IMAGINEMOS: existe um caminho; existe um relógio perdido no meio do caminho; é lógico pensar que o relógio não surgiu por acaso. Foi o produto de mãos informadas, que juntaram partes microscópicas para que o relógio, enfim, funcionasse.
Essa belíssima metáfora pertence a William Paley (1743-1805). E ela resume, com a simplicidade só acessível aos grandes, o credo da ciência natural na Inglaterra do século 19: apesar das teorias "evolucionistas" de Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) ou Erasmus Darwin (1731-1802), Deus é o supremo relojoeiro.
O relógio de Paley deixou de funcionar há precisamente 150 anos quando o neto de Erasmus Darwin, Charles Robert, publicava "A Origem das Espécies". E se o relógio fosse o produto de um longo processo de seleção e adaptação sem nenhum relojoeiro por detrás? A hipótese, hoje, parece-nos evidente. Eu próprio, lendo a "Origem..." e o brilhante ensaio de Janet Browne sobre o livro, imitei a exclamação de Huxley, o "buldogue de Darwin": "Mas como é que eu não pensei nisso antes?".
A pergunta faz sentido. Mas o mais interessante sobre a "Origem..." é que a obra, tal como a teoria que ela apresenta, é também um produto de acasos: aventuras biográficas, leituras ocasionais e observações empíricas experimentadas por Darwin nos primeiros 50 anos da sua vida.
Começa por ser um produto da sua frustrada passagem por Edimburgo, para cursar medicina e seguir as pegadas do pai. Sabemos que Darwin acabaria por abandonar o curso, horrorizado com a brutalidade de certas terapêuticas. Mas os anos na Escócia, ao permitirem os primeiros contactos com as teorias "evolucionistas", plantaram na cabeça do jovem Charles as primeiras inquietações: e se os seres não são o resultado de um único ato da criação?
A resposta a essa possibilidade seria avançada a bordo do Beagle: viajando pelo mundo, Darwin confrontava-se com a essencial diversidade dele. Mas não apenas com a diversidade visível; também com a falta de estabilidade inferida: a sul de Buenos Aires, por exemplo, o naturalista encontrava fósseis de mamíferos com traços anatômicos semelhantes, mas não iguais, aos das espécies contemporâneas.
A juntar a essa "instabilidade" e "descontinuidade" das espécies, as horas a bordo eram preenchidas com a leitura do geólogo Charles Lyell (1797-1875). E se Lyell desaprovava a "transmutação" das espécies, toda a sua teoria geológica apontava no sentido inverso: as mudanças da Terra não eram conduzidas por nenhum "relojoeiro" divino. Eram o resultado de múltiplas, pequenas e graduais alterações naturais, ao longo de períodos de tempo imensamente longos.
Quando regressou à Inglaterra em 1836, Darwin tinha uma certeza: no mundo natural, as espécies variam e "transformam-se". Faltava explicar como.
E seria Thomas Malthus (1766-1834) a fornecer uma preciosa ajuda. Malthus era um cientista social "avant la lettre", para quem o crescimento demográfico suplantava a capacidade humana de produzir alimentos. Essa explosiva situação teria um preço: a fome, o conflito, a guerra -uma luta pela sobrevivência de todos contra todos em que os mais pobres e fracos estariam condenados a perecer.
Malthus oferecia, no fundo, uma conceitualização teórica para práticas banais que Darwin observava entre agricultores ou criadores de gado, sempre interessados em selecionar os melhores exemplares, dotados dos traços mais valiosos, para se reproduzirem ao longo de gerações. Deus não era o relojoeiro. A natureza encarregava-se de ajustar as peças do relógio, preservando os mais bem adaptados, preservando os seus traços mais vantajosos numa perpétua luta pela sobrevivência. E pela continuidade da espécie.
Converteu-se em clichê afirmar que o mundo nunca mais foi o mesmo depois da "Origem...". Feliz e infelizmente, o clichê é verdadeiro. Felizmente, a obra de Darwin é um exemplo de honestidade e rigor intelectual capaz de oferecer a mais poderosa explicação científica sobre o longo caminho da humanidade.
