novembro 26, 2009
Atenção universal
O que mais queremos dos outros é atenção.
Por ela, bebês choram e crianças aprontam. Os adultos subestimam sua necessidade de atenção. Quando pedi a brasileiros que descrevessem, em uma palavra, o que mais querem dos outros, quase todas as respostas começavam com "c": carinho, cuidado, compaixão, confiança, cumplicidade, compreensão e consideração. Respeito também foi popular. Mas todos esses desejos têm um denominador comum: a atenção.
Nós a buscamos porque só pela visão dos outros podemos conhecer a nós mesmos. Como diz "Diferentemente", de Caetano Veloso: "É você quem me olhando detona a explosão de seu saber quem eu sou".Esses espelhos humanos nos tornam visíveis a nós mesmos, revelam nossas virtudes e vícios, permitem que aprimoremos quem somos. O adesivo "Deus, me ajude a ser a pessoa que meu cachorro pensa que eu sou" reflete esse desejo e a importância do olhar alheio.
Muita gente procura plateia porque ser o centro das atenções melhora nossa autoimagem, o que é gratificante. Palestrantes aqui dizem ao público "obrigado pela atenção" para expressar essa gratidão.
Ter a total atenção de alguém também é lisonjeiro. Quando não estava murmurando ao microfone, Sinatra seduzia as mulheres com o ouvido atento e o olhar penetrante, sorvendo cada palavra delas. Ele comparou uma mulher a uma plateia, dizendo: "Se você se mostra indiferente, é o fim da linha".
No corre-corre diário, também queremos o tempo das pessoas. Mas não tanto quanto sua atenção. O tempo é parte do pacote, mas não garante a atenção. Pergunte a uma mulher que sai com um homem que só fala da ex e ela lhe dirá que ele precisa aprender com Sinatra.
Mesmo na cultura do "tempo é dinheiro" dos EUA, a atenção é muito valorizada. Por isso, os americanos diferenciam o tempo normal do de qualidade, períodos curtos em que dão àqueles que amam total atenção.
Eu e minha mulher tiramos férias no interior do Brasil, onde as pessoas nos dão mais atenção e têm mais tempo para nos receber do que os urbanos.
Por que isso acontece? Não sobrevivem galgando escadas corporativas, mas criando comunidades interdependentes.
Prisioneiros se unem a facções não só para sobreviver mas para reduzir o isolamento social. Estudos mostram que a pessoa na cela solitária prefere o pior companheiro à solidão, que qualquer atenção é melhor do que nenhuma.
O que mais molda nossa identidade é a interação social.
Por isso, precisamos de atenção desde o nascimento. Quando crescemos, uma forma de atenção, o reconhecimento, torna-se crucial. Quanto mais cientes ficamos de nossa finitude, mais precisamos de testemunhas que digam: "Ele é assim e isso é o que tem a oferecer". Vão manter nosso nome vivo até a última delas partir. E, apesar de não estarmos mais aqui para saborear essa atenção, é um conforto saber que a teremos bem depois do último suspiro.
MICHAEL KEPP
Por ela, bebês choram e crianças aprontam. Os adultos subestimam sua necessidade de atenção. Quando pedi a brasileiros que descrevessem, em uma palavra, o que mais querem dos outros, quase todas as respostas começavam com "c": carinho, cuidado, compaixão, confiança, cumplicidade, compreensão e consideração. Respeito também foi popular. Mas todos esses desejos têm um denominador comum: a atenção.
Nós a buscamos porque só pela visão dos outros podemos conhecer a nós mesmos. Como diz "Diferentemente", de Caetano Veloso: "É você quem me olhando detona a explosão de seu saber quem eu sou".Esses espelhos humanos nos tornam visíveis a nós mesmos, revelam nossas virtudes e vícios, permitem que aprimoremos quem somos. O adesivo "Deus, me ajude a ser a pessoa que meu cachorro pensa que eu sou" reflete esse desejo e a importância do olhar alheio.
Muita gente procura plateia porque ser o centro das atenções melhora nossa autoimagem, o que é gratificante. Palestrantes aqui dizem ao público "obrigado pela atenção" para expressar essa gratidão.
Ter a total atenção de alguém também é lisonjeiro. Quando não estava murmurando ao microfone, Sinatra seduzia as mulheres com o ouvido atento e o olhar penetrante, sorvendo cada palavra delas. Ele comparou uma mulher a uma plateia, dizendo: "Se você se mostra indiferente, é o fim da linha".
No corre-corre diário, também queremos o tempo das pessoas. Mas não tanto quanto sua atenção. O tempo é parte do pacote, mas não garante a atenção. Pergunte a uma mulher que sai com um homem que só fala da ex e ela lhe dirá que ele precisa aprender com Sinatra.
Mesmo na cultura do "tempo é dinheiro" dos EUA, a atenção é muito valorizada. Por isso, os americanos diferenciam o tempo normal do de qualidade, períodos curtos em que dão àqueles que amam total atenção.
Eu e minha mulher tiramos férias no interior do Brasil, onde as pessoas nos dão mais atenção e têm mais tempo para nos receber do que os urbanos.
