outubro 07, 2009

Resgatando a história

"Guerrilheiro do Araguaia é sepultado depois de 37 anos "
Trinta e sete anos após ser morto por agentes a serviço do regime militar, o líder estudantil cearense e guerrilheiro do Araguaia, Bergson Gurjão Farias, foi sepultado nesta terça-feira (6), no cemitério Parque da Paz, em Fortaleza (CE). A cerimônia encerra uma série de atividades que ocorreram durante o dia em homenagem ao brasileiro. A reverência a Bergson é uma iniciativa da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, por meio do projeto Direito à Memória e à Verdade, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) que inaugurou memorial em homenagem a Bergson na Concha Acústica, no bairro Benfica.
Nascido em Fortaleza (CE) no dia 17 de maio de 1947, filho de Luiza Gurjão Farias e Gessiner Farias, Bergson atuou no Movimento Estudantil quando cursava Química na UFC e desapareceu entre maio e junho de 1972. Desde então, permaneceu na lista dos desaparecidos políticos do Brasil. Em 1996, seus restos mortais haviam sido resgatados no cemitério de Xambioá e trazidos para exames de identificação em Brasília . Em junho de 2006, um novo exame de DNA resultou em conclusão positiva na comparação com material genético de familiares.
Leia mais clicando o título

Filosofando...

À toa


Clicando no título, abre o link onde se brinca de fazer vários efeitos com fotos.

uma reflexão

outubro 06, 2009

Sobre o Amor, etc.

"...Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor. Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dá um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe. Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida..."

Rubem Braga, "Sobre o Amor, etc." in 200 crônicas escolhidas

Um monólogo


“Se Bach fez a música exaltar e Mozart a fez dançar, Beethoven a fez pensar. E descobriu no pensamento essa música latente, essa voz que teima em obter sentido...
Todo o adágio se desenvolve nessa tensão entre a meditação melancólica e o ânimo lírico, entre a meia voz e a paixão, entre a textura romântica e a estrutura clássica, entre Chopin e Mozart. É como uma síntese de Beethoven, de seu gênio musical." Tá falado Piza

outubro 05, 2009

Lago Jacareí

Cheia de culpa por haver passado o domingo numa rede, lendo a Despedida em Veneza (v.abaixo), levantei nem bem o dia tinha clareado. A janela do meu quarto, cujas persianas estão sempre abertas (antes de ir embora, penso em fazer uma carta ao vizinho pedindo desculpas por isto) é voltada para o sol nascente. No décimo nono andar, o vento sopra forte e soa estranho, não move galhos nem arrasta folhas, apenas assobia por qualquer fresta. Ao longe, as dunas, um friso prateado no horizonte e as hélices do parque eólico ... Hoje não se via a bola incandescente alaranjada saindo do mar. É que uma nuvem escura ( passageira) se interpos à sua frente tomando emprestado a luz colorida como contorno.
Fui andar no “Lago”, melhor dizendo, em torno do Lago Jacareí que já foi tão distante, pelos idos de 80/81, e hoje é integrado à cidade. Quatro ou cinco quilomestros depois ( contados pelo número de voltas que havia dado) um sol que já parecia excessivo para os padrões recomendados, ardia na minha cabeça. Consultei o relógio do celular: era 6 hs menos 1/4 , como dizem os franceses. Ah! esta proximidade com o equador! Mais uma volta e fui ' abrir' a academia para fazer o reforço do meu joelho. Tudo para garantir muita flanerie pelo mundo afora e jogar para frente entrevamentos, hospitalizações e quetais.
Esta foto mostra um ângulo do percurso. Além dos equipamentos urbanos comuns aos parques, tem um cajueiro que está carregadinho, um altar de nossa senhora meio kitsh e um kioske que vende café com tapioca, onde fiquei devendo R$ 1,30(não tinha troco).
No mais, só os vestígios de uma feira gastronômica da véspera e o lixo espalhado, em que pese existirem lixeiras da prefeitura e da associação que tenta proteger o lago...

