agosto 23, 2009

Da fumaça ao perfume


"Há três mil anos, sacerdotes invocavam os deuses pela queima de ervas. A origem da palavra perfume vem daí, já que em latim per fumum significa "pela (por meio da) fumaça". Quando o homem descobriu o fogo, percebeu que, ao queimar, determinados arbustos e resinas exalavam um intenso cheiro. E passou a utilizar essa fumaça perfumada em rituais relacionados à sua vida espiritual.
As primeiras referências históricas importantes provêm do Oriente, especialmente do Egito, onde oferendas perfumadas seguiam juntos para os túmulos dos grandes faraós. Na Tumba de Tutancâmon (que morreu em 1324 a.C.), por exemplo, foram encontrados óleos aromáticos de cedro, mirra e zimbro.
Pouco antes do início da Era Cristã, os romanos costumavam usar óleos essenciais para rituais religiosos e funerários, para perfumar não somente o corpo, mas também a mobília da casa. Na Idade Média, a busca pela pedra filosofal levou os alquimistas a realizarem inúmeras experiências que contribuíram no desenvolvimento de processos fundamentais para a indústria da perfumaria. A partir do século 19, o perfume ganhou status de quase-remédio, usado para tratar depressão e enfermidades nervosas.
Estrutura e corpo de um perfume
O sentido do olfato é um dos principais sentidos dos animais, pois auxilia diretamente na complexidade de reações de sobrevivência. Ajuda a identificar coisas ruins ou boas. Uma maçã vermelha, por exemplo, pode parecer boa, mas o seu cheiro poderá sinalizar que está estragada.
Tanto para o homem primitivo quanto para muitos animais, um faro apurado fazia a diferença - fosse para detectar a proximidade de um predador, fosse para avaliar se um alimento era venenoso. No curso da civilização, entretanto, o homem focou quase todas as suas atenções na comunicação por estímulos visuais e auditivos, e a dependência do nariz para asobrevivência foi reduzida.
Ainda assim, como testemunho da importância que um dia teve, nosso sistema olfativo mantém a capacidade de sentir aproximadamente 10 mil cheiros diferentes, ao passo que o paladar, por exemplo, aparentemente muito mais presente em nossa vida do que o olfato, pode avaliar somente quatro gostos diferentes: doce, salgado, azedo, amargo, e são estes os quatro tipos de gostos primários que sentimos. As fragrâncias, por sua vez, podem despertar memórias e afetos.
Para a criação de um perfume, vários elementos naturais e sintéticos, como frutas, madeiras, resinas, flores, e compostos químicos são escolhidos e combinados por perfumistas, os quais podem levar anos para chegar na combinação perfeita. Da concentração das essências, óleos e álcool é que surgem os tipos de perfumes que conhecemos:
Perfume, Parfum ou Extrato: é o que tem o cheiro mais persistente, com concentração de óleos essenciais em torno de 15% a 20% e álcool 96%. Dura na pele entre 12 a 20 horas;
Eau de Parfum: tem o cheiro mais sutil, com concentração entre 10% e 15% de óleos essenciais e duração na pele entre 6 e 8 horas;
Eau de Toilette: a idéia é transmitir o lado mais refrescante do perfume, com concentração que pode variar de 5% a 10%, e duração na pele entre 4 a 6 horas; Eau de Cologne: a base, simplificada, apresenta uma concentração de 3% a 5%, com pouca duração na pele, ideal para o pós-banho.
Quando usamos um perfume, independentemente da quantidade da concentração que a fragância apresente, existem três etapas diferentes de odores que ele exala, antes que se fixe o seu cheiro definitivo:
Notas de cabeça ou saída: é a primeira impressão do perfume, é o que sentimos ao abrir o frasco. Como são voláteis, evaporam nos primeiros cinco ou dez minutos.
Notas de corpo ou coração: surgem alguns minutos após a aplicação. É a identidade dos perfumes. Duram duas horas em média.
Notas de fundo: são as mais fortes e consistentes. Elas são as que marcam presença e que ficam até o final do tempo de fixação do perfume (o que varia de pele para pele)."
......
Leia a continuação - Hora H por Ricardo Oliveiros, clicando no título.

