"Já viajamos. Estou em Berna. Linda. Tombada pela Unesco. Tranquila e tudo
mais. Gente linda e simpática. Hoje pulamos no rio Aare, que passa dentro
da cidade. Compramos um saco impermeável. A gentre troca de roupa, coloca
tudo no saco e pula no rio. Depois quando cansa de descer, sai do rio (É
cheio de escadinhas nas margens). Abre o saco, bota a roupa e vai embora.
Tem gente que troca de roupa, deixa tudo na beira do rio (inclusive
documentos, mochilas, computadores, etc) e depois volta a pé pra pegar.
Doideira, né? Fomos ao Centro Paul Klee. Vimos uma expo dele
sensacional.Amanhã vamos pra Luzern. Beijos.
LU"
agosto 18, 2009
Notícias do Celso
- Bom dia, é da recepção? Eu gostaria de falar com alguém que me
desse informações sobre um paciente. Queria saber se certa pessoa
está melhor ou piorou...
- Qual e o nome do paciente?
- Chama-se Celso e está no quarto 302.
- Um momentinho, vou transferir a ligação para o setor de enfermagem...
- Bom dia, sou a enfermeira Lourdes. O que deseja?
- Gostaria de saber as condições clínicas do paciente Celso do quarto
302, por favor!
- Um minuto, vou localizar o médico de plantão.
- Aqui é o Dr. Carlos plantonista. Em que posso ajudar?
- Olá, doutor. Precisaria que alguém me informasse sobre a saúde do
Celso que está internado há três semanas no quarto 302.
- Ok, meu senhor, vou consultar o prontuário do paciente... Um
instante só! Hummm! Aqui está: ele se alimentou bem hoje, a pressão
arterial e pulso estão estáveis, responde bem à medicação prescrita e
vai ser retirado do monitor cardíaco até amanhã. Continuando bem, o
médico responsável assinará alta em três dias.
- Ahhhh, Graças a Deus! São notícias maravilhosas! Que alegria!
- Pelo seu entusiasmo, deve ser alguém muito próximo, certamente da família?
- Não, sou o próprio Celso telefonando aqui do 302! É que todo mundo
entra e sai desta merda deste quarto e ninguém me diz porra nenhuma.
Eu só queria saber como estou...
desse informações sobre um paciente. Queria saber se certa pessoa
está melhor ou piorou...
- Qual e o nome do paciente?
- Chama-se Celso e está no quarto 302.
- Um momentinho, vou transferir a ligação para o setor de enfermagem...
- Bom dia, sou a enfermeira Lourdes. O que deseja?
- Gostaria de saber as condições clínicas do paciente Celso do quarto
302, por favor!
- Um minuto, vou localizar o médico de plantão.
- Aqui é o Dr. Carlos plantonista. Em que posso ajudar?
- Olá, doutor. Precisaria que alguém me informasse sobre a saúde do
Celso que está internado há três semanas no quarto 302.
- Ok, meu senhor, vou consultar o prontuário do paciente... Um
instante só! Hummm! Aqui está: ele se alimentou bem hoje, a pressão
arterial e pulso estão estáveis, responde bem à medicação prescrita e
vai ser retirado do monitor cardíaco até amanhã. Continuando bem, o
médico responsável assinará alta em três dias.
- Ahhhh, Graças a Deus! São notícias maravilhosas! Que alegria!
- Pelo seu entusiasmo, deve ser alguém muito próximo, certamente da família?
- Não, sou o próprio Celso telefonando aqui do 302! É que todo mundo
entra e sai desta merda deste quarto e ninguém me diz porra nenhuma.
Eu só queria saber como estou...
Última notícia
A AGU (Advocacia Geral da União) encaminhou parecer ao STF (Supremo Tribunal Federal) em que defende a união estável entre pessoas do mesmo sexo. Segundo o órgão, que representa a posição oficial do governo federal nos processos judiciais, o reconhecimento dos direitos civis de casais homossexuais não fere a Constituição. Pelo contrário, na manifestação em nome do presidente da República (leia a íntegra aqui clicando no título), a AGU alega que a legitimação dos status civil de parceiros do mesmo sexo protege diversos valores constitucionais, como a dignidade da pessoa humana, a privacidade e a intimidade, além de proibir qualquer discriminação por orientação sexual. Diversas decisões judiciais têm impedido que casais homossexuais compartilhem direitos entre si, como benefícios previdenciários e inclusão do companheiro no plano de saúde. Motivado por uma Adin (Ação direta de inconstitucionalidade) proposta pela PGR (Procuradoria Geral da República), o Supremo deverá decidir se a proibição da união estável imposta pelo artigo 1.723 do Código Civil, já que cita apenas a entidade familiar entre homens e mulheres, está de acordo com os preceitos constitucionais.
"Numa interpretação sistemática da Constituição da República é possível verificar que o que se pretende é justamente proteger a liberdade de opção da pessoa", ressaltou o advogado da União Rogério Marcos de Jesus Santos, que assina o documento.
De acordo com a Advocacia, a união homoafetiva no país "é uma realidade para qual não se pode fechar os olhos". Argumenta que as relações homossexuais existem independentemente de amparo legal, "embora diversos países do mundo já tenham alterado seu sistema de direito positivo para incluir a possibilidade de união estável entre pessoas do mesmo sexo".
A manifestação destaca ainda que as mudanças legais nesses países “foram frutos da luta pela consolidação de direitos civis, pela efetivação de direitos, e dessa luta participam as pessoas com orientação sexual diversa”.
O parecer pode ser lido clicando no título.
agosto 17, 2009
INFÂNCIA
"O pecado não morava ao lado. Estava em você. Coabitava com seus medos, suores noturnos, e assombrava detrás dos panos roxos que cobriam as imagens na Sexta-Feira da Paixão. Deus não era um negão no clipe da Madonna, mas um olho aberto na parede de todas as casas. Foi no século passado, quando ainda havia pecado do lado debaixo do Equador, quando se matava por amor, e Ele reinava solto, sorumbático, anotando o que acontecia nos terrenos baldios do subúrbio. Quem falasse a palavra “sexo” levava um tapa na boca.
Foi no tempo do pudor, do rubor nas faces, das anáguas e do espelho colado no sapato para roubar uma nesga da calcinha da professora. Foi não sei quando. Melhor esquecer.
Era uma geração de garotos virgens, de meninas tementes do raio supremo de serem chamadas galinhas, e, no entanto, todos recitando o “Salve Rainha” muitas vezes, certos de estarem tomados pela luxúria desenfreada de algum Baile dos Cafajestes que viram escondidos na revista “Escândalo”. Em casa, pão e vinho sobre a mesa, a autoridade paterna assumia o cálix bento, e, só depois que purificasse o menino com um “Deus te abençoe”, o sono estava autorizado. O mundo era um quarto escuro com um jacaré escondido debaixo da cama e uma revista do Carlos Zéfiro sob o travesseiro. De manhã na escola, o colega mais velho, de uma turma adiantada nos segredos da vida, apertaria o mamilo do menino na crença de que um endurecimento sebáceo por ali indicaria um masturbador contumaz na noite anterior. Era proibido ter espinhas. Foi no tempo do vício solitário sem a riqueza de estímulos da internet. Havia apenas umas mulheres nuas, todas sem pelos genitais, andando pelos milharais nórdicos de uma revista dinamarquesa chamada “Saúde e Nudismo”.
Era a mais pura ignorância, a vontade de entender por que rangia ritmada a cama de papai com mamãe, e afinal o que queria dizer aquela palavra “bacanal” toda quarta-feira de cinzas na capa da revista “Maquis”, quase sempre titulando a foto de uma mulher vestida de odalisca, cheirando o lenço que o homem de sarongue lhe oferecia.
