novembro 22, 2009

Valha-me Deus !

É muito inquietante não acreditar em nada. Ninguém passa pela vida sem se perguntar qual é o sentido de tudo isto. Não existir respostas é o que torna tudo muito interessante. De certo mesmo, só o fato de que quando as coisas dão errado e a ajuda não pode vir dos amigos, buscamos consolo numa idéia e é a esta idéia que chamamos de Deus. Toda esta reflexão, assim em pleno domingo pela manhã, vem a propósito da leitura de um livrinho que encontrei ontem, no banco de trás do carro de um amigo que me deu carona: EXPLICANDO DEUS NUMA CORRIDA DE TAXI. Seu autor, Paul Arden é uma marca, uma lenda da publicidade britânica.
Ainda que zilhões de livros tenham sido escritos na busca da compreensão de Deus ninguém tinha esclarecido nada, até esta versão que pode ser lida enquanto o taxímetro está rodando. Simples assim...Vai para onde?

No brinde ao 20.11













Se for importante saber 'onde' clique no título.

Como é difícil ser feliz

"POR MAIS louco que pareça, é difícil suportar a felicidade. Você conhece alguém feliz? Nem eu, e os poucos que têm tudo para serem felizes ficam inventando modas para complicar a vida.
Ter uma vida familiar satisfatória, sem nenhum daqueles problemas graves que existem em quase todas as famílias, já é raro. Além desse aspecto, ainda existem as relações entre os parentes, que na maioria das vezes costumam ser explosivas, para dizer o mínimo. Sogras odeiam noras -e vice-versa-, irmãs querem esfaquear as cunhadas, e levante as mãos para os céus se na sua família nunca existiu quem se engraçasse com quem não devia.
Se do lado familiar está tudo bem, o que já é raro, vamos ao profissional. Suponhamos que você, depois de muita luta, tenha conseguido chegar ao ponto que queria: bem de grana e prestígio na praça, o que não é pouco. Mas ainda falta o lado sentimental; como vai ele?
Por incrível que pareça, esse também vai bem. Encontrou a pessoa certa -quase certa, a bem dizer-, com quem os filhos se dão bem, a quem os amigos não torcem o nariz e até a família, que não deixa passar nada, aceita.
Além disso, está morando numa casa legal, tem o carro do ano, pode viajar mais ou menos para onde quer mais ou menos quando quer, e o resultado do último check up não poderia ter sido melhor. E mais: modéstia à parte, o visual não deixa a desejar, muito pelo contrário, e as mulheres estão chovendo na sua horta. Não são razões de sobra para estar feliz? São, e até demais. Então é hora de inventar alguma coisa, qualquer coisa, para sofrer; afinal, não há nada mais difícil do que viver a felicidade.
Um dos recursos mais usados é o medo. Ah, se ela me deixar; ah, se eu ficar doente; ah, se minha mãe morrer; ah, se eu perder o emprego; ah, se um incêndio queimar a minha casa; ah, se eu perder a inteligência e não puder mais trabalhar; ah, se a inflação voltar e não der para pagar as prestações do apartamento; ah, se o avião que vai me levar para fazer a mais maravilhosa de todas as viagens cair -e por aí vai.
As poucas pessoa felizes -e por isso são felizes- não têm medo de nada e nunca acham que a vida vai piorar, muito pelo contrário. Mas os que estão com a vida boa encontram sempre uma maneira de achar um drama em tudo. As mulheres são especialistas nisso: se está tudo bem, elas lembram daquele dia, oito anos atrás, em que o marido bebeu demais e ficou fazendo charme para uma mulher. Daí para uma grande cena de ciúmes é um passo -ah, como nós podemos ser insuportáveis às vezes. E o pior: essa crise pode durar dias.
Se não é por aí, então quem sabe no trabalho? Como está tudo meio burocrático demais, fica pensando em como seria bom que fosse mandado para longe por uns tempos; até Brasília seria uma boa, só para mudar de ares e de função. Mas pensa na praia, na maravilha que é morar no Rio, e abandona a ideia antes que seja tarde. Mas, como não há nada mais monótono do que a felicidade, é preciso arranjar pelo menos um problema, um pequeno problema, para que a vida fique mais interessante, e isso é simples.
Basta pensar: e se sua felicidade acabar?
"
Danuza Leão

novembro 20, 2009

A MORTE DO GOURMET

“Na intersecção da crosta com o miolo em compensação, é um moinho que toma forma diante de nosso olhar interior,a poeira do trigo voa em torno da mó, o ar infestado pelo pó volátil, e nova mudança de quadro, pois o palato acabou de esposar a espuma alveolada libertada de sua carga e o trabalho dos maxilares pode começar. É mesmo um pão.”

