agosto 25, 2009

Nunca aos Domingos


Ontem assisti um triailer (dublado!) da comédia Falando Grego, com a ex 'feia' do Casamento Grego no papel de uma atrapalhada guia de turistas na Grécia. Incidentalmente, se ouve Never on Sunday, uma música linda que tocou muitíssimo e depois nunca mais. Nem aos domingos!
Foi a música que ganhou o Oscar em 1960.
Nunca aos Domingos é um filme com a Melina Mercouri e Jules Dassin que não só escreveu, mas também atuou e dirigiu o filme. Para relembrar, já que não sei se andou passando nos cines cults ultimamente, é a história de prostituta alegre, cheia de amigos. Aos domingos ela recebe os amigos em casa pra conversar, dançar e se divertir. Obviamente, que só os homens. Em 1960, as mulheres, se ficavam amigas de prostitutas, o faziam às escondidas.Ou nem ficavam.
Chega então um americano, metido a intelectual que acha que precisa mostrá-la outro tipo de prazer e, de forma meio moralista, tenta impor suas idéias. O embate é mágico em Nunca aos Domingos. A pretensão de achar que alguém que vive fora do convencional é errado e que o saber intelectual é que proporciona a verdadeira alegria...chega! Fiquem com algumas cenas do filme.

agosto 24, 2009

À Deriva


Fui ao cinema com um crítico a tiracolo. Como a sua coluna sai na quarta, deixo aqui o trailer e o lugar reservado para o comentário dele.

A vida é perto

"O conceito é de Millôr Fernandes (quem mais?), e meio que se explica por si mesmo: a vida é perto. Foi dito por ele para nossa querida amiga, a cantora Olivia Byington, a respeito de alguém que, sendo carioca e morando no Rio, fazia questão de ter casas e apartamentos em várias cidades do planeta. "A vida é perto, Olivia", disse Millôr. Sem elucubrações outras. Ela entendeu, contou para todo mundo e todo mundo entendeu.
Foi também de Millôr que roubei o conceito de que o ideal é morar, no máximo, até o 4º andar -para conservar a perspectiva humana. Por isso, há anos, ao comprar um apartamento no Rio, fiz questão de que, ao chegar à janela, eu estivesse ao alcance da voz de quem passava lá embaixo, na calçada. De que pudesse ler a tabuleta na carrocinha com o preço do Chica-bon e, idealmente, distinguir a cor dos olhos das moças a caminho da praia -único item que não foi atendido, porque elas passam de óculos escuros. Enfim, a vida é perto.
Na semana passada, uma autoridade sanitária paulistana, preocupada com as possibilidades de contágio da gripe suína, disse que a situação é grave porque, em São Paulo, as pessoas passam o dia em interiores: no ônibus, no metrô, no escritório, na fábrica, no restaurante, em casa ou na casa dos outros. Impossível o espirro individual. Dali inferi que, em algumas cidades, a vida é dentro. E que, nas demais, o Rio, por exemplo, a vida é fora.
Pode-se estender o conceito a muitas categorias, como a de que a vida é hoje, ontem ou amanhã, de que é agora ou nunca, ou de que é um amistoso ou a valer três pontos. Tudo vale. Acacianismos a parte (tipo "Viver é muito perigoso", Guimarães Rosa), talvez levássemos vida melhor se tivéssemos mais tempo para pensar nela.
Mas não dá, porque a vida, quando acordamos para ela, é depressa
."
RUY CASTRO na FSP

