agosto 31, 2009
Entre Deus e o Diabo
"O HABITAT natural da alma é viver entre Deus e o Diabo. Sem esse combate, a alma se dissolve em pequenas manias diárias e fica pequena.
Uma das faces da miséria humana é a vaidade, e a vaidade quer agradar. Como diz a escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, hoje todo mundo quer agradar, o professor, o artista, o metafísico. Sua tese é que no fundo deste desejo de agradar está o trauma infantil do desamparo que nos afeta a todos. Ao tentar agradar, buscamos fugir do medo do desamparo. Quando o intelectual é afetado por este desejo, ele se transforma numa máquina de repetição de unanimidades a fim de agradar a opinião pública.
Também morro de medo, como não? Ainda mais hoje, quando agradar é um conceito cientifico na sociedade de mercado. Quando atingida pela unanimidade, a opinião pública torna o ar irrespirável. Segundo a ciência da opinião pública, discordar dela é suicídio.
A partir de sua pequena janela, em seu pequeno apartamento de classe média, onde a televisão reproduz um desses programas alegres de domingo, nossa heroína, a opinião pública, contempla sua criação. Com uma lupa, vasculha o mundo, em busca de um vírus que justifique cientificamente seu medo.
Até o Diabo fica pálido diante dessa moradora de apartamento de classe média, que vasculha o mundo com sua lupa. O Diabo se esconde, sentindo-se finalmente derrotado, com as faces vermelhas de pudor.
Há medos e medos. Há medos que nos engrandecem e medos que nos humilham. O medo de Hamlet nos engrandece: afinal, seria eu, no fundo, uma caveira vazia? Ou seria eu uma alma cega, que, mesmo sendo, no fundo, uma caveira vazia, pressente a presença de seu criador e o persegue arrastando-se pelo chão?
O medo de quem grita nas farmácias em busca de álcool gel nos humilha. Os olhos de um chimpanzé dentro de sua cela no zoológico são mais humanos do que a obsessão de quem lava as mãos a cada segundo.
Tanto o professor, quanto o artista, o metafísico, são obrigados a seguir o roteiro da concepção de vida medíocre da classe média em que só pode ser dito o que "agrega valor à vida". Cuidado! Os olhos da moradora do apartamento enxergam tudo o que se move em sua criação. E nela, todos devem ter seus orçamentos equilibrados.
O professor deve ver diante de si alguém que, por definição, nunca erra, e se preocupar com sua autoestima, o artista deve pintar o rosto do pequeno deus miserável que sonhamos ter dentro de nós, o metafísico, este coitado, vira escravo de um universo que deve estar a nossa disposição a cada segundo resolvendo até nossos crediários.
Confesso: eu não tenho uma concepção de vida, sou um coitado. Vejo a vida como Pepi, a faxineira do romance de Kafka "O Castelo". Pelo buraco de uma fechadura, vejo a vida e seus muitos vultos aos pedaços, arrastando-se pelas paredes. A duras penas pressinto suas formas. Muitas vezes estremeço quando as pressinto mais agudamente.
Já tentei ter uma concepção de vida, mas desisti e hoje, como diz o filósofo romeno Cioran (século 20), eu acho que grande parte dos problemas do mundo advém da praga que é todo mundo querer ter uma concepção de vida. Quando estou diante de alguém que tem uma concepção de vida, recuo assim como quem recua de um predador. A certeza acerca do que seja uma vida plena me apavora. Antigamente apenas alguns poucos eram tomados por esta febre, mas hoje, como vivemos no mundo das grandes quantidades, todos se acham no direito de ter concepções de vida.
A indiferença faria do mundo, talvez, um lugar melhor. Mas sei que isso é difícil de ser compreendido por quem se vê como um agente do bem, a partir de seu pequeno apartamento de classe média, ao som de seu programa alegre de domingo. Quem assim se vê normalmente não tem qualquer piedade.
Nessas horas, sinto saudades de Deus e daquele tipo de santo que vivia o dilaceramento de quem se vê tragado, de um lado, pela graça de Deus, e, do outro, por sua natureza orgulhosa, que se revolta contra os elementos naturais, apenas porque eles lhe são indiferentes.
Há uma luta entre Deus e o Diabo e seu palco é o coração humano, nos diz Dimitri Karamazov, um dos heróis de Dostoiévski. O habitat natural da alma é viver entre Deus e o Diabo. Como Deus é piedoso, dele aprendo a humildade, como o Diabo é infeliz, dele aprendo a vaidade. Ambos são improváveis, por isso merecem nossa fé."
LUIZ FELIPE PONDÉ
Uma das faces da miséria humana é a vaidade, e a vaidade quer agradar. Como diz a escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, hoje todo mundo quer agradar, o professor, o artista, o metafísico. Sua tese é que no fundo deste desejo de agradar está o trauma infantil do desamparo que nos afeta a todos. Ao tentar agradar, buscamos fugir do medo do desamparo. Quando o intelectual é afetado por este desejo, ele se transforma numa máquina de repetição de unanimidades a fim de agradar a opinião pública.
Também morro de medo, como não? Ainda mais hoje, quando agradar é um conceito cientifico na sociedade de mercado. Quando atingida pela unanimidade, a opinião pública torna o ar irrespirável. Segundo a ciência da opinião pública, discordar dela é suicídio.
A partir de sua pequena janela, em seu pequeno apartamento de classe média, onde a televisão reproduz um desses programas alegres de domingo, nossa heroína, a opinião pública, contempla sua criação. Com uma lupa, vasculha o mundo, em busca de um vírus que justifique cientificamente seu medo.
Até o Diabo fica pálido diante dessa moradora de apartamento de classe média, que vasculha o mundo com sua lupa. O Diabo se esconde, sentindo-se finalmente derrotado, com as faces vermelhas de pudor.
Há medos e medos. Há medos que nos engrandecem e medos que nos humilham. O medo de Hamlet nos engrandece: afinal, seria eu, no fundo, uma caveira vazia? Ou seria eu uma alma cega, que, mesmo sendo, no fundo, uma caveira vazia, pressente a presença de seu criador e o persegue arrastando-se pelo chão?
O medo de quem grita nas farmácias em busca de álcool gel nos humilha. Os olhos de um chimpanzé dentro de sua cela no zoológico são mais humanos do que a obsessão de quem lava as mãos a cada segundo.
