Embora aqui na 'terrinha' existam restaurantes italianos para vários gostos e bolsos, ainda são poucos. Na última sexta feira, jantei no Forchetta d' Oro, onde comemoramos o niver da minha amiga Bel.Uma delícia! Tanto os (re)encontros como a cozinha. Dizem ser a carta de vinho apenas brownless (no ingles cearense). Não arrisquei, levei o meu (pagando a rolha, claro!). Mas isto é outro assunto.
Ia dizendo mesmo era que fazia tempo que não comia ghocchi. Até domingo quando, por pura preguiça de sair de casa, encarei um daqueles 'de caixa' da 'reserva técnica' mantida para estes dias. Não do forno para a mesa. Segundo o modo de fazer, eles tinham que ser colocados na água para ferver até começarem a boiar. Uns bobinhos mesmo...
Gnocco significa “bobo” e gnocchi é o seu plural .
Um pouco de história para ilustrar o post : Os primeiros registros na história dão conta de serem servidos gnocchi em banquetes renancentistas, na região da Lombardia . Nesta época eram preparados com pão leite e amêndoas trituradas e chamados de “zanzarelli”- mosquitinhos - por causa do formato.
Ao longo do século XVI, o prato sofreu modificações no preparo e no nome que passou a ser , de forma igualmente depreciativa, “malfatti” , ou seja, malfeitos. As amêndoas e o pão foram substituídos por farinha de trigo, água e ovo.
A variedade de cores era obtida com o acréscimo de certos ingredientes: o verde com acelga e espinafre, os amarelos com abóboras ou açafrão, enquanto que os brancos eram feitos com frango, laranjas ou cenouras .
Somente no século XVIII se difundiram os nhoques de batata que por ser , à época, um ingrediente nobre, tornou o prato mais requintado.
O GNOCCHI é uma unanimidade gastronômica e passou à cozinha contemporânea feito não só com batata inglesa, mas também com mandioquinha ou cará e acompanhado de molhos de cogumelos, tomate, manjericão, queijos ou aromas de trufas. hummmmm...
Não bastasse ser uma delícia (o meu, por razões óbvias, não estava tão assim), o prato é cercado de uma lenda de que seria a “massa da fortuna”. Persiste em certas famílias italianas lá no Sul, por onde me demorei quase vinte anos, a superstição de comê-lo dia 29, de um mês qualquer , colocando dinheiro sob o prato para simbolizar o desejo de novos ganhos. Uma tradição tão boba quanto o próprio. Muitos restaurantes em Curitiba ajudam a manter a lenda.
Amanhã servirão gnocchi ....
outubro 28, 2009
outubro 27, 2009
Papel toalha
Dois ou três almoços, uns silêncios
"Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome."
CAIO FERNANDO ABREU - 1986
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome."
CAIO FERNANDO ABREU - 1986
outubro 26, 2009
"Malone Morre"
O pessimismo é quase uma ciência exata...
"NUM DESSES dias cinzentos, quando o mundo parece alimentar em você aquela certeza de que a lógica do pior é a lógica do mundo, tropecei na citação: "Antes de mais nada, quero dizer que não perdoo ninguém. Desejo a todos uma vida atroz nos fogos do gélido inferno e nas gerações execráveis que hão de vir". É Samuel Beckett em "Malone Morre".
Muita gente acha que a literatura de Beckett existe pra escrevermos teses complicadas sobre como a época em que ele viveu foi descrente porque só se pensava em ganhar dinheiro numa Europa que se afundava no capitalismo americano, pós-Segunda Guerra.
E aí passamos a xingar a burguesia e sua breguice famosa e vazia. Eu nunca xingo a burguesia porque temo que o faça por inveja. Eu acho que textos como esse servem para nos manter de olhos abertos para o risco de que o coração resvale na descrença absoluta acerca da vida fora da miséria que escorre pelos muros do mundo. O pessimismo é meu pecado capital.
O pessimismo é uma geometria do mundo, quase uma ciência exata. Não acredito que a questão de Beckett fosse apenas um desespero "político-social". Se assim fosse, ele seria um escritor menor. O desespero só merece respeito quando vai muito além do político-social e escurece o Sol.