As freiras feias sem Deus

"O QUE MOVE as pessoas, em meio a tantos problemas, a dedicar tamanha energia para reprimir o uso do tabaco? Resposta: o impulso fascista moderno.
Proteger não fumantes do tabaco em espaços públicos fechados é justo. Minha objeção contra esta lei se dá em outros dois níveis: um mais prático e outro mais teórico.
O prático diz respeito ao fato de ela não preservar alguns poucos bares e restaurantes livres para fumantes, sejam eles consumidores ou trabalhadores do setor. E por que não? Porque o que move o legislador, o fiscal e o dedo-duro é o gozo típico das almas mesquinhas e autoritárias. Uma espécie de freiras feias sem Deus.
O teórico fala de uma tendência contemporânea, que é o triste fato de a democracia não ser, como pensávamos, imune à praga fascista.
A tendência da democracia à lógica tirânica da saúde já havia sido apontada por Tocqueville (século 19). Dizia o conde francês que a vocação puritana da democracia para a intolerância para com hábitos "inúteis" a levaria a odiar coisas como o álcool e o tabaco, entre outras possibilidades.
Odiaremos comedores de carne? Proprietários de dois carros? Que tal proibir o tabaco em casa em nome do pulmão do vizinho? Ou uma campanha escolar para estimular as crianças a denunciar pais fumantes? Toda forma de fascismo caminhou para a ampliação do controle da vida mínima. As freiras feias sem Deus gozariam com a ideia de crianças tão críticas dos maus hábitos.
A associação do discurso científico ao constrangimento do comportamento moral, via máquina repressiva do Estado, é típica do fascismo. Se comer carne aumentar os custos do Ministério da Saúde, fecharemos as churrascarias? Crianças diagnosticadas cegas ainda no útero significariam uma economia significativa para a sociedade. Vamos abortá-las sistematicamente? O eugenista, o adorador da vida cientificamente perfeita, não se acha autoritário, mas, sim, redentor da espécie humana.
E não me venha dizer que no "Primeiro Mundo" todo o mundo faz isso, porque não sou um desses idiotas colonizados que pensam que o "Primeiro Mundo" seja modelo de tudo. Conheço o "Primeiro Mundo" o suficiente para não crer em bobagens desse tipo.
O que essas freiras feias sem Deus não entendem é que o que humaniza o ser humano é um equilíbrio sutil entre vícios e virtudes. E, quando estamos diante de neopuritanos, de santos sem Deus, os vícios é que nos salvam. Não quero viver num mundo sem vícios. E quero vivê-lo tomando vinho, vendo o rosto de uma mulher linda e bêbada em meio à fumaça num bistrô."

Luiz Felipe Pondé é colunista da Ilustrada.
A propósito da lei antifumo em Sampa.

agosto 23, 2009

Da fumaça ao perfume


"Há três mil anos, sacerdotes invocavam os deuses pela queima de ervas. A origem da palavra perfume vem daí, já que em latim per fumum significa "pela (por meio da) fumaça". Quando o homem descobriu o fogo, percebeu que, ao queimar, determinados arbustos e resinas exalavam um intenso cheiro. E passou a utilizar essa fumaça perfumada em rituais relacionados à sua vida espiritual.
As primeiras referências históricas importantes provêm do Oriente, especialmente do Egito, onde oferendas perfumadas seguiam juntos para os túmulos dos grandes faraós. Na Tumba de Tutancâmon (que morreu em 1324 a.C.), por exemplo, foram encontrados óleos aromáticos de cedro, mirra e zimbro.
Pouco antes do início da Era Cristã, os romanos costumavam usar óleos essenciais para rituais religiosos e funerários, para perfumar não somente o corpo, mas também a mobília da casa. Na Idade Média, a busca pela pedra filosofal levou os alquimistas a realizarem inúmeras experiências que contribuíram no desenvolvimento de processos fundamentais para a indústria da perfumaria. A partir do século 19, o perfume ganhou status de quase-remédio, usado para tratar depressão e enfermidades nervosas.
Estrutura e corpo de um perfume
O sentido do olfato é um dos principais sentidos dos animais, pois auxilia diretamente na complexidade de reações de sobrevivência. Ajuda a identificar coisas ruins ou boas. Uma maçã vermelha, por exemplo, pode parecer boa, mas o seu cheiro poderá sinalizar que está estragada.
Tanto para o homem primitivo quanto para muitos animais, um faro apurado fazia a diferença - fosse para detectar a proximidade de um predador, fosse para avaliar se um alimento era venenoso. No curso da civilização, entretanto, o homem focou quase todas as suas atenções na comunicação por estímulos visuais e auditivos, e a dependência do nariz para asobrevivência foi reduzida.
Ainda assim, como testemunho da importância que um dia teve, nosso sistema olfativo mantém a capacidade de sentir aproximadamente 10 mil cheiros diferentes, ao passo que o paladar, por exemplo, aparentemente muito mais presente em nossa vida do que o olfato, pode avaliar somente quatro gostos diferentes: doce, salgado, azedo, amargo, e são estes os quatro tipos de gostos primários que sentimos. As fragrâncias, por sua vez, podem despertar memórias e afetos.
Para a criação de um perfume, vários elementos naturais e sintéticos, como frutas, madeiras, resinas, flores, e compostos químicos são escolhidos e combinados por perfumistas, os quais podem levar anos para chegar na combinação perfeita. Da concentração das essências, óleos e álcool é que surgem os tipos de perfumes que conhecemos:
Perfume, Parfum ou Extrato: é o que tem o cheiro mais persistente, com concentração de óleos essenciais em torno de 15% a 20% e álcool 96%. Dura na pele entre 12 a 20 horas;
Eau de Parfum: tem o cheiro mais sutil, com concentração entre 10% e 15% de óleos essenciais e duração na pele entre 6 e 8 horas;
Eau de Toilette: a idéia é transmitir o lado mais refrescante do perfume, com concentração que pode variar de 5% a 10%, e duração na pele entre 4 a 6 horas; Eau de Cologne: a base, simplificada, apresenta uma concentração de 3% a 5%, com pouca duração na pele, ideal para o pós-banho.
Quando usamos um perfume, independentemente da quantidade da concentração que a fragância apresente, existem três etapas diferentes de odores que ele exala, antes que se fixe o seu cheiro definitivo:
Notas de cabeça ou saída: é a primeira impressão do perfume, é o que sentimos ao abrir o frasco. Como são voláteis, evaporam nos primeiros cinco ou dez minutos.
Notas de corpo ou coração: surgem alguns minutos após a aplicação. É a identidade dos perfumes. Duram duas horas em média.
Notas de fundo: são as mais fortes e consistentes. Elas são as que marcam presença e que ficam até o final do tempo de fixação do perfume (o que varia de pele para pele)."
......
Leia a continuação - Hora H por Ricardo Oliveiros, clicando no título.

