agosto 10, 2009

Carrascos sutis

"TENHO LIDO Philip Roth, graças a dois amigos, um de mais de 50 anos, comunista, outro de menos de 30, conservador. O primeiro sempre tentou me convencer de que seria essencial lê-lo -não sou fácil de ser convencido porque sou uma criatura de hábitos e por isso tendo a inércia, o que pode ser uma reação espontânea ao fato de eu desde criança achar o mundo um lugar hostil-, o segundo me presenteou com dois livros de Roth que foram os primeiros que li.
Roth escreve como homem. Hoje "escrever como homem" é raro, porque homens estão fora de moda (sim cara leitora, eu sei que você sofre calada com isso à noite, sozinha na cama). Sua letra, repleta de gosto pelo pecado, passeia como mãos por baixo da saia das mulheres, sem querer dar uma de sensível -como vemos no "Homem Comum". Um erro crasso da mulher é confundir esta insensibilidade com falta de vínculo afetivo por parte do homem. Ler Roth para as mulheres é uma chance de vasculhar a sensibilidade dura de um homem que as adora.
Em "O Fantasma Sai de Cena", Roth revela as dores do seu personagem Nathan Zuckerman definhando diante da velhice (a potência no homem é mais do que simples ereção mecânica e, ao mesmo tempo, é uma simples e miserável experiência mecânica).
Após narrar o horror da incontinência urinária em um homem que até ontem devorava mulheres 30 anos mais jovens, Roth salta para uma espécie de poesia rude do mundo na qual homens e mulheres sempre voltam à fúria dos elementos inorgânicos e, aí, descansam.
Em "A Marca Humana", ele fala das alegrias diante da maior invenção da humanidade depois do computador, o Viagra -que aliás, fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo.
O personagem principal será acusado injustamente de racista por alguns alunos negros vagabundos (junto de seus professores oportunistas), que se aproveitam da canalhice do politicamente correto para destruir uma vida dedicada à universidade e ao conhecimento. Mas um segredo terrível revelará o ridículo e o trágico dessa acusação (não vou contar, é claro).
A heroína feminina desse romance é descrita por Roth como aquele tipo de pessoa cujo olhar carrega o tédio que só a monotonia da infelicidade repetida mil vezes pode causar. O livro narra o amor improvável, graças ao Viagra, entre um homem de mais de 70 anos e uma infeliz de menos de 40.
No "Animal Agonizante", Roth afirma que o maior ganho para o homem, na emancipação feminina, foi poder se libertar do eterno jogo da mulher frágil. Mas esta libertação, como toda libertação, pode ser fatal: pode deixar o homem só. A dependência da mulher é uma das coisas que mais dá tesão aos homens. E aí reside o perigo: elas sabem disso.
Ela sempre foi dependente (e não só financeiramente) e, portanto, uma escrava, sem grandes papeis além de filha, esposa, mãe, amante (ou seja, o tal segundo sexo). O problema é que esse quadro não tinha só uma escrava, tinha outro escravo. Nos termos de Roth, "os melhores entre nós, homens", aqueles que se sentiam culpados quando não mais queriam estar com suas mulheres, mas ainda assim permaneciam, porque elas eram de fato dependentes deles. Para os cruéis, isso nunca foi problema.
Com a emancipação feminina, o jogo se desmancha, e "os melhores entre nós" podem respirar e dizer "não quero mais você e não sou responsável por você nem pela sua vida, porque você é hoje independente". A emancipação feminina nos libertou a todos, pelo menos aos dois tipos de escravos: a mulher trancada entre a cozinha e o tanque e o homem asfixiado entre o escritório (porque deve sustentar a falsa fragilidade e incapacidade feminina) e uma cama habitada por uma mulher sem desejo.
"Indignação" (uma espécie de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" a la Roth) traz o terrível tema da paranoia como consciência aguda da fragilidade da vida.
Um pai açougueiro que intui desgraçadamente a autodestruição do filho de 19 anos através de seus micro-atos diários: uma irritação besta aqui, um exagero ali, um palavrão acolá. Nada mais aterrorizador do que o pior paranoico (seu pai) ter razão sobre seu destino trágico. O que a fuga de um filho do controle do pai (algo esperado) seguido por um simples sexo oral praticado em você por uma gostosa colega de faculdade no escuro de um carro parado na estrada (sonho de todo homem) podem fazer para te matar? Enfim, os detalhes e o acaso podem ser carrascos sutis."