Remédios Varo

Remedios Varo Uranga, nasceu em 1908 em Anglés, na Cataluña (Espanha) e morreu em 1963 na Cidade do México. Durante a Guerra Civil Espanhola, mudou-se para Paris onde foi grandemente influenciada pelo movimento surrealista. Foi forçada a exilar-se da capital francesa durante a ocupação nazista e mudou-se para a Cidade do México em fins de 1941.Embora considerasse o México como um refúgio temporário, o país acabou por tornar-se sua residência definitiva.
"É difícil imaginar uma mistura harmónica entre a ciência e a fantasia, mas em arte tudo é possível, porque a arte não tem limites nem fórmulas restritivas. Através de sua pintura, Remedios Varo, uma artista apaixonada pela ciência, mistura fórmulas matemáticas e complexos conceitos físicos, com um mundo mágico de fantasias e seres surrealistas, criados inteiramente na sua imaginação. O resultado é uma pintura fantástica que aparece em manuais de matemática e tratados científicos como ilustração de conceitos complexos que poucos podem compreender fora do mundo da ciência. Varo nasceu na Espanha, perto da Barcelona de Gaudi, em 1908. Lá recebeu uma forte influência de seu pai que era engenheiro e lhe apresentou aos mundos da ciência e também da arte - apaixonou-se pelos dois. Em 1942 mudou-se para a Cidade do México, onde residiu até a morte em 1963. O estilo e temática de Remedios Varo permanecem consistentes durante a sua carreira, desenhando muito sobre o seu conhecimento dos quadros dos grandes mestres. Os tecidos delicadamente modelados nos seus quadros e a sua composição estética devem muito à arte flamenga do século XV."
(A arte no século XX)
Para saber mais da artista, inclusive o nome das obras, clicar no título.

agosto 22, 2009

Amar, acalentar e trair

"As crianças têm a infância", escreveu o professor David P. Barash. "E os adultos? Têm o adultério."
Barash, que ensina psicologia na Universidade de Washington, escreveu um livro chamado "The Myth of Monogamy" e foi entrevistado por Natalie Angier, do "New York Times", para uma reportagem sobre infidelidade animal.
A monogamia é realmente um mito? No mundo animal é, mesmo para espécies que formam casais para toda vida. "A promiscuidade sexual é generalizada na natureza, e a verdadeira fidelidade é uma fantasia acalentada", escreveu Angier.
"A monogamia social muito raramente é acompanhada de monogamia sexual ou genética", relatou Angier. "Examine os rebentos de uma ninhada, seja de aves, toupeiras, macacos, raposas ou qualquer outra espécie que forme pares, e de 10% a 70% mostrarão que descendem de um macho que não o oficial." .
....
Mas, mesmo quando um cônjuge trai, o casamento geralmente sobrevive, escreveram Benedict Carey e Tara Parker-Pope no "Times". Em estudo da Universidade da Virgínia, 10% das pessoas casadas admitiram que tiveram casos em algum momento. Anos depois, 76% dos adúlteros continuavam casados e vivendo com seus pares.
"Historicamente, a instituição do casamento não sucumbiu à infidelidade tanto quanto coexiste com ela, como um corpo com o vírus da gripe: às vezes enfraquece, mas desenvolve certa imunidade pela longa exposição", escreveram Carey e Parker-Pope
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Como os seres humanos, os animais às vezes se vingam de seus parceiros infiéis. Em uma experiência com besouros, que formam pares e constroem uma bola de esterco na qual depositam os ovos, os pesquisadores amarraram um besouro fêmea perto de seu parceiro. Então o macho liberou feromônios para atrair outras fêmeas.
Quando sua parceira foi libertada, ela o virou de costas para baixo e "o fez rolar diretamente para a bola de esterco, o que pareceu totalmente apropriado", disse o professor Barash.
É isso aí!