Por que isso acontece? Não sobrevivem galgando escadas corporativas, mas criando comunidades interdependentes.
Prisioneiros se unem a facções não só para sobreviver mas para reduzir o isolamento social. Estudos mostram que a pessoa na cela solitária prefere o pior companheiro à solidão, que qualquer atenção é melhor do que nenhuma.
O que mais molda nossa identidade é a interação social.
Por isso, precisamos de atenção desde o nascimento. Quando crescemos, uma forma de atenção, o reconhecimento, torna-se crucial. Quanto mais cientes ficamos de nossa finitude, mais precisamos de testemunhas que digam: "Ele é assim e isso é o que tem a oferecer". Vão manter nosso nome vivo até a última delas partir. E, apesar de não estarmos mais aqui para saborear essa atenção, é um conforto saber que a teremos bem depois do último suspiro.
MICHAEL KEPP
novembro 25, 2009
GAUDI
Uma 'pérola' encontrada ao acaso...Voltarei com a tradução. No momento estou sem tempo.
Antoni Gaudi (1852 - 1926) Architecte et designer, Antoni Gaudi est sur le plan international la plus prestigieuse des figures de l'architecture espagnole.
Né à Reus, en Catalogne, il obtient son diplôme en 1878 à Barcelone où il centre son activité.
Grand designer, il a créé, en étroite collaboration avec les meilleurs artisans de l'époque, tous les éléments qui forment l'espace architectonique - fer forgé, mobilier, vitraux, sculptures, mosaïques, céramiques etc.- dans une conception organique de la décoration tout en intégrant ces éléments dans la structure de la construction. Le paysage marin est l'un de ses thèmes d'inspiration préféré.
Admiré et controversé de son vivant pour l'audace et la singularité de ses innovations, il jouit aujourd'hui d'une notoriété indiscutable partout dans le monde, à la fois dans les milieux spécialisés et dans le grand public. (Musique : Miles Davis - Concerto d'Aranjuez)
Somos violentadas todos os dias
Nesta quarta, 25, "comemora-se" (rsrs) o "Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher", um problema mundial, que atinge mulheres de todas as faixas etárias e camadas sociais e ainda é fruto de uma cultura machista e patriarcal. Sem querer elencar estatísticas de agressões às mulheres, que sabemos não parar de crescer, durante esses dias, fiz uma reflexão e percebi que infelizmente, mesmo com tantas campanhas de conscientização, o corpo da mulher continua sendo explorado de todas as formas, as mulheres continuam entrando no jogo masculino, se matando nas academias, fazendo plásticas, disputando o amor do homem pela beleza física e claro, se frustrando. Vejo na televisão meninas com os corpos marombados, seminuas, com o único objetivo de satisfazer um desejo voyeur masculino... Fico pasma com o preconceito que ainda atinge as mulheres mais maduras, descartadas pela mídia e pelo mercado de trabalho, tratadas como "encostadas" por homens com problemas de autoafirmação, mal resolvidos, que procuram nas mais jovens um consolo para enfrentar a velhice e o desempenho sexual.
E lembro-me do exemplo de tantas mulheres, Marta Suplicy, Simone de Beauvoir, Rose Marie Muraro, Lígia Fagundes Telles, Meryl Streep, Clarice Lispector, Olgária Matos, Maria da Penha, e tantas outras, anônimas, guerreiras de todas as classes sociais, que atingiram a fase mais interessante na maturidade... e continuaram (ou continuam belas).
Ao meu ver a violência contra a mulher não é só física, ela é psicológica também, e envolve todas essas questões. Somos violentadas o tempo todo, como se uma voz interna nos atormentasse sempre :´"você tem que ser bela, pintar o cabelo, fazer as unhas, tem que malhar, se vestir bem, seduzir, seduzir, seduzir"... não importa o teu conteúdo, mas o teu invólúcro... até entendo, mencionando o filósofo Jean Baudrilard, do poder feminino da sedução, mas vamos com calma, seduzir por seduzir, sem um algo a mais, algo que nos faça pensar, uma sedução apenas pelo corpo, por uma perna, uma bunda, um peito, um corpo nu... será que não existe sedução em ver uma Lígia Fagundes Telles escrevendo, ou no silêncio de uma Clarice, ou numa Olgária falando de filosofia? Ou simplesmente, numa mulher, sendo ela mesma, na sua rotina, no seu trabalho, na sua espontaneidade?
Afinal, o que significa mesmo esse seduzir, sem brilho, sem vida, sem graça, sem feminilidade, sem naturalidade? Não sei o que o futuro aponta, mas me entristeço, e posso estar sendo conservadora, em ver as novas gerações tão "seduzidas" por esse modelo... esse sim, perverso, que não constrói, mas destruirá todas essas meninas quando já não forem belas e marombadas, quando envelhecerem, quando não servirem mais para alimentar a máquina do desejo masculino.