LUIZ FELIPE PONDÉ

agosto 09, 2009

Sem praia... e de blog novo

Depois que minhas semanas voltaram a ter só um domingo, este passou a ser o dia em que fico comigo e aproveito para me proporcionar os mimos e gostinhos impossíveis de serem desfrutados na correria dos dias 'úteis '(?). Não caberia aqui descrevê-los e quem lesse ia considerar trivial demais. Então me reservo. Uma coisa é certa, tenho dispensado a praia e os seus congestionamentos de carros e de gente. Muita gente. Todos sedentos, ávidos, excitados e barulhentos. A música, às vezes de gosto discutível, em alguns lugares 'ao vivo', está, em qualquer caso, num volume acima do que seria desejável. Não se ouve o quebrar das ondas, as caixas de som 'brotam' dos coqueiros. Mal se pode caminhar entre as mesas. Sim, porque aqui “ir à praia” tem quase nada a ver com mar, areia, caminhada, banho ou mergulho. Significa ir para um grande bar/restaurante, ao ar livre, chamado 'barraca' (todas tem um nome) . Cada ' tribo' tem a sua e é muito importante ser reconhecido pelo 'garçom', pois se vai à praia para beber, nem que seja água de coco. De preferência, beber muito. Mais tarde, 'atacar' bacias (literalmente) de caranguejos lindos, enormes e deliciosos num 'ritual' meio primitivo. Depois de colocados vivos na panela, de onde tentam escapar à medida que a água vai começando a ferver, são servidos inteiros, mergulhados num molho que parece trazer lembranças do mangue...Para quebrá-los ( parti-los) se usa, à guisa de talher, pedaços de madeira que parecem ter conhecido melhores dias, como cabo de vassoura... Para comer caranguejo, tem que saber chupar. Do contrário não se aproveita o que vem depois. Nada de se recusar com a desculpa de serem cabeludos ou outros pruridos. Bobagem! O melhor é cair de boca mesmo. Depois é preciso aprender (com um nativo, claro!) a separar o intestino do resto, com o que se prepara, ali mesmo, uma farofa dentro da própria casca.Ótima com uma pimentinha! Como não poderia deixar de ser, faz a maior sujeira e meladeira. Mas tem chuveiro de água doce à disposição, que também serve para aliviar o calor. O banho é no meio do povo. No início parece estranho, logo se percebe que ninguém 'tá nem aí' e tem uma fila que não pode esperar que se supere eventual constrangimento. Se não se permitir tamanhos prazeres, pode pedir umas 'casquinhas' e comer de colher. Mas asseguro, não será a mesma coisa...Isto que aqui é uma 'instituição'intocável, não se repete pelo litoral do nordeste. Ia esquecendo de mencionar que, na praia, se vende “de um tudo”. De CD/DVD à roupa, cosméticos, bijoux, passando por sanduiches, frutas, castanhas, óculos, brinquedos e artesanatos, sandálias e bolsas, redes e toalhas, rendas e bordados. O assédio é constante. Para sobreviver, a “técnica” é se fazer de cega e surda, pois se o seu olhar trair algum interesse ou curiosidade o melhor é ir embora. Eles não irão e outros mais passarão a te importunar. Ao fim de um domingo, cheguei a conclusão de que só não ofereceram à venda casas e carros. Não duvido de que a qualquer momento comece a acontecer. Afinal além da vocação mercantilista que demonstram, - há quem arrisque afirmar que o 'embrião' do fenômeno 25 de março em Sampa está aqui, no chamado “beco da poeira”,- são muito criativos. Misturam-se aos vendedores os que pedem esmolas e como ninguém se perde por falta de talento, ainda se pode ser mote para uma cantoria da qual ninguém se livra nem pagando. Para não falar dos que 'pastoram' o carro...Uff!
Alguns irão concordar comigo, não se consegue repetir esta orgia toda semana. Mas outros dirão que não podem passar sem...Eu passo!
Neste domingo, fiz uma 'descoberta' (já disse que estou sempre meio atrasada): O blog da MARCIA TIBURI. Coloquei-o na minha lista de links: GNT PINKPUNK (lá embaixo) mas poder ser acessado clicando no título desta postagem. Concordando ou não com ela, que tem suas idéias conhecidas pela participação no programa Saia Justa , vamos ter que reconhecer: o blog é ótimo!

Sorris da minha dor

"...mas eu te quero ainda,
sentindo-me feliz, sonhando-te mais linda.