Infelizmente, Darwin não sobreviveria para testemunhar o que ideólogos ou fanáticos diversos acabariam por fazer com as suas ideias: uma defesa da subjugação e mesmo do extermínio de raças consideradas "inferiores" e "dispensáveis" por autoproclamados Super-Homens. Tivessem eles lido Darwin com atenção e aprenderiam que não existe motivo para triunfalismos ou distinções. Pretos, brancos ou amarelos, macacos somos todos.
JOÃO PEREIRA COUTINHO
novembro 24, 2009
Sorolla no Prado
Joaquin Sorolla (1863-1923) é um pintor espanhol cujas obras, inundadas de luz e cor, representam sobretudo cenas da vida quotidiana e paisagens.Estas são algumas de suas obras que estiveram expostas no Museo del Prado no último verão.
novembro 23, 2009
A insuportável liberdade do amor
Euclides da Cunha foi um de nossos maiores intelectuais, por sua coragem de pensar. Quando soube da revolta de Canudos, atribuiu-a aos monarquistas. No sertão da Bahia, percebeu que estava errado. Sua coragem de rever o erro valoriza sua obra-prima, Os Sertões. Mas não teve essa grandeza em sua vida pessoal. Casou-se com a filha de um líder republicano. O casamento, porém, não foi feliz. Ele não deu à jovem Ana o amor que ela queria. Ela se envolveu com o tenente Dilermando de Assis. Sabe-se o final da história. Em agosto de 1909, Ana deixa o marido pela última vez. Euclides invade a casa de Dilermando, gritando que vem matar ou morrer. É morto. Dilermando é absolvido.
Por que evocar essa história - que mostra como um grande intelectual foi tão infeliz em sua vida amorosa - quando o assunto da semana é o pai que se matou com o filho pequeno, ao não suportar o fim do casamento? Porque não é a classe social, a formação cultural ou a abertura de espírito para a ciência que capacitam alguém a lidar com o que é difícil no amor, em especial a rejeição.
A tragédia recente é de um pai que não aguenta viver sem a mulher. É imperdoável ele ter matado o filho, ato cruel e odioso. Mas seu suicídio, como o filicídio, decorrem da dificuldade de aceitar a liberdade no amor, no caso, o direito da mulher a seguir seu rumo.
A liberdade no amor não é fácil. Quando concebi um programa a respeito para a TV Futura (que pode ser baixado em www.futuratec.org.br), alguém me sugeriu tratar de casamentos abertos. Recusei. Nada tenho contra quem é feliz numa relação permanente com eventuais casos paralelos. Mas liberdade no amor não é fazer exceções à relação principal. Liberdade no amor é estar livre no (e não do) casamento. É uma realização com o outro.
Comecemos pela falta de liberdade no amor, que existe quando não se consegue tratar do que é mais íntimo. Se tenho uma companheira, espera-se que seja a pessoa mais próxima de mim no mundo, e que tenhamos uma aliança, uma cumplicidade. Se não, é porque algo vai mal. Se não conseguirmos conversar a respeito, piora.
Conversar é uma arte conquistada. Há duas formas de conversa. Uma se desenvolveu na Europa do século 17. É a conversa em sociedade, até mesmo superficial, mas que é condição para o encontro com estranhos ser agradável e a vida social, um prazer. Mas há outra conversa, que é a íntima. Ela inclui assuntos penosos. Um casal pode passar por problemas sexuais, como a redução ou perda do desejo pelo outro. Abordar esse tema é árduo, mas geralmente é melhor fazê-lo antes que um dos parceiros procure uma terceira pessoa.
O que agrava as coisas é que, hoje, toma-se por sinceridade o que é só agressividade. Alguns acham que "dizer o que vem à cabeça" é o mesmo que abrir o coração. Não é. Com frequência, a primeira resposta a algo difícil é a reação agressiva de quem deseja livrar-se de uma situação incômoda. Ofender o outro não é ser sincero. É, apenas, ofender.
Que maturidade é preciso para viver a liberdade no amor? Gilberto Gil, ironizando o slogan da ditadura "Brasil, ame-o ou deixe-o", recomendava: "O seu amor/Ame-o e deixe-o/Livre para amar./O seu amor/Ame-o e deixe-o/Ir aonde quiser". Significa aceitar que uma relação de amor é uma relação de certo risco. Não sabemos se e quando pode terminar. Por isso, é preciso investir nela, e o investimento é afetivo. Por isso Euclides, inteligente e corajoso, não foi o marido adequado para uma mulher que queria um homem alegre, o que ele não era.