Talvez eu não esteja escrevendo sobre nada de novo, mas fica aí o desabafo... acho que todas as mulheres, em algum momento da vida, sentiram-se excluídas por algum motivo relativo à beleza ou à maturidade... gostaria de poder transmitir com esse post, mais confiança às tantas mulheres, infelizes com a própria vida e com a aparência, lembrando-as que sempre haverá espaço para o pensamento e para as que buscam um caminho diferente do que nos oferecem.
Isabella Holanda
www.donasdesi.blogspot.com
E lembro-me do exemplo de tantas mulheres, Marta Suplicy, Simone de Beauvoir, Rose Marie Muraro, Lígia Fagundes Telles, Meryl Streep, Clarice Lispector, Olgária Matos, Maria da Penha, e tantas outras, anônimas, guerreiras de todas as classes sociais, que atingiram a fase mais interessante na maturidade... e continuaram (ou continuam belas).
Ao meu ver a violência contra a mulher não é só física, ela é psicológica também, e envolve todas essas questões. Somos violentadas o tempo todo, como se uma voz interna nos atormentasse sempre :´"você tem que ser bela, pintar o cabelo, fazer as unhas, tem que malhar, se vestir bem, seduzir, seduzir, seduzir"... não importa o teu conteúdo, mas o teu invólúcro... até entendo, mencionando o filósofo Jean Baudrilard, do poder feminino da sedução, mas vamos com calma, seduzir por seduzir, sem um algo a mais, algo que nos faça pensar, uma sedução apenas pelo corpo, por uma perna, uma bunda, um peito, um corpo nu... será que não existe sedução em ver uma Lígia Fagundes Telles escrevendo, ou no silêncio de uma Clarice, ou numa Olgária falando de filosofia? Ou simplesmente, numa mulher, sendo ela mesma, na sua rotina, no seu trabalho, na sua espontaneidade?
Afinal, o que significa mesmo esse seduzir, sem brilho, sem vida, sem graça, sem feminilidade, sem naturalidade? Não sei o que o futuro aponta, mas me entristeço, e posso estar sendo conservadora, em ver as novas gerações tão "seduzidas" por esse modelo... esse sim, perverso, que não constrói, mas destruirá todas essas meninas quando já não forem belas e marombadas, quando envelhecerem, quando não servirem mais para alimentar a máquina do desejo masculino.
Talvez eu não esteja escrevendo sobre nada de novo, mas fica aí o desabafo... acho que todas as mulheres, em algum momento da vida, sentiram-se excluídas por algum motivo relativo à beleza ou à maturidade... gostaria de poder transmitir com esse post, mais confiança às tantas mulheres, infelizes com a própria vida e com a aparência, lembrando-as que sempre haverá espaço para o pensamento e para as que buscam um caminho diferente do que nos oferecem.
Isabella Holanda
www.donasdesi.blogspot.com
novembro 24, 2009
Macacos somos todos
IMAGINEMOS: existe um caminho; existe um relógio perdido no meio do caminho; é lógico pensar que o relógio não surgiu por acaso. Foi o produto de mãos informadas, que juntaram partes microscópicas para que o relógio, enfim, funcionasse.
Essa belíssima metáfora pertence a William Paley (1743-1805). E ela resume, com a simplicidade só acessível aos grandes, o credo da ciência natural na Inglaterra do século 19: apesar das teorias "evolucionistas" de Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) ou Erasmus Darwin (1731-1802), Deus é o supremo relojoeiro.
O relógio de Paley deixou de funcionar há precisamente 150 anos quando o neto de Erasmus Darwin, Charles Robert, publicava "A Origem das Espécies". E se o relógio fosse o produto de um longo processo de seleção e adaptação sem nenhum relojoeiro por detrás? A hipótese, hoje, parece-nos evidente. Eu próprio, lendo a "Origem..." e o brilhante ensaio de Janet Browne sobre o livro, imitei a exclamação de Huxley, o "buldogue de Darwin": "Mas como é que eu não pensei nisso antes?".
A pergunta faz sentido. Mas o mais interessante sobre a "Origem..." é que a obra, tal como a teoria que ela apresenta, é também um produto de acasos: aventuras biográficas, leituras ocasionais e observações empíricas experimentadas por Darwin nos primeiros 50 anos da sua vida.
Começa por ser um produto da sua frustrada passagem por Edimburgo, para cursar medicina e seguir as pegadas do pai. Sabemos que Darwin acabaria por abandonar o curso, horrorizado com a brutalidade de certas terapêuticas. Mas os anos na Escócia, ao permitirem os primeiros contactos com as teorias "evolucionistas", plantaram na cabeça do jovem Charles as primeiras inquietações: e se os seres não são o resultado de um único ato da criação?
A resposta a essa possibilidade seria avançada a bordo do Beagle: viajando pelo mundo, Darwin confrontava-se com a essencial diversidade dele. Mas não apenas com a diversidade visível; também com a falta de estabilidade inferida: a sul de Buenos Aires, por exemplo, o naturalista encontrava fósseis de mamíferos com traços anatômicos semelhantes, mas não iguais, aos das espécies contemporâneas.