Essa canção de versos pungentes, de autoria de Paulo Medeiros, era ouvida frequentemente na minha casa, na adolescência e na juventude, assim como muitas outras da mesma época. Não me lembro se na voz de Silvio Caldas ou Carlos Galhardo, ou ainda na de Orlando Silva ou Nelson Gonçalves. Que era um deles, tenho certeza, pois eram eles que formavam o quarteto de ouro do cancioneiro popular, sob o comando indiscutível de Francisco Alves, também conhecido como Chico Alves e Chico Viola, e eternamente cognominado de O Rei da Voz.
Minha avó cochilava ouvindo essas canções. Não cochilava por desinteresse ou tédio, como podem pensar alguns leitores mais apressados, mas para sonhar. Minha avó Leonor, nascida em Sergipe, gorda e boa, e de coque no alto da cabeça, sonhava muito, sonhava sempre. Não apenas ouvindo essas canções românticas de versos sofridos e resignados, mas também acompanhando o radioteatro da companhia de Manuel Durães e Edith de Moraes pela Rádio Record de São Paulo, campeão de audiência desde 1939, como nos conta o Google. O radioteatro era a novela das 8 até os anos 50. E Manuel Durães e Edith de Moraes, o Francisco Cuoco e a Regina Duarte daqueles tempos sem televisão.
Já se falou muito que Orlando Silva era o Roberto Carlos da época, pois atraía multidões em suas apresentações públicas. Ainda não se falava em show, pelo menos não que eu me recorde. Dizia-se audição, espetáculo e até mesmo recital. Lembro de uma dessas apresentações de Orlando, na Praça do Patriarca, em São Paulo, quando ele cantou da marquise de uma emissora de rádio para milhares de pessoas. Como também não me sai da lembrança a última apresentação de Francisco Alves no Largo da Concórdia, também na capital paulista, para um público incalculável, antes de viajar e morrer na Via Dutra, a caminho do Rio. Pois é, as praças eram do povo, como queria o poeta Castro Alves, mas também dos cantores populares. Era nesses espaços públicos que tudo acontecia: a música, os comícios e os protestos.

A praça, a praça é do povo,
como o céu é do condor!


Não tenho como garantir se antigamente se sofria mais por amor do que nos dias de hoje. Mas sofria-se à beça. E era um sofrimento silencioso. Portanto, mais dolorido. Afinal, como ouvimos sempre, as grandes dores são mudas. Abrir-se com os amigos e com o analista, que pagamos para nos ouvir, acaba por abrandar a nossa dor. À época dessas canções e do radioteatro, sofria-se calado, no escuro do quarto. Ou no banho. Conheci uma jovem que abria a torneira e ficava ali, misturando suas lágrimas à água do chuveiro. Quase sempre saía do banheiro curada do impossível amor, mas, não raro, resfriada e febril. Sim, adoecia-se com o sofrimento que nos causava a inútil paixão. Quando se conhecia uma jovem magra e com olheiras, percebia-se logo que estava doente, e que a sua doença tinha um único nome: amor não correspondido. Amor que custava a passar, quando passava. E quantas vezes passava, mas não curava? Meses, anos depois, já noiva de outro rapaz ou mesmo casada, podia-se ouvir, vindo do mais fundo do seu peito, um suspiro involuntário. E podia-se ver, sob a roupa de linho, um arfar dos seus seios. E podia-se presenciar uma saída rápida da sala, para que uma lágrima não lhe aflorasse aos olhos, à vista de todos. Então alguém já não disse que só existe um tipo de amor eterno, que é o amor não correspondido?

Sorris da minha dor, mas eu te quero ainda,
sentindo-me feliz, sonhando-te mais linda.
Escravo eterno teu, farei o que quiseres,
tens para mim a alma eterna das mulheres..."


Manoel Carlos na Revista VEJA Rio, hoje.

Shirley Valentine

Ontem fui ao teatro ver esta peça que faz parte do programa do teatro ambulante do Centro Cultural Banco do Brasil. O tema da peça é uma 'novidade' que se repete eternamente. Ainda que as mulheres tenham conquistado, dentre outros, o direito de sair de casa para trabalhar - o texto original é do começo do século passado - o mundo está cheio de 'shirleyvalentines'. Shirley Valentine é uma dona de casa comum que vive numa solidão monumental . Depois de criar os filhos e estes passarem a viver fora de casa, restou-lhe um marido que faz pouco mais do que percebê-la. Shirley conversa com as paredes para não cair em desespero. Numa versão moderna ela teria um blog, um terapeuta,talvez um amante, faria muitas plásticas e muitas compras... Na peça, ela dribla todas as dificuldades e faz uma viagem à Grécia, a convite de uma amiga. Surge então a oportunidade para uma redescoberta de si própria e de seus sonhos perdidos na rotina e no casamento. Dito assim parece mesmo muito banal, mas é uma peça bem gostosinha.
Numa entrevista recente, dizendo-se uma pessoa muito solitária, a atriz Betty Faria, declarou que preferia não estar fazendo um monólogo pois queria se ver ao lado de colegas. Seja como for, ela está ótima e muito orgulhosa por estar voltando aos palcos após 10 anos.

