outubro 23, 2009

Por falar em estrelas...

Para que Hércules se tornasse imortal, deveria ser amamentado quando criança pelo seio de sua madrasta Hera, a mulher de Zeus (Júpiter na mitologia romana). Hermes (Mercúrio, para os romanos), outro filho de Zeus, colocou a criança no seio de Hera enquanto ela dormia. Ao abrir os olhos, ela se soltou do pequeno Hércules, mas ele já tinha sido alimentado. O leite que escorreu do seio de Hera deixou um rastro pelo céu. Foi assim que “nasceu” a Via Láctea. Há outra versão...

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim


Torquato Neto
Poema que figura entre "Os cem melhores poemas brasileiros do século", pág. 269. 

outubro 22, 2009

“Digitai para viver”

Este é o lema do Ivan Lessa que é colunista da BBC Brasil e este é o seu texto de ontem:
"Eu sou muito mais moço do que pensam aqueles que me veem bengalando meu caminho pelas ruas de LondresNinguém me dariamais que 47 anos. Vá lá que seja: 57 anos. Isso porque só podem assistir a ruína a que meu pobre corpo ficou reduzido, conforme diz a velha canção do bom Ary Barroso. Não podem ver o decatlo moderno disputado com vistas a medalha ao menos de bronze pela minha vida interior.
Mentalmente, tenho meus sacudidos 30 e poucos anos. Meu cérebro bate bola em praia ou terreno baldio. Minhas faculdades mentais dão a volta ao quarteirão com o português do armazém correndo atrás, e não me pegando, depois de eu roubar a coxinha de galinha e a empada de palmito.
Não pratico esportes. Não faço ioga. Alongamento ou Pilates. Meu segredo, minha receita para uma vida saudável, para chegar com alguma dignidade e boa disposição física ao crepúsculo final que nos espera a todos é muito simples e nada tem a ver com regimes e essa enganação de alimentos “orgânicos”. Não. Sento. E sento e sento e sento.
Não só diante da televisão e os DVDs alugados, que isso é recreio, hora da engorda mental, confeitos que só engordam o já castigado cérebro. Sento diante da mesa em que se alojam, como precioso relicário, o computador, com todos seus adereços habituais: teclado, camundongo, USB para isso e aquilo outro, dongles e, vez por outra, suas inevitáveis chateações.
O conjunto, comigo a manobrá-lo, confortavelmente sentadão, é o que me mantém, e ainda manterá, por muito tempo, com a mente sã e distante de qualquer “andador”, por mais moderno e estético que seja.
Amigos – mais: irmãos – de cabelos cor de prata, eis o segredo que a ciência acaba de endossar: googleie para viversem demência ou sentir nas costas o toque gelado dos dedinhos finos de Alzheimer. O vovô e a vovó podem reverter o processo da senilidade ao simples digitar cibernético.
Eu acabei de dar uma chegada ao Google para ver se encontrava um substantivo em português neo-reformado para a palavra “dongle”. Neris de petibiriba, conforme dizemos nós, os com mais de 35 anos de idade. No entanto, a simples busca adiou, nem que seja por um átimo (confiram no Houaiss virtual), o processo degradante do envelhecimento.
Lá está, no jornal: Gary Small, professor de neurociência e comportamento humano da Universidade da Califórnia, Los Angeles (a mais que prestigiosa UCLA) declarou que “os cidadãos mais velhos, mesmo com um mínimo de experiência, terão alteradas de forma positiva suas atividades mentais e seu devido comportamento”.
O grande Small e sua equipe trabalharam durante algum tempo com 24 idosos entre as idades de 55 e 78 anos, submetendo-os a toda sorte de testes, modernos e tradicionais. Metade dessa gente boa e de bela idade era chegada à net. Precisamente a metade mais cheia de vida, mais sagaz. Tudo foi segundo o mais avançado método científico à disposição da UCLA. Não deu outra coisa: mexeu com o teclado do computador, digitou, buscou, achou, não achou, dá na mesma: a atividade cerebral do internauta foi estimulada com oxigênio extra e uma boa dose de nutrientes, ou nutritivos. No que o sangue benévolo saiu jorrando inteligência pelas partes mais recônditas do cérebro dos… quase que digo anciãos. Cérebro dos sempre jovens e atentos cibernautas.
“Digitai para viver” passou a ser o meu lema. Viver mais e melhor, com mais inteligência e sensibilidade. Googlai, irmãos, googlai!"