Mercedes Sosa


A vovó das Havaianas

Em 02.10 (um pouco mais abaixo), sob o título "Falso moralismo", critiquei a 'censura' feita à publicidade que é objeto da coluna do PONDÉ, na FSP de hoje. Caso não tenha visto, nem aqui nem na TV, recomendo dar uma olhada no filminho, antes de ler o texto que segue:

"CARA LEITORA , você fala de sexo com sua avó? Se ela falasse com você sobre que tipo de cara é bom pra você ir para a cama, você ficaria à vontade? Ou do alto de seus 20 anos e do blábláblá sobre sua geração ser "sexualmente mais emancipada", você ficaria vermelha e, num reflexo ancestral, fecharia as pernas de vergonha?
Pesquisas consideram as mulheres como índice significativo em termos de "progresso" nos comportamentos. Mulheres que transam fácil e falam disso com desenvoltura, isso seria indicação de "sociedades mais avançadas". Ainda que eu, como a cara leitora já sabe, não acredite muito nesse blábláblá de sociedade mais avançada. Africanas transam muito e a África está longe de ser avançada.
Por que faço esta pergunta indiscreta? Perguntas sobre sexo são difíceis porque se mente muito nesse assunto. Não acredito que hoje se faça mais e melhor sexo do que se fazia antes. A dita revolução sexual é puro marketing de comportamento. Serve pra produzir comportamentos superficiais que vendem coisas relacionadas ao sonho de consumo sexual. No íntimo, a maioria continua insegura, solitária e mal resolvida, só que agora sabe falar bonito sobre a tal liberação sexual.
Em setembro, estreou um comercial de um modelo de Havaianas onde uma jovem conversa com sua avó em um restaurante. Sua avó reclama de suas sandálias num local chique como o que elas estavam. Ela responde algo do tipo "deixe de ser antiga vovó". Entra um cara famoso e bonito no restaurante e elas olham.
A vovó diz pra neta que aquele é o tipo de cara que ela deveria arranjar. A neta responde que casar com gente famosa não é bom. Aí vem o tiro da vovó, quando ela diz mais ou menos assim: "Estou falando de sexo e não de casamento menina!".
Após reclamações do "público sensível", a agência de publicidade criadora do comercial colocou outro filme no ar, em que a atriz que faz a vovó, com um laptop no colo, faz referência explícita às reclamações e diz que a agência decidiu fazer esta segunda versão (que não encobre, e mais do que isso, assume o mal-estar causado pela primeira) em respeito aos ofendidos, mas que, ao mesmo tempo, mantém a primeira na internet em respeito aos que gostaram da "versão maldita". E ainda dá um olé: "Depois digam que não sou moderninha", e acrescenta "isso não é muito democrático?"
Palmas para a agência e para o produto. Um baile nos chatos que não reconhecem a importância da autorregulação em publicidade e querem legislar sobre como as pessoas lidam cotidianamente com a banalidade e a falta de sentido da vida miúda. O problema da repressão à publicidade é que ela pode facilmente criar uma propaganda "frouxa" que só diz o que os chatos acham que pode ser dito. Um chato é uma pessoa que normalmente não tem muita criatividade e atrapalha quem tem. Não há como ser criativo sem correr riscos na vida.
Entretanto, ainda que os envolvidos na criação do comercial tenham se saído muito bem dando uma lição de autorregulação e de como se deve agir numa sociedade difícil como a nossa, sem desistir da ideia "reprimida" pela hipocrisia do público ofendido, esse fato revela mais do que a vitória da criatividade sobre a repressão burra. O fato revela como somos todos reféns do que pessoas banais pensam, em seus apartamentos de classe média.
A ideia de que o público seja mera vítima na sociedade de consumo conta apenas parte da história desta sociedade de consumo. E a fala da vovó, "isso não é muito democrático?", revela exatamente uma das agruras da democracia, sistema necessariamente aberto a estupidez pública. O consumo pode ser de fato uma ferramenta de enorme poder nas mãos do cidadão-consumidor.
Esse "case" Havaianas revela a inteligência adaptativa da propaganda e como ela é uma fronteira na sociologia contemporânea. Uma personagem vovó brinca com o senso comum de que jovens "estão adiante de seu tempo" -uma bobagem que só tem valor quando utilizada pra vender alguma coisa. Jovens são "conservadores" com tudo o que dão valor e "progressistas" com tudo o que não dão valor, assim como todos os mortais. O personagem jovem como agente de mudança é um mito.
Fora o mito, são repetidores de (novos) preconceitos, (novas) fofocas e (novas) repressões em meio às (velhas) baladas. Vou sair e comprar uma Havaianas dessas pra minha filha de 17 anos. Mesmo se for tudo uma grande criação de marketing, ainda assim, um show de bola."