A empregada da casa do menino cantava o samba alegre com a triste história da pobre infeliz, “parecia uma tocha humana rolando pela ribanceira”, porque teve vergonha de ser mãe solteira. Tempo das trevas, do silêncio, da oração de Júlio Louzada, das meninas oferecidas, das que ficariam para titia, dos efeminados no troca-troca e da imensa culpa que a todos pesava sobre os ombros.
Homem que era homem não usava camisa vermelha. Mulher sentava de perna fechada. No cinema os nenéns nasciam depois de um beijo na boca. Mas agora fala baixo, que sua mãe está chegando.
Anilza Leoni, a vedete morta semana passada, fazia a sua parte no descaminho a que se achavam fadadas as famílias suburbanas. Ela enchia a tela da televisão com um par de coxas, que o Zé Trindade chamava de “mocotó”, e ia daqui até o outro canto da página. O garoto na sala percebia, sem que ninguém lhe tivesse dado qualquer pista, que o demo estava se manifestando na tepidez daqueles nacos de carne. Ele podia sentir a temperatura da pele entre as coxas, ouvir a respiração arfante da vedete que estava no palcoauditório da TV Rio, Canal 13, no outro lado da cidade — e isso era bom, porque mostrava que havia mais jogo para quando acabassem as figurinhas do bafo-bafo. E isso era religiosamente mau, porque deixava no ar que o pecado se instalara em sua alma infantil regada ao sangue de Cristo e xarope de groselha.
Foi no tempo do hímen complacente, do lençol sujo de sangue, do “Elvira, a morta virgem”, da garçonnière e da Aída Curi morta durante a curra. Deus não era dez, porque não estava para brincadeiras. Jogava sozinho. Contra todos.
As trevas pulsavam nas mãos do menino, da mesma maneira que o Caveira assustava a vida do Jerônimo no seriado da Rádio Nacional, e a Fera da Penha se vingava do abandono do amante queimando-lhe viva a filha num terreno baldio do subúrbio. Era tudo pecado, tudo às escondidas. Mais um pouco de ousadia na brincadeira do pera-uva-ou-maçã e seria a sua vez de arder, junto com todas as estampas Eucalol, na grande fogueira do inferno.
Ele era o Olho e estava vendo. À noite, contrita, a família reunida colocava um copo d’água sobre o rádio, e todos ouviam as preces de Alziro Zarur conclamando para doações à Legião da Boa Vontade. O dinheiro ia para a sopa que ele servia aos pobres, uma espécie de abatimento nas dívidas que todos tinham para com o Senhor.
Era no meio disso tudo que o menino via as coxas monumentais de Anilza Leoni, e ele imediatamente achava-se incurso em algum dos sete pecados capitais. Talvez um adúltero, talvez um blasfemo, talvez um promíscuo, e todas aquelas palavras que ele ouvia como palavrões, mas não tinha a mínima idéia do que tratavam.
Corria à igreja, onde se prostrava ajoelhado diante do pai, do filho e do espírito santo, todos representados pelo padre de fala italiana por trás da tramela do confesssionário — e ele abria o jogo ao representante de Deus sobre o que lhe parecia ter sido a perda da pureza.
Sim, ontem à noite, durante o pique-esconde, trancara-se com a filha da vizinha num armário do quarto e, quando, sem querer, passou a mão nos pelos do braço dela, sentiu que os pelos do seu próprio corpo tinham sido contaminados por algum tipo de radiação, alguma coisa tão boa e que não anunciava na televisão, não estava no catálogo do Falcão Negro, nunca tinha sido perguntada ao Dida na “Revista do Esporte”, uma delícia tamanha que só podia estar nos dez pecados da lei de Deus.
Sim, Anilza Leoni levantara os braços durante o programa na televisão e dera a impressão ao menino de que deixava propositadamente à mostra a cama convidativa dos sovacos, e do seu distante subúrbio ele conseguira ouvi-los gritando “Vem, meu garoto, e vamos gritar ‘oba’ juntos”.
Foi há muito tempo, quando se morria de medo da gonorreia e de mastigar a hóstia consagrada no dia da primeira comunhão. Jesus, pregado na cruz de todos os quartos, estava de olho e dava o exemplo. O sentido da vida era o sofrimento. As meninas usavam combinação e, aos 15 anos, o pai levava o filho para se iniciar com as prostitutas do Mangue. Escondido na gaveta de uma tia solteirona, o livro “Nossa vida sexual”, de Fritz Khan, descrevia a perda da virgindade com termos de medicina legal.
Tudo era pecado nessa história ao sul do Equador, menos o “oba!” feliz de Anilza Leoni, a vedete morta na semana passada. Que ela descanse em paz na santa glória abençoada de seu espartilho."
Joaquim Ferreira dos Santos
Foi no tempo do pudor, do rubor nas faces, das anáguas e do espelho colado no sapato para roubar uma nesga da calcinha da professora. Foi não sei quando. Melhor esquecer.
Era uma geração de garotos virgens, de meninas tementes do raio supremo de serem chamadas galinhas, e, no entanto, todos recitando o “Salve Rainha” muitas vezes, certos de estarem tomados pela luxúria desenfreada de algum Baile dos Cafajestes que viram escondidos na revista “Escândalo”. Em casa, pão e vinho sobre a mesa, a autoridade paterna assumia o cálix bento, e, só depois que purificasse o menino com um “Deus te abençoe”, o sono estava autorizado. O mundo era um quarto escuro com um jacaré escondido debaixo da cama e uma revista do Carlos Zéfiro sob o travesseiro. De manhã na escola, o colega mais velho, de uma turma adiantada nos segredos da vida, apertaria o mamilo do menino na crença de que um endurecimento sebáceo por ali indicaria um masturbador contumaz na noite anterior. Era proibido ter espinhas. Foi no tempo do vício solitário sem a riqueza de estímulos da internet. Havia apenas umas mulheres nuas, todas sem pelos genitais, andando pelos milharais nórdicos de uma revista dinamarquesa chamada “Saúde e Nudismo”.
Era a mais pura ignorância, a vontade de entender por que rangia ritmada a cama de papai com mamãe, e afinal o que queria dizer aquela palavra “bacanal” toda quarta-feira de cinzas na capa da revista “Maquis”, quase sempre titulando a foto de uma mulher vestida de odalisca, cheirando o lenço que o homem de sarongue lhe oferecia.
A empregada da casa do menino cantava o samba alegre com a triste história da pobre infeliz, “parecia uma tocha humana rolando pela ribanceira”, porque teve vergonha de ser mãe solteira. Tempo das trevas, do silêncio, da oração de Júlio Louzada, das meninas oferecidas, das que ficariam para titia, dos efeminados no troca-troca e da imensa culpa que a todos pesava sobre os ombros.
Homem que era homem não usava camisa vermelha. Mulher sentava de perna fechada. No cinema os nenéns nasciam depois de um beijo na boca. Mas agora fala baixo, que sua mãe está chegando.
Anilza Leoni, a vedete morta semana passada, fazia a sua parte no descaminho a que se achavam fadadas as famílias suburbanas. Ela enchia a tela da televisão com um par de coxas, que o Zé Trindade chamava de “mocotó”, e ia daqui até o outro canto da página. O garoto na sala percebia, sem que ninguém lhe tivesse dado qualquer pista, que o demo estava se manifestando na tepidez daqueles nacos de carne. Ele podia sentir a temperatura da pele entre as coxas, ouvir a respiração arfante da vedete que estava no palcoauditório da TV Rio, Canal 13, no outro lado da cidade — e isso era bom, porque mostrava que havia mais jogo para quando acabassem as figurinhas do bafo-bafo. E isso era religiosamente mau, porque deixava no ar que o pecado se instalara em sua alma infantil regada ao sangue de Cristo e xarope de groselha.