A juntar a essa "instabilidade" e "descontinuidade" das espécies, as horas a bordo eram preenchidas com a leitura do geólogo Charles Lyell (1797-1875). E se Lyell desaprovava a "transmutação" das espécies, toda a sua teoria geológica apontava no sentido inverso: as mudanças da Terra não eram conduzidas por nenhum "relojoeiro" divino. Eram o resultado de múltiplas, pequenas e graduais alterações naturais, ao longo de períodos de tempo imensamente longos.
Quando regressou à Inglaterra em 1836, Darwin tinha uma certeza: no mundo natural, as espécies variam e "transformam-se". Faltava explicar como.
E seria Thomas Malthus (1766-1834) a fornecer uma preciosa ajuda. Malthus era um cientista social "avant la lettre", para quem o crescimento demográfico suplantava a capacidade humana de produzir alimentos. Essa explosiva situação teria um preço: a fome, o conflito, a guerra -uma luta pela sobrevivência de todos contra todos em que os mais pobres e fracos estariam condenados a perecer.
Malthus oferecia, no fundo, uma conceitualização teórica para práticas banais que Darwin observava entre agricultores ou criadores de gado, sempre interessados em selecionar os melhores exemplares, dotados dos traços mais valiosos, para se reproduzirem ao longo de gerações. Deus não era o relojoeiro. A natureza encarregava-se de ajustar as peças do relógio, preservando os mais bem adaptados, preservando os seus traços mais vantajosos numa perpétua luta pela sobrevivência. E pela continuidade da espécie.
Converteu-se em clichê afirmar que o mundo nunca mais foi o mesmo depois da "Origem...". Feliz e infelizmente, o clichê é verdadeiro. Felizmente, a obra de Darwin é um exemplo de honestidade e rigor intelectual capaz de oferecer a mais poderosa explicação científica sobre o longo caminho da humanidade.
Infelizmente, Darwin não sobreviveria para testemunhar o que ideólogos ou fanáticos diversos acabariam por fazer com as suas ideias: uma defesa da subjugação e mesmo do extermínio de raças consideradas "inferiores" e "dispensáveis" por autoproclamados Super-Homens. Tivessem eles lido Darwin com atenção e aprenderiam que não existe motivo para triunfalismos ou distinções. Pretos, brancos ou amarelos, macacos somos todos.
JOÃO PEREIRA COUTINHO
Essa belíssima metáfora pertence a William Paley (1743-1805). E ela resume, com a simplicidade só acessível aos grandes, o credo da ciência natural na Inglaterra do século 19: apesar das teorias "evolucionistas" de Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) ou Erasmus Darwin (1731-1802), Deus é o supremo relojoeiro.
O relógio de Paley deixou de funcionar há precisamente 150 anos quando o neto de Erasmus Darwin, Charles Robert, publicava "A Origem das Espécies". E se o relógio fosse o produto de um longo processo de seleção e adaptação sem nenhum relojoeiro por detrás? A hipótese, hoje, parece-nos evidente. Eu próprio, lendo a "Origem..." e o brilhante ensaio de Janet Browne sobre o livro, imitei a exclamação de Huxley, o "buldogue de Darwin": "Mas como é que eu não pensei nisso antes?".
A pergunta faz sentido. Mas o mais interessante sobre a "Origem..." é que a obra, tal como a teoria que ela apresenta, é também um produto de acasos: aventuras biográficas, leituras ocasionais e observações empíricas experimentadas por Darwin nos primeiros 50 anos da sua vida.
Começa por ser um produto da sua frustrada passagem por Edimburgo, para cursar medicina e seguir as pegadas do pai. Sabemos que Darwin acabaria por abandonar o curso, horrorizado com a brutalidade de certas terapêuticas. Mas os anos na Escócia, ao permitirem os primeiros contactos com as teorias "evolucionistas", plantaram na cabeça do jovem Charles as primeiras inquietações: e se os seres não são o resultado de um único ato da criação?
A resposta a essa possibilidade seria avançada a bordo do Beagle: viajando pelo mundo, Darwin confrontava-se com a essencial diversidade dele. Mas não apenas com a diversidade visível; também com a falta de estabilidade inferida: a sul de Buenos Aires, por exemplo, o naturalista encontrava fósseis de mamíferos com traços anatômicos semelhantes, mas não iguais, aos das espécies contemporâneas.
A juntar a essa "instabilidade" e "descontinuidade" das espécies, as horas a bordo eram preenchidas com a leitura do geólogo Charles Lyell (1797-1875). E se Lyell desaprovava a "transmutação" das espécies, toda a sua teoria geológica apontava no sentido inverso: as mudanças da Terra não eram conduzidas por nenhum "relojoeiro" divino. Eram o resultado de múltiplas, pequenas e graduais alterações naturais, ao longo de períodos de tempo imensamente longos.
Quando regressou à Inglaterra em 1836, Darwin tinha uma certeza: no mundo natural, as espécies variam e "transformam-se". Faltava explicar como.
E seria Thomas Malthus (1766-1834) a fornecer uma preciosa ajuda. Malthus era um cientista social "avant la lettre", para quem o crescimento demográfico suplantava a capacidade humana de produzir alimentos. Essa explosiva situação teria um preço: a fome, o conflito, a guerra -uma luta pela sobrevivência de todos contra todos em que os mais pobres e fracos estariam condenados a perecer.
