novembro 28, 2009


'morta de cansada' é isso aí...
"...são tão prosaicos os amores que dão certo, que a gente precisa inventar pessoas e distâncias para fundamentar as paixões românticas."

Sobre a lei contra a homofobia

"ENCONTRA-SE em tramitação no Senado Federal o projeto de lei (PLC 122/ 2006) que pune a discriminação baseada na orientação sexual ou na identidade de gênero do cidadão. A aprovação dessa lei representará sem dúvida um passo para tornar o Brasil um país mais civilizado.
Por que digo "civilizado"? Porque civilizado é quem se opõe à barbárie e a deixa para trás. Ora, o bárbaro é aquele que, guiando-se por preconceitos jamais questionados, não tolera, no universo das possibilidades vitais dele mesmo e dos demais membros da sua comunidade -ou até da humanidade- qualquer comportamento alternativo: aquele que busca impor, a ferro e fogo, a sua maneira de ser a todos os demais, tentando escravizar ou eliminar aqueles que não se conformem.
Em oposição a isso, civilizado é quem é capaz de fazer uso da razão para criticar todos os preconceitos, inclusive aqueles em que foi criado. No fundo, a civilização é o ceticismo metódico. O civilizado sabe que é por acaso -porque por acaso nasceu neste e não naquele país, nesta e não naquela classe social, nesta e não naquela família- que cada qual tem os hábitos, os valores, as crenças, os preconceitos que tem; sabe, portanto, que nenhum conjunto de preconceitos é, por direito, superior a nenhum outro. Sabendo disso, o civilizado sabe também que o único motivo que pode racionalmente ser invocado para negar a alguém o direito a se comportar de determinada maneira é que tal comportamento feriria os iguais direitos de outras pessoas.
Pois bem, o fato de que uma pessoa manifeste determinada orientação sexual não impede que outras pessoas manifestem outras orientações sexuais ou que exerçam qualquer outro direito legítimo. Consequentemente, trata-se de um direito inquestionável. Ora, a lei em questão tem o sentido de garantir a cada qual o exercício pleno desse direito. Ela visa garantir que a orientação sexual ou a identidade de gênero de uma pessoa não a sujeite -como tão frequentemente ocorre hoje- a sofrer discriminação, agressão verbal, violência física ou mesmo assassinato, enquanto seus agressores gozem de impunidade. Nisso reside seu sentido civilizatório.
É claro que a barbárie, na forma, por exemplo, do fanatismo de zelotes ou fundamentalistas religiosos, não deixa de apelar a todo tipo de sofisma para tentar desclassificar esse projeto de lei.
Semelhante sofisma é, por exemplo, a tese de que o sexo não reprodutivo contraria uma pretensa lei natural. Já falei sobre tal "lei" noutro artigo, mas não posso deixar de me repetir neste ponto. É um erro confundir as leis da natureza, que são descritivas, isto é, dizem o que realmente acontece, com as leis humanas, que são prescritivas, isto é, dizem o que deve (ou não deve) ser feito. A lei da gravidade, por exemplo, não diz que todos os corpos que têm massa devem se atrair de determinado modo e sim que se atraem desse modo. Se for descoberto que determinados corpos têm massa e, no entanto, não se atraem do modo previsto, não serão esses corpos que estarão errados, mas a lei da gravidade. Assim também, se uma "lei natural" diz que os indivíduos do mesmo sexo não sentem atração erótica uns pelos outros, basta abrir os olhos para ver que essa "lei" está errada, ou melhor, não é lei, não existe.
De todo modo, tanto a física contemporânea quanto a lei da evolução das espécies já mostraram que a natureza está em constante mutação. O ser humano mesmo talvez seja a mais radical dessas mutações, de modo que não apenas a espécie humana mas cada indivíduo humano é quase infinitamente capaz de mudar a si próprio, capaz de experimentar o que nunca antes se experimentou, capaz de criar o que nunca antes existiu. Substituindo o instinto pela experimentação, o ser humano já há muito foi capaz de separar radicalmente sexo de reprodução. Diante de tudo isso, a invocação de uma "lei natural" para tentar tolher o seu comportamento é simplesmente ridícula.
Finalmente, é falso que a lei em questão restringiria a liberdade de expressão simplesmente porque proibiria praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito contra orientação sexual ou identidade de gênero. Afinal, a lei 7.716 (Lei Caó) já faz exatamente isso em relação a raça, cor, etnia, religião e procedência nacional e não é considerada prejudicial à liberdade de expressão.
Esperemos que o Senado Federal, rejeitando o fanatismo e a barbárie, escolha para o Brasil o caminho da razão e da civilização".