Foi no tempo do hímen complacente, do lençol sujo de sangue, do “Elvira, a morta virgem”, da garçonnière e da Aída Curi morta durante a curra. Deus não era dez, porque não estava para brincadeiras. Jogava sozinho. Contra todos.
As trevas pulsavam nas mãos do menino, da mesma maneira que o Caveira assustava a vida do Jerônimo no seriado da Rádio Nacional, e a Fera da Penha se vingava do abandono do amante queimando-lhe viva a filha num terreno baldio do subúrbio. Era tudo pecado, tudo às escondidas. Mais um pouco de ousadia na brincadeira do pera-uva-ou-maçã e seria a sua vez de arder, junto com todas as estampas Eucalol, na grande fogueira do inferno.
Ele era o Olho e estava vendo. À noite, contrita, a família reunida colocava um copo d’água sobre o rádio, e todos ouviam as preces de Alziro Zarur conclamando para doações à Legião da Boa Vontade. O dinheiro ia para a sopa que ele servia aos pobres, uma espécie de abatimento nas dívidas que todos tinham para com o Senhor.
Era no meio disso tudo que o menino via as coxas monumentais de Anilza Leoni, e ele imediatamente achava-se incurso em algum dos sete pecados capitais. Talvez um adúltero, talvez um blasfemo, talvez um promíscuo, e todas aquelas palavras que ele ouvia como palavrões, mas não tinha a mínima idéia do que tratavam.
Corria à igreja, onde se prostrava ajoelhado diante do pai, do filho e do espírito santo, todos representados pelo padre de fala italiana por trás da tramela do confesssionário — e ele abria o jogo ao representante de Deus sobre o que lhe parecia ter sido a perda da pureza.
Sim, ontem à noite, durante o pique-esconde, trancara-se com a filha da vizinha num armário do quarto e, quando, sem querer, passou a mão nos pelos do braço dela, sentiu que os pelos do seu próprio corpo tinham sido contaminados por algum tipo de radiação, alguma coisa tão boa e que não anunciava na televisão, não estava no catálogo do Falcão Negro, nunca tinha sido perguntada ao Dida na “Revista do Esporte”, uma delícia tamanha que só podia estar nos dez pecados da lei de Deus.
Sim, Anilza Leoni levantara os braços durante o programa na televisão e dera a impressão ao menino de que deixava propositadamente à mostra a cama convidativa dos sovacos, e do seu distante subúrbio ele conseguira ouvi-los gritando “Vem, meu garoto, e vamos gritar ‘oba’ juntos”.
Foi há muito tempo, quando se morria de medo da gonorreia e de mastigar a hóstia consagrada no dia da primeira comunhão. Jesus, pregado na cruz de todos os quartos, estava de olho e dava o exemplo. O sentido da vida era o sofrimento. As meninas usavam combinação e, aos 15 anos, o pai levava o filho para se iniciar com as prostitutas do Mangue. Escondido na gaveta de uma tia solteirona, o livro “Nossa vida sexual”, de Fritz Khan, descrevia a perda da virgindade com termos de medicina legal.
Tudo era pecado nessa história ao sul do Equador, menos o “oba!” feliz de Anilza Leoni, a vedete morta na semana passada. Que ela descanse em paz na santa glória abençoada de seu espartilho."
Joaquim Ferreira dos Santos
Bartleby
"RECENTEMENTE ENCONTREI um amigo de infância em agonia. Esses encontros são marcantes para mim porque sempre acabo percebendo como hoje sou outra pessoa. Diante das lembranças compartilhadas, a distância no tempo se impõe como distância no afeto.
Talvez falte em mim algum tipo de afeto duradouro, ou eu seja uma dessas pessoas miseravelmente volúveis que esquecem quase tudo com o tempo. Ou talvez, pior ainda, eu seja excessivamente preso ao cotidiano e, por isso, minhas amizades só sobrevivam no dia a dia. Em meio a isso, torno-me um refém da máxima contida no livro bíblico "Eclesiastes" quando o autor afirma "tudo é vaidade". Neste instante, experimento da efemeridade de tudo, assim como quem mastiga o pó em sua boca.
Diante de frases repetidas, que remetem a momentos passados 40 anos atrás, uma rápida emoção vem aos olhos, mas o estranhamento em face da pessoa que me tornei esmaga a saudade, diluindo-a na fidelidade ao momento atual, em detrimento do passado morto. Esse estranhamento, para mim, não afeta apenas as amizades, mas também afeta as relações familiares.
Há poucos dias, uma amiga me disse que considera uma mentira a ideia de que sempre amamos nossos pais. Concordo com ela. Acho que talvez possamos mesmo não sofrer tanto com a morte de nossos pais, o que seria uma espécie de prova científica monstruosa da tese de minha amiga. A ideia que sempre amamos nossos pais me parece uma dessas idealizações que alimenta o mito de que a família seja sempre fiel ao amor que alimenta aos seus membros. Ao contrário, acho que, às vezes, ela pode ser mortal para seus membros porque mesmo o amor, às vezes, mata.
Tenho alguns amigos, mas não muitos, é claro que por culpa minha.
Sou um preguiçoso, e, por isso, o esforço é quase sempre deles, confesso vergonhosamente. Como sou uma pessoa que raramente pensa nos outros, diante de uma amizade sincera ou da generosidade quase sempre sinto o odor da misericórdia ao meu redor. Tudo de bom que me acontece me faz supor que, afinal, há alguém que carrega na palma da mão a ingratidão do mundo.
Nas férias, um amigo me presenteou com uma pequena pérola de um autor que eu já conhecia, mas não aquela obra específica.
Trata-se de Herman Melville (século 19), autor de Moby Dick. O pequeno livro que devorei em um dia chama-se "Bartleby, o Escrivão". Infelizmente caro leitor, contarei o final na história. Impossível não fazê-lo, uma vez que a forma (e a força) plena do conto se dá nas últimas linhas da narrativa.
Mas como ninguém vai ao cinema assistir a vida de Cristo pra saber o que acontece com o herói no final (mas sim reviver a tragédia que é matar Deus -Deus é Cristo na história, não esqueçamos), um clássico vale antes de tudo porque nos ensina a ser gente e não pelo suspense de saber o final da história.
Quando seu patrão (o narrador) pede a Bartleby que faça uma determinada coisa no escritório (algo banal como verificar nomes numa lista ou redigir um texto), este responde com a frase que se repetirá infinitas vezes ao longo do conto, e que se transformará no verdadeiro enigma da narrativa: "Prefiro não fazê-lo".
A recusa sistemática de fazer coisas assim, levando o patrão à loucura e Bartleby à total imobilidade, constrói o personagem como uma indagação contínua ao valor último da ação no mundo. Abandonado pelo patrão, ele se recusa mesmo a sair da escada do antigo escritório onde está sentado como se aquilo fosse o que restou de sua vida.
Bartleby morre num asilo de loucos, paralisado por sua consciência da vaidade dos gestos e da fala, reduzido a falta de ar como forma última de toda ação possível. Bartleby encarna a consciência triste que caminha invisível pelo mundo.