Em meados dos anos 1990, quando vivia em Paris por conta do meu doutorado, encontrei-me um dia com o filósofo Alain Finkielkraut num daqueles "cafés-cabeça" do Boulevard Saint German. Ele se dizia um pessimista. Discutíamos a literatura e a tendência, já forte na época, de afogar as letras no desejo brega de felicidade que hoje em dia satura o ar com seu fedor.
Para ele e também para mim, era claro que grande parte da culpa disso era da esquerda e sua natural vocação para esperanças bobas, quando se afasta de autores mais pessimistas como Adorno. Sempre suspeitei que o pessimismo fosse um regulador de caráter. A esquerda sempre teve uma vocação para o terror, para o desbunde, para a incompetência ou para a preguiça.
Seu argumento era muito parecido com o do escritor tcheco Milan Kundera: um romance deve criar dúvidas sobre o mundo, deve gerar um surto de insegurança e não passar esperanças em si mesmo ou no mundo. Como diz Kundera, "a burrice das pessoas vem delas terem resposta pra tudo". Finkielkraut comparava então romances como "Madame Bovary" e "Educação Sentimental" (ambos de Flaubert) a romances que oferecem soluções para a vida.
Se Emma Bovary nos ensina que o desejo é um companheiro destrutivo, ao mesmo tempo nos pega pela mão e nos leva a uma vida insípida onde não há desejo e da qual ela foge.
O confronto entre as duas formas de vida, sem solução, é a força da personagem. Mesmo que Emma tenha se transformado, para muitos de nós, naquele arquétipo da mulher de 40 anos com uma taça de vinho branco nas mãos, com os seios já caídos, que aborda homens em lançamento de livros ou em exposições, falando como sua vida está aquém de sua alma, ou mesmo desvalorizando o parceiro que tem, a verdadeira Emma Bovary encarna o risco que é apostar no desejo.
Mas uma vida sem desejo não vale a pena ser vivida, por isso ela é uma grande heroína: sua grandeza mora ali onde mora sua maldição.
Que distância dessas bobagens que psicólogas de recursos humanos gostam de ler e recomendar para seus funcionários ou que estes conferencistas motivacionais e de liderança gostam de citar como exemplo de vida para suas plateias atordoadas pelo pânico da vida.
Por exemplo, o que dizer a uma mulher ou a um homem que vê sua energia se apagar diante do sorriso de alguém mais jovem, oferecido docemente ao seu parceiro ou sua parceira? Nesse momento, a insegurança sobe à boca, inundando-a de uma saliva azeda, mas com aquele insuportável sabor que a verdade tem.
A solução ridícula então vem aos olhos, e eles falam: "Posso eu competir com essa fisiologia fresca e bela?". E aí vem o socorro da má literatura. Mas, quando em casa, à noite, no espelho, você se olha, dificilmente conseguirá esconder o desejo de que ninguém jamais seja perdoado porque você é infeliz, e de que todos que nasceram depois de você sejam execráveis, pela simples razão que ainda têm mais vida. Talvez Finkielkraut, Kundera e Beckett sejam excessivamente duros conosco, mortais. Às vezes parece que a consciência que eles nos cobram é excessiva. Uma certa dose de inconsciência se faz necessária para enfrentar as horas."
LUIZ FELIPE PONDÉ
"NUM DESSES dias cinzentos, quando o mundo parece alimentar em você aquela certeza de que a lógica do pior é a lógica do mundo, tropecei na citação: "Antes de mais nada, quero dizer que não perdoo ninguém. Desejo a todos uma vida atroz nos fogos do gélido inferno e nas gerações execráveis que hão de vir". É Samuel Beckett em "Malone Morre".
Muita gente acha que a literatura de Beckett existe pra escrevermos teses complicadas sobre como a época em que ele viveu foi descrente porque só se pensava em ganhar dinheiro numa Europa que se afundava no capitalismo americano, pós-Segunda Guerra.
E aí passamos a xingar a burguesia e sua breguice famosa e vazia. Eu nunca xingo a burguesia porque temo que o faça por inveja. Eu acho que textos como esse servem para nos manter de olhos abertos para o risco de que o coração resvale na descrença absoluta acerca da vida fora da miséria que escorre pelos muros do mundo. O pessimismo é meu pecado capital.