ANTONIO CICERO

novembro 27, 2009

Astérix


Asterix, criado em outubro de 1959, fez 50 anos. Neste filme realizado por Eric Magnan, a Patrouille de France faz uma homenagem ao mais célebre Gaules. Aperte o cinto!!!

novembro 26, 2009

Por que não?

Atenção universal

O que mais queremos dos outros é atenção.
Por ela, bebês choram e crianças aprontam. Os adultos subestimam sua necessidade de atenção. Quando pedi a brasileiros que descrevessem, em uma palavra, o que mais querem dos outros, quase todas as respostas começavam com "c": carinho, cuidado, compaixão, confiança, cumplicidade, compreensão e consideração. Respeito também foi popular. Mas todos esses desejos têm um denominador comum: a atenção.
Nós a buscamos porque só pela visão dos outros podemos conhecer a nós mesmos. Como diz "Diferentemente", de Caetano Veloso: "É você quem me olhando detona a explosão de seu saber quem eu sou".Esses espelhos humanos nos tornam visíveis a nós mesmos, revelam nossas virtudes e vícios, permitem que aprimoremos quem somos. O adesivo "Deus, me ajude a ser a pessoa que meu cachorro pensa que eu sou" reflete esse desejo e a importância do olhar alheio.
Muita gente procura plateia porque ser o centro das atenções melhora nossa autoimagem, o que é gratificante. Palestrantes aqui dizem ao público "obrigado pela atenção" para expressar essa gratidão.
Ter a total atenção de alguém também é lisonjeiro. Quando não estava murmurando ao microfone, Sinatra seduzia as mulheres com o ouvido atento e o olhar penetrante, sorvendo cada palavra delas. Ele comparou uma mulher a uma plateia, dizendo: "Se você se mostra indiferente, é o fim da linha".
No corre-corre diário, também queremos o tempo das pessoas. Mas não tanto quanto sua atenção. O tempo é parte do pacote, mas não garante a atenção. Pergunte a uma mulher que sai com um homem que só fala da ex e ela lhe dirá que ele precisa aprender com Sinatra.
Mesmo na cultura do "tempo é dinheiro" dos EUA, a atenção é muito valorizada. Por isso, os americanos diferenciam o tempo normal do de qualidade, períodos curtos em que dão àqueles que amam total atenção.
Eu e minha mulher tiramos férias no interior do Brasil, onde as pessoas nos dão mais atenção e têm mais tempo para nos receber do que os urbanos.
Por que isso acontece? Não sobrevivem galgando escadas corporativas, mas criando comunidades interdependentes.
Prisioneiros se unem a facções não só para sobreviver mas para reduzir o isolamento social. Estudos mostram que a pessoa na cela solitária prefere o pior companheiro à solidão, que qualquer atenção é melhor do que nenhuma.
O que mais molda nossa identidade é a interação social.
Por isso, precisamos de atenção desde o nascimento. Quando crescemos, uma forma de atenção, o reconhecimento, torna-se crucial. Quanto mais cientes ficamos de nossa finitude, mais precisamos de testemunhas que digam: "Ele é assim e isso é o que tem a oferecer". Vão manter nosso nome vivo até a última delas partir. E, apesar de não estarmos mais aqui para saborear essa atenção, é um conforto saber que a teremos bem depois do último suspiro.

MICHAEL KEPP

novembro 25, 2009

GAUDI


Uma 'pérola' encontrada ao acaso...Voltarei com a tradução. No momento estou sem tempo.
Antoni Gaudi (1852 - 1926) Architecte et designer, Antoni Gaudi est sur le plan international la plus prestigieuse des figures de l'architecture espagnole.
Né à Reus, en Catalogne, il obtient son diplôme en 1878 à Barcelone où il centre son activité.
Grand designer, il a créé, en étroite collaboration avec les meilleurs artisans de l'époque, tous les éléments qui forment l'espace architectonique - fer forgé, mobilier, vitraux, sculptures, mosaïques, céramiques etc.- dans une conception organique de la décoration tout en intégrant ces éléments dans la structure de la construction. Le paysage marin est l'un de ses thèmes d'inspiration préféré.
Admiré et controversé de son vivant pour l'audace et la singularité de ses innovations, il jouit aujourd'hui d'une notoriété indiscutable partout dans le monde, à la fois dans les milieux spécialisés et dans le grand public. (Musique : Miles Davis - Concerto d'Aranjuez)

