setembro 16, 2009

Bonito, gostoso e prático


"Um dos temas mais momentosos da Bienal do Livro, em cartaz no Riocentro, é se o livro impresso, de papel, corre o risco de desaparecer, fulminado pelas novas tecnologias. Eu próprio, zanzando entre os stands no último domingo, fui perguntado várias vezes sobre isso.
Curiosamente, quem olhasse ao redor diria que a pergunta não fazia sentido e que a indústria do livro nunca esteve tão robusta neste país. Era um domingo de escandaloso azul, com as praias, os passeios e todas as formas de lazer grátis no Rio convidando o povo a estar em qualquer lugar, menos ali, num conjunto de pavilhões em Jacarepaguá, a mais de uma hora de Ipanema, e tendo de comprar ingresso para entrar.
Pois essa pergunta estava sendo feita em meio a montanhas de livros expostos e 125 mil pessoas, número de visitantes que, segundo a Bienal, compareceu no fim de semana. Gente que não pagou para ver malabaristas, engolidores de fogo ou artistas globais, mas romancistas, biógrafos, poetas ou autores de livros para crianças.
Respondi que, como formato, o livro é difícil de ser superado -porque já nasceu perfeito, e não é de hoje. Ele é bonito, gostoso e prático. É também portátil: pode ser levado na mão, na mochila ou na bolsa, e lido no sofá, na cama, no banheiro, na mesa do jantar, no bonde, no ônibus, no jardim, na praia, na banheira, onde você quiser. É também barato: quem não tiver dinheiro para comprar livros novos, encontrará farta escolha nos sebos e até na calçada da rua.
Um livro pode nos alimentar por uma semana, um mês ou o resto da vida. E, ao contrário do CD e do DVD, não precisa de uma máquina para tocar. Basta ser aberto para poder ser lido. Na verdade, o livro só precisa de nós.
Neste momento, mais do que nunca, talvez".


RUY CASTRO

O Mordomo Fiel

Acabo de assistir Bernard e Doris, o mordomo e a milionária. Susan Saradon e Ralph Finnes em ótimas atuações, num filme suave e forte, livremente baseado na vida de Doris Duke (1912-1993), milionária herdeira de uma indústria de tabaco e o relacionamento com o seu tímido mordomo Bernard Lafferty . Esta enternecedora amizade e devoção foi a maior cumplicidade que esta mulher, que podia comprar tudo, experimentou ao longo de sua vida. O que, naturalmente, não é muito bem compreendido pelos que gerenciam a sua fortuna. Para não cair no lugar comum de que 'dinheiro não compra tudo' e para não fazer a louvação da amizade com gay, estive tentada a ler antes o comentário do Daniel Herculano (que me emprestou o DVD) e escreve no http://www.opovo.com.br/colunas/script/ - acesse clicando no título.
Mas resisti. Vou ler agora. Depois deste post.

setembro 15, 2009

Pescador de Flagras

"...Henri Cartier-Bresson (1908-2004) nunca usou a expressão "momento decisivo" para falar de sua obra. O termo, no entanto, grudou em seu nome como um slogan. Tudo culpa da tradução que o título do livro Images à la Sauvette (em português, algo como Imagens Furtivas), de 1952, recebeu nos Estados Unidos. A diretora da Fundação Henri Cartier-Bresson em Paris, Agnès Sire, conta que não foi muito fácil a negociação da editora Simon & Schuster com o próprio fotógrafo. Cartier-Bresson queria The Given Instant (O Instante Dado), mas acabou aceitando The Decisive Moment sob o argumento de ser uma expressão mais forte e mais direta. O "momento decisivo", porém, é certamente uma ideia menos precisa de seu trabalho. Isso porque o termo sugere a existência de um instante único, tão sublime quanto fugaz, quando todos os elementos de uma cena se combinariam para uma foto. Cartier-Bresson flanava pelas ruas sempre em busca de arranjos assim. Mas não acreditava que eles acontecessem uma vez só durante uma situação, por exemplo. Para o fotógrafo, encontros sublimes ocorriam na vida com frequência. Seu segredo era saber captá-los."(leia a BRAVO!clicando no título)



















“Tirar fotos é prender a respiração quando todas as faculdades convergem para a realidade fugaz. É organizar rigorosamente as formas visuais percebidas para expressar o seu significado. É pôr numa mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”.