Tanto o professor, quanto o artista, o metafísico, são obrigados a seguir o roteiro da concepção de vida medíocre da classe média em que só pode ser dito o que "agrega valor à vida". Cuidado! Os olhos da moradora do apartamento enxergam tudo o que se move em sua criação. E nela, todos devem ter seus orçamentos equilibrados.
O professor deve ver diante de si alguém que, por definição, nunca erra, e se preocupar com sua autoestima, o artista deve pintar o rosto do pequeno deus miserável que sonhamos ter dentro de nós, o metafísico, este coitado, vira escravo de um universo que deve estar a nossa disposição a cada segundo resolvendo até nossos crediários.
Confesso: eu não tenho uma concepção de vida, sou um coitado. Vejo a vida como Pepi, a faxineira do romance de Kafka "O Castelo". Pelo buraco de uma fechadura, vejo a vida e seus muitos vultos aos pedaços, arrastando-se pelas paredes. A duras penas pressinto suas formas. Muitas vezes estremeço quando as pressinto mais agudamente.
Já tentei ter uma concepção de vida, mas desisti e hoje, como diz o filósofo romeno Cioran (século 20), eu acho que grande parte dos problemas do mundo advém da praga que é todo mundo querer ter uma concepção de vida. Quando estou diante de alguém que tem uma concepção de vida, recuo assim como quem recua de um predador. A certeza acerca do que seja uma vida plena me apavora. Antigamente apenas alguns poucos eram tomados por esta febre, mas hoje, como vivemos no mundo das grandes quantidades, todos se acham no direito de ter concepções de vida.
A indiferença faria do mundo, talvez, um lugar melhor. Mas sei que isso é difícil de ser compreendido por quem se vê como um agente do bem, a partir de seu pequeno apartamento de classe média, ao som de seu programa alegre de domingo. Quem assim se vê normalmente não tem qualquer piedade.
Nessas horas, sinto saudades de Deus e daquele tipo de santo que vivia o dilaceramento de quem se vê tragado, de um lado, pela graça de Deus, e, do outro, por sua natureza orgulhosa, que se revolta contra os elementos naturais, apenas porque eles lhe são indiferentes.
Há uma luta entre Deus e o Diabo e seu palco é o coração humano, nos diz Dimitri Karamazov, um dos heróis de Dostoiévski. O habitat natural da alma é viver entre Deus e o Diabo. Como Deus é piedoso, dele aprendo a humildade, como o Diabo é infeliz, dele aprendo a vaidade. Ambos são improváveis, por isso merecem nossa fé."
LUIZ FELIPE PONDÉ
agosto 30, 2009
A maior viagem
Editorial da TRIP de agosto
"O surf ensina muito a quem está a fim de aprender. Ele, em sua forma pura, uma manifestação límpida e evidente de vida, ensina sobre coisas variadas. Inclusive sobre a morte. Mostra a todo tempo nossa fragilidade diante das forças que nos rodeiam, nos lembra que ela está por perto e assim nos faz fruir mais e melhor os momentos vividos. O surf também ensina a viajar, a ir além, a procurar o desconhecido e a encará-lo como a perspectiva de algo maior e melhor, deixando o medo num compartimento muito pequeno e quase inacessível da bagagem, junto ao kit de sobrevivência.
Por conta do surf, fui parar na Indonésia no fim da década de 80. Para nós, àquela altura, a região era um absoluto penetrar no desconhecido. A geografia surpreendia, a cor das pessoas, os cheiros, as oferendas e a espiritualidade farta, as ondas verdes com o Sol se pondo por trás do horizonte e quase cegando quem insistia em encará-lo, ainda que filtrado pelas paredes de água salgada.
Havia por ali um tipo de sorriso também diferente. Parecia imotivado, não era fruto de alguma conquista ou superação, era um fruir permanente da alegria de estar ali, vivo, existindo. Não sou exatamente do tipo de pessoa que cai encantada diante das civilizações e crenças exóticas aos nossos olhos, que se derrama em deslumbramento ao primeiro sinal de algo que destoe daquilo que vemos em nosso mundo cotidiano. Não formo no grupo que volta com trancinhas do Caribe ou recitando mantras no desembarque da excursão à Índia. Um pouco ao contrário até, a profissão de fazer perguntas e observar com a atenção e o distanciamento possíveis os assuntos ligados ao chamado “comportamento humano” desenvolve uma espécie de ceticismo. Talvez não exatamente uma descrença, e sim uma crença na essência que faz com que os seres humanos e todos os vivos, numa concepção um pouco mais ampla, sejam apenas representações diversas de uma mesma consciência. Mas, digressões à parte, havia realmente ali algo a ser entendido.
Entre andanças pelas ruas e peregrinações às praias mais afastadas, aqueles sorrisos originais e espontâneos iam revelando coisas que ainda não faziam muito sentido isoladamente. Me lembro de um dia em que, vestindo uma camisa com os botões do alto abertos, tive que parar diante de duas pessoas que me olhavam sorrindo aquele mesmo sorriso. Elas aproximaram suas mãos do meu peito, indicadores e dedões em forma de pinça, e puxaram levemente, entre analisando e acariciando os pelos do meu peito. Sorriram mais, sem deboche ou cinismo, apenas expressando o fascínio pelo desconhecido.
Uns dias depois, pelas mesmas ruas, vi uma espécie de cordão festivo que se aproximava, com pessoas cantando, vestidas com cores fortes, tocando instrumentos, dançando e andando na mesma direção, interrompendo o fluxo mega-alucinado de carros, motos e bicicletas.
Era irresistível chegar perto. A associação inicial era com o que conhecemos como celebrações de Carnaval. Não aquelas maiores, mas um Carnaval de cidade de interior, desses mais simples, que acontecem aos milhares pelo Brasil. Fui chegando perto e observando as oferendas, comidas, danças e, mais do que tudo, aqueles sorrisos que me intrigavam, agora em versões ainda mais rasgadas e expressivas. Só depois de algum tempo vi que se tratava de um enterro, uma espécie de procissão funerária. Parentes, amigos e passantes celebravam a transcendência da pessoa falecida. E o faziam da forma mais verdadeira e espontânea que se possa imaginar.
