novembro 18, 2009

Nicolau

"Nicolau era o papagaio de minha avó. Naquele tempo, além dos agregados familiares que moravam e trabalhavam na casa, só saindo quando se casavam, ainda se criavam muitos bichos; soins, gatos, cachorros, e não faltava um papagaio que comia os restos de miolos de pão com café que sobravam na mesa. Assim era na casa da minha avó. Viviam com muita simplicidade, mas a população de agregados e bichos parecia não pesar no orçamento familiar.
Nicolau era especial. Com seu olhar redondo e vidrado, pés virados para dentro, emprestava até seu nome para o apelido de quem andava meio cambota. Cantava o dia todo.
ó preta ó preeta, lá do sertãââo, jogando as cartas, no meio do chão. O resto da canção Maria lhe ensinava cantando, mas ele nunca aprendia a ir até o fim. Vivia numa arandela de flandre pendurada lá em cima da parede da cozinha. Dali, sempre cambaleando, vislumbrava todo o movimento da casa. Se alguém aparecia, ele ia logo ironizando antecipadamente a atenção que lhe dariam: "dê cá o pé, meu louro", falava. Pela manhã irritava a todos porque acordava cedo e ficava repetindo as mesmas palavras: Maria, quero café, café, café!, enquanto Maria ainda fazia o fogo. Durante o dia, Nicolau tinha vários momentos de exaltação discursiva, mas os matutinos e vespertinos eram inevitáveis. Todo o repertório de palavras, canções e ruídos que aprendera na floresta eram repetidos ininterruptamente por horas a fio, até ele se acalmar.
Os netos de minha avó gostavam muito de Nicolau, que quando nos via passando pela cozinha ia logo dizendo: camone boy! Tinha aprendido a expressão conosco, que víamos os filmes de cowboys e aprendêramos a cumprimentar as pessoas com essas palavras, as únicas que entendíamos da película. Como casa de avó era para se fazer tudo que não se fazia na casa dos pais, já entrávamos correndo, passando por dentro dos quartos e salas, atravessando a cozinha, só parando no quintal. Ali costumávamos reinterpretar as cenas dos filmes a que assistíamos. Nos dividíamos entre bandidos e mocinhos, cada um com um graveto de pau que funcionava como revólver. Nos escondíamos todos e, como faziam os mocinhos, repetíamos seus gestos de colocar só uma pequena parte da cabeça de fora do esconderijo para enxergar o inimigo, atirar e depois nos encolhermos novamente. Aí entrava toda sorte de sons que ouvíamos no cinema e que podiam reconstruir a atmosfera daquelas cenas no deserto do Arizona. Havia momentos de barulheira total dentro de casa, quando resolvíamos reinventar as batalhas entre índios e brancos, gritando como os índios e correndo como cavalos desde o quintal até a porta da rua. Hoje, quando me lembro, parece que minha avó e o resto da família tinham uma espécie de botão que desligavam para não ver nem ouvir tal algazarra na casa. Ninguém saía de suas funções, ninguém reclamava do barulho ou mesmo da sujeira que fazíamos por lá! Era como se cada grupo vivesse seus fantasmas sem que o outro interferisse. Mas um dia Nicolau pregou uma peça nos netos da velha, acabando assim com aquela invasão de bárbaros em seu território. Certa hora, quando estávamos mais absortos na nossa encenação de bandido e mocinho, ouvimos uma voz que passou a nos denunciar seja lá onde estivéssemos: BUÁ TILLLL. Era Nicolau que tinha aprendido a, como nós, imitar o som das balas dos mocinhos e bandidos, ricocheteando nas pedras do deserto. Assim, onde pudéssemos nos esconder ele estaria a falar BUÁ TILLL, entregando ao grupo inimigo nossos esconderijos.