Desfaço 76 anos...

"O PRIMEIRO filósofo que li ainda adolescente, um dinamarquês chamado Kierkegaard, escreveu que "a pessoa que fala sobre a vida humana, que muda com o decorrer dos anos, deve ter o cuidado de declarar a sua própria idade aos seus leitores". E isso porque não temos pela manhã as mesmas ideias que temos no fim do dia. Uma ideia dita de manhã abre um cenário. A mesma ideia dita no crepúsculo abre outro cenário diferente.
Monet sabia disso. Sabia que um monte de feno que as vacas identificavam como o mesmo através das horas do dia, sob as diferentes oscilações da luz, se tornavam outros. Assim, ele não pintava o mesmo monte de feno várias vezes: ele pintava os vários montes de feno que se revelavam sob as oscilações da luz. Apresso-me, portanto, a revelar a minha idade, para que os meus leitores vejam o que estou vendo. Hoje, dia 15 de setembro de 2009, estou desfazendo 76 anos. Minha idade pinta uma paisagem crepuscular.
O revisor se apressará a corrigir o meu erro. Eu devo ter me distraído, coisa compreensível na minha idade... Não há nem na literatura nem na linguagem comum exemplo desse uso estranho da palavra "desfazer" para se referir ao que acontece num aniversário. O certo é "fazer". Ato contínuo ele deletaria o "des" e o texto ficaria liso, sem causar tropeções no leitor: hoje, dia 15 de setembro, o Rubem Alves está "fazendo" 76 anos. Assim tem sido minha relação com revisores: desentendemo-nos sobre a vida e sobre as palavras...
Aí me veio à memória uma observação de Rolland Barthes que não consigo repetir por não ter encontrado o livro: ele disse (perdoem-me se me engano!) gostar dos textos que fazem tropeçar e não dos textos próprios para deslizar. O deslizamento deixa os pensamentos do jeito como estavam, enquanto que o tropeção e o tombo são ocasiões para o susto e a súbita iluminação.
É um equívoco contabilizar o número dos anos vividos na coluna da adição. Adição é a coluna do "mais". Diz que algo aumentou. Mas o que aumentou? A vida? Na contabilidade dos anos de vida, tudo que parece "mais" é, na realidade, um "menos". O número contabiliza os anos que foram desfeitos. Chronos é o deus cruel que devora os seus filhos...
O correto seria perguntar ao aniversariante: "Quantos anos você não tem? E ele responderia "Eu não tenho 42". "Quantos anos você está desfazendo hoje? Estou desfazendo 54..."
Lá estão as velinhas sobre o bolo, coroadas pelo fogo, maravilhoso símbolo da vida. Aí todos começam a bater palmas, a sorrir e a cantar: o aniversariante irá apagar as chamas com um sopro. No seu lugar ficarão os pavios negros, retorcidos, soltando fumaça, trevosos. Apagadas as velas, todos batem palmas e riem. Confesso que não entendo...
Bachelard o disse com delicadeza insuperável: "A vela que se apaga é um sol que morre. O pavio se curva e escurece. A chama tomou, na escuridão que a encerra, seu ópio. E a chama morre bem; ela morre adormecendo"...
Quero que minha chama se apague adormecendo. Não quero que um sopro forte apague o meu fogo. Espero que minha vela vá se desfazendo vagarosamente...
No meu aniversário não haverá velinhas a serem apagadas com um sopro bruto. Vou mesmo é acender uma vela bem grande que deverá ser acesa e ficar acesa até que o último amigo se despeça. Então eu e minha vela, sozinhos como dois amantes, nos despediremos... Até o ano que vem, se os ventos não forem fortes..."