O pessimismo é uma geometria do mundo, quase uma ciência exata. Não acredito que a questão de Beckett fosse apenas um desespero "político-social". Se assim fosse, ele seria um escritor menor. O desespero só merece respeito quando vai muito além do político-social e escurece o Sol.
Em meados dos anos 1990, quando vivia em Paris por conta do meu doutorado, encontrei-me um dia com o filósofo Alain Finkielkraut num daqueles "cafés-cabeça" do Boulevard Saint German. Ele se dizia um pessimista. Discutíamos a literatura e a tendência, já forte na época, de afogar as letras no desejo brega de felicidade que hoje em dia satura o ar com seu fedor.
Para ele e também para mim, era claro que grande parte da culpa disso era da esquerda e sua natural vocação para esperanças bobas, quando se afasta de autores mais pessimistas como Adorno. Sempre suspeitei que o pessimismo fosse um regulador de caráter. A esquerda sempre teve uma vocação para o terror, para o desbunde, para a incompetência ou para a preguiça.
Seu argumento era muito parecido com o do escritor tcheco Milan Kundera: um romance deve criar dúvidas sobre o mundo, deve gerar um surto de insegurança e não passar esperanças em si mesmo ou no mundo. Como diz Kundera, "a burrice das pessoas vem delas terem resposta pra tudo". Finkielkraut comparava então romances como "Madame Bovary" e "Educação Sentimental" (ambos de Flaubert) a romances que oferecem soluções para a vida.
Se Emma Bovary nos ensina que o desejo é um companheiro destrutivo, ao mesmo tempo nos pega pela mão e nos leva a uma vida insípida onde não há desejo e da qual ela foge.
O confronto entre as duas formas de vida, sem solução, é a força da personagem. Mesmo que Emma tenha se transformado, para muitos de nós, naquele arquétipo da mulher de 40 anos com uma taça de vinho branco nas mãos, com os seios já caídos, que aborda homens em lançamento de livros ou em exposições, falando como sua vida está aquém de sua alma, ou mesmo desvalorizando o parceiro que tem, a verdadeira Emma Bovary encarna o risco que é apostar no desejo.
Mas uma vida sem desejo não vale a pena ser vivida, por isso ela é uma grande heroína: sua grandeza mora ali onde mora sua maldição.
Que distância dessas bobagens que psicólogas de recursos humanos gostam de ler e recomendar para seus funcionários ou que estes conferencistas motivacionais e de liderança gostam de citar como exemplo de vida para suas plateias atordoadas pelo pânico da vida.
Por exemplo, o que dizer a uma mulher ou a um homem que vê sua energia se apagar diante do sorriso de alguém mais jovem, oferecido docemente ao seu parceiro ou sua parceira? Nesse momento, a insegurança sobe à boca, inundando-a de uma saliva azeda, mas com aquele insuportável sabor que a verdade tem.
A solução ridícula então vem aos olhos, e eles falam: "Posso eu competir com essa fisiologia fresca e bela?". E aí vem o socorro da má literatura. Mas, quando em casa, à noite, no espelho, você se olha, dificilmente conseguirá esconder o desejo de que ninguém jamais seja perdoado porque você é infeliz, e de que todos que nasceram depois de você sejam execráveis, pela simples razão que ainda têm mais vida. Talvez Finkielkraut, Kundera e Beckett sejam excessivamente duros conosco, mortais. Às vezes parece que a consciência que eles nos cobram é excessiva. Uma certa dose de inconsciência se faz necessária para enfrentar as horas."
LUIZ FELIPE PONDÉ
outubro 25, 2009
Rio de Janeiro
Clicando no título: uma foto que permite uma visualização de 360º da cidade do Rio de Janeiro ao som de João Gilberto. Lindíssima!
ANOS 60
Neste apanhado, além de não ter havido qualquer preocupação com a cronologia dos fatos da década, foi omitida referência aos Beatles, séries de TV, futebol...dentre outras coisas que não me tocaram. Clicando na música (esquerda abaixo) abre um vídeo com imagens interessantes da época. Ficando na imagem de entrada, observe que o som pode ser eliminado.