O espantoso não é que Euclides, quando não havia divórcio no Brasil e o preconceito era fortíssimo, escolhesse ser assassinado com tanta vida pela frente (pois sabia que Dilermando era bom atirador). O espantoso é que tragédias dessas continuem acontecendo, quando a separação se tornou quase banal, afetando boa parte dos casamentos no mundo.
Talvez haja aqui algo bem difícil. Uma das maiores realizações que se espera da vida é o encontro de um amor de verdade, intenso, pleno. O problema é que não temos segurança dele. Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão - do grego pathos, que designa a situação em que sou passivo (em oposição à ação) e minha razão fica inibida - não é boa juíza de caráter ou de relações, como tem frisado Flavio Gikovate. O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu "eixo") sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. O amor apaixonado não substitui minha obrigação de saber quem sou, o que eu desejo, o que vou fazer. Mas, como a paixão não é amor, isso não reduz o sentimento mais profundo pelo outro. Apenas coloca na ordem do dia uma questão que afronta o consumismo afetivo de nosso tempo: a necessidade de converter o entusiasmo passional, que leva ao erro, em amor. A mídia fala muito em paixão, pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que "foram felizes para sempre" só é possível com o amor, não com o fulgor passional.
RENATO JANINE RIBEIRO no Estadão
Por que evocar essa história - que mostra como um grande intelectual foi tão infeliz em sua vida amorosa - quando o assunto da semana é o pai que se matou com o filho pequeno, ao não suportar o fim do casamento? Porque não é a classe social, a formação cultural ou a abertura de espírito para a ciência que capacitam alguém a lidar com o que é difícil no amor, em especial a rejeição.
A tragédia recente é de um pai que não aguenta viver sem a mulher. É imperdoável ele ter matado o filho, ato cruel e odioso. Mas seu suicídio, como o filicídio, decorrem da dificuldade de aceitar a liberdade no amor, no caso, o direito da mulher a seguir seu rumo.
A liberdade no amor não é fácil. Quando concebi um programa a respeito para a TV Futura (que pode ser baixado em www.futuratec.org.br), alguém me sugeriu tratar de casamentos abertos. Recusei. Nada tenho contra quem é feliz numa relação permanente com eventuais casos paralelos. Mas liberdade no amor não é fazer exceções à relação principal. Liberdade no amor é estar livre no (e não do) casamento. É uma realização com o outro.
Comecemos pela falta de liberdade no amor, que existe quando não se consegue tratar do que é mais íntimo. Se tenho uma companheira, espera-se que seja a pessoa mais próxima de mim no mundo, e que tenhamos uma aliança, uma cumplicidade. Se não, é porque algo vai mal. Se não conseguirmos conversar a respeito, piora.
Conversar é uma arte conquistada. Há duas formas de conversa. Uma se desenvolveu na Europa do século 17. É a conversa em sociedade, até mesmo superficial, mas que é condição para o encontro com estranhos ser agradável e a vida social, um prazer. Mas há outra conversa, que é a íntima. Ela inclui assuntos penosos. Um casal pode passar por problemas sexuais, como a redução ou perda do desejo pelo outro. Abordar esse tema é árduo, mas geralmente é melhor fazê-lo antes que um dos parceiros procure uma terceira pessoa.
O que agrava as coisas é que, hoje, toma-se por sinceridade o que é só agressividade. Alguns acham que "dizer o que vem à cabeça" é o mesmo que abrir o coração. Não é. Com frequência, a primeira resposta a algo difícil é a reação agressiva de quem deseja livrar-se de uma situação incômoda. Ofender o outro não é ser sincero. É, apenas, ofender.
Que maturidade é preciso para viver a liberdade no amor? Gilberto Gil, ironizando o slogan da ditadura "Brasil, ame-o ou deixe-o", recomendava: "O seu amor/Ame-o e deixe-o/Livre para amar./O seu amor/Ame-o e deixe-o/Ir aonde quiser". Significa aceitar que uma relação de amor é uma relação de certo risco. Não sabemos se e quando pode terminar. Por isso, é preciso investir nela, e o investimento é afetivo. Por isso Euclides, inteligente e corajoso, não foi o marido adequado para uma mulher que queria um homem alegre, o que ele não era.
