Que me lembre, nunca tive coleção de nada. Naquele tempo, os meninos colecionavam flâmulas. Acho que eram de times de futebol.Tinham a forma de um triângulo pontudo.Não se usava pregar na parede dos quartos. Isto de cada um ter o seu quarto, o seu espaço, não existia na maioria das nossas casas.
Alguns colecionavam embalagens de 'carteiras' de cigarros (acho que importados) outros, chaveiros. Houve um tempo, depois que passou da moda o álbum do Marcelino Pão e Vinho, que as meninas colecionaram uns bonequinhos da Disney, trocados no distribuidor por tampas de coca-cola. Beber coca-cola era uma raridade. Os bonequinhos eram feitos de ' matéria plástica' branca. A gente inventava de pintá-los com as cores que eles tinham na revista em quadrinhos, mas nunca ficava muito bom. Depois eles começaram a vir coloridos, numa só cor. Alguns eram considerados 'fáceis'. A gente tentava trocar os repetidos...
No meu colégio de meninas católicas, algumas colecionavam 'santinhos'. Em geral, eram lembranças da primeira comunhão de amigas ou primas . Havia uns calendários com uns pequenos e coloridos que elas recortavam para 'enfeitar' os cadernos. Nunca gostei. No máximo, colava as florzinhas da embalagem do sabonete lux que vinham abaixo da foto das 'estrelas' de cinema ('nove entre dez usavam lux'). Do que eu gostava mesmo era de fazer "albúm de artista". Minhas tias eram professoras e usavam um 'diário de classe' onde registravam as matérias das aulas, a frequência dos alunos, notas etc. Não sei como, nem porque, quando terminava o ano letivo, estes livros não eram devolvidos à escola e ficavam nas gavetas na casa de minha avó. A gente fazia cola com goma (levando a colher direto ao fogo) e pregava as fotos que recortávamos das revistas. Ainda hoje dou por mim fazendo "álbum de artista" aqui no notebook. Resolvi acabar com ele, trazendo para cá.
outubro 12, 2009
parafraseando Renée
Não por falta de assunto ou preguiça de escrever, mas é que achei interessante este e-mail que acabo de receber e resolvi trazê-lo para cá.
"Zélia
Ontem comecei a ler A elegância do ouriço: me encontrei e me encantei com a / na Renée. Claro que tendo nascido no Brasil, da junção dos gametas da Dona Mundinha e do seu Boanerges, que deram um jeito de criar 12 filhos sem emprego, vivendo de bicos e expedientes eu não poderia ter a bílis da Renée, que é muito francesa.
Para cumprir minha saga biológica foi preciso muito jogo de cintura, no item adaptabilidade tirei dez tirei dez, me tornei capaz de agüentar campo de concentração judeu e ainda sair gorda e corada.
O diabo é que às vezes temos momentos de lucidez e aí o bicho pega, de repente a consciência da nossa insignificância, da finitude, da inutilidade: nesses momentos, é preciso fugir, desesperadamente, do nosso destino biológico, nessas horas, filosofar é preciso - já te disse uma vez, filosofa-se para salvar a pele e a alma. Ou então se entregar. Mas, a quê? Tivesse vinte anos poderia dizer aos apetites do corpo, mas, quem tem apetites aos 56 anos?
Então, toma-se um vinho e filosofa-se, assiste-se um filme do Bergman, porque ainda não se conhece o Ozu e contempla-se a eternidade no “próprio movimento da vida”.
Adorei a indicação do livro."
LT
"Zélia
Ontem comecei a ler A elegância do ouriço: me encontrei e me encantei com a / na Renée. Claro que tendo nascido no Brasil, da junção dos gametas da Dona Mundinha e do seu Boanerges, que deram um jeito de criar 12 filhos sem emprego, vivendo de bicos e expedientes eu não poderia ter a bílis da Renée, que é muito francesa.