Remédios Varo

Remedios Varo Uranga, nasceu em 1908 em Anglés, na Cataluña (Espanha) e morreu em 1963 na Cidade do México. Durante a Guerra Civil Espanhola, mudou-se para Paris onde foi grandemente influenciada pelo movimento surrealista. Foi forçada a exilar-se da capital francesa durante a ocupação nazista e mudou-se para a Cidade do México em fins de 1941.Embora considerasse o México como um refúgio temporário, o país acabou por tornar-se sua residência definitiva.
"É difícil imaginar uma mistura harmónica entre a ciência e a fantasia, mas em arte tudo é possível, porque a arte não tem limites nem fórmulas restritivas. Através de sua pintura, Remedios Varo, uma artista apaixonada pela ciência, mistura fórmulas matemáticas e complexos conceitos físicos, com um mundo mágico de fantasias e seres surrealistas, criados inteiramente na sua imaginação. O resultado é uma pintura fantástica que aparece em manuais de matemática e tratados científicos como ilustração de conceitos complexos que poucos podem compreender fora do mundo da ciência. Varo nasceu na Espanha, perto da Barcelona de Gaudi, em 1908. Lá recebeu uma forte influência de seu pai que era engenheiro e lhe apresentou aos mundos da ciência e também da arte - apaixonou-se pelos dois. Em 1942 mudou-se para a Cidade do México, onde residiu até a morte em 1963. O estilo e temática de Remedios Varo permanecem consistentes durante a sua carreira, desenhando muito sobre o seu conhecimento dos quadros dos grandes mestres. Os tecidos delicadamente modelados nos seus quadros e a sua composição estética devem muito à arte flamenga do século XV."
(A arte no século XX)
Para saber mais da artista, inclusive o nome das obras, clicar no título.

agosto 22, 2009

Amar, acalentar e trair

"As crianças têm a infância", escreveu o professor David P. Barash. "E os adultos? Têm o adultério."
Barash, que ensina psicologia na Universidade de Washington, escreveu um livro chamado "The Myth of Monogamy" e foi entrevistado por Natalie Angier, do "New York Times", para uma reportagem sobre infidelidade animal.
A monogamia é realmente um mito? No mundo animal é, mesmo para espécies que formam casais para toda vida. "A promiscuidade sexual é generalizada na natureza, e a verdadeira fidelidade é uma fantasia acalentada", escreveu Angier.
"A monogamia social muito raramente é acompanhada de monogamia sexual ou genética", relatou Angier. "Examine os rebentos de uma ninhada, seja de aves, toupeiras, macacos, raposas ou qualquer outra espécie que forme pares, e de 10% a 70% mostrarão que descendem de um macho que não o oficial." .
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Mas, mesmo quando um cônjuge trai, o casamento geralmente sobrevive, escreveram Benedict Carey e Tara Parker-Pope no "Times". Em estudo da Universidade da Virgínia, 10% das pessoas casadas admitiram que tiveram casos em algum momento. Anos depois, 76% dos adúlteros continuavam casados e vivendo com seus pares.
"Historicamente, a instituição do casamento não sucumbiu à infidelidade tanto quanto coexiste com ela, como um corpo com o vírus da gripe: às vezes enfraquece, mas desenvolve certa imunidade pela longa exposição", escreveram Carey e Parker-Pope
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Como os seres humanos, os animais às vezes se vingam de seus parceiros infiéis. Em uma experiência com besouros, que formam pares e constroem uma bola de esterco na qual depositam os ovos, os pesquisadores amarraram um besouro fêmea perto de seu parceiro. Então o macho liberou feromônios para atrair outras fêmeas.
Quando sua parceira foi libertada, ela o virou de costas para baixo e "o fez rolar diretamente para a bola de esterco, o que pareceu totalmente apropriado", disse o professor Barash.
É isso aí!

