agosto 08, 2009

Cherchez la femme

No blog do Antonio Ribeiro: A bela dominou a fera.
" Rosto angélico, ela tem silhueta quase perfeita. A destreza mental, a habilidade de atrair admiração sobre si está bem acima da média do mundo que a fez célebre — o ambiente onde a beleza reina sobre todas virtudes e abranda os piores defeitos. Contudo, Carla Bruni, primeira-dama da França, vem sendo louvada e, ça va de soi, criticada por mais um papel inusitado nos seus 41 anos de existência — eles parecem menos. A bela dominou a fera. Carla conseguiu imprimir ascendência na forte personalidade do marido Nicolas Sarkozy.
Pelo início — há quem diga: “pela fraqueza da carne”. A primeira-dama colocou o corpo do presidente francês, de 54 anos, sob sua tutela. Seguindo instruções de Bruni, Sarkozy abandonou o velho hábito de devorar chocolates, doces e sorvetes. Ele agora é do time que come com moderação. Frutas e queijos magros entraram no cardápio presidencial.
Três vezes por semana, o presidente corre e faz exercícios com Julie Imperiali, de 26anos, a personal trainer de Carla, famosa por seu médoto que fortalece os músculos da região pélvica — espécie de Pilates, brevetado após toques pessoais da ex-bailarina e ginasta cuja máxima sustenta o fazer bem ao físico, conforta a alma.
Sarkozy é aluno exemplar na avaliação de Imperiali. Para outros, ele exagera na dose. Isto para agradar ou acompanhar - ou ambos — o ritmo de Carla, 14 anos mais jovem. A dedicação é tamanha que, depois do mal-estar durante 45 minutos de jogging sob calor de 30 graus, nos arredores da residência presidencial de La Lanterna, em Versalhes, seguido de internação hospitalar, o dedo acusador foi apontado para primeira-dama.
Verdade ou não, pondera-se, Sarkozy não tem queda por meias medidas. Obsessivo é um adjetivo justo. Cai-lhe muito bem, ele não contesta. Um dado emblemático: Sarkozy voou 300.000 quilômetros em um ano, média de 820 quilômetros por dia para realizar visitas oficiais fora da França.
Já não se vê mais o presidente francês com ostensivos relógios Rolex no pulso. Procure o mordomo? Não, busque a mulher. Aqui é inegável. Bruni acabou com o estilo Bling Bling do marido. O mau gosto típico de endinheirados sem refinamento, “o cheguei, olhem para mim”, motivo de escárnio. Doravante ou pós-Carla, Sarkozy lê as horas pelos ponteiros de um elegante Patek Philippe, presente do rapidíssimo casamento.
Os ternos presidenciais agora tem a sobriedade dos tons escuros. As camisas inglesas, brancas ou azuis claras, são marca Hilditch & Key, pano de fundo para as gravatas negras ou, no máximo, cinza chumbo. Se a França, referência mundial de elegância, deve algo a italiana Bruni, é de ter feito seu presidente parecer presidente.
A influência não ficou só no visual. Carla operou em profundidade. Algo que pode, se sensibilidade houver, despertar admiração de Marisa Letícia à Michele Obama. Inspirar seria sugerir o impossível. Bruni despertou em Sarkozy o interesse pela literatura francesa — de Guy Maupassant a Françoise Sagan. Isto não é pouco em um país que se vê como o mais autêntico herdeiro da cultura ocidental.
No mês passado, em lance raro, Sarkozy surpreendeu os franceses declarando que estava lendo La Princesse de Clèves, livro anônimo da escritora Marie-Madalene de La Fayette, publicado em 1678. O romance histórico, considerado o pontapé inicial da prosa moderna francesa, relata um encrencado triangulo amoroso, parte incontornável do currículo escolar dos colegiais franceses.
A primeira-dama introduziu a obra de Bod Dylan no Palácio do Elysée, o autor americano que fez a cabeça dos Beatles com drogas e versos desconcertantes, a sua voz de taquara rachada foi fiel trilha sonora dos conturbados anos 60.
“Você não pode vencer só com o apoio dos intelectuais, mas não ganhará sem eles”, disse Sarkozy em uma surpreendente entrevista a revista Nouvel Observateur que deita lhe o malho muito antes do primeiro dia do seu mandato. Isto é Carla Bruni, esculpida na toscana Carrara, sem tirar nem por. O presidente francês prepara sua reeleição. O seu melhor cabo eleitoral dorme debaixo dos lençóis de sua cama."