Para cumprir minha saga biológica foi preciso muito jogo de cintura, no item adaptabilidade tirei dez tirei dez, me tornei capaz de agüentar campo de concentração judeu e ainda sair gorda e corada.
O diabo é que às vezes temos momentos de lucidez e aí o bicho pega, de repente a consciência da nossa insignificância, da finitude, da inutilidade: nesses momentos, é preciso fugir, desesperadamente, do nosso destino biológico, nessas horas, filosofar é preciso - já te disse uma vez, filosofa-se para salvar a pele e a alma. Ou então se entregar. Mas, a quê? Tivesse vinte anos poderia dizer aos apetites do corpo, mas, quem tem apetites aos 56 anos?
Então, toma-se um vinho e filosofa-se, assiste-se um filme do Bergman, porque ainda não se conhece o Ozu e contempla-se a eternidade no “próprio movimento da vida”.
Adorei a indicação do livro."
LT
Café da manhã em Plutão
Só ontem vi “Breakfast on Pluto” . Filme de 2005 que se passa entre a Irlanda/Londres dos anos 70, em plena convulsão social e política. Neil Jordan (o mesmo de Traídos pelo Desejo) conta a história de Patrick ‘Kitten’ Braden que, mais do que homossexual, é um travesti. O filme começa como um conto de fadas com dois passarinhos conversando enquanto bicam as garrafas de leite que estão à porta da casa e evolui para um realismo delirante em que a crueza parece favorecer a emergência, quase utópica, conduzida pela ânsia de ”Kitten”conhecer a mãe que a abandonou pouco tempo depois do seu nascimento.
“Kitten” é ingênua e pura, seduzindo pela sua vulnerabilidade e tornando irresistível querer protegê-la. Sem se importar se vive ou morre, acaba por viver uma vida de liberdade, apesar de todos os contratempos (alguns bastante violentos). Nesta sobreposição do pessoal e do político, mostra-se inabalável, quer na sua identidade quer no seu ódio pela violência.
O que nos fica de Kitten é o seu otimismo, a sua entrega ao amor, incondicional de cada nova vez, sem que os sofrimentos passados corrompam a melhor ingenuidade. Como canta Dusty Springfield em “The Windmills of your Mind” (a trilha sonora é toda maravilhosa), a vida é uma ininterrupta roda, onde, em todos os momentos, temos o dever de ser felizes...
“Kitten” é ingênua e pura, seduzindo pela sua vulnerabilidade e tornando irresistível querer protegê-la. Sem se importar se vive ou morre, acaba por viver uma vida de liberdade, apesar de todos os contratempos (alguns bastante violentos). Nesta sobreposição do pessoal e do político, mostra-se inabalável, quer na sua identidade quer no seu ódio pela violência.
O que nos fica de Kitten é o seu otimismo, a sua entrega ao amor, incondicional de cada nova vez, sem que os sofrimentos passados corrompam a melhor ingenuidade. Como canta Dusty Springfield em “The Windmills of your Mind” (a trilha sonora é toda maravilhosa), a vida é uma ininterrupta roda, onde, em todos os momentos, temos o dever de ser felizes...
Drama no brejo
"Aqui-del-rei! Uma legítima brasileirinha, cidadã da mata atlântica e com tanto direito à vida quanto eu e você, pede socorro. Na verdade, com muito mais direito, porque não estamos em risco de extinção. E ela está.
Trata-se da Physalaemus soaresi, uma perereca de 2 cm de comprimento, que ninguém encontrará neste planeta exceto na Floresta Nacional Mario Xavier, em Seropédica (RJ), entre a rodovia Presidente Dutra e a antiga Rio-São Paulo. De repente, os últimos indivíduos da espécie se viram bem no caminho dos tratores, escavadeiras e caminhões escalados pelo PAC para construir o Arco Metropolitano, a superobra do Estado do Rio.
