setembro 10, 2009


Elizabeth Taylor-Richard Burton - "The Sandpiper" (1965)

Casamentos possíveis

"UMA DAS boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.
O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A decepção consigo mesmo é menos amarga quando é transformada em acusação: "Você está me impedindo de alcançar o que eu não tenho a coragem de querer".
Essas recriminações, que disfarçam nossos fracassos, não são unicamente masculinas.
Certo, os homens são quase sempre assombrados por impossíveis devaneios de grandeza -como se algum destino extraordinário e inalcançável já tivesse sido sonhado para eles (e foi mesmo, geralmente pelas suas mães). Diante de tamanha expectativa, é cômodo alegar que o casal foi o impedimento.
As mulheres, inversamente, seriam mais pé-no-chão, capazes de achar graça nas serventias do cotidiano. Por isso mesmo, aliás, elas encarnariam facilmente, para os homens, os limites que a realidade impõe aos sonhos que eles não têm a ousadia de realizar.
Agora, as mulheres também sonham. Há a dona de casa que acusa o marido, os filhos e o casamento por ela ter desistido de outra vida (eventualmente, profissional), que teria sido fonte de maiores alegrias. E há, sobre tudo, para muitas mulheres, um sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual, justamente, elas desistem por causa de marido, filhos e casamento.
Com isso, d. Quixote se queixa de que sua mulher esconde seus livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento. E Madame Bovary se queixa de que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, à cata de paixões sublimes e elegantes.
Pena que raramente eles consigam ter os mesmos sonhos. Um problema é que os sonhos dos homens podem ser de conquista, mas dificilmente de amor, pois eles derivam diretamente das esperanças que as mães depositam em seus filhos, e, claro, uma mãe pode esperar que seu rebento varão seja um dom-juan, mas raramente esperará ser substituída por outra mulher no coração do filho.
Não pense que esse fogo cruzado de acusações seja causa recorrente de divórcio. Ao contrário, ele faz a força do casamento, pois, atrás da acusação ("É por sua causa que deixei de realizar meus sonhos"), ouve-se: "Ainda bem que você está aqui, do meu lado, fornecendo-me assim uma desculpa -sem você, eu teria de encarar a verdade, e a verdade é que eu mesmo não paro de trair meus próprios sonhos".
Ou seja, em geral, a gente casa com a pessoa "certa": a que podemos culpar por nossos fracassos. E essa, repito, não é uma razão para separar-se. Ao contrário, seria uma boa razão para ficar juntos.
Quando a coisa aperta, não é porque sonhos e devaneios teriam sido frustrados "por causa do outro", mas pelas "cobranças", que, elas sim, podem se revelar insuportáveis.
Um exemplo masculino. Uma mulher me permite acreditar que é por causa dela que eu não consigo ser o que quero: graças a Deus, não posso mais tentar minha sorte no garimpo agora que tenho esposa, filhos e tal. Até aqui, tudo bem. Como compensação pelos sonhos dos quais eu desisti, passo as tardes de domingo afogando num sofá e soltando foguetes quando meu time marca um gol, mas eis que, no meio do jogo, minha mulher me pede para brincar com as crianças ou para ir até à padaria e comprar o necessário para o café - logo a mim, que deveria estar explorando as fontes do Nilo ou negociando a paz entre os senhores da guerra da Somália.
Essa cobrança, aparentemente chata, poderia salvar-me da morosa constatação do fracasso de meus sonhos e das ninharias com as quais me consolo. Talvez, aliás, ela me ajudasse a encontrar prazer e satisfação na vida concreta, nos afetos cotidianos. Mas não é o que acontece: o que ouço é mais uma voz que confirma minha insuficiência.
À cobrança dos sonhos dos quais desisti acrescenta-se a cobrança de quem foi (ou é) "causa" de minha desistência e razão de meu "sacrifício": "Olhe só, mesmo assim, ela não está satisfeita comigo." Em suma, não presto, nunca, para mulher alguma -nem para a mãe que queria que eu fosse herói nem para a esposa para quem renunciei a ser herói. E a corda arrebenta.
O ideal seria aceitar que nosso par nos acuse de seus fracassos e, além disso, não lhe pedir nada. Difícil."