Somos violentadas todos os dias

Nesta quarta, 25, "comemora-se" (rsrs) o "Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher", um problema mundial, que atinge mulheres de todas as faixas etárias e camadas sociais e ainda é fruto de uma cultura machista e patriarcal. Sem querer elencar estatísticas de agressões às mulheres, que sabemos não parar de crescer, durante esses dias, fiz uma reflexão e percebi que infelizmente, mesmo com tantas campanhas de conscientização, o corpo da mulher continua sendo explorado de todas as formas, as mulheres continuam entrando no jogo masculino, se matando nas academias, fazendo plásticas, disputando o amor do homem pela beleza física e claro, se frustrando. Vejo na televisão meninas com os corpos marombados, seminuas, com o único objetivo de satisfazer um desejo voyeur masculino... Fico pasma com o preconceito que ainda atinge as mulheres mais maduras, descartadas pela mídia e pelo mercado de trabalho, tratadas como "encostadas" por homens com problemas de autoafirmação, mal resolvidos, que procuram nas mais jovens um consolo para enfrentar a velhice e o desempenho sexual.
E lembro-me do exemplo de tantas mulheres, Marta Suplicy, Simone de Beauvoir, Rose Marie Muraro, Lígia Fagundes Telles, Meryl Streep, Clarice Lispector, Olgária Matos, Maria da Penha, e tantas outras, anônimas, guerreiras de todas as classes sociais, que atingiram a fase mais interessante na maturidade... e continuaram (ou continuam belas).
Ao meu ver a violência contra a mulher não é só física, ela é psicológica também, e envolve todas essas questões. Somos violentadas o tempo todo, como se uma voz interna nos atormentasse sempre :´"você tem que ser bela, pintar o cabelo, fazer as unhas, tem que malhar, se vestir bem, seduzir, seduzir, seduzir"... não importa o teu conteúdo, mas o teu invólúcro... até entendo, mencionando o filósofo Jean Baudrilard, do poder feminino da sedução, mas vamos com calma, seduzir por seduzir, sem um algo a mais, algo que nos faça pensar, uma sedução apenas pelo corpo, por uma perna, uma bunda, um peito, um corpo nu... será que não existe sedução em ver uma Lígia Fagundes Telles escrevendo, ou no silêncio de uma Clarice, ou numa Olgária falando de filosofia? Ou simplesmente, numa mulher, sendo ela mesma, na sua rotina, no seu trabalho, na sua espontaneidade?
Afinal, o que significa mesmo esse seduzir, sem brilho, sem vida, sem graça, sem feminilidade, sem naturalidade? Não sei o que o futuro aponta, mas me entristeço, e posso estar sendo conservadora, em ver as novas gerações tão "seduzidas" por esse modelo... esse sim, perverso, que não constrói, mas destruirá todas essas meninas quando já não forem belas e marombadas, quando envelhecerem, quando não servirem mais para alimentar a máquina do desejo masculino.
Talvez eu não esteja escrevendo sobre nada de novo, mas fica aí o desabafo... acho que todas as mulheres, em algum momento da vida, sentiram-se excluídas por algum motivo relativo à beleza ou à maturidade... gostaria de poder transmitir com esse post, mais confiança às tantas mulheres, infelizes com a própria vida e com a aparência, lembrando-as que sempre haverá espaço para o pensamento e para as que buscam um caminho diferente do que nos oferecem.