disposição cética

"Duvidar não significa descrer. Quem descrê já não duvida. Duvidar significa crer em coisas distintas e incompatíveis, ao mesmo tempo. O Ceticismo apareceu na Grécia pelo século III A. C., quando a cultura grega estava saturada de experiência criadora, possibilitando opções múltiplas e divergentes. Em essência, a disposição cética revela-se como forma refinada de tentação intelectual para gozar a simultaneidade dos opostos. Cético é quem experimenta a inefável fruição do possível, ora crendo que sim, ora crendo que não... O cético disfarça seu embaraço opcional, pela superior destreza, pela fina elegância com que se mostra capaz de seduzir ouvintes ou leitores ao sustentar os argumentos mais contraditórios sobre o mesmo assunto."
Gilberto de Mello Kujawski, in Descartes existencial

Lágrimas de Eros


"Eros y Tanatos, pulsión de vida y pulsión de muerte. La relación entre estos dos elementos en una exposición temática que recorre como el arte, ya sea pictórico, fotográfico o escultórico, se ha acercado al mundo del erotismo. Con el ojo puesto en Georges Bataille y su obra 'El erotismo', esta exposición le hará reconsiderar conceptos como el de orgasmo, el amor o el tabú en un recorrido tan intenso como sensual. Atrévase"... clicando no título que te levará ao site do Museo Thyssen-Bornemisza y Fundación Caja Madrid. A mostra é inspiradora. Ao final o visitante pode passar na lojinha do museu e adquirir uma caixinha com preservativos ilustrada com a obra "Adan y Eva" de Jan Gossaert.

Dia da Criança

"Todos já fomos crianças. Muito parecidas entre si, se levarmos em conta o "nosso tempo" de cada um. Mas o tempo pinta a criança de jovem, logo depois de adulto e mais adiante de idoso.
Um dia, porém, nos perguntamos: "Cadê a criança que estava aqui?" Aquela cheia de sonhos e fantasias, que não parava nenhum minuto e perguntava o tempo todo, desafiando a lógica e a política na mais fascinante simplicidade. Caaaalma! O gato não comeu.
A criança não morreu. Apenas dorme, dentro de você, de mim, de todos nós. Por vezes, permitimos que acorde e fale, surpreendendo aqueles que nos cercam. Isso é agradável e necessário para que tenhamos saúde e equilíbrio.
Não se incomode, pois, com uma repentina vontade de brincar de casinha, de querer ver desenho animado ou de se imaginar herói superpoderoso.
A mente precisa, em todas as idades, de uma farta dose de fantasia para poder lidar com as agruras do cotidiano.
Lógico é que, a cada ação, devam-se estimar as possibilidades de risco, mas para isso existem aqueles que não estão envolvidos na mesma aventura.
"Parece criança!" é a frase que geralmente denuncia alguém atento para moderar as atitudes de quem se permitiu "viajar" em sua fantasia. Para tal, além de alimentá-la, temos que falar dela sem muitas restrições e ouvir quem dela fale sem demonstrar espanto ou contrariedade.
Frequentemente sou procurado por filhos e netos que julgam que seus parentes idosos estejam apresentando um distúrbio de comportamento por estarem pensando em começar um novo negócio ou treinando para uma competição esportiva. Não percebem que a necessidade de enfrentar um novo desafio ou de vivenciar uma experiência inédita alimenta nosso espírito empreendedor.
Em resumo, existe em cada um de nós a mesma curiosidade e o mesmo interesse que manifestamos quando demos os primeiros passos, fizemos as perguntas mais simples e vencemos nossos limites mais básicos. Isso se perpetua pela vida toda, e a necessidade de pertencer ao meio e desafiá-lo se mantém constante.
E quando, em convívio com aqueles que -por motivo de doença- chamam os netos pelos nomes dos filhos ou querem insistentemente voltar para casa mesmo estando nela, saibamos ter a complacência necessária para permitir que possam mudar a realidade sem culpa e sem a necessidade de se enquadrarem na verdade absoluta, mesmo porque esta, racionalmente, inexiste.
Se fomos capazes, um dia, de brincar com nossos filhos ou netos, fazendo de um cabo de vassoura um cavalo imponente ou de uma boneca a filhinha que precisava ser amamentada, haveremos também de saber lidar com essa condição de realidade imaginária manifesta pelo idoso. Basta nos lembrarmos das brincadeiras de outrora.
A criança que fomos um dia viverá sempre no íntimo de cada um. Somos os únicos capazes de mostrá-la ou de mantê-la escondida para sempre."