Neste que foi seu livro de estréia Muriel Barbery (A Elegância do Ouriço - sobre a vida dos moradores de um condomínio chique de Paris vista pela concierge-filósofa foi o segundo) analisa o valor e a verdade dos afetos gastronômicos. A Morte do Gourmet é uma história ambientada no mesmo condomínio parisiense e gira em torno de um de seus moradores. Pierre Arthens,o mais temido crítico de gastronomia de Paris, poderoso, inteligente e arrogante ( ‘decide’ o destino dos restaurantes) está à beira da morte e , fiel às suas obsessões, tenta relembrar o sabor que seria o instrumento de sua libertação, mas que foi perdido no tempo. Algo que provou, de um sabor particular que não lembra o que é.
Sua biografia vai sendo tecida em curtos capítulos escritos por amigos, amantes, famíliares e apreciadores de comida. Em que pese já haver sido premiado na área de gastronomia, o livro não trata apenas dos sabores degustados, mas dos sabores vividos, dos gostos que marcam nossa lembrança. A mobilização de sentidos, não só de quem cozinha, mas também de quem degusta.(“...degustar é um ato de prazer, e descrever esse prazer é um fato artístico, mas, a única verdadeira obra de arte, definitivamente, é o festim do outro”).
Há quem considere haver a autora aproveitado o espaço para lançar mão da tese de que a comida seria a principal arma de sedução das mulheres. Preparar o alimento com o coração, empreendendo num prato um grau de emoção difícil de ver numa cozinha profissional, seria a forma de prender seus homens "não pelos cordões da administração doméstica, pelos filhos, pela respeitabilidade ou mesmo pela cama - mas pelas papilas".
De enredo curioso, não é imperdível.