RUBEM ALVES

setembro 14, 2009

O tempo que resta


Ainda que as pessoas estejam morrendo a todo momento, a morte não é um tema muito abordado no cinema . Este filme, do diretor François Ozon, é uma história franca, sem melodramas, sobre alguém que é obrigado a aceitar o fato de que está morrendo e, ao mesmo tempo, encontrar uma maneira de continuar vivendo pelo tempo que lhe resta. Veja o trailer clicando o título. Acima algumas cenas do filme, ao som de Shubert.

setembro 13, 2009

Papel parede


Desde que saí a primeira vez daqui, mudei minha relação com livros. Não fazia sentido levá-los para tão longe, quando era certo que teria os do LC, com quem passei a viver. Este exercício de deixar para trás não só livros mas outros objetos pessoais é salutar. Descobre-se que se pode prescindir deles, como de quase tudo. Arrisco a pensar que isto vale também para pessoas.
Com relação aos objetos, hoje em dia, os meus meus desejos não vão além do básico, para ter um relativo conforto. Venho observando, pouco a pouco, este universo ficar mais restrito. Às vezes penso que terminarei meus dias reduzida ao notebook, óculos e remédios! Ih! lembrei que continuo não abrindo mão de usar batom e uns brinquinhos.... Ainda assim, já me tornei muito ' leve' , tenho mais mobilidade. A estas alturas já descobri que mobilidade é a palavra chave para o meu equilíbrio. Preciso sentir que posso 'bater asas' a qualquer momento, deixando o que eventualmente tiver acumulado. Sem dor. Colecionar objetos, mesmo os de uso pessoal, importa em me sentir presa, como se tivesse com bolas de chumbo ligadas por uma corrente à minha perna. Piro.
Com relação aos livros, o prazer que me proporcionam independe de serem, ou não, meus. Assim, além dos que tomo emprestado ( é a primeira coisa que procuro quando vou à casa de amigos) e devolvo tão logo sejam lidos (se não gosto, abandono sem concluir), dos que compro, igualmente me desfaço. Já aconteceu de este 'descarte' ser planejado no ato da aquisição...
Em geral, o destino pode ser alguém que manifesta interesse ou mesmo um amigo distante a quem suponho agradar enviando-o. Lembrar de um livro para mim passa também por lembrar o que fiz dele. Ah! Dei para fulano. Já aconteceu de ter que comprá-lo novamente. Só uma vez. Bem, se não contar que ano passado andei fazendo umas releituras.
Para que serve guardar um romance que sabidamente não iremos reler? É cem por cento certo que há quem gostaria de ter acesso a ele. Seja numa biblioteca pública ou uma daquelas ' tucanos' da vida que fazem locação baratinha e não tem como renovar o acervo. Sem contar os créditos que se obtém nos sebos (me deu saudade do sebo da emiliano perneta, em Curitiba, de onde sempre saía feliz para me fechar em casa...). Na Europa, existe aquele dia de largar um livro num lugar público (banco de praça, metrô, café) e também pegar o que foi abandonado. Não sei se acontece por aqui.
Mesmo não me apegando, alguns foram ficando comigo, seja porque estão em outra língua (fica mais difícil repassar) ou porque tem um oferecimento bacana de um amigo querido. Há mais de dois anos, deixei estes poucos livros (e filmes)em Curitiba. Depois de uns meses do outro lado do Atlântico, de onde enviei alguns para cá, acabei deixando outros em Floripa. Durante este tempo eles continuam por lá, mas não povoam as minhas preocupações.
Li em algum lugar que os livros que lemos num dado momento são mais do que apenas livros, são igualmente diários — ou em última análise são provocadores de registros mentais — de outras e muitas coisas que não vêm nas suas páginas. Talvez seja certo, mas não significa que me sinta presa a eles nem que os considere parte de mim.

setembro 12, 2009

IN THE END


"Shortbus" é o nome dos ônibus escolares amarelos e também de uma festa mensal que John Cameron Mitchell comandava em Nova York e que deu nome ao seu filme. No roteiro deste filme de 2006, uma terapeuta de casais admite, para si mesma e para os pacientes, que simula seus orgasmos na relação com o marido. Entre os clientes, há um par gay que freqüenta um clube underground e é lá que a terapeuta termina resolvendo suas dificulades...Se não quiser não veja, mas nao precisa denunciar o blog, ok?