WILSON JACOB FILHO

Mulheres...


500 anos de arte ocidental e interessantes metamorfoses.

outubro 20, 2009

pensar em nada

"Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora."


Fernando Pessoa "Ficções do interlúdio: Poemas completos de A. Caeiro"

outubro 19, 2009

Durex


Ainda a publicidade e os 'valores' por ela ameaçados...

Os tais dos valores

"RECEBI MUITOS e-mails por conta da "Vovó das Havaianas", a coluna de 5 de outubro, onde comentei o comercial "maldito" da "vovó que gosta de sexo". Mas, afinal, por que se ofender com isso?
A queixa dos ofendidos, em situações como essa, normalmente cai sobre essa coisa de que, hoje em dia, se fala tanto quanto se fala em cabala da Vila Madalena, energias, aquecimento global e outros clichês, isso é, os tais dos "valores".
Frases como "hoje não existem valores" soam tão ridículas como "sofro porque os unicórnios estão sendo extintos". Quando alguém começa falando "porque a crise dos valores hoje em dia...", eu já sei que o resto é blábláblá. Por acaso alguém acha que o mundo já foi melhor? Há 500 anos existiam "valores" mais válidos? Respondo: não, o mundo nunca foi bom. E mais: se há 500 anos havia "valores" mais válidos é porque simplesmente havia menos opções na vida. Muitas opções, muita mistura, muitas viagens, muita gente diferente, muita terapia...
muita incerteza. A própria ideia de "escolha de valores" implica num "mercado de valores".
Todo mundo se acha "progressista", "emancipado", "ético", adora dizer que gosta de mudanças morais, mas contanto que o mundo caiba em sua salinha de TV. O relativismo só serve para se achar índio fofinho.
Quer deixar alguém com vergonha: mande ele ou ela elencar a lista de "valores" que julga certa (não vale coisas do tipo "não matarás" porque essa ideia é de Moisés...). Ninguém é repressor, mas todo mundo tem seu chicotinho à mão. O moralismo barato nunca esteve tanto em voga. Falando mal da propaganda me sinto como um agente do bem enfrentando os demônios do mundo. Mas todo mundo quer que a economia gire, o dinheiro circule e venha parar em suas mãos. Para isso acontecer, tem de ter consumo. Ah, como é difícil esse mundo de gente grande.
Ouvi dizer que umas 200 leis andam por aí querendo controlar a propaganda. Ouvi também falar de uma lei que obriga a ter, nas fotos, algo como "esta foto não é real" a fim de libertar as meninas da beleza "artificial". Alguém pode me explicar o que vem a ser a "beleza natural"?
Ninguém pode controlar o modo como se "forma" o padrão de beleza sem se tornar um fascista. Pois bem, aí está o photoshop ético. Ridículo, como aliás todo esse furor legislativo. A ideia de uma propaganda "construtiva" em termos de "valores" é de inspiração fascista. Quem vai dizer quais são os "valores construtivos"?
Se tomarmos por evidência o que as pessoas falam, todas têm ótimos "valores", ninguém corrompe ninguém, ninguém trai ninguém, ninguém mente para ninguém, todo mundo ensina aos filhos o bem. Veja a pesquisa recente publicada no caderno Mais! desta Folha (dia 4 passado): segundo a pesquisa, nós vivemos numa Escandinávia, todo mundo é muito ético.
Aliás, sobre essa bobagem da Escandinávia ser vista como modelo ético, recomendo a leitura do romance do dinamarquês Christian Junguersen "A Exceção" (ed. Intrínseca). Nesse maravilhoso livro, um grupo de mulheres que trabalham num centro em Copenhague de combate e investigação de genocídios (olha só: elas são do bem!) se põe a perseguir e destruir uma delas, apenas porque as outras pensam que ela é suburbana, careta e tem uma família "Doriana".
Ninguém fala a verdade quando é perguntado sobre "valores". Óbvio que não: seria como ficar nu em público. A tendência a projetar uma autoimagem de gigante ético é tão normal quanto cobrir as partes íntimas do corpo. É mais ou menos como se perguntar: é verdade que sua mãe é amante do vizinho? Ela é, mas você não vai contar.
Por exemplo, uma reunião de pais numa escola é um desfile de pessoas que são absolutamente seguras quanto aos "valores" que passam para os filhos. Mentira. Pura piada. Quando muito, os pais veem os filhos à noite. Só não terceirizam os filhos quem não tem dinheiro ou mulheres sem inquietações profissionais ou libertárias, ou seja, as "coitadas" que as outras acham que são "apenas mães".
Se dependesse desses "santos", o mundo já estaria salvo só de ouvi-los cantar o hino aos "valores de seus filhos". A vida cotidiana se dá aos pedaços, aos trancos e barrancos, com fragmentos de consciência e a custa de muito esforço. Ninguém sabe com certeza o que está fazendo, quando está fazendo, em meio a tudo que faz ao mesmo tempo, o tempo todo.
Enfim, suspeito que esse papo de "valores" serve para evitarmos falar de coisas mais sérias."