Pobre Nicoláu! Acabou seus dias de forma trágica!
Quando meu avô morreu, a comoção da família foi intensa. Um mês de cama e mais seis dias em coma e o velho por fim se foi. Só se ouviam os lamentos dos filhos: papai morreu, papai morreu, papai morreu! Luto absoluto por um ano, falavam pra costureira que faria os vestidos de toda a família. Só os netos usariam três meses de luto fechado e o resto do ano aliviado, decidindo nossos destinos baseados numa tradição que eu tomava conhecimento pela primeira vez. Em casa, parecia tudo vazio, A vida estava suspensa. Só funcionavam Maria, que apesar do seu luto cozinhava todas as roupas da família na tinta preta para que outras cores não entrassem naquele tempo, e as reuniões dos membros do clã para relembrar afetos e emoções do tempo em que o velho era vivo. Me lembro dessas intermináveis reuniões em torno da mesa, onde aos poucos a memória do velho ia sendo purificada e enriquecida. Na hora das refeições, todos comiam calados. Nem Nicolau perturbava. De repente um dos membros da família ficava parado. Se estivesse comendo, o talher parava onde estava, a respiração não se efetuava e a cabeça ficava baixa. O tempo se abria para se ouvir o som do seu choro alto e convulsivo. Aquilo era para mim um ritual novo, que eu nunca tinha presenciado. Sabia que meu avô tinha morrido, mas não sabia que o luto seria sentido e até provocado através de rituais. Nem que o do meu avô levaria tanto tempo e de forma tão trágica e grave. A casa ficou triste feito um prato de macarrão na água e no sal. Feito vestido velho e desbotado. O peso da morte foi tão grande que até as brincadeiras não tinham como se realizarem. Olhávamos uns para os outros e nada engatava, tão impotentes que estávamos para manifestarmos qualquer forma de vitalidade. Só se ouviam os lamentos que ecoavam dentro de casa: papai morreu, papai morreu, papai morreu! Assim foi durante muitos dias; e as crianças, sem se darem conta, foram envolvidas no mesmo resguardo que o tempo exigiu.
As emoções da família só começaram a reaparecer, voltando ao rebuliço habitual, no dia em que fui entrando na casa e percebi um grande alvoroço que entrava pela cozinha e saia pelo quintal. Era minha mãe, com um cabo de vassoura, que corria bravejando atrás de Nicolau, que tentava se defender gritando: Ai! Papai Morreu! UHHHHHHHHH! Papai Morreu!UHHHHHHHHH! Coitado do Nicolau! Não acredito que estivesse fazendo pouco dos exageros emocionais da família, como acreditou minha mãe. Para mim ele estava também de luto. Ou numa compreensão menos dramática, ele estava no mínimo feliz por ter acrescentado mais algumas palavras ao seu repertório.
Nunca mais ouvimos falar de Nicolau!"
Mércia Pinto/2009