A cidade e a poesia
"As cidades são como as pessoas, têm os seus segredos, e às vezes guardam-nos bem guardados. Há quem goste muito do Porto e há quem o desteste. Queria falar desta cidade “tão masculina” sem nenhum peso de erudição, que é coisa tão inimiga da poesia, que só Borges, que eu saiba, lhe conseguiu arrancar alguns versos dignos da sua prosa. Também não me parece leal contrapor-lhe outras cidades e, menos ainda Veneza. Toda gente sabe que se Veneza não cheirasse a água podre seria incomparável, mas cheiro por cheiro antes o de Marraquexe; Marraquexe cheira a cavalos que é cheiro de homem. Há quem goste do Porto, dizia eu; Marguerite Youcenar - ninguém sabe, porque foi a mim que o disse - andou por aqui dois dias fascinada com a Ribeira e as encostas da Sé .Isto de gostar não tem explicação fácil . O mais simples é, se nos pedem razões, dizê-lo como as palavras de Montaigne: Parce que c' était lui, parce que c' était moi. Mas não só o amor tem estranhos mecanismos ..."
(Eugénio de Andrade, em À Sombra da Memória)
Casa do Infinito
"Hoje é um dia muito especial. Entrei na casa dos 80 anos. Aquela casa que é do infinito. A impressão que tenho é de não ter envelhecido, embora esteja instalada na velhice. O tempo é mesmo irrealizável... Já chorei muito de manhã. Ao acordar, chorei muito. Depois me acostumei."
Fernanda Montenegro, no dia de seu aniversário (16),para a plateia do monólogo Viver sem Tempos Mortos, no Rio.
Fernanda Montenegro, no dia de seu aniversário (16),para a plateia do monólogo Viver sem Tempos Mortos, no Rio.
outubro 24, 2009
outubro 23, 2009
Por falar em estrelas...
Para que Hércules se tornasse imortal, deveria ser amamentado quando criança pelo seio de sua madrasta Hera, a mulher de Zeus (Júpiter na mitologia romana). Hermes (Mercúrio, para os romanos), outro filho de Zeus, colocou a criança no seio de Hera enquanto ela dormia. Ao abrir os olhos, ela se soltou do pequeno Hércules, mas ele já tinha sido alimentado. O leite que escorreu do seio de Hera deixou um rastro pelo céu. Foi assim que “nasceu” a Via Láctea. Há outra versão...Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim
Torquato Neto
Poema que figura entre "Os cem melhores poemas brasileiros do século", pág. 269.
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim
Torquato Neto
Poema que figura entre "Os cem melhores poemas brasileiros do século", pág. 269.
outubro 22, 2009
“Digitai para viver”
Este é o lema do Ivan Lessa que é colunista da BBC Brasil e este é o seu texto de ontem:
"Eu sou muito mais moço do que pensam aqueles que me veem bengalando meu caminho pelas ruas de LondresNinguém me dariamais que 47 anos. Vá lá que seja: 57 anos. Isso porque só podem assistir a ruína a que meu pobre corpo ficou reduzido, conforme diz a velha canção do bom Ary Barroso. Não podem ver o decatlo moderno disputado com vistas a medalha ao menos de bronze pela minha vida interior.
Mentalmente, tenho meus sacudidos 30 e poucos anos. Meu cérebro bate bola em praia ou terreno baldio. Minhas faculdades mentais dão a volta ao quarteirão com o português do armazém correndo atrás, e não me pegando, depois de eu roubar a coxinha de galinha e a empada de palmito.
Não pratico esportes. Não faço ioga. Alongamento ou Pilates. Meu segredo, minha receita para uma vida saudável, para chegar com alguma dignidade e boa disposição física ao crepúsculo final que nos espera a todos é muito simples e nada tem a ver com regimes e essa enganação de alimentos “orgânicos”. Não. Sento. E sento e sento e sento.
Não só diante da televisão e os DVDs alugados, que isso é recreio, hora da engorda mental, confeitos que só engordam o já castigado cérebro. Sento diante da mesa em que se alojam, como precioso relicário, o computador, com todos seus adereços habituais: teclado, camundongo, USB para isso e aquilo outro, dongles e, vez por outra, suas inevitáveis chateações.
O conjunto, comigo a manobrá-lo, confortavelmente sentadão, é o que me mantém, e ainda manterá, por muito tempo, com a mente sã e distante de qualquer “andador”, por mais moderno e estético que seja.
