novembro 15, 2009

13 de novembro de 1982

No último dia 13, antes de ontem, montei um slide show com imagens de mães, 'na arte e na vida'. Não sei se alguém viu. Nem se vendo percebeu algum significado. Creio que não . Como quer que tenha sido, agora ficam sabendo: naquele dia eu estava fazendo aniversário. Comemorava o dia em que me tornei mãe. Esta trajetória biológica, social, psicológica ou tudo isto junto, que nos leva a, num dado momento, pensar em ter filho, pode parecer, para alguns, meio banal. Afinal, o ato de procriar acontece com uma certa frequência no reino animal. Porém, ser mãe não é a mesma coisa que, simplesmente, ter um filho. Ser mãe é uma experiência transformadora. Nenhuma mulher que é mãe continua a mesma. Vi esta transformação não só em mim. É claro que, dentre as mulheres, sempre há aquelas para quem um bebê vem completar a mobília doméstica. São as que casaram porque ' estava no tempo', porque fica mais difícil depois dos 30 ou porque as amigas da faculdade já casaram, enfim...Essas têm filhos. Não foi o meu caso, pois quis ser mãe acima de qualquer coisa. E foi assim que me tornei uma pessoa melhor.
Quando minha filha ainda era um 'pacote' no berço, com aquela carinha indecifrável de joelho, descobri em mim uma energia e uma generosidade que deviam estar bem escondidas até ela nascer . Por outro lado, a maternidade me fez mortal e atenta. Passei a temer por tudo que me pudesse acontecer, enquanto ela não pudesse sobreviver sozinha .Busquei, incansavelmente, a coerência entre idéias e atitudes, a medida certa para o equilíbrio entre o ' bater e o assoprar', permitir e negar, prender e soltar. Fiz por onde manter os fios da amizade e da confiança sempre a nos ligar, a fim de que pudessem ser puxados se, ou quando, fosse necessário.
Queria explicar-lhe o mundo e poupá-la de aprender ' quebrando a cara' . Isto a que chamam de 'experiência própria' não queria para ela. Quando me perdia, tinha dúvida ou me desesperava, dizia para ela:' me desculpe mas estive num curso de preparação para fazer tudo que fiz ou faço, mas para ser mãe não tem curso, nem você veio com manual de instrução...posso estar cometendo os piores erros, mas não sei de outro jeito.'
Claro que ela não sabia de que eu falava, como não entendia outras tantas coisa que comecei a explicar para ela ' antes da hora' (na dúvida quanto a hora, tinha medo de me atrasar) . Lembro que a partir de um momento, não sei qual, comecei a fazer com que ela tivesse consciência de que, sendo mulher, ia ter que ser muito boa em qualquer coisa que resolvesse fazer, mas ia ter que provar isto todo dia. Falei-lhe do leão que ia ter que ser morto, enquanto os seus pares, do sexo masculino, talvez se permitissem até ser medíocres....
Quando afirmo que a maternidade é transformadora é também por nos levar a cometer estes disparates, na vontade de acertar e de proteger a cria.
Foram tantas as coisaas que aprendi por ser mãe que fico pensando no quanto esta dívida é impagável. Por mais que a encha de beijos e totinhas....

A apoteose do sublime


Pierre et Gilles, na verdade, Pierre Commoy (fotógrafo) e Gilles Blanchard (pintor) se conheceram, nos anos 70, numa festa na casa do Kenzo. Juntos na arte e na vida, desde então, criaram as bases para o surgimento do que se entende por estética homoerótica nas artes visuais.
No trabalho dêles há espaço para tudo. Da cultura pop aos excessos histriônicos de David LaChapelle, existe um substrato de arte séria, o brilho industrial de Jeff Koons, cartuns que vazam testosterona de Tom of Finland, a base pop de Warhol e, da literatura, os marinheiros, safados e sofridos de Jean Genet.
É uma das últimas exposições programadas para o evento 'Ano da França no Brasil'.
No Rio no Oi FUTURO