Ballets Trockadero

novembro 17, 2009

O Sentido do Gosto

"À volta da mesa sempre se fez História e à volta de cada alimento existem mil histórias para contar".
Esta receitinha é apenas o pretexto para trazer O Sentido do Gosto para cá. Programa de televisão da RTP que consegue juntar, de uma maneira que seduz e educa, temas de história da alimentação e culinária. Já virou livro, DVD, etc. A propósito de vários alimentos, as imagens desta campanha que nos desperta tantas vontades...desde ler o resto das histórias até partir para o surpreendente e inesgotável Portugal!(o 'sítio' clicando no título)

novembro 16, 2009

As razões do sexo

"A CARA leitora já sabe que não sou um apreciador do feminismo. Acho-o excessivo, mas não desnecessário. Sim, existem dimensões da sociedade que pedem um combate contra maus hábitos. É um absurdo, por exemplo, mulheres ganharem menor salário pela mesma função, serem obrigadas a viver com canalhas ou terem os estudos e a vida profissional negados.
Mas, nos últimos anos, o feminismo tem prestado um grande desserviço às mulheres, estimulando nelas ressentimento e solidão, e levando-as a enganos, como, por exemplo, afirmando coisas irreais como a não importância da maternidade para a maioria esmagadora das mulheres.
No campo dos afetos e das relações, a ideologização maníaca de tudo por parte das feministas só atrapalha a já difícil vida a dois. Essa mania se traduz na ideia de que, em toda parte, tudo seja poder e opressão. A vida sexual tem razões que a própria razão desconhece.
Deve mesmo ser um saco ter que aturar chatos que se acham no direito de invadir sua privacidade com convites idiotas. Mas, afinal, como saber quando você é ou não um idiota? Não é tão óbvio assim, porque, quando estamos interessados numa mulher, sempre ficamos um tanto idiotas. Pela sua beleza, por seu charme, seu mistério e, acima de tudo, suas pernas.
Uma prova dos excessos do feminismo são movimentos políticos que beiram a afirmação de que uma mulher plenamente emancipada tem que ser homossexual. Tudo bem, "cada um é cada um", mas essa pregação é uma coisa de ressentida mesmo.
Uma das coisas que me fascina nas mulheres é o fato de que não as entendo. Nessa "maldição" da diferença partilhada reside o exercício contínuo da transcendência que marca a condição heterossexual.
Amigas minhas de bem com a vida e sem ressentimentos não perdem um minuto de suas vidas com esse rancor feminista. Falo daquele tipo de mulher que sabe que um homem que gosta de mulheres vive constantemente sob o poder do desejo feminino. O melhor argumento a favor da emancipação feminina, do ponto de vista masculino, é ter mulheres como colegas de trabalho. Tudo fica melhor, mais leve, mais encantador.
Recentemente ouvi dizer que, numa feira de livros em algum Estado do Brasil, fizeram marcadores de livros, totens e camisetas com a imagem de uma mulher com as pernas para o ar, com meia-calça (espero que com sandálias de salto alto), e um texto que dizia algo assim: "Aqui tem sempre uma emoção esperando você".
Para um apreciador do sexo feminino, a imagem é perfeita. Entre as pernas de uma mulher suspensas no ar, apenas boas emoções nos esperam. Por exemplo, ser recebido por moças bonitas em feiras melhora o dia e nos faz pensar, por breves minutos, que a vida sim faz sentido. A voz, a silhueta, o cheiro, cada gesto do corpo parecem indicar a evidência de que os criacionistas têm razão: o acaso cego não saberia fazer tamanha maravilha viva. Num bar, depois de algumas cervejas, essa é uma prova cabal da existência de Deus. E mais: um erro comum é supor que os homens só se interessam pelo corpo das mulheres. Não, o corpo deve vir acompanhado de acessórios indispensáveis: a alma, as ideias, a conversa, a roupa.
Também sei que muitas dessas minhas amigas de bem com a vida riem da ira contra coisas assim. Elas pensam que uma ação de marketing como essa pode até ser interessante na medida em que facilita a conversa, dando a "deixa" necessária para uma noite divertida, após um dia "boring" (entediante) nesse tipo de evento.
Erra quem supõe que a erotização deva ser banida da vida profissional. Em determinados locais de trabalho, um certo grau de erotização contribui para a produtividade, dando uma "cor" ao cotidiano, que sempre tende ao preto e branco.
Sim, minha cara leitora, quando homens falam de mulheres a sério, o fazem sempre pensando em vocês como objeto. O mesmo acontece quando são mulheres conversando entre si: somos nós o objeto. Ainda bem. E por que seria diferente?
Mas devo confessar que reconheço o risco de falta de educação quando, em eventos de trabalho, imagens de mulheres são utilizadas de modo ostensivo. Lembro-me de uma vez, em outro Estado, quando, numa palestra, o conferencista terminou com a imagem virtual de uma mulher nua, inclinada sobre uma pia, fazendo movimentos insinuantes. Achei isso o fim da picada. Do meu lado, estava uma colega de trabalho. Pedi desculpa a ela por tamanha estupidez".

