Uma certa idade...
"Vivo nas estrelas porque é lá que brilha minha alma." (M. Bandeira)
Fevereiro 21, 2012
Paulinho da Viola
Nota: Link no título para ouvir o apaixonante samba enredo da Portela: FOI UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA
OHH!
« La jeunesse croit beaucoup de choses qui sont fausses ; la vieillesse doute de beaucoup de choses qui sont vraies. »
Provérbio alemão
Viajantes e apaixonados em transe
"Bem-aventurados os apaixonados, que se esquecem por algum tempo das mazelas do mundo. Deitam-se numa rede de fios bem trançados, numa cama estreita, num tapete persa ou numa esteira de palha e se entregam às malícias do amor. Ou deitam-se no piso de tábuas de uma casa modesta e se esquecem dos magistrados, dos burocratas, das chuvas destruidoras, dos políticos inativos, dos impostores e dos pássaros agourentos. Já não se lembram da segunda-feira árdua e rotineira, do chefe ranzinza ou do subalterno distraído, do trânsito e seus motoristas alucinados, nem daquele casamento que se reduziu a bocas engessadas e momentos de silêncio que insinuam sentenças hostis.
Apaixonados: seres sonhadores antes do primeiro duelo, que só às vezes rima com inverno. Ali, sentado na praça, vi um velho conhecido que perdeu sua amada há seis anos. Ele dorme em calçadas e praças do meu bairro, nas vésperas do Natal eu o encontrava triste e lacônico: artesão pobre e solitário que vende violas sem cordas, construídas com dejetos fisgados nas ruas da metrópole, esse vasto museu contemporâneo do consumo. Mas agora esse artesão encontrou uma amada:
"Minha outra música", ele disse.
Eu, distraído ou perdido em algum devaneio, ouvi "musa" em vez de "música", e logo comprei uma viola desse artista errante que lembra certos viajantes, esses outros bem-aventurados.
Muitos partem sem bússola e se lançam a uma aventura. Ou partem em busca de uma paisagem insólita, de um sabor estranho, de rostos mais ainda estranhos, de lugares sonhados desde sempre, de noites que se emendam ao dia e novamente à noite, como se houvesse só espaço nesse mundo regido pelo tempo. Viajantes com pouca bagagem, movidos pelo desejo de conhecer o que amanhã será esquecido, ou de esquecer o que irremediavelmente será lembrado além da nossa fronteira. Alguém te envia uma mensagem do deserto de Atacama, de uma mesquita de Istambul, de um pueblo de Missiones, de uma praça de Teresina, Belém ou Sabará, do pátio de um convento de Olinda; alguém escreve à mão no verso de um postal palavras sobre o assombro e a beleza da ilha de Creta, onde um mito antigo resiste aos descalabros do nosso tempo.
Quantas mensagens via satélite... E só uns poucos postais com a fotografia de um lugar visitado e cinco frases escritas por calígrafos anacrônicos.
Invejo a energia quase cósmica desses viajantes e apaixonados, que celebram suas façanhas com uma comoção incomum. Posso imaginá-los em transe, e de algum modo eles me inspiram para escrever estas linhas num quarto úmido, depois da tempestade. Admiro a beleza das romãs rosadas no pequeno jardim, sinto o cheiro dessas frutas desventradas por pássaros famintos, e logo me vem à mente os versos do poeta que escreveu A Falta Que Ama:"Uma viagem é imóvel, sem rigidez./Invisível, preside ao primeiro encontro./Todo encontro,/escala que se ignora".
MILTON HATOUM
Fevereiro 20, 2012
Arte em folhas
Lorenzo Durán é um artista espanhol que faz as folhas ganharem contornos bem distintos daqueles que herdaram da natureza. Usando uma técnica oriental que permite fazer recortes em folhas de papel (e muita paciência), picota folhas secas de várias árvores da região onde mora, na cidade espanhola da Guadalajara.
A Naturayarte é um projeto que também envolve sua família."Há quem use a madeira, escultores que talham as pedras e outros que usam as folhas como meio de expressão artística, coisa que me parece nova e apaixonante".
Helen Rödel
Helen Rödel - Documentário Estudos MMXI (english subtitles) from Helen Rödel on Vimeo.