Berço e criação

"Saí do berço ouvindo que quem herda não furta. Pode-se entender o provérbio em sentido jurídico, mas o contexto sempre apontava outra coisa: não é crime parecer-se com alguém. Algo como, para ficar nos provérbios, "quem puxa aos seus não degenera".
A biologia é obcecada com o sentido desse verbo, "herdar". Debate-se há séculos quanto de nossas disposições gerais, em especial de temperamento, são "causadas" por fatores herdados. Para muita gente, isso significa deixar de ter responsabilidade pelo que são, e até pelo que fazem.
A partir do século 20, o problema foi enquadrado na moldura dos genes. Começou-se a falar em genética do comportamento, da violência, da orientação sexual etc. Assim como o escorpião da fábula explicou ao sapo que ferroá-lo estava em sua natureza, há quem acredite safar-se alegando: "Está no meu DNA".
É a velha questão "nature X nurture", que traduzo livremente do inglês como berço X criação. A genética, turbinada pelo Projeto Genoma Humano, teria resolvido o dilema em favor do primeiro termo. Até os anos 1980, houve certo predomínio da psicologia (ambiente, ou criação), logo substituída por explicações "mais científicas", genéticas (natureza, ou berço).
Esse determinismo genético saiu de moda há anos, na intimidade do meio científico, mas tem apelo irresistível no público e é tolerado por pesquisadores. Caiu em desuso técnico porque é falacioso. Seu defeito está em confundir "genético" com "hereditário" ou "inato", pois nem tudo que afeta os genes ocorre antes do nascimento.
Mais um estudo que põe essa dicotomia em xeque foi publicado eletronicamente pelo periódico científico "Nature Neuroscience" na semana passada. Chris Murgatroyd, pesquisador do Instituto Max Planck de Psiquiatria, de Munique, mostrou que experiências traumatizantes na primeira infância podem deixar marcas duradouras na fisiologia e no comportamento que nada têm a ver com o conteúdo dos genes, mas sim com a expressão desse conteúdo.
É o que se chama de epigenética, anotações que a experiência vivida deixa no genoma. Elas sinalizam quais genes do acervo de mais de 20 mil podem e devem ser usados em cada circunstância. O grupo de Murgatroyd investigou em camundongos o efeito de estresse em filhotes separados da mãe três horas por dia nos primeiros dez dias de vida.
A equipe descobriu que, já adultos, os roedores estressados quando filhotes tinham níveis elevados de um hormônio, a vasopressina, associado com o humor e, em humanos, com a química da depressão. Viu, ainda, que esse aumento decorre de marcas indeléveis deixadas no DNA. É óbvio que o mecanismo pode não ser o mesmo em seres humanos, mas é difícil de acreditar que não haja coisas similares agindo dentro de nós. Somos o resultado não só do que está em nossos genes, mas também do que se superpõe a eles. Nem berço nem criação, mas berço-e-criação.
Essa visão menos determinista nos convida a investigar, ponderar e influir tanto no que está no DNA quanto no modo como criamos nossos filhos e jovens e como tratamos a nós próprios. Como já foi dito, somos o que fizermos do que fizeram de nós. Incrível: descobri no Google que o imortal Walter Franco tem uma música intitulada "Quem Puxa aos Seus Não Degenera". Nela se encontra a seguinte estrofe, que talvez nos inspire a ser mais tolerantes com as feras criadas por aí: "Daí meu pai disse / Meu filho, espera / A inocência que há / No olhar da fera"."

MARCELO LEITE

novembro 14, 2009

Homofobia

O POVO - Opinião
A picanharia homofóbica
04 Nov 2009 - 00h54min

Sábado passado tive uma triste notícia. Descobri que uma das ``picanharias`` mais badaladas da cidade tem como hábito expulsar homossexuais de seu ambiente.
Segundo o seu gerente, essa ordem vem de cima, dos donos do recinto e ele nada pode fazer quanto a isso. Se você não está acreditando nisso, não se preocupe, eu também quase não acreditei quando ouvi tamanho absurdo!
Fiquei chocada, afinal de contas, estamos em 2009, vivemos numa democracia, respeitamos a diversidade, a Constituição e levamos muito a sério o princípio da isonomia. Então me diga agora por que raios alguém justifica a humilhação alheia pelo fato dessa pessoa ser supostamente homossexual?