Malthus oferecia, no fundo, uma conceitualização teórica para práticas banais que Darwin observava entre agricultores ou criadores de gado, sempre interessados em selecionar os melhores exemplares, dotados dos traços mais valiosos, para se reproduzirem ao longo de gerações. Deus não era o relojoeiro. A natureza encarregava-se de ajustar as peças do relógio, preservando os mais bem adaptados, preservando os seus traços mais vantajosos numa perpétua luta pela sobrevivência. E pela continuidade da espécie.
Converteu-se em clichê afirmar que o mundo nunca mais foi o mesmo depois da "Origem...". Feliz e infelizmente, o clichê é verdadeiro. Felizmente, a obra de Darwin é um exemplo de honestidade e rigor intelectual capaz de oferecer a mais poderosa explicação científica sobre o longo caminho da humanidade.
Infelizmente, Darwin não sobreviveria para testemunhar o que ideólogos ou fanáticos diversos acabariam por fazer com as suas ideias: uma defesa da subjugação e mesmo do extermínio de raças consideradas "inferiores" e "dispensáveis" por autoproclamados Super-Homens. Tivessem eles lido Darwin com atenção e aprenderiam que não existe motivo para triunfalismos ou distinções. Pretos, brancos ou amarelos, macacos somos todos.
JOÃO PEREIRA COUTINHO
Sorolla no Prado
Joaquin Sorolla (1863-1923) é um pintor espanhol cujas obras, inundadas de luz e cor, representam sobretudo cenas da vida quotidiana e paisagens.Estas são algumas de suas obras que estiveram expostas no Museo del Prado no último verão.
novembro 23, 2009
A insuportável liberdade do amor
Euclides da Cunha foi um de nossos maiores intelectuais, por sua coragem de pensar. Quando soube da revolta de Canudos, atribuiu-a aos monarquistas. No sertão da Bahia, percebeu que estava errado. Sua coragem de rever o erro valoriza sua obra-prima, Os Sertões. Mas não teve essa grandeza em sua vida pessoal. Casou-se com a filha de um líder republicano. O casamento, porém, não foi feliz. Ele não deu à jovem Ana o amor que ela queria. Ela se envolveu com o tenente Dilermando de Assis. Sabe-se o final da história. Em agosto de 1909, Ana deixa o marido pela última vez. Euclides invade a casa de Dilermando, gritando que vem matar ou morrer. É morto. Dilermando é absolvido.
Por que evocar essa história - que mostra como um grande intelectual foi tão infeliz em sua vida amorosa - quando o assunto da semana é o pai que se matou com o filho pequeno, ao não suportar o fim do casamento? Porque não é a classe social, a formação cultural ou a abertura de espírito para a ciência que capacitam alguém a lidar com o que é difícil no amor, em especial a rejeição.
A tragédia recente é de um pai que não aguenta viver sem a mulher. É imperdoável ele ter matado o filho, ato cruel e odioso. Mas seu suicídio, como o filicídio, decorrem da dificuldade de aceitar a liberdade no amor, no caso, o direito da mulher a seguir seu rumo.
A liberdade no amor não é fácil. Quando concebi um programa a respeito para a TV Futura (que pode ser baixado em www.futuratec.org.br), alguém me sugeriu tratar de casamentos abertos. Recusei. Nada tenho contra quem é feliz numa relação permanente com eventuais casos paralelos. Mas liberdade no amor não é fazer exceções à relação principal. Liberdade no amor é estar livre no (e não do) casamento. É uma realização com o outro.
Comecemos pela falta de liberdade no amor, que existe quando não se consegue tratar do que é mais íntimo. Se tenho uma companheira, espera-se que seja a pessoa mais próxima de mim no mundo, e que tenhamos uma aliança, uma cumplicidade. Se não, é porque algo vai mal. Se não conseguirmos conversar a respeito, piora.
Conversar é uma arte conquistada. Há duas formas de conversa. Uma se desenvolveu na Europa do século 17. É a conversa em sociedade, até mesmo superficial, mas que é condição para o encontro com estranhos ser agradável e a vida social, um prazer. Mas há outra conversa, que é a íntima. Ela inclui assuntos penosos. Um casal pode passar por problemas sexuais, como a redução ou perda do desejo pelo outro. Abordar esse tema é árduo, mas geralmente é melhor fazê-lo antes que um dos parceiros procure uma terceira pessoa.
O que agrava as coisas é que, hoje, toma-se por sinceridade o que é só agressividade. Alguns acham que "dizer o que vem à cabeça" é o mesmo que abrir o coração. Não é. Com frequência, a primeira resposta a algo difícil é a reação agressiva de quem deseja livrar-se de uma situação incômoda. Ofender o outro não é ser sincero. É, apenas, ofender.