Há, especialmente em algumas filosofias nascidas no Oriente, a ideia de que choramos ao chegar ao mundo porque de alguma maneira pressentimos a angústia que nos espera e que, por isso mesmo, deveríamos sorrir e celebrar ao partir. O que sei é que um tempo depois de voltar daquela viagem, passando por uma calçada de São Paulo, vi um corpo coberto por folhas de jornal. Uma mãe que passava por ali tapou os olhos da criança que trazia pelas mãos, como que “protegendo” a filha de uma visão chocante e assustadora. Será que temos medo da morte ou da transcendência que ela sugere?
De alguma forma, esta foi a inspiração para a primeira edição da Trip dedicada à morte. Desde a escolha do nome da nossa revista, há 23 anos, até o desenho da arquitetura editorial que a representa, o mesmo gosto verdadeiro pelo desconhecido e uma quase necessidade de buscá-lo e vivenciá-lo nos levaram a tratar nesta edição daquela que talvez seja a maior aventura.
Olhar para a morte com leveza, com interesse verdadeiro, sem filtros e sem deixar a emoção e até a dor de fora, foi o que tentamos fazer, claro, observando todas as nossas limitações, inclusive as de espaço.
Talvez a morte seja mesmo, como diz a psicanálise clássica, o supremo redutor de tensões. Mas acreditamos que ela deva estar mais perto dos nossos olhos para vivermos mais e melhor e, também, que ela possa ser a maior viagem."
Paulo Anis Lima, editor
"O surf ensina muito a quem está a fim de aprender. Ele, em sua forma pura, uma manifestação límpida e evidente de vida, ensina sobre coisas variadas. Inclusive sobre a morte. Mostra a todo tempo nossa fragilidade diante das forças que nos rodeiam, nos lembra que ela está por perto e assim nos faz fruir mais e melhor os momentos vividos. O surf também ensina a viajar, a ir além, a procurar o desconhecido e a encará-lo como a perspectiva de algo maior e melhor, deixando o medo num compartimento muito pequeno e quase inacessível da bagagem, junto ao kit de sobrevivência.
Por conta do surf, fui parar na Indonésia no fim da década de 80. Para nós, àquela altura, a região era um absoluto penetrar no desconhecido. A geografia surpreendia, a cor das pessoas, os cheiros, as oferendas e a espiritualidade farta, as ondas verdes com o Sol se pondo por trás do horizonte e quase cegando quem insistia em encará-lo, ainda que filtrado pelas paredes de água salgada.
Havia por ali um tipo de sorriso também diferente. Parecia imotivado, não era fruto de alguma conquista ou superação, era um fruir permanente da alegria de estar ali, vivo, existindo. Não sou exatamente do tipo de pessoa que cai encantada diante das civilizações e crenças exóticas aos nossos olhos, que se derrama em deslumbramento ao primeiro sinal de algo que destoe daquilo que vemos em nosso mundo cotidiano. Não formo no grupo que volta com trancinhas do Caribe ou recitando mantras no desembarque da excursão à Índia. Um pouco ao contrário até, a profissão de fazer perguntas e observar com a atenção e o distanciamento possíveis os assuntos ligados ao chamado “comportamento humano” desenvolve uma espécie de ceticismo. Talvez não exatamente uma descrença, e sim uma crença na essência que faz com que os seres humanos e todos os vivos, numa concepção um pouco mais ampla, sejam apenas representações diversas de uma mesma consciência. Mas, digressões à parte, havia realmente ali algo a ser entendido.
Entre andanças pelas ruas e peregrinações às praias mais afastadas, aqueles sorrisos originais e espontâneos iam revelando coisas que ainda não faziam muito sentido isoladamente. Me lembro de um dia em que, vestindo uma camisa com os botões do alto abertos, tive que parar diante de duas pessoas que me olhavam sorrindo aquele mesmo sorriso. Elas aproximaram suas mãos do meu peito, indicadores e dedões em forma de pinça, e puxaram levemente, entre analisando e acariciando os pelos do meu peito. Sorriram mais, sem deboche ou cinismo, apenas expressando o fascínio pelo desconhecido.
Uns dias depois, pelas mesmas ruas, vi uma espécie de cordão festivo que se aproximava, com pessoas cantando, vestidas com cores fortes, tocando instrumentos, dançando e andando na mesma direção, interrompendo o fluxo mega-alucinado de carros, motos e bicicletas.
Era irresistível chegar perto. A associação inicial era com o que conhecemos como celebrações de Carnaval. Não aquelas maiores, mas um Carnaval de cidade de interior, desses mais simples, que acontecem aos milhares pelo Brasil. Fui chegando perto e observando as oferendas, comidas, danças e, mais do que tudo, aqueles sorrisos que me intrigavam, agora em versões ainda mais rasgadas e expressivas. Só depois de algum tempo vi que se tratava de um enterro, uma espécie de procissão funerária. Parentes, amigos e passantes celebravam a transcendência da pessoa falecida. E o faziam da forma mais verdadeira e espontânea que se possa imaginar.
Há, especialmente em algumas filosofias nascidas no Oriente, a ideia de que choramos ao chegar ao mundo porque de alguma maneira pressentimos a angústia que nos espera e que, por isso mesmo, deveríamos sorrir e celebrar ao partir. O que sei é que um tempo depois de voltar daquela viagem, passando por uma calçada de São Paulo, vi um corpo coberto por folhas de jornal. Uma mãe que passava por ali tapou os olhos da criança que trazia pelas mãos, como que “protegendo” a filha de uma visão chocante e assustadora. Será que temos medo da morte ou da transcendência que ela sugere?
De alguma forma, esta foi a inspiração para a primeira edição da Trip dedicada à morte. Desde a escolha do nome da nossa revista, há 23 anos, até o desenho da arquitetura editorial que a representa, o mesmo gosto verdadeiro pelo desconhecido e uma quase necessidade de buscá-lo e vivenciá-lo nos levaram a tratar nesta edição daquela que talvez seja a maior aventura.
Olhar para a morte com leveza, com interesse verdadeiro, sem filtros e sem deixar a emoção e até a dor de fora, foi o que tentamos fazer, claro, observando todas as nossas limitações, inclusive as de espaço.