CONTARDO CALLIGARIS

setembro 09, 2009

Tomzinho querido...

Porto do Havre, 7 de setembro de 1964

Tomzinho querido,

Estou aqui num quarto de hotel, que dá para uma praça, que dá para toda solidão do mundo.
São 10 horas da noite, e não se vê vivalma.
Meu navio só sai amanhã à tarde e é impossível alguém estar mais triste do que eu.
E como sempre, nestas horas, escrevo para você cartas que nunca mando.
Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente, tem o Brasil, que é uma paixão permanente em minha vida de constante exilado.
A coisa ruim é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa embaixada há uma festa, que me cairia muito bem, com o Baden mandando brasa no violão.
Há pouco telefonei para lá para cumprimentar o embaixador, e veio todo mundo ao telefone.
Estão queimando um óleo firme!
Você já passou um 7 de setembro Tomzinho, sozinho, num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer perspectivas? É fogo maestro!
Estou doido para ver você e Carlinhos e recomeçar a trabalhar. Imagine que este ano foi praticamente dedicado ao Baden, pois Paris não é brincadeira! Mas agora o Tremendão aconteceu mesmo! A Europa teve que curvar-se! Mas ainda assim, fizemos umas músiquinhas, como “Formosa“. Você vai ver! Tudo sambão! Parece até que a saudade do Brasil quando a gente está longe, procura mais a forma do samba tradicional do que a Bossa Nova; não é engraçado? São como diria o Lucio Rangel: “as raízes!”.
Vou agora escrever para casa, pedindo dois menus diferentes para minha chegada. Para o almoço, um tutuzinho com torresmo, um lombinho de porco bem tostadinho, uma couvinha mineira e, doce de coco. Para o jantar, uma galinha ao molho pardo, com arroz bem soltinho e, papos de anjo. Mas daqueles que só a mãe da gente sabe fazer! Daqueles, que se a pessoa fosse honrada mesmo, só devia comer, metida em banho morno, em trevas totais, pensando no máximo, na mulher amada. Por aí, você vê como estou me sentindo; nem cá, nem lá!
Fiquei muito contente com o sucesso de “Garota de Ipanema“, nos Estados Unidos. E Astrudinha, hein? Que negocio tão direito. Vamos ver se desta vez, os intermediários deixam “algum” para nós!
Fiquei muito contente também, com a noticia do sucesso de “Berimbau” aí no Brasil. Dizem que estão tocando a músiquinha “pra valer”! Isso me alegra muito pelo Baden. E pra que mentir? Por mim também! É bom saber que a gente não foi esquecido, que o povo continua cantando as nossas coisas; pois no fundo mesmo, é pra ele que a gente compõe! Lembro-me tão bem, quando fizemos o samba, uma madrugada, há uns 3 anos atrás, por aí. Eu disse ao Baden: isso tem pinta de sucesso. E ficamos cantando e cantando o samba até o sol raiar.

“Quem é homem de bem não trai o amor que lhe quer seu bem.
Quem diz muito que vai não vai, assim como não vai, não vem.
Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém.
O dinheiro de quem não dá, é o trabalho de quem não tem.
Capoeira que bom, não cai, e se um dia ele cai, cai bem.
Capoeira me mandou, dizer que já chegou, chegou para lutar.
Berimbau me confirmou, vai ter briga de amor, tristeza, camará.”

Vinicius

setembro 08, 2009

Abaixo a ditadura!