LUIZ FELIPE PONDÉ

E aqui o 'remake" :

outubro 04, 2009

Mary Stuart

Havia assistido esta peça numa montagem que teve a Renata Sorah no papel título e a Xuxa Lopes como Elisabeth. Nesta montagem que fui ver no domingo passado, a Julia Lemmertz faz a Maria Stuart. O texto, de Schiller, tem tradução de Manoel Bandeira, a linguagem poética foi mantida assim como o tratamento em terceira pessoa.
Construído sobre fatos históricos, (a morte da rainha da Escócia Maria Stuart, decapitada a mando de sua prima Elizabeth, soberana da Inglaterra) aborda de tal forma a luta pelo poder, as disputas entre conselheiros e ministros, a manipulação da fé religiosa na disputa entre católicos e protestantes e as artimanhas para influenciar as decisões da soberana que dá ao texto uma atualidade e um frescor que o torna atraente.
Como tinha que sair para o aeroporto na madrugada do dia seguinte, fui embora no intervalo...
 

DESPEDIDA EM VENEZA

Despedida em Veneza, de Louis Begley, é um dos que trouxe na minha última 'escapada' e estou lendo neste fim de semana. Veneza, como tudo o mais, não basta! Pensei em comentá-lo, até ler o que disse sobre ele o Cristovão Tezza (FSP - Mais! - 15/10/2000):