Talvez a morte seja mesmo, como diz a psicanálise clássica, o supremo redutor de tensões. Mas acreditamos que ela deva estar mais perto dos nossos olhos para vivermos mais e melhor e, também, que ela possa ser a maior viagem."
Paulo Anis Lima, editor
Morram lentamente
"“Michael Jackson teve a morte mais lenta da história.”
Essa frase foi dita pelo amigo João Marcelo Bôscoli num lindo artigo publicado na Folha de S.Paulo no dia seguinte à morte do rei do pop. Eu me emocionei com a imagem que essa frase trouxe à minha mente. E passei o resto da semana convivendo com a terrível ideia da “morte lenta”. Mas cheguei à conclusão de que a morte do Michael foi provocada justamente pelo fato de ele não ter aceitado a verdade de que viver é morrer lentamente. Ele negou a morte quanto pode e brincou de faz de conta. E, quanto mais negava a morte, mais a vida se afastava dele.
Viver é morrer lentamente, sim. Isso é real. Qualquer biólogo pode fundamentar cientificamente esse fato. Sem romance. Essa é a natureza do ser vivo que somos. A ideia de morrer lentamente é boa porque nos ajuda a ter mais intimidade com a morte e assim entendemos melhor a delicadeza e a inteligência do viver.
Acredito que a intimidade com a morte nos proporciona mais intimidade com a vida, nos aproxima da beleza da destruição e do caos que é vital para a nossa evolução. Mas o medo de morrer nos faz negar a realidade da morte. Assim, quando ela chega, nos surpreende, ou melhor, nos assusta e aterroriza, como se não fosse esperada, como se não pertencesse ao universo dos seres vivos.
Demorei para apagar do meu imaginário a figura apavorante da morte que aparecia sempre de repente, vinda de outro mundo, como alguém que chegava para pôr fim a uma festa à qual não tinha sido convidada. A imagem da morte como penetra indesejável, invasora repentina, como fato pontual, impede que a gente conviva com ela como fato natural com o qual negociamos a cada segundo. Justamente porque a morte é um mistério amedrontador e porque vem acompanhada do sentimento de perda, a intimidade cotidiana com ela é necessária.
Não estou dizendo que é simples nem fácil. Mas que é necessário para entender a dinâmica da vida e poder negociar com a morte com mais competência, lentamente. Quem vive a morte lenta vive mais porque cuida melhor da vida. E, o melhor de tudo, não se assusta e não sofre tanto com o fim que com certeza chegará.
Daqui do alto dos meus 60 anos, convivo cada dia com mais intimidade com a morte e posso dizer que ela não me amedronta. Pelo contrário, me desperta muita curiosidade. Se posso dar um conselho para os que ainda estão longe dos 60, aqui vai: morram lentamente! Não deixem para a última hora. A vida agradece."
Ricardo Guimarães na TRIP
Essa frase foi dita pelo amigo João Marcelo Bôscoli num lindo artigo publicado na Folha de S.Paulo no dia seguinte à morte do rei do pop. Eu me emocionei com a imagem que essa frase trouxe à minha mente. E passei o resto da semana convivendo com a terrível ideia da “morte lenta”. Mas cheguei à conclusão de que a morte do Michael foi provocada justamente pelo fato de ele não ter aceitado a verdade de que viver é morrer lentamente. Ele negou a morte quanto pode e brincou de faz de conta. E, quanto mais negava a morte, mais a vida se afastava dele.
Viver é morrer lentamente, sim. Isso é real. Qualquer biólogo pode fundamentar cientificamente esse fato. Sem romance. Essa é a natureza do ser vivo que somos. A ideia de morrer lentamente é boa porque nos ajuda a ter mais intimidade com a morte e assim entendemos melhor a delicadeza e a inteligência do viver.
Acredito que a intimidade com a morte nos proporciona mais intimidade com a vida, nos aproxima da beleza da destruição e do caos que é vital para a nossa evolução. Mas o medo de morrer nos faz negar a realidade da morte. Assim, quando ela chega, nos surpreende, ou melhor, nos assusta e aterroriza, como se não fosse esperada, como se não pertencesse ao universo dos seres vivos.
Demorei para apagar do meu imaginário a figura apavorante da morte que aparecia sempre de repente, vinda de outro mundo, como alguém que chegava para pôr fim a uma festa à qual não tinha sido convidada. A imagem da morte como penetra indesejável, invasora repentina, como fato pontual, impede que a gente conviva com ela como fato natural com o qual negociamos a cada segundo. Justamente porque a morte é um mistério amedrontador e porque vem acompanhada do sentimento de perda, a intimidade cotidiana com ela é necessária.
Não estou dizendo que é simples nem fácil. Mas que é necessário para entender a dinâmica da vida e poder negociar com a morte com mais competência, lentamente. Quem vive a morte lenta vive mais porque cuida melhor da vida. E, o melhor de tudo, não se assusta e não sofre tanto com o fim que com certeza chegará.
Daqui do alto dos meus 60 anos, convivo cada dia com mais intimidade com a morte e posso dizer que ela não me amedronta. Pelo contrário, me desperta muita curiosidade. Se posso dar um conselho para os que ainda estão longe dos 60, aqui vai: morram lentamente! Não deixem para a última hora. A vida agradece."
Ricardo Guimarães na TRIP
Colhidos alhures
"Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de proteger-nos da realidade."
Hannah Arendt
... Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E,enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.
Timidez( Cecília Meireles)
“O amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha”
Faltando um Pedaço, de Djavan
“Compre manteiga. Passe-a nos dedos (esqueça Marlon Brando). Chupe-os. E diga em tom de oração: que vida solitária, meu Deus! (Contenha-se).”
Hilda Hilst, em Cascos & Carícias
"Às vezes me pergunto o que é mais cruel: usar o véu para se cobrir ou ser obrigada a aparentar eternamente 20 anos?"
Hany Abu-Assad, diretor de Paradise Now, sobre as exigências que atormentam as mulheres (do oriente e do ocidente)
"Uma pesquisa americana concluiu que mulheres saudáveis, mas que se sentem cronicamente desesperançadas sobre o futuro ou sobre seus objetivos, apresentam uma chance maior de desenvolver placas nas artérias do pescoço. A aterosclerose pode, por sua vez, desencadear um derrame e outros problemas. Os pesquisadores avaliaram 559 mulheres com 50 anos de idade, em média. A diferença foi significativa mesmo depois de eliminados outros fatores de risco cardiovascular, como idade, renda e até depressão." (?)