Desconstruindo a ideia que as pessoas têm do tricô e do crochê: “A feitura das peças requer muita energia e concentração. É como se o cérebro se dividesse em dois. Sendo que uma parte coordena o tecimento, e a outra, a livre fruição do pensamento. Eu gosto de pensar nessa quantidade de pensamentos e ideias que habita cada ponto tecido.” Helen Rodel
Fevereiro 19, 2012
Ernesto Nazareth
Confidências - Arthur Moreira Lima.
Brejeiro - Raphael Rabello
Elegantíssima
Turbilhão de Beijos - Maria Teresa Madeira.
Nota: No título link para o site.
"Correspondência Amorosa"
"Meu velho e querido Rainer, – saiba você, chorei terrivelmente lendo sua carta, que estava ridícula, mas nós podemos, às vezes, impedirmo-nos de ver a vida acolher desta maneira os mais preciosos de seus filhos. Eu o acompanhava com todos os meus pensamentos – se é que se pode chamar isto “acompanhar”, quando nos perguntamos a cada dia onde se pode encontrar alguém: se este subiu para as alturas até os confins da humana atmosfera, ou se caiu no fundo de uma cratera, debatendo-se entre os mil fogos que nunca queimaram no seio da terra. Quando você me escrevia a respeito de minhas “Cartas”, com toda espécie de “s” tornando-as alegremente loucas, parecia-me concebível que um período produtivo tivesse lhe invadido, provocado por alguma experiência afetiva; e é sempre este o momento em que um terrível perigo parece tão próximo quanto uma grande vitória. É fácil então, para certas almas, sacrificar um nada de produtividade que lhe viesse a favor de uma experiência fortemente vivida; e, em certas ocasiões, outras, criadoras por natureza, conseguissem fazer o inverso; mas acontece que muito mais freqüentemente, sem dúvida, as duas tendências se encontram na metade do caminho e morrem por estarem mutuamente destruindo a estrada. Mas – embora desta vez você seja o único responsável por esta morte, pois você não tem motivos para desculpas, nem álibis – uma coisa entretanto fica fora de dúvidas: a maneira como você ressuscita isto em suas palavras é exatamente, oh! é exatamente a antiga, a íntegra potência que dá vida àquele que está morto – e, além do mais: o luto provocado pelo acontecimento é aquele de uma alma cujo sentimento mais sutil, mais interior, em nada saberia ser mais inocente do que te acusas.....
....E, no entanto, é você mesmo – como é você também que em um momento qualquer é incapaz de trabalhar ou o faz negligentemente. E certamente você não tira nada, e nem pode tirar, do fato de que este, apesar de tudo, não é você, pois não saberíamos nos alimentar do pão fechado em um armário, não mais que nos nutrimos da espera dos grãos do trigo a colher nos campos. É porque, se padeci por este motivo, eu padeceria novamente como uma outra espectadora, que ao mesmo tempo fica comovida com o pensamento de que o pão e os frutos do campo existem. Eis o que resta agora sob o “vidro duro e frio da vitrine”; você não o possui, e o vidro reflete a você mesmo. Portanto, estava aí uma prova da grandeza de suas propriedades, e como você quase não as conhecia sob este aspecto – sua profundidade, sua riqueza, – do mesmo modo elas ainda têm a lhe oferecer outras, das quais você não poderia, mesmo hoje, suspeitar, e das quais qualquer coisa muito mais fina que o vidro lhe encobre a visão. Mas para que servem todas estas palavras? No momento você nada experimentará de diferente, se isto é apenas algo de fino ou denso que lhe separa da vida, e toda palavra contrária é estúpida, tola e impotente".
Lou Andréas-Salomé
Munique, 8 de junho de 1897 Terça- feira
"As flores dos campos que trouxe há uma semana de uma manhã maravilhosa há muito estão deitadas entre as grandes folhas de um terno mata-borrão; mas nesta hora em que as contemplo, sorriem-me como uma recordação cheia de graça esforçando-se por parecer alegres como outrora.- Foi uma dessas horas singulares. Horas que são como o coração de uma ilha cingida por densas florescências: para além destas muralhas primaveris, as ondas respiram quase imperceptivelmente, e não se avista um único barco que venha do passado distante, nem um só que queira continuar para o futuro. O fato de se lhe dever seguir um regresso ao quotidiano não pode esbater estas horas insulares. — Elas permanecem à margem de todas as outras horas, como que vividas ao mais alto nível do ser. Este tipo de existência insular e mais elevada é a meus olhos o futuro de muito poucos.