Amigos – mais: irmãos – de cabelos cor de prata, eis o segredo que a ciência acaba de endossar: googleie para viversem demência ou sentir nas costas o toque gelado dos dedinhos finos de Alzheimer. O vovô e a vovó podem reverter o processo da senilidade ao simples digitar cibernético.
Eu acabei de dar uma chegada ao Google para ver se encontrava um substantivo em português neo-reformado para a palavra “dongle”. Neris de petibiriba, conforme dizemos nós, os com mais de 35 anos de idade. No entanto, a simples busca adiou, nem que seja por um átimo (confiram no Houaiss virtual), o processo degradante do envelhecimento.
Lá está, no jornal: Gary Small, professor de neurociência e comportamento humano da Universidade da Califórnia, Los Angeles (a mais que prestigiosa UCLA) declarou que “os cidadãos mais velhos, mesmo com um mínimo de experiência, terão alteradas de forma positiva suas atividades mentais e seu devido comportamento”.
O grande Small e sua equipe trabalharam durante algum tempo com 24 idosos entre as idades de 55 e 78 anos, submetendo-os a toda sorte de testes, modernos e tradicionais. Metade dessa gente boa e de bela idade era chegada à net. Precisamente a metade mais cheia de vida, mais sagaz. Tudo foi segundo o mais avançado método científico à disposição da UCLA. Não deu outra coisa: mexeu com o teclado do computador, digitou, buscou, achou, não achou, dá na mesma: a atividade cerebral do internauta foi estimulada com oxigênio extra e uma boa dose de nutrientes, ou nutritivos. No que o sangue benévolo saiu jorrando inteligência pelas partes mais recônditas do cérebro dos… quase que digo anciãos. Cérebro dos sempre jovens e atentos cibernautas.
“Digitai para viver” passou a ser o meu lema. Viver mais e melhor, com mais inteligência e sensibilidade. Googlai, irmãos, googlai!"
"Eu sou muito mais moço do que pensam aqueles que me veem bengalando meu caminho pelas ruas de LondresNinguém me dariamais que 47 anos. Vá lá que seja: 57 anos. Isso porque só podem assistir a ruína a que meu pobre corpo ficou reduzido, conforme diz a velha canção do bom Ary Barroso. Não podem ver o decatlo moderno disputado com vistas a medalha ao menos de bronze pela minha vida interior.
Mentalmente, tenho meus sacudidos 30 e poucos anos. Meu cérebro bate bola em praia ou terreno baldio. Minhas faculdades mentais dão a volta ao quarteirão com o português do armazém correndo atrás, e não me pegando, depois de eu roubar a coxinha de galinha e a empada de palmito.
Não pratico esportes. Não faço ioga. Alongamento ou Pilates. Meu segredo, minha receita para uma vida saudável, para chegar com alguma dignidade e boa disposição física ao crepúsculo final que nos espera a todos é muito simples e nada tem a ver com regimes e essa enganação de alimentos “orgânicos”. Não. Sento. E sento e sento e sento.
Não só diante da televisão e os DVDs alugados, que isso é recreio, hora da engorda mental, confeitos que só engordam o já castigado cérebro. Sento diante da mesa em que se alojam, como precioso relicário, o computador, com todos seus adereços habituais: teclado, camundongo, USB para isso e aquilo outro, dongles e, vez por outra, suas inevitáveis chateações.
O conjunto, comigo a manobrá-lo, confortavelmente sentadão, é o que me mantém, e ainda manterá, por muito tempo, com a mente sã e distante de qualquer “andador”, por mais moderno e estético que seja.
Amigos – mais: irmãos – de cabelos cor de prata, eis o segredo que a ciência acaba de endossar: googleie para viversem demência ou sentir nas costas o toque gelado dos dedinhos finos de Alzheimer. O vovô e a vovó podem reverter o processo da senilidade ao simples digitar cibernético.
Eu acabei de dar uma chegada ao Google para ver se encontrava um substantivo em português neo-reformado para a palavra “dongle”. Neris de petibiriba, conforme dizemos nós, os com mais de 35 anos de idade. No entanto, a simples busca adiou, nem que seja por um átimo (confiram no Houaiss virtual), o processo degradante do envelhecimento.