O narrador descobre que ele trabalhara no departamento dos correios que se ocupa com as "cartas mortas", isto é, as cartas que retornam porque os destinatários não foram encontrados. Por que não foram encontrados? Põe-se a indagar o narrador, já contaminado pela respiração arfante de Bartleby. Quantas pessoas talvez tivessem sido salvas do sentimento de insignificância por estas cartas? Quantas pereceram sozinhas, a espera, na janela?
Quanto de afeto e gratidão se perdeu naquelas pilhas de cartas mortas? Chora o narrador: "Ó Bartleby, ó humanidade". Choro eu: Ó Deus, ajudai-me a não ser tão volúvel e tão insensível para com os amigos que já passaram."
LUIZ FELIPE PONDÉ
Talvez falte em mim algum tipo de afeto duradouro, ou eu seja uma dessas pessoas miseravelmente volúveis que esquecem quase tudo com o tempo. Ou talvez, pior ainda, eu seja excessivamente preso ao cotidiano e, por isso, minhas amizades só sobrevivam no dia a dia. Em meio a isso, torno-me um refém da máxima contida no livro bíblico "Eclesiastes" quando o autor afirma "tudo é vaidade". Neste instante, experimento da efemeridade de tudo, assim como quem mastiga o pó em sua boca.
Diante de frases repetidas, que remetem a momentos passados 40 anos atrás, uma rápida emoção vem aos olhos, mas o estranhamento em face da pessoa que me tornei esmaga a saudade, diluindo-a na fidelidade ao momento atual, em detrimento do passado morto. Esse estranhamento, para mim, não afeta apenas as amizades, mas também afeta as relações familiares.
Há poucos dias, uma amiga me disse que considera uma mentira a ideia de que sempre amamos nossos pais. Concordo com ela. Acho que talvez possamos mesmo não sofrer tanto com a morte de nossos pais, o que seria uma espécie de prova científica monstruosa da tese de minha amiga. A ideia que sempre amamos nossos pais me parece uma dessas idealizações que alimenta o mito de que a família seja sempre fiel ao amor que alimenta aos seus membros. Ao contrário, acho que, às vezes, ela pode ser mortal para seus membros porque mesmo o amor, às vezes, mata.
Tenho alguns amigos, mas não muitos, é claro que por culpa minha.
Sou um preguiçoso, e, por isso, o esforço é quase sempre deles, confesso vergonhosamente. Como sou uma pessoa que raramente pensa nos outros, diante de uma amizade sincera ou da generosidade quase sempre sinto o odor da misericórdia ao meu redor. Tudo de bom que me acontece me faz supor que, afinal, há alguém que carrega na palma da mão a ingratidão do mundo.
Nas férias, um amigo me presenteou com uma pequena pérola de um autor que eu já conhecia, mas não aquela obra específica.
Trata-se de Herman Melville (século 19), autor de Moby Dick. O pequeno livro que devorei em um dia chama-se "Bartleby, o Escrivão". Infelizmente caro leitor, contarei o final na história. Impossível não fazê-lo, uma vez que a forma (e a força) plena do conto se dá nas últimas linhas da narrativa.
Mas como ninguém vai ao cinema assistir a vida de Cristo pra saber o que acontece com o herói no final (mas sim reviver a tragédia que é matar Deus -Deus é Cristo na história, não esqueçamos), um clássico vale antes de tudo porque nos ensina a ser gente e não pelo suspense de saber o final da história.
Quando seu patrão (o narrador) pede a Bartleby que faça uma determinada coisa no escritório (algo banal como verificar nomes numa lista ou redigir um texto), este responde com a frase que se repetirá infinitas vezes ao longo do conto, e que se transformará no verdadeiro enigma da narrativa: "Prefiro não fazê-lo".
A recusa sistemática de fazer coisas assim, levando o patrão à loucura e Bartleby à total imobilidade, constrói o personagem como uma indagação contínua ao valor último da ação no mundo. Abandonado pelo patrão, ele se recusa mesmo a sair da escada do antigo escritório onde está sentado como se aquilo fosse o que restou de sua vida.
Bartleby morre num asilo de loucos, paralisado por sua consciência da vaidade dos gestos e da fala, reduzido a falta de ar como forma última de toda ação possível. Bartleby encarna a consciência triste que caminha invisível pelo mundo.
O narrador descobre que ele trabalhara no departamento dos correios que se ocupa com as "cartas mortas", isto é, as cartas que retornam porque os destinatários não foram encontrados. Por que não foram encontrados? Põe-se a indagar o narrador, já contaminado pela respiração arfante de Bartleby. Quantas pessoas talvez tivessem sido salvas do sentimento de insignificância por estas cartas? Quantas pereceram sozinhas, a espera, na janela?
Quanto de afeto e gratidão se perdeu naquelas pilhas de cartas mortas? Chora o narrador: "Ó Bartleby, ó humanidade". Choro eu: Ó Deus, ajudai-me a não ser tão volúvel e tão insensível para com os amigos que já passaram."
LUIZ FELIPE PONDÉ
agosto 16, 2009
O bálsamo da desilusão
"A desilusão é considerada um mal. Trata-se de um preconceito irrefletido . Como, se não através da desilusão, iríamos descobrir o que esperamos e desejamos? E onde encontrar um momento de autoconhecimento, senão precisamente a partir desta descoberta? Como alguém poderia ter clareza acerca de si próprio sem a desilusão?
Não deveríamos sofrer as desilusões suspirando como algo sem o qual nossa vida seria melhor. Deveríamos procurá-las, persegui-las, colecioná-las. Por que me sinto desiludido com o fato de todos os atores idolatrados da minha juventude agora revelarem os traços da idade e da decadência? O que a desilusão me ensina sobre quão pouco vale o sucesso? Muitos precisam de uma vida inteira para admitir a decepção com seus pais. O que esperamos deles? Pessoas que passam a vida sob o jugo inclemente das dores muitas vezes se decepcionam com o comportamento dos outros, mesmo os que persistem junto deles e lhes ministram os medicamentos . É sempre pouco demais o que fazem e dizem e também pouco o que sentem. “ O que esperam?”, pergunto. Eles não sabem dizer e ficam perturbados com o fato de terem carregado durante vários anos uma expectativa que pode ser frustrada sem que a conheçam de perto.
Alguém que realmente quer conhecer a si mesmo deveria ser um colecionador obcecado e fanático de desilusões, e a procura de experiências decepcionantes deveria ser, para ele, como um vício, na verdade o vício dominante de sua vida, pois então ele compreenderia com toda a clareza , que a desilusão não é um veneno quente e destruidor, e sim um bálsamo refrescante e tranquilizante que nos abre os olhos para os verdadeiros contornos sobre nós mesmos.
..........
Alguém poderia ter a esperança de, através da redução de expectativa, se tornar mais real e de se reduzir a um núcleo duro e confiável , estando imune contra a dor da desilusão. Mas como seria levar uma vida que se proibe qualquer expectativa ousada e imodesta , uma vida em que somente houvesse expectativas banais , como a espera pelo próximo onibus?"
Do Trem noturno para Lisboa de PASCAL MERCIER
Não deveríamos sofrer as desilusões suspirando como algo sem o qual nossa vida seria melhor. Deveríamos procurá-las, persegui-las, colecioná-las. Por que me sinto desiludido com o fato de todos os atores idolatrados da minha juventude agora revelarem os traços da idade e da decadência? O que a desilusão me ensina sobre quão pouco vale o sucesso? Muitos precisam de uma vida inteira para admitir a decepção com seus pais. O que esperamos deles? Pessoas que passam a vida sob o jugo inclemente das dores muitas vezes se decepcionam com o comportamento dos outros, mesmo os que persistem junto deles e lhes ministram os medicamentos . É sempre pouco demais o que fazem e dizem e também pouco o que sentem. “ O que esperam?”, pergunto. Eles não sabem dizer e ficam perturbados com o fato de terem carregado durante vários anos uma expectativa que pode ser frustrada sem que a conheçam de perto.