agosto 08, 2009

Cherchez la femme

No blog do Antonio Ribeiro: A bela dominou a fera.
" Rosto angélico, ela tem silhueta quase perfeita. A destreza mental, a habilidade de atrair admiração sobre si está bem acima da média do mundo que a fez célebre — o ambiente onde a beleza reina sobre todas virtudes e abranda os piores defeitos. Contudo, Carla Bruni, primeira-dama da França, vem sendo louvada e, ça va de soi, criticada por mais um papel inusitado nos seus 41 anos de existência — eles parecem menos. A bela dominou a fera. Carla conseguiu imprimir ascendência na forte personalidade do marido Nicolas Sarkozy.
Pelo início — há quem diga: “pela fraqueza da carne”. A primeira-dama colocou o corpo do presidente francês, de 54 anos, sob sua tutela. Seguindo instruções de Bruni, Sarkozy abandonou o velho hábito de devorar chocolates, doces e sorvetes. Ele agora é do time que come com moderação. Frutas e queijos magros entraram no cardápio presidencial.
Três vezes por semana, o presidente corre e faz exercícios com Julie Imperiali, de 26anos, a personal trainer de Carla, famosa por seu médoto que fortalece os músculos da região pélvica — espécie de Pilates, brevetado após toques pessoais da ex-bailarina e ginasta cuja máxima sustenta o fazer bem ao físico, conforta a alma.
Sarkozy é aluno exemplar na avaliação de Imperiali. Para outros, ele exagera na dose. Isto para agradar ou acompanhar - ou ambos — o ritmo de Carla, 14 anos mais jovem. A dedicação é tamanha que, depois do mal-estar durante 45 minutos de jogging sob calor de 30 graus, nos arredores da residência presidencial de La Lanterna, em Versalhes, seguido de internação hospitalar, o dedo acusador foi apontado para primeira-dama.
Verdade ou não, pondera-se, Sarkozy não tem queda por meias medidas. Obsessivo é um adjetivo justo. Cai-lhe muito bem, ele não contesta. Um dado emblemático: Sarkozy voou 300.000 quilômetros em um ano, média de 820 quilômetros por dia para realizar visitas oficiais fora da França.
Já não se vê mais o presidente francês com ostensivos relógios Rolex no pulso. Procure o mordomo? Não, busque a mulher. Aqui é inegável. Bruni acabou com o estilo Bling Bling do marido. O mau gosto típico de endinheirados sem refinamento, “o cheguei, olhem para mim”, motivo de escárnio. Doravante ou pós-Carla, Sarkozy lê as horas pelos ponteiros de um elegante Patek Philippe, presente do rapidíssimo casamento.
Os ternos presidenciais agora tem a sobriedade dos tons escuros. As camisas inglesas, brancas ou azuis claras, são marca Hilditch & Key, pano de fundo para as gravatas negras ou, no máximo, cinza chumbo. Se a França, referência mundial de elegância, deve algo a italiana Bruni, é de ter feito seu presidente parecer presidente.
A influência não ficou só no visual. Carla operou em profundidade. Algo que pode, se sensibilidade houver, despertar admiração de Marisa Letícia à Michele Obama. Inspirar seria sugerir o impossível. Bruni despertou em Sarkozy o interesse pela literatura francesa — de Guy Maupassant a Françoise Sagan. Isto não é pouco em um país que se vê como o mais autêntico herdeiro da cultura ocidental.
No mês passado, em lance raro, Sarkozy surpreendeu os franceses declarando que estava lendo La Princesse de Clèves, livro anônimo da escritora Marie-Madalene de La Fayette, publicado em 1678. O romance histórico, considerado o pontapé inicial da prosa moderna francesa, relata um encrencado triangulo amoroso, parte incontornável do currículo escolar dos colegiais franceses.
A primeira-dama introduziu a obra de Bod Dylan no Palácio do Elysée, o autor americano que fez a cabeça dos Beatles com drogas e versos desconcertantes, a sua voz de taquara rachada foi fiel trilha sonora dos conturbados anos 60.
“Você não pode vencer só com o apoio dos intelectuais, mas não ganhará sem eles”, disse Sarkozy em uma surpreendente entrevista a revista Nouvel Observateur que deita lhe o malho muito antes do primeiro dia do seu mandato. Isto é Carla Bruni, esculpida na toscana Carrara, sem tirar nem por. O presidente francês prepara sua reeleição. O seu melhor cabo eleitoral dorme debaixo dos lençóis de sua cama."