LUIZ FELIPE PONDÉ

outubro 18, 2009

Z W E I G

O que rende 'audiência' pelos blogs mundo afora é a polêmica. Mas para mim, este espaço serve para arejar minha cabeça, minha alma e deixar sair pensamentos que povoam minha mente que, sem dúvida, não estão nesta direção. Afastada da TV e dos noticiários, me rendo, à vezes, à imprensa internacional. Assim, tomei conhecimento, com atraso, do dossiê que o El Pais dedicou ao Brasil, na semana passada, para, a propósito de sediar a Copa do Mundo e a Olímpiada, aclamar o crescimento econômico, lembrando a obra de Stefan Zweig. Teriam sido necessários 70 anos até que a visão que ele teve acerca do grande potencial brasileiro começasse a se tornar realidade.
Enfim teríamos chegado ao 'futuro'!
Isto foi o bastante para eu 'descer das estrelas' (não confundir com 'subir nas tamancas') e vir 'tirar a limpo' alguns aspectos desta história. Me incomoda (e muito) o fato de a imprensa (poupei os adjetivos) ser acometida deste oba-oba (típico nosso, teria o Zweig tido tempo de perceber?) e faça questão de esquecer ou 'deixar pra lá'(outro traço nosso), a circunstância política que o levou a escrever o livro e cunhar a expressão “país do futuro”.
Em brevíssima biografia: Stefan Zweig era um judeu-austríaco, de família rica e culta de Viena, onde estudou filosofia e literatura. Com a chegada do nazismo, mudou-se (com a primeira mulher) para Londres. Em 1939, divorciou-se e casou com sua secretaria Lotte Altmann, com quem veio para o Brasil, abandonando uma Europa envolvida numa guerra motivada , em parte, por ódios raciais. O casal se instalou em Petrópolis e, em fevereiro de 1942, suicidou-se .
Zweig havia visitado o Brasil em 1936 e o país o fascinara, sobretudo pela salada étnica que viu nas ruas do Rio, o que se refletiu com nitidez no apanhado que fez da história brasileira. Para ele, o brasileiro seria dotado de um caráter em que sobressaiam a tolerância, sobretudo a racial, o espírito de conciliação, a tendência à solução pacífica dos conflitos. Além dessas qualidades do povo, se acrescentava uma natureza rica e generosa. Com tais atributos, o Brasil estaria destinado a apresentar ao mundo, sobre os escombros da Europa, um novo modelo de civilização. O título do livro se transformou em ironia: somos, e seremos sempre, o país do futuro.
O jornalista Alberto Dines que fez o prefácio da edição que li afirma: "Zweig efetivamente fez um negócio com o governo brasileiro: em troca do livro (que desde 1936 pretendia escrever), receberia junto com a mulher um visto de residência permanente [no Brasil]. Uma preciosidade num momento em que o governo trancava as portas aos que fugiam dos horrores do nazismo".