Glenn Gould

Encontrei no portal do Estadão um especial , em interessante apresentação em audio, sobre a carreira do pianista canadense Glenn Gould (acesso clicando no título). Mais do que um pianista, ele foi um dos ícones do século XX. Sua curta carreira (1955-1982), foi inteiramente de quebra de paradigmas. Abraçou a tecnologia como nenhum outro músico e fez dela o passaporte para uma "presença cultural" intensa. Continua sendo um dos músicos mais discutidos, ouvidos, questionados, cultuados na cena musical. Está artisticamente mais vivo do que nunca, a julgar pela quantidade de teses e livros que continuam a ser publicados, e pela presença em catálogo de seus cerca de 80 CDs. "Você toca como um compositor" foi o elogio que recebeu do compositor americano Aaron Copland que completou : "Quando eu o escuto tocar Bach, é como se o próprio Bach tocasse.".

No título, acesso para o audio:O som e a fúria de Glenn Gould e no link http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=28
Glenn Gould: caso de amor com o microfone .
"...De certo ângulo, Gould representou para o século XX o avesso de Strauss, e o fez de propósito, como que a escrever sua trajetória pelo caminho inverso do mestre alemão. Enquanto este era o retrógrado e teimoso mantenedor das tradições da prática musical novecentista, o canadense quebrou com ela em dois pontos. Alterou o modo de interpretar a música do passado e renunciou a um de seus dogmas mais caros: o recital ao vivo. Gould considerava as apresentações em carne e osso uma "arena sangrenta" indigna da arte dos sons e a trocou por aquilo que chamou de "caso de amor com o microfone". Em 1964, no ápice da fama, nosso anti-Strauss decidiu abandonar palcos para se exilar no estúdio de gravação e criar, assim, música segundo padrões tecnológicos que deveriam elevar o som gravado a níveis de excelência nunca antes alcançados. "Achei o palco uma experiência aterradora e essencialmente antimusical", disse, num documentário. "Desistir de concertos foi apenas uma forma de me livrar de uma experiência intensamente desagradável."
No entanto, o paraíso técnico resultou em distopia..."
Para ouvir o album: www.bluebeat.com/boxsets/3625
Uma maravilha!!!

E para completar...

agosto 21, 2009

Inspiração Dali

Milena me enviou email com estas imagens espetaculares. O autoretrato do artista é tão surrealista quanto as demais obras. O hibisco bailarina é sensacional!

agosto 20, 2009

Tá combinado

Alan Turing

O matemático Alan Turing, morto em 1954 aos 41 anos, é considerado por muitos o pai da ciência da computação e da inteligência artificial. Ainda nos anos 1930, provou que não há instrumento capaz de fazer qualquer tipo de cálculo e lançou o conceito de uma máquina que conseguisse fazer todos aqueles que fossem possíveis, seguindo instruções humanas.
Em 1938, foi recrutado pelo departamento de análise criptográfica do governo. Quando estourou a Segunda Guerra Mundial, ele passou a dedicar-se integralmente ao projeto, conduzido secretamente, perto de Londres.
Foi Turing que conseguiu decifrar o código da máquina de criptografia Enigma, que a Alemanha de Hitler usava para mandar mensagens militares cifradas durante a guerra. Graças ao sistema de decodificação que ele criou, estas mensagens passaram a ser interceptadas e localizados os submarinos alemães, revertendo o avançar da guerra.
Mas seu trabalho era secreto e os seus feitos passaram sem aclamação na época.
Em 1952, foi preso por ser homossexual. A alternativa à prisão era a castração química. Turing aceitou receber injeções de estrógeno para neutralizar sua libido. Mas as aplicações do hormônio sexual feminino deformaram-lhe o corpo e desequilibraram seu organismo.
Publicamente humilhado, o matemático perdeu o acesso de segurança aos laboratórios onde trabalhava porque, sob a mentalidade da Guerra Fria, homossexuais eram alvo fácil de chantagem o que significava uma brecha na segurança.
Dois anos depois, ele morreria ao comer uma maçã envenenada, no que foi declarado suicídio. Sua história é contada na biografia "Alan Turing: o Enigma", do matemático Andrew Hodges (1983) e no filme "Quebrando o Código" (1986).
Acaba de ser enviada uma petição ao premiê Gordon Brown, que já conta com quase 4.000assinaturas, exigindo que o governo britânico “reabilite a sua memória e reconheça que seu trabalho viabilizou em larga medida o mundo em que vivemos e nos salvou da Alemanha nazista".A campanha foi abraçada, dentre outros, pelo escritor Ian McEwan e o biólogo Richard Dawkins, para quem esse gênio excêntrico e delicado deveria ter sido "condecorado".
Deu na FSP