MIRELLA QUESADO
Fortaleza-CE

São notícias como esta que me fazem encampar a idéia de que precisamos criminalizar a homofobia. Bem a propósito, tramita o PLC 122 no Senado que está querendo saber a opinião dos brasileiros sobre este projeto de lei.
Não deixe de se manifestar a favor no link :
http://www.senado.gov.br/sf/senado/centralderelacionamento/sepop/
na 'enquete' no lado direito do site.

Luis Buñuel


La Belle de Jour, um filme que em 1967 era considerado “impróprio”, passa hoje às 18 hs, na TV ( Canal Brasil - para quem se interessar). Como diz a crítica (e eu concordo) é um dos melhores filmes do Buñuel. Por ser ele um autor muito diversificado e inovador, não é fácil dizer em que momento a sua insolência se revelou em sua melhor forma.
La Deneuve, (vê-la nos faz sentir como é injusta a ordem do mundo que faz com que o tempo não pare) no papel de uma mulher fria na aparência, mas ardentíssima com os homens com quem costuma se encontrar num bordel que frequenta, onde realiza as fantasias de seus parceiros sexuais e as suas próprias. O seu marido faz o tipo que as mães querem para genro...
Para alguns, trata-se de um filme sobre um sonho. Mas sonho e desejo é o que a gente decide que seja. E o desejo nem sempre distingue o sonho da realidade que, afinal, podem ser a mesma coisa.
(Para o google "la belle de jour" é uma música do Alceu Valença...)
Vejam o que diz a Wikipédia: "O filme causou escândalo quando da sua estreia. Luis Buñuel é completamente inclemente na forma como nos apresenta esta história, e ataca os impecáveis costumes burgueses. A primeira cena apresenta uma fantasia de Séverine, onde esta é chicoteada e abusada sexualmente a mando do marido. Atualmente, numa época em que os limites do cinema são mais largos, o poder escandaloso das imagens é menor, mas o seu desconforto permanece intacto, representando a acidez do humor de Buñuel em detrimento da mera exploração da sexualidade. E não é só dessa vertente sexual que vive Belle de Jour, sendo que o realizador espanhol não resiste em conjugar essa temática com a dimensão religiosa: há uma delirante cena em que Séverine é abordada por um homem para reencenar um velório, e tal cena é construída quase como uma forma de comparação com uma fantasia de um cliente do bordel. Desde o seu famoso primeiro curta-metragem, Un Chien Andalou, Buñuel abordou essas temáticas sem medo e sem pudor."
É isto!

Com PH

A GRANADO PHARMÁCIAS, fundada em 1870, no centro histórico do Rio de Janeiro, próxima aos prédios administrativos do governo e das charmosas butiques e casas de chá da época, foi ponto de encontro de figuras como Rui Barbosa, José do Patrocínio e Pereira Passos, Sobrevivendo à passagem do tempo, além dos já famosos sabonetes vegetais de glicerina, criou linhas novas, nomes, com tipografias e elementos decorativos tirados de produtos antigos que servem de base a desenhos e formatos que, conservam o charme "de época". Nela se encontra, ainda, o Polvilho Antisséptico, registrado em 1903 por Oswaldo Cruz. Embora com nova embalagem, mantém o mesmo dourado, bronze e verde do rótulo original e a fórmula, por razões óbvias, ainda é a mesma. Sua logomarca art nouveau fez dele um ícone retrô à venda em qualquer farmácia.
Para saber mais sobre a história e folhear esta curiosa publicação O Pharol da Medicina clique no título do post.