"O homem que está para morrer é daqueles temas absolutos da ficção - em certo sentido, podemos dizer que é o próprio objeto da literatura.
Modernamente, quando cada vez menos a chamada vida eterna é uma referência concreta do mundo escrito, a interrogação do vazio da morte ganha um apelo irresistível. E difícil, é claro, tantas são as tentações de sair pela tangente cinematográfica do sentimentalismo, de um lado, ou do pragmatismo alienado fingindo que não temos nada com isso, na outra ponta. Também comparativamente a tarefa é árdua, depois de A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, novela de 1886 que parece ter sido escrita ontem, como a balizar o limite último de uma obra de arte ao tratar do assunto. Se acrescentamos ao tema a paisagem também acachapante de Veneza, o menor dos problemas será a sombra de Morte em Veneza, de Thomas Mann. Com tantos assuntos no mundo, por que escrever logo sobre um homem que resolve morrer em Veneza? Pois foi isso que decidiu fazer o escritor americano Louis Begley, em "Despedida em Veneza" (Mistler's Exit). Além do tema arriscado, chama também a atenção o fato de que Begley é uma espécie de outsider, às avessas, do mundo literário. Sócio de um rico escritório de advocacia em Nova York, a Debevoise & Plimpton, e escritor tardio que começou a ser reconhecido nos seus 60 anos de idade, Begley teria mais semelhança com um personagem de um filme jurídico-policial do que com um escritor. Pelo menos na perspectiva brasileira: um homem rico que escreve sobre ricos, produzindo não roteiros de segunda, mas literatura de primeira. Mais uma razão para ler "Despedida em Veneza": como no Brasil os ricos só são consistentes nas páginas policiais (talvez porque os nossos escritores somos pobres demais para conhecê-los) esse livro nos dá oportunidade de inverter o ponto de vista. Begley nos apresenta um personagem, filho e neto de banqueiros, que transita pelas filiais internacionais de sua agência de publicidade e em cujo rol de culpas não consta o fato de ser rico.
Na primeira cena, nosso herói Mistler descobre que tem poucos meses de vida. Entre se encher de tubos num hospital e "sair à francesa", ele decide pela última hipótese. E resolve fazer uma viagem solitária a Veneza para pensar na vida e preparar, pragmaticamente, os detalhes de sua morte: a herança, o destino de sua firma, o futuro da família, apenas mulher e filho. Nesse início, Begley corteja perigosamente o lugar-comum; em algumas cenas, quase que vemos Anthony Hopkins (digamos, para supor o melhor) levantando-se melancólico à mesa do jantar da amiga Anna, com aquela fachada bem produzida de um filme que simula profundidade e se reduz a nada assim que termina.
Mas é aqui que a imensa superioridade da palavra escrita, nas mãos de Begley, contra todas as probabilidades, transparece. A viagem de Mistler em direção à morte evita todas as tentações sentimentais, e, embora filha do poderoso realismo americano do século XX, cria, com traços sutis e delicados de aquarela, um solo literário de alta qualidade.
Tecnicamente, a narração encontra o tom adequado. O narrador vê o mundo apenas pelos olhos de Mistler, mas ao mesmo tempo não é ele - o que dá ao texto o equilíbrio exato entre a empatia e o distanciamento. Todas as figuras que circulam em torno de Mistler, no passado de sua vida ou no presente sufocante de Veneza, vão se reduzindo a fantasmas, seres incompletos, com os quais a cada minuto transparece a absurda impossibilidade de comunhão. Os temas da vida do personagem - a traição, a amante do pai, a namorada que ele nunca teve, a fotógrafa que invade sua vida e desaparece, o ex-sócio, o sexo, a distância do filho, o sucesso - vão inapelavelmente se fragmentando e se esfarelando diante da proximidade da morte (e da dor física); mas, ao mesmo tempo, são tudo o que Mistler tem. Toda transcendência terá de contar com essa memória, e só com ela: o problema é que Deus não existe, e não há ginástica mental capaz de torná-lO convincente.
Também aqui a intuição técnica se revela: ao recusar as marcas tradicionais de diálogo (aspas ou travessão) e fundir freqüentemente o texto do narrador à fala dos personagens (deixando nítida a fronteira, entretanto, para não distrair o leitor do que realmente interessa), a escrita descobre o seu ritmo intimista, em que a voz alta é apenas a extensão superficial da voz silenciosa que diz quem somos, e em que a memória não se transforma num bloco fechado e monolítico de referências biográficas. Ao contrário, acompanhamos Mistler como ele mesmo se acompanha: à deriva de sua própria vida."