Uma felicidade toca, floresce ao longe,
Alastra em volta da minha solidão
E procura tecer para os meus sonhos
Um enfeite de ouro.
E ainda que
A minha pobre vida esteja gelada de madrugada
Inquieta e neve dolorosa,
A hora santa virá para ela,
Um dia, da sagrada Primavera......
Desejaria estar já em Dorfen. A cidade é tão ruidosa, estranha. E, nos períodos de maturação interior, nada de estranho deve aflorar as nossas margens. Um dia, daqui a muitos anos, compreenderás completamente tudo o que és para mim. O que é a fonte da montanha para quem está sequioso. E se quem está sequioso é um homem íntegro e agradecido, não vai procurar frescura e força à sua claridade para voltar a partir para o novo sol; sob sua proteção e suficientemente perto para ouvir o seu canto, constrói uma cabana e permanece neste vale pacífico até que os olhos estejam cansados do sol e o seu coração transborde de riqueza e de compreensão. Eu construí cabanas e — permaneço. Minha límpida fonte! Como te estou agradecido. Não quero mais ver flores, céu, sol — a não ser em ti. Tudo é absolutamente mais belo, mais fabuloso, quando o olhas: a flor nas tuas margens, que — sei isso do tempo em que tinha de ver as coisas sem ti — treme de frio no musgo, solitária e terna, reflete-se clara na tua bondade, vibrante, e quase aflora com a sua pequena cabeça o céu que irradia da tua profundeza. E o raio de sol que chega empoeirado e único aos teus limites transfigura-se e multiplica-se em chuva de centelhas nas ondas luminosas da tua alma. Minha límpida fonte. É através de ti que quero ver o mundo, porque, ao mesmo tempo, verei, já não o mundo, mas apenas a ti, a ti, a ti! Tu és o meu dia de festa. Quando em sonhos me junto a ti, tenho sempre flores nos cabelos. Desejaria colocar-te flores nos cabelos. Quais? Nenhuma tem a simplicidade comovente que deveria, nenhuma é suficientemente simples. Em que Maio colhê-las? — Mas creio agora que tens sempre nos cabelos uma grinalda — ou uma coroa... Nunca te vi de outro modo.
Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar. Nunca te ouvi, que não tivesse o desejo de acreditar em ti. Nunca te esperei, sem o desejo de sofrer por ti. Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente. Sou para ti como o bastão para o caminhante, mas sem te apoiara. Sou para ti como o cetro é para o rei, mas sem te enriquecer. Sou para ti como a última pequena estrela é para a noite, ainda que a noite mal a distinguisse e ignorasse a sua cintilação".
René - Rilke
....."Permaneço no escuro como um cego
Porque meus olhos não te encontram mais
A faina turva dos dias para mim
não é mais que uma cortina que te dissimula.
Olho-a, esperando que se erga
esta cortina atrás da qual há minha vida
a substância e a própria lei da minha vida
e, apesar disso, minha morte.
Tu me abraçavas, não por desrazão
mas como a mão do oleiro contra o barro
A mão que tem poder de criação.
Ela sonhava de algum modo modelar –
depois se cansou,
se afrouxou
deixou-me cair e me quebrei.
Eras para mim a mais maternal das mulheres,
eras um amigo como são os homens,
eras, a te olhar, mulher realmente, mas também, muitas vezes, criança.
Eras o que conheci de mais terno
e mais duro com que tenho lutado.
Eras a altura que me abençoou –te fizeste abismo e naufraguei".
Rilke para Lou-Salomé
Rainer Maria Rilke e Lou Andreas-Salomé
Fevereiro 18, 2012
Construção de Utopias
Construção de Utopias - parte 1 - Jurandir Freire Costa por LuizFernandoSarmento no Videolog.tv.