Programa de sábado


São muitos os 'jeitos' possíveis de se estar com alguém... ((Não estou pensando nas bizarras camêras para compartilhamento de intimidades que, sem qualquer moralismo, considero de péssimo gosto!).
Ao me acordar, li um torpedo simpático de um amigo querido me desejando 'bom fim de semana'. No correio eletrônico, ele se incumbe da tarefa. Indica, dentre outros sites, o de uma interessante antologia digital que comentarei noutra oportunidade e o de uma livraria. Generoso como sabe ser, sugere a livraria para que eu escolha o (s) livro (s) para ele me enviar. Não facilito. Deixo que 'quebre a cabeça' tentando descobrir o que me agradaria...
Tem programa melhor do que 'fechar' a semana passando umas horas 'futricando' uma livraria? Se tiver com quem tomar um café, então! Quando se trata de uma livraria em Lisboa, cujo livreiro, esta 'espécie' em extinção, tem um blog, pode ser tão ou mais agradável. É o caso.
Passe na Livraria Pó dos Livros clicando no título deste post. Trata-se de uma livraria independente, daquelas que por aqui estão desaparecendo. Escute o que estão ouvindo lá (ops! ficou parecido com a lógica deles) e leia tudo. Nada do óbvio e do banal. Muito diferente das megastores. Sem querer fazer comercial, ela consta dos lugares que devem ser visitados, ou melhor, da lista das portas por onde se deve passar indo à Lisboa.
Quando me refiro às várias maneiras de se estar próximo a alguém, penso nestas experiências. Estivemos hoje na livraria , ouvimos as mesmas músicas. Já aconteceu até de lermos, simultaneamente, o mesmo livro. Tenho a sensação de que passei muitas boas horas deste sábado com ele. Qualquer dia a gente se encontra e concretiza estes afetos...
Num abraço...

Reencontros

A semana foi curta depois de tantos compromissos: aniversário de 85 anos, durante o dia do sábado, almoço no domingo (um 'sobrinho' comemorava seus 25 anos), jantar na terça (70 e alguns de um primo). Tive que conciliar tudo isto com a presença de algumas amigas na cidade. Se escrevesse 'velhas amigas' estaria certa, em ambos os sentidos. São as amigas de uma ' tribo' antiga.
Nunca deixamos de ser presentes na vida uma das outras. Profissões diferentes, caminhos distintos, cidades e/ou países distantes. Casamentos, descasamentos, filhos, ou não. Recomeços e mudanças. E,ultimamente, os reencontros que não deixamos mais por conta do acaso.
No verão de 2008, fizemos um cruzeiro. Nos descobrimos, saudavelmente as mesmas. Ops! Não tirem conclusões apressadas...Apenas coisas 'tipo assim':
Numa noite, aconteceu de um garçom que não era dos que nos atendia, ao fim do jantar, vir em direção de nossa mesa com um bolo de aniversário com aquelas velinhas faiscantes já acesas. Imediatamente, sem qualquer sinal ou combinação prévia, começamos a cantar ' Parabéns', voltadas para a filha de uma das amigas que não podendo viajar, mandou uma menina de vinte e poucos anos para o meio de nós . O garçom, se tinha pensado ser outra a mesa a que se destinava o bolo, não teve dúvida, colocou o bolo em nossa mesa , o que foi seguido de muita algazarra e cumprimentos à surpreendida 'aniversariante', cujo ar de espanto se confundia com a emoção pela inesperada comemoração de uma data que não existia. Nunca soubemos como foi resolvido o problema com o aniversário que devia ter realmente acontecido...
Se pensar que estamos todas numa certa idade, não era de esperar que da 'velha chama' ainda restava uma brasinha, pronta para reacender e aprontar uma destas. Quase como nos velhos tempos de 'molecagem'. Um dia ainda conto o que fazíamos, nas tardes dos sábados, na casa de uma de nós, cujo número de telefone era sempre confundido com o de uma senhora que fazia bolos/tortas por encomenda...Talvez conte dos vários telefonemas de um pai, na tentativa de falar com o filho que estava em viagem de lua de mel, desde que descobri, logo no início da conversa, que ele não conehcia bem a nora....
Este ano nos reencontramos em Barcelona. 11 dias para nunca esquecer. Esquecer, este fantasma que nos assombra, parece ser um problema que ainda (bate na madeira, rsrsrs) não nos afeta. Principalmente quando se trata de passado, bem passado mesmo, estórias do arco da velha...Se uma de nós 'perdeu' algum detalhe, outra refresca e parece que acrescenta. De tão deliciosas, fico pensando em que medida não fazemos algumas 'interpretações' nestas estórias. Seja como for, elas retornam melhoradas nas suas cores e intensidade. A 'vida alheia' é que se ressente de uma atualização, pois continuamos falando mal das mesmas pessoas, pelas razões de antes...
Fizemos planos de um reencontro no próximo ano. Berlim ou Portugal?