Alguém que realmente quer conhecer a si mesmo deveria ser um colecionador obcecado e fanático de desilusões, e a procura de experiências decepcionantes deveria ser, para ele, como um vício, na verdade o vício dominante de sua vida, pois então ele compreenderia com toda a clareza , que a desilusão não é um veneno quente e destruidor, e sim um bálsamo refrescante e tranquilizante que nos abre os olhos para os verdadeiros contornos sobre nós mesmos.
..........
Alguém poderia ter a esperança de, através da redução de expectativa, se tornar mais real e de se reduzir a um núcleo duro e confiável , estando imune contra a dor da desilusão. Mas como seria levar uma vida que se proibe qualquer expectativa ousada e imodesta , uma vida em que somente houvesse expectativas banais , como a espera pelo próximo onibus?"
Do Trem noturno para Lisboa de PASCAL MERCIER
"ATÉ QUANDO , ó Catilina, abusarás da nossa paciência?", indagou Marco Túlio Cícero ao senador Lúcio Sérgio Catilina, a 8 de novembro de 63 a.C., em Roma. Flagrado em atitudes criminosas, Catilina se recusa a renunciar ao mandato.
Cícero, orador emérito, respeitado por sua conduta ética na política e na vida pessoal, pôs em sua boca a indignação popular: "Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disso conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?".
"Ó tempos, ó costumes!", exclamou Cícero, movido por atormentada perplexidade diante da insensibilidade do acusado. "Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite, com suas trevas, pode manter ocultos os teus criminosos conluios; nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração; se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público?"
Jurista, Cícero se esforçou para que Catilina admitisse os seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia".
Se Catilina permanecia no Senado, não era apenas a vontade própria que o sustentava, mas sobretudo a cumplicidade dos que teriam a perder, com a renúncia dele, proveitos políticos. Daí a exclamação de Cícero: "Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?".
Cícero não temia ameaças e expressava o que lhe ditava o decoro: "Já não podes conviver por mais tempo conosco; não o suporto, não o tolero, não o consinto. (...) Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que ignomínia de vida particular não anda ligada à tua reputação? (...) Refiro-me a fatos que dizem respeito não à infâmia pessoal dos teus vícios, não à tua penúria doméstica e à tua má fama, mas sim aos superiores interesses do Estado e à vida e segurança de todos nós".
Os crimes de Catilina escancaravam-se à nação. Seus próprios pares o evitavam, como assinalou Cícero: "E agora, que vida é essa que levas? Desejo neste momento falar-te de modo que se veja que não sou movido pelo rancor, que eu te deveria ter, mas por uma compaixão que tu em nada mereces. Entraste há pouco neste Senado. Quem, dentre esta tão vasta assembleia, dentre todos os teus amigos e parentes, te saudou? Se isso, desde que há memória dos homens, a ninguém aconteceu, ainda esperas que te insultem com palavras quando te encontras esmagado pela pesadíssima condenação do silêncio?".
Catilina fingia não se dar conta da gravidade da situação. Fazia ouvidos moucos, jurava inocência, agarrava-se doentiamente a seu mandato.
"Se os meus escravos me temessem da maneira que todos os teus concidadãos te receiam", bradou Cícero, "eu, por Hércules, sentir-me-ia compelido a deixar a minha casa; e tu, a esta cidade, não pensas que é teu dever abandoná-la? E se eu me visse, ainda que injustamente, tão gravemente suspeito e detestado pelos meus concidadãos, preferiria ficar privado da sua vista a ser alvo do olhar hostil de toda a gente; e tu, apesar de reconheceres, pela consciência que tens dos teus crimes, que é justo e de há muito merecido o ódio que todos nutrem por ti, estás a hesitar em fugir da vista e da presença de todos aqueles a quem tu atinges na alma e no coração?"
Cícero não demonstrava esperança de que seu libelo fosse ouvido: "Mas de que servem as minhas palavras? A ti, como pode alguma coisa fazer-te dobrar? Tu, como poderás algum dia corrigir-te?". E não poupou os políticos que, apesar de tudo, apoiavam Catilina: "Há, todavia, nesta ordem de senadores, alguns que ou não veem aquilo que nos ameaça ou fingem ignorar aquilo que veem".
Acuado, Catilina se refugiou na Etrúria e morreu em 62 a.C. Cícero, afastado do Senado por Júlio César, foi assassinado em 43 a.C. Um século depois, Calígula, desgostoso com o Senado, nomearia senador seu cavalo Incitatus, com direito a 18 assessores, um colar de pedras preciosas, mantas de cor púrpura e uma estátua, em tamanho real, de mármore com pedestal em marfim. "
FREI BETTO
Cícero, orador emérito, respeitado por sua conduta ética na política e na vida pessoal, pôs em sua boca a indignação popular: "Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disso conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?".
"Ó tempos, ó costumes!", exclamou Cícero, movido por atormentada perplexidade diante da insensibilidade do acusado. "Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite, com suas trevas, pode manter ocultos os teus criminosos conluios; nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração; se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público?"
Jurista, Cícero se esforçou para que Catilina admitisse os seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia".
Se Catilina permanecia no Senado, não era apenas a vontade própria que o sustentava, mas sobretudo a cumplicidade dos que teriam a perder, com a renúncia dele, proveitos políticos. Daí a exclamação de Cícero: "Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?".
Cícero não temia ameaças e expressava o que lhe ditava o decoro: "Já não podes conviver por mais tempo conosco; não o suporto, não o tolero, não o consinto. (...) Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que ignomínia de vida particular não anda ligada à tua reputação? (...) Refiro-me a fatos que dizem respeito não à infâmia pessoal dos teus vícios, não à tua penúria doméstica e à tua má fama, mas sim aos superiores interesses do Estado e à vida e segurança de todos nós".
Os crimes de Catilina escancaravam-se à nação. Seus próprios pares o evitavam, como assinalou Cícero: "E agora, que vida é essa que levas? Desejo neste momento falar-te de modo que se veja que não sou movido pelo rancor, que eu te deveria ter, mas por uma compaixão que tu em nada mereces. Entraste há pouco neste Senado. Quem, dentre esta tão vasta assembleia, dentre todos os teus amigos e parentes, te saudou? Se isso, desde que há memória dos homens, a ninguém aconteceu, ainda esperas que te insultem com palavras quando te encontras esmagado pela pesadíssima condenação do silêncio?".
Catilina fingia não se dar conta da gravidade da situação. Fazia ouvidos moucos, jurava inocência, agarrava-se doentiamente a seu mandato.
"Se os meus escravos me temessem da maneira que todos os teus concidadãos te receiam", bradou Cícero, "eu, por Hércules, sentir-me-ia compelido a deixar a minha casa; e tu, a esta cidade, não pensas que é teu dever abandoná-la? E se eu me visse, ainda que injustamente, tão gravemente suspeito e detestado pelos meus concidadãos, preferiria ficar privado da sua vista a ser alvo do olhar hostil de toda a gente; e tu, apesar de reconheceres, pela consciência que tens dos teus crimes, que é justo e de há muito merecido o ódio que todos nutrem por ti, estás a hesitar em fugir da vista e da presença de todos aqueles a quem tu atinges na alma e no coração?"