Construção de Utopias - parte 2 - Jurandir Freire Costa por LuizFernandoSarmento no Videolog.tv.
Construção de Utopias - parte 3 - Jurandir Freire Costa por LuizFernandoSarmento no Videolog.tv.
" Eu vou então adotar a estratégia de traçar um grande esquema do que são as idéias centrais contidas na palavra utopia e tentar rebater isso ou ver como isso incide em nossas vidas, na maneira como cada um de nós vive".
Jurandir Freire Costa - pensador, psicanalista, escritor - compartilha conhecimentos, estimula reflexões.
Perto do mundo, longe do Carnaval
"Não que eu compartilhe desse sentimento, não mesmo, mas, se você sente ódio pelo Carnaval, pelos sambas, frevos e marchinhas, pela atitude folgazã, se, durante o período de folia, você gostaria de morar em outra galáxia, de preferência numa dimensão alternativa, não se desespere, porque a solução está no seu bolso: o telefone celular.
Calma. Não estou propondo nenhuma maratona insana em que, ao primeiro ataque dos tamborins no sambódromo, você saia ligando como louco para toda a lista de contatos do telefone móvel e, destroçando as cordas vocais, fale sem parar até a Quarta-Feira de Cinzas. Nada disso.
O tema aqui é uma equação muito simples, que tem embalado boa parte de minha vida nos últimos meses. Acho que ela pode ser útil também aos "Momo haters". A fórmula: celular + internet = rádio. E não um rádio qualquer -um rádio aberto para o mundo, para todos os sons, todas as línguas, em todos os fusos horários, que vai levar você para longe, bem longe do país dos sambas-enredos e do Carlinhos Brown.
Mas, antes do caminho das pedras, um segundo de nostalgia. Ondas curtas, alguém se lembra? Eu me lembro, e como. Eram as únicas frequências de rádio que, a duras penas, conseguiam cruzar o planeta. Para moleques ávidos por novidades, em algum ponto do século passado, eram o caminho para saber o que tocava nas rádios estrangeiras.
Quer dizer, mais ou menos. Porque o que chegava ao Brasil não eram exatamente as estações de outros países -eram os serviços voltados para a América Latina dessas rádios. Mas já dava para o gasto.
O serviço brasileiro da BBC de Londres, as transmissões em espanhol da Rádio Moscou (na era soviética, propaganda comunista chegando ao Brasil da ditadura!), a Rádio França Internacional em português, rádios estatais da China, da Coreia do Sul, da Suíça...
Em teoria, perfeito. Só que não era tão fácil assim. Ainda mais morando em São Paulo. O ouvinte paulistano de ondas curtas sofria com interferências impiedosas, sinais que iam e vinham. E pior ainda: as frequências mudavam a cada semana -por alguma razão técnica, as rádios se deslocavam constantemente pelo dial. Era um sofrimento encontrar a estação preferida.
Assim, tendo passado tantos anos da juventude às voltas com a precariedade das ondas curtas, não é com pouca alegria que me tornei usuário, praticamente um dependente, dos aplicativos para celular que sintonizam rádios estrangeiras. Adiós, ondas curtas. Bem-vindas, rádios pela internet móvel!
Há dezenas de aplicativos. O que eu uso, grátis e muito fácil, consegue captar, literalmente, cerca de 50 mil estações!
Se tem uma rádio estrangeira de sua preferência, basta escrever o nome dela no campo de busca. Rapidamente, supondo que sua cidade tenha um sinal de celular OK, você vai viajar nos sons da web.
De novo, para quem sofreu com as ondas curtas, é uma alegria sem fim correr na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, ouvindo a BBC 6, de impecável programação musical.
Ou se exercitar no parque Villa-Lobos, em São Paulo, e até esquecer a medonha vista para a marginal Pinheiros, concentrado na seleção roqueira da KEXP, de Seattle.
Ou, ainda, voltar do trabalho muito tarde da noite, sintonizar a KCRW, de Los Angeles, onde ainda é final de tarde, e escutar "All Things Considered", o excelente noticiário da NPR, o sistema público de rádio dos EUA. Tudo ocidental e óbvio demais para você? Sem problemas: ouça a Triple J, animadíssima rádio australiana de rock, pop, entrevistas, notícias e o que mais aparecer.