O espantoso não é que Euclides, quando não havia divórcio no Brasil e o preconceito era fortíssimo, escolhesse ser assassinado com tanta vida pela frente (pois sabia que Dilermando era bom atirador). O espantoso é que tragédias dessas continuem acontecendo, quando a separação se tornou quase banal, afetando boa parte dos casamentos no mundo.
Talvez haja aqui algo bem difícil. Uma das maiores realizações que se espera da vida é o encontro de um amor de verdade, intenso, pleno. O problema é que não temos segurança dele. Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão - do grego pathos, que designa a situação em que sou passivo (em oposição à ação) e minha razão fica inibida - não é boa juíza de caráter ou de relações, como tem frisado Flavio Gikovate. O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu "eixo") sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. O amor apaixonado não substitui minha obrigação de saber quem sou, o que eu desejo, o que vou fazer. Mas, como a paixão não é amor, isso não reduz o sentimento mais profundo pelo outro. Apenas coloca na ordem do dia uma questão que afronta o consumismo afetivo de nosso tempo: a necessidade de converter o entusiasmo passional, que leva ao erro, em amor. A mídia fala muito em paixão, pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que "foram felizes para sempre" só é possível com o amor, não com o fulgor passional.
RENATO JANINE RIBEIRO no Estadão
novembro 22, 2009
Valha-me Deus !
É muito inquietante não acreditar em nada. Ninguém passa pela vida sem se perguntar qual é o sentido de tudo isto. Não existir respostas é o que torna tudo muito interessante. De certo mesmo, só o fato de que quando as coisas dão errado e a ajuda não pode vir dos amigos, buscamos consolo numa idéia e é a esta idéia que chamamos de Deus. Toda esta reflexão, assim em pleno domingo pela manhã, vem a propósito da leitura de um livrinho que encontrei ontem, no banco de trás do carro de um amigo que me deu carona: EXPLICANDO DEUS NUMA CORRIDA DE TAXI. Seu autor, Paul Arden é uma marca, uma lenda da publicidade britânica.Ainda que zilhões de livros tenham sido escritos na busca da compreensão de Deus ninguém tinha esclarecido nada, até esta versão que pode ser lida enquanto o taxímetro está rodando. Simples assim...Vai para onde?
Como é difícil ser feliz
"POR MAIS louco que pareça, é difícil suportar a felicidade. Você conhece alguém feliz? Nem eu, e os poucos que têm tudo para serem felizes ficam inventando modas para complicar a vida.
Ter uma vida familiar satisfatória, sem nenhum daqueles problemas graves que existem em quase todas as famílias, já é raro. Além desse aspecto, ainda existem as relações entre os parentes, que na maioria das vezes costumam ser explosivas, para dizer o mínimo. Sogras odeiam noras -e vice-versa-, irmãs querem esfaquear as cunhadas, e levante as mãos para os céus se na sua família nunca existiu quem se engraçasse com quem não devia.
Se do lado familiar está tudo bem, o que já é raro, vamos ao profissional. Suponhamos que você, depois de muita luta, tenha conseguido chegar ao ponto que queria: bem de grana e prestígio na praça, o que não é pouco. Mas ainda falta o lado sentimental; como vai ele?
Por incrível que pareça, esse também vai bem. Encontrou a pessoa certa -quase certa, a bem dizer-, com quem os filhos se dão bem, a quem os amigos não torcem o nariz e até a família, que não deixa passar nada, aceita.
Além disso, está morando numa casa legal, tem o carro do ano, pode viajar mais ou menos para onde quer mais ou menos quando quer, e o resultado do último check up não poderia ter sido melhor. E mais: modéstia à parte, o visual não deixa a desejar, muito pelo contrário, e as mulheres estão chovendo na sua horta. Não são razões de sobra para estar feliz? São, e até demais. Então é hora de inventar alguma coisa, qualquer coisa, para sofrer; afinal, não há nada mais difícil do que viver a felicidade.