Sábado para nada


Ojos de Brujo é um grupo que faz música experimental, Hip Hop Folk em Barcelona. Clicando no título (expressão de meu tédio) leia mais sobre eles.

novembro 13, 2009

Casa-grande e senzala em concerto


"No Rio de Janeiro de 1926, numa noitada de cachaça e violão, o jovem antropólogo Gilberto Freyre, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda e o maestro Heitor Villa-Lobos conheceram e se maravilharam com Pixinguinha e Donga tocando seus sambas e choros, revela Hermano Vianna em “O mistério do samba”. Era o encontro da arte popular com a erudita, que se tornaria uma das marcas mais fortes da cultura brasileira moderna. E da música de Villa-Lobos.
Pouco depois, com “Casa-Grande e Senzala” e “Raízes do Brasil”, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque davam forma e conteúdo ao Brasil do século 20, e VillaLobos conquistava a admiração internacional com a sua linguagem musical moderna e sofisticada — inspirada no choro, no samba e nos nossos ritmos populares.
Assim como Villa trouxe a música popular para a erudita, a sua influencia na obra de grandes compositores populares, como Tom Jobim, Edu Lobo, Egberto Gismonti, Milton Nascimento e Guinga, levou a música erudita para a MPB. Tom Jobim cultuava Villa-Lobos como mestre e modelo, como seu pai musical, até no amor ao charuto, e dizia que toda a base harmônica da bossa nova já estava em uma peça de Villa-Lobos de 1940. Algumas das melhores músicas de Tom Jobim, como as obrasprimas “Matita Perê” e “Saudades do Brasil”, homenageiam o grande mestre em algum lugar entre o popular e o erudito.
Edu Lobo sempre teve em Villa-Lobos e Tom Jobim as suas maiores referências musicais. Em toda a sua obra ressoam os fraseados e as harmonias de Villa-Lobos, via Tom ou em ligação de lobo para lobo.
No centenário de Villa, dois lindos discos celebram a grandeza e vitalidade de sua música em diferentes leituras. Em um, o baixista americano Bruce Henri, com décadas de bons serviços à nossa música e um pequeno time de grandes músicos, apresenta peças de Villa-Lobos em ambientação jazzística sofisticada.
Em outro, o fabuloso violonista e compositor Guinga, o mais villa-lobiano dos pós-jobinianos, une as suas origens suburbanas às inspirações do mestre em um disco de belíssimas canções originais, tão villa-lobianas, que se chama “Casa de Villa”.

NELSON MOTTA

Na arte e na vida

novembro 12, 2009

Consumo e felicidade

"Patrick Terrien, chef francês e diretor da escola de culinária Le Cordon Bleu, declarou à coluna "As últimas 10 coisas que comprei", do caderno Vitrine, da Folha, ter comprado champanhe, flores, foie gras, laranjas, cogumelos selvagens, água, jornal, pão, um CD e entradas para o cinema.
O que uma pessoa compra dá uma boa noção de como ela vive. No caso do chef, tudo o que ele comprou foi para o consumo em família, para presentear um amigo e sair com a mulher.
Comprou coisas que não duram nem podem ser exibidas, mas podem tornar a relação entre as pessoas próximas a ele mais agradável e apetitosa.
A lista me surpreendeu, pois já havia notado que vários entrevistados da coluna falam de objetos que exibem seu poder aquisitivo, de modo a agregar valor a si próprios, digamos, convertendo-se em produtos.
Tornar a si mesmo vendável é, para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, uma das tarefas mais importantes que as pessoas têm numa sociedade de consumo, além de conquistar a felicidade. Para ele, a felicidade é o principal objetivo da sociedade de consumo.
De fato, se estivéssemos na Grécia Antiga, nosso objetivo seria alcançar fama e glória. E, se vivêssemos na sociedade medieval, o fim de todo indivíduo seria cumprir a doutrina cristã para salvar sua alma.
Mas, na sociedade de consumo, vivemos para sermos felizes por meio do que adquirimos. Paradoxalmente, por meio daquilo que descartamos.
A aquisição de mercadorias satisfaz nossos desejos e providencia nossa felicidade. Mas os desejos são inesgotáveis. Brotam de todo contato que temos com o que existe no mundo. Um dá lugar a outro, e satisfazê-los é tarefa impossível.
Como as mercadorias são produzidas com a finalidade primeira de serem compradas, a sociedade de consumo precisa permanentemente provocar nossa insatisfação com o que temos e atiçar nosso desejo pelo que ainda não temos.
Toda propaganda de alguma mercadoria sugere, subliminarmente, que aquela que temos está ultrapassada e não pode nos oferecer o que a nova poderá. Não comprá-la é ficar em falta com nós mesmos e não pertencer ao círculo especial dos que já a adquiriram.
Enredados nesse moto contínuo de insatisfação/descarte/consumo, compreendemos a máxima da vida: sempre seremos felizes por pouco tempo.
Toda suposta felicidade antecipa uma infelicidade. E, enquanto saltamos de uma infelicidade a outra, a almejada felicidade passa a ser um breve intervalo, sempre imperceptível.
A felicidade, substituída pela satisfação de desejos nunca aplacáveis, jamais é experimentada. O que nos resta é a ansiedade da felicidade.
As compras do chef francês sugerem que ele se desvia dessa sedução consumista. Fruir, mais do que ter. E não apenas o sabor do foie gras ou dos cogumelos mas o prazer de repartir com amigos e familiares pequenos prazeres. Celebração e simplicidade."

