"Alguns dos que participaram dos acontecimentos das últimas décadas começam a pensar em escrever sua história de vida. Há muitos modelos possíveis.Os meus são certamente inatingíveis — mas ficam colocados como pontos no infinito. Um deles é o estupendo livro "My past and thoughts", de Alexander Herzen, o chamado pai do populismo, escrito ao longo de 10 anos e que revela os meandros da vida política e intelectual dos exilados russos na segunda metade do século XIX.
Recentemente, Gabriel García Márquez publicou a pérola de sabedoria, beleza e correção que se chama "Vivir para contarla". São obras que valem muito mais do que pesam e cujos autores se confrontam aos dilemas biográficos por todos os lados: afetivo, literário, histórico, sociopolítico.
Trata-se de uma forma de exposição social das mais fortes que conheço.
Dou por suposto que quem se dispõe a escrevê-la tem em alta conta seus eventuais leitores. Seleção de fatos, restrições mentais e distorções são inevitáveis, mas o sentido de tal esforço não é o uso da palavra escrita para impor versões para a posteridade. Também não pode ser um samba-exaltação nem uma tentativa de "corrigir" seu próprio percurso.
A força da história de uma vida está no testemunho de uma época, com suas contradições, seus sofrimentos, equívocos, fracassos, suas alegrias e seus prazeres. Quanto mais fundo se é capaz de penetrar em seus próprios sentimentos, de se entender a si mesmo no passado (como alguém que já não é) olhando os outros e a sua própria história com a complacência e a sabedoria da velhice, de colocar fatos cotidianos num contexto que transcende o indivíduo, mais sentido tem contá-la.
Enumerar autores é tão fácil quanto fazer uma lista de nomes e encadear a trama como nas antigas colunas sociais; mas é também de pouco interesse.
Serve à auto-estima, estimula a pretensão de apontar eleitos nos salões e à expressão de velhas querelas que só têm valia para quem escreve. Um livro não é um divã, mesmo que sirva a considerações de um psicanalista — como a Freud serviu a biografia de Schreber.
Mas, quem narra tem virtudes e limites intelectuais, emocionais e morais e não se pode exigir de ninguém ir além daquilo que lhe permite sua estrutura psíquica, seus conflitos, seus valores, seu nível de lucidez sobre sua vida interior.
Ela é sempre a história possível.
O Brasil é país ainda sem tradição nessa espécie de narrativa, além de ser capaz de mostrar — em áreas cosmopolitas — um notável provincianismo permeando histórias de vida que integram estratégias de luta contra a morte pela santificação intelectual ou política.
A exposição de sofrimentos e de dores provoca solidariedade e pena, mas — sem limites — gera seu contrário, incomoda o dia-a-dia das pessoas. O ajuste de contas pode ser tentador, mas não é um bom caminho. É preciso encontrar a justa direção através de um trabalho difícil e demorado sobre si mesmo. Estimular a elaboração de boas biografias pela geração que hoje atravessa a barreira dos 60 é uma forma de preservar a memória do país, de reduzir a perda das formas subjetivas de perceber e de viver o social e o político e de reter expressões da mentalidade do período.
São testemunhos que ajudarão as novas levas de intelectuais a compreender o turbilhão que assolou o mundo neste meio século."
(Jornal O Globo, 15.12.2008)
VANILDA PAIVA (Professora e pesquisadora)
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