etc. Não sei como, nem porque, quando terminava o ano letivo, estes livros não eram devolvidos à escola e ficavam nas gavetas na casa de minha avó. A gente fazia cola com goma (levando a colher direto ao fogo) e pregava as fotos que recortávamos das revistas. Ainda hoje dou por mim fazendo "álbum de artista" aqui no notebook. Resolvi acabar com ele, trazendo para cá.
parafraseando Renée
Não por falta de assunto ou preguiça de escrever, mas é que achei interessante este e-mail que acabo de receber e resolvi trazê-lo para cá.
"Zélia
Ontem comecei a ler A elegância do ouriço: me encontrei e me encantei com a / na Renée. Claro que tendo nascido no Brasil, da junção dos gametas da Dona Mundinha e do seu Boanerges, que deram um jeito de criar 12 filhos sem emprego, vivendo de bicos e expedientes eu não poderia ter a bílis da Renée, que é muito francesa.
Para cumprir minha saga biológica foi preciso muito jogo de cintura, no item adaptabilidade tirei dez tirei dez, me tornei capaz de agüentar campo de concentração judeu e ainda sair gorda e corada.
O diabo é que às vezes temos momentos de lucidez e aí o bicho pega, de repente a consciência da nossa insignificância, da finitude, da inutilidade: nesses momentos, é preciso fugir, desesperadamente, do nosso destino biológico, nessas horas, filosofar é preciso - já te disse uma vez, filosofa-se para salvar a pele e a alma. Ou então se entregar. Mas, a quê? Tivesse vinte anos poderia dizer aos apetites do corpo, mas, quem tem apetites aos 56 anos?
Então, toma-se um vinho e filosofa-se, assiste-se um filme do Bergman, porque ainda não se conhece o Ozu e contempla-se a eternidade no “próprio movimento da vida”.
Adorei a indicação do livro."
LT
"Zélia
Ontem comecei a ler A elegância do ouriço: me encontrei e me encantei com a / na Renée. Claro que tendo nascido no Brasil, da junção dos gametas da Dona Mundinha e do seu Boanerges, que deram um jeito de criar 12 filhos sem emprego, vivendo de bicos e expedientes eu não poderia ter a bílis da Renée, que é muito francesa.
Para cumprir minha saga biológica foi preciso muito jogo de cintura, no item adaptabilidade tirei dez tirei dez, me tornei capaz de agüentar campo de concentração judeu e ainda sair gorda e corada.
O diabo é que às vezes temos momentos de lucidez e aí o bicho pega, de repente a consciência da nossa insignificância, da finitude, da inutilidade: nesses momentos, é preciso fugir, desesperadamente, do nosso destino biológico, nessas horas, filosofar é preciso - já te disse uma vez, filosofa-se para salvar a pele e a alma. Ou então se entregar. Mas, a quê? Tivesse vinte anos poderia dizer aos apetites do corpo, mas, quem tem apetites aos 56 anos?
Então, toma-se um vinho e filosofa-se, assiste-se um filme do Bergman, porque ainda não se conhece o Ozu e contempla-se a eternidade no “próprio movimento da vida”.
Adorei a indicação do livro."
LT
Café da manhã em Plutão
Só ontem vi “Breakfast on Pluto” . Filme de 2005 que se passa entre a Irlanda/Londres dos anos 70, em plena convulsão social e política. Neil Jordan (o mesmo de Traídos pelo Desejo) conta a história de Patrick ‘Kitten’ Braden que, mais do que homossexual, é um travesti. O filme começa como um conto de fadas com dois passarinhos conversando enquanto bicam as garrafas de leite que estão à porta da casa e evolui para um realismo delirante em que a crueza parece favorecer a emergência, quase utópica, conduzida pela ânsia de ”Kitten”conhecer a mãe que a abandonou pouco tempo depois do seu nascimento.
“Kitten” é ingênua e pura, seduzindo pela sua vulnerabilidade e tornando irresistível querer protegê-la. Sem se importar se vive ou morre, acaba por viver uma vida de liberdade, apesar de todos os contratempos (alguns bastante violentos). Nesta sobreposição do pessoal e do político, mostra-se inabalável, quer na sua identidade quer no seu ódio pela violência.
O que nos fica de Kitten é o seu otimismo, a sua entrega ao amor, incondicional de cada nova vez, sem que os sofrimentos passados corrompam a melhor ingenuidade. Como canta Dusty Springfield em “The Windmills of your Mind” (a trilha sonora é toda maravilhosa), a vida é uma ininterrupta roda, onde, em todos os momentos, temos o dever de ser felizes...