Dulce Critelli

novembro 11, 2009

Os flamboyants

"A manhã estava linda: céu azul, ventinho fresco. Infelizmente, muitas obrigações me aguardavam. Coisas que eu tinha de fazer. Aí, lembrei-me do menino-filósofo chamado Nietzsche que dizia que ficar em casa estudando, quando tudo é lindo lá fora, é uma evidência de estupidez. Mandei as obrigações às favas e fui caminhar na lagoa do Taquaral.
Bem, não fui mesmo caminhar. Meu desejo não era médico, caminhar para combater o colesterol. Caminhar, para mim, é uma desculpa para ver, para cheirar, para ouvir... Caminho para levar meus sentidos a dar um passeio. Tanta coisa: os patos, os gansos, os eucaliptos, as libélulas, a brisa acarinhando a pele — os pensamentos esquecidos dos deveres. Sem pensar, porque, como disse Caeiro, "pensar é estar doente dos olhos". Aí, quando já me preparava para ir embora, já no carro, vejo um amigo. Paramos. Papeamos. Ele, com uma máquina fotográfica. Andava por lá, fotografando. Não tenho autorização para dizer o nome dele. Vou chamá-lo de Romeu, aquele que amava a Julieta. Me confidenciou: "Vou fazer uma surpresa para a Julieta. Ela adora os flamboyants. E eles estão maravilhosos. Vou fazer um álbum de fotografias de flamboyants para ela... Você não quer vir até a nossa casa para tomar um cafezinho?"
Fui. Mas ele me advertiu: "Não diga nada para ela. É surpresa..." Esta história tem sua continuação um pouco abaixo. Recomeço em outro lugar.
As crianças da 3ª série do Parthenon, escola linda, me convidaram para uma visita. Elas tinham estado fazendo um trabalho sobre um livrinho que escrevi, O Gambá Que Não Sabia Sorrir. Queriam me mostrar. Foi uma gostosura. É uma felicidade sentir-se amado pelas crianças. Eu me senti feliz. Aí aconteceu uma coisa que não estava no programa. Uma menininha, na hora das perguntas, disse que ela havia lido a minha crônica Se Eu Tiver Apenas Um Ano a Mais de Vida...
Espantei-me ao saber que uma menina de nove anos lia minhas crônicas. Lia e gostava. Lia e entendia. Aí ela acrescentou: "Recortei a crônica e trouxe para a professora..." Confirmou-se aquilo de que eu sempre suspeitara: as crianças são mais sábias que os adultos. Porque o fato é que muitos adultos ficaram espantados e não quiseram brincar de fazer de contas que eles tinham apenas um ano a mais para viver. Ficaram com medo. Acharam mórbido.
As crianças, inconscientemente, sabem que a vida é coisa muito frágil, feito uma bolha de sabão. Minha filha Raquel tinha apenas dois anos. Eram seis horas da manhã. Eu estava dormindo. Ela saiu da caminha dela e veio me acordar. Veio me acordar porque ela estava lutando com uma idéia que a fazia sofrer. Sacudiu-me, eu acordei, sorri para ela, e ela me disse: "Papai, quando você morrer você vai sentir saudades?" Eu fiquei pasmo, sem saber o que dizer. Mas aí ela me salvou: "Não chore porque eu vou abraçar você..."
As crianças sabem que a vida é marcada por perdas. As pessoas morrem, partem. Partindo, devem sentir saudades — porque a vida é tão boa! Por isso, o que nos resta fazer é abraçar o que amamos enquanto a bolha não estoura.
Os adultos não sabem disso porque foram educados. Um dos objetivos da educação é fazer-nos esquecer da morte. Você conhece alguma escola em que se fale sobre a morte com os alunos? É preciso esquecer da morte para levar a sério os deveres. Esquecidos da morte, a bolha de sabão vira esfera de aço. Inconscientes da morte aceitamos como naturais as cargas de repressão, sofrimento e frustração que a realidade social nos impõe. Quem sabe que a vida é bolha de sabão passa a desconfiar dos deveres... E, como disse Walt Whitmann, "quem anda duzentos metros sem vontade, anda seguindo o próprio funeral, vestindo a própria mortalha".
O pessoal da poesia está levando a sério a brincadeira. Eu mesmo já fiz vários cortes drásticos em compromissos que assumi. Eram esferas de aço. Transformei-os em bolhas de sabão e os estourei. Pois o pessoal da poesia decidiu que, no programa de um ano de vida apenas, num dos nossos encontros não haveria leitura de poesia: haveria brinquedos e brincadeiras. Cada um trataria de desenterrar os brinquedos que os deveres haviam enterrado.