Radio Cinema

Esta é para quem gosta de música, de cinema ou dos dois. Descobri só hoje (estou sempre meio atrasada!) esta radiocinema.fm, que toca somente trilhas sonoras.
Clic no título para acessar, adicione aos 'favoritos', ligue e fique.

agosto 06, 2009

Rir para não chorar

Outras idéias

"Duvido que muitos brasileiros se identifiquem com o colunista americano Herb Caen, que confessou: "Costumo viver no passado porque minha vida está quase toda lá". Neste país do futuro, consumidores valorizam o que é novo ou está na moda, e "progresso" é o lembrete inscrito na bandeira. Aqui, dizem: "Quem vive do passado é museu". Os brasileiros vão a museus ver arte contemporânea, e não artefatos culturais. Ao contrário dos europeus, têm pouca ligação com a própria história. Aqui, cidades coloniais têm sofrido décadas de descaso. Em comparação, os italianos glorificam seu passado preservando grande parte da Roma antiga e usando vilarejos toscanos como repositórios de arte e arquitetura medieval e renascentista. Os alemães confrontam a vergonha de seu terrível passado do século 20 construindo museus do Holocausto e memoriais em campos de concentração e fazendo filmes sobre atrocidades nazistas Os brasileiros, no entanto, vivem no presente hi-tech.
O Brasil se gaba de ter o quinto maior número de usuários da internet no mundo e 50% de todos no Orkut. O Rio é a capital mundial da cirurgia plástica, que remove traços do passado do rosto. Brasília, que JK disse ser projetada como "uma ruptura total com o passado", ainda parece futurista 49 anos depois. E carrões superequipados são tão comuns que é difícil acreditar que João Goulart fugiu do país de Fusca.
Por não olharem para trás, os brasileiros não entendem a fascinação americana pelo ritual da reunião de turma. A cada década, centenas de colegas da mesma escola voltam à cidade natal para compartilhar lembranças da adolescência, uma parte crucial de seu passado.
Não perdi uma em 40 anos. O aviso do filósofo americano George Santayana -"aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo"- é ignorado aqui. Que outro povo tem memória tão curta que elege para o Senado um presidente que se retirou para evitar impeachment e mantém coronéis no poder depois de abusarem do mesmo? Corrupção e impunidade são tradições tão antigas e enraizadas que expõem uma das maiores contradições do Brasil, que é também o país do passado.
Esta também é uma cultura centrada nos jovens. Ao contrário das culturas chinesa e indígena, não venera os mais velhos pela sabedoria. Aqui, os idosos se sentem inúteis. Então, raramente aparecem em público, como em Pequim, onde praticam artes marciais nos parques, ou em Amsterdã, onde passeiam de bicicleta. Aqui, assistem à parada passar de suas janelas.
O idoso vive mais no passado do que os outros porque muito mais de sua vida está lá. Ainda assim, o passado se acumula atrás da gente a cada respiração. Mas só tem valor se você aprende com ele.
Ou, como disse Kierkegaard: "A vida só pode ser vivida olhando-se para a frente, mas só pode ser compreendida olhando-se para trás". "
MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 26 anos no Brasil.