Radio Cinema

Esta é para quem gosta de música, de cinema ou dos dois. Descobri só hoje (estou sempre meio atrasada!) esta radiocinema.fm, que toca somente trilhas sonoras.
Clic no título para acessar, adicione aos 'favoritos', ligue e fique.

agosto 06, 2009

Rir para não chorar

Outras idéias

"Duvido que muitos brasileiros se identifiquem com o colunista americano Herb Caen, que confessou: "Costumo viver no passado porque minha vida está quase toda lá". Neste país do futuro, consumidores valorizam o que é novo ou está na moda, e "progresso" é o lembrete inscrito na bandeira. Aqui, dizem: "Quem vive do passado é museu". Os brasileiros vão a museus ver arte contemporânea, e não artefatos culturais. Ao contrário dos europeus, têm pouca ligação com a própria história. Aqui, cidades coloniais têm sofrido décadas de descaso. Em comparação, os italianos glorificam seu passado preservando grande parte da Roma antiga e usando vilarejos toscanos como repositórios de arte e arquitetura medieval e renascentista. Os alemães confrontam a vergonha de seu terrível passado do século 20 construindo museus do Holocausto e memoriais em campos de concentração e fazendo filmes sobre atrocidades nazistas Os brasileiros, no entanto, vivem no presente hi-tech.
O Brasil se gaba de ter o quinto maior número de usuários da internet no mundo e 50% de todos no Orkut. O Rio é a capital mundial da cirurgia plástica, que remove traços do passado do rosto. Brasília, que JK disse ser projetada como "uma ruptura total com o passado", ainda parece futurista 49 anos depois. E carrões superequipados são tão comuns que é difícil acreditar que João Goulart fugiu do país de Fusca.
Por não olharem para trás, os brasileiros não entendem a fascinação americana pelo ritual da reunião de turma. A cada década, centenas de colegas da mesma escola voltam à cidade natal para compartilhar lembranças da adolescência, uma parte crucial de seu passado.
Não perdi uma em 40 anos. O aviso do filósofo americano George Santayana -"aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo"- é ignorado aqui. Que outro povo tem memória tão curta que elege para o Senado um presidente que se retirou para evitar impeachment e mantém coronéis no poder depois de abusarem do mesmo? Corrupção e impunidade são tradições tão antigas e enraizadas que expõem uma das maiores contradições do Brasil, que é também o país do passado.
Esta também é uma cultura centrada nos jovens. Ao contrário das culturas chinesa e indígena, não venera os mais velhos pela sabedoria. Aqui, os idosos se sentem inúteis. Então, raramente aparecem em público, como em Pequim, onde praticam artes marciais nos parques, ou em Amsterdã, onde passeiam de bicicleta. Aqui, assistem à parada passar de suas janelas.
O idoso vive mais no passado do que os outros porque muito mais de sua vida está lá. Ainda assim, o passado se acumula atrás da gente a cada respiração. Mas só tem valor se você aprende com ele.
Ou, como disse Kierkegaard: "A vida só pode ser vivida olhando-se para a frente, mas só pode ser compreendida olhando-se para trás". "
MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 26 anos no Brasil.