"Philip Roth escreve como homem. Hoje 'escrever como homem' é raro, porque homens estão fora de moda. Sua letra, repleta de gosto pelo pecado, passeia como mãos por baixo da saia das mulheres, sem querer dar uma de sensível como vemos no Homem Comum. Um erro crasso da mulher é confundir essa insensibilidade com falta de vínculo afetivo por parte do homem. Ler Roth para as mulheres é uma chance de vasculhar a sensibilidade dura de um homem que as adora."
Luiz Felipe Pondé, em Carrascos sutis
"Ando muito completo de vazios."
Manoel de Barros n' O Livro das Ignorãças
Hannah Arendt
... Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E,enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.
Timidez( Cecília Meireles)
“O amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha”
Faltando um Pedaço, de Djavan
“Compre manteiga. Passe-a nos dedos (esqueça Marlon Brando). Chupe-os. E diga em tom de oração: que vida solitária, meu Deus! (Contenha-se).”
Hilda Hilst, em Cascos & Carícias
"Às vezes me pergunto o que é mais cruel: usar o véu para se cobrir ou ser obrigada a aparentar eternamente 20 anos?"
Hany Abu-Assad, diretor de Paradise Now, sobre as exigências que atormentam as mulheres (do oriente e do ocidente)
"Uma pesquisa americana concluiu que mulheres saudáveis, mas que se sentem cronicamente desesperançadas sobre o futuro ou sobre seus objetivos, apresentam uma chance maior de desenvolver placas nas artérias do pescoço. A aterosclerose pode, por sua vez, desencadear um derrame e outros problemas. Os pesquisadores avaliaram 559 mulheres com 50 anos de idade, em média. A diferença foi significativa mesmo depois de eliminados outros fatores de risco cardiovascular, como idade, renda e até depressão." (?)
"Philip Roth escreve como homem. Hoje 'escrever como homem' é raro, porque homens estão fora de moda. Sua letra, repleta de gosto pelo pecado, passeia como mãos por baixo da saia das mulheres, sem querer dar uma de sensível como vemos no Homem Comum. Um erro crasso da mulher é confundir essa insensibilidade com falta de vínculo afetivo por parte do homem. Ler Roth para as mulheres é uma chance de vasculhar a sensibilidade dura de um homem que as adora."
Luiz Felipe Pondé, em Carrascos sutis
"Ando muito completo de vazios."
Manoel de Barros n' O Livro das Ignorãças
Os seios caíram
"Triste notícia. A revista francesa "Le Nouvel Observateur" relata: "Os tendenciólogos são formais: nada mais brega do que passear na praia sem a parte de cima do maiô".
É que, dos anos de 1970 até agora, as francesas puseram-se a expor os seios não só à beira-mar, mas nas piscinas públicas, de clubes ou condomínios. Livres, eles não chocavam mais ninguém. Aquelas que os tinham bonitos chamavam a atenção ao oferecer a beleza descoberta. As menos favorecidas não se importavam muito com deixá-los de fora, e, olhando bem, sempre havia neles alguma coisa que despertava interesse.
Agora, caíram de moda. Pelo menos os nus. Os tempos tornaram-se pudicos, regressivos, conservadores. As muçulmanas sequestram o próprio aspecto com seus hijab (lenço que oculta cabelos e pescoço), jilbab, nicab, sitar, até chegar à burca, que as recobre como se fosse uma tenda ambulante.
As francesas escondem os seios: é muito menos que as muçulmanas, mas é sempre uma dissimulação do corpo, portador de pecados.
No Ocidente, o século 20 testemunhou um progressivo desvestir-se feminino: basta ver as fotografias de praias há cem anos. Agora, há o retrocesso. Sabe-se lá o que nos aguarda: pode ser que o século 21 assista a um paulatino e coletivo striptease ao contrário.
Helenos.

Os antigos gregos demoraram em esculpir mulheres nuas. No 6º século a.C., os curos, rapazes, eram representados nus, mas as corês, moças, eram sempre vestidinhas. No final do século 5º a.C., Calímaco esculpiu sua "Vênus Genitrix" revelando apenas um seio, magnífico. Seria preciso esperar o 4º século a.C. para que, enfim, Praxíteles desse um novo sopro hedonístico à cultura helênica despindo sua "Afrodite de Cnido A viril democracia ateniense entrara em decadência e a sedução feminina se infiltrava nos costumes.
Os seios da Vênus de Calímaco, um visível, o outro recoberto por finíssimo tecido, são estupendos.
Na história da pintura, Courbet [1819-77] deixou um par, insuperável, na tela "A Mulher e a Vaga" (Metropolitan Museum, Nova York). A textura translúcida permite perceber o tom pálido, verde-azulado, das veias sob a pele. Daniel Arasse, historiador da arte, viu uma metáfora do esperma na espuma do mar que avança sobre o torso da banhista Análise sem dúvida excessiva, ela confirma, no entanto, a força erótica da tela.
São sempre escolhas pessoais, questão de gosto, que variam. Qual seria o mais belo par de seios em toda a história das artes?
Se Calímaco e Praxíteles esculpiram sublimes seios, Brecheret [1894-1955] é o autor dos mais curiosos. São os da "Musa Impassível", que ornava o túmulo da poetisa Francisca Júlia [no cemitério do Araçá, em São Paulo] e que a Pinacoteca do Estado trouxe para o seu acervo.*
Essa estátua tem o mesmo título de um poema admirável e outrora célebre da grande escritora. Traz as marcas estilísticas de um simbolismo "art nouveau" e tardio naqueles anos de 1920: alongamentos, linhas que fluem. Apoiada numa muretinha, a musa, muito alta, recua os ombros, avança o ventre, empina os peitos pontudos e dobra a cabeça num movimento contrário ao arco do corpo.
O rosto demonstra compunção, buscando traduzir em pedra "o sobrecenho austero", que figura num dos versos: o modelado dos olhos lembra as deformações de "O Grito", de Munch. Apenas, ao contrário do que diz o poema, fecha as pálpebras. O efeito engraçado vem do contraste entre a expressão de solenidade afetada, oposta aos seios espevitados e oferecidos".