LUIZ FELIPE PONDÉ

Bilhete de Identidade

A vida da gente só parece vazia e desinteressante até o momento em que viajamos através da memória buscando contar uma história a nosso respeito. Ser ao mesmo tempo ator e expectador de nós mesmos, não é tarefa das mais fáceis. Como atores, agimos e sofremos, enquanto que, ao nos ver, somos tentados a 'compreender' , a ser auto-condescendentes, justificando as razões de nossos gestos e palavras. Tendemos a fazer com que a verdade passe a ser a nossa verdade. Porém, ser expectador e narrador de nós mesmos é o único caminho para se conseguir dar um passo além, nos tornando autor de nossa história. Não se trata de simplesmente narrar episódios vividos, mas de narrar nossa existência buscando nela o fio que liga nossas vivências e lhes dá sentido. (Ops! Isto não é uma introdução à minha autobiografia).
Tenho um lado meio de voyeur que gosta muito de (auto) biografias. Nelas não vejo apenas bisbilhotices. Considero que , ao ler (ou ouvir) sobre a vida dos outros, aprendemos como pode ser a existência, como arranjar a vida ante a velhice, o desamor, a morte dos outros e a nossa. Conhecendo a vida dos biografados, suas aventuras e desventuras, deduzimos o que nos espera.
Como diz a Dulce Critelli (terapeuta existencial que 'frequenta' este blog) : “Os anos vão nos fazendo e também nos desfazendo. Surgem perguntas sobre o que serei amanhã? O que terei feito de mim? A “navegação” da própria existência é cheia de riscos.... Num mundo cuja essência aleatória é cada vez mais evidente, quando não mais nos esperam nem o céu nem o inferno e nem existem ideologias nem religiões para ordenar convenientemente o caos, em meio a tanto vazio, a vida dos outros muitas vezes nos mostra o caminho.”
Todo este blablabla é para dizer que ando lendo o BILHETE DE IDENTIDADE, de autoria da portuguesa Maria Filomena Mónica, que traz um subtítulo Memórias 1943-1976. Bilhete de identidade é como se chama o documento nacional de identificação civil em Portugal. A memória seria como o bilhete de identidade do indivíduo, pessoal e intransmissível e a curiosidade surge precisamente com base nessa pessoalidade.
A propósito do lançamento do livro, no Diário de Notícias de 13 de Novembro de 2005 o comentário de João Céu e Silva: “...Nesse retrato que faz de si própria ao longo dos 33 primeiros anos de vida, Maria Filomena Mónica acaba por o transformar num retrato sociológico - e antológico - de uma geração que ainda hoje está no poder, ou por perto, exibindo a sua vida como um filme de muitas horas, que se vê sem doer o rabo.”
Não dói mesmo. É uma delícia!
Pensamento do dia: ainda que algumas vidas nos pareçam bem mais ricas e glamourosas do que a nossa, composta de miudezas e insignificâncias, o consolo é que tudo acaba igual!

novembro 15, 2009

13 de novembro de 1982

No último dia 13, antes de ontem, montei um slide show com imagens de mães, 'na arte e na vida'. Não sei se alguém viu. Nem se vendo percebeu algum significado. Creio que não . Como quer que tenha sido, agora ficam sabendo: naquele dia eu estava fazendo aniversário. Comemorava o dia em que me tornei mãe. Esta trajetória biológica, social, psicológica ou tudo isto junto, que nos leva a, num dado momento, pensar em ter filho, pode parecer, para alguns, meio banal. Afinal, o ato de procriar acontece com uma certa frequência no reino animal. Porém, ser mãe não é a mesma coisa que, simplesmente, ter um filho. Ser mãe é uma experiência transformadora. Nenhuma mulher que é mãe continua a mesma. Vi esta transformação não só em mim. É claro que, dentre as mulheres, sempre há aquelas para quem um bebê vem completar a mobília doméstica. São as que casaram porque ' estava no tempo', porque fica mais difícil depois dos 30 ou porque as amigas da faculdade já casaram, enfim...Essas têm filhos. Não foi o meu caso, pois quis ser mãe acima de qualquer coisa. E foi assim que me tornei uma pessoa melhor.
Quando minha filha ainda era um 'pacote' no berço, com aquela carinha indecifrável de joelho, descobri em mim uma energia e uma generosidade que deviam estar bem escondidas até ela nascer . Por outro lado, a maternidade me fez mortal e atenta. Passei a temer por tudo que me pudesse acontecer, enquanto ela não pudesse sobreviver sozinha .Busquei, incansavelmente, a coerência entre idéias e atitudes, a medida certa para o equilíbrio entre o ' bater e o assoprar', permitir e negar, prender e soltar. Fiz por onde manter os fios da amizade e da confiança sempre a nos ligar, a fim de que pudessem ser puxados se, ou quando, fosse necessário.
Queria explicar-lhe o mundo e poupá-la de aprender ' quebrando a cara' . Isto a que chamam de 'experiência própria' não queria para ela. Quando me perdia, tinha dúvida ou me desesperava, dizia para ela:' me desculpe mas estive num curso de preparação para fazer tudo que fiz ou faço, mas para ser mãe não tem curso, nem você veio com manual de instrução...posso estar cometendo os piores erros, mas não sei de outro jeito.'
Claro que ela não sabia de que eu falava, como não entendia outras tantas coisa que comecei a explicar para ela ' antes da hora' (na dúvida quanto a hora, tinha medo de me atrasar) . Lembro que a partir de um momento, não sei qual, comecei a fazer com que ela tivesse consciência de que, sendo mulher, ia ter que ser muito boa em qualquer coisa que resolvesse fazer, mas ia ter que provar isto todo dia. Falei-lhe do leão que ia ter que ser morto, enquanto os seus pares, do sexo masculino, talvez se permitissem até ser medíocres....
Quando afirmo que a maternidade é transformadora é também por nos levar a cometer estes disparates, na vontade de acertar e de proteger a cria.
Foram tantas as coisaas que aprendi por ser mãe que fico pensando no quanto esta dívida é impagável. Por mais que a encha de beijos e totinhas....