Entre pai e filha

"ESTREOU NA semana passada "À Deriva", de Heitor Dhalia.
O filme me encantou pela coesão entre o drama de Filipa, que tenta sair da infância e se tornar mulher, e a alternância entre planos fechadíssimos (como se a câmara procurasse nos dar acesso ao interior dos protagonistas) e planos abertíssimos, mais raros (as praias de onde saem os barcos que podem nos levar para o mar e a vida). E há a performance contida e justa dos atores: Vincent Cassel (o pai), Débora Bloch (a mãe), Camilla Belle (a amante do pai) e a inesquecível Laura Neiva (Filipa, a filha).
Mas o que mais importa é que Dhalia nos oferece um filme que conta de maneira perfeita (peso minhas palavras) o processo delicado e comovente pelo qual uma menina se torna mulher. Não digo "um" processo mais ou menos desastrado e quem sabe patogênico, mas um caminho "certo": o que é preciso para que uma menina, como Filipa, aprenda a amar e a ser amada fora de casa.
Se Freud assistisse a "À Deriva", ele dedicaria ao filme um texto magistral, não sem reafirmar, mais uma vez, que encontramos mais saber na ficção da arte do que nos esforços, sempre grosseiros, de expor nosso entendimento. Sem o gênio de Freud e com a mesma convicção, aqui vou eu.
Para que uma menina se torne mulher -por exemplo, ao longo de um verão- pode ser útil que ela descubra que o pai pode, sim, desejar outra mulher que não seja a mãe e não seja ela, a menina. É também preciso que, não por isso, o amor da menina pelo pai se transforme de vez em ódio ou no ressentimento do ciúme. Ajuda, para evitar que a menina se encalhe numa birra dolorosa, a descoberta de que a mãe também é capaz de desejar outro homem que não o pai.
Nessa altura, a menina ainda poderia decidir que o desejo é uma "porcalhada" dos adultos, e talvez fosse melhor ficar no limbo da infância -quem sabe renunciando definitivamente a todo prazer sexual ou, pior, a toda vida amorosa. Ou, então, ela poderia se tornar para sempre uma espécie de paladina do pai, à espera do dia em que, ele envelhecendo, ela poderá ser sua enfermeira e companheira até a morte.
Há uma condição para que esses caminhos de renúncia não sejam uma escolha forçada: é necessário que o pai se dê conta um dia de que sua filha não é mais uma menina, e que a filha seja e se sinta reconhecida como mulher pelo olhar paterno.
Na apresentação de "À Deriva" no Festival de Paulínia, a plateia (ou parte dela) achou que o tema do filme fosse o desejo incestuoso. Entendo, mas nada a ver. O caminho pelo qual uma menina se torna adulta é quase uma alquimia: existe um fio tênue, mas decisivo, que separa um desejo paterno incestuoso de um olhar do pai que confira à menina a certeza de que ela é desejável como mulher.
O desastre espreita a menina de ambos os lados, tanto se o incesto se realizar quanto se faltar um olhar que confirme que ela está se tornando mulher.
Não são raros os pais que caem das nuvens (justificadamente) quando, já adultas, as filhas os acusam de ter tido desejos ou mesmo gestos impróprios com elas quando eram crianças e adolescentes. Na grande maioria dos casos, trata-se de fantasias necessárias, maneiras de a mulher rememorar que, quando era menina, o pai enxergou nela a mulher que ela viria a ser.
Essa lembrança é tão necessária na vida de uma mulher que, para mantê-la viva, ela pode colori-la e deformá-la - atribuindo-lhe, aliás, a aparência de uma realização de seus próprios antigos desejos incestuosos pelo pai.
Mais grave é o caso em que essa lembrança não se constitui ou se apaga. Nessa eventualidade, a menina pode viver toda sua vida de mulher convencida de que nunca foi e nunca será desejada.
Um detalhe, para evitar mal-entendidos: na vida de uma menina, qualquer homem que esteja na hora e no lugar certos (avô, padrasto, professor e por aí vai) pode exercer a delicada função do pai.
Qual é o desfecho dessa história que se repete a cada dia? O fim do filme comoverá qualquer pai de menina, e seria sacanagem com o espectador contar as últimas cenas. Digamos assim: quando a história acaba bem, o que sobra é a sensação de um amparo paterno, de um lugar de ternura e de amor para o qual é possível voltar para se lavar das eventuais asperezas e sujeiras do desejo, mas um lugar que não infantiliza porque o pai continua enxergando e admirando a mulher que a menina se tornou."

CONTARDO CALLIGARIS

Desembalados

Nós de uma certa idade lembramos do tempo em que os alimentos eram vendidos a granel, sem o excesso de embalagens que hoje se avolumam na nossa vida moderna. Achei esta notícia inspiradora: uma loja especializada em orgânicos de Londres, chamada Unpackaged, foi além do "reduzir, reutilizar e reciclar" e resolveu banir de vez as embalagens de boa parte dos produtos que vende.
Os fregueses são convidados a levar seus próprios recipientes - que vão desde as sacolas retornáveis de pano até vidros, tuperwares, ou qualquer outra coisa que possa acomodar as compras. Mas quem não tiver um vasilhame à mão pode pegar emprestado na própria loja - desde que traga de volta.
Além da preocupação com as embalagens, a Unpackaged mantém outros princípios ligados a sustentabilidade, como a compra da produção de pequenos fornecedores das redondezas, como cooperativas e grupos sociais.
Uma volta a um tempo que já conhecemos, menos ditado pelo descartável e pelo desperdício de materiais. Embalagens podem ser úteis, mas na maior parte das vezes vão parar no lugar errado. Que tal começarmos a pensar nisso?