A revista americana Glamour (acesso clicando o título) publicou em sua edição de agosto passado uma reportagem sobre autoimagem ilustrada com a foto da modelo Lizzie Miller . Com 20 anos, vestindo manequim plus-size, belo sorriso e pele luminosa ela tem uma barriguinha de verdade.
Qual a última vez que se viu uma coisa destas?

setembro 07, 2009

Virtual


Hoje dei por mim fazendo um carinho no meu queridinho que me mandou estas e muitaas outras flores, fotografadas ontem por ele. Com o cursor...

pensando o futuro

Ia escrevendo 'pensando o passado', mas lembrei de que nesta última semana fui criticada mais de uma vez por isto. É que sempre me refiro a mim como uma velha. Não percebem (talvez nem achem possível) não haver nisto qualquer conotação de lamento ou de amargura. Afinal, sessenta e alguns elogios não fazem mal a ninguém. Sobretudo se bem aproveitados. E nem sou daquelas que só conjugam os verbos no pretérito imperfeito. Ainda assim, me fizeram ver que falo frequentemente no passado. Me pus a pensar: por que não? Começa que a partir de uma certa idade temos muito mais passado do que qualquer outra coisa. O presente fica menor, empobrecido, já nada acontece de siginificante .... Resta a memória. O passado, uma criação no presente e uma reatualização no futuro, é que nos dá siginificado. Através da memória (tenho o maior pavor de perdê-la) construímos o futuro. E não o contrário (quem é jovem tem dificuldade de entender isto).
A velhice (ops!) já me disseram para não usar este ' palavrão'. Teimo! Detesto os seus sinônimos. A velhice tem que ser pensada como uma constante presença do passado. Ora, se a a infância foi a projeção do futuro, a vida foi o que aconteceu no meio, entre a perda dos sonhos e o acúmulo de memórias. Ainda que estas eventualmnte nos provoquem o mal-estar por nossas escolhas equivocadas e as consequentes renúncias em que importaram (há ainda que considerar o papel dos acasos e coincidências em nossos (des) enconcontros e trombadas). A este mal-estar provocado pela eterna e inútil indagação sobre o caminho que não seguimos e as escolhas que não fizemos vem se somar a ansiedade que emerge de sua irrealização, as memórias de um fato irrealizado...Seja como for, a persistência da memória nos obriga a (re) pensar nossas estórias, se existiram como as lembramos, se não passam de interpretações, se caímos nas peças em que nos prega a memória, tão esquecida e tão passível de criatividade espontânea, recriando-se e nem por isso menos válida...
Arranjem-me um presente. Garanto que saberei vivê-lo plenamente!

setembro 06, 2009

Diversidade

Aprovado, por unanimidade, o projeto de lei número 13.628/2009 que “pune discriminação sexual” em Florianópolis.
A parada em Floripa foi hoje! Minha filha me enviou esta imagem...