Não que as pererecas tenham se colocado ali. Os monstros a motor é que se meteram pelo seu santuário e se espantaram ao saber que havia vida sob seus pneus, rolos e lagartas. Neste momento, graças à administração da floresta, a P. soaresi goza de relativa proteção, porque está em período de reprodução -o chamado "canto nupcial"-, que vai até fevereiro. Mas e depois?
O Ministério do Meio Ambiente propõe manter o habitat da perereca isolado do canteiro de obras com placas de ferro. Mas alguns biólogos já advertiram que o barulho dos tratores não deixará ninguém sossegado no brejo. E por que o Arco precisa passar exatamente no meio da floresta, que tem 4,9 milhões de metros quadrados?
A vida de uma perereca vale pouco no Brasil. Há tempos, só a dedicação de uma bióloga ajudou a salvar o sapinho Melanophryniscus moreirae no Parque Nacional do Itatiaia. Hoje, chamado de "Flamenguinho" (por suas cores vermelha e preta), ele se tornou o símbolo do parque.
Neste momento, para alguns, a "soaresi" é apenas um estorvo ao "progresso". Amanhã, pode ajudar a desentupir as artérias de quem já pensou assim."
RUY CASTRO
Trata-se da Physalaemus soaresi, uma perereca de 2 cm de comprimento, que ninguém encontrará neste planeta exceto na Floresta Nacional Mario Xavier, em Seropédica (RJ), entre a rodovia Presidente Dutra e a antiga Rio-São Paulo. De repente, os últimos indivíduos da espécie se viram bem no caminho dos tratores, escavadeiras e caminhões escalados pelo PAC para construir o Arco Metropolitano, a superobra do Estado do Rio.
Não que as pererecas tenham se colocado ali. Os monstros a motor é que se meteram pelo seu santuário e se espantaram ao saber que havia vida sob seus pneus, rolos e lagartas. Neste momento, graças à administração da floresta, a P. soaresi goza de relativa proteção, porque está em período de reprodução -o chamado "canto nupcial"-, que vai até fevereiro. Mas e depois?
O Ministério do Meio Ambiente propõe manter o habitat da perereca isolado do canteiro de obras com placas de ferro. Mas alguns biólogos já advertiram que o barulho dos tratores não deixará ninguém sossegado no brejo. E por que o Arco precisa passar exatamente no meio da floresta, que tem 4,9 milhões de metros quadrados?
A vida de uma perereca vale pouco no Brasil. Há tempos, só a dedicação de uma bióloga ajudou a salvar o sapinho Melanophryniscus moreirae no Parque Nacional do Itatiaia. Hoje, chamado de "Flamenguinho" (por suas cores vermelha e preta), ele se tornou o símbolo do parque.
Neste momento, para alguns, a "soaresi" é apenas um estorvo ao "progresso". Amanhã, pode ajudar a desentupir as artérias de quem já pensou assim."
RUY CASTRO
outubro 10, 2009
Atualizando o verbo
Depois de mais de tres anos encostada voltei à lida. Não às lides.Esta é uma carreira encerrada. Entrei num mercado que além do viés de modernidade tem a sua linguagem própria que ainda não absorvi inteiramente. Nem sei se haverá tempo, necessidade ou se, de fato, me interesso. Por enquanto, tenho achado tudo muito curioso. Tem sido um laboratório para minhas observações, sobretudo em relação a como e porque (não) funciona como devia. Começa pelos arranjos que me fizeram "consultora". Seja lá o que isto siginifique, indagada sobre, já dei por mim explicando, com leveza, que seria uma 'assessoria para assuntos aleatórios'. Bom, nisto cabe quase tudo, esbarrando no meu (des) conhecimento na área técnica.Na verdade, tenho sido instigada a 'pensar' o que, modernamente, é um trabalho! O que mais me surpreende nesta minha rentrée é constatar que as velhas coisas passaram a ter novos nomes. Seria por conta do politicamente correto? Tenho me deparado com idéias que são colocadas e, se eu vinha estranhando o agilizar, tive que me esforçar para otimizar o meu desempenho neste universo em que empresários são empreendedores, prestadores de serviços parceiros e empregados colaboradores.
