outubro 26, 2009

"Malone Morre"

O pessimismo é quase uma ciência exata...
"NUM DESSES dias cinzentos, quando o mundo parece alimentar em você aquela certeza de que a lógica do pior é a lógica do mundo, tropecei na citação: "Antes de mais nada, quero dizer que não perdoo ninguém. Desejo a todos uma vida atroz nos fogos do gélido inferno e nas gerações execráveis que hão de vir". É Samuel Beckett em "Malone Morre".
Muita gente acha que a literatura de Beckett existe pra escrevermos teses complicadas sobre como a época em que ele viveu foi descrente porque só se pensava em ganhar dinheiro numa Europa que se afundava no capitalismo americano, pós-Segunda Guerra.
E aí passamos a xingar a burguesia e sua breguice famosa e vazia. Eu nunca xingo a burguesia porque temo que o faça por inveja. Eu acho que textos como esse servem para nos manter de olhos abertos para o risco de que o coração resvale na descrença absoluta acerca da vida fora da miséria que escorre pelos muros do mundo. O pessimismo é meu pecado capital.
O pessimismo é uma geometria do mundo, quase uma ciência exata. Não acredito que a questão de Beckett fosse apenas um desespero "político-social". Se assim fosse, ele seria um escritor menor. O desespero só merece respeito quando vai muito além do político-social e escurece o Sol.
Em meados dos anos 1990, quando vivia em Paris por conta do meu doutorado, encontrei-me um dia com o filósofo Alain Finkielkraut num daqueles "cafés-cabeça" do Boulevard Saint German. Ele se dizia um pessimista. Discutíamos a literatura e a tendência, já forte na época, de afogar as letras no desejo brega de felicidade que hoje em dia satura o ar com seu fedor.
Para ele e também para mim, era claro que grande parte da culpa disso era da esquerda e sua natural vocação para esperanças bobas, quando se afasta de autores mais pessimistas como Adorno. Sempre suspeitei que o pessimismo fosse um regulador de caráter. A esquerda sempre teve uma vocação para o terror, para o desbunde, para a incompetência ou para a preguiça.
Seu argumento era muito parecido com o do escritor tcheco Milan Kundera: um romance deve criar dúvidas sobre o mundo, deve gerar um surto de insegurança e não passar esperanças em si mesmo ou no mundo. Como diz Kundera, "a burrice das pessoas vem delas terem resposta pra tudo". Finkielkraut comparava então romances como "Madame Bovary" e "Educação Sentimental" (ambos de Flaubert) a romances que oferecem soluções para a vida.
Se Emma Bovary nos ensina que o desejo é um companheiro destrutivo, ao mesmo tempo nos pega pela mão e nos leva a uma vida insípida onde não há desejo e da qual ela foge.
O confronto entre as duas formas de vida, sem solução, é a força da personagem. Mesmo que Emma tenha se transformado, para muitos de nós, naquele arquétipo da mulher de 40 anos com uma taça de vinho branco nas mãos, com os seios já caídos, que aborda homens em lançamento de livros ou em exposições, falando como sua vida está aquém de sua alma, ou mesmo desvalorizando o parceiro que tem, a verdadeira Emma Bovary encarna o risco que é apostar no desejo.
Mas uma vida sem desejo não vale a pena ser vivida, por isso ela é uma grande heroína: sua grandeza mora ali onde mora sua maldição.
Que distância dessas bobagens que psicólogas de recursos humanos gostam de ler e recomendar para seus funcionários ou que estes conferencistas motivacionais e de liderança gostam de citar como exemplo de vida para suas plateias atordoadas pelo pânico da vida.
Por exemplo, o que dizer a uma mulher ou a um homem que vê sua energia se apagar diante do sorriso de alguém mais jovem, oferecido docemente ao seu parceiro ou sua parceira? Nesse momento, a insegurança sobe à boca, inundando-a de uma saliva azeda, mas com aquele insuportável sabor que a verdade tem.
A solução ridícula então vem aos olhos, e eles falam: "Posso eu competir com essa fisiologia fresca e bela?". E aí vem o socorro da má literatura. Mas, quando em casa, à noite, no espelho, você se olha, dificilmente conseguirá esconder o desejo de que ninguém jamais seja perdoado porque você é infeliz, e de que todos que nasceram depois de você sejam execráveis, pela simples razão que ainda têm mais vida. Talvez Finkielkraut, Kundera e Beckett sejam excessivamente duros conosco, mortais. Às vezes parece que a consciência que eles nos cobram é excessiva. Uma certa dose de inconsciência se faz necessária para enfrentar as horas."
LUIZ FELIPE PONDÉ