A seguir o trailer do filme de Sylvio Back, de 2002.
Lost Zweig mostra como foi a última semana de vida de Stefan Zweig e de sua mulher Lotte que, num pacto cercado de mistério, se suicidam em Petrópolis, após assistirem o Carnaval de 1942. "Um gesto que ainda hoje, mais de sessenta anos depois, desperta incógnitas e assombro pela sua premeditação e caráter emblemático".

Um filme que deve ser visto.

outubro 17, 2009

Clara Pinto Correia

Ela é escritora, bióloga, tradutora,historiadora, jornalista e apresentadora de TV. Sua produção científica e cultural (segundo a enciclopédia do google) é imensa em todas as áreas em que atua. A maravilhosa aventura da vida, através do qual estou tendo meu primeiro contato com ela, sequer é mencionada, no meio de tantas obras mais importantes.
Malgrado o subtítulo Uma lição de Biologia do Desenvolvimento, não me arriscaria a enquadrá-lo como uma obra de ciências. Isto porque, ainda que seja mantido o rigor científico, os fenômenos curiosos e extraordinários de nosso mundo são tratados com muita sensibilidade e uma certa dose de humor. Para ter uma idéia, a cada pequeno capítulo que compõe o livro é atribuído um título, o que trata do maior sucesso adaptivo do planeta que são as orquídeas, se chama 'A completa desfaçatez das orquídeas' . Ao analisar a dissecação de milhares de cadáveres ocorrida na Renascença na busca de desvendar os mecanismos da circulação sanguínea , a autora nos dá uma aula de história no capítulo Deixo a minha alma no cais (das questões da alma).Porque Henrique VIII teve seis mulheres mandou decapitar tanta gente e mudou para sempre a religião na Inglaterra vem explicado no O Rei vai nu. Sobre as consequências da consaguinidade das famílias reais européias em Filho és, pai serás, como fizeres assim acharás. Traz ainda A História universal da perplexidade, além de discorrer sobre 'os truques de acesso às delícias da barriga da mãe' . Sem contar na delícia que é '.....e foi assim que a hidra de água doce deu o pontapé de saída para o materialismo europeu ." E por aí vai...Sensacional!
Nunca vi nada parecido com esta mulher. Minto, vi. Temos uma 'Neurocientista de plantão' chamada Suzana Herculano-Houzel que também brinca no sério com os temas de sua área. Se tiver curiosidade clique neste título. Te leva ao blog que é um dos que acompanho, já que o livro da Clara Pinto Correia só vai ser encontrado em Portugal...Recebi do meu queridinho que envia de lá.

a impossibilidade de reinventar-se


Big Brother Belchior
por Francisco Bosco na CULT

"No famoso plano-sequência de Profissão: Repórter, o assassinato de David Locke é narrado de modo indireto, por meio de uma janela com grade. Mas a força da cena não está exatamente em seu caráter indireto - o qual sempre se exalta - e sim na mediação da janela gradeada. Como se sabe, o repórter David Locke aproveita-se da morte de um desconhecido em um vilarejo remoto na África para falsificar sua própria morte e assumir a identidade do outro.
O que está em jogo para ele é uma tentativa de sair radicalmente de si. Como repórter, ele viaja o mundo fazendo entrevistas, matérias, documentários, mas sente que os deslocamentos geográficos e culturais não o levam a afastar-se de si próprio, pois ele, em suas palavras, acaba codificando toda a diferença nos seus (dele) próprios termos, fazendo-a desembocar sempre de volta no registro da identidade. Ao valer-se da morte de um desconhecido para tentar desconhecer-se, Locke vê-se herdeiro imediato da vida desse outro, David Robertson, um traficante internacional de armas.
Passa, então, a ser perseguido por agentes de um governo africano, pois Robertson fornecia armas para uma guerrilha que se lhe opunha. Ao mesmo tempo, a ex-mulher de Locke descobre que a morte de Robertson foi falsificada e começa ela também a persegui-lo. Locke não demora muito para concluir que sua tentativa fracassara. Não lhe bastara colar sua foto no passaporte de outro para transformar-se em outra pessoa. Pior, agora ele estava multiplamente emparedado: dentro de si mesmo, dentro da realidade de outro (mas não de sua subjetividade) e dentro de seu passado, que não pudera aniquilar. O emparedamento descortina-lhe o nome: David Locke, Locke D., ou seja, locked, trancado.
É por isso que o famoso plano-sequência é narrado através da janela gradeada, que assoma, então, como o correlato material da impossibilidade existencial a que se lançou Locke. Dentro do quarto, ele dorme, enquanto, pelas grades - portanto, da perspectiva dele -, vemos a realidade que lhe assaltaria, mas que ele não podia alcançar. Vemos, então, os agentes chegarem, andarem na direção do hotel e saírem do enquadramento.
Em seguida, ouvimos um tiro. A partir daí há uma extraordinária inversão de perspectiva. A jovem que Locke conhecera em Barcelona e passara a acompanhá-lo em sua fuga entra no quarto no mesmo momento que a ex-mulher dele, acompanhada da polícia. O policial pergunta, primeiro à ex-mulher: "Você o reconhece?", ao que ela responde: "Eu nunca o conheci". Em seguida, a mesma pergunta é dirigida à jovem, e sua resposta é: "Sim". Essa cena é narrada de fora para dentro da janela gradeada.
Da perspectiva da ex-mulher, havia também um emparedamento em Locke; ela nunca pôde conhecê-lo, embora tivesse vivido com ele muitos anos. Já a jovem, cujo nome não vem à tona, e a quem Locke se apresentara sob um nome falso, afirma, sem hesitar, tê-lo conhecido (confirmando uma frase de Barthes segundo a qual "conhecer alguém é conhecer-lhe o desejo").