Entre pai e filha

"ESTREOU NA semana passada "À Deriva", de Heitor Dhalia.
O filme me encantou pela coesão entre o drama de Filipa, que tenta sair da infância e se tornar mulher, e a alternância entre planos fechadíssimos (como se a câmara procurasse nos dar acesso ao interior dos protagonistas) e planos abertíssimos, mais raros (as praias de onde saem os barcos que podem nos levar para o mar e a vida). E há a performance contida e justa dos atores: Vincent Cassel (o pai), Débora Bloch (a mãe), Camilla Belle (a amante do pai) e a inesquecível Laura Neiva (Filipa, a filha).
Mas o que mais importa é que Dhalia nos oferece um filme que conta de maneira perfeita (peso minhas palavras) o processo delicado e comovente pelo qual uma menina se torna mulher. Não digo "um" processo mais ou menos desastrado e quem sabe patogênico, mas um caminho "certo": o que é preciso para que uma menina, como Filipa, aprenda a amar e a ser amada fora de casa.
Se Freud assistisse a "À Deriva", ele dedicaria ao filme um texto magistral, não sem reafirmar, mais uma vez, que encontramos mais saber na ficção da arte do que nos esforços, sempre grosseiros, de expor nosso entendimento. Sem o gênio de Freud e com a mesma convicção, aqui vou eu.
Para que uma menina se torne mulher -por exemplo, ao longo de um verão- pode ser útil que ela descubra que o pai pode, sim, desejar outra mulher que não seja a mãe e não seja ela, a menina. É também preciso que, não por isso, o amor da menina pelo pai se transforme de vez em ódio ou no ressentimento do ciúme. Ajuda, para evitar que a menina se encalhe numa birra dolorosa, a descoberta de que a mãe também é capaz de desejar outro homem que não o pai.
Nessa altura, a menina ainda poderia decidir que o desejo é uma "porcalhada" dos adultos, e talvez fosse melhor ficar no limbo da infância -quem sabe renunciando definitivamente a todo prazer sexual ou, pior, a toda vida amorosa. Ou, então, ela poderia se tornar para sempre uma espécie de paladina do pai, à espera do dia em que, ele envelhecendo, ela poderá ser sua enfermeira e companheira até a morte.
Há uma condição para que esses caminhos de renúncia não sejam uma escolha forçada: é necessário que o pai se dê conta um dia de que sua filha não é mais uma menina, e que a filha seja e se sinta reconhecida como mulher pelo olhar paterno.
Na apresentação de "À Deriva" no Festival de Paulínia, a plateia (ou parte dela) achou que o tema do filme fosse o desejo incestuoso. Entendo, mas nada a ver. O caminho pelo qual uma menina se torna adulta é quase uma alquimia: existe um fio tênue, mas decisivo, que separa um desejo paterno incestuoso de um olhar do pai que confira à menina a certeza de que ela é desejável como mulher.
O desastre espreita a menina de ambos os lados, tanto se o incesto se realizar quanto se faltar um olhar que confirme que ela está se tornando mulher.
Não são raros os pais que caem das nuvens (justificadamente) quando, já adultas, as filhas os acusam de ter tido desejos ou mesmo gestos impróprios com elas quando eram crianças e adolescentes. Na grande maioria dos casos, trata-se de fantasias necessárias, maneiras de a mulher rememorar que, quando era menina, o pai enxergou nela a mulher que ela viria a ser.
Essa lembrança é tão necessária na vida de uma mulher que, para mantê-la viva, ela pode colori-la e deformá-la - atribuindo-lhe, aliás, a aparência de uma realização de seus próprios antigos desejos incestuosos pelo pai.
Mais grave é o caso em que essa lembrança não se constitui ou se apaga. Nessa eventualidade, a menina pode viver toda sua vida de mulher convencida de que nunca foi e nunca será desejada.
Um detalhe, para evitar mal-entendidos: na vida de uma menina, qualquer homem que esteja na hora e no lugar certos (avô, padrasto, professor e por aí vai) pode exercer a delicada função do pai.
Qual é o desfecho dessa história que se repete a cada dia? O fim do filme comoverá qualquer pai de menina, e seria sacanagem com o espectador contar as últimas cenas. Digamos assim: quando a história acaba bem, o que sobra é a sensação de um amparo paterno, de um lugar de ternura e de amor para o qual é possível voltar para se lavar das eventuais asperezas e sujeiras do desejo, mas um lugar que não infantiliza porque o pai continua enxergando e admirando a mulher que a menina se tornou."