Isabella Holanda
www.donasdesi.blogspot.com

novembro 24, 2009

Macacos somos todos

IMAGINEMOS: existe um caminho; existe um relógio perdido no meio do caminho; é lógico pensar que o relógio não surgiu por acaso. Foi o produto de mãos informadas, que juntaram partes microscópicas para que o relógio, enfim, funcionasse.
Essa belíssima metáfora pertence a William Paley (1743-1805). E ela resume, com a simplicidade só acessível aos grandes, o credo da ciência natural na Inglaterra do século 19: apesar das teorias "evolucionistas" de Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) ou Erasmus Darwin (1731-1802), Deus é o supremo relojoeiro.
O relógio de Paley deixou de funcionar há precisamente 150 anos quando o neto de Erasmus Darwin, Charles Robert, publicava "A Origem das Espécies". E se o relógio fosse o produto de um longo processo de seleção e adaptação sem nenhum relojoeiro por detrás? A hipótese, hoje, parece-nos evidente. Eu próprio, lendo a "Origem..." e o brilhante ensaio de Janet Browne sobre o livro, imitei a exclamação de Huxley, o "buldogue de Darwin": "Mas como é que eu não pensei nisso antes?".
A pergunta faz sentido. Mas o mais interessante sobre a "Origem..." é que a obra, tal como a teoria que ela apresenta, é também um produto de acasos: aventuras biográficas, leituras ocasionais e observações empíricas experimentadas por Darwin nos primeiros 50 anos da sua vida.
Começa por ser um produto da sua frustrada passagem por Edimburgo, para cursar medicina e seguir as pegadas do pai. Sabemos que Darwin acabaria por abandonar o curso, horrorizado com a brutalidade de certas terapêuticas. Mas os anos na Escócia, ao permitirem os primeiros contactos com as teorias "evolucionistas", plantaram na cabeça do jovem Charles as primeiras inquietações: e se os seres não são o resultado de um único ato da criação?
A resposta a essa possibilidade seria avançada a bordo do Beagle: viajando pelo mundo, Darwin confrontava-se com a essencial diversidade dele. Mas não apenas com a diversidade visível; também com a falta de estabilidade inferida: a sul de Buenos Aires, por exemplo, o naturalista encontrava fósseis de mamíferos com traços anatômicos semelhantes, mas não iguais, aos das espécies contemporâneas.
A juntar a essa "instabilidade" e "descontinuidade" das espécies, as horas a bordo eram preenchidas com a leitura do geólogo Charles Lyell (1797-1875). E se Lyell desaprovava a "transmutação" das espécies, toda a sua teoria geológica apontava no sentido inverso: as mudanças da Terra não eram conduzidas por nenhum "relojoeiro" divino. Eram o resultado de múltiplas, pequenas e graduais alterações naturais, ao longo de períodos de tempo imensamente longos.
Quando regressou à Inglaterra em 1836, Darwin tinha uma certeza: no mundo natural, as espécies variam e "transformam-se". Faltava explicar como.
E seria Thomas Malthus (1766-1834) a fornecer uma preciosa ajuda. Malthus era um cientista social "avant la lettre", para quem o crescimento demográfico suplantava a capacidade humana de produzir alimentos. Essa explosiva situação teria um preço: a fome, o conflito, a guerra -uma luta pela sobrevivência de todos contra todos em que os mais pobres e fracos estariam condenados a perecer.
Malthus oferecia, no fundo, uma conceitualização teórica para práticas banais que Darwin observava entre agricultores ou criadores de gado, sempre interessados em selecionar os melhores exemplares, dotados dos traços mais valiosos, para se reproduzirem ao longo de gerações. Deus não era o relojoeiro. A natureza encarregava-se de ajustar as peças do relógio, preservando os mais bem adaptados, preservando os seus traços mais vantajosos numa perpétua luta pela sobrevivência. E pela continuidade da espécie.
Converteu-se em clichê afirmar que o mundo nunca mais foi o mesmo depois da "Origem...". Feliz e infelizmente, o clichê é verdadeiro. Felizmente, a obra de Darwin é um exemplo de honestidade e rigor intelectual capaz de oferecer a mais poderosa explicação científica sobre o longo caminho da humanidade.
Infelizmente, Darwin não sobreviveria para testemunhar o que ideólogos ou fanáticos diversos acabariam por fazer com as suas ideias: uma defesa da subjugação e mesmo do extermínio de raças consideradas "inferiores" e "dispensáveis" por autoproclamados Super-Homens. Tivessem eles lido Darwin com atenção e aprenderiam que não existe motivo para triunfalismos ou distinções. Pretos, brancos ou amarelos, macacos somos todos.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Sorolla no Prado


Joaquin Sorolla (1863-1923) é um pintor espanhol cujas obras, inundadas de luz e cor, representam sobretudo cenas da vida quotidiana e paisagens.Estas são algumas de suas obras que estiveram expostas no Museo del Prado no último verão.

