novembro 02, 2009

arraias douradas

Achei um espetáculo! Elas chegam a medir até 2,1 metros. As arraias douradas também são conhecidos como arraias de nariz de vaca.Têm barbatanas peitorais pontudas que se separam em dois lóbulos na frente de suas cabeças altas, que fazem com que pareçam com uma vaca.
A população de arraias douradas do Golfo do México migra da Florida até Yucatan. Deslizando silenciosamente embaixo das ondas, elas transformam vastas áreas de água azul em douradas. Sandra Critelli, uma fotógrafa amadora, viu o fenômeno enquanto procurava por tubarões baleia

É isto....

Sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Hilda Hilst

Cenas de Aída


AÍDA é tida como a obra mais espetacular de Verdi. É dramática e musicalmente empolgante, sobretudo esta marcha triunfal do 2º ato . A história se passa no Egito no tempo dos faraós. Radamés, que é amado pela princesa egípcia, vai comandar o exército egípcio contra os invasores etíopes. Acontece que o seu grande amor, Aída é uma princesa etíope que foi capturada. Enquanto ele está sendo abençoado antes de partir, Aída está infeliz porque receia que ele vá lutar contra o seu pai. No segundo ato (escravos mouros dançam), sua rival põe-lhe à prova anunciando que Radamés foi morto. Diante do sofrimento de Aída, revela que ele está vivo e que é sua rival . Aída pede misericórdia, mas ela jura vingar-se . O regresso de Radamés vitorioso é o momento da marcha triunfal, quando Aída reconhece seu pai entre os prisioneiros. O rei oferece a mão de sua filha à Radamés o que deixa Aída desolada. No ato seguinte, às margens do Nilo, ela lamenta por não poder rever a sua terra, a Etiópia.E por aí vai... até acabarem nos braços um do outro.

novembro 01, 2009

Ópera


Como descrever uma forma de arte associada a enredos complexos, letras incompreensíveis, orquestrações arrebatadas, estilo afetado de representação, encenações exóticas e intérpretes temperamentais?
Isto é o que faz a ópera ser considerada extravagante por muitas pessoas.
No entanto, é difícil esquecer o momento em que a ópera entrou na nossa vida. Quer tenha sido por um magnífico coro ouvido no rádio, ao acaso, a emoção sentida ao assistir a um espetáculo ao vivo ou mesmo, vá lá, na TV.
Cheguei a ópera, ou ela chegou a mim, por uma via diferente. Comecei, ainda muito criança, no sertão do Ceará, a ouvir nos discos de cêra de meu pai, a Maria Callas. Ele se referia a ela como uma magnífica 'soprano'. Ao meu redor, as pessoas tinham um vício de linguagem que tirava o 'd' das palavras como 'soprando'. Afinal, eu me perguntava, ela era 'soprando' ou 'soprano'? O que siginificava isto, nem o que era uma ária, ninguém achava que tinha que explicar a uma criança. Assim segui pela vida afora...Mas os registros auditivos permaneceram.
Hoje eu diria que ópera é uma experiência emocional. A sua essência dramática não pode ser subestimada: música, letra e história juntam-se para dar expressão a sentimentos fortes como amor, traição, dor ou alegria. O artista polones RAFAL OLBINSKI deu seu toque surrealista aos posters das óperas mais populares e, por isso mesmo, facilmente identificáveis nestas interessantes imagens.

Relaxe


Este é o Okinawa Churaumi Aquarium, no Japão. Não encontrei video do Oceanário de Lisboa que é tão lindo quanto...
Vá lá em baixo 'calar' o Caetano para aproveitar melhor aqui! Se gostar desta música, clique no título para saber/ouvir mais.