Terror e consumo

"O caderno "Mais!" publicou, em 9/8, o trecho de uma carta de Isaiah Berlin para um amigo, na qual ele falava de suas impressões sobre o compositor russo Dmitri Chostakóvitch quando este foi à Inglaterra receber um prêmio.
Era 1958, plena Guerra Fria, e Berlin comenta os males que o regime comunista havia feito a Chostakóvitch, cujos atos e rosto mantinham permanentes pavor e assombro. Observa a devastação que regimes totalitários causam nas pessoas, aniquilando nelas suas possibilidades de indignação, de resistência, de protesto, a ponto de elas passarem a achar sua situação absolutamente normal.
De fato, a duração prolongada da repressão torna-a uma experiência familiar e natural.
As pessoas não a veem mais como a origem de seu sofrimento. Ao contrário, o mal é proveniente delas próprias, de qualquer discordância ou contestação que façam ao regime.
A pianista Zhu Xiao-Mei, que viveu sob o governo de Mao, relata em seu livro "O Rio e Seu Segredo" situação semelhante.
Também ela incorporou, como se fossem suas e contra si mesma, as crenças e ideais dos seus opressores. Para anular o que considerava males burgueses, o regime impediu o acesso dos estudantes a qualquer informação ou literatura, senão o "Livro Vermelho" de Mao.
O exercício do terror pelos sistemas totalitários, mesmo que respaldado pela fundamentação das ideologias, revela o excesso de ignorância que dominou parte do mundo no século 20. E a inexorável conexão entre violência e ignorância.
Violência e ignorância sempre se associam contra o que é diferente, criativo, novo, livre...
Perseguem, vigiam, destroem o que não aceitam, não conhecem e não compreendem. Só a ignorância é capaz de se imputar a posse da verdade e de empunhar a violência.
Não experimentamos, no Brasil, a potência destrutiva e asfixiante desses regimes totalitários. Até a ditadura militar foi uma pálida sombra diante deles. Se há uma experiência atual que nos permite compreender o medo e o terror sofrido pelas pessoas sob governos totalitários é o medo da violência urbana.
No âmbito da política, as formas de governo que se servem do terror estão em extinção.
Não porque se tenha abandonado a pretensão de controle e obediência absolutos, mas por se ter aprendido que esse controle é possível sem o terror.
O consumo substituiu o terror. Parece que se entendeu que a melhor fórmula para dominar um homem é mantê-lo entretido e obcecado com a satisfação de seus desejos e necessidades. Para tanto, a manipulação da opinião pública, fazendo-a crer que tais desejos e necessidades são originalmente seus, é o principal meio.
Básicos ou supérfluos, desejos e necessidades são insaciáveis. Aprisionam-nos num ciclo sem fim de reposição e canalizam para si a energia disponível. Ficamos sem forças para a indignação, para o protesto, para os cuidados com o mundo, para a realização pessoal."