Um dos recursos mais usados é o medo. Ah, se ela me deixar; ah, se eu ficar doente; ah, se minha mãe morrer; ah, se eu perder o emprego; ah, se um incêndio queimar a minha casa; ah, se eu perder a inteligência e não puder mais trabalhar; ah, se a inflação voltar e não der para pagar as prestações do apartamento; ah, se o avião que vai me levar para fazer a mais maravilhosa de todas as viagens cair -e por aí vai.
As poucas pessoa felizes -e por isso são felizes- não têm medo de nada e nunca acham que a vida vai piorar, muito pelo contrário. Mas os que estão com a vida boa encontram sempre uma maneira de achar um drama em tudo. As mulheres são especialistas nisso: se está tudo bem, elas lembram daquele dia, oito anos atrás, em que o marido bebeu demais e ficou fazendo charme para uma mulher. Daí para uma grande cena de ciúmes é um passo -ah, como nós podemos ser insuportáveis às vezes. E o pior: essa crise pode durar dias.
Se não é por aí, então quem sabe no trabalho? Como está tudo meio burocrático demais, fica pensando em como seria bom que fosse mandado para longe por uns tempos; até Brasília seria uma boa, só para mudar de ares e de função. Mas pensa na praia, na maravilha que é morar no Rio, e abandona a ideia antes que seja tarde. Mas, como não há nada mais monótono do que a felicidade, é preciso arranjar pelo menos um problema, um pequeno problema, para que a vida fique mais interessante, e isso é simples.
Basta pensar: e se sua felicidade acabar?"
Danuza Leão
Ter uma vida familiar satisfatória, sem nenhum daqueles problemas graves que existem em quase todas as famílias, já é raro. Além desse aspecto, ainda existem as relações entre os parentes, que na maioria das vezes costumam ser explosivas, para dizer o mínimo. Sogras odeiam noras -e vice-versa-, irmãs querem esfaquear as cunhadas, e levante as mãos para os céus se na sua família nunca existiu quem se engraçasse com quem não devia.
Se do lado familiar está tudo bem, o que já é raro, vamos ao profissional. Suponhamos que você, depois de muita luta, tenha conseguido chegar ao ponto que queria: bem de grana e prestígio na praça, o que não é pouco. Mas ainda falta o lado sentimental; como vai ele?
Por incrível que pareça, esse também vai bem. Encontrou a pessoa certa -quase certa, a bem dizer-, com quem os filhos se dão bem, a quem os amigos não torcem o nariz e até a família, que não deixa passar nada, aceita.
Além disso, está morando numa casa legal, tem o carro do ano, pode viajar mais ou menos para onde quer mais ou menos quando quer, e o resultado do último check up não poderia ter sido melhor. E mais: modéstia à parte, o visual não deixa a desejar, muito pelo contrário, e as mulheres estão chovendo na sua horta. Não são razões de sobra para estar feliz? São, e até demais. Então é hora de inventar alguma coisa, qualquer coisa, para sofrer; afinal, não há nada mais difícil do que viver a felicidade.
Um dos recursos mais usados é o medo. Ah, se ela me deixar; ah, se eu ficar doente; ah, se minha mãe morrer; ah, se eu perder o emprego; ah, se um incêndio queimar a minha casa; ah, se eu perder a inteligência e não puder mais trabalhar; ah, se a inflação voltar e não der para pagar as prestações do apartamento; ah, se o avião que vai me levar para fazer a mais maravilhosa de todas as viagens cair -e por aí vai.
As poucas pessoa felizes -e por isso são felizes- não têm medo de nada e nunca acham que a vida vai piorar, muito pelo contrário. Mas os que estão com a vida boa encontram sempre uma maneira de achar um drama em tudo. As mulheres são especialistas nisso: se está tudo bem, elas lembram daquele dia, oito anos atrás, em que o marido bebeu demais e ficou fazendo charme para uma mulher. Daí para uma grande cena de ciúmes é um passo -ah, como nós podemos ser insuportáveis às vezes. E o pior: essa crise pode durar dias.
Se não é por aí, então quem sabe no trabalho? Como está tudo meio burocrático demais, fica pensando em como seria bom que fosse mandado para longe por uns tempos; até Brasília seria uma boa, só para mudar de ares e de função. Mas pensa na praia, na maravilha que é morar no Rio, e abandona a ideia antes que seja tarde. Mas, como não há nada mais monótono do que a felicidade, é preciso arranjar pelo menos um problema, um pequeno problema, para que a vida fique mais interessante, e isso é simples.