Onde está Belchior?

O filme de Antonioni é de meados dos anos 1970. Sua questão é existencial: é possível reinventar-se completamente, ser radicalmente outro? A resposta do filme é não - mas não é isso que desejo investigar aqui. Quero chamar atenção para o fato de que, mesmo sendo Locke um repórter, a mídia não é uma questão fundamental para o filme. As forças que lhe saem à captura são a polícia, os agentes do governo africano e sua ex-mulher, ajudada pela embaixada. Locke consegue sair da África e ir para Londres, daí para Barcelona, daí para cidades pequenas na Espanha, até ser encontrado - e tudo isso se passa em registro de experiência privada. Agora cortemos para agosto de 2009, onde vamos acompanhar outra perseguição, bem diferente.
A primeira notícia de que Belchior havia desaparecido foi publicada num site. Nele, depoimentos de amigos e parentes afirmavam desconhecer o paradeiro do cantor. Daí em diante pipocaram novas matérias. Os maiores jornais do país noticiaram o sumiço, o Fantástico fez uma matéria, até a imprensa estrangeira repercutiu o assunto. Novas informações começaram a aparecer: Belchior teria dívidas com hotéis e estacionamentos. Especulações também surgiram: com a carreira em baixa, o cancionista estaria tentando criar um factoide que o levasse novamente aos holofotes.
E não faltaram, é claro, as piadas na internet: numa delas, Belchior figura entre os personagens do seriado Lost; noutra, murmura-se que seu desaparecimento faz parte de um mistério mais amplo, a envolver o sumiço de outros cantores, como Biafra, Silvinho (aquele do ursinho Blau Blau) etc. O mistério levou apenas três semanas até ser esclarecido, pelo Fantástico, que na edição do dia 30 de agosto revelou o paradeiro de Belchior e arrancou dele uma entrevista. Ao assistir à reportagem do Fantástico, fiquei ao mesmo tempo indignado e apavorado.