“Kitten” é ingênua e pura, seduzindo pela sua vulnerabilidade e tornando irresistível querer protegê-la. Sem se importar se vive ou morre, acaba por viver uma vida de liberdade, apesar de todos os contratempos (alguns bastante violentos). Nesta sobreposição do pessoal e do político, mostra-se inabalável, quer na sua identidade quer no seu ódio pela violência.
O que nos fica de Kitten é o seu otimismo, a sua entrega ao amor, incondicional de cada nova vez, sem que os sofrimentos passados corrompam a melhor ingenuidade. Como canta Dusty Springfield em “The Windmills of your Mind” (a trilha sonora é toda maravilhosa), a vida é uma ininterrupta roda, onde, em todos os momentos, temos o dever de ser felizes...
Drama no brejo
"Aqui-del-rei! Uma legítima brasileirinha, cidadã da mata atlântica e com tanto direito à vida quanto eu e você, pede socorro. Na verdade, com muito mais direito, porque não estamos em risco de extinção. E ela está.
Trata-se da Physalaemus soaresi, uma perereca de 2 cm de comprimento, que ninguém encontrará neste planeta exceto na Floresta Nacional Mario Xavier, em Seropédica (RJ), entre a rodovia Presidente Dutra e a antiga Rio-São Paulo. De repente, os últimos indivíduos da espécie se viram bem no caminho dos tratores, escavadeiras e caminhões escalados pelo PAC para construir o Arco Metropolitano, a superobra do Estado do Rio.
Não que as pererecas tenham se colocado ali. Os monstros a motor é que se meteram pelo seu santuário e se espantaram ao saber que havia vida sob seus pneus, rolos e lagartas. Neste momento, graças à administração da floresta, a P. soaresi goza de relativa proteção, porque está em período de reprodução -o chamado "canto nupcial"-, que vai até fevereiro. Mas e depois?
O Ministério do Meio Ambiente propõe manter o habitat da perereca isolado do canteiro de obras com placas de ferro. Mas alguns biólogos já advertiram que o barulho dos tratores não deixará ninguém sossegado no brejo. E por que o Arco precisa passar exatamente no meio da floresta, que tem 4,9 milhões de metros quadrados?
A vida de uma perereca vale pouco no Brasil. Há tempos, só a dedicação de uma bióloga ajudou a salvar o sapinho Melanophryniscus moreirae no Parque Nacional do Itatiaia. Hoje, chamado de "Flamenguinho" (por suas cores vermelha e preta), ele se tornou o símbolo do parque.
Neste momento, para alguns, a "soaresi" é apenas um estorvo ao "progresso". Amanhã, pode ajudar a desentupir as artérias de quem já pensou assim."
RUY CASTRO
Trata-se da Physalaemus soaresi, uma perereca de 2 cm de comprimento, que ninguém encontrará neste planeta exceto na Floresta Nacional Mario Xavier, em Seropédica (RJ), entre a rodovia Presidente Dutra e a antiga Rio-São Paulo. De repente, os últimos indivíduos da espécie se viram bem no caminho dos tratores, escavadeiras e caminhões escalados pelo PAC para construir o Arco Metropolitano, a superobra do Estado do Rio.
Não que as pererecas tenham se colocado ali. Os monstros a motor é que se meteram pelo seu santuário e se espantaram ao saber que havia vida sob seus pneus, rolos e lagartas. Neste momento, graças à administração da floresta, a P. soaresi goza de relativa proteção, porque está em período de reprodução -o chamado "canto nupcial"-, que vai até fevereiro. Mas e depois?
O Ministério do Meio Ambiente propõe manter o habitat da perereca isolado do canteiro de obras com placas de ferro. Mas alguns biólogos já advertiram que o barulho dos tratores não deixará ninguém sossegado no brejo. E por que o Arco precisa passar exatamente no meio da floresta, que tem 4,9 milhões de metros quadrados?
A vida de uma perereca vale pouco no Brasil. Há tempos, só a dedicação de uma bióloga ajudou a salvar o sapinho Melanophryniscus moreirae no Parque Nacional do Itatiaia. Hoje, chamado de "Flamenguinho" (por suas cores vermelha e preta), ele se tornou o símbolo do parque.
Neste momento, para alguns, a "soaresi" é apenas um estorvo ao "progresso". Amanhã, pode ajudar a desentupir as artérias de quem já pensou assim."