JORGE COLI no +Mais! ( imagens do google, ora pois!)
Nota:* Poeta parnasiana Francisca Júlia cometeu suicídio em 1º de novembro de 1920, um dia após a morte do marido, o telegrafista Filadelfo Edmundo Munster (1865-1920), aos 49 anos. Como homenagem póstuma, o deputado e mecenas José de Freitas Valle encomendou ao escultor Victor Brecheret – responsável pela introdução do modernismo na escultura brasileira e que na época morava em Paris – uma obra para o túmulo da escritora. Três anos depois, Brecheret mostrava sua primeira escultura tumular, a Musa Impassível – feita em mármore carrara, com 3 toneladas e 2,80 metros de altura –, batizada com o nome de um dos sonetos mais famosos de Francisca Júlia. A obra adornou o túmulo da poeta, no Cemitério do Araçá (no bairro do Pacaembu), até 2006, quando, praticamente esquecida e em precário estado de conservação, foi “redescoberta” por Sandra Brecheret, filha do escultor. Em dezembro do mesmo ano, foi transferida para a Pinacoteca de São Paulo, a fim de ser restaurada e preservada. No seu lugar, foi colocada uma réplica de bronze.
É que, dos anos de 1970 até agora, as francesas puseram-se a expor os seios não só à beira-mar, mas nas piscinas públicas, de clubes ou condomínios. Livres, eles não chocavam mais ninguém. Aquelas que os tinham bonitos chamavam a atenção ao oferecer a beleza descoberta. As menos favorecidas não se importavam muito com deixá-los de fora, e, olhando bem, sempre havia neles alguma coisa que despertava interesse.
Agora, caíram de moda. Pelo menos os nus. Os tempos tornaram-se pudicos, regressivos, conservadores. As muçulmanas sequestram o próprio aspecto com seus hijab (lenço que oculta cabelos e pescoço), jilbab, nicab, sitar, até chegar à burca, que as recobre como se fosse uma tenda ambulante.
As francesas escondem os seios: é muito menos que as muçulmanas, mas é sempre uma dissimulação do corpo, portador de pecados.
No Ocidente, o século 20 testemunhou um progressivo desvestir-se feminino: basta ver as fotografias de praias há cem anos. Agora, há o retrocesso. Sabe-se lá o que nos aguarda: pode ser que o século 21 assista a um paulatino e coletivo striptease ao contrário.
Helenos.

Os antigos gregos demoraram em esculpir mulheres nuas. No 6º século a.C., os curos, rapazes, eram representados nus, mas as corês, moças, eram sempre vestidinhas. No final do século 5º a.C., Calímaco esculpiu sua "Vênus Genitrix" revelando apenas um seio, magnífico. Seria preciso esperar o 4º século a.C. para que, enfim, Praxíteles desse um novo sopro hedonístico à cultura helênica despindo sua "Afrodite de Cnido A viril democracia ateniense entrara em decadência e a sedução feminina se infiltrava nos costumes.
Os seios da Vênus de Calímaco, um visível, o outro recoberto por finíssimo tecido, são estupendos.

Na história da pintura, Courbet [1819-77] deixou um par, insuperável, na tela "A Mulher e a Vaga" (Metropolitan Museum, Nova York). A textura translúcida permite perceber o tom pálido, verde-azulado, das veias sob a pele. Daniel Arasse, historiador da arte, viu uma metáfora do esperma na espuma do mar que avança sobre o torso da banhista Análise sem dúvida excessiva, ela confirma, no entanto, a força erótica da tela.
São sempre escolhas pessoais, questão de gosto, que variam. Qual seria o mais belo par de seios em toda a história das artes?
Se Calímaco e Praxíteles esculpiram sublimes seios, Brecheret [1894-1955] é o autor dos mais curiosos. São os da "Musa Impassível", que ornava o túmulo da poetisa Francisca Júlia [no cemitério do Araçá, em São Paulo] e que a Pinacoteca do Estado trouxe para o seu acervo.*
Essa estátua tem o mesmo título de um poema admirável e outrora célebre da grande escritora. Traz as marcas estilísticas de um simbolismo "art nouveau" e tardio naqueles anos de 1920: alongamentos, linhas que fluem. Apoiada numa muretinha, a musa, muito alta, recua os ombros, avança o ventre, empina os peitos pontudos e dobra a cabeça num movimento contrário ao arco do corpo.
O rosto demonstra compunção, buscando traduzir em pedra "o sobrecenho austero", que figura num dos versos: o modelado dos olhos lembra as deformações de "O Grito", de Munch. Apenas, ao contrário do que diz o poema, fecha as pálpebras. O efeito engraçado vem do contraste entre a expressão de solenidade afetada, oposta aos seios espevitados e oferecidos".
JORGE COLI no +Mais! ( imagens do google, ora pois!)
Nota:* Poeta parnasiana Francisca Júlia cometeu suicídio em 1º de novembro de 1920, um dia após a morte do marido, o telegrafista Filadelfo Edmundo Munster (1865-1920), aos 49 anos. Como homenagem póstuma, o deputado e mecenas José de Freitas Valle encomendou ao escultor Victor Brecheret – responsável pela introdução do modernismo na escultura brasileira e que na época morava em Paris – uma obra para o túmulo da escritora. Três anos depois, Brecheret mostrava sua primeira escultura tumular, a Musa Impassível – feita em mármore carrara, com 3 toneladas e 2,80 metros de altura –, batizada com o nome de um dos sonetos mais famosos de Francisca Júlia. A obra adornou o túmulo da poeta, no Cemitério do Araçá (no bairro do Pacaembu), até 2006, quando, praticamente esquecida e em precário estado de conservação, foi “redescoberta” por Sandra Brecheret, filha do escultor. Em dezembro do mesmo ano, foi transferida para a Pinacoteca de São Paulo, a fim de ser restaurada e preservada. No seu lugar, foi colocada uma réplica de bronze.
agosto 29, 2009
Miragem conjugal
Esta é a coluna de Cristovão Tezza que estréia, hoje, no Rodapé Literário da FSP, comentando FELICIDADE CONJUGAL.