Obedeci. Abri o meu baú de brinquedos. Piões, corrupios, bilboquês, iô-iôs e uma infinidade de outros brinquedos que não têm nome. Seria indigno que eu levasse piões e não soubesse rodá-los. Peguei um pião e uma fieira e fui praticar. Estava rodando o pião no meu jardim quando um cliente chegou. Olhou-me espantado. Ele não imaginava que psicanalistas rodassem piões. Psicanalista é pessoa séria, ser do dever. Pião é coisa de criança, ser do prazer.
Acho que meus colegas psicanalistas concordariam com meu paciente. A teoria diz que um cliente nada deve saber da vida do psicanalista. O psicanalista deve ser apenas um espaço vazio, tela onde o paciente projeta suas identificações. Mas a minha vocação é a heresia. Ando na direção contrária. "Você sabe rodar piões?", eu perguntei. Ele não sabia. Acho que ficou com inveja. A sessão de terapia foi sobre isso. E ele me disse que um dos seus maiores problemas era o medo do ridículo. Crianças são ridículas. Adultos não são ridículos. Aí conversamos sobre uma coisa sobre a qual eu nunca havia pensado: que, talvez, uma das funções da terapia seja fazer com que as pessoas não tenham medo das coisas que os "outros" definem como ridículo. Quem não tem medo do ridículo está livre do olhar dos outros.
Preparei o encontro de poesia de um jeito diferente. Nada de sopas sofisticadas. Fui procurar macarrão de letrinha, coisa de criança. Não encontrei. Encontrei estrelinhas. Fiz sopa de estrelinhas. E toda festa de criança tem de ter cachorro-quente. Fiz molho de cachorro-quente. E nada de vinho. Criança não gosta de vinho. Gosta é de guaraná.
Foi uma alegria, todo mundo brincando: iô-iôs, piões, corrupios, bilboquês, quebra-cabeças, pererecas (aquelas bolas coloridas na ponta de um elástico)... Rimos a mais não poder. Todo mundo ficou leve. Aí tive uma idéia que muito me divertiu: que na sala de visitas das casas houvesse um baú de brinquedos. Quando a conversa fica chata, a gente abre o baú de brinquedos e faz o convite: "Não gostaria de brincar com corrupio?" E a gente começa a brincar com o corrupio e a rir. A visita fica pasma. Não entende. "Quem sabe, ao invés do corrupio, um bilboquê?" E a gente brinca com o bilboquê. Aí a gente estende o brinquedo para a visita e diz: "Por favor, nada de acanhamentos! Experimente. Você vai gostar..." São duas as possibilidades. Primeira: a visita brinca e gosta e dá risadas. Segunda: ela acha que somos ridículos e trata de se despedir para nunca mais voltar...
Pois a Julieta — aquela do Romeu — me trouxe uma pipa de presente. Vou empinar a pipa em algum gramado da Unicamp. E aí ela nos contou da surpresa que lhe fizera o Romeu. Fotografias de flamboyants vermelhos — que coisa mais romântica! Árvores em chamas, incendiadas! Cada apaixonado é um flamboyant vermelho! E nos contou das coisas que o Romeu tivera que fazer para que ela não descobrisse o que ele estava preparando.
Mas o mais bonito foi o que ele lhe disse, na entrega do presente. Não sei se foi isso mesmo que ele disse. Sei que foi mais ou menos assim: "Sabe, Julieta, aquela história de ter um ano apenas a mais para viver... Pensei que você gostava de flamboyants e que você ficaria feliz com um álbum de flamboyants. E concluí que, se eu tiver um ano apenas a mais para viver, o que quero é fazer as coisas que farão você feliz..."
Um ano apenas a mais para viver: aí os sentimentos se tornam puros. As palavras que devem ser ditas, devem ser ditas agora. Os atos que devem ser feitos, devem ser feitos agora. Quem acha que vai viver muito tempo fica deixando tudo para depois. A vida ainda não começou. Vai começar depois da construção da casa, depois da educação dos filhos, depois da segurança financeira, depois da aposentadoria...
As flores dos flamboyants, dentro de poucos dias, terão caído. Assim é a vida. É preciso viver enquanto a chama do amor está queimando..."
Rubem Alves