Cícero não demonstrava esperança de que seu libelo fosse ouvido: "Mas de que servem as minhas palavras? A ti, como pode alguma coisa fazer-te dobrar? Tu, como poderás algum dia corrigir-te?". E não poupou os políticos que, apesar de tudo, apoiavam Catilina: "Há, todavia, nesta ordem de senadores, alguns que ou não veem aquilo que nos ameaça ou fingem ignorar aquilo que veem".
Acuado, Catilina se refugiou na Etrúria e morreu em 62 a.C. Cícero, afastado do Senado por Júlio César, foi assassinado em 43 a.C. Um século depois, Calígula, desgostoso com o Senado, nomearia senador seu cavalo Incitatus, com direito a 18 assessores, um colar de pedras preciosas, mantas de cor púrpura e uma estátua, em tamanho real, de mármore com pedestal em marfim. "
FREI BETTO
agosto 15, 2009
Por aqui...
Estive lendo “como se escreve” num dos links da minha lista. Não que busque alguma fórmula ou queira aprender o ofício. Não tenho a menor pretensão de 'fisgar' leitores, nem compromissos com 'boas aberturas'. Também não sofro com ' brancos' que são a angústia de quem vive de escrever. Acontece de, às vezes, não ter para quem contar alguma história pessoal. Só isto. Neste post conto duas.
Resolvi fazer uma pequena obra em minha pequena cozinha. De tão pequenas - a obra e a cozinha - acreditava que os inevitáveis aborrecimentos guardassem alguma proporcionalidade com o tamanho delas. Não foi bem assim.
Começou mal desde o primeiro telefonema para a empresa indicada por um amigo arquiteto. Desisti e resolvi adiar. Não estava disposta a me aborrecer. Cedi diante de um pedido de desculpas e o compromisso de que viriam, na data marcada, para conferir as medidas. No mais, foi aprovar o orçamento e aguardar o dia, escolhido por 'eles', para a instalação.
Como não são permitidos barulhos depois do meio dia de sábado, a solução foi marcar para um dia de semana: sexta feira!. Para viabilizar o serviço naquele dia, tive que me desfazer do fogão, esvaziar armários, antecipar a academia, faltar ao trabalho, cancelar almoço, remarcar a diarista e me programar para ficar de plantão em casa. Tudo resolvido, eis que às 9,45 hs recebo telefonema avisando que só seria possível o início do trabalho depois do meio dia. Não seria concluído na sexta, o sábado é dia santo, depois é domingo e eu que ficasse com tudo pelo meio da casa. É como as coisas funcionam...Sem o menor respeito!
Outra experiência, esta meio chocante para quem esteve algum tempo fora e esqueceu de como intimidade e privacidade aqui são conceitos um tanto flexíveis, me aconteceu faz alguns dias. Embarco no 19° andar. No elevador que vinha descendo, o meu ' bom dia' foi respondido com um comentário (elogioso) para o meu vestido, seguido da imediata recomendação de que ele ficaria melhor se usado com uma legging. Ainda estava sob o impacto do que ouvia, quando a porta se abre e entra outra mulher que pegando o final da conversa, sem ser solicitada, se manifesta concordando quanto ao uso do legging sob o meu vestido. “Estaria muito curto?” consegui perguntar. “Não apenas fica melhor e deve ser branca...” acrescentou. (O vestido tem o fundo branco e estampas monocromáticas, em roxo). Quando dei por mim, estava me justificando constrangida: “sou muito pequena para usar estas coisas....” Abre-se novamente a porta. Desta vez era um rapaz que, felizmente, não entrou na conversa. O alívio durou pouco. Em seguida, nem sei a que alturas, entra um casal. Os homens começaram uma conversa em que falavam muito mal da síndica....Mas a mulher foi convidada a opinar. Volto a ser o alvo da observação e dos comentários unânimes quanto ao uso de uma legging.
Finalmente o elevador para e todos saem. A última delas a sair ainda olhou para trás com um ar interrogativo. A porta do elevador se fechou e ele começou a subir. Foi quando me dei conta de que tínhamos estado no subsolo (garagem) e eu, de tão perplexa, não tinha saído do elevador que agora subia direto ao vigésimo. Estaria exposta ao assédio de uma nova 'leva'. Me encolhi no canto, tentando me esconder atrás da bolsa para que ninguém percebesse que faltava uma legging branca sob o meu vestido.
É assim por aqui...
Resolvi fazer uma pequena obra em minha pequena cozinha. De tão pequenas - a obra e a cozinha - acreditava que os inevitáveis aborrecimentos guardassem alguma proporcionalidade com o tamanho delas. Não foi bem assim.
Começou mal desde o primeiro telefonema para a empresa indicada por um amigo arquiteto. Desisti e resolvi adiar. Não estava disposta a me aborrecer. Cedi diante de um pedido de desculpas e o compromisso de que viriam, na data marcada, para conferir as medidas. No mais, foi aprovar o orçamento e aguardar o dia, escolhido por 'eles', para a instalação.
Como não são permitidos barulhos depois do meio dia de sábado, a solução foi marcar para um dia de semana: sexta feira!. Para viabilizar o serviço naquele dia, tive que me desfazer do fogão, esvaziar armários, antecipar a academia, faltar ao trabalho, cancelar almoço, remarcar a diarista e me programar para ficar de plantão em casa. Tudo resolvido, eis que às 9,45 hs recebo telefonema avisando que só seria possível o início do trabalho depois do meio dia. Não seria concluído na sexta, o sábado é dia santo, depois é domingo e eu que ficasse com tudo pelo meio da casa. É como as coisas funcionam...Sem o menor respeito!
Outra experiência, esta meio chocante para quem esteve algum tempo fora e esqueceu de como intimidade e privacidade aqui são conceitos um tanto flexíveis, me aconteceu faz alguns dias. Embarco no 19° andar. No elevador que vinha descendo, o meu ' bom dia' foi respondido com um comentário (elogioso) para o meu vestido, seguido da imediata recomendação de que ele ficaria melhor se usado com uma legging. Ainda estava sob o impacto do que ouvia, quando a porta se abre e entra outra mulher que pegando o final da conversa, sem ser solicitada, se manifesta concordando quanto ao uso do legging sob o meu vestido. “Estaria muito curto?” consegui perguntar. “Não apenas fica melhor e deve ser branca...” acrescentou. (O vestido tem o fundo branco e estampas monocromáticas, em roxo). Quando dei por mim, estava me justificando constrangida: “sou muito pequena para usar estas coisas....” Abre-se novamente a porta. Desta vez era um rapaz que, felizmente, não entrou na conversa. O alívio durou pouco. Em seguida, nem sei a que alturas, entra um casal. Os homens começaram uma conversa em que falavam muito mal da síndica....Mas a mulher foi convidada a opinar. Volto a ser o alvo da observação e dos comentários unânimes quanto ao uso de uma legging.
Finalmente o elevador para e todos saem. A última delas a sair ainda olhou para trás com um ar interrogativo. A porta do elevador se fechou e ele começou a subir. Foi quando me dei conta de que tínhamos estado no subsolo (garagem) e eu, de tão perplexa, não tinha saído do elevador que agora subia direto ao vigésimo. Estaria exposta ao assédio de uma nova 'leva'. Me encolhi no canto, tentando me esconder atrás da bolsa para que ninguém percebesse que faltava uma legging branca sob o meu vestido.
É assim por aqui...
Shelter
Shelter (abrigo, proteção) chegou aqui com um título bobo e sem sentido: De repente Califórnia. É um filme romântico, com final feliz, lindas cenas de surf e uma ótima trilha sonora, que trata de amizade, respeito e compreensão. De tão açucarado, tinha tudo para passar na sessão da tarde, não fosse o detalhe de ser a bonita relação de amor entre dois rapazes. Um filme para ser visto sobretudo pelos homofóbicos para quem os problemas das pessoas são necessariamente decorrentes de com quem se deitam. Na sessão que fui era a única mulher. Alguém explica? ou seria coincidência?