Que maturidade é preciso para viver a liberdade no amor? Gilberto Gil, ironizando o slogan da ditadura "Brasil, ame-o ou deixe-o", recomendava: "O seu amor/Ame-o e deixe-o/Livre para amar./O seu amor/Ame-o e deixe-o/Ir aonde quiser". Significa aceitar que uma relação de amor é uma relação de certo risco. Não sabemos se e quando pode terminar. Por isso, é preciso investir nela, e o investimento é afetivo. Por isso Euclides, inteligente e corajoso, não foi o marido adequado para uma mulher que queria um homem alegre, o que ele não era.
O espantoso não é que Euclides, quando não havia divórcio no Brasil e o preconceito era fortíssimo, escolhesse ser assassinado com tanta vida pela frente (pois sabia que Dilermando era bom atirador). O espantoso é que tragédias dessas continuem acontecendo, quando a separação se tornou quase banal, afetando boa parte dos casamentos no mundo.
Talvez haja aqui algo bem difícil. Uma das maiores realizações que se espera da vida é o encontro de um amor de verdade, intenso, pleno. O problema é que não temos segurança dele. Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão - do grego pathos, que designa a situação em que sou passivo (em oposição à ação) e minha razão fica inibida - não é boa juíza de caráter ou de relações, como tem frisado Flavio Gikovate. O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu "eixo") sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. O amor apaixonado não substitui minha obrigação de saber quem sou, o que eu desejo, o que vou fazer. Mas, como a paixão não é amor, isso não reduz o sentimento mais profundo pelo outro. Apenas coloca na ordem do dia uma questão que afronta o consumismo afetivo de nosso tempo: a necessidade de converter o entusiasmo passional, que leva ao erro, em amor. A mídia fala muito em paixão, pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que "foram felizes para sempre" só é possível com o amor, não com o fulgor passional.
RENATO JANINE RIBEIRO no Estadão
Por que evocar essa história - que mostra como um grande intelectual foi tão infeliz em sua vida amorosa - quando o assunto da semana é o pai que se matou com o filho pequeno, ao não suportar o fim do casamento? Porque não é a classe social, a formação cultural ou a abertura de espírito para a ciência que capacitam alguém a lidar com o que é difícil no amor, em especial a rejeição.
A tragédia recente é de um pai que não aguenta viver sem a mulher. É imperdoável ele ter matado o filho, ato cruel e odioso. Mas seu suicídio, como o filicídio, decorrem da dificuldade de aceitar a liberdade no amor, no caso, o direito da mulher a seguir seu rumo.
A liberdade no amor não é fácil. Quando concebi um programa a respeito para a TV Futura (que pode ser baixado em www.futuratec.org.br), alguém me sugeriu tratar de casamentos abertos. Recusei. Nada tenho contra quem é feliz numa relação permanente com eventuais casos paralelos. Mas liberdade no amor não é fazer exceções à relação principal. Liberdade no amor é estar livre no (e não do) casamento. É uma realização com o outro.
Comecemos pela falta de liberdade no amor, que existe quando não se consegue tratar do que é mais íntimo. Se tenho uma companheira, espera-se que seja a pessoa mais próxima de mim no mundo, e que tenhamos uma aliança, uma cumplicidade. Se não, é porque algo vai mal. Se não conseguirmos conversar a respeito, piora.
Conversar é uma arte conquistada. Há duas formas de conversa. Uma se desenvolveu na Europa do século 17. É a conversa em sociedade, até mesmo superficial, mas que é condição para o encontro com estranhos ser agradável e a vida social, um prazer. Mas há outra conversa, que é a íntima. Ela inclui assuntos penosos. Um casal pode passar por problemas sexuais, como a redução ou perda do desejo pelo outro. Abordar esse tema é árduo, mas geralmente é melhor fazê-lo antes que um dos parceiros procure uma terceira pessoa.
O que agrava as coisas é que, hoje, toma-se por sinceridade o que é só agressividade. Alguns acham que "dizer o que vem à cabeça" é o mesmo que abrir o coração. Não é. Com frequência, a primeira resposta a algo difícil é a reação agressiva de quem deseja livrar-se de uma situação incômoda. Ofender o outro não é ser sincero. É, apenas, ofender.
Que maturidade é preciso para viver a liberdade no amor? Gilberto Gil, ironizando o slogan da ditadura "Brasil, ame-o ou deixe-o", recomendava: "O seu amor/Ame-o e deixe-o/Livre para amar./O seu amor/Ame-o e deixe-o/Ir aonde quiser". Significa aceitar que uma relação de amor é uma relação de certo risco. Não sabemos se e quando pode terminar. Por isso, é preciso investir nela, e o investimento é afetivo. Por isso Euclides, inteligente e corajoso, não foi o marido adequado para uma mulher que queria um homem alegre, o que ele não era.
O espantoso não é que Euclides, quando não havia divórcio no Brasil e o preconceito era fortíssimo, escolhesse ser assassinado com tanta vida pela frente (pois sabia que Dilermando era bom atirador). O espantoso é que tragédias dessas continuem acontecendo, quando a separação se tornou quase banal, afetando boa parte dos casamentos no mundo.