CONTARDO CALLIGARIS

Desembalados

Nós de uma certa idade lembramos do tempo em que os alimentos eram vendidos a granel, sem o excesso de embalagens que hoje se avolumam na nossa vida moderna. Achei esta notícia inspiradora: uma loja especializada em orgânicos de Londres, chamada Unpackaged, foi além do "reduzir, reutilizar e reciclar" e resolveu banir de vez as embalagens de boa parte dos produtos que vende.
Os fregueses são convidados a levar seus próprios recipientes - que vão desde as sacolas retornáveis de pano até vidros, tuperwares, ou qualquer outra coisa que possa acomodar as compras. Mas quem não tiver um vasilhame à mão pode pegar emprestado na própria loja - desde que traga de volta.
Além da preocupação com as embalagens, a Unpackaged mantém outros princípios ligados a sustentabilidade, como a compra da produção de pequenos fornecedores das redondezas, como cooperativas e grupos sociais.
Uma volta a um tempo que já conhecemos, menos ditado pelo descartável e pelo desperdício de materiais. Embalagens podem ser úteis, mas na maior parte das vezes vão parar no lugar errado. Que tal começarmos a pensar nisso?

Vida em Movimento

agosto 05, 2009

Utopia da eterna juventude

O culto à beleza e à juventude é sem dúvida uma marca do nosso tempo. A corrida em busca da perfeição estética foi bastante acelerada pela tecnologia. E a decadência do corpo é adiada por métodos cada vez mais sofisticados. Parece que desaprendemos como envelhecer. O Café Filosófico CPFL convidou o sociólogo e jornalista Marcelo Coelho para falar sobre o significado de nossa procura incansável pela fonte da eterna juventude. Clicando no título desta postagem vc acessa o vídeo (duração:103 minutos). Muito bom!

agosto 04, 2009

Premio São Paulo de Literatura

Ronaldo Correia de Brito venceu com o livro "Galiléia" a categoria Melhor Livro do Ano, no Premio São Paulo de Literatura. Algumas crônicas dele podem ser lidas aqui no blog. O que disse Paisagens da Crítica em janeiro, a propósito do livro premiado:

"Galiléia  talvez seja o melhor romance brasileiro de 2008. Certamente é um dos dois ou três que marcaram o ano. 
Ronaldo Correia de Brito, médico e cearense que mora no Recife, já mostrara sua prosa reflexiva e cortante nos contos de As noites e os dias, de 1997, e em Faca, de 2003.  
Com Galiléia, porém, vai bem mais longe e conta a história de uma família que gira em torno de seu patriarca, Raimundo Caetano. O lugar de encontro é a fazenda Galiléia, no sertão do Ceará, onde Raimundo sempre imperou e, agora, moribundo, vai morrer. Para lá vão netos que migraram para a cidade, lá estão os que permaneceram no campo. Cada membro da família construiu, ao longo do tempo, seu repertório de aflições e a visita à Galiléia provoca o cruzamento terrível das angústias.
Por isso, o livro é uma odisseia em busca do passado e apresenta, de modo proustiano, nossas dúvidas frente ao que nos compôs – lugares, pessoas, gestos e desesperos.  A dificuldade de entender os momentos que definiram o que somos, para o bem e para o mal. O tempo – disse Borges, substância formadora dos homens.
A questão – e Adonias, o narrador de Galiléia sabe muito bem – é que o passado não existe em si, nem dispõe de qualquer concretude ou unicidade: “Se fosse possível ter a resposta de todas as perguntas…”, pondera e lamenta Adonias. Mas ele não tem porque o tempo não é sequência, como gostaríamos de acreditar. O passado se faz e refaz a cada instante e suas dimensões, inúmeras, existem simultaneamente. Daí a dor de revisitar a fazenda; daí a dificuldade, vivida também pelos primos Ismael e Davi, de lidar com a imagem que seus itinerários pessoais produziram.
Não se trata mais de averiguar o que é falso e distingui-lo do verdadeiro. Porque a impossível verdade do passado impede qualquer julgamento posterior e assegura a persistência da dor. Irreversivelmente, o tempo resta perdido e nos aflige para sempre. Irreversivelmente.
É o efeito das dobras da memória, de sua impertinência e de sua violência. Mas Correia de Brito não confina seus personagens apenas aos labirintos do passado. Eles se perdem também na geografia do sertão. E Galiléia sonda, assim, o lugar do regionalismo na nova prosa brasileira.
Enquanto seus personagens viajam e cruzam estradas perdidas, o narrador constata saber de cor os nomes das plantas da caatinga, sem ser capaz, porém, de reconhecê-las. O almanaque mental – espécie de catálogo imaginário nos moldes de Funes, o memorioso: denso, complexo e inútil – ilustra a infertilidade do que é deslocado, do que se pretende autônomo e autossuficiente.
Porque o sertão de Galiléia é como o de Euclides da Cunha, de Graciliano Ramos ou de Guimarães Rosa. É como a Amazônia de Milton Hatoum – para ficar num paralelo atual. É a localidade “conversadora do mundo”. A parte que, sem o todo, não é parte. A parte que só existe nos vínculos complexos com o todo, com o que está além de seus limites estritos e restritos. É a aldeia – lembremos Octavio Paz – que permite pleitear a universalidade.
A ubiquidade do sertão, porém, não traz liberdade para seus filhos; o sertão os acompanha quando vão para o Recife, para Nova York ou para a Noruega. Ele se entranha na pele, assim como a infância, com todos os traumas possíveis e a dificuldade de decifrar o que nos formou. Tal qual o tempo, que devia libertar, mas não o faz, a geografia é prisão, é limitação. Não pelo que foi, mas pelo que somos e não conseguimos deixar de ser.
Assim, tempo e espaço de origem rodeiam os egressos da Galiléia e seguem com eles para onde forem. E a narrativa de Correia de Brito nos afoga a cada página, nos transtorna, como um bom romance tem que fazer. Como uma corda na garganta, o mar para quem se afoga"