Essas são as quatro que mais escuto, por isso as citei. Mas não passam de uma gota ínfima em um oceano de possibilidades sonoras.
Pronto, a rota está dada. Despeça-se para sempre do Rei Momo. Diga um adeus definitivo à euforia do sambódromo carioca, à doideira dos blocos de Salvador. Esqueça a fuzarca que a turma de bagunceiros está fazendo na casa que alugou ao lado da sua, nem esquente com o batuque de desocupados no boteco da esquina.
Aplicativo baixado, fones nos ouvidos e, pronto, acabou o Carnaval. Pelo menos para você. Porque, como escrevi lá no começo, eu gosto de acompanhar a folia, mesmo que de longe. Meu celular pode esperar até a Quarta-Feira de Cinzas".
ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
Fevereiro 17, 2012
Para poucos...
Filme frances de 2010- Aimez qui vous voulez - Happy Few.
No youtube a continuação...
O Inferno de Disney
"Por doze anos recusei levar meu filho à Disney. Uma convicção estética inarredável orientava a minha negação. Nessas férias, porém, uma viagem ao México com escala em Miami amoleceu meu coração de mãe.
No dia 24 de janeiro do fatídico ano de 2012, abandonei os maias e a esplendorosa península do Yucatán para entrar em um avião rumo à Orlando. A temporada de cinco dias na Flórida foi comparável aos círculos de sofrimento de "A Divina Comédia", de Dante.
Como Deus ora pelos inocentes, meu rebento menor, de três, caiu com 39 graus de febre no aeroporto de Cancún. A milagrosa virose o deixou de molho nas primeiras 72 horas de aflição na América, enquanto eu e o maior adentrávamos as profundezas da terra onde os sonhos se tornam realidade.
O Limbo, primeiro círculo de penitência, se apresentou na forma de montanhas-russas colossais que comprimem os sentidos a forças G inimagináveis. Deixei meus neurônios serem prensados contra a parede do crânio em loopings cadenciados, até ser cuspida tal e qual um zumbi agastado, tomado por abobamento crônico.
As máquinas medievais de martírio causam náusea, vômito e enxaqueca.
Para os que preferem sofrer ao rés do chão, simuladores provocam a mesma sensação de abismo sem saírem do lugar em que estão.
Na sétima hora do dia, enquanto era sugada, no lugar da chupeta, por uma Maggie Simpson descomunal, eu já não falava e nem me mexia. Caí dura no resort de golfe, "wonder land" da terceira idade muito frequente na região.
A Flórida é o último refúgio dos que viveram até a aposentadoria.
Abri o olho e reneguei assistir a tormenta das baleias cativas nos tanques do Sea World. Atrás de motivos para ser castigada, fui arrastada às compras por um furacão chamado luxúria.
Usufruímos o céu nublado da Universal da tarde seguinte. O ar de quermesse do parque vazio, o clima ameno e o Harry Potter nos fizeram crer na alegria infantil dos americanos. Driblamos bem a comida intragável, servida em porções individuais que alimentariam tribos inteiras. O jejum é dádiva quando se encara as aves inchadas a hormônio e o teor transgênico das lanchonetes. Orlando é a cidade campeã da obesidade mórbida; o Lago de Lama dos que sucumbiram à gula.
A última alvorada foi dedicada à Disney. O sol brilhou no sábado de inverno, atraindo a multidão bíblica que lotou os milhões de metros quadrados de hotéis, zoológicos e parques temáticos; interligados por rodovias, hidrovias e ferrovias futuristas.
A Disney é um conceito apavorante de infância organizado em um sistema angustiante de filas. É o ante-inferno dos indecisos que aguardam em caracóis indianos uma satisfação que nunca chega.
Você anseia para ter o direito de aguardar em pé, agarrada à democrática senha que só amplia a espera. A jornada se esvai em uma azucrinante administração de tickets. A condenação à eterna expectativa seria até suportável, não fosse o suplício sonoro.