L I V R O S


Gravado na Real Gabinete Português de Leitura.
No vídeo Caetano Veloso lê "Le Rouge et le Noir"(O Vermelho e o Negro) de Stendhal: "Ici, dit-il avec des yeux brillants de joie, les hommes ne sauraient me faire de mal." Il eut l'idée de se livrer au plaisir d'écrire ses pensées, partout ailleurs si dangereux pour lui. Une pierre carrée lui servait de pupitre. Sa plume volait (...) "Pourquoi ne passerais-je pas la nuit ici? se dit-il; j'ai du pain, et je suis libre!" (...)

setembro 11, 2009

Viagem sem volta

A única época da nossa vida em que gostamos da idéia de ficar velho é quando somos crianças.
Se você tem menos de 10 anos está tão excitado sobre envelhecer que pensa em frações.
"Quantos anos vc tem?"
- "Tenho quatro e meio!"
Você nunca terá trinta e seis e meio. Você tem quatro e meio, indo para cinco!
Este é o lance!
Quando você chega à adolescência, ninguém mais o segura. Você pula para um número próximo, ou mesmo alguns à frente.
"Qual é sua idade?"
- "Eu vou fazer 16!"
Você pode ter 13, mas ('tá ligado?') vai fazer 16!
E aí chega o maior dia da sua vida! Você completa 21! Até as palavras soam como uma cerimônia:
"ESTOU FAZENDO 21!!!Uhuuuuuuu!
Mas então você 'se torna' 30. Ooooh, que aconteceu agora? Isso faz você se sentir como leite estragado! Não tem mais graça agora. O que está errado?
O que mudou?
Você COMPLETA 21, 'SE TORNA' 30, e está 'EMPURRANDO' 40.
Putz! Pise no freio, tudo está derrapando!
Antes que se dê conta, você CHEGA aos 50 e seus sonhos se foram...
Mas, espere! Você ALCANÇA os 60, nem achava que poderia!
Assim, COMPLETA 21, 'SE TORNA' 30, 'EMPURRA' os 40, CHEGA aos 50 e ALCANÇA os 60.
Pegou tanto embalo que BATE nos 70!
Depois, a coisa é na base do dia-a-dia; 'Estarei BATENDO aí na 4ª feira!'
Se ENTRA nos 80, cada dia é um ciclo completo: vc bate no lanche, à tarde se torna 4:30h, alcança o horário de ir para a cama. E não termina aqui. ENTRADO nos 90, começa a dar marcha à ré.
"Eu TINHA exatos 92."
A partir daí acontece uma coisa estranha. Se passa dos 100, se torna criança outra vez.
'Eu tenho 100 e meio!'