por Júlio Pimentel Pinto 

O gato que gostava de cenouras

"O TELEFONE tocou. Queriam uma entrevista sobre o livrinho "O gato que gostava de cenouras". Não entendi o nome da revista porque estou ficando meio surdo e, por vergonha, não pedi que repetissem. A entrevista começou...
Gato gosta de peixe, de rato e de passarinho. Gato não gosta de cenoura. Numa terra de gatos, um gato que gostasse de cenoura seria uma aberração, uma vergonha para os pais, motivo de chacota e zombaria na escola...
O nome dele era Gulliver; carinhosamente, Gullinho. Seus pais não sabiam do seu gosto pelas cenouras. Comer cenouras era um ato secreto, escondido. Seus pais só se preocupavam com o fato de que ele não comia os deliciosos ratinhos recém-nascidos, os pardais saborosos, os peixes cheirosos que lhe traziam para abrir o apetite.
Gullinho era diferente dos demais gatos. E isso fazia seus pais sofrerem muito porque o que os pais mais desejam é que seus filhos sejam iguais aos outros.
O fato era que os pais de Gullinho ignoravam que ele, escondido, comia a comida proibida, cenoura... A mãe acabou por desconfiar das incursões secretas do Gullinho e disse ao pai que seria melhor segui-lo para ver onde ele estava se metendo. Foi o que o pai "sogateiramente" fez.
Gullinho caminhava com cuidado, olhando para todos os lados para ver se estava sendo seguido. Andou até chegar ao sítio do senhor Joaquim. Havia canteiros com todos os tipos de hortaliça. Gullinho foi até o canteiro de cenouras e -oh! Coisa horrenda para um pai gato- começou a comer cenouras.
O pai do Gullinho quase morreu de susto. Seu filho que ele sonhara tigre não passava de um coelho. E chorou amargamente...
Resolveu procurar auxílio. Procurou um padre que ameaçou Gullinho com o Inferno. "Deus é gato. Deus ordenou que nós comêssemos peixes, ratos e passarinhos.Comer cenoura é pecado mortal!" Mas não adiantou...Gullinho continuou a vomitar peixes, ratos e passarinhos...
Aí eles o levaram ao psicanalista. A análise durou vários anos. Mas o que o doutor Gatan lhe dizia com linguagem complicada não alterava o seu gosto: ele continuava a gostar de cenouras...
Foi então que um professor da escola chamou o Gullinho para uma conversa e lhe disse: "O nosso destino está escrito nas células do nosso corpo num "chip" bem pequeno chamado DNA. Ele já está no feto, determinando a cor do seu pelo, a cor dos seus olhos, se você vai ser menino ou menina, daltônico ou não, canhoto ou destro. Você nada pode fazer para mudar as ordens que estão no seu "chip". E acontece o mesmo com o nosso gosto por ratos ou por cenouras... Não é pecado, como o padre disse, porque foi o DNA que o fez assim... Não é resultado de educação porque foi o DNA que o fez assim... E nem pode ser curado, como se fosse uma doença, porque é o DNA que o fez assim... Igual ao daltonismo".
Gullinho olhou em silêncio para o professor e, pela primeira vez, entendeu tudo. E ele sentiu que um enorme peso fora tirado de cima dele. Entendeu então que ele podia gostar de cenoura porque fora o DNA que o fizera assim -e ninguém tinha nada com isso.
* * * * *
Eu ainda estava na cama quando minha filha me acordou.
"Pai, você apareceu na "G Magazine", a reportagem do gato..."
"Mas o que é "G Magazine'?", perguntei.
Aí eu entendi por que o assunto da entrevista tinha sido "O gato que gostava de cenouras"..."

RUBEM ALVES

agosto 03, 2009

Nem as paredes confesso


Lindo fado! Cantado sem drama por Antonio Zambujo que se acompanha ao violão e é acompanhado por um baixo e uma guitarra portuguesa.

Gonzagueando

Não sabia da existência da Orquestra Filarmônica do Ceará. Ontem a conheci num concerto em que prestava homenagem ao Rei do Baião, Luiz Gonzaga, na passagem de 20 anos de sua morte. O concerto Filarmônica Gonzagueando aconteceu no Theatro José de Alencar, tendo no repertório clássicos do forró, xote e baião, sob a regência do maestro Gladson de Carvalho, com participação especial do sanfoneiro paraibano Luizinho Calixto. Como dizem aqui: " Pense num programa bom!"

agosto 02, 2009

Exste uma estética homossexual (?)

A interrogação é minha pois a comparação entre uma série de obras literárias, entre às quais o inédito “O Pombo-Torcaz”, de André Gide, põe em dúvida o argumento.