DULCE CRITELLI , terapeuta existencial.

agosto 19, 2009

Salpicos de margaridas

Vai passar

"Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim – nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente – e não importa – essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás – aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca …"
Caio Fernando Abreu

agosto 18, 2009

Notícias do mundo civilizado

"Já viajamos. Estou em Berna. Linda. Tombada pela Unesco. Tranquila e tudo
mais. Gente linda e simpática. Hoje pulamos no rio Aare, que passa dentro
da cidade. Compramos um saco impermeável. A gentre troca de roupa, coloca
tudo no saco e pula no rio. Depois quando cansa de descer, sai do rio (É
cheio de escadinhas nas margens). Abre o saco, bota a roupa e vai embora.
Tem gente que troca de roupa, deixa tudo na beira do rio (inclusive
documentos, mochilas, computadores, etc) e depois volta a pé pra pegar.
Doideira, né? Fomos ao Centro Paul Klee. Vimos uma expo dele
sensacional.Amanhã vamos pra Luzern. Beijos.
LU"

Notícias do Celso

- Bom dia, é da recepção? Eu gostaria de falar com alguém que me
desse informações sobre um paciente. Queria saber se certa pessoa
está melhor ou piorou...

- Qual e o nome do paciente?

- Chama-se Celso e está no quarto 302.

- Um momentinho, vou transferir a ligação para o setor de enfermagem...

- Bom dia, sou a enfermeira Lourdes. O que deseja?

- Gostaria de saber as condições clínicas do paciente Celso do quarto
302, por favor!

- Um minuto, vou localizar o médico de plantão.

- Aqui é o Dr. Carlos plantonista. Em que posso ajudar?

- Olá, doutor. Precisaria que alguém me informasse sobre a saúde do
Celso que está internado há três semanas no quarto 302.

- Ok, meu senhor, vou consultar o prontuário do paciente... Um
instante só! Hummm! Aqui está: ele se alimentou bem hoje, a pressão
arterial e pulso estão estáveis, responde bem à medicação prescrita e
vai ser retirado do monitor cardíaco até amanhã. Continuando bem, o
médico responsável assinará alta em três dias.

- Ahhhh, Graças a Deus! São notícias maravilhosas! Que alegria!

- Pelo seu entusiasmo, deve ser alguém muito próximo, certamente da família?

- Não, sou o próprio Celso telefonando aqui do 302! É que todo mundo
entra e sai desta merda deste quarto e ninguém me diz porra nenhuma.
Eu só queria saber como estou...

Última notícia

A AGU (Advocacia Geral da União) encaminhou parecer ao STF (Supremo Tribunal Federal) em que defende a união estável entre pessoas do mesmo sexo. Segundo o órgão, que representa a posição oficial do governo federal nos processos judiciais, o reconhecimento dos direitos civis de casais homossexuais não fere a Constituição. Pelo contrário, na manifestação em nome do presidente da República (leia a íntegra aqui clicando no título), a AGU alega que a legitimação dos status civil de parceiros do mesmo sexo protege diversos valores constitucionais, como a dignidade da pessoa humana, a privacidade e a intimidade, além de proibir qualquer discriminação por orientação sexual.
Diversas decisões judiciais têm impedido que casais homossexuais compartilhem direitos entre si, como benefícios previdenciários e inclusão do companheiro no plano de saúde. Motivado por uma Adin (Ação direta de inconstitucionalidade) proposta pela PGR (Procuradoria Geral da República), o Supremo deverá decidir se a proibição da união estável imposta pelo artigo 1.723 do Código Civil, já que cita apenas a entidade familiar entre homens e mulheres, está de acordo com os preceitos constitucionais.
"Numa interpretação sistemática da Constituição da República é possível verificar que o que se pretende é justamente proteger a liberdade de opção da pessoa", ressaltou o advogado da União Rogério Marcos de Jesus Santos, que assina o documento.
De acordo com a Advocacia, a união homoafetiva no país "é uma realidade para qual não se pode fechar os olhos". Argumenta que as relações homossexuais existem independentemente de amparo legal, "embora diversos países do mundo já tenham alterado seu sistema de direito positivo para incluir a possibilidade de união estável entre pessoas do mesmo sexo".
A manifestação destaca ainda que as mudanças legais nesses países “foram frutos da luta pela consolidação de direitos civis, pela efetivação de direitos, e dessa luta participam as pessoas com orientação sexual diversa”.
O parecer pode ser lido clicando no título.