George Carlin

Mercado

O crime perfeito


"UM EDITOR português telefonou-me na passada semana e lançou o desafio: estarei interessado em escrever texto longo sobre o oitavo aniversário do 11 de Setembro? Convites desses não se recusam, sobretudo quando existe uma viagem a Nova York no horizonte. Saltei da cama, marquei o voo e, no purgatório da espera, mergulhei em oito anos de livros, filmes ou ensaios a respeito. Desiludido? Não direi. Mas oito anos são oito anos: falta-nos distância e perspectiva para entender realmente o que aconteceu naquela manhã de setembro. Ruído a mais, reflexão a menos. Pensava eu.
Pensava mal. Num dos intervalos das minhas pesquisas, encontrei um filme que alguém me ofereceu no último aniversário. Intitula-se "O Equilibrista", foi dirigido por James Marsh e até venceu o Oscar de melhor documentário na última cerimônia de Hollywood. Como foi que eu não vi? Imperdoável. Remediável. Se me permitem o exagero, não existe, até o momento, evocação mais perfeita sobre a efeméride. O que não deixa de ser irônico: o 11 de Setembro não é referido no filme uma única vez.
"O Equilibrista" é a história vagamente inacreditável de Philippe Petit, francês e funâmbulo. Um francês é fácil de identificar: "cherchez la baguette", como alguém diria, de preferência debaixo do sovaco. Um funâmbulo é, confesso, palavra nova. Eu, alimentado pelos circos da infância, só conhecia "trapezista", quando muito "equilibrista". "Funâmbulo" tem outra ressonância e, no caso de Petit, outra gravidade, no sentido literal do termo: um funâmbulo gosta de caminhar sobre o arame e sabe que a queda é fatal. Para Petit, duplamente fatal: pela ausência de rede e pela enormidade dos desafios. Desfilar no cimo de pontes ou monumentos não é para qualquer um.
Philippe Petit não é qualquer um. E lá o vemos, nas sequências iniciais da obra, levitando no ar entre as duas torres góticas da Notre-Dame, em Paris. Cá em baixo, admiração e espanto. Alguns aplausos. E, antes da cortina descer, a polícia sobe para o levar. Risco, encantamento, ilegalidade: haverá trilogia mais perfeita?
Existe, sim: transportar tudo isso para as Torres Gêmeas de Nova York. As torres que caíram em 11 de setembro de 2001, mas que surgem ao adolescente Philippe, meio século antes dos atentados, em revista francesa sobre a construção prometaica das ditas. Foi, como se diz nas novelas, amor à primeira vista. Fácil perceber por que: duas torres iguais, próximas e absurdamente altas estão mesmo a pedir um arame entre elas. E um Petit sobre o arame.
O namoro durou sete anos. Sete anos de viagens a Nova York, visitas às torres, treinos intensos em bosques e descampados. E o inevitável recrutamento do bando, porque todos os golpes têm um. Caminhar entre as torres é apenas o "grand final" de um longo processo de planeamento, assalto e intromissão.
O processo falha da primeira vez. Não falha na segunda: depois de aventuras mil, como convém às histórias de gângsteres, amanhece em Nova York. Dia 7 de agosto de 1974.
É o dia em que Phillippe Petit realiza o inacreditável: um passeio entre as torres.
Fixem a data e, se possível, substituam uma imagem por outra. Eis a principal virtude de "O Equilibrista": devolver-nos uma nostalgia intacta. Pensar no 11 de Setembro é pensar nas imagens e, mais, pensar com imagens: as duas torres, os dois aviões. A violência inaudita, quase irreal, do desabamento. O terrorismo também é isso: manchar com sangue e horror a memória dos lugares. Será possível pensar nas Torres Gêmeas de Nova York sem ter o rosto funesto de Osama bin Laden a pairar sobre elas?
É possível, se recuarmos a 1974 para encontrar o rosto sorridente de Philippe Petit no seu passeio aéreo e matinal. Como se o gesto, pelo seu descomunal desafio, fosse uma outra forma de afirmar que também existem crimes belos e perfeitos.
Crimes que cobrem de infâmia e primitivismo a barbárie do terrorismo islamita. É possível eleger as mesmas torres como alvo; é possível juntar o mesmo número de cúmplices para o crime; e, como se vê na saga de Petit, é possível cometer o crime e, como recompensa, ter também todas as donzelas do mundo à espera do seu herói. Cá em baixo. No solo. Na realidade. E não no paraíso imaginário onde os sexualmente inaptos gostam de se rodear com as suas virgens.
E tudo isso para quê? No filme, Petit confessa que essa foi a pergunta mais absurda que todos lhe fizeram depois do golpe. Não admira. Faz parte do gênero humano procurar todas as razões possíveis, exceto a razão evidente de que as torres estavam lá."