outubro 03, 2009

A matriz

Já disse em outro post que nunca tive um diário. De tanto dizerem que no processo de envelhecimento perdemos a memória, venho registrando 'quase' tudo que vou lembrando, lendo, observando.... Como se estivesse fazendo minha biografia para consultar quando começar a me esquecer de mim. Assim, tenho feito registros de momentos, pessoas, filmes, livros, viagens, passagens que possam me servir para evitar que minha cabeça se torne uma página em branco. Para evitar expor alguma situação ou alguém em especial, crio 'ganchos' que não sei se são perceptíveis, mas que me remeterão a eles. Não sei se alguém já fez isto, nem se funcionou.
O que é alguém sem a sua história? É o que vivo me perguntando.
Encontrei antes de ontem, na noite, um amigo que não via há tempos. Perguntei-lhe, distraída, pela sua mãe. Só por perguntar . Ele tinha voltado a morar com ela e foi me afirmando não ser tão difícil pois havia “descoberto” que no processo de esquecimento a 'matriz' (nem quis detalhe sobre o que seria isto) se mantém e que sabia quais os 'temas' que a traziam 'de volta', ainda que por alguns poucos minutos. Quando começou a me contar que lia trechos de Santo Agostinho para ela, tratei de ir desconversando. Afinal tinha saído para aliviar um pouco e aquela estória ia ser muito pesada.
Depois fiquei pensando: se for verdade, o que subsistirá na minha 'matriz'?
Lembrei de uma tia de meu pai que a vida toda foi respeitável, reservada e religiosa. A conheci velha, sempre com um terço. Ficou pornográfica. Um vexame! Não se podia imaginar que ela tivesse tanta 'sujeira' naquela cabeça. Ela falava alto e para qualquer plátéia, inclusive para nós, então crianças... Na época, meu pai me explicou que aquele comportamento era consequência de ela ter sido uma pessoa ' reprimida' . Não me lembro se compreendi bem o que isto significava. Tinha menos de 10 anos.
Lembro de que , tempos depois, soube que uma prima mais afastada estava com Parkinson e que esta seria uma doença de freiras e juízes. Ela era freira. Também não entendi direito isto. Quando fiquei adulta , contei para um amigo juiz e perguntei se ele se acreditava fazendo parte daquele 'grupo de risco'. Respondeu com a pergunta: vc consegue imaginar um juiz dançando,'rebolando a bunda', em cima de uma mesa?
Passados algum tempo, ele tinha pouco mais de 50 anos, quando o reencontrei com esta doença. Tive vontade de perguntar se ele lembrava desta nossa conversa...
Mas voltando a 'matriz', a tal que ficaria preservada, visitei uma tia, mulher das antigas, que teve um só homem e marido, que também é vítima do ' alemão'. Lá pelas tantas da desencontrada e surreal conversa ( vai, volta, repete a mesma pergunta inúmeras vezes, e a cada vez a resposta continua sendo uma novidade), ela parou pensativa, meio ausente e 'retornou' quase em lágrimas para me dizer: “O H. morreu”. Ia ficando tocada com a tristeza dela pois os tinha visto senilmente apaixonados nos últimos anos, quando ela deu um profundo suspiro e falou num lamento: “ Não arranjei mais ninguém!”
Não tive outro jeito senão quebrar o clima dizendo que também estava encalhadésima etc , mas fiquei intrigada com este ' registro' que sobreviveu na sua 'matriz'.

Clarice e eu

"Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes... tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? Eu adoro voar!"
........
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre..."

.....
"Um dia desses um chofer de táxi, e eu entrevisto muitos, foi quem se encarregou de me entrevistar. Fez-me várias perguntas indiscretas e, entre elas, uma bastante estranha: “A senhora se sente mulher igual a todo mundo?” (Ele era tão nortista que não dizia mulher, dizia muler). Respondi sem saber ao certo ao que respondia: “Mais ou menos”. “Pois eu”, continuou ele, “me sinto igual a todo mundo. Já fui mendigo, minha senhora. E hoje sou chofer. E, mesmo tendo sido mendigo, me sinto igual a todo mundo. É por isso que lhe estou dando uma lição de moral”. Merecia eu esta lição? Não sei por que despedimo-nos com a maior efusão, um desejando felicidade ao outro. Na certa estávamos precisados. (…)"

"O que alarga a vida de uma pessoa são os sonhos impossíveis".

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam".

"Mais o pior é o súbito cansaço de tudo. Parece uma fartura, parece que já se teve tudo e que não se quer mais nada. Cansaço dos Beatles. E cansaço também daqueles que não o são. Cansaço inclusive de minha liberdade íntima que foi tão duramente conquistada. Cansaço de um amar o outro. Melhor seria o ódio. O que me salvaria dessa impressão de fartura — é fartura ou uma liberdade de que está sendo inútil? —seria a raiva".

“Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim”.

“Avisem-me se eu começar a me tornar eu mesma demais”

“Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permanecia apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada".

Ballet no Paraná


Os ex-alunos de Milena Morozowicz, que comemora 50 anos de vida artística, fazem hoje uma homenagem à coreógrafa. Milena inaugurou em 1972 o “Curso Livre de Dança Moderna”. Seu pai Tadeu foi fundador em Curitiba da segunda escola brasileira de balé. Milena, autora dos livros “Vida em Movimento” e “Destino Arte”, assina sua técnica pessoal de Movimento, a TMM. A curadora do evento é Thais Eliane Klug.

Cidade feliz

Clicando no título para ver imagens em 360 graus da festa no Rio.

 "Há tempos, escrevi num livro que, assim como os londrinos são bons em táxi, guarda-chuva, pigarro, cachorro e consciência de classe, e os parisienses, em baguete, boina, livro usado, cigarro sem filtro e bidê, o carioca sempre se orgulhou de seu know-how em botequim, sandália de dedo, frescobol, caldinho de feijão e botar apelido nos outros. Pois logo poderá somar outro item a seu currículo: organizar grandes competições esportivas.
O Rio receberá os Jogos Mundiais Militares em 2011, a Copa das Confederações em 2013, a Copa do Mundo em 2014 (abrigará, entre outros, o jogo final, além de ser sede da seleção, da Fifa e do centro de imprensa) e, agora, a Olimpíada e a Para-Olimpíada em 2016. Ou seja, há espaço na agenda para 2012 e 2015. E, até que se acenda a chama olímpica, ainda teremos sete Carnavais e outros tantos verões e Réveillons.
Estamos numa maré boa. Nos últimos meses, o Rio ganhou o título de "cidade mais feliz do mundo" (segundo pesquisa de um instituto americano com 10 mil pessoas em 20 países), foi considerado (pelos entendidos) o "melhor destino gay do mundo" e se tornou a primeira cidade da América do Sul a merecer uma edição do Guia Verde Michelin, com 20 lugares agraciados com a cotação máxima de três estrelas e 40 com duas.
Junte a isso a boa colocação do Rio como polo nacional do audiovisual e de pesquisa acadêmica nas áreas de saúde, biologia, biotecnologia, petróleo, astronomia e humanas em geral -e, acrescento eu, da baixa gastronomia, conceito criado aqui e irradiado para as demais potências- para entender como, depois de tanto apanhar, nossa autoestima tem melhorado muito.
Mas, como diria o carioca Noel Rosa, o Rio não quer abafar ninguém. Só quer mostrar que faz Olimpíada tão bem."

RUY CASTRO escreve na FSP

outubro 02, 2009

Campanhas censuradas


Relacionar a AIDS a imagens de Hitler, Stalin e Hussein nas peças publicitárias (veja clicando no título) foi o que fez a agencia alemã Regenbogen para a campanha do próximo Dia Mundial da Luta, com o conceito 'A Aids é um assassino em massa'. A escolha destes personagens como metáforas para a letalidade do vírus deu a maior polêmica.

Falso moralismo


Velhinha tem que fingir que esqueceu o quanto sexo é bom? Este comercial de havaianas foi retirado do ar depois de reclamações e processo no Conar, (o conselho que regulamenta a publicidade).

outubro 01, 2009

Deslumbramento


Vídeo apresentado na abertura do recente VI Congresso Brasileiro de Unidades de Preservação, em Curitiba.. Haroldo Palo Jr.cinegrafista e fotógrafo da natureza, locução do ator Antonio Abujamra - Eloi Zanetti

Por que sentimos saudade?