A apoteose do sublime


Pierre et Gilles, na verdade, Pierre Commoy (fotógrafo) e Gilles Blanchard (pintor) se conheceram, nos anos 70, numa festa na casa do Kenzo. Juntos na arte e na vida, desde então, criaram as bases para o surgimento do que se entende por estética homoerótica nas artes visuais.
No trabalho dêles há espaço para tudo. Da cultura pop aos excessos histriônicos de David LaChapelle, existe um substrato de arte séria, o brilho industrial de Jeff Koons, cartuns que vazam testosterona de Tom of Finland, a base pop de Warhol e, da literatura, os marinheiros, safados e sofridos de Jean Genet.
É uma das últimas exposições programadas para o evento 'Ano da França no Brasil'.
No Rio no Oi FUTURO

Berço e criação

"Saí do berço ouvindo que quem herda não furta. Pode-se entender o provérbio em sentido jurídico, mas o contexto sempre apontava outra coisa: não é crime parecer-se com alguém. Algo como, para ficar nos provérbios, "quem puxa aos seus não degenera".
A biologia é obcecada com o sentido desse verbo, "herdar". Debate-se há séculos quanto de nossas disposições gerais, em especial de temperamento, são "causadas" por fatores herdados. Para muita gente, isso significa deixar de ter responsabilidade pelo que são, e até pelo que fazem.
A partir do século 20, o problema foi enquadrado na moldura dos genes. Começou-se a falar em genética do comportamento, da violência, da orientação sexual etc. Assim como o escorpião da fábula explicou ao sapo que ferroá-lo estava em sua natureza, há quem acredite safar-se alegando: "Está no meu DNA".
É a velha questão "nature X nurture", que traduzo livremente do inglês como berço X criação. A genética, turbinada pelo Projeto Genoma Humano, teria resolvido o dilema em favor do primeiro termo. Até os anos 1980, houve certo predomínio da psicologia (ambiente, ou criação), logo substituída por explicações "mais científicas", genéticas (natureza, ou berço).
Esse determinismo genético saiu de moda há anos, na intimidade do meio científico, mas tem apelo irresistível no público e é tolerado por pesquisadores. Caiu em desuso técnico porque é falacioso. Seu defeito está em confundir "genético" com "hereditário" ou "inato", pois nem tudo que afeta os genes ocorre antes do nascimento.
Mais um estudo que põe essa dicotomia em xeque foi publicado eletronicamente pelo periódico científico "Nature Neuroscience" na semana passada. Chris Murgatroyd, pesquisador do Instituto Max Planck de Psiquiatria, de Munique, mostrou que experiências traumatizantes na primeira infância podem deixar marcas duradouras na fisiologia e no comportamento que nada têm a ver com o conteúdo dos genes, mas sim com a expressão desse conteúdo.
É o que se chama de epigenética, anotações que a experiência vivida deixa no genoma. Elas sinalizam quais genes do acervo de mais de 20 mil podem e devem ser usados em cada circunstância. O grupo de Murgatroyd investigou em camundongos o efeito de estresse em filhotes separados da mãe três horas por dia nos primeiros dez dias de vida.
A equipe descobriu que, já adultos, os roedores estressados quando filhotes tinham níveis elevados de um hormônio, a vasopressina, associado com o humor e, em humanos, com a química da depressão. Viu, ainda, que esse aumento decorre de marcas indeléveis deixadas no DNA. É óbvio que o mecanismo pode não ser o mesmo em seres humanos, mas é difícil de acreditar que não haja coisas similares agindo dentro de nós. Somos o resultado não só do que está em nossos genes, mas também do que se superpõe a eles. Nem berço nem criação, mas berço-e-criação.
Essa visão menos determinista nos convida a investigar, ponderar e influir tanto no que está no DNA quanto no modo como criamos nossos filhos e jovens e como tratamos a nós próprios. Como já foi dito, somos o que fizermos do que fizeram de nós. Incrível: descobri no Google que o imortal Walter Franco tem uma música intitulada "Quem Puxa aos Seus Não Degenera". Nela se encontra a seguinte estrofe, que talvez nos inspire a ser mais tolerantes com as feras criadas por aí: "Daí meu pai disse / Meu filho, espera / A inocência que há / No olhar da fera"."