"Assim como a homossexualidade não existe — o "homossexual" é só um personagem inventado pela psiquiatria do século 19 —, é no mínimo temerário falar de uma estética homossexual. Se existem apenas as relações homoeróticas, e não os personagens imaginários que o senso comum arrola no clichê do "terceiro sexo", preferir as relações com o mesmo sexo não define ninguém. Essa impossibilidade se reafirma na leitura de O Pombo-Torcaz, delicado conto que o francês André Gide escreveu no verão 1907 e que só reapareceu um século depois. No texto, publicado agora no Brasil, Gide conta a noite memorável que passou com um jovem chamado Ferdinand Pouzac, em Bagnols-de-Grenade, perto de Toulouse. O "pombo" do título é Ferdinand, apelidado assim por "arrulhar" quando fazia amor.
Com sua ética protestante e seus conflitos interiores, André Gide (1869-1951) se esforçou para produzir uma explicação "natural" para a homossexualidade, da qual nunca afastou seus ideais religiosos. Em um livro como Corydon (1924), ele apresenta a pederastia (no sentido grego, de amor entre um homem mais velho e um jovem) como um ramo da pedagogia e a homossexualidade como um fenômeno biológico. O esforço para tornar aceitável o amor homossexual levou-o a fundar uma ética naturalista e biológica, que percorre toda a sua escrita. Ética segundo a qual o amor (seja ele qual for) é, antes de tudo, uma manifestação da natureza. Ética que bane de cena o desejo e a subjetividade, e que está presente também no conto que agora se publica.
Menos dogmático que Gide, o furioso Oscar Wilde (1854-1900) lustrou sua vida sexual com o verniz do desafio, do vício e da decadência. Ao mostrar quão efêmera é a beleza, um relato como O Retrato de Dorian Gray reafirma um vínculo entre a homossexualidade e o "estilo" — seja ele nobre ou doentio. O amor homossexual não passaria, nesse caso, de uma afetação, como o esnobismo ou o pedantismo — que estão sempre presentes nos escritos do inglês. Em carta ao amigo Robert Ross, escrita dois anos antes de morrer, ele se arrepende dessa posição. Mas, em vez de avançar rumo à aceitação de si, recua. Escreve: "Eu teria alterado a minha vida se admitisse que o amor uranista era ignóbil". De fato, uma sombra negra percorre toda a obra de Wilde — sinal do vínculo entre a homossexualidade e o vício, que nunca conseguiu desfazer.
Efeitos e estéticas muito diferentes foram obtidos no século 20 pelos autores da literatura beat americana, sobretudo por William Burroughs (1914-1997), autor de Almoço Nu, livro inspirado na temporada de sexo livre que passou em Tânger, no Marrocos. Ao lado de poetas como Allen Ginsberg e Jack Kerouac, Burroughs trata a homossexualidade não como uma questão biológica, tampouco como uma afetação, mas sim como uma perigosa e excitante viagem interior. Politizada pela contracultura, essa viagem se tornou não só marginal, mas contestadora. Por isso, em suas mãos, a estética homossexual assume tons violentos, de grande força política, atitude que o leva para uma espécie de "pansexualismo".
Antes dele, um autor como Marcel Proust (1871-1922) via as práticas homossexuais como uma espécie de maldição. Algo que, de alguma forma, se ligava à asma que, desde cedo, o infernizou. Em uma reversão, Proust fez da homossexualidade uma versão mundana da elevação espiritual, que ele encenou com sua vida reclusa. Repetiu, de certa forma, a herança dos poetas franceses Arthur Rimbaud (1854-1891) e Paul Verlaine (1844-1896), para quem a paixão homossexual que os uniu (e os separou) foi, sempre, um trafegar à beira do abismo; posição que se reflete na poesia que escreveram.
UMA FORMA DE VIOLÊNCIA
No século 20, um autor como o brasileiro Lúcio Cardoso (1913-1968) tratou a homossexualidade como um doloroso atestado de incompreensão. "Médicos, professores do futuro; exponho-me nu aos vossos olhos de certeza", escreveu, sintetizando sua posição de rejeitado. Místico e autodestrutivo, Cardoso via a homossexualidade não como uma realidade biológica, tampouco como uma ética; nem como afetação, ou uma "viagem"; mas como uma forma de violência.
Visão que o aproxima de dois outros artistas do mesmo século, o escritor cubano Reinaldo Arenas (1943-1990) e o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975). Para Arenas, a homossexualidade — vivida sempre às escuras, nos parques, nas vielas — se torna uma bandeira política contra Fidel Castro. Nas mãos de Pasolini, ela se transforma em uma afirmação de desejos arcaicos (e "populares") e de uma verdade que nem sempre é saborosa. Ao morrer assassinado brutalmente em uma praia de Ostia, com o rosto desfigurado e a postura de um santo, Pasolini, de alguma forma, fechou uma estética de revolta e da luta, na qual o homossexual aparece como uma espécie de arauto do futuro.
Hoje, nas telenovelas, a estética homossexual se afasta também da doença (o que é positivo), mas se aproxima do modismo — o que, de fato, corresponde à forte expansão da indústria gay. As narrativas homossexuais ganham no vídeo, assim, um ar um tanto chique — como uma nova grife. Muitas estéticas são construídas em torno das relações homoeróticas; todas tentam enquadrar e disciplinar a esfera do desejo, que, em vez disso, é sempre singular e ingovernável.
Supor que o amor homossexual é sempre o mesmo é tão ingênuo quanto imaginar que as relações heterossexuais, só porque se repetem entre parceiros de sexos opostos, se equivalem. Todos sabemos que, sob a estética oficial do vestido de noiva, do casal perfeito e dos filhos saudáveis, esconde-se uma infinidade de variações do amor. E que é nessas particularidades, nesses desvios do singular, que as relações amorosas são sempre vividas.
Por isso — e o livro de Gide é só mais uma prova dessa impossibilidade — se torna cada vez mais difícil pensar em uma estética homossexual. Os amores, homossexuais ou heterossexuais, não comportam modelos. É na singularidade e na invenção, e não na repetição de fórmulas eróticas e estéticas, que eles revelam sua potência."