Vida em Movimento

agosto 05, 2009

Utopia da eterna juventude

O culto à beleza e à juventude é sem dúvida uma marca do nosso tempo. A corrida em busca da perfeição estética foi bastante acelerada pela tecnologia. E a decadência do corpo é adiada por métodos cada vez mais sofisticados. Parece que desaprendemos como envelhecer. O Café Filosófico CPFL convidou o sociólogo e jornalista Marcelo Coelho para falar sobre o significado de nossa procura incansável pela fonte da eterna juventude. Clicando no título desta postagem vc acessa o vídeo (duração:103 minutos). Muito bom!

agosto 04, 2009

Premio São Paulo de Literatura

Ronaldo Correia de Brito venceu com o livro "Galiléia" a categoria Melhor Livro do Ano, no Premio São Paulo de Literatura. Algumas crônicas dele podem ser lidas aqui no blog. O que disse Paisagens da Crítica em janeiro, a propósito do livro premiado:

"Galiléia  talvez seja o melhor romance brasileiro de 2008. Certamente é um dos dois ou três que marcaram o ano. 
Ronaldo Correia de Brito, médico e cearense que mora no Recife, já mostrara sua prosa reflexiva e cortante nos contos de As noites e os dias, de 1997, e em Faca, de 2003.  
Com Galiléia, porém, vai bem mais longe e conta a história de uma família que gira em torno de seu patriarca, Raimundo Caetano. O lugar de encontro é a fazenda Galiléia, no sertão do Ceará, onde Raimundo sempre imperou e, agora, moribundo, vai morrer. Para lá vão netos que migraram para a cidade, lá estão os que permaneceram no campo. Cada membro da família construiu, ao longo do tempo, seu repertório de aflições e a visita à Galiléia provoca o cruzamento terrível das angústias.
Por isso, o livro é uma odisseia em busca do passado e apresenta, de modo proustiano, nossas dúvidas frente ao que nos compôs – lugares, pessoas, gestos e desesperos.  A dificuldade de entender os momentos que definiram o que somos, para o bem e para o mal. O tempo – disse Borges, substância formadora dos homens.
A questão – e Adonias, o narrador de Galiléia sabe muito bem – é que o passado não existe em si, nem dispõe de qualquer concretude ou unicidade: “Se fosse possível ter a resposta de todas as perguntas…”, pondera e lamenta Adonias. Mas ele não tem porque o tempo não é sequência, como gostaríamos de acreditar. O passado se faz e refaz a cada instante e suas dimensões, inúmeras, existem simultaneamente. Daí a dor de revisitar a fazenda; daí a dificuldade, vivida também pelos primos Ismael e Davi, de lidar com a imagem que seus itinerários pessoais produziram.
Não se trata mais de averiguar o que é falso e distingui-lo do verdadeiro. Porque a impossível verdade do passado impede qualquer julgamento posterior e assegura a persistência da dor. Irreversivelmente, o tempo resta perdido e nos aflige para sempre. Irreversivelmente.
É o efeito das dobras da memória, de sua impertinência e de sua violência. Mas Correia de Brito não confina seus personagens apenas aos labirintos do passado. Eles se perdem também na geografia do sertão. E Galiléia sonda, assim, o lugar do regionalismo na nova prosa brasileira.
Enquanto seus personagens viajam e cruzam estradas perdidas, o narrador constata saber de cor os nomes das plantas da caatinga, sem ser capaz, porém, de reconhecê-las. O almanaque mental – espécie de catálogo imaginário nos moldes de Funes, o memorioso: denso, complexo e inútil – ilustra a infertilidade do que é deslocado, do que se pretende autônomo e autossuficiente.
Porque o sertão de Galiléia é como o de Euclides da Cunha, de Graciliano Ramos ou de Guimarães Rosa. É como a Amazônia de Milton Hatoum – para ficar num paralelo atual. É a localidade “conversadora do mundo”. A parte que, sem o todo, não é parte. A parte que só existe nos vínculos complexos com o todo, com o que está além de seus limites estritos e restritos. É a aldeia – lembremos Octavio Paz – que permite pleitear a universalidade.
A ubiquidade do sertão, porém, não traz liberdade para seus filhos; o sertão os acompanha quando vão para o Recife, para Nova York ou para a Noruega. Ele se entranha na pele, assim como a infância, com todos os traumas possíveis e a dificuldade de decifrar o que nos formou. Tal qual o tempo, que devia libertar, mas não o faz, a geografia é prisão, é limitação. Não pelo que foi, mas pelo que somos e não conseguimos deixar de ser.
Assim, tempo e espaço de origem rodeiam os egressos da Galiléia e seguem com eles para onde forem. E a narrativa de Correia de Brito nos afoga a cada página, nos transtorna, como um bom romance tem que fazer. Como uma corda na garganta, o mar para quem se afoga"