novembro 18, 2009

Nicolau

"Nicolau era o papagaio de minha avó. Naquele tempo, além dos agregados familiares que moravam e trabalhavam na casa, só saindo quando se casavam, ainda se criavam muitos bichos; soins, gatos, cachorros, e não faltava um papagaio que comia os restos de miolos de pão com café que sobravam na mesa. Assim era na casa da minha avó. Viviam com muita simplicidade, mas a população de agregados e bichos parecia não pesar no orçamento familiar.
Nicolau era especial. Com seu olhar redondo e vidrado, pés virados para dentro, emprestava até seu nome para o apelido de quem andava meio cambota. Cantava o dia todo.
ó preta ó preeta, lá do sertãââo, jogando as cartas, no meio do chão. O resto da canção Maria lhe ensinava cantando, mas ele nunca aprendia a ir até o fim. Vivia numa arandela de flandre pendurada lá em cima da parede da cozinha. Dali, sempre cambaleando, vislumbrava todo o movimento da casa. Se alguém aparecia, ele ia logo ironizando antecipadamente a atenção que lhe dariam: "dê cá o pé, meu louro", falava. Pela manhã irritava a todos porque acordava cedo e ficava repetindo as mesmas palavras: Maria, quero café, café, café!, enquanto Maria ainda fazia o fogo. Durante o dia, Nicolau tinha vários momentos de exaltação discursiva, mas os matutinos e vespertinos eram inevitáveis. Todo o repertório de palavras, canções e ruídos que aprendera na floresta eram repetidos ininterruptamente por horas a fio, até ele se acalmar.
Os netos de minha avó gostavam muito de Nicolau, que quando nos via passando pela cozinha ia logo dizendo: camone boy! Tinha aprendido a expressão conosco, que víamos os filmes de cowboys e aprendêramos a cumprimentar as pessoas com essas palavras, as únicas que entendíamos da película. Como casa de avó era para se fazer tudo que não se fazia na casa dos pais, já entrávamos correndo, passando por dentro dos quartos e salas, atravessando a cozinha, só parando no quintal. Ali costumávamos reinterpretar as cenas dos filmes a que assistíamos. Nos dividíamos entre bandidos e mocinhos, cada um com um graveto de pau que funcionava como revólver. Nos escondíamos todos e, como faziam os mocinhos, repetíamos seus gestos de colocar só uma pequena parte da cabeça de fora do esconderijo para enxergar o inimigo, atirar e depois nos encolhermos novamente. Aí entrava toda sorte de sons que ouvíamos no cinema e que podiam reconstruir a atmosfera daquelas cenas no deserto do Arizona. Havia momentos de barulheira total dentro de casa, quando resolvíamos reinventar as batalhas entre índios e brancos, gritando como os índios e correndo como cavalos desde o quintal até a porta da rua. Hoje, quando me lembro, parece que minha avó e o resto da família tinham uma espécie de botão que desligavam para não ver nem ouvir tal algazarra na casa. Ninguém saía de suas funções, ninguém reclamava do barulho ou mesmo da sujeira que fazíamos por lá! Era como se cada grupo vivesse seus fantasmas sem que o outro interferisse. Mas um dia Nicolau pregou uma peça nos netos da velha, acabando assim com aquela invasão de bárbaros em seu território. Certa hora, quando estávamos mais absortos na nossa encenação de bandido e mocinho, ouvimos uma voz que passou a nos denunciar seja lá onde estivéssemos: BUÁ TILLLL. Era Nicolau que tinha aprendido a, como nós, imitar o som das balas dos mocinhos e bandidos, ricocheteando nas pedras do deserto. Assim, onde pudéssemos nos esconder ele estaria a falar BUÁ TILLL, entregando ao grupo inimigo nossos esconderijos.
Pobre Nicoláu! Acabou seus dias de forma trágica!
Quando meu avô morreu, a comoção da família foi intensa. Um mês de cama e mais seis dias em coma e o velho por fim se foi. Só se ouviam os lamentos dos filhos: papai morreu, papai morreu, papai morreu! Luto absoluto por um ano, falavam pra costureira que faria os vestidos de toda a família. Só os netos usariam três meses de luto fechado e o resto do ano aliviado, decidindo nossos destinos baseados numa tradição que eu tomava conhecimento pela primeira vez. Em casa, parecia tudo vazio, A vida estava suspensa. Só funcionavam Maria, que apesar do seu luto cozinhava todas as roupas da família na tinta preta para que outras cores não entrassem naquele tempo, e as reuniões dos membros do clã para relembrar afetos e emoções do tempo em que o velho era vivo. Me lembro dessas intermináveis reuniões em torno da mesa, onde aos poucos a memória do velho ia sendo purificada e enriquecida. Na hora das refeições, todos comiam calados. Nem Nicolau perturbava. De repente um dos membros da família ficava parado. Se estivesse comendo, o talher parava onde estava, a respiração não se efetuava e a cabeça ficava baixa. O tempo se abria para se ouvir o som do seu choro alto e convulsivo. Aquilo era para mim um ritual novo, que eu nunca tinha presenciado. Sabia que meu avô tinha morrido, mas não sabia que o luto seria sentido e até provocado através de rituais. Nem que o do meu avô levaria tanto tempo e de forma tão trágica e grave. A casa ficou triste feito um prato de macarrão na água e no sal. Feito vestido velho e desbotado. O peso da morte foi tão grande que até as brincadeiras não tinham como se realizarem. Olhávamos uns para os outros e nada engatava, tão impotentes que estávamos para manifestarmos qualquer forma de vitalidade. Só se ouviam os lamentos que ecoavam dentro de casa: papai morreu, papai morreu, papai morreu! Assim foi durante muitos dias; e as crianças, sem se darem conta, foram envolvidas no mesmo resguardo que o tempo exigiu.
As emoções da família só começaram a reaparecer, voltando ao rebuliço habitual, no dia em que fui entrando na casa e percebi um grande alvoroço que entrava pela cozinha e saia pelo quintal. Era minha mãe, com um cabo de vassoura, que corria bravejando atrás de Nicolau, que tentava se defender gritando: Ai! Papai Morreu! UHHHHHHHHH! Papai Morreu!UHHHHHHHHH! Coitado do Nicolau! Não acredito que estivesse fazendo pouco dos exageros emocionais da família, como acreditou minha mãe. Para mim ele estava também de luto. Ou numa compreensão menos dramática, ele estava no mínimo feliz por ter acrescentado mais algumas palavras ao seu repertório.
Nunca mais ouvimos falar de Nicolau!"
Mércia Pinto/2009