A natureza e as cidades
"Às vezes, vivemos situações que atuam em nós por muito tempo. As emoções e sensações que ali experimentamos, as compreensões que tivemos reverberam e modificam alguma coisa em nós.
Há alguns anos, em Fernando de Noronha, fiz um passeio de barco. Com o balanço e o som das águas me embalando, entretive-me contemplando a paisagem, os golfinhos que nos acompanhavam e... milagre.
Senti minha mente se aquietar. Nunca mais esqueci o que é ter o pensamento silenciado.
Recentemente, outra experiência decisiva. Também junto ao mar, num lugar de natureza exuberante: o Rio de Janeiro.
Em dois dias, caminhei pela praia, percorri a cidade de carro, fui ao teatro e a livrarias, vi amigos. Também faço isso aqui, mas, lá, sempre encontrava um ponto de onde espiar alguma beleza estonteante.
Quando a gente está envolvida pela beleza, parece que tudo está bem. Até me esqueci do problema da criminalidade.
A beleza, o mar, a natureza dão calma. Tive a sensação de voltar à São Paulo dos anos 60 e 70, quando minha cidade, que amo tanto, ainda era tranquila.
A filha de uma amiga, quando veio de Maceió para estudar, disse-me que era difícil se locomover aqui porque São Paulo não tinha frente. Uma cidade que tem mar tem frente.
No Rio é assim. Entre o mar e as montanhas, a cidade tem frente e fundos. Ela nos oferece referências, não ficamos perdidos. Outra razão para aquela calma que senti, justo eu que me desoriento no meu bairro.
O que mais ficou ecoando em mim, no entanto, foi aquela beleza natural exuberante me perseguindo. As construções não conseguiram escondê-la.
As cidades têm a tendência de esconder o mundo natural sob os seus artefatos. Soterramos e encobrimos rios com avenidas, o asfalto dissimula a terra, os edifícios vedam o sol e as prováveis montanhas ao longe... Quando a construção das cidades toma conta de todo o ambiente, os artefatos artificializam o mundo.
A questão é que a natureza é um colo de mãe inesgotável.
Apenas ela é capaz de nos oferecer o sentimento de enraizamento necessário à vida.
O artefato é a demonstração do poder do homem de refazer um mundo à sua imagem e semelhança. Todavia, pontes, casas, indústrias, computadores, móveis e automóveis, tudo se desgasta, quebra, é substituído.
Todo artefato se desfaz. No meio de tal mutação, sentimo-nos também de passagem, sem vínculos e compromissos. Quase apátridas. Vivendo apenas em um mundo artificial, que camufla a natureza, ficamos esquecidos da perenidade desse solo original.
Saber que o mundo já estava aí antes de nós e que permanecerá aí quando partirmos empresta à vida o sentimento de duração e de segurança. Sem ele, a existência jamais consegue avançar nem se simplificar.
Mas, na presença do mundo natural, lembramos que nascemos e morremos. E nos lembramos de nos perguntarmos: o que, de fato, queremos e precisamos, enquanto vivemos?"
DULCE CRITELLI , terapeuta existencial
Há alguns anos, em Fernando de Noronha, fiz um passeio de barco. Com o balanço e o som das águas me embalando, entretive-me contemplando a paisagem, os golfinhos que nos acompanhavam e... milagre.
Senti minha mente se aquietar. Nunca mais esqueci o que é ter o pensamento silenciado.
Recentemente, outra experiência decisiva. Também junto ao mar, num lugar de natureza exuberante: o Rio de Janeiro.
Em dois dias, caminhei pela praia, percorri a cidade de carro, fui ao teatro e a livrarias, vi amigos. Também faço isso aqui, mas, lá, sempre encontrava um ponto de onde espiar alguma beleza estonteante.
Quando a gente está envolvida pela beleza, parece que tudo está bem. Até me esqueci do problema da criminalidade.
A beleza, o mar, a natureza dão calma. Tive a sensação de voltar à São Paulo dos anos 60 e 70, quando minha cidade, que amo tanto, ainda era tranquila.
A filha de uma amiga, quando veio de Maceió para estudar, disse-me que era difícil se locomover aqui porque São Paulo não tinha frente. Uma cidade que tem mar tem frente.
No Rio é assim. Entre o mar e as montanhas, a cidade tem frente e fundos. Ela nos oferece referências, não ficamos perdidos. Outra razão para aquela calma que senti, justo eu que me desoriento no meu bairro.
O que mais ficou ecoando em mim, no entanto, foi aquela beleza natural exuberante me perseguindo. As construções não conseguiram escondê-la.
As cidades têm a tendência de esconder o mundo natural sob os seus artefatos. Soterramos e encobrimos rios com avenidas, o asfalto dissimula a terra, os edifícios vedam o sol e as prováveis montanhas ao longe... Quando a construção das cidades toma conta de todo o ambiente, os artefatos artificializam o mundo.
A questão é que a natureza é um colo de mãe inesgotável.
Apenas ela é capaz de nos oferecer o sentimento de enraizamento necessário à vida.
O artefato é a demonstração do poder do homem de refazer um mundo à sua imagem e semelhança. Todavia, pontes, casas, indústrias, computadores, móveis e automóveis, tudo se desgasta, quebra, é substituído.
Todo artefato se desfaz. No meio de tal mutação, sentimo-nos também de passagem, sem vínculos e compromissos. Quase apátridas. Vivendo apenas em um mundo artificial, que camufla a natureza, ficamos esquecidos da perenidade desse solo original.
Saber que o mundo já estava aí antes de nós e que permanecerá aí quando partirmos empresta à vida o sentimento de duração e de segurança. Sem ele, a existência jamais consegue avançar nem se simplificar.
Mas, na presença do mundo natural, lembramos que nascemos e morremos. E nos lembramos de nos perguntarmos: o que, de fato, queremos e precisamos, enquanto vivemos?"
DULCE CRITELLI , terapeuta existencial
agosto 13, 2009
Imitar e mostrar as pombas
"RECENTEMENTE, VISITEI o Castello de Rivoli, perto de Torino. É uma antiga residência régia, transformada (admiravelmente) em museu de arte contemporânea.
Gostei da exposição temporária do momento (Thomas Ruff, o artista-fotógrafo), mas me decepcionei com a coleção permanente (o que estava à mostra era, sobretudo, "arte povera", um movimento italiano, forte nos anos 70, que compõe obras com restos e materiais humildes, achando e declarando que, com isso, ele criticaria, sei lá, o capitalismo).
Manifestei minha decepção: não acho graça em obras que só nos proporcionam algum tipo de experiência à condição de sermos "instruídos" pelo discurso programático que as acompanha. Uma parte da arte contemporânea, aliás, parece existir para garantir a plena ocupação dos críticos, pois, sem seus comentários, as obras nos diriam pouco ou nada.
A amiga que me acompanhava desdenha de minhas preferências estéticas (mas tranquilize-se: não é verdade que eu goste só de arte figurativa). Na ocasião, ela me administrou um chavão: a arte contemporânea não imita a natureza, ela se preocupa em questionar o próprio ato de criar, como um prestidigitador que tivesse a gentileza de mostrar as pombas na manga de seu casaco em vez de nos iludir com seu truque. Além disso, a arte contemporânea pede que o artista prefira expressar sua "subjetividade" a "imitar" o mundo.