Na área dos comportamentos, percebo o quanto as pessoas tem necessidade de serem ouvidas. Ter para quem falar, de preferência em certos cenários, faz diferença. Não lhes basta a mídia em geral, a web, os sites, etc para exporem as idéias que estão cansadas de repetir. Fazem uma agenda para se reunir lá, convictos de que daquele blablabla sairão as decisões com que pretendem mudar o mundo (em seu favor, eu penso). Terminam satisfeitas. Seria por marcarem presença ou pela crença de que deram a sua contribuição para com a tal das políticas públicas? Eu, que não acredito em nada, assisto a tudo com cara de paisagem, pensando entrever os jogos de interesses subjacentes, protagonistas que são de um teatro que deve continuar com o mesmo elenco, ainda que com as eventuais trocas de papéis. Só isto.
Por lá também circulam minorias que não são mais aquelas nossas velhas conhecidas. Surgiram outras e, dentre elas, os atingidos. Atingidos são pessoas ou comunidades que sofrem pelos mais variados tipos de repercussões provocadas pela instalação de qualquer empreendimento. Eles tem associações que os representam, criam foruns....etc
Onde contratados são parceiros e trabalhadores colaboram com a empresa, tudo parece suave e correto. Observo que as pessoas são chamadas à colaborar pelo modo como interagem e se comprometem. Interagir é o que há de importante. Ser comprometida também conta. Os curriculos são manipulados (ops! deve ter uma palavra 'correta' para isto) de modo a adequá-los às circunstâncias e necessidades. O resultado, me parece, é que ninguém sabe mais de quase nada! Quando teriam acontecido estas mudanças? Não foi de um dia para o outro, mas sei que estive quase para perder este bonde. Não poderia ficar fora desta!
Da área técnica, 'zona de amortecimento' me parece a melhor expressão. Para uso metafórico, claro! Se eu soubesse escrever sobre relacionamentos encontraria um bom uso para ela...
outubro 09, 2009
Truffaut
OS INCOMPREENDIDOS (Les Quatre Cents Coups, França, 1959), passa hoje na TV/Futura.Este filme é daqueles que não envelhece, sua força e beleza continuam intactas. E não é à toa que está em todas as listas de filmes que mudaram a forma de fazer cinema. Foi com ele que François Truffaut, um estreante, ganhou, em Cannes, o prêmio de direção, e lançou a nouvelle vague – o movimento que rompia com a tradição clássica do cinema francês. Até então, nunca se havia visto um filme tão espontâneo e livre de convenções. Feito na primeira pessoa do singular, meio jornalismo e meio poesia, e tão pessoal quanto uma confissão. A fluidez e a intimidade com que o diretor acompanha a história do infeliz Antoine (ele próprio), um garoto mal-amado e descartado pelos professores como um encrenqueiro sem remédio, obrigam a platéia a baixar a guarda e compartilhar com Truffaut uma verdade fundamental: para uma criança, não há tristeza ou alegria que seja pequena. A cena final, em que a câmara "congela" a imagem do rosto angustiado de Antoine, "valeria uma carreira". Truffaut que morreu em 1984, aos 52 anos, de câncer , fez outros grandes filmes, em quase todos eles a figura de sua mãe está lá, sob um disfarce ou outro, na forma de uma mulher que inflige dor.
Para seus colegas de nouvelle vague era tido como um "pequeno-burguês", por causa de seus temas intimistas: infância, amor e traição, obsessão e morte.
"Truffaut é um homem de negócios pela manhã e um poeta à tarde", dizia dele Godard. Que seja verdade. Porém, nunca uma dedicação de meio período à arte rendeu filmes tão belos.