RUY CASTRO
outubro 10, 2009
Atualizando o verbo
Depois de mais de tres anos encostada voltei à lida. Não às lides.Esta é uma carreira encerrada. Entrei num mercado que além do viés de modernidade tem a sua linguagem própria que ainda não absorvi inteiramente. Nem sei se haverá tempo, necessidade ou se, de fato, me interesso. Por enquanto, tenho achado tudo muito curioso. Tem sido um laboratório para minhas observações, sobretudo em relação a como e porque (não) funciona como devia. Começa pelos arranjos que me fizeram "consultora". Seja lá o que isto siginifique, indagada sobre, já dei por mim explicando, com leveza, que seria uma 'assessoria para assuntos aleatórios'. Bom, nisto cabe quase tudo, esbarrando no meu (des) conhecimento na área técnica.Na verdade, tenho sido instigada a 'pensar' o que, modernamente, é um trabalho! O que mais me surpreende nesta minha rentrée é constatar que as velhas coisas passaram a ter novos nomes. Seria por conta do politicamente correto? Tenho me deparado com idéias que são colocadas e, se eu vinha estranhando o agilizar, tive que me esforçar para otimizar o meu desempenho neste universo em que empresários são empreendedores, prestadores de serviços parceiros e empregados colaboradores.
Na área dos comportamentos, percebo o quanto as pessoas tem necessidade de serem ouvidas. Ter para quem falar, de preferência em certos cenários, faz diferença. Não lhes basta a mídia em geral, a web, os sites, etc para exporem as idéias que estão cansadas de repetir. Fazem uma agenda para se reunir lá, convictos de que daquele blablabla sairão as decisões com que pretendem mudar o mundo (em seu favor, eu penso). Terminam satisfeitas. Seria por marcarem presença ou pela crença de que deram a sua contribuição para com a tal das políticas públicas? Eu, que não acredito em nada, assisto a tudo com cara de paisagem, pensando entrever os jogos de interesses subjacentes, protagonistas que são de um teatro que deve continuar com o mesmo elenco, ainda que com as eventuais trocas de papéis. Só isto.
Por lá também circulam minorias que não são mais aquelas nossas velhas conhecidas. Surgiram outras e, dentre elas, os atingidos. Atingidos são pessoas ou comunidades que sofrem pelos mais variados tipos de repercussões provocadas pela instalação de qualquer empreendimento. Eles tem associações que os representam, criam foruns....etc
Onde contratados são parceiros e trabalhadores colaboram com a empresa, tudo parece suave e correto. Observo que as pessoas são chamadas à colaborar pelo modo como interagem e se comprometem. Interagir é o que há de importante. Ser comprometida também conta. Os curriculos são manipulados (ops! deve ter uma palavra 'correta' para isto) de modo a adequá-los às circunstâncias e necessidades. O resultado, me parece, é que ninguém sabe mais de quase nada! Quando teriam acontecido estas mudanças? Não foi de um dia para o outro, mas sei que estive quase para perder este bonde. Não poderia ficar fora desta!
Da área técnica, 'zona de amortecimento' me parece a melhor expressão. Para uso metafórico, claro! Se eu soubesse escrever sobre relacionamentos encontraria um bom uso para ela...
outubro 09, 2009
Truffaut
OS INCOMPREENDIDOS (Les Quatre Cents Coups, França, 1959), passa hoje na TV/Futura.Este filme é daqueles que não envelhece, sua força e beleza continuam intactas. E não é à toa que está em todas as listas de filmes que mudaram a forma de fazer cinema. Foi com ele que François Truffaut, um estreante, ganhou, em Cannes, o prêmio de direção, e lançou a nouvelle vague – o movimento que rompia com a tradição clássica do cinema francês. Até então, nunca se havia visto um filme tão espontâneo e livre de convenções. Feito na primeira pessoa do singular, meio jornalismo e meio poesia, e tão pessoal quanto uma confissão. A fluidez e a intimidade com que o diretor acompanha a história do infeliz Antoine (ele próprio), um garoto mal-amado e descartado pelos professores como um encrenqueiro sem remédio, obrigam a platéia a baixar a guarda e compartilhar com Truffaut uma verdade fundamental: para uma criança, não há tristeza ou alegria que seja pequena. A cena final, em que a câmara "congela" a imagem do rosto angustiado de Antoine, "valeria uma carreira". Truffaut que morreu em 1984, aos 52 anos, de câncer , fez outros grandes filmes, em quase todos eles a figura de sua mãe está lá, sob um disfarce ou outro, na forma de uma mulher que inflige dor.
Para seus colegas de nouvelle vague era tido como um "pequeno-burguês", por causa de seus temas intimistas: infância, amor e traição, obsessão e morte.
"Truffaut é um homem de negócios pela manhã e um poeta à tarde", dizia dele Godard. Que seja verdade. Porém, nunca uma dedicação de meio período à arte rendeu filmes tão belos.
Na experiência narrada no livro Clube do Filme em que o pai, o escritor canadense e crítico de cinema David Gilmour, deixa o filho de 15 anos largar a escola, simplesmente por não gostar de ir às aulas, com a condição de que o acompanhasse em tres sessões de filmes em casa durante a semana, este foi o primeiro filme selecionado.
Recomendo!
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