Basta pensar: e se sua felicidade acabar?"
Danuza Leão
novembro 20, 2009
A MORTE DO GOURMET
“Na intersecção da crosta com o miolo em compensação, é um moinho que toma forma diante de nosso olhar interior,a poeira do trigo voa em torno da mó, o ar infestado pelo pó volátil, e nova mudança de quadro, pois o palato acabou de esposar a espuma alveolada libertada de sua carga e o trabalho dos maxilares pode começar. É mesmo um pão.”Neste que foi seu livro de estréia Muriel Barbery (A Elegância do Ouriço - sobre a vida dos moradores de um condomínio chique de Paris vista pela concierge-filósofa foi o segundo) analisa o valor e a verdade dos afetos gastronômicos. A Morte do Gourmet é uma história ambientada no mesmo condomínio parisiense e gira em torno de um de seus moradores. Pierre Arthens,o mais temido crítico de gastronomia de Paris, poderoso, inteligente e arrogante ( ‘decide’ o destino dos restaurantes) está à beira da morte e , fiel às suas obsessões, tenta relembrar o sabor que seria o instrumento de sua libertação, mas que foi perdido no tempo. Algo que provou, de um sabor particular que não lembra o que é.
Sua biografia vai sendo tecida em curtos capítulos escritos por amigos, amantes, famíliares e apreciadores de comida. Em que pese já haver sido premiado na área de gastronomia, o livro não trata apenas dos sabores degustados, mas dos sabores vividos, dos gostos que marcam nossa lembrança. A mobilização de sentidos, não só de quem cozinha, mas também de quem degusta.(“...degustar é um ato de prazer, e descrever esse prazer é um fato artístico, mas, a única verdadeira obra de arte, definitivamente, é o festim do outro”).
Há quem considere haver a autora aproveitado o espaço para lançar mão da tese de que a comida seria a principal arma de sedução das mulheres. Preparar o alimento com o coração, empreendendo num prato um grau de emoção difícil de ver numa cozinha profissional, seria a forma de prender seus homens "não pelos cordões da administração doméstica, pelos filhos, pela respeitabilidade ou mesmo pela cama - mas pelas papilas".
De enredo curioso, não é imperdível.
novembro 18, 2009
Nicolau
Nicolau era especial. Com seu olhar redondo e vidrado, pés virados para dentro, emprestava até seu nome para o apelido de quem andava meio cambota. Cantava o dia todo.
ó preta ó preeta, lá do sertãââo, jogando as cartas, no meio do chão. O resto da canção Maria lhe ensinava cantando, mas ele nunca aprendia a ir até o fim. Vivia numa arandela de flandre pendurada lá em cima da parede da cozinha. Dali, sempre cambaleando, vislumbrava todo o movimento da casa. Se alguém aparecia, ele ia logo ironizando antecipadamente a atenção que lhe dariam: "dê cá o pé, meu louro", falava. Pela manhã irritava a todos porque acordava cedo e ficava repetindo as mesmas palavras: Maria, quero café, café, café!, enquanto Maria ainda fazia o fogo. Durante o dia, Nicolau tinha vários momentos de exaltação discursiva, mas os matutinos e vespertinos eram inevitáveis. Todo o repertório de palavras, canções e ruídos que aprendera na floresta eram repetidos ininterruptamente por horas a fio, até ele se acalmar.