O gigolô leve

O GIGOLÔ clássico todo mundo conhece: ele só se interessa por mulheres ricas. Mas existe um tipo novo de homem ao qual as mulheres devem ficar bem atentas: o gigolô tipo leve.
Ele se aproxima das que têm um bom emprego, moram sozinhas e sofrem -claro- de uma certa solidão. Ele tem uma profissão meio vaga, ligada a cinema, o que significa, em outras palavras, que não tem emprego fixo -nem salário, claro.
E nem domicílio; está sempre procurando um apartamento para se mudar. Enquanto não encontra, um dia está na casa de um amigo que viajou, no outro com a mãe, no outro hospedado na casa da ex-mulher, com quem tem, aliás, uma excelente relação. Resumindo: é um eterno hóspede.
Ele vai chegando devagarzinho e, aos poucos, se instalando. E como você batalha para pagar suas contas e mora num sala e dois quartos, nem passa pela cabeça que está, de repente, sustentando mais um; muito pelo contrário, fica é bem feliz de ter um companheiro que sabe fazer uma massa e até desce para comprar cigarros, se for preciso.
Dormir é sempre na sua casa, o que já significa que o sabonete, o xampu, a gilete, o desodorante e a água de colônia estão garantidos. E o café da manhã, com o queijo e a geleia que ele gosta e que você compra, encantada. Uma garrafa de uísque sempre se tem, e um vinho branco na geladeira também -metade do caminho andado.
Eles são prestativos, habilidosos e conhecem um pouco de eletrônica, o que significa que qualquer pequeno problema na televisão, no vídeo ou no telefone é com eles mesmos. E se você tiver um filho pequeno, aí é a felicidade total. São capazes de ficar horas juntos, jogando videogame ou discutindo futebol, o que garante a você tempo para fazer uma bainha ou ler um livro -e isso não é bom?
As pequenas despesas ele banca: cinema, pipoca, um chope; tudo baratinho, mas quanto carinho. E quando traz um boné para seu filho, não é a felicidade total?
Ele começa chegando à noite (para o jantar), mas um dia você se distrai, dá a chave da casa, e ele, que também é distraído, começa a chegar mais cedo e vai ficando. O tintureiro passa a ser por sua conta, o supermercado fica duas vezes mais caro, e um dia ele pede o carro emprestado; tem um negócio para ver na Barra, e afinal, o carro não ia ficar mesmo parado o dia inteiro? E custa?
Custar não custa, mas é bom não ter ilusões: o tanque vai voltar vazio. No primeiro dia, quando você sai do trabalho, ele já está parado na porta, esperando com um sorriso. No 20º, você é quem está parada na porta, esperando que ele chegue. Ele começa a atrasar -mas tem mais é que se sentir feliz de não ter que dirigir cansada, depois de um dia de trabalho.
Mas um dia você resolve ir jantar na casa de sua mãe e, quando diz que não vai dar para emprestar o carro, sente um certo mau humor no ar; chegou a hora de pensar na vida.
Hora de pensar na vida e saber que mesmo não sendo rica, está sustentando um marmanjo que fica vendo filme na TV enquanto você pega às 10h e larga às 6h -o que não tem a menor graça.
Como não quer ficar sozinha, tem que ir com jeito; pode inventar uma viagem, que vai pintar o apartamento, que o ex-marido está implicando, qualquer coisa, mas cuidado. Ele pode perceber que é hora de arranjar um canto para morar e pedir para você ser fiadora do apartamento que ele, enfim, encontrou."
DANUZA LEÃO