"NA CÉLEBRE abertura de "Ana Kariênina", de Lev Tolstói (1828-1910), o narrador nos diz que todas as famílias felizes se parecem, enquanto as infelizes o são cada uma à sua maneira -e será justamente um dos exemplos negativos que ele conta nesse clássico publicado na maturidade.
Mas o tema da vida conjugal, assimilado como um teste de laboratório da condição humana, perseguia Tolstói desde cedo. A novela "Felicidade Conjugal", de 1859, que chega às livrarias a partir do dia 5, em uma bem cuidada edição, com tradução, notas e posfácio de Boris Schnaidermann, pode ser lida como um curioso esboço de sua futura obra-prima. A narrativa conta a história de amor entre a órfã Mária Aleksândrovna, de 17 anos, e seu vizinho Sierguiéi Mikhailovitch, com todos os elementos da educação sentimental típica do tempo. Reforçando a empatia com o leitor, a história é narrada pela própria Mária.
Nesse idílio de uma aristocracia rural padronizada, há as amizades fiéis, as sessões de leitura e piano, a beleza do luar e o papel da mulher: "Todos os meus pensamentos (...) e sentimentos (...) não eram meus, eram pensamentos e sentimentos dele, que de repente se tornaram meus, passaram para a minha vida e iluminaram-na".
A percepção das injustiças sociais que explodiam no século 19 e que atormentarão a vida de Tolstói, já transparece, ainda que sem força, na paixão adolescente de Mária: "Também ele ensinou-me a olhar os nossos camponeses, os criados, as empregadas domésticas de maneira totalmente nova".
Em toda a primeira parte, o texto reforça pelos olhos da jovem mulher a imagem de uma felicidade sem nenhum páthos, um idílio conjugal assexuado em que natureza, trabalho e papeis sociais se estabilizam num quadro amortecido e imutável de boas intenções.
Mas a intuição realista do jovem Tolstói vai discretamente pondo à prova esse paraíso congelado. Num momento, a heroína confessa: "Não sei que novo sentimento inquieto começava a penetrar-me furtivamente na alma". Dali em diante, abalos sutis, mas inexoráveis, começam a romper o imaginário da prometida felicidade conjugal.
O contraste da tranquila vida no campo versus a corrupção do brilho dos bailes em São Petersburgo, o fantasma de traição e enfim a chegada do primeiro filho acabam por recolocar a vida em outro patamar, provocando descobertas insuspeitadas: "Então é esse o poder do marido -pensei. Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma culpa".
Aqui ainda não há tragédia; apenas a consciência de uma transformação e, pela delicada evocação ficcional, a nostalgia da felicidade conjugal, "algo impossível de trazer de volta". "
"NA CÉLEBRE abertura de "Ana Kariênina", de Lev Tolstói (1828-1910), o narrador nos diz que todas as famílias felizes se parecem, enquanto as infelizes o são cada uma à sua maneira -e será justamente um dos exemplos negativos que ele conta nesse clássico publicado na maturidade.
Mas o tema da vida conjugal, assimilado como um teste de laboratório da condição humana, perseguia Tolstói desde cedo. A novela "Felicidade Conjugal", de 1859, que chega às livrarias a partir do dia 5, em uma bem cuidada edição, com tradução, notas e posfácio de Boris Schnaidermann, pode ser lida como um curioso esboço de sua futura obra-prima. A narrativa conta a história de amor entre a órfã Mária Aleksândrovna, de 17 anos, e seu vizinho Sierguiéi Mikhailovitch, com todos os elementos da educação sentimental típica do tempo. Reforçando a empatia com o leitor, a história é narrada pela própria Mária.
Nesse idílio de uma aristocracia rural padronizada, há as amizades fiéis, as sessões de leitura e piano, a beleza do luar e o papel da mulher: "Todos os meus pensamentos (...) e sentimentos (...) não eram meus, eram pensamentos e sentimentos dele, que de repente se tornaram meus, passaram para a minha vida e iluminaram-na".
A percepção das injustiças sociais que explodiam no século 19 e que atormentarão a vida de Tolstói, já transparece, ainda que sem força, na paixão adolescente de Mária: "Também ele ensinou-me a olhar os nossos camponeses, os criados, as empregadas domésticas de maneira totalmente nova".
Em toda a primeira parte, o texto reforça pelos olhos da jovem mulher a imagem de uma felicidade sem nenhum páthos, um idílio conjugal assexuado em que natureza, trabalho e papeis sociais se estabilizam num quadro amortecido e imutável de boas intenções.
Mas a intuição realista do jovem Tolstói vai discretamente pondo à prova esse paraíso congelado. Num momento, a heroína confessa: "Não sei que novo sentimento inquieto começava a penetrar-me furtivamente na alma". Dali em diante, abalos sutis, mas inexoráveis, começam a romper o imaginário da prometida felicidade conjugal.
O contraste da tranquila vida no campo versus a corrupção do brilho dos bailes em São Petersburgo, o fantasma de traição e enfim a chegada do primeiro filho acabam por recolocar a vida em outro patamar, provocando descobertas insuspeitadas: "Então é esse o poder do marido -pensei. Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma culpa".
Aqui ainda não há tragédia; apenas a consciência de uma transformação e, pela delicada evocação ficcional, a nostalgia da felicidade conjugal, "algo impossível de trazer de volta". "
agosto 28, 2009
Confundir a Cidade com o Mar
Não conhecia Richard Zimler e com este nome não o tomaria por um escritor portugues. Zimler dá aulas de jornalismo na Universidade do Porto e já escreveu diversos romances que são “bestsellers” em vários países e já recebeu prémios literários como o National Endowment of the Arts Fellowship em 1994 e o Herodotus Award for the Best Historical Novel em 1998. Peguei Confundir a Cidade com o Mar ao acaso, na última vez em que estive no Porto, dentre tantos outros que despachei para cá. Confesso que, não tendo qualquer referência sobre o autor (escolhia dentre os portugueses), este livro de contos me atraiu pela linda capa. A imagem nos remete a um fundo de mar onde se percebem ninhos, aves e flores. São “contos de amor, morte e mistério” com personagens singulares e inesquecíveis que lutam para “libertarem-se das ilusões sexuais, políiticas e espirituais que os afastaram de si próprios”.Não que o Porto não seja um ótimo lugar para se viver, mas eu também me perguntei, embora já suspeitando a resposta, o que o fez ir para lá em 1990, sendo de origem americana e vivendo em São Francisco. O amor, óbvio!!!