agosto 17, 2009

INFÂNCIA

"O pecado não morava ao lado. Estava em você. Coabitava com seus medos, suores noturnos, e assombrava detrás dos panos roxos que cobriam as imagens na Sexta-Feira da Paixão. Deus não era um negão no clipe da Madonna, mas um olho aberto na parede de todas as casas. Foi no século passado, quando ainda havia pecado do lado debaixo do Equador, quando se matava por amor, e Ele reinava solto, sorumbático, anotando o que acontecia nos terrenos baldios do subúrbio. Quem falasse a palavra “sexo” levava um tapa na boca.
Foi no tempo do pudor, do rubor nas faces, das anáguas e do espelho colado no sapato para roubar uma nesga da calcinha da professora. Foi não sei quando. Melhor esquecer.
Era uma geração de garotos virgens, de meninas tementes do raio supremo de serem chamadas galinhas, e, no entanto, todos recitando o “Salve Rainha” muitas vezes, certos de estarem tomados pela luxúria desenfreada de algum Baile dos Cafajestes que viram escondidos na revista “Escândalo”. Em casa, pão e vinho sobre a mesa, a autoridade paterna assumia o cálix bento, e, só depois que purificasse o menino com um “Deus te abençoe”, o sono estava autorizado. O mundo era um quarto escuro com um jacaré escondido debaixo da cama e uma revista do Carlos Zéfiro sob o travesseiro. De manhã na escola, o colega mais velho, de uma turma adiantada nos segredos da vida, apertaria o mamilo do menino na crença de que um endurecimento sebáceo por ali indicaria um masturbador contumaz na noite anterior. Era proibido ter espinhas. Foi no tempo do vício solitário sem a riqueza de estímulos da internet. Havia apenas umas mulheres nuas, todas sem pelos genitais, andando pelos milharais nórdicos de uma revista dinamarquesa chamada “Saúde e Nudismo”.
Era a mais pura ignorância, a vontade de entender por que rangia ritmada a cama de papai com mamãe, e afinal o que queria dizer aquela palavra “bacanal” toda quarta-feira de cinzas na capa da revista “Maquis”, quase sempre titulando a foto de uma mulher vestida de odalisca, cheirando o lenço que o homem de sarongue lhe oferecia.
A empregada da casa do menino cantava o samba alegre com a triste história da pobre infeliz, “parecia uma tocha humana rolando pela ribanceira”, porque teve vergonha de ser mãe solteira. Tempo das trevas, do silêncio, da oração de Júlio Louzada, das meninas oferecidas, das que ficariam para titia, dos efeminados no troca-troca e da imensa culpa que a todos pesava sobre os ombros.
Homem que era homem não usava camisa vermelha. Mulher sentava de perna fechada. No cinema os nenéns nasciam depois de um beijo na boca. Mas agora fala baixo, que sua mãe está chegando.
Anilza Leoni, a vedete morta semana passada, fazia a sua parte no descaminho a que se achavam fadadas as famílias suburbanas. Ela enchia a tela da televisão com um par de coxas, que o Zé Trindade chamava de “mocotó”, e ia daqui até o outro canto da página. O garoto na sala percebia, sem que ninguém lhe tivesse dado qualquer pista, que o demo estava se manifestando na tepidez daqueles nacos de carne. Ele podia sentir a temperatura da pele entre as coxas, ouvir a respiração arfante da vedete que estava no palcoauditório da TV Rio, Canal 13, no outro lado da cidade — e isso era bom, porque mostrava que havia mais jogo para quando acabassem as figurinhas do bafo-bafo. E isso era religiosamente mau, porque deixava no ar que o pecado se instalara em sua alma infantil regada ao sangue de Cristo e xarope de groselha.