Pois é, mas parece que perdemos a capacidade de enxergar, na arte realista em geral, os mil jeitos pelos quais o artista (clássico, acadêmico ou moderno) SEMPRE expressou sua subjetividade e SEMPRE questionou a tradição e os meios de sua arte.
A novidade é que, frequentemente, a arte contemporânea é devorada por uma paixão pedagógica, uma vontade de explicitar. Por exemplo, o olhar de "Olympia" de Manet, desafiador, direto para nossos olhos, é suficiente para evocar a complexidade da relação entre o pintor e seu modelo. Mesmo assim, poucas décadas mais tarde, Cézanne pintou "Une Moderne Olympia", em que o pintor está incluído no quadro, de costas, sentado diante de seu cavalete. Ou seja, para que os modernos se lembrem de que, em cada quadro, trata-se não só do objeto retratado mas também do ato de pintar, ele sentiu a necessidade de explicitar.
Provavelmente, uma "Olympia" contemporânea seria: nenhum quadro, apenas um cavalete no meio de uma sala. Com essa explicitação, ganhamos algum entendimento? Talvez. Mas a que preço?
Na base da vocação pedagógica da arte contemporânea há uma concepção simplista da "reles" imitação. Três casos, para refletir.
1) Na mesma viagem em que visitei Rivoli, passei por Arles, no sul da França, e revi o Hôtel-Dieu, onde, no fim de 1888, cuidaram de Van Gogh, que acabara de cortar sua famosa orelha. No ano seguinte, os cidadãos de Arles, com um abaixo assinado, pediram que o pintor fosse internado de vez, e Van Gogh viveu num asilo o pouco que sobrava de seus dias.
Num dos quadros que Van Gogh pintou em Arles, ele representou o pátio florido do Hôtel-Dieu. Bom, já faz décadas que a municipalidade de Arles instrui seus paisagistas para que cultivem e podem de forma que o pátio do Hôtel-Dieu se pareça com o quadro de Van Gogh.
2) Oscar Wilde disse um dia que, antes de William Turner (o pintor romântico inglês), o crepúsculo não existia. É um paradoxo, mas nem tanto: é desde Turner que a gente começou a espreitar o pôr do sol como se fosse uma espécie de obra de arte da natureza.
3) Depois da Segunda Guerra Mundial, Varsóvia e Dresden eram um amontoado de escombros. Para reconstruí-las, as municipalidades confiaram nas obras de Bernardo Bellotto, um pintor do século 18 que pintara, justamente, paisagens urbanas de Dresden e Varsóvia. Ora, Bellotto alterava alegremente a disposição e a forma dos edifícios, caso isso melhorasse a composição de seus quadros.
Nos três casos, uma mesma pergunta: quem "imita" quem ou o quê?
Duas sugestões.
"Exactitude", de J.R. Taylor (Thames & Hudson) é uma esplêndida monografia sobre o grupo Exactitude e seu realismo fotográfico (a história de Bellotto, aliás, aprendi na introdução de Taylor).
Acaba de sair "San Paolo" (PubliFolha), que reúne os desenhos paulistanos de Vincenzo Scarpellini, de 2000 a 2006: é um bom jeito para constatar que, em arte, "imitar" significa, de fato, enxergar, revelar e sonhar."
CONTARDO CALLIGARIS
Gostei da exposição temporária do momento (Thomas Ruff, o artista-fotógrafo), mas me decepcionei com a coleção permanente (o que estava à mostra era, sobretudo, "arte povera", um movimento italiano, forte nos anos 70, que compõe obras com restos e materiais humildes, achando e declarando que, com isso, ele criticaria, sei lá, o capitalismo).
Manifestei minha decepção: não acho graça em obras que só nos proporcionam algum tipo de experiência à condição de sermos "instruídos" pelo discurso programático que as acompanha. Uma parte da arte contemporânea, aliás, parece existir para garantir a plena ocupação dos críticos, pois, sem seus comentários, as obras nos diriam pouco ou nada.
A amiga que me acompanhava desdenha de minhas preferências estéticas (mas tranquilize-se: não é verdade que eu goste só de arte figurativa). Na ocasião, ela me administrou um chavão: a arte contemporânea não imita a natureza, ela se preocupa em questionar o próprio ato de criar, como um prestidigitador que tivesse a gentileza de mostrar as pombas na manga de seu casaco em vez de nos iludir com seu truque. Além disso, a arte contemporânea pede que o artista prefira expressar sua "subjetividade" a "imitar" o mundo.
Pois é, mas parece que perdemos a capacidade de enxergar, na arte realista em geral, os mil jeitos pelos quais o artista (clássico, acadêmico ou moderno) SEMPRE expressou sua subjetividade e SEMPRE questionou a tradição e os meios de sua arte.
A novidade é que, frequentemente, a arte contemporânea é devorada por uma paixão pedagógica, uma vontade de explicitar. Por exemplo, o olhar de "Olympia" de Manet, desafiador, direto para nossos olhos, é suficiente para evocar a complexidade da relação entre o pintor e seu modelo. Mesmo assim, poucas décadas mais tarde, Cézanne pintou "Une Moderne Olympia", em que o pintor está incluído no quadro, de costas, sentado diante de seu cavalete. Ou seja, para que os modernos se lembrem de que, em cada quadro, trata-se não só do objeto retratado mas também do ato de pintar, ele sentiu a necessidade de explicitar.
Provavelmente, uma "Olympia" contemporânea seria: nenhum quadro, apenas um cavalete no meio de uma sala. Com essa explicitação, ganhamos algum entendimento? Talvez. Mas a que preço?
Na base da vocação pedagógica da arte contemporânea há uma concepção simplista da "reles" imitação. Três casos, para refletir.
1) Na mesma viagem em que visitei Rivoli, passei por Arles, no sul da França, e revi o Hôtel-Dieu, onde, no fim de 1888, cuidaram de Van Gogh, que acabara de cortar sua famosa orelha. No ano seguinte, os cidadãos de Arles, com um abaixo assinado, pediram que o pintor fosse internado de vez, e Van Gogh viveu num asilo o pouco que sobrava de seus dias.
Num dos quadros que Van Gogh pintou em Arles, ele representou o pátio florido do Hôtel-Dieu. Bom, já faz décadas que a municipalidade de Arles instrui seus paisagistas para que cultivem e podem de forma que o pátio do Hôtel-Dieu se pareça com o quadro de Van Gogh.
2) Oscar Wilde disse um dia que, antes de William Turner (o pintor romântico inglês), o crepúsculo não existia. É um paradoxo, mas nem tanto: é desde Turner que a gente começou a espreitar o pôr do sol como se fosse uma espécie de obra de arte da natureza.
3) Depois da Segunda Guerra Mundial, Varsóvia e Dresden eram um amontoado de escombros. Para reconstruí-las, as municipalidades confiaram nas obras de Bernardo Bellotto, um pintor do século 18 que pintara, justamente, paisagens urbanas de Dresden e Varsóvia. Ora, Bellotto alterava alegremente a disposição e a forma dos edifícios, caso isso melhorasse a composição de seus quadros.
Nos três casos, uma mesma pergunta: quem "imita" quem ou o quê?
Duas sugestões.
"Exactitude", de J.R. Taylor (Thames & Hudson) é uma esplêndida monografia sobre o grupo Exactitude e seu realismo fotográfico (a história de Bellotto, aliás, aprendi na introdução de Taylor).
Acaba de sair "San Paolo" (PubliFolha), que reúne os desenhos paulistanos de Vincenzo Scarpellini, de 2000 a 2006: é um bom jeito para constatar que, em arte, "imitar" significa, de fato, enxergar, revelar e sonhar."
CONTARDO CALLIGARIS
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