novembro 23, 2009

A insuportável liberdade do amor

Euclides da Cunha foi um de nossos maiores intelectuais, por sua coragem de pensar. Quando soube da revolta de Canudos, atribuiu-a aos monarquistas. No sertão da Bahia, percebeu que estava errado. Sua coragem de rever o erro valoriza sua obra-prima, Os Sertões. Mas não teve essa grandeza em sua vida pessoal. Casou-se com a filha de um líder republicano. O casamento, porém, não foi feliz. Ele não deu à jovem Ana o amor que ela queria. Ela se envolveu com o tenente Dilermando de Assis. Sabe-se o final da história. Em agosto de 1909, Ana deixa o marido pela última vez. Euclides invade a casa de Dilermando, gritando que vem matar ou morrer. É morto. Dilermando é absolvido.
Por que evocar essa história - que mostra como um grande intelectual foi tão infeliz em sua vida amorosa - quando o assunto da semana é o pai que se matou com o filho pequeno, ao não suportar o fim do casamento? Porque não é a classe social, a formação cultural ou a abertura de espírito para a ciência que capacitam alguém a lidar com o que é difícil no amor, em especial a rejeição.
A tragédia recente é de um pai que não aguenta viver sem a mulher. É imperdoável ele ter matado o filho, ato cruel e odioso. Mas seu suicídio, como o filicídio, decorrem da dificuldade de aceitar a liberdade no amor, no caso, o direito da mulher a seguir seu rumo.
A liberdade no amor não é fácil. Quando concebi um programa a respeito para a TV Futura (que pode ser baixado em www.futuratec.org.br), alguém me sugeriu tratar de casamentos abertos. Recusei. Nada tenho contra quem é feliz numa relação permanente com eventuais casos paralelos. Mas liberdade no amor não é fazer exceções à relação principal. Liberdade no amor é estar livre no (e não do) casamento. É uma realização com o outro.
Comecemos pela falta de liberdade no amor, que existe quando não se consegue tratar do que é mais íntimo. Se tenho uma companheira, espera-se que seja a pessoa mais próxima de mim no mundo, e que tenhamos uma aliança, uma cumplicidade. Se não, é porque algo vai mal. Se não conseguirmos conversar a respeito, piora.
Conversar é uma arte conquistada. Há duas formas de conversa. Uma se desenvolveu na Europa do século 17. É a conversa em sociedade, até mesmo superficial, mas que é condição para o encontro com estranhos ser agradável e a vida social, um prazer. Mas há outra conversa, que é a íntima. Ela inclui assuntos penosos. Um casal pode passar por problemas sexuais, como a redução ou perda do desejo pelo outro. Abordar esse tema é árduo, mas geralmente é melhor fazê-lo antes que um dos parceiros procure uma terceira pessoa.
O que agrava as coisas é que, hoje, toma-se por sinceridade o que é só agressividade. Alguns acham que "dizer o que vem à cabeça" é o mesmo que abrir o coração. Não é. Com frequência, a primeira resposta a algo difícil é a reação agressiva de quem deseja livrar-se de uma situação incômoda. Ofender o outro não é ser sincero. É, apenas, ofender.
Que maturidade é preciso para viver a liberdade no amor? Gilberto Gil, ironizando o slogan da ditadura "Brasil, ame-o ou deixe-o", recomendava: "O seu amor/Ame-o e deixe-o/Livre para amar./O seu amor/Ame-o e deixe-o/Ir aonde quiser". Significa aceitar que uma relação de amor é uma relação de certo risco. Não sabemos se e quando pode terminar. Por isso, é preciso investir nela, e o investimento é afetivo. Por isso Euclides, inteligente e corajoso, não foi o marido adequado para uma mulher que queria um homem alegre, o que ele não era.
O espantoso não é que Euclides, quando não havia divórcio no Brasil e o preconceito era fortíssimo, escolhesse ser assassinado com tanta vida pela frente (pois sabia que Dilermando era bom atirador). O espantoso é que tragédias dessas continuem acontecendo, quando a separação se tornou quase banal, afetando boa parte dos casamentos no mundo.
Talvez haja aqui algo bem difícil. Uma das maiores realizações que se espera da vida é o encontro de um amor de verdade, intenso, pleno. O problema é que não temos segurança dele. Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão - do grego pathos, que designa a situação em que sou passivo (em oposição à ação) e minha razão fica inibida - não é boa juíza de caráter ou de relações, como tem frisado Flavio Gikovate. O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu "eixo") sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. O amor apaixonado não substitui minha obrigação de saber quem sou, o que eu desejo, o que vou fazer. Mas, como a paixão não é amor, isso não reduz o sentimento mais profundo pelo outro. Apenas coloca na ordem do dia uma questão que afronta o consumismo afetivo de nosso tempo: a necessidade de converter o entusiasmo passional, que leva ao erro, em amor. A mídia fala muito em paixão, pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que "foram felizes para sempre" só é possível com o amor, não com o fulgor passional.

RENATO JANINE RIBEIRO no Estadão