Como vespas a picar os tímpanos, a voz aguda das musiquinhas enjoadas, os "cling", "cleng", "glom" das engenhocas de ferro e a proliferação de musicais da Broadway, encabeçados pelo grande show do castelo da Cinderela, são de perder a razão. E mesmo durante o safari, única esperança de silêncio ecológico, o timbre de buzina da guia aspirante à atriz vinha pinçar os nervos.
A comparação entre a delicadeza do Caribe mexicano e a artificialidade embalada em plástico de Orlando foi um choque e tanto.
Antes de partir, visitei o paraíso. Um pântano na zona rural povoado por crocodilos, peixes e pássaros semelhante ao gigantesco charco que Walt Disney adquiriu há décadas atrás.
Em paz, no meio da lagoa virgem, me perguntei o porquê da zona urbana daquele lugar manifestar um prazer masoquista tão arraigado.
Talvez seja culpa pelo excesso de ofertas nos supermercados, pela invenção do papel higiênico felpudo, do "super size" tudo, dos veículos alcoólatras e das cidades sem pedestres. A insustentável fartura social se penitencia tomando sustos em trem fantasmas mirabolantes.
Não é diversão, é dívida cristã. A Disney nasceu na Idade Média.
FERNANDA TORRES
Fevereiro 16, 2012
"A Separação"
"Nas últimas semanas, perdi a conta dos leitores que me encorajaram a comentar "A Separação", de Asghar Farhadi. Para não estragar o prazer de quem ainda não assistiu ao filme, só algumas anotações.
1) Em Teerã, num tribunal, um homem e uma mulher discutem, cada um tentando ganhar a guarda da filha. Eles tinham o sonho comum de ir embora do país (oferecendo à menina, como se diz, um futuro melhor) e já estavam com visto e autorização para viajar, mas eis que o marido desistiu do projeto porque ele deve se ocupar do velho pai, doente e demente. Adiar a viagem é impossível: a autorização que eles conseguiram logo vencerá.
A mulher quer se separar do marido, para viajar e levar a filha para o exterior, como planejado. O marido se opõe.
Provavelmente, no lugar do juiz, eu apoiaria o dever para com o velho genitor contra o sonho (quem sabe, frívolo) de um futuro diferente. Esta mulher quer o quê? Enfiar o sogro num asilo só para respirar o ar de Paris ou Nova York?
Agora, se, em vez de juiz, eu fosse terapeuta do casal, talvez não me deixasse enternecer pela "nobre" decisão do marido. Afinal, qual melhor desculpa do que um pai doente para justificar nossas desistências? É frequente: a gente "se sacrifica" em nome de obrigações sagradas e tradicionais, e, de fato, esses compromissos nos servem para renegar nossos desejos.
Você também conheceu uma tia que nunca se casou porque "teve que" criar o sobrinho cuja mãe morreu cedo? Ótimo, sobretudo para o sobrinho; mas há uma chance de que esse nobre sacrifício tenha sido o jeito que a tia encontrou para fugir de uma vida amorosa e sexual que ela desejava, mas que ela também sobretudo temia.
2) Aparentemente, é a mulher que, insensível à devoção filial do marido, pede a separação. Alguém poderia suspeitar, aliás, que ela esteja apenas se aproveitando da ocasião para decretar o fim de uma relação que talvez já tenha acabado há tempos.
Mas é possível que o verdadeiro responsável pela separação seja o marido: será que a opção de cuidar do velho pai não é o jeito que ele encontrou para forçar a mulher a querer se separar dele? Eu não fiz nada, só "tenho que" honrar meu pai, é você que não me aguenta e é você que quer se separar. É o estilo passivo-agressivo: a iniciativa sempre parece ser do outro.
3) Mesmo se eu não professasse nenhuma ideia oposta às do regime, mesmo se meu desejo sexual fosse integralmente permitido pela polícia dos costumes, eu fugiria de Teerã -apenas por saber que há direções nas quais meus sonhos seriam punidos, caso se aventurassem por lá. Também fugiria de qualquer Irã ou Cuba do mundo porque não tolero ficar num lugar de onde é difícil, se não proibido, sair.
4) O marido não é um santo, mas parece fazer uma escolha generosa: renuncia ao projeto de emigrar por fidelidade ao pai.