Lá está, no jornal: Gary Small, professor de neurociência e comportamento humano da Universidade da Califórnia, Los Angeles (a mais que prestigiosa UCLA) declarou que “os cidadãos mais velhos, mesmo com um mínimo de experiência, terão alteradas de forma positiva suas atividades mentais e seu devido comportamento”.
O grande Small e sua equipe trabalharam durante algum tempo com 24 idosos entre as idades de 55 e 78 anos, submetendo-os a toda sorte de testes, modernos e tradicionais. Metade dessa gente boa e de bela idade era chegada à net. Precisamente a metade mais cheia de vida, mais sagaz. Tudo foi segundo o mais avançado método científico à disposição da UCLA. Não deu outra coisa: mexeu com o teclado do computador, digitou, buscou, achou, não achou, dá na mesma: a atividade cerebral do internauta foi estimulada com oxigênio extra e uma boa dose de nutrientes, ou nutritivos. No que o sangue benévolo saiu jorrando inteligência pelas partes mais recônditas do cérebro dos… quase que digo anciãos. Cérebro dos sempre jovens e atentos cibernautas.
“Digitai para viver” passou a ser o meu lema. Viver mais e melhor, com mais inteligência e sensibilidade. Googlai, irmãos, googlai!"
disposição cética
"Duvidar não significa descrer. Quem descrê já não duvida. Duvidar significa crer em coisas distintas e incompatíveis, ao mesmo tempo. O Ceticismo apareceu na Grécia pelo século III A. C., quando a cultura grega estava saturada de experiência criadora, possibilitando opções múltiplas e divergentes. Em essência, a disposição cética revela-se como forma refinada de tentação intelectual para gozar a simultaneidade dos opostos. Cético é quem experimenta a inefável fruição do possível, ora crendo que sim, ora crendo que não... O cético disfarça seu embaraço opcional, pela superior destreza, pela fina elegância com que se mostra capaz de seduzir ouvintes ou leitores ao sustentar os argumentos mais contraditórios sobre o mesmo assunto."
Gilberto de Mello Kujawski, in Descartes existencial
Gilberto de Mello Kujawski, in Descartes existencial
Lágrimas de Eros
"Eros y Tanatos, pulsión de vida y pulsión de muerte. La relación entre estos dos elementos en una exposición temática que recorre como el arte, ya sea pictórico, fotográfico o escultórico, se ha acercado al mundo del erotismo. Con el ojo puesto en Georges Bataille y su obra 'El erotismo', esta exposición le hará reconsiderar conceptos como el de orgasmo, el amor o el tabú en un recorrido tan intenso como sensual. Atrévase"... clicando no título que te levará ao site do Museo Thyssen-Bornemisza y Fundación Caja Madrid. A mostra é inspiradora. Ao final o visitante pode passar na lojinha do museu e adquirir uma caixinha com preservativos ilustrada com a obra "Adan y Eva" de Jan Gossaert.
Dia da Criança
"Todos já fomos crianças. Muito parecidas entre si, se levarmos em conta o "nosso tempo" de cada um. Mas o tempo pinta a criança de jovem, logo depois de adulto e mais adiante de idoso.
Um dia, porém, nos perguntamos: "Cadê a criança que estava aqui?" Aquela cheia de sonhos e fantasias, que não parava nenhum minuto e perguntava o tempo todo, desafiando a lógica e a política na mais fascinante simplicidade. Caaaalma! O gato não comeu.
A criança não morreu. Apenas dorme, dentro de você, de mim, de todos nós. Por vezes, permitimos que acorde e fale, surpreendendo aqueles que nos cercam. Isso é agradável e necessário para que tenhamos saúde e equilíbrio.
Não se incomode, pois, com uma repentina vontade de brincar de casinha, de querer ver desenho animado ou de se imaginar herói superpoderoso.
A mente precisa, em todas as idades, de uma farta dose de fantasia para poder lidar com as agruras do cotidiano.
Lógico é que, a cada ação, devam-se estimar as possibilidades de risco, mas para isso existem aqueles que não estão envolvidos na mesma aventura.
"Parece criança!" é a frase que geralmente denuncia alguém atento para moderar as atitudes de quem se permitiu "viajar" em sua fantasia. Para tal, além de alimentá-la, temos que falar dela sem muitas restrições e ouvir quem dela fale sem demonstrar espanto ou contrariedade.