DELON

Desistir

"Uma única vida é pouco. O rosto é demasiado rápido a mudar nas fotografias. As crianças imaginam tantas coisas acerca do mundo e, mais tarde, percebem que não conseguiram imaginar aquilo que era mais importante. Ainda crianças e já quase adultos, ainda levados por miragens e, no entanto, com a certeza absoluta de que não acreditam em nada, surpreendem-se com os braços que cresceram no espelho, com os truques que são capazes de fazer de olhos fechados, com os cigarros que começam a arder-lhes na ponta dos dedos e, arrogantes ingénuos, desejam que o tempo passe mais depressa, desejam que os anos passem mais depressa. Depois, a idade não conta. A idade não conta, mas um dia têm trinta anos, têm quarenta anos, um dia têm cinquenta anos. Os números deixam de ser números. Então, esqueceram tantas coisas e, no entanto, têm a certeza absoluta de que sabem tudo. Ridículos. Entretanto, apaixonaram-se e desapaixonaram-se; saltaram por cima de momentos que foram como abismos; existiu a casa; existiram todos os objectos da casa, divididos e arrumados em caixas de papelão; existiu a mágoa como se fosse o mundo inteiro, não era; existiram as pessoas que morreram mesmo ao lado, que pareciam eternas e que, devagar ou num instante, foram esquecidas, fácil; existiram as pessoas que estavam mesmo ao lado e que receberam telefonemas para comunicar-lhes que a mãe tinha morrido num hospital; e repetiram a vida continua, a vida continua; e o verão e o verão e o outono, a primavera, tão bom, e o verão, o outono, e o inverno e o inverno. Um dia, acordam e o passado não é suficiente sequer para lhes encher a palma de uma mão.
E convencem-se de uma mentira diferente todas as manhãs para obrigarem o corpo a fazer cada movimento e, apesar disso, acreditam nessa mentira exactamente como se fosse verdade, excepto às vezes. E estão cansados da mulher que, cansada, os olha ao serão e que, apesar disso, os enternece quando se debruça sobre o lavatório da casa de banho, com toalhas pelos ombros, para pintar o cabelo. Pode então haver um momento em que o mundo pára. A idade pára. É nesse instante que se pode pensar: nunca quis ser aquilo em que me tornei, quis sempre não ser aquilo em que me tornei. Com o mundo completamente parado, com a idade parada, não é difícil parar também e, rodeados de fragmentos: uma existência inteira feita de vidro estilhaçado e espalhado no chão: o mais natural é baixarmo-nos sobre os calcanhares, pousar os cotovelos sobre os joelhos dobrados e, com cuidado, esticar as mãos para, com a ponta dos dedos, se começar a escolher cada fragmento, distinguir o que se deve abandonar do que se deve manter. Desistir não é sempre mau. Há vezes em que não se pode evitar. Todos nos dizem continua, continua, mas é o mundo que desiste, inteiro, à nossa volta.
Uma única vida é pouco. Para se fazer aquilo que se sabe e se pode e se quer e se deve fazer é preciso deixar muitas outras coisas para trás. Essa é a conclusão a que se chega logo no fim da adolescência. Quando os números deixam de ser números. Trinta, quarenta, cinquenta anos. As gerações sucedem-se. Os degraus de uma escada rolante que desaparecem lá em cima enquanto subimos, subimos, olhamos para trás e ainda vemos o primeiro degrau, quase como quando tínhamos acabado de chegar e, no entanto, continuamos a subir e vemos já o fim. Os nossos avós mortos, os nossos pais mortos, nós, os nossos filhos, os nossos netos. E, se existir um horizonte, podemos olhá-lo e perceber finalmente que estamos parados no tempo e que o tempo, nesse presente definitivo, está parado dentro de nós.
Eu olho para esse horizonte, arrependo-me e não me arrependo, tento compreender ou lembrar-me daquilo que quero mesmo. Depois, penso em tudo aquilo que posso fazer para que aconteça: os gestos e as palavras. Depois, hoje é um dia mais forte e, de repente, imenso. Depois, penso em tudo aquilo de que terei de desistir para alcançar o que quero: para ser o que desejo ser. Então, não fico triste. Aceito tudo aquilo que nunca fiz e que acredito que nunca terei vida suficiente para fazer. Num dia, avisado ou sem aviso, morrerei. Estas mãos serão nada. Este rosto será nada. Uma única vida é pouco. Aceito essa certeza sem que ninguém me pergunte se estou disposto a aceitá-la. É então que me convenço finalmente que nunca serei campeão de xadrez, nunca registarei uma patente, nunca conduzirei uma Harley Davidson, nunca invadirei um pequeno país, nunca venderei relógios roubados aos transeuntes da rua Augusta, nunca serei protagonista de um filme de Hollywood, nunca escalarei o monte Evarest, nunca farei uma colcha de renda, nunca apresentarei um concurso de televisão, nunca farei uma neurocirurgia, nunca ganharei a lotaria, nunca casarei com uma princesa, nunca ficarei viúvo de uma princesa, nunca me mudarei para Detroit, nunca farei voto de silêncio, nunca tocarei harpa, nunca serei o empregado do mês, nunca descobrirei a cura para o cancro, nunca beijarei os meus próprios lábios, nunca construirei uma catedral, nunca velejarei sozinho à volta do mundo, nunca decorarei uma enciclopédia, nunca despoletarei uma avalanche, nunca apresentarei cálculos que contradigam Einstein, nunca ganharei um óscar, nunca atravessarei o Canal da Mancha a nado, nunca participarei nos jogos olímpicos, nunca esfaquearei alguém, nunca irei à lua, nunca guardarei um rebanho de ovelhas nos Alpes, nunca conhecerei os meus tetranetos, nunca repararei a avaria de um avião, nunca trocarei de pele, nunca bombardearei uma cidade, nunca serei fluente em finlandês, nunca comporei uma sinfonia, nunca viverei numa ilha deserta, nunca compreenderei Hitler, nunca exibirei um quadro no Louvre, nunca assaltarei um banco, nunca darei um salto mortal no trapézio, nunca atravessarei a Europa de bicicleta, nunca lapidarei um diamante, nunca farei patinagem artística, nunca salvarei o mundo. Ainda assim, além de tudo isto, há o universo inteiro."