novembro 10, 2009

Paixão e boleros


Ler pode ser perigoso

" ...A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido. Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer.
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam.
Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos... A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano
".
Guiomar de Grammon

novembro 09, 2009

O tempo é nosso amigo

"Quem já teve oportunidade de namorar a mesma mulher com intervalo de alguns anos sabe: as pessoas melhoram. As duas pessoas. O sexo fica mais intenso, as conversas ganham outra densidade, a vida torna-se mais simples e o convívio, mais confortável. Aquilo que na juventude é problema chega ao futuro resolvido. Ou incorporado. É como se as pessoas parassem de ensaiar e se aproximassem, afinal, do seu papel verdadeiro na vida. Relaxam e desfrutam.
Lembro de uma conversa recente, com uma amiga mais jovem, que se queixava de dificuldades no terreno do prazer. As coisas não acontecem com ela de acordo com o moderno manual do orgasmo feliz. O que fazer? Antes, minha resposta automática seria “análise”. Vai lá, discute e paga, com o tempo melhora. Hoje, embora eu acredite em psicanálise, acho que o segredo está na parte final da frase: com o tempo melhora.
O prazer é resultado da experiência repetida e da segurança adquirida. E essas coisas crescem... com o tempo. A psicanálise apressa processos, com sorte inicia transformações que de outra forma não teriam lugar, mas apenas a passagem do tempo, com seu enorme e complexo efeito sobre nós, é realmente capaz de simplificar coisas que na juventude parecem totalmente misteriosas ou inacessíveis. Como sexo e prazer.
Por que falar disso? Porque eu tenho a impressão de que as pessoas, homens e mulheres, estão vendo o tempo sob uma única dimensão: a do envelhecimento. Tempo virou sinônimo de bunda caída, papada e rugas. Tempo traz barriga, careca e Viagra. Tempo só nos enfeia e nos debilita. No fim da linha, nos mata. É o inimigo. Um pesadelo que se mede em tic-tacs do relógio, do qual se foge permanentemente. Mas será mesmo isso?
Acho que não. Assim como o prazer, que cresce com o tempo, outras dimensões fundamentais da existência se tornam melhores à medida que o tempo passa. Sem pensar muito, me lembro de uma, importantíssima: a capacidade de lidar com as pessoas e com as situações. A falta de traquejo social dos jovens é um fardo horrível. Ela produz angústias e equívocos em quantidades astronômicas. Ainda bem que passa.
Outra coisa que melhora com o tempo é a autocrítica. Lembra de ser adolescente e se achar uma droga em TODOS os sentidos: a cara, o corpo, o jeito, a personalidade? Até da família se tem vergonha nessa época. Uma das melhores coisas da vida é deixar para trás esse sentimento agudo de inadequação e começar a gostar de si mesmo, ainda que moderadamente. Eu, por exemplo, gosto mais de mim hoje do que gostava aos 20 anos, embora na época eu me achasse um gênio e hoje tenha uma percepção muito clara das minhas limitações – e dos meus talentos. Acho que acontece assim com boa parte das pessoas.