Frequentemente sou procurado por filhos e netos que julgam que seus parentes idosos estejam apresentando um distúrbio de comportamento por estarem pensando em começar um novo negócio ou treinando para uma competição esportiva. Não percebem que a necessidade de enfrentar um novo desafio ou de vivenciar uma experiência inédita alimenta nosso espírito empreendedor.
Em resumo, existe em cada um de nós a mesma curiosidade e o mesmo interesse que manifestamos quando demos os primeiros passos, fizemos as perguntas mais simples e vencemos nossos limites mais básicos. Isso se perpetua pela vida toda, e a necessidade de pertencer ao meio e desafiá-lo se mantém constante.
E quando, em convívio com aqueles que -por motivo de doença- chamam os netos pelos nomes dos filhos ou querem insistentemente voltar para casa mesmo estando nela, saibamos ter a complacência necessária para permitir que possam mudar a realidade sem culpa e sem a necessidade de se enquadrarem na verdade absoluta, mesmo porque esta, racionalmente, inexiste.
Se fomos capazes, um dia, de brincar com nossos filhos ou netos, fazendo de um cabo de vassoura um cavalo imponente ou de uma boneca a filhinha que precisava ser amamentada, haveremos também de saber lidar com essa condição de realidade imaginária manifesta pelo idoso. Basta nos lembrarmos das brincadeiras de outrora.
A criança que fomos um dia viverá sempre no íntimo de cada um. Somos os únicos capazes de mostrá-la ou de mantê-la escondida para sempre."
WILSON JACOB FILHO
Um dia, porém, nos perguntamos: "Cadê a criança que estava aqui?" Aquela cheia de sonhos e fantasias, que não parava nenhum minuto e perguntava o tempo todo, desafiando a lógica e a política na mais fascinante simplicidade. Caaaalma! O gato não comeu.
A criança não morreu. Apenas dorme, dentro de você, de mim, de todos nós. Por vezes, permitimos que acorde e fale, surpreendendo aqueles que nos cercam. Isso é agradável e necessário para que tenhamos saúde e equilíbrio.
Não se incomode, pois, com uma repentina vontade de brincar de casinha, de querer ver desenho animado ou de se imaginar herói superpoderoso.
A mente precisa, em todas as idades, de uma farta dose de fantasia para poder lidar com as agruras do cotidiano.
Lógico é que, a cada ação, devam-se estimar as possibilidades de risco, mas para isso existem aqueles que não estão envolvidos na mesma aventura.
"Parece criança!" é a frase que geralmente denuncia alguém atento para moderar as atitudes de quem se permitiu "viajar" em sua fantasia. Para tal, além de alimentá-la, temos que falar dela sem muitas restrições e ouvir quem dela fale sem demonstrar espanto ou contrariedade.
Frequentemente sou procurado por filhos e netos que julgam que seus parentes idosos estejam apresentando um distúrbio de comportamento por estarem pensando em começar um novo negócio ou treinando para uma competição esportiva. Não percebem que a necessidade de enfrentar um novo desafio ou de vivenciar uma experiência inédita alimenta nosso espírito empreendedor.
Em resumo, existe em cada um de nós a mesma curiosidade e o mesmo interesse que manifestamos quando demos os primeiros passos, fizemos as perguntas mais simples e vencemos nossos limites mais básicos. Isso se perpetua pela vida toda, e a necessidade de pertencer ao meio e desafiá-lo se mantém constante.
E quando, em convívio com aqueles que -por motivo de doença- chamam os netos pelos nomes dos filhos ou querem insistentemente voltar para casa mesmo estando nela, saibamos ter a complacência necessária para permitir que possam mudar a realidade sem culpa e sem a necessidade de se enquadrarem na verdade absoluta, mesmo porque esta, racionalmente, inexiste.
Se fomos capazes, um dia, de brincar com nossos filhos ou netos, fazendo de um cabo de vassoura um cavalo imponente ou de uma boneca a filhinha que precisava ser amamentada, haveremos também de saber lidar com essa condição de realidade imaginária manifesta pelo idoso. Basta nos lembrarmos das brincadeiras de outrora.
A criança que fomos um dia viverá sempre no íntimo de cada um. Somos os únicos capazes de mostrá-la ou de mantê-la escondida para sempre."
WILSON JACOB FILHO
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