Foi no tempo do hímen complacente, do lençol sujo de sangue, do “Elvira, a morta virgem”, da garçonnière e da Aída Curi morta durante a curra. Deus não era dez, porque não estava para brincadeiras. Jogava sozinho. Contra todos.
As trevas pulsavam nas mãos do menino, da mesma maneira que o Caveira assustava a vida do Jerônimo no seriado da Rádio Nacional, e a Fera da Penha se vingava do abandono do amante queimando-lhe viva a filha num terreno baldio do subúrbio. Era tudo pecado, tudo às escondidas. Mais um pouco de ousadia na brincadeira do pera-uva-ou-maçã e seria a sua vez de arder, junto com todas as estampas Eucalol, na grande fogueira do inferno.
Ele era o Olho e estava vendo. À noite, contrita, a família reunida colocava um copo d’água sobre o rádio, e todos ouviam as preces de Alziro Zarur conclamando para doações à Legião da Boa Vontade. O dinheiro ia para a sopa que ele servia aos pobres, uma espécie de abatimento nas dívidas que todos tinham para com o Senhor.
Era no meio disso tudo que o menino via as coxas monumentais de Anilza Leoni, e ele imediatamente achava-se incurso em algum dos sete pecados capitais. Talvez um adúltero, talvez um blasfemo, talvez um promíscuo, e todas aquelas palavras que ele ouvia como palavrões, mas não tinha a mínima idéia do que tratavam.
Corria à igreja, onde se prostrava ajoelhado diante do pai, do filho e do espírito santo, todos representados pelo padre de fala italiana por trás da tramela do confesssionário — e ele abria o jogo ao representante de Deus sobre o que lhe parecia ter sido a perda da pureza.
Sim, ontem à noite, durante o pique-esconde, trancara-se com a filha da vizinha num armário do quarto e, quando, sem querer, passou a mão nos pelos do braço dela, sentiu que os pelos do seu próprio corpo tinham sido contaminados por algum tipo de radiação, alguma coisa tão boa e que não anunciava na televisão, não estava no catálogo do Falcão Negro, nunca tinha sido perguntada ao Dida na “Revista do Esporte”, uma delícia tamanha que só podia estar nos dez pecados da lei de Deus.
Sim, Anilza Leoni levantara os braços durante o programa na televisão e dera a impressão ao menino de que deixava propositadamente à mostra a cama convidativa dos sovacos, e do seu distante subúrbio ele conseguira ouvi-los gritando “Vem, meu garoto, e vamos gritar ‘oba’ juntos”.
Foi há muito tempo, quando se morria de medo da gonorreia e de mastigar a hóstia consagrada no dia da primeira comunhão. Jesus, pregado na cruz de todos os quartos, estava de olho e dava o exemplo. O sentido da vida era o sofrimento. As meninas usavam combinação e, aos 15 anos, o pai levava o filho para se iniciar com as prostitutas do Mangue. Escondido na gaveta de uma tia solteirona, o livro “Nossa vida sexual”, de Fritz Khan, descrevia a perda da virgindade com termos de medicina legal.
Tudo era pecado nessa história ao sul do Equador, menos o “oba!” feliz de Anilza Leoni, a vedete morta na semana passada. Que ela descanse em paz na santa glória abençoada de seu espartilho."