Ouvido amigo

Além dos profissionais que são pagos para ouvir , existem cabelereiros, massagistas barmen, dentre outros, que ajudam a preencher a necessidade de seus clientes nesta área . Quase todo mundo tem necessidade de se abrir e alguns encontram nestes profissionais a empatia que os levam aos desabafos. Conheço quem, numa simples consulta sobre queda de cabelo, conte a sua vida. Outra que, na compra de uma roupa, discorre sobre as transformações pelas quais passou o seu corpo depois da menopausa....Este comportamento não é tagarelice própria de mulheres. Entre os homens também acontece.
Pode não equivaler a uma terapia, mas encontrar alguém, ainda que seja um desconhecido, que empresta um ouvido atento, pode servir para aliviar certas dores que precisam ser compartilhadas.
Para mim este 'divã' improvisado não funciona. Se é para falar por falar, melhor escrever. De preferência para alguém que vai ouvir com afeto.
No entanto, se me fosse dado escutar certas histórias, tentaria extrair o que houvesse de mais profundo na prospecção dessas almas. Na verdade, não sei se tenho cara de confessionário, mas alguns 'loucos' encontrados ao acaso, me relatam de suas vidas aquelas zonas tenebrosas, inconfessáveis mesmo diante de espelhos embaçados. ( Imagem embaçada é como enxergo quando tiro os óculos, o que sempre fiz diante da terapeuta ao ponto de ela hoje não ter rosto na minha memória).
Imagino relatos curiosos, histórias de amor, que chegam aos ouvidos de um barman quando a noite e a bebida liberam as almas solitárias (o que não o livra inclusive de uma 'cantada'!).
Na posição inversa, de cliente solitária, algumas vezes já ouvi. Na travessia Santos/Gênova troquei algumas palavras com um garçom que me disse ser de Honduras. Acho que a 'chave' para o que se seguiu foi eu saber qual era a capital de seu país. Segundo ele, ninguém sabia. Em capítulos, (a viagem durou mais de 15 dias), ouvi suas estórias, vi fotos, fiquei sabendo o que é viver para cá e para lá e, em meio a tanta gente, ser 'transparente'.
Em Paris, os garçons não se dão a estas liberdades. Apenas uma vez, num café chamado “Le mauvais garçom” (no Marais), o rapaz que servia (atenção: 'garçom' aqui não tem o mesmo siginificado!) me perguntou se era portugues a língua que eu falava. Quando lhe respondi, afirmativamente, seu rosto se iluminou. Queria saber o que siginificava “ PARE”, mas saiu sem a resposta para atender outra mesa. Retornou, logo que possível, tempo suficiente para eu lhe responder “STOP” (como os franceses escrevem nos cruzamentos das ruas). Com um ar entre surpreso e decepcionado, saiu rápido pois ainda haviam várias mesas para serem atendidas. No decorrer da noite, eu o flagrei me olhando como a dizer que voltaria. Tinha esquecido, quando ele reaparece sorridente (a casa estava mais vazia)e se abaixa para falar ao meu ouvido, susurrando entre gemidos:“ Pare! Pare! Pare!”. Entre risos, num clima de inusitada cumplicidade, expliquei-lhe que dito daquela maneira, na circunstância, significava exatamente o contrário, que ele devia prosseguir! Foi com uma carinha de feliz que ele se despediu. Fiquei imaginando se ele estava indo ao encontro do seu amante. Certamente, brasileiro!

Folha de hoje


Vai ver a culpa é do estagiário!

outubro 31, 2009

Ainda os anos 60 : RECLAMES


Quem usou 'conga', andou de 'lambretta' e namorou num 'dauphine', sabe que "reclame" era como se chamavam as publicidades nos anos 60. Não sei exatamente até quando, mas ainda há quem insista em chamar de propaganda. O que não é bem a mesma coisa, mas...

Refúgio

Ao organizar meu refúgio, antes de estética ou vaidade, me importei com o que ia caber, como seria colocado, com quais cores, quais formatos, quais combinações. Isto de 'decorar', não passa de definir um cenário. Nesta fase da minha vida, este cenário tem que ser mutante como ela sempre foi e continuará a ser. Mas 'arrumar a casa' não deixa de ser, também, uma exteriorização, por meio de objetos, de um universo íntimo. Quem me conhece um pouco melhor sabe que não cogito de cadeiras maravilhosas, mesas sedutoras ou peças assinadas por uma razão maior do que o preço delas. Não me fariam mais felizes... Isto é quase tudo que tenho como sala. Quando conto que aqui não tem 'lá dentro', há quem não acredite... Mas o refúgio mesmo é no meu quarto. Bagunça tamanha não deve ser exposta.