JOÃO PEREIRA COUTINHO

setembro 10, 2009


Elizabeth Taylor-Richard Burton - "The Sandpiper" (1965)

Casamentos possíveis

"UMA DAS boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.
O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A decepção consigo mesmo é menos amarga quando é transformada em acusação: "Você está me impedindo de alcançar o que eu não tenho a coragem de querer".
Essas recriminações, que disfarçam nossos fracassos, não são unicamente masculinas.
Certo, os homens são quase sempre assombrados por impossíveis devaneios de grandeza -como se algum destino extraordinário e inalcançável já tivesse sido sonhado para eles (e foi mesmo, geralmente pelas suas mães). Diante de tamanha expectativa, é cômodo alegar que o casal foi o impedimento.
As mulheres, inversamente, seriam mais pé-no-chão, capazes de achar graça nas serventias do cotidiano. Por isso mesmo, aliás, elas encarnariam facilmente, para os homens, os limites que a realidade impõe aos sonhos que eles não têm a ousadia de realizar.
Agora, as mulheres também sonham. Há a dona de casa que acusa o marido, os filhos e o casamento por ela ter desistido de outra vida (eventualmente, profissional), que teria sido fonte de maiores alegrias. E há, sobre tudo, para muitas mulheres, um sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual, justamente, elas desistem por causa de marido, filhos e casamento.
Com isso, d. Quixote se queixa de que sua mulher esconde seus livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento. E Madame Bovary se queixa de que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, à cata de paixões sublimes e elegantes.
Pena que raramente eles consigam ter os mesmos sonhos. Um problema é que os sonhos dos homens podem ser de conquista, mas dificilmente de amor, pois eles derivam diretamente das esperanças que as mães depositam em seus filhos, e, claro, uma mãe pode esperar que seu rebento varão seja um dom-juan, mas raramente esperará ser substituída por outra mulher no coração do filho.
Não pense que esse fogo cruzado de acusações seja causa recorrente de divórcio. Ao contrário, ele faz a força do casamento, pois, atrás da acusação ("É por sua causa que deixei de realizar meus sonhos"), ouve-se: "Ainda bem que você está aqui, do meu lado, fornecendo-me assim uma desculpa -sem você, eu teria de encarar a verdade, e a verdade é que eu mesmo não paro de trair meus próprios sonhos".
Ou seja, em geral, a gente casa com a pessoa "certa": a que podemos culpar por nossos fracassos. E essa, repito, não é uma razão para separar-se. Ao contrário, seria uma boa razão para ficar juntos.
Quando a coisa aperta, não é porque sonhos e devaneios teriam sido frustrados "por causa do outro", mas pelas "cobranças", que, elas sim, podem se revelar insuportáveis.
Um exemplo masculino. Uma mulher me permite acreditar que é por causa dela que eu não consigo ser o que quero: graças a Deus, não posso mais tentar minha sorte no garimpo agora que tenho esposa, filhos e tal. Até aqui, tudo bem. Como compensação pelos sonhos dos quais eu desisti, passo as tardes de domingo afogando num sofá e soltando foguetes quando meu time marca um gol, mas eis que, no meio do jogo, minha mulher me pede para brincar com as crianças ou para ir até à padaria e comprar o necessário para o café - logo a mim, que deveria estar explorando as fontes do Nilo ou negociando a paz entre os senhores da guerra da Somália.
Essa cobrança, aparentemente chata, poderia salvar-me da morosa constatação do fracasso de meus sonhos e das ninharias com as quais me consolo. Talvez, aliás, ela me ajudasse a encontrar prazer e satisfação na vida concreta, nos afetos cotidianos. Mas não é o que acontece: o que ouço é mais uma voz que confirma minha insuficiência.
À cobrança dos sonhos dos quais desisti acrescenta-se a cobrança de quem foi (ou é) "causa" de minha desistência e razão de meu "sacrifício": "Olhe só, mesmo assim, ela não está satisfeita comigo." Em suma, não presto, nunca, para mulher alguma -nem para a mãe que queria que eu fosse herói nem para a esposa para quem renunciei a ser herói. E a corda arrebenta.
O ideal seria aceitar que nosso par nos acuse de seus fracassos e, além disso, não lhe pedir nada. Difícil."

CONTARDO CALLIGARIS