outubro 25, 2009

Rio de Janeiro

Clicando no título: uma foto que permite uma visualização de 360º da cidade do Rio de Janeiro ao som de João Gilberto. Lindíssima!

ANOS 60


Neste apanhado, além de não ter havido qualquer preocupação com a cronologia dos fatos da década, foi omitida referência aos Beatles, séries de TV, futebol...dentre outras coisas que não me tocaram. Clicando na música (esquerda abaixo) abre um vídeo com imagens interessantes da época. Ficando na imagem de entrada, observe que o som pode ser eliminado.

A cidade e a poesia


"As cidades são como as pessoas, têm os seus segredos, e às vezes guardam-nos bem guardados. Há quem goste muito do Porto e há quem o desteste. Queria falar desta cidade “tão masculina” sem nenhum peso de erudição, que é coisa tão inimiga da poesia, que só Borges, que eu saiba, lhe conseguiu arrancar alguns versos dignos da sua prosa. Também não me parece leal contrapor-lhe outras cidades e, menos ainda Veneza. Toda gente sabe que se Veneza não cheirasse a água podre seria incomparável, mas cheiro por cheiro antes o de Marraquexe; Marraquexe cheira a cavalos que é cheiro de homem. Há quem goste do Porto, dizia eu; Marguerite Youcenar - ninguém sabe, porque foi a mim que o disse - andou por aqui dois dias fascinada com a Ribeira e as encostas da Sé .Isto de gostar não tem explicação fácil . O mais simples é, se nos pedem razões, dizê-lo como as palavras de Montaigne: Parce que c' était lui, parce que c' était moi. Mas não só o amor tem estranhos mecanismos ..."
(Eugénio de Andrade, em À Sombra da Memória)

Casa do Infinito

"Hoje é um dia muito especial. Entrei na casa dos 80 anos. Aquela casa que é do infinito. A impressão que tenho é de não ter envelhecido, embora esteja instalada na velhice. O tempo é mesmo irrealizável... Já chorei muito de manhã. Ao acordar, chorei muito. Depois me acostumei."

Fernanda Montenegro, no dia de seu aniversário (16),para a plateia do monólogo Viver sem Tempos Mortos, no Rio.

outubro 23, 2009

Por falar em estrelas...

Para que Hércules se tornasse imortal, deveria ser amamentado quando criança pelo seio de sua madrasta Hera, a mulher de Zeus (Júpiter na mitologia romana). Hermes (Mercúrio, para os romanos), outro filho de Zeus, colocou a criança no seio de Hera enquanto ela dormia. Ao abrir os olhos, ela se soltou do pequeno Hércules, mas ele já tinha sido alimentado. O leite que escorreu do seio de Hera deixou um rastro pelo céu. Foi assim que “nasceu” a Via Láctea. Há outra versão...

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim


Torquato Neto
Poema que figura entre "Os cem melhores poemas brasileiros do século", pág. 269. 

outubro 22, 2009

“Digitai para viver”

