Estão anunciando o desaparecimento de livros e jornais. Se retornaremos aos tempos em que não se publicava tantos livros, jornais, revistas, nem se produzia cinema, TV, CD/DVD, que surgiram no século passado, ninguém pode prever.Por enquanto, livros continuam sendo publicados aos milhões. O hábito da leitura é que, cada vez mais, se torna uma atividade que não desperta interesse. Reluto em concluir o pensamento atribuindo tal comportamento às “novas gerações”. O hábito de ler não foi tão presente na minha (velha) geração. Onde vivi, eram poucas as mulheres que liam e as que o faziam, estiveram limitadas à considerada literatura feminina (coleção “biblioteca das moças“) mais precisamente, aos romances de M. Delly e Corin Tellado.
Quando, aos 14 anos, ganhei de presente de meu pai uma coleção com as obras do Machado de Assis (em capa verde e letras douradas) fiquei meio encabulada de contar para minhas amigas. Sabia que aquele presente não significava nada para elas.
Como faço aniversário na segunda quinzena de novembro, logo que ficava de férias, viajava para a serra que tinha clima mais ameno naquela época do ano. Ficava na casa de minha tia e madrinha.
Naquele ano levei uns dois ou três volumes do meu precioso presente (até hoje adoro cheiro de livro novo) e os guardava (não lembro porque) embaixo do colchão. Começava a ler tão logo me acordava (à noite não dava, não existia energia elétrica) e esquecia do tempo....Por não comparecer à mesa para o café da manhã, levei uma bronca em cujo texto constou também que eu não participava (interagia era uma palavra que não existia), me isolava, não ajudava, etc etc. Fiquei esperta, passei a fazer tudo direitinho, até ajudava a tirar a mesa. Só depois disso e de molhar as plantas me considerava livre. Passei a ler no jardim, sob um caramanchão lindíssimo (todo o jardim era lindo), na passagem do portão para a casa.
Num desses dias, minha tia recebeu a visita de um monsenhor que era amigo/orientador espiritual dela. Ao passar por mim, me perguntou o que eu estava lendo, não respondi com palavras, mostrei-lhe o dorso do livro. Ele olhou, não disse nada e continuou seu caminho em direção à casa, agora mais apressado.
O dia continuou normal. Apenas o “banquete” que lhe foi oferecido e o anúncio inesperado de uma viagem de minha tia à cidade quebraram a rotina.
Hoje, vendo de longe, me parece que o motivo principal da viagem foi comunicar ao meu pai as minhas "leituras inconvenientes" e o meu comportamento inadequado, o que me foi dito antes de partir, meio em tom de ameaça.
Além de não haver me deixado nem um pouco preocupada, antegozei o sermão que ela iria ouvir dele.
Dito e feito!
Um comentário:
So mesmo conhecendo a figura impar do Carlos Soares.
(Ainda hoje não sei porque tirei o senhor, que sempre anteceu o nome dele. Acho que ficamos da mesma idade, ou terá o mal exemplo do Zeluiz?). Pode-se imaginar o "sermão" (acho que vc amenizou quando falou sermão), o que ele deu mesmo foi um esporro, na tia fuxiquenta.
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