LAVANDA

outubro 30, 2009

Cícero

"Nem todos podem estar na flor da idade! Mas cada um está na flor de sua idade."
Buscando me adequar ao pensamento do Mário Quintana, tenho feito de tudo. Voltar a trabalhar foi a coisa mais ousada e a que melhor efeito tem produzido neste percurso até onde se sabe, mas não quando. Os cientistas afirmam que é preciso manter a mente ocupada. Ler, conversar, trocar idéias, sem qualquer esforço, foi o que passei a vida fazendo. Agora , dizem que tudo isto ajuda a preservar a lucidez, mesmo na idade avançada. Se o cérebro precisa de treino, o meu tem sido 'malhado ' horas a fio. Mas os resultados não são garantidos. Daí persistirem os temores.
Numa conversa entreouvida na fila do correio, uma filha narrava para uma amiga o comportamento de sua mãe. Não parecia ter mais de 30/32 anos. Afinal, que idade teria essa mãe já tão comprometida com o 'alemão'? Ouvir este diálogo, foi o bastante para reativar minhas inquietações.
O envelhecimento é um tema recorrente não só nas minhas preocupações. Diversos brilhantes filósofos se ocuparam dele. Num livrinho despretencioso, daquelas edições de bolso, chamado "Saber Envelhecer", encontramos verdades que já eram sabidas dois mil anos atrás!
Segundo seu autor, Cícero: "Com a velhice, dirão, a memória declina. É o que acontece, com efeito, se não a cultivamos. Aliás, os velhos a conservam tanto melhor quanto permanecem intelectualmente ativos."
“Os velhos inteligentes agradáveis e divertidos suportam facilmente a idade, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade”.
Permanecer intelectualmente ativo é uma forte recomendação de Cícero: “ A memória declina se não a cultivamos ou se carecemos de vivacidade de espírito”. “Os velhos sempre se lembram daquilo que os interessa: promessas, identidade de seus credores e devedores etc”.
Cícero lembra que Sófocles, em idade avançada, ainda escrevia suas tragédias e que Sócrates, no fim da vida, aprendeu a tocar lira. Catão, na velhice, descobriu a literatura grega.
Ler o que diz Cícero sobre o envelhecimento ajuda a aceitar melhor a passagem do tempo e a perceber que juventude é um estado de espírito e não um estilo de roupa.
A propósito de Saber Envelhecer, um crítico escreveu que ”Ler Cícero vale mais que qualquer Botox”.
Veremos...

Dueto inesquecível

outubro 28, 2009

GNOCCHI

Embora aqui na 'terrinha' existam restaurantes italianos para vários gostos e bolsos, ainda são poucos. Na última sexta feira, jantei no Forchetta d' Oro, onde comemoramos o niver da minha amiga Bel.Uma delícia! Tanto os (re)encontros como a cozinha. Dizem ser a carta de vinho apenas brownless (no ingles cearense). Não arrisquei, levei o meu (pagando a rolha, claro!). Mas isto é outro assunto.
Ia dizendo mesmo era que fazia tempo que não comia ghocchi. Até domingo quando, por pura preguiça de sair de casa, encarei um daqueles 'de caixa' da 'reserva técnica' mantida para estes dias. Não do forno para a mesa. Segundo o modo de fazer, eles tinham que ser colocados na água para ferver até começarem a boiar. Uns bobinhos mesmo...
Gnocco significa “bobo” e gnocchi é o seu plural .
Um pouco de história para ilustrar o post : Os primeiros registros na história dão conta de serem servidos gnocchi em banquetes renancentistas, na região da Lombardia . Nesta época eram preparados com pão leite e amêndoas trituradas e chamados de “zanzarelli”- mosquitinhos - por causa do formato.
Ao longo do século XVI, o prato sofreu modificações no preparo e no nome que passou a ser , de forma igualmente depreciativa, “malfatti” , ou seja, malfeitos. As amêndoas e o pão foram substituídos por farinha de trigo, água e ovo.
A variedade de cores era obtida com o acréscimo de certos ingredientes: o verde com acelga e espinafre, os amarelos com abóboras ou açafrão, enquanto que os brancos eram feitos com frango, laranjas ou cenouras .
Somente no século XVIII se difundiram os nhoques de batata que por ser , à época, um ingrediente nobre, tornou o prato mais requintado.
O GNOCCHI é uma unanimidade gastronômica e passou à cozinha contemporânea feito não só com batata inglesa, mas também com mandioquinha ou cará e acompanhado de molhos de cogumelos, tomate, manjericão, queijos ou aromas de trufas. hummmmm...
Não bastasse ser uma delícia (o meu, por razões óbvias, não estava tão assim), o prato é cercado de uma lenda de que seria a “massa da fortuna”. Persiste em certas famílias italianas lá no Sul, por onde me demorei quase vinte anos, a superstição de comê-lo dia 29, de um mês qualquer , colocando dinheiro sob o prato para simbolizar o desejo de novos ganhos. Uma tradição tão boba quanto o próprio. Muitos restaurantes em Curitiba ajudam a manter a lenda.
Amanhã servirão gnocchi ....

outubro 27, 2009

Papel toalha


À medida que o papel acaba, o verde da América do Sul também vai embora, simbolizando o impacto ambiental que o uso de simples toalhas de papel é capaz de provocar, além de alertar para outros desperdícios que podem levar às mesmas consequências. Campanha da World Wildlife Fund.

Lei é lei

Dois ou três almoços, uns silêncios

"Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
"
CAIO FERNANDO ABREU - 1986