Ballets Trockadero

novembro 17, 2009

O Sentido do Gosto

"À volta da mesa sempre se fez História e à volta de cada alimento existem mil histórias para contar".
Esta receitinha é apenas o pretexto para trazer O Sentido do Gosto para cá. Programa de televisão da RTP que consegue juntar, de uma maneira que seduz e educa, temas de história da alimentação e culinária. Já virou livro, DVD, etc. A propósito de vários alimentos, as imagens desta campanha que nos desperta tantas vontades...desde ler o resto das histórias até partir para o surpreendente e inesgotável Portugal!(o 'sítio' clicando no título)

novembro 16, 2009

As razões do sexo

"A CARA leitora já sabe que não sou um apreciador do feminismo. Acho-o excessivo, mas não desnecessário. Sim, existem dimensões da sociedade que pedem um combate contra maus hábitos. É um absurdo, por exemplo, mulheres ganharem menor salário pela mesma função, serem obrigadas a viver com canalhas ou terem os estudos e a vida profissional negados.
Mas, nos últimos anos, o feminismo tem prestado um grande desserviço às mulheres, estimulando nelas ressentimento e solidão, e levando-as a enganos, como, por exemplo, afirmando coisas irreais como a não importância da maternidade para a maioria esmagadora das mulheres.
No campo dos afetos e das relações, a ideologização maníaca de tudo por parte das feministas só atrapalha a já difícil vida a dois. Essa mania se traduz na ideia de que, em toda parte, tudo seja poder e opressão. A vida sexual tem razões que a própria razão desconhece.
Deve mesmo ser um saco ter que aturar chatos que se acham no direito de invadir sua privacidade com convites idiotas. Mas, afinal, como saber quando você é ou não um idiota? Não é tão óbvio assim, porque, quando estamos interessados numa mulher, sempre ficamos um tanto idiotas. Pela sua beleza, por seu charme, seu mistério e, acima de tudo, suas pernas.
Uma prova dos excessos do feminismo são movimentos políticos que beiram a afirmação de que uma mulher plenamente emancipada tem que ser homossexual. Tudo bem, "cada um é cada um", mas essa pregação é uma coisa de ressentida mesmo.
Uma das coisas que me fascina nas mulheres é o fato de que não as entendo. Nessa "maldição" da diferença partilhada reside o exercício contínuo da transcendência que marca a condição heterossexual.
Amigas minhas de bem com a vida e sem ressentimentos não perdem um minuto de suas vidas com esse rancor feminista. Falo daquele tipo de mulher que sabe que um homem que gosta de mulheres vive constantemente sob o poder do desejo feminino. O melhor argumento a favor da emancipação feminina, do ponto de vista masculino, é ter mulheres como colegas de trabalho. Tudo fica melhor, mais leve, mais encantador.
Recentemente ouvi dizer que, numa feira de livros em algum Estado do Brasil, fizeram marcadores de livros, totens e camisetas com a imagem de uma mulher com as pernas para o ar, com meia-calça (espero que com sandálias de salto alto), e um texto que dizia algo assim: "Aqui tem sempre uma emoção esperando você".
Para um apreciador do sexo feminino, a imagem é perfeita. Entre as pernas de uma mulher suspensas no ar, apenas boas emoções nos esperam. Por exemplo, ser recebido por moças bonitas em feiras melhora o dia e nos faz pensar, por breves minutos, que a vida sim faz sentido. A voz, a silhueta, o cheiro, cada gesto do corpo parecem indicar a evidência de que os criacionistas têm razão: o acaso cego não saberia fazer tamanha maravilha viva. Num bar, depois de algumas cervejas, essa é uma prova cabal da existência de Deus. E mais: um erro comum é supor que os homens só se interessam pelo corpo das mulheres. Não, o corpo deve vir acompanhado de acessórios indispensáveis: a alma, as ideias, a conversa, a roupa.
Também sei que muitas dessas minhas amigas de bem com a vida riem da ira contra coisas assim. Elas pensam que uma ação de marketing como essa pode até ser interessante na medida em que facilita a conversa, dando a "deixa" necessária para uma noite divertida, após um dia "boring" (entediante) nesse tipo de evento.
Erra quem supõe que a erotização deva ser banida da vida profissional. Em determinados locais de trabalho, um certo grau de erotização contribui para a produtividade, dando uma "cor" ao cotidiano, que sempre tende ao preto e branco.
Sim, minha cara leitora, quando homens falam de mulheres a sério, o fazem sempre pensando em vocês como objeto. O mesmo acontece quando são mulheres conversando entre si: somos nós o objeto. Ainda bem. E por que seria diferente?
Mas devo confessar que reconheço o risco de falta de educação quando, em eventos de trabalho, imagens de mulheres são utilizadas de modo ostensivo. Lembro-me de uma vez, em outro Estado, quando, numa palestra, o conferencista terminou com a imagem virtual de uma mulher nua, inclinada sobre uma pia, fazendo movimentos insinuantes. Achei isso o fim da picada. Do meu lado, estava uma colega de trabalho. Pedi desculpa a ela por tamanha estupidez".