Os netos de minha avó gostavam muito de Nicolau, que quando nos via passando pela cozinha ia logo dizendo: camone boy! Tinha aprendido a expressão conosco, que víamos os filmes de cowboys e aprendêramos a cumprimentar as pessoas com essas palavras, as únicas que entendíamos da película. Como casa de avó era para se fazer tudo que não se fazia na casa dos pais, já entrávamos correndo, passando por dentro dos quartos e salas, atravessando a cozinha, só parando no quintal. Ali costumávamos reinterpretar as cenas dos filmes a que assistíamos. Nos dividíamos entre bandidos e mocinhos, cada um com um graveto de pau que funcionava como revólver. Nos escondíamos todos e, como faziam os mocinhos, repetíamos seus gestos de colocar só uma pequena parte da cabeça de fora do esconderijo para enxergar o inimigo, atirar e depois nos encolhermos novamente. Aí entrava toda sorte de sons que ouvíamos no cinema e que podiam reconstruir a atmosfera daquelas cenas no deserto do Arizona. Havia momentos de barulheira total dentro de casa, quando resolvíamos reinventar as batalhas entre índios e brancos, gritando como os índios e correndo como cavalos desde o quintal até a porta da rua. Hoje, quando me lembro, parece que minha avó e o resto da família tinham uma espécie de botão que desligavam para não ver nem ouvir tal algazarra na casa. Ninguém saía de suas funções, ninguém reclamava do barulho ou mesmo da sujeira que fazíamos por lá! Era como se cada grupo vivesse seus fantasmas sem que o outro interferisse. Mas um dia Nicolau pregou uma peça nos netos da velha, acabando assim com aquela invasão de bárbaros em seu território. Certa hora, quando estávamos mais absortos na nossa encenação de bandido e mocinho, ouvimos uma voz que passou a nos denunciar seja lá onde estivéssemos: BUÁ TILLLL. Era Nicolau que tinha aprendido a, como nós, imitar o som das balas dos mocinhos e bandidos, ricocheteando nas pedras do deserto. Assim, onde pudéssemos nos esconder ele estaria a falar BUÁ TILLL, entregando ao grupo inimigo nossos esconderijos.
Pobre Nicoláu! Acabou seus dias de forma trágica!
Quando meu avô morreu, a comoção da família foi intensa. Um mês de cama e mais seis dias em coma e o velho por fim se foi. Só se ouviam os lamentos dos filhos: papai morreu, papai morreu, papai morreu! Luto absoluto por um ano, falavam pra costureira que faria os vestidos de toda a família. Só os netos usariam três meses de luto fechado e o resto do ano aliviado, decidindo nossos destinos baseados numa tradição que eu tomava conhecimento pela primeira vez. Em casa, parecia tudo vazio, A vida estava suspensa. Só funcionavam Maria, que apesar do seu luto cozinhava todas as roupas da família na tinta preta para que outras cores não entrassem naquele tempo, e as reuniões dos membros do clã para relembrar afetos e emoções do tempo em que o velho era vivo. Me lembro dessas intermináveis reuniões em torno da mesa, onde aos poucos a memória do velho ia sendo purificada e enriquecida. Na hora das refeições, todos comiam calados. Nem Nicolau perturbava. De repente um dos membros da família ficava parado. Se estivesse comendo, o talher parava onde estava, a respiração não se efetuava e a cabeça ficava baixa. O tempo se abria para se ouvir o som do seu choro alto e convulsivo. Aquilo era para mim um ritual novo, que eu nunca tinha presenciado. Sabia que meu avô tinha morrido, mas não sabia que o luto seria sentido e até provocado através de rituais. Nem que o do meu avô levaria tanto tempo e de forma tão trágica e grave. A casa ficou triste feito um prato de macarrão na água e no sal. Feito vestido velho e desbotado. O peso da morte foi tão grande que até as brincadeiras não tinham como se realizarem. Olhávamos uns para os outros e nada engatava, tão impotentes que estávamos para manifestarmos qualquer forma de vitalidade. Só se ouviam os lamentos que ecoavam dentro de casa: papai morreu, papai morreu, papai morreu! Assim foi durante muitos dias; e as crianças, sem se darem conta, foram envolvidas no mesmo resguardo que o tempo exigiu.
As emoções da família só começaram a reaparecer, voltando ao rebuliço habitual, no dia em que fui entrando na casa e percebi um grande alvoroço que entrava pela cozinha e saia pelo quintal. Era minha mãe, com um cabo de vassoura, que corria bravejando atrás de Nicolau, que tentava se defender gritando: Ai! Papai Morreu! UHHHHHHHHH! Papai Morreu!UHHHHHHHHH! Coitado do Nicolau! Não acredito que estivesse fazendo pouco dos exageros emocionais da família, como acreditou minha mãe. Para mim ele estava também de luto. Ou numa compreensão menos dramática, ele estava no mínimo feliz por ter acrescentado mais algumas palavras ao seu repertório.
Nunca mais ouvimos falar de Nicolau!"
Mércia Pinto/2009
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