Este é o lema do Ivan Lessa que é colunista da BBC Brasil e este é o seu texto de ontem:
"Eu sou muito mais moço do que pensam aqueles que me veem bengalando meu caminho pelas ruas de LondresNinguém me dariamais que 47 anos. Vá lá que seja: 57 anos. Isso porque só podem assistir a ruína a que meu pobre corpo ficou reduzido, conforme diz a velha canção do bom Ary Barroso. Não podem ver o decatlo moderno disputado com vistas a medalha ao menos de bronze pela minha vida interior.
Mentalmente, tenho meus sacudidos 30 e poucos anos. Meu cérebro bate bola em praia ou terreno baldio. Minhas faculdades mentais dão a volta ao quarteirão com o português do armazém correndo atrás, e não me pegando, depois de eu roubar a coxinha de galinha e a empada de palmito.
Não pratico esportes. Não faço ioga. Alongamento ou Pilates. Meu segredo, minha receita para uma vida saudável, para chegar com alguma dignidade e boa disposição física ao crepúsculo final que nos espera a todos é muito simples e nada tem a ver com regimes e essa enganação de alimentos “orgânicos”. Não. Sento. E sento e sento e sento.
Não só diante da televisão e os DVDs alugados, que isso é recreio, hora da engorda mental, confeitos que só engordam o já castigado cérebro. Sento diante da mesa em que se alojam, como precioso relicário, o computador, com todos seus adereços habituais: teclado, camundongo, USB para isso e aquilo outro, dongles e, vez por outra, suas inevitáveis chateações.
O conjunto, comigo a manobrá-lo, confortavelmente sentadão, é o que me mantém, e ainda manterá, por muito tempo, com a mente sã e distante de qualquer “andador”, por mais moderno e estético que seja.
Amigos – mais: irmãos – de cabelos cor de prata, eis o segredo que a ciência acaba de endossar: googleie para viversem demência ou sentir nas costas o toque gelado dos dedinhos finos de Alzheimer. O vovô e a vovó podem reverter o processo da senilidade ao simples digitar cibernético.
Eu acabei de dar uma chegada ao Google para ver se encontrava um substantivo em português neo-reformado para a palavra “dongle”. Neris de petibiriba, conforme dizemos nós, os com mais de 35 anos de idade. No entanto, a simples busca adiou, nem que seja por um átimo (confiram no Houaiss virtual), o processo degradante do envelhecimento.
Lá está, no jornal: Gary Small, professor de neurociência e comportamento humano da Universidade da Califórnia, Los Angeles (a mais que prestigiosa UCLA) declarou que “os cidadãos mais velhos, mesmo com um mínimo de experiência, terão alteradas de forma positiva suas atividades mentais e seu devido comportamento”.
O grande Small e sua equipe trabalharam durante algum tempo com 24 idosos entre as idades de 55 e 78 anos, submetendo-os a toda sorte de testes, modernos e tradicionais. Metade dessa gente boa e de bela idade era chegada à net. Precisamente a metade mais cheia de vida, mais sagaz. Tudo foi segundo o mais avançado método científico à disposição da UCLA. Não deu outra coisa: mexeu com o teclado do computador, digitou, buscou, achou, não achou, dá na mesma: a atividade cerebral do internauta foi estimulada com oxigênio extra e uma boa dose de nutrientes, ou nutritivos. No que o sangue benévolo saiu jorrando inteligência pelas partes mais recônditas do cérebro dos… quase que digo anciãos. Cérebro dos sempre jovens e atentos cibernautas.
“Digitai para viver” passou a ser o meu lema. Viver mais e melhor, com mais inteligência e sensibilidade. Googlai, irmãos, googlai!"

disposição cética

"Duvidar não significa descrer. Quem descrê já não duvida. Duvidar significa crer em coisas distintas e incompatíveis, ao mesmo tempo. O Ceticismo apareceu na Grécia pelo século III A. C., quando a cultura grega estava saturada de experiência criadora, possibilitando opções múltiplas e divergentes. Em essência, a disposição cética revela-se como forma refinada de tentação intelectual para gozar a simultaneidade dos opostos. Cético é quem experimenta a inefável fruição do possível, ora crendo que sim, ora crendo que não... O cético disfarça seu embaraço opcional, pela superior destreza, pela fina elegância com que se mostra capaz de seduzir ouvintes ou leitores ao sustentar os argumentos mais contraditórios sobre o mesmo assunto."
Gilberto de Mello Kujawski, in Descartes existencial