MARCELO LEITE

novembro 14, 2009

Homofobia

O POVO - Opinião
A picanharia homofóbica
04 Nov 2009 - 00h54min

Sábado passado tive uma triste notícia. Descobri que uma das ``picanharias`` mais badaladas da cidade tem como hábito expulsar homossexuais de seu ambiente.
Segundo o seu gerente, essa ordem vem de cima, dos donos do recinto e ele nada pode fazer quanto a isso. Se você não está acreditando nisso, não se preocupe, eu também quase não acreditei quando ouvi tamanho absurdo!
Fiquei chocada, afinal de contas, estamos em 2009, vivemos numa democracia, respeitamos a diversidade, a Constituição e levamos muito a sério o princípio da isonomia. Então me diga agora por que raios alguém justifica a humilhação alheia pelo fato dessa pessoa ser supostamente homossexual?

MIRELLA QUESADO
Fortaleza-CE

São notícias como esta que me fazem encampar a idéia de que precisamos criminalizar a homofobia. Bem a propósito, tramita o PLC 122 no Senado que está querendo saber a opinião dos brasileiros sobre este projeto de lei.
Não deixe de se manifestar a favor no link :
http://www.senado.gov.br/sf/senado/centralderelacionamento/sepop/
na 'enquete' no lado direito do site.

Luis Buñuel


La Belle de Jour, um filme que em 1967 era considerado “impróprio”, passa hoje às 18 hs, na TV ( Canal Brasil - para quem se interessar). Como diz a crítica (e eu concordo) é um dos melhores filmes do Buñuel. Por ser ele um autor muito diversificado e inovador, não é fácil dizer em que momento a sua insolência se revelou em sua melhor forma.
La Deneuve, (vê-la nos faz sentir como é injusta a ordem do mundo que faz com que o tempo não pare) no papel de uma mulher fria na aparência, mas ardentíssima com os homens com quem costuma se encontrar num bordel que frequenta, onde realiza as fantasias de seus parceiros sexuais e as suas próprias. O seu marido faz o tipo que as mães querem para genro...
Para alguns, trata-se de um filme sobre um sonho. Mas sonho e desejo é o que a gente decide que seja. E o desejo nem sempre distingue o sonho da realidade que, afinal, podem ser a mesma coisa.
(Para o google "la belle de jour" é uma música do Alceu Valença...)
Vejam o que diz a Wikipédia: "O filme causou escândalo quando da sua estreia. Luis Buñuel é completamente inclemente na forma como nos apresenta esta história, e ataca os impecáveis costumes burgueses. A primeira cena apresenta uma fantasia de Séverine, onde esta é chicoteada e abusada sexualmente a mando do marido. Atualmente, numa época em que os limites do cinema são mais largos, o poder escandaloso das imagens é menor, mas o seu desconforto permanece intacto, representando a acidez do humor de Buñuel em detrimento da mera exploração da sexualidade. E não é só dessa vertente sexual que vive Belle de Jour, sendo que o realizador espanhol não resiste em conjugar essa temática com a dimensão religiosa: há uma delirante cena em que Séverine é abordada por um homem para reencenar um velório, e tal cena é construída quase como uma forma de comparação com uma fantasia de um cliente do bordel. Desde o seu famoso primeiro curta-metragem, Un Chien Andalou, Buñuel abordou essas temáticas sem medo e sem pudor."
É isto!