por Júlio Pimentel Pinto 

O gato que gostava de cenouras

"O TELEFONE tocou. Queriam uma entrevista sobre o livrinho "O gato que gostava de cenouras". Não entendi o nome da revista porque estou ficando meio surdo e, por vergonha, não pedi que repetissem. A entrevista começou...
Gato gosta de peixe, de rato e de passarinho. Gato não gosta de cenoura. Numa terra de gatos, um gato que gostasse de cenoura seria uma aberração, uma vergonha para os pais, motivo de chacota e zombaria na escola...
O nome dele era Gulliver; carinhosamente, Gullinho. Seus pais não sabiam do seu gosto pelas cenouras. Comer cenouras era um ato secreto, escondido. Seus pais só se preocupavam com o fato de que ele não comia os deliciosos ratinhos recém-nascidos, os pardais saborosos, os peixes cheirosos que lhe traziam para abrir o apetite.
Gullinho era diferente dos demais gatos. E isso fazia seus pais sofrerem muito porque o que os pais mais desejam é que seus filhos sejam iguais aos outros.
O fato era que os pais de Gullinho ignoravam que ele, escondido, comia a comida proibida, cenoura... A mãe acabou por desconfiar das incursões secretas do Gullinho e disse ao pai que seria melhor segui-lo para ver onde ele estava se metendo. Foi o que o pai "sogateiramente" fez.
Gullinho caminhava com cuidado, olhando para todos os lados para ver se estava sendo seguido. Andou até chegar ao sítio do senhor Joaquim. Havia canteiros com todos os tipos de hortaliça. Gullinho foi até o canteiro de cenouras e -oh! Coisa horrenda para um pai gato- começou a comer cenouras.
O pai do Gullinho quase morreu de susto. Seu filho que ele sonhara tigre não passava de um coelho. E chorou amargamente...
Resolveu procurar auxílio. Procurou um padre que ameaçou Gullinho com o Inferno. "Deus é gato. Deus ordenou que nós comêssemos peixes, ratos e passarinhos.Comer cenoura é pecado mortal!" Mas não adiantou...Gullinho continuou a vomitar peixes, ratos e passarinhos...
Aí eles o levaram ao psicanalista. A análise durou vários anos. Mas o que o doutor Gatan lhe dizia com linguagem complicada não alterava o seu gosto: ele continuava a gostar de cenouras...
Foi então que um professor da escola chamou o Gullinho para uma conversa e lhe disse: "O nosso destino está escrito nas células do nosso corpo num "chip" bem pequeno chamado DNA. Ele já está no feto, determinando a cor do seu pelo, a cor dos seus olhos, se você vai ser menino ou menina, daltônico ou não, canhoto ou destro. Você nada pode fazer para mudar as ordens que estão no seu "chip". E acontece o mesmo com o nosso gosto por ratos ou por cenouras... Não é pecado, como o padre disse, porque foi o DNA que o fez assim... Não é resultado de educação porque foi o DNA que o fez assim... E nem pode ser curado, como se fosse uma doença, porque é o DNA que o fez assim... Igual ao daltonismo".
Gullinho olhou em silêncio para o professor e, pela primeira vez, entendeu tudo. E ele sentiu que um enorme peso fora tirado de cima dele. Entendeu então que ele podia gostar de cenoura porque fora o DNA que o fizera assim -e ninguém tinha nada com isso.
* * * * *
Eu ainda estava na cama quando minha filha me acordou.
"Pai, você apareceu na "G Magazine", a reportagem do gato..."
"Mas o que é "G Magazine'?", perguntei.
Aí eu entendi por que o assunto da entrevista tinha sido "O gato que gostava de cenouras"..."

RUBEM ALVES