Os seus outros livros são: «O Último Cabalista de Lisboa», «Trevas da Luz», «Meia-Noite ou o Princípio do Mundo», «Goa ou o Guardião da Aurora», «À Procura de Sana», «A Sétima Porta», ) e «Dança Quando Chegares ao Fim» (livro infantil). E ainda por lançar «Os Anagramas de Varsóvia».
agosto 26, 2009
Sigismund Neukomm
"A cravista Rosana Lanzelote lança neste mês um CD que chama a atenção para um personagem fascinante: o compositor e maestro Sigismund Neukomm. Nascido em Salzburg, na Áustria, em 1778, ele desembarcou no Rio de Janeiro em 30 de maio de 1816. Ao retornar à França em 1821, tinha deixado marcas profundas na história da música brasileira. Considerado um dos maiores organistas de sua época, Neukomm foi aluno de Joseph Haydn e colega de estudos de Ludwig van Beethoven, em Viena. No Brasil, compôs 45 obras, que até hoje surpreendem os especialistas pelo refinamento e pela complexidade. Incluem a Marcha Triunfal à Grande Orquestra, uma orquestração de seis valsas do príncipe d. Pedro, de quem foi professor, além de uma Marcha Sinfônica, uma Missa e um Te Deum para a cerimônia de aclamação de d. João 6o, em 1818. Outra grande contribuição sua foi o registro de modinhas de Joaquim Manoel da Câmera, famoso pela habilidade ao violão.No Rio de Janeiro, Neukomm freqüentava a casa do barão Von Langsdorff, cônsul-geral da Rússia, cuja mulher tinha sido sua aluna. Era um ponto de encontro dos músicos, compositores e cantores da corte, que ali se reuniam para conhecer e executar novidades chegadas da Europa. Um dos freqüentadores era o padre José Maurício Nunes Garcia. Mulato e pai de três filhos, o padre é considerado hoje o mais importante compositor brasileiro da época da corte de d. João. Neukomm tinha por ele grande admiração e amizade. Depois de vê-lo reger a primeira execução do Réquiem de Mozart em solo brasileiro, em 1820, escreveu um artigo deslumbrado para o jornal Allgemeine Musikalische Zeitung, de Viena, elogiando a performance do amigo brasileiro.
A obra musical de Neukomm é relativamente bem conhecida. Sua trajetória pessoal, ao contrário, permanece ainda cercada de mistérios. Um enigma diz respeito a sua atividade política. Alguns historiadores levantam a suspeita de que teria sido um espião a serviço de Charles-Maurice de Talleyrand, o mais poderoso ministro da França do começo do século 19. A música era, de longe, a forma de arte preferida da corte portuguesa, e Neukomm, um dos mestres mais promissores de sua época. Isso teria facilitado o seu acesso ao círculo próximo de d. João 6o, com o objetivo de informar Talleyrand das alianças e conspirações em andamento no Rio de Janeiro.
Um segundo enigma tem a ver com a sua vida privada. Bonito, famoso, solteiro e sem filhos, Neukomm tem seu nome numa lista de quatro homossexuais não assumidos da corte de d. João, elaborada pelo antropólogo Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia. Os outros três seriam d. João de Almeida de Melo e Castro, o conde de Galvêas; Francisco Rufino de Souza Lobato, visconde de Vila Nova da Rainha; e o próprio d. João 6o. Na falta de estudos mais aprofundados sobre a biografia de Neukomm, nenhuma dessas insinuações foi até hoje comprovada. Resta, portanto, analisá-lo sob a ótica exclusiva da música."
Laurentino Gomes é escritor, autor de 1808.
(Na Bravo! de novembro. É que só adquiri o CD/DVD no último sábado)
Neukomm no Brasil
O compositor Sigismund Neukomm (1778 1858) o aluno predileto de Haydn, é quase um desconhecido, apesar da qualidade de sua música e do sucesso de que desfrutava na época. Tornou-se Cavaleiro após ter recebido a comenda da Legião de Honra francesa por ter escrito a Missa de Réquiem em homenagem a Luís XVI.
Ao mesmo tempo em que introduziu no Brasil o estilo vienense, com repertório de seus conterrâneos Mozart e Haydn, fez a ponte com a Europa, divulgando lá modinhas e lundus. Transcreveu a obra de Joaquim Manoel da Câmara, e escreveu textos elogiosos sobre o Padre José Mauricio. Neukomm inaugurou a prática que se tornou a marca registrada da produção musical brasileira: a mistura de gêneros clássicos e populares. Inspirou-se na modinha - A Melancolia - de Joaquim Manoel da Câmara para escrever LAmoureux, e em um lundu, no caso de O Amor Brasileiro.
O texto Cavaleiro do Som clicando no título.
agosto 25, 2009
Nunca aos Domingos
Ontem assisti um triailer (dublado!) da comédia Falando Grego, com a ex 'feia' do Casamento Grego no papel de uma atrapalhada guia de turistas na Grécia. Incidentalmente, se ouve Never on Sunday, uma música linda que tocou muitíssimo e depois nunca mais. Nem aos domingos!
Foi a música que ganhou o Oscar em 1960.
Nunca aos Domingos é um filme com a Melina Mercouri e Jules Dassin que não só escreveu, mas também atuou e dirigiu o filme. Para relembrar, já que não sei se andou passando nos cines cults ultimamente, é a história de prostituta alegre, cheia de amigos. Aos domingos ela recebe os amigos em casa pra conversar, dançar e se divertir. Obviamente, que só os homens. Em 1960, as mulheres, se ficavam amigas de prostitutas, o faziam às escondidas.Ou nem ficavam.
Chega então um americano, metido a intelectual que acha que precisa mostrá-la outro tipo de prazer e, de forma meio moralista, tenta impor suas idéias. O embate é mágico em Nunca aos Domingos. A pretensão de achar que alguém que vive fora do convencional é errado e que o saber intelectual é que proporciona a verdadeira alegria...chega! Fiquem com algumas cenas do filme.
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