Glenn Gould

Encontrei no portal do Estadão um especial , em interessante apresentação em audio, sobre a carreira do pianista canadense Glenn Gould (acesso clicando no título). Mais do que um pianista, ele foi um dos ícones do século XX. Sua curta carreira (1955-1982), foi inteiramente de quebra de paradigmas. Abraçou a tecnologia como nenhum outro músico e fez dela o passaporte para uma "presença cultural" intensa. Continua sendo um dos músicos mais discutidos, ouvidos, questionados, cultuados na cena musical. Está artisticamente mais vivo do que nunca, a julgar pela quantidade de teses e livros que continuam a ser publicados, e pela presença em catálogo de seus cerca de 80 CDs. "Você toca como um compositor" foi o elogio que recebeu do compositor americano Aaron Copland que completou : "Quando eu o escuto tocar Bach, é como se o próprio Bach tocasse.".

No título, acesso para o audio:O som e a fúria de Glenn Gould e no link http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=28
Glenn Gould: caso de amor com o microfone .
"...De certo ângulo, Gould representou para o século XX o avesso de Strauss, e o fez de propósito, como que a escrever sua trajetória pelo caminho inverso do mestre alemão. Enquanto este era o retrógrado e teimoso mantenedor das tradições da prática musical novecentista, o canadense quebrou com ela em dois pontos. Alterou o modo de interpretar a música do passado e renunciou a um de seus dogmas mais caros: o recital ao vivo. Gould considerava as apresentações em carne e osso uma "arena sangrenta" indigna da arte dos sons e a trocou por aquilo que chamou de "caso de amor com o microfone". Em 1964, no ápice da fama, nosso anti-Strauss decidiu abandonar palcos para se exilar no estúdio de gravação e criar, assim, música segundo padrões tecnológicos que deveriam elevar o som gravado a níveis de excelência nunca antes alcançados. "Achei o palco uma experiência aterradora e essencialmente antimusical", disse, num documentário. "Desistir de concertos foi apenas uma forma de me livrar de uma experiência intensamente desagradável."
No entanto, o paraíso técnico resultou em distopia..."
Para ouvir o album: www.bluebeat.com/boxsets/3625
Uma maravilha!!!

E para completar...

agosto 21, 2009

Inspiração Dali

Milena me enviou email com estas imagens espetaculares. O autoretrato do artista é tão surrealista quanto as demais obras. O hibisco bailarina é sensacional!