Talvez haja aqui algo bem difícil. Uma das maiores realizações que se espera da vida é o encontro de um amor de verdade, intenso, pleno. O problema é que não temos segurança dele. Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão - do grego pathos, que designa a situação em que sou passivo (em oposição à ação) e minha razão fica inibida - não é boa juíza de caráter ou de relações, como tem frisado Flavio Gikovate. O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu "eixo") sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. O amor apaixonado não substitui minha obrigação de saber quem sou, o que eu desejo, o que vou fazer. Mas, como a paixão não é amor, isso não reduz o sentimento mais profundo pelo outro. Apenas coloca na ordem do dia uma questão que afronta o consumismo afetivo de nosso tempo: a necessidade de converter o entusiasmo passional, que leva ao erro, em amor. A mídia fala muito em paixão, pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que "foram felizes para sempre" só é possível com o amor, não com o fulgor passional.
RENATO JANINE RIBEIRO no Estadão
novembro 22, 2009
Valha-me Deus !
É muito inquietante não acreditar em nada. Ninguém passa pela vida sem se perguntar qual é o sentido de tudo isto. Não existir respostas é o que torna tudo muito interessante. De certo mesmo, só o fato de que quando as coisas dão errado e a ajuda não pode vir dos amigos, buscamos consolo numa idéia e é a esta idéia que chamamos de Deus. Toda esta reflexão, assim em pleno domingo pela manhã, vem a propósito da leitura de um livrinho que encontrei ontem, no banco de trás do carro de um amigo que me deu carona: EXPLICANDO DEUS NUMA CORRIDA DE TAXI. Seu autor, Paul Arden é uma marca, uma lenda da publicidade britânica.Ainda que zilhões de livros tenham sido escritos na busca da compreensão de Deus ninguém tinha esclarecido nada, até esta versão que pode ser lida enquanto o taxímetro está rodando. Simples assim...Vai para onde?
Como é difícil ser feliz
"POR MAIS louco que pareça, é difícil suportar a felicidade. Você conhece alguém feliz? Nem eu, e os poucos que têm tudo para serem felizes ficam inventando modas para complicar a vida.
Ter uma vida familiar satisfatória, sem nenhum daqueles problemas graves que existem em quase todas as famílias, já é raro. Além desse aspecto, ainda existem as relações entre os parentes, que na maioria das vezes costumam ser explosivas, para dizer o mínimo. Sogras odeiam noras -e vice-versa-, irmãs querem esfaquear as cunhadas, e levante as mãos para os céus se na sua família nunca existiu quem se engraçasse com quem não devia.
Se do lado familiar está tudo bem, o que já é raro, vamos ao profissional. Suponhamos que você, depois de muita luta, tenha conseguido chegar ao ponto que queria: bem de grana e prestígio na praça, o que não é pouco. Mas ainda falta o lado sentimental; como vai ele?
Por incrível que pareça, esse também vai bem. Encontrou a pessoa certa -quase certa, a bem dizer-, com quem os filhos se dão bem, a quem os amigos não torcem o nariz e até a família, que não deixa passar nada, aceita.
Além disso, está morando numa casa legal, tem o carro do ano, pode viajar mais ou menos para onde quer mais ou menos quando quer, e o resultado do último check up não poderia ter sido melhor. E mais: modéstia à parte, o visual não deixa a desejar, muito pelo contrário, e as mulheres estão chovendo na sua horta. Não são razões de sobra para estar feliz? São, e até demais. Então é hora de inventar alguma coisa, qualquer coisa, para sofrer; afinal, não há nada mais difícil do que viver a felicidade.
Um dos recursos mais usados é o medo. Ah, se ela me deixar; ah, se eu ficar doente; ah, se minha mãe morrer; ah, se eu perder o emprego; ah, se um incêndio queimar a minha casa; ah, se eu perder a inteligência e não puder mais trabalhar; ah, se a inflação voltar e não der para pagar as prestações do apartamento; ah, se o avião que vai me levar para fazer a mais maravilhosa de todas as viagens cair -e por aí vai.
As poucas pessoa felizes -e por isso são felizes- não têm medo de nada e nunca acham que a vida vai piorar, muito pelo contrário. Mas os que estão com a vida boa encontram sempre uma maneira de achar um drama em tudo. As mulheres são especialistas nisso: se está tudo bem, elas lembram daquele dia, oito anos atrás, em que o marido bebeu demais e ficou fazendo charme para uma mulher. Daí para uma grande cena de ciúmes é um passo -ah, como nós podemos ser insuportáveis às vezes. E o pior: essa crise pode durar dias.
Se não é por aí, então quem sabe no trabalho? Como está tudo meio burocrático demais, fica pensando em como seria bom que fosse mandado para longe por uns tempos; até Brasília seria uma boa, só para mudar de ares e de função. Mas pensa na praia, na maravilha que é morar no Rio, e abandona a ideia antes que seja tarde. Mas, como não há nada mais monótono do que a felicidade, é preciso arranjar pelo menos um problema, um pequeno problema, para que a vida fique mais interessante, e isso é simples.
Basta pensar: e se sua felicidade acabar?"