Mas nunca é fácil saber no que consiste a verdadeira fidelidade. No caso, ela consiste em cuidar do pai demente ou em correr atrás do que ele talvez quisesse para nós?
Ou seja, imaginemos que (banalmente) meu pai sonhasse com a minha liberdade: será que eu lhe seria mesmo fiel no dia em que, para assisti-lo, eu renunciasse a meu próprio desejo?
5) O diretor do Ministério da Cultura do Irã declarou à Folha que "A Separação" é "contrário ao sistema político iraniano", o que, segundo ele, seria demonstrado pelo sucesso do filme no Ocidente.
Bizarro, entre outras coisas, porque o filme contém uma defesa do islã popular como grande e necessária garantia moral.
Seja como for, as ditas plateias ocidentais talvez estejam um pouco cansadas de assistir a visões caricaturais de mundos exóticos, nos quais, graças a alguma tradição, sempre se sabe qual é a coisa certa.
Talvez nós, plateias ocidentais, notoriamente narcisistas, estejamos mais interessadas no cotidiano de nossa própria experiência, ou seja, no conflito nunca resolvido entre as dívidas com nosso passado e as dívidas com nosso futuro.
A dívida com o passado pode ser exigente e incômoda (como ocupar-se de um pai demente), mas ela é, por assim dizer, pacífica: estabelecida e tranquila. Enquanto a dívida com o futuro é sempre inquietante, sem resposta: qual será a viagem que devo a mim mesmo?
Caro diretor do Ministério da Cultura do Irã, não gostamos de "A Separação" porque seria anti-iraniano (que não é), mas porque conta uma história próxima das histórias da gente".
CONTARDO CALLIGARIS
Fevereiro 14, 2012
O cotidiano também faz história
"Dos relatos de história - grandes navegações, guerras, novas descobertas- chegamos, hoje, ao uso da mesma palavra para anotar não mais grandiloquências, mas pormenores do dia a dia.
Fico contente quando me caem nas mãos livros que tratam de insignificâncias. Como a história da alcachofra, por exemplo. Essa planta foi se modificando Mediterrâneo afora, passando por banquetes de casas reais, como conta o recém-lançado entre nós "A Fabulosa História dos Legumes". Nele, a autora, Évelyne Bloch-Dano, deixa de se referir às pessoas que os trouxeram e levaram e se atém à origem e à diáspora dos próprios vegetais.
Um dia, a batata chegou à Europa, vinda da América recém-descoberta, o que revolucionou a culinária.
Hoje, o ritmo da introdução e da apropriação de elementos de outra cultura é muito mais rápido. Hábitos e costumes vão e vêm de avião, por telefone e por outros tantos recursos de comunicação, modificando o cotidiano.
Mas a gente se defende, por apego às tradições. Podemos até achar massa folhada uma delícia, mas não aposentamos o nosso "romeu e julieta" (queijo com goiabada), pelo menos não de repente.
Outro livro, o incrível "A Lebre com Olhos de Âmbar", também recém-lançado no Brasil, relata as mudanças dos pormenores cotidianos entre membros de uma família que o destino espalhou entre Viena e Tóquio. O autor, Edmund de Waal, vai descrevendo da diáspora da família até o reencontro, anos depois.
A literatura invadiu o cotidiano. Quando Proust leva dez páginas contando a angústia dele esperando a mãe vir dar o beijo de boa noite, muda-se o enfoque: o fundo passa a ser figura.
Estamos no centro do viver há mais de cem anos numa família burguesa.
Cada família nuclear talha, como uma escultura feita no dia a dia, o seu jeito de ser. É o homem comum tentando criar uma identidade a partir de seus próprios hábitos.
Pode-se argumentar que sempre foi assim. A diferença é que hoje a transmissão, além de ser oral, é também artística. Está na literatura.
E assim nós descrevemos. Hoje se escreve sobre os escaninhos nada secretos do cotidiano da família nuclear, que não quer ser igual à família vizinha. É a formação de parte importante da identidade, nossa existência, à qual cada um de nós se apega.
A história da vida privada é a vitória do cotidiano como modelador do jeito de ser de cada um e de cada família".