Vigiar e perseguir

Antes de entrar a reportagem, um solene Tadeu Schmidt anuncia o fim do mistério: Belchior foi localizado pelo Fantástico. Em seguida, Patrícia Poeta, em tom de reproche maternal, diz que o cancionista, "que se afastou da família, dos amigos e dos fãs, deu as suas razões à repórter Sônia Bridi". Pronto, começou o pesadelo.
O que vem a seguir é uma demonstração assustadora do funcionamento de uma sociedade de controle, onde um desvio existencial, mesmo que não diga respeito a mais ninguém, é tornado objeto de visibilidade, escrutínio, sarcasmo e julgamento públicos. É importante observar que a perseguição a Belchior não partiu da Justiça, a fim de que ele saldasse suas possíveis dívidas, mas sim da mídia; isto é, não foi movida por um legítimo interesse público (que não se confunde com uma espetacularização pública), mas por uma mistura de jornalismo de fofoca e vigilância coletiva, por meio da qual se pode ler um sintoma, a que voltarei.
O Fantástico recebeu pistas de pessoas que haviam estado recentemente com Belchior. Por meio delas, reuniram-se evidências de que ele estivera nas últimas semanas no Uruguai. Sim, evidências, porque foram enviadas fotos de Belchior em situações privadas (com o acoplamento de máquinas fotográficas em celulares, todo cidadão que os possui torna-se um delator em potencial). Em seguida, os repórteres receberam um e-mail anônimo que revelava o paradeiro de Belchior: ele estaria na pequena cidade de San Gregorio de Polanco, nos pampas uruguaios. O Fantástico não demorou a achar a pousada em que Belchior estava hospedado. Ao ligar para ela, alguém disse que o (a esta altura) fugitivo estivera lá, porém já fora embora. "Mas era mentira", conta a repórter Sônia Bridi, que, desconfiada, vai até lá e chega à porta de Belchior com a câmera ligada.
Já então era óbvio que Belchior não queria ser encontrado. Mas o desejo - e esse desejo não deve ser reconhecido como um direito? - de privacidade não conta para o Fantástico. A repórter bate na porta, Belchior não quer conversa, mas ela insiste, ronda a casa, sussurra com a voz mais cínica do mundo: "A gente veio de tão longe pra te encontrar, tem tanta gente te procurando lá no Brasil...".
Belchior deve ter resistido por horas, pois as primeiras imagens são ainda de dia, e quando ele finalmente cede já é noite. Sai de casa e quase podemos ouvir o famoso bordão futebolístico: "Taí o que você queria". O Fantástico triunfa, o que há de mais desrespeitoso nas pessoas também. E Belchior? Com uma aparência existencialmente saudável, ironiza com sutileza e bom humor o absurdo da invasão; diz ter achado estranha a primeira matéria do Fantástico (que ele viu pela internet), que aquilo nada tinha a ver com ele, e que ele não é uma celebridade.
Em seguida, recusa-se, com coragem firme, a responder a questões a respeito de sua vida privada. Num momento antológico, constrange a repórter - e, por extensão, espero, todos que compartilhavam ali a posição dela - ao afirmar que não tem interesse pela vida privada de niguém. Esclarece que sua presença ali se deve a um trabalho "muito especial" que está sendo desenvolvido por ele, a tradução de todo o seu cancioneiro para a língua espanhola, aproveitando para lembrar sua ligação com a América Latina, citando seu verso "Eu sou apenas um rapaz latino-americano".
Da perspectiva do perseguidor, o ponto central da cena reside na seguinte pergunta da repórter: "Você não deixou de fazer contato com sua família, com seus amigos, nesse período?". Essa pergunta retoma o tom de mamãe controladora de Patrícia Poeta. Nela está implícito nada menos do que isso: ninguém tem o direito de abandonar (mesmo provisoriamente) sua família e seus amigos, e se tiver essa audácia será julgado em público por ela. Ninguém tem o direito de em algum momento querer reinventar-se, ou simplesmente querer afastar-se, sem pedir a bênção aos demais.A perseguição a Belchior, então, parece assumir um caráter sintomático: é precisamente porque todo mundo tem, já teve, terá ou pode ter esse desejo de reinventar-se, e não consegue realizá-lo ou nem ao menos assumi-lo, que aquele que o levou adiante deve ser perseguido, descoberto e recolocado em seu lugar. Deve ser lembrado de que tem satisfações a dar e de que, no limite, sem o consentimento dos outros, não pode se afastar deles. Pois os outros não querem ser lembrados de suas próprias covardias ou mediocridades existenciais.
É tênue a fronteira entre a curiosidade, o jornalismo e o desrespeito brutal. É revoltante (e apavorante) que essa questão não seja sequer colocada pelos que estão prestes a atravessá-la. Nos anos 1970, David Locke estava trancado em sua subjetividade; o caso Belchior vem nos lembrar que, hoje, estamos trancados na realidade, ao ar livre, gradeados por milhares de olhos que nunca se fecham."