outubro 03, 2009

A matriz

Já disse em outro post que nunca tive um diário. De tanto dizerem que no processo de envelhecimento perdemos a memória, venho registrando 'quase' tudo que vou lembrando, lendo, observando.... Como se estivesse fazendo minha biografia para consultar quando começar a me esquecer de mim. Assim, tenho feito registros de momentos, pessoas, filmes, livros, viagens, passagens que possam me servir para evitar que minha cabeça se torne uma página em branco. Para evitar expor alguma situação ou alguém em especial, crio 'ganchos' que não sei se são perceptíveis, mas que me remeterão a eles. Não sei se alguém já fez isto, nem se funcionou.
O que é alguém sem a sua história? É o que vivo me perguntando.
Encontrei antes de ontem, na noite, um amigo que não via há tempos. Perguntei-lhe, distraída, pela sua mãe. Só por perguntar . Ele tinha voltado a morar com ela e foi me afirmando não ser tão difícil pois havia “descoberto” que no processo de esquecimento a 'matriz' (nem quis detalhe sobre o que seria isto) se mantém e que sabia quais os 'temas' que a traziam 'de volta', ainda que por alguns poucos minutos. Quando começou a me contar que lia trechos de Santo Agostinho para ela, tratei de ir desconversando. Afinal tinha saído para aliviar um pouco e aquela estória ia ser muito pesada.
Depois fiquei pensando: se for verdade, o que subsistirá na minha 'matriz'?
Lembrei de uma tia de meu pai que a vida toda foi respeitável, reservada e religiosa. A conheci velha, sempre com um terço. Ficou pornográfica. Um vexame! Não se podia imaginar que ela tivesse tanta 'sujeira' naquela cabeça. Ela falava alto e para qualquer plátéia, inclusive para nós, então crianças... Na época, meu pai me explicou que aquele comportamento era consequência de ela ter sido uma pessoa ' reprimida' . Não me lembro se compreendi bem o que isto significava. Tinha menos de 10 anos.
Lembro de que , tempos depois, soube que uma prima mais afastada estava com Parkinson e que esta seria uma doença de freiras e juízes. Ela era freira. Também não entendi direito isto. Quando fiquei adulta , contei para um amigo juiz e perguntei se ele se acreditava fazendo parte daquele 'grupo de risco'. Respondeu com a pergunta: vc consegue imaginar um juiz dançando,'rebolando a bunda', em cima de uma mesa?
Passados algum tempo, ele tinha pouco mais de 50 anos, quando o reencontrei com esta doença. Tive vontade de perguntar se ele lembrava desta nossa conversa...
Mas voltando a 'matriz', a tal que ficaria preservada, visitei uma tia, mulher das antigas, que teve um só homem e marido, que também é vítima do ' alemão'. Lá pelas tantas da desencontrada e surreal conversa ( vai, volta, repete a mesma pergunta inúmeras vezes, e a cada vez a resposta continua sendo uma novidade), ela parou pensativa, meio ausente e 'retornou' quase em lágrimas para me dizer: “O H. morreu”. Ia ficando tocada com a tristeza dela pois os tinha visto senilmente apaixonados nos últimos anos, quando ela deu um profundo suspiro e falou num lamento: “ Não arranjei mais ninguém!”
Não tive outro jeito senão quebrar o clima dizendo que também estava encalhadésima etc , mas fiquei intrigada com este ' registro' que sobreviveu na sua 'matriz'.

Um comentário:

Sebastião disse...

Seu blog é sempre melhor quando vc abre pra nós suas Crônicas. Muito bom. Abç.