Na experiência narrada no livro Clube do Filme em que o pai, o escritor canadense e crítico de cinema David Gilmour, deixa o filho de 15 anos largar a escola, simplesmente por não gostar de ir às aulas, com a condição de que o acompanhasse em tres sessões de filmes em casa durante a semana, este foi o primeiro filme selecionado.
Recomendo!
outubro 08, 2009
McLouvre

Cai um mito. O McDonald’s comemora seus 30 anos de chegada à França se instalando no Louvre. O templo do fast-food americano venderá o famoso Big Mac ao lado dos fossos medievais da fortaleza de Filipe Augusto, na galeria de lojas do Carrossel du Louvre. A França tornou-se o maior mercado da rede fora dos EU. Quem diria! Um registro: não tem McDonald’s no Met, de NY.
outubro 07, 2009
Resgatando a história
"Guerrilheiro do Araguaia é sepultado depois de 37 anos "
Trinta e sete anos após ser morto por agentes a serviço do regime militar, o líder estudantil cearense e guerrilheiro do Araguaia, Bergson Gurjão Farias, foi sepultado nesta terça-feira (6), no cemitério Parque da Paz, em Fortaleza (CE). A cerimônia encerra uma série de atividades que ocorreram durante o dia em homenagem ao brasileiro. A reverência a Bergson é uma iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, por meio do projeto Direito à Memória e à Verdade, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) que inaugurou memorial em homenagem a Bergson na Concha Acústica, no bairro Benfica.
Nascido em Fortaleza (CE) no dia 17 de maio de 1947, filho de Luiza Gurjão Farias e Gessiner Farias, Bergson atuou no Movimento Estudantil quando cursava Química na UFC e desapareceu entre maio e junho de 1972. Desde então, permaneceu na lista dos desaparecidos políticos do Brasil. Em 1996, seus restos mortais haviam sido resgatados no cemitério de Xambioá e trazidos para exames de identificação em Brasília . Em junho de 2006, um novo exame de DNA resultou em conclusão positiva na comparação com material genético de familiares.
Leia mais clicando o título
Trinta e sete anos após ser morto por agentes a serviço do regime militar, o líder estudantil cearense e guerrilheiro do Araguaia, Bergson Gurjão Farias, foi sepultado nesta terça-feira (6), no cemitério Parque da Paz, em Fortaleza (CE). A cerimônia encerra uma série de atividades que ocorreram durante o dia em homenagem ao brasileiro. A reverência a Bergson é uma iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, por meio do projeto Direito à Memória e à Verdade, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) que inaugurou memorial em homenagem a Bergson na Concha Acústica, no bairro Benfica.
Nascido em Fortaleza (CE) no dia 17 de maio de 1947, filho de Luiza Gurjão Farias e Gessiner Farias, Bergson atuou no Movimento Estudantil quando cursava Química na UFC e desapareceu entre maio e junho de 1972. Desde então, permaneceu na lista dos desaparecidos políticos do Brasil. Em 1996, seus restos mortais haviam sido resgatados no cemitério de Xambioá e trazidos para exames de identificação em Brasília . Em junho de 2006, um novo exame de DNA resultou em conclusão positiva na comparação com material genético de familiares.
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outubro 06, 2009
Sobre o Amor, etc.
"...Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor. Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dá um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe. Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida..."
Rubem Braga, "Sobre o Amor, etc." in 200 crônicas escolhidas
Rubem Braga, "Sobre o Amor, etc." in 200 crônicas escolhidas
Um monólogo
“Se Bach fez a música exaltar e Mozart a fez dançar, Beethoven a fez pensar. E descobriu no pensamento essa música latente, essa voz que teima em obter sentido...
Todo o adágio se desenvolve nessa tensão entre a meditação melancólica e o ânimo lírico, entre a meia voz e a paixão, entre a textura romântica e a estrutura clássica, entre Chopin e Mozart. É como uma síntese de Beethoven, de seu gênio musical." Tá falado Piza
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