Danuza Leão
Ter uma vida familiar satisfatória, sem nenhum daqueles problemas graves que existem em quase todas as famílias, já é raro. Além desse aspecto, ainda existem as relações entre os parentes, que na maioria das vezes costumam ser explosivas, para dizer o mínimo. Sogras odeiam noras -e vice-versa-, irmãs querem esfaquear as cunhadas, e levante as mãos para os céus se na sua família nunca existiu quem se engraçasse com quem não devia.
Se do lado familiar está tudo bem, o que já é raro, vamos ao profissional. Suponhamos que você, depois de muita luta, tenha conseguido chegar ao ponto que queria: bem de grana e prestígio na praça, o que não é pouco. Mas ainda falta o lado sentimental; como vai ele?
Por incrível que pareça, esse também vai bem. Encontrou a pessoa certa -quase certa, a bem dizer-, com quem os filhos se dão bem, a quem os amigos não torcem o nariz e até a família, que não deixa passar nada, aceita.
Além disso, está morando numa casa legal, tem o carro do ano, pode viajar mais ou menos para onde quer mais ou menos quando quer, e o resultado do último check up não poderia ter sido melhor. E mais: modéstia à parte, o visual não deixa a desejar, muito pelo contrário, e as mulheres estão chovendo na sua horta. Não são razões de sobra para estar feliz? São, e até demais. Então é hora de inventar alguma coisa, qualquer coisa, para sofrer; afinal, não há nada mais difícil do que viver a felicidade.
Um dos recursos mais usados é o medo. Ah, se ela me deixar; ah, se eu ficar doente; ah, se minha mãe morrer; ah, se eu perder o emprego; ah, se um incêndio queimar a minha casa; ah, se eu perder a inteligência e não puder mais trabalhar; ah, se a inflação voltar e não der para pagar as prestações do apartamento; ah, se o avião que vai me levar para fazer a mais maravilhosa de todas as viagens cair -e por aí vai.
As poucas pessoa felizes -e por isso são felizes- não têm medo de nada e nunca acham que a vida vai piorar, muito pelo contrário. Mas os que estão com a vida boa encontram sempre uma maneira de achar um drama em tudo. As mulheres são especialistas nisso: se está tudo bem, elas lembram daquele dia, oito anos atrás, em que o marido bebeu demais e ficou fazendo charme para uma mulher. Daí para uma grande cena de ciúmes é um passo -ah, como nós podemos ser insuportáveis às vezes. E o pior: essa crise pode durar dias.
Se não é por aí, então quem sabe no trabalho? Como está tudo meio burocrático demais, fica pensando em como seria bom que fosse mandado para longe por uns tempos; até Brasília seria uma boa, só para mudar de ares e de função. Mas pensa na praia, na maravilha que é morar no Rio, e abandona a ideia antes que seja tarde. Mas, como não há nada mais monótono do que a felicidade, é preciso arranjar pelo menos um problema, um pequeno problema, para que a vida fique mais interessante, e isso é simples.
Basta pensar: e se sua felicidade acabar?"
Danuza Leão
novembro 20, 2009
A MORTE DO GOURMET
“Na intersecção da crosta com o miolo em compensação, é um moinho que toma forma diante de nosso olhar interior,a poeira do trigo voa em torno da mó, o ar infestado pelo pó volátil, e nova mudança de quadro, pois o palato acabou de esposar a espuma alveolada libertada de sua carga e o trabalho dos maxilares pode começar. É mesmo um pão.”Neste que foi seu livro de estréia Muriel Barbery (A Elegância do Ouriço - sobre a vida dos moradores de um condomínio chique de Paris vista pela concierge-filósofa foi o segundo) analisa o valor e a verdade dos afetos gastronômicos. A Morte do Gourmet é uma história ambientada no mesmo condomínio parisiense e gira em torno de um de seus moradores. Pierre Arthens,o mais temido crítico de gastronomia de Paris, poderoso, inteligente e arrogante ( ‘decide’ o destino dos restaurantes) está à beira da morte e , fiel às suas obsessões, tenta relembrar o sabor que seria o instrumento de sua libertação, mas que foi perdido no tempo. Algo que provou, de um sabor particular que não lembra o que é.
Sua biografia vai sendo tecida em curtos capítulos escritos por amigos, amantes, famíliares e apreciadores de comida. Em que pese já haver sido premiado na área de gastronomia, o livro não trata apenas dos sabores degustados, mas dos sabores vividos, dos gostos que marcam nossa lembrança. A mobilização de sentidos, não só de quem cozinha, mas também de quem degusta.(“...degustar é um ato de prazer, e descrever esse prazer é um fato artístico, mas, a única verdadeira obra de arte, definitivamente, é o festim do outro”).
Há quem considere haver a autora aproveitado o espaço para lançar mão da tese de que a comida seria a principal arma de sedução das mulheres. Preparar o alimento com o coração, empreendendo num prato um grau de emoção difícil de ver numa cozinha profissional, seria a forma de prender seus homens "não pelos cordões da administração doméstica, pelos filhos, pela respeitabilidade ou mesmo pela cama - mas pelas papilas".
De enredo curioso, não é imperdível.
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