LUIZ FELIPE PONDÉ

Bilhete de Identidade

A vida da gente só parece vazia e desinteressante até o momento em que viajamos através da memória buscando contar uma história a nosso respeito. Ser ao mesmo tempo ator e expectador de nós mesmos, não é tarefa das mais fáceis. Como atores, agimos e sofremos, enquanto que, ao nos ver, somos tentados a 'compreender' , a ser auto-condescendentes, justificando as razões de nossos gestos e palavras. Tendemos a fazer com que a verdade passe a ser a nossa verdade. Porém, ser expectador e narrador de nós mesmos é o único caminho para se conseguir dar um passo além, nos tornando autor de nossa história. Não se trata de simplesmente narrar episódios vividos, mas de narrar nossa existência buscando nela o fio que liga nossas vivências e lhes dá sentido. (Ops! Isto não é uma introdução à minha autobiografia).
Tenho um lado meio de voyeur que gosta muito de (auto) biografias. Nelas não vejo apenas bisbilhotices. Considero que , ao ler (ou ouvir) sobre a vida dos outros, aprendemos como pode ser a existência, como arranjar a vida ante a velhice, o desamor, a morte dos outros e a nossa. Conhecendo a vida dos biografados, suas aventuras e desventuras, deduzimos o que nos espera.
Como diz a Dulce Critelli (terapeuta existencial que 'frequenta' este blog) : “Os anos vão nos fazendo e também nos desfazendo. Surgem perguntas sobre o que serei amanhã? O que terei feito de mim? A “navegação” da própria existência é cheia de riscos.... Num mundo cuja essência aleatória é cada vez mais evidente, quando não mais nos esperam nem o céu nem o inferno e nem existem ideologias nem religiões para ordenar convenientemente o caos, em meio a tanto vazio, a vida dos outros muitas vezes nos mostra o caminho.”
Todo este blablabla é para dizer que ando lendo o BILHETE DE IDENTIDADE, de autoria da portuguesa Maria Filomena Mónica, que traz um subtítulo Memórias 1943-1976. Bilhete de identidade é como se chama o documento nacional de identificação civil em Portugal. A memória seria como o bilhete de identidade do indivíduo, pessoal e intransmissível e a curiosidade surge precisamente com base nessa pessoalidade.
A propósito do lançamento do livro, no Diário de Notícias de 13 de Novembro de 2005 o comentário de João Céu e Silva: “...Nesse retrato que faz de si própria ao longo dos 33 primeiros anos de vida, Maria Filomena Mónica acaba por o transformar num retrato sociológico - e antológico - de uma geração que ainda hoje está no poder, ou por perto, exibindo a sua vida como um filme de muitas horas, que se vê sem doer o rabo.”
Não dói mesmo. É uma delícia!
Pensamento do dia: ainda que algumas vidas nos pareçam bem mais ricas e glamourosas do que a nossa, composta de miudezas e insignificâncias, o consolo é que tudo acaba igual!