ANNA VERONICA MAUTNER
Hobbes na Bahia
Sazonalmente, o Brasil arruína-me. Acontece quando a desordem se instala nas ruas do país e eu passo horas ao telefone a falar com amigos ou colegas sitiados em suas casas. Anos atrás, quando o Primeiro Comando da Capital tomou literalmente conta de São Paulo, minha conta de telefone furou a estratosfera.
O mesmo sucedeu agora com a greve policial na Bahia, que permitiu o velho cortejo de crimes e pilhagens que fazem parte do circo. Telefonei, confirmei. Todos os meus amigos estão bem, obrigado.
Eu é que não estou: primeiro, já pensei seriamente em enviar a conta do telefone para os grevistas do Estado. Eles que paguem a despesa dos meus cuidados.
E, depois, porque sou obrigado a concordar com Thomas Hobbes (1588-1679), um filósofo político inglês com quem mantinha uma relação de amor e ódio. Não mais.
O ódio era compreensível: sempre que lia "Leviatã" (1651), a minha costela libertária tremia um pouco. Não que tenha uma visão otimista sobre a natureza humana.
Deus me livre e guarde. Essa, curiosamente, é a minha principal discórdia com os libertários puros e duros: eles têm uma insensibilidade ao "problema do mal" que os remete para companhias ideológicas pouco recomendáveis.
Mas, apesar de tudo, a ideia hobbesiana de um poder soberano indivisível e indiscutível, que exige uma submissão quase total dos seus súditos, sempre me pareceu a receita perfeita para a tirania.
Como é evidente, leituras apressadas geram conclusões apressadas. É possível ler Hobbes com umas lentes ligeiramente mais "liberais".
Para começar, entender a vida de Hobbes é entender parte da sua filosofia política: nascido em Londres, ele testemunhou a Guerra Civil Inglesa que levou à execução do rei Charles 1º. Não admira que a paz, a segurança e a ordem tenham sido suas preocupações permanentes.
Aliás, não apenas dele: partindo da sua experiência pessoal -ou, melhor dizendo, das suas "sensações" pessoais-, Hobbes chegou rapidamente à conclusão de que a primeira paixão dos homens é a mais lúgubre de todas: temos medo da morte. O que significa que a preservação da vida deve ser a base de qualquer "contrato social".
No "estado de natureza", a vida é "solitária, pobre, sórdida, brutal e curta". Não porque exista uma malignidade metafísica na alma da raça; mas porque, muitas vezes, a minha paz exige um estado permanente de guerra. Eu mato para não ser morto. Eu roubo para não ser roubado. Etc.
O Estado é esse agente supremo que os indivíduos resolvem dar a si próprios para protegerem a sua vida e, nos casos em que a lei é omissa, a sua própria liberdade.
É o Estado -a força do Estado- que modera as vaidades, as ambições e os orgulhos dos homens; é ele quem garante esse mínimo de ordem sem o qual a liberdade natural dos indivíduos tem pouco ou nenhum valor substancial.
Hobbes está certo: quando olhamos para zonas de conflito no mundo, podemos debater as causas econômicas e sociais que explicam os morticínios; ou podemos, no caso brasileiro, discutir a duvidosa legalidade das greves policiais ou os falhanços da política nacional de segurança pública.
Mas existe uma discussão prévia que nos remete para Thomas Hobbes: poderá existir vida em sociedade sem que o Estado detenha o "monopólio da violência" (expressão do sociólogo Max Weber) de forma a impedir a metastização da violência pela sociedade?
Ou, pelo contrário, a ausência do Estado, esse velho sonho de anarquistas e libertários, pode jogar-nos de volta para uma selva de medo e abuso?
A resposta de Hobbes é clara: sem Estado, a selva é o nosso destino. E, se é verdade que o Estado foi, muitas vezes, um agente de violência ilegítima e desumana sobre os cidadãos, não era esse o Estado que Thomas Hobbes pretendia.
Lendo os seus textos, encontramos os instrumentos básicos para pensar um Estado democrático, legítimo, defensor da vida humana -e, pormenor fundamental, respeitador da intimidade dos indivíduos.
Desprezar Hobbes só é possível por deficit de conhecimento e excesso de segurança. Mea-culpa.
JOÃO PEREIRA COUTINHO
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