
Deve fazer umas duas semanas que li este texto, na FSP, cujo título é Claro ou escuro. À falta de tempo naquele momento, guardei para voltar a ele com mais vagar. Relendo-o agora, achei interessante ao ponto de transcrevê-lo aqui. A autoria é de Wilson Jacob Filho, prof.da USP, geriatra no HC/SP e autor do livro "Atividade Física e Envelhecimento Saudável" .
A modificação do título na postagem foi proposital, a fim de permitir o acesso dos que pesquisam o tema no google.
"Recentemente, deparei-me com uma frase que perseguiu-me até que eu conseguisse fazer uma reflexão mais profunda: "Mamãe, para onde vai o escuro quando você acende a luz?" Proferida pelo pequeno Max Grinberg há quase seis décadas, consta do livro do médico e dramaturgo Pedro Bloch ("Criança Diz Cada Uma!", 1963) e também do memorial acadêmico de seu autor, hoje professor de medicina.
Tentei obter sua opinião atual sobre a questão formulada na infância, mas a situação em que nos encontrávamos não permitiu maiores divagações.
Não consegui esperar outra oportunidade. Ampliei o sentido dos dois termos principais da frase a fim de entender as entrelinhas dessa oposição.
O escuro esconde o perigo, a ameaça, aquilo que pode fazer mal sem boa possibilidade de defesa. No escuro, nos tornamos inseguros, dependentes.
Como sinônimo, há o obscuro, que também significa desconhecido, sombrio. Natural, portanto, que o obscurantismo seja a doutrina que se opõe à divulgação do conhecimento.
A luz, por sua vez, além das suas definições físicas, é usada como sinônimo de inteligência ou cultura, mais especificamente à divulgação de informações de interesse popular.
Compreensível, portanto, que tenha sido denominado de iluminismo o movimento francês do século 18 que propôs maior esclarecimento do ser humano.
Não foi difícil transferir essa condição de desconhecimento, muitas vezes proposital, para a necessidade de uma sistematização do saber nos conceitos e preconceitos que se relacionam ao envelhecimento.
Inacreditável como esse fenômeno natural, comum a praticamente todos os seres vivos, seja ainda tão desconhecido e estigmatizado, uma vez que essa evolução está sendo vivenciada por um número cada vez maior de pessoas e por tempo cada vez mais prolongado.
Não há nenhum motivo para que o idoso continue sendo considerado, fundamentalmente, um grande acumulador de doenças e fadado obrigatoriamente à decrepitude.
Os obscurantistas propõem a inexorabilidade da perda funcional com o avançar da idade e não aceitam a possibilidade do envelhecimento saudável. Criticam, com isso, a importância dos modernos conhecimentos e ações geriátricas e gerontológicas. Curiosamente, divulgam essas idéias mesmo quando em idade mais avançada e demonstrando plenas capacidades funcionais. Em verdade, acreditam que "velhos são os outros".
Mesmo assim, não há por que temer o escuro. Haveremos de ter a curiosidade e a persistência do pequeno Max e entender que, na obscuridade por vezes intencional que cerca o envelhecer, muitas luzes já se acenderam e outras tantas estão por fazê-lo cada vez mais rápido.
Nem por isso, porém, o escuro vai acabar. Simplesmente mudará de lugar, à espera que o conhecimento lá chegue para afastá-lo um pouco mais.
Felizmente, cada vez mais gente está acendendo suas luzes e iluminando suas expectativas de uma crescente longevidade funcional".
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