Com PH

A GRANADO PHARMÁCIAS, fundada em 1870, no centro histórico do Rio de Janeiro, próxima aos prédios administrativos do governo e das charmosas butiques e casas de chá da época, foi ponto de encontro de figuras como Rui Barbosa, José do Patrocínio e Pereira Passos, Sobrevivendo à passagem do tempo, além dos já famosos sabonetes vegetais de glicerina, criou linhas novas, nomes, com tipografias e elementos decorativos tirados de produtos antigos que servem de base a desenhos e formatos que, conservam o charme "de época". Nela se encontra, ainda, o Polvilho Antisséptico, registrado em 1903 por Oswaldo Cruz. Embora com nova embalagem, mantém o mesmo dourado, bronze e verde do rótulo original e a fórmula, por razões óbvias, ainda é a mesma. Sua logomarca art nouveau fez dele um ícone retrô à venda em qualquer farmácia.
Para saber mais sobre a história e folhear esta curiosa publicação O Pharol da Medicina clique no título do post.

Sábado para nada


Ojos de Brujo é um grupo que faz música experimental, Hip Hop Folk em Barcelona. Clicando no título (expressão de meu tédio) leia mais sobre eles.

novembro 13, 2009

Casa-grande e senzala em concerto


"No Rio de Janeiro de 1926, numa noitada de cachaça e violão, o jovem antropólogo Gilberto Freyre, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda e o maestro Heitor Villa-Lobos conheceram e se maravilharam com Pixinguinha e Donga tocando seus sambas e choros, revela Hermano Vianna em “O mistério do samba”. Era o encontro da arte popular com a erudita, que se tornaria uma das marcas mais fortes da cultura brasileira moderna. E da música de Villa-Lobos.
Pouco depois, com “Casa-Grande e Senzala” e “Raízes do Brasil”, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque davam forma e conteúdo ao Brasil do século 20, e VillaLobos conquistava a admiração internacional com a sua linguagem musical moderna e sofisticada — inspirada no choro, no samba e nos nossos ritmos populares.
Assim como Villa trouxe a música popular para a erudita, a sua influencia na obra de grandes compositores populares, como Tom Jobim, Edu Lobo, Egberto Gismonti, Milton Nascimento e Guinga, levou a música erudita para a MPB. Tom Jobim cultuava Villa-Lobos como mestre e modelo, como seu pai musical, até no amor ao charuto, e dizia que toda a base harmônica da bossa nova já estava em uma peça de Villa-Lobos de 1940. Algumas das melhores músicas de Tom Jobim, como as obrasprimas “Matita Perê” e “Saudades do Brasil”, homenageiam o grande mestre em algum lugar entre o popular e o erudito.
Edu Lobo sempre teve em Villa-Lobos e Tom Jobim as suas maiores referências musicais. Em toda a sua obra ressoam os fraseados e as harmonias de Villa-Lobos, via Tom ou em ligação de lobo para lobo.
No centenário de Villa, dois lindos discos celebram a grandeza e vitalidade de sua música em diferentes leituras. Em um, o baixista americano Bruce Henri, com décadas de bons serviços à nossa música e um pequeno time de grandes músicos, apresenta peças de Villa-Lobos em ambientação jazzística sofisticada.
Em outro, o fabuloso violonista e compositor Guinga, o mais villa-lobiano dos pós-jobinianos, une as suas origens suburbanas às inspirações do mestre em um disco de belíssimas canções originais, tão villa-lobianas, que se chama “Casa de Villa”.

NELSON MOTTA

Na arte e na vida