José Castello é jornalista e escritor.

O gênio das cores

"Ele seguia à risca a rotina. Acordava cedo e passava a manhã toda no ateliê. Voltava às telas por mais um tempinho depois do almoço. O fim da tarde era reservado às aulas de violino. No jantar, servia-se sempre do mesmo cardápio: salada, uma sopa de legumes, dois ovos cozidos e uma taça de vinho. Volta e meia, confidenciava que a convivência com os filhos, Marguerite, Jean e Pierre, atrapalhava um pouco seu processo criativo. Precisava de um ambiente tranquilo para desenvolver as peças. Para ele, uma boa obra de arte era aquela capaz de transmitir equilíbrio e serenidade às pessoas. Serviria como uma espécie de refúgio à mente dos observadores. As manias e crenças, por si sós, não surpreendem. Tudo muda, no entanto, quando se avisa que o artista em questão é Henri Matisse (1869-1954). A princípio, o apego às regras e a busca por um estado de calma não combinam muito com as cores nervosas e as cenas repletas de detalhes associadas imediatamente ao pintor francês. Mas insistir em olhar seu trabalho dessa forma significa manter-se sobre a superfície de uma influência fundamental para a arte do século 20, que se estende até o século 21. Há silêncio por trás das padronagens chamativas de seus quadros. Há, também, muito esforço e menos intuição, ao contrário do que se pode pensar diante de composições tão explosivas. Perceber isso vai ser bem mais fácil a partir do mês que vem, quando a Pinacoteca do Estado de São Paulo apresenta Matisse Hoje, a primeira exposição individual do artista no país."
Leia para saber mais na BRAVO! clicando no título

Vanguardas Russas


Uma grande homenagem à arte russa, tanto à pintura quanto ao cinema, acontece na Virada Russa, promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil, entre BSB, Rio e Sampa. É a maior e mais significativa exposição já realizada no Brasil sobre vanguardas russas, abrangendo o período que vai de 1890 a 1930. São 123 obras vindas diretamente do acervo do State Russian Museum, onde se encontra a maior coleção de arte russa do mundo. Dentre os artistas participantes estão Kandinsky, Maliévitch, Chagall, Rodchenko, Tátlin, Goncharova, dentre outros. Como o movimento vanguardista russo não ficou restrito às pinturas, a exposição também terá filmes que vão desde a década de 1920 até os dias atuais, muitos deles ligados intimamente às obras e ainda peças de vestuário criadas por Malevich e roupas desenhadas por Bárbara Stepanova.