"DONIZETE GALVÃO , amigo poeta, me dá a ideia de escrever sobre a comida das pensões familiares. Diz ele que existem ainda muitas na Mooca e já comecei um plano de visitá-las. Puxei também pela veia memorialista, que é aquela de que os leitores mais participam. E parei para me perguntar: por que gostam? Homens e mulheres correm ao baú das memórias e soltam suas lembranças. Há casos, como o do mangarito, que precisei abandonar e unir os leitores entre si, num tipo de Orkut do mangarito.
Qual a explicação do amor pelo passado? Imagino.
Primeiro, é uma coluna de comida, lugar privilegiado -a casa, o real, o virado para dentro, circunscrito.
Somos nós por dentro, e é a partir desse núcleo já formado e seguro, debaixo de um teto, que nos ligamos a outros espaços abertos, alternativos, que vão compor nossas vidas.
Um dos primeiros espaços alternativos são as férias. Pela estrada de Santos. O carro fervendo. Às vezes em hotel, às vezes em pensão ou casas alugadas. A pensão não é como o hotel que anula a casa. É a casa continuada, extremamente sedutora por ter mudado de lugar. Em Santos, eram geralmente casas velhas, bonitas, com entrada de areia e pedriscos, palmeiras e plantas de raízes grossas, levando a um terraço que acessava a casa pelos dois lados.
Muitas portas, de madeira grossa com várias demãos de tinta a óleo.
E não era um gerente que administrava aqueles quartos de pé direito alto, aquele cheiro de curry indiano que tomava as tardes com seu perfume. (Até hoje não sei de onde vinha, talvez de umas palmeiras pequenas, comuns. Às vezes, numa esquina qualquer, sou invadida por aquele cheiro que logo se liga à maresia, à areia.)
Nas vísceras da pensão corriam mundos que não conhecíamos.
Eram tantos segredos novos sobre os quais nem falávamos, só sentíamos, por falta de linguagem disponível, vidas enterradas, violências, amores, tudo embrulhado num cheiro fugaz de mofo de praia. Casal em lua de mel nos boxes de chuveiro do quintal, ele fogoso de desejo, ela impedindo qualquer avanço, aos soluços. A filha da dona da pensão, descolada, afinal era a casa dela, o mar e a areia seu quintal. Comandava um jogo de facas afiadas emprestadas da cozinha que deveríamos espetar de longe na areia úmida. Eu me esqueci das regras. Se me lembrasse, acho que seria uma mulher totalmente feliz, morando em Santos e jogando o jogo da faca. E o marinheiro da Marinha Mercante que morava no chalé dos fundos quando estava em terra, um espécime muito masculino, grande e forte com bigodes de pirata e uma aura de contrabando e pecado. Cheirava a tabaco e respondia a contragosto, como que receoso de estar ali conversando conosco, as perguntas sobre o mar.
A mesa do buffet não chegava a impressionar, baixela gasta, a luta por uma finura perdida nos pequenos trincados da louça. As horríveis travessas de bife acebolado, o purê floreando à volta, a surpresa de um chucrute, o agrado de um peixe assado, a revelação de uma alcachofra à judia, a tradição de um pudim de claras. E de sobremesa maior os lentos passeios até a ponte pênsil. Embaixo dela, vendiam uma bananada retangular, acabada de fazer, fininha, com açúcar cristal por cima. Os cachos de bananinha ouro mais doces, os baiacus pescados inchando a barriga.
Tudo brilhava de um brilho novo, visto sob a perspectiva das crianças que tentavam entender os mundos diferentes de suas realidades caseiras. E é dessa época, e não das comidas, que temos saudade. Os meninos começavam a mapear o mundo, o lugar, a história, os acontecimentos e nós, meninas, mapeávamos a subjetividade, ligadas no corpo e no desejo, no labirinto do humano, real e fantasia agarrados, recheando um doce de mil folhas".

NINA HORTA escreve sobre comida,na FSP, às quintas