Joaquim Ferreira dos Santos

Eita!

Bartleby

"RECENTEMENTE ENCONTREI um amigo de infância em agonia. Esses encontros são marcantes para mim porque sempre acabo percebendo como hoje sou outra pessoa. Diante das lembranças compartilhadas, a distância no tempo se impõe como distância no afeto.
Talvez falte em mim algum tipo de afeto duradouro, ou eu seja uma dessas pessoas miseravelmente volúveis que esquecem quase tudo com o tempo. Ou talvez, pior ainda, eu seja excessivamente preso ao cotidiano e, por isso, minhas amizades só sobrevivam no dia a dia. Em meio a isso, torno-me um refém da máxima contida no livro bíblico "Eclesiastes" quando o autor afirma "tudo é vaidade". Neste instante, experimento da efemeridade de tudo, assim como quem mastiga o pó em sua boca.
Diante de frases repetidas, que remetem a momentos passados 40 anos atrás, uma rápida emoção vem aos olhos, mas o estranhamento em face da pessoa que me tornei esmaga a saudade, diluindo-a na fidelidade ao momento atual, em detrimento do passado morto. Esse estranhamento, para mim, não afeta apenas as amizades, mas também afeta as relações familiares.
Há poucos dias, uma amiga me disse que considera uma mentira a ideia de que sempre amamos nossos pais. Concordo com ela. Acho que talvez possamos mesmo não sofrer tanto com a morte de nossos pais, o que seria uma espécie de prova científica monstruosa da tese de minha amiga. A ideia que sempre amamos nossos pais me parece uma dessas idealizações que alimenta o mito de que a família seja sempre fiel ao amor que alimenta aos seus membros. Ao contrário, acho que, às vezes, ela pode ser mortal para seus membros porque mesmo o amor, às vezes, mata.
Tenho alguns amigos, mas não muitos, é claro que por culpa minha.
Sou um preguiçoso, e, por isso, o esforço é quase sempre deles, confesso vergonhosamente. Como sou uma pessoa que raramente pensa nos outros, diante de uma amizade sincera ou da generosidade quase sempre sinto o odor da misericórdia ao meu redor. Tudo de bom que me acontece me faz supor que, afinal, há alguém que carrega na palma da mão a ingratidão do mundo.
Nas férias, um amigo me presenteou com uma pequena pérola de um autor que eu já conhecia, mas não aquela obra específica.
Trata-se de Herman Melville (século 19), autor de Moby Dick. O pequeno livro que devorei em um dia chama-se "Bartleby, o Escrivão". Infelizmente caro leitor, contarei o final na história. Impossível não fazê-lo, uma vez que a forma (e a força) plena do conto se dá nas últimas linhas da narrativa.
Mas como ninguém vai ao cinema assistir a vida de Cristo pra saber o que acontece com o herói no final (mas sim reviver a tragédia que é matar Deus -Deus é Cristo na história, não esqueçamos), um clássico vale antes de tudo porque nos ensina a ser gente e não pelo suspense de saber o final da história.
Quando seu patrão (o narrador) pede a Bartleby que faça uma determinada coisa no escritório (algo banal como verificar nomes numa lista ou redigir um texto), este responde com a frase que se repetirá infinitas vezes ao longo do conto, e que se transformará no verdadeiro enigma da narrativa: "Prefiro não fazê-lo".
A recusa sistemática de fazer coisas assim, levando o patrão à loucura e Bartleby à total imobilidade, constrói o personagem como uma indagação contínua ao valor último da ação no mundo. Abandonado pelo patrão, ele se recusa mesmo a sair da escada do antigo escritório onde está sentado como se aquilo fosse o que restou de sua vida.
Bartleby morre num asilo de loucos, paralisado por sua consciência da vaidade dos gestos e da fala, reduzido a falta de ar como forma última de toda ação possível. Bartleby encarna a consciência triste que caminha invisível pelo mundo.
O narrador descobre que ele trabalhara no departamento dos correios que se ocupa com as "cartas mortas", isto é, as cartas que retornam porque os destinatários não foram encontrados. Por que não foram encontrados? Põe-se a indagar o narrador, já contaminado pela respiração arfante de Bartleby. Quantas pessoas talvez tivessem sido salvas do sentimento de insignificância por estas cartas? Quantas pereceram sozinhas, a espera, na janela?
Quanto de afeto e gratidão se perdeu naquelas pilhas de cartas mortas? Chora o narrador: "Ó Bartleby, ó humanidade". Choro eu: Ó Deus, ajudai-me a não ser tão volúvel e tão insensível para com os amigos que já passaram."

LUIZ FELIPE PONDÉ