Lágrimas de Eros


"Eros y Tanatos, pulsión de vida y pulsión de muerte. La relación entre estos dos elementos en una exposición temática que recorre como el arte, ya sea pictórico, fotográfico o escultórico, se ha acercado al mundo del erotismo. Con el ojo puesto en Georges Bataille y su obra 'El erotismo', esta exposición le hará reconsiderar conceptos como el de orgasmo, el amor o el tabú en un recorrido tan intenso como sensual. Atrévase"... clicando no título que te levará ao site do Museo Thyssen-Bornemisza y Fundación Caja Madrid. A mostra é inspiradora. Ao final o visitante pode passar na lojinha do museu e adquirir uma caixinha com preservativos ilustrada com a obra "Adan y Eva" de Jan Gossaert.

Dia da Criança

"Todos já fomos crianças. Muito parecidas entre si, se levarmos em conta o "nosso tempo" de cada um. Mas o tempo pinta a criança de jovem, logo depois de adulto e mais adiante de idoso.
Um dia, porém, nos perguntamos: "Cadê a criança que estava aqui?" Aquela cheia de sonhos e fantasias, que não parava nenhum minuto e perguntava o tempo todo, desafiando a lógica e a política na mais fascinante simplicidade. Caaaalma! O gato não comeu.
A criança não morreu. Apenas dorme, dentro de você, de mim, de todos nós. Por vezes, permitimos que acorde e fale, surpreendendo aqueles que nos cercam. Isso é agradável e necessário para que tenhamos saúde e equilíbrio.
Não se incomode, pois, com uma repentina vontade de brincar de casinha, de querer ver desenho animado ou de se imaginar herói superpoderoso.
A mente precisa, em todas as idades, de uma farta dose de fantasia para poder lidar com as agruras do cotidiano.
Lógico é que, a cada ação, devam-se estimar as possibilidades de risco, mas para isso existem aqueles que não estão envolvidos na mesma aventura.
"Parece criança!" é a frase que geralmente denuncia alguém atento para moderar as atitudes de quem se permitiu "viajar" em sua fantasia. Para tal, além de alimentá-la, temos que falar dela sem muitas restrições e ouvir quem dela fale sem demonstrar espanto ou contrariedade.
Frequentemente sou procurado por filhos e netos que julgam que seus parentes idosos estejam apresentando um distúrbio de comportamento por estarem pensando em começar um novo negócio ou treinando para uma competição esportiva. Não percebem que a necessidade de enfrentar um novo desafio ou de vivenciar uma experiência inédita alimenta nosso espírito empreendedor.
Em resumo, existe em cada um de nós a mesma curiosidade e o mesmo interesse que manifestamos quando demos os primeiros passos, fizemos as perguntas mais simples e vencemos nossos limites mais básicos. Isso se perpetua pela vida toda, e a necessidade de pertencer ao meio e desafiá-lo se mantém constante.
E quando, em convívio com aqueles que -por motivo de doença- chamam os netos pelos nomes dos filhos ou querem insistentemente voltar para casa mesmo estando nela, saibamos ter a complacência necessária para permitir que possam mudar a realidade sem culpa e sem a necessidade de se enquadrarem na verdade absoluta, mesmo porque esta, racionalmente, inexiste.
Se fomos capazes, um dia, de brincar com nossos filhos ou netos, fazendo de um cabo de vassoura um cavalo imponente ou de uma boneca a filhinha que precisava ser amamentada, haveremos também de saber lidar com essa condição de realidade imaginária manifesta pelo idoso. Basta nos lembrarmos das brincadeiras de outrora.
A criança que fomos um dia viverá sempre no íntimo de cada um. Somos os únicos capazes de mostrá-la ou de mantê-la escondida para sempre."

WILSON JACOB FILHO

Mulheres...


500 anos de arte ocidental e interessantes metamorfoses.

outubro 20, 2009

pensar em nada

"Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora."


Fernando Pessoa "Ficções do interlúdio: Poemas completos de A. Caeiro"