José Luís Peixoto

setembro 05, 2009

setembro 04, 2009

Baarìa


"Baarìa" é o novo filme do Tornatore. Conta a saga de uma família siciliana ao longo do século 20. Com mais de 100 personagens e 35 mil figurantes, fotografia de cartão postal e a trilha sonora do Ennio Morricone! A trama passa por três gerações de moradores da pequena comunidade que dá título ao filme ( próximo à Palermo). Segundo Tornatore, que também escreveu o roteiro: "Há muito tempo uso elementos de minha experiência pessoal em meus filmes e dizia a mim mesmo que um dia faria um longa só sobre esse mundo de aventuras, dramas, fantasias e utopias do lugar onde cresci".
"Vejo esse filme também como uma reflexão sobre a esquerda, seu passado e seu presente na história da Itália".
Já começaram a dizer que "Baarìa" é um “épico frouxo, irregular demais, com personagens em excesso e perdido entre a história autobiográfica e a política".
Falaram quase a mesma coisa do Claude Lelouch quando fez Les uns et les autres (Retratos da Vida) que continuo achando maravilhoso.
Serão duas horas e meia de projeção. Não vejo a hora de assistir!

O enigma que somos

"Se a expressão "a primeira impressão é a que fica" fosse verdadeira, eu seria um pária social. Isso porque minhas opiniões polêmicas às vezes ofendem desconhecidos. Também deixo uma segunda impressão ruim porque esqueço nomes e rostos de pessoas que acabo de conhecer. Por isso, chamo muitas de "querida". Mas, já que essas impressões são reversíveis, alguns viram amigos.
Por não confiar em primeiras impressões, também dou às pessoas uma segunda chance.
....
Nós todos julgamos que a "capa" é tudo sobre a aparência de alguém e criamos estereótipos que não conseguimos superar. Um exemplo é Susan Boyle, cantora nada atraente que apareceu em um show de calouros britânico, em abril. A bela voz de Boyle chocou porque não se encaixou no estereótipo que criamos quando ela entrou no palco. Mas, quando ela cantou, e o sorriso debochado de dois juízes virou admiração boquiaberta, vimos a nós mesmos.
As aparências geram uma atração mútua, o "amor à primeira vista". Se essa impressão fosse exata, não nos arrependeríamos de tantas escolhas românticas. Veja o episódio de "Sex and the City" em que rolou um clima entre Carrie e um cara na sala de espera do terapeuta. Depois do sexo, revelaram o que os levara à terapia. "Perco o interesse nas mulheres assim que transamos", diz ele. Ao que ela retruca: "Eu sempre escolho o homem errado."
"Primeiras Impressões" era o título original de "Orgulho e Preconceito", a história de Elizabeth, que julga rápido demais, e de sr. Darcy, cuja reserva aristocrática o faz parecer arrogante, mas que é querido por aqueles que o conhecem bem. Ela se apaixona por ele quando o tempo torna suas virtudes mais transparentes.
É necessário um oceano de tempo e um poço profundo de paciência para tornar as pessoas menos opacas. Mesmo amigos de anos nos surpreendem. Isso porque as pessoas escondem mais do que revelam ou enviam sinais perturbadores que preferimos ignorar. Ou mudam e até se reinventam. Ou nós fazemos isso. A complexidade do nosso comportamento dificulta decifrar o enigma que somos. Mas transforma a tentativa de conhecer alguém numa aventura fascinante."

Da coluna do MICHAEL KEPP na FSP de ontem, qdo estive sem conexão