Gosto de pensar que a gente melhora também no terreno das ideias. A coisa toda vai ficando mais refinada, menos óbvia, verdadeiramente interessante. A gente já viu uma coisa e outra e as leituras e vivências começam finalmente a convergir na direção do entendimento. O mundo parece confuso e incerto, mas ele é assim mesmo. Desaparecem a certeza dogmática e as respostas automáticas. Em algum momento vem um vislumbre de sabedoria que sugere uma compreensão maior das coisas no futuro. Das coisas e das pessoas.
Claro, a esta altura da coluna alguém estará dizendo: bobagem! Aos 20 anos eu era mais bonita, mais esperançosa e a vida era muito mais divertida. Aos 30 eu fazia tudo o que queria.
Era assim mesmo? Tenho dúvidas sinceras. Frequentemente eu tenho impressão de que as pessoas fazem uma leitura quantitativa do próprio passado. Eu saia mais, eu transava mais, eu fazia mais coisas. Mais ou melhor?
Eu posso me lembrar de centenas de fins de semanas chatos que eu passei aos 20 e tantos anos e aos 30 e tantos anos cheios de coisas barulhentas para fazer. Inclusive sexo. Dançar bêbado no centro acadêmico até parar no hospital é uma maravilha! Ou não? Tentar comer (mal) todas as garotas do trabalho porque você acabou de se separar e não suporta estar sozinho é genial! Ou não? Como eu disse, tenho dúvidas sinceras.
Por outro lado, tenho certeza de que a vida continua. E que a gente vai tendo experiências únicas e construindo memórias indeléveis, apesar do tic-tac do relógio. A cada par de semanas, ou meses, ou anos, vivemos novos momentos únicos de ternura e de prazer. E eu suponho que eles são ainda mais ternos e mais prazerosos porque nossa cabeça é melhor do que era uns anos atrás. Porque nós sabemos mais. Porque melhoramos.
Um dos problemas que eu percebo ao meu redor – muitas vezes em mim mesmo – é o desejo de congelar a existência. As pessoas repetem comportamentos e perseguem sensações que já deveriam ter ultrapassado. Se um adulto agisse com a espontaneidade das crianças a vida inteira seria percebido como maluco. Se outro exibisse a instabilidade e a raiva dos adolescentes na maturidade também seria tratado como doente. Mas muitos de nós tentamos desesperadamente manter o corpo, as emoções e o comportamento de uma pessoa de 20 anos (embora tenhamos, 30, 40, 50 ou 60) e “todo mundo” acha mais ou menos normal. Mas não é, né? A vida exige renovação de repertório.
Claro, tenho saudades de quando tinha 14 ou 18 anos. Agora mesmo eu fui à cozinha buscar uma lata de cerveja e vi a luz da lua refletida na cerâmica do piso. Faz calor, o verão chegou. Lembro de entrar na casa da minha mãe, na minha casa de adolescente, vendo no céu a lua enorme e sentindo o cheiro adocicado da dama da noite que crescia no quintal. Como esquecer aquela sensação de estar vivo? Mas, dias atrás, fui levar meu filho mais novo à casa da mãe dele, a casa dele. Era noite, fazia calor e pairava na porta da casa um perfume delicioso. “É jasmim?”, eu perguntei. “Não, pai, é dama da noite”, ele respondeu. Vê? Tudo se liga, tudo se combina, tudo se renova. O passado está aqui, a vida continua. E o tempo, de alguma forma, está do nosso lado."

Ivan Martins