agosto 20, 2009

Tá combinado

Alan Turing

O matemático Alan Turing, morto em 1954 aos 41 anos, é considerado por muitos o pai da ciência da computação e da inteligência artificial. Ainda nos anos 1930, provou que não há instrumento capaz de fazer qualquer tipo de cálculo e lançou o conceito de uma máquina que conseguisse fazer todos aqueles que fossem possíveis, seguindo instruções humanas.
Em 1938, foi recrutado pelo departamento de análise criptográfica do governo. Quando estourou a Segunda Guerra Mundial, ele passou a dedicar-se integralmente ao projeto, conduzido secretamente, perto de Londres.
Foi Turing que conseguiu decifrar o código da máquina de criptografia Enigma, que a Alemanha de Hitler usava para mandar mensagens militares cifradas durante a guerra. Graças ao sistema de decodificação que ele criou, estas mensagens passaram a ser interceptadas e localizados os submarinos alemães, revertendo o avançar da guerra.
Mas seu trabalho era secreto e os seus feitos passaram sem aclamação na época.
Em 1952, foi preso por ser homossexual. A alternativa à prisão era a castração química. Turing aceitou receber injeções de estrógeno para neutralizar sua libido. Mas as aplicações do hormônio sexual feminino deformaram-lhe o corpo e desequilibraram seu organismo.
Publicamente humilhado, o matemático perdeu o acesso de segurança aos laboratórios onde trabalhava porque, sob a mentalidade da Guerra Fria, homossexuais eram alvo fácil de chantagem o que significava uma brecha na segurança.
Dois anos depois, ele morreria ao comer uma maçã envenenada, no que foi declarado suicídio. Sua história é contada na biografia "Alan Turing: o Enigma", do matemático Andrew Hodges (1983) e no filme "Quebrando o Código" (1986).
Acaba de ser enviada uma petição ao premiê Gordon Brown, que já conta com quase 4.000assinaturas, exigindo que o governo britânico “reabilite a sua memória e reconheça que seu trabalho viabilizou em larga medida o mundo em que vivemos e nos salvou da Alemanha nazista".A campanha foi abraçada, dentre outros, pelo escritor Ian McEwan e o biólogo Richard Dawkins, para quem esse gênio excêntrico e delicado deveria ter sido "condecorado".
Deu na FSP

Terror e consumo

"O caderno "Mais!" publicou, em 9/8, o trecho de uma carta de Isaiah Berlin para um amigo, na qual ele falava de suas impressões sobre o compositor russo Dmitri Chostakóvitch quando este foi à Inglaterra receber um prêmio.
Era 1958, plena Guerra Fria, e Berlin comenta os males que o regime comunista havia feito a Chostakóvitch, cujos atos e rosto mantinham permanentes pavor e assombro. Observa a devastação que regimes totalitários causam nas pessoas, aniquilando nelas suas possibilidades de indignação, de resistência, de protesto, a ponto de elas passarem a achar sua situação absolutamente normal.
De fato, a duração prolongada da repressão torna-a uma experiência familiar e natural.
As pessoas não a veem mais como a origem de seu sofrimento. Ao contrário, o mal é proveniente delas próprias, de qualquer discordância ou contestação que façam ao regime.
A pianista Zhu Xiao-Mei, que viveu sob o governo de Mao, relata em seu livro "O Rio e Seu Segredo" situação semelhante.
Também ela incorporou, como se fossem suas e contra si mesma, as crenças e ideais dos seus opressores. Para anular o que considerava males burgueses, o regime impediu o acesso dos estudantes a qualquer informação ou literatura, senão o "Livro Vermelho" de Mao.
O exercício do terror pelos sistemas totalitários, mesmo que respaldado pela fundamentação das ideologias, revela o excesso de ignorância que dominou parte do mundo no século 20. E a inexorável conexão entre violência e ignorância.
Violência e ignorância sempre se associam contra o que é diferente, criativo, novo, livre...
Perseguem, vigiam, destroem o que não aceitam, não conhecem e não compreendem. Só a ignorância é capaz de se imputar a posse da verdade e de empunhar a violência.
Não experimentamos, no Brasil, a potência destrutiva e asfixiante desses regimes totalitários. Até a ditadura militar foi uma pálida sombra diante deles. Se há uma experiência atual que nos permite compreender o medo e o terror sofrido pelas pessoas sob governos totalitários é o medo da violência urbana.
No âmbito da política, as formas de governo que se servem do terror estão em extinção.
Não porque se tenha abandonado a pretensão de controle e obediência absolutos, mas por se ter aprendido que esse controle é possível sem o terror.
O consumo substituiu o terror. Parece que se entendeu que a melhor fórmula para dominar um homem é mantê-lo entretido e obcecado com a satisfação de seus desejos e necessidades. Para tanto, a manipulação da opinião pública, fazendo-a crer que tais desejos e necessidades são originalmente seus, é o principal meio.
Básicos ou supérfluos, desejos e necessidades são insaciáveis. Aprisionam-nos num ciclo sem fim de reposição e canalizam para si a energia disponível. Ficamos sem forças para a indignação, para o protesto, para os cuidados com o mundo, para a realização pessoal."

DULCE CRITELLI , terapeuta existencial.

agosto 19, 2009

Salpicos de margaridas

Vai passar

"Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim – nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente – e não importa – essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás – aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca …"
Caio Fernando Abreu