agosto 15, 2009

Por aqui...

Estive lendo “como se escreve” num dos links da minha lista. Não que busque alguma fórmula ou queira aprender o ofício. Não tenho a menor pretensão de 'fisgar' leitores, nem compromissos com 'boas aberturas'. Também não sofro com ' brancos' que são a angústia de quem vive de escrever. Acontece de, às vezes, não ter para quem contar alguma história pessoal. Só isto. Neste post conto duas.
Resolvi fazer uma pequena obra em minha pequena cozinha. De tão pequenas - a obra e a cozinha - acreditava que os inevitáveis aborrecimentos guardassem alguma proporcionalidade com o tamanho delas. Não foi bem assim.
Começou mal desde o primeiro telefonema para a empresa indicada por um amigo arquiteto. Desisti e resolvi adiar. Não estava disposta a me aborrecer. Cedi diante de um pedido de desculpas e o compromisso de que viriam, na data marcada, para conferir as medidas. No mais, foi aprovar o orçamento e aguardar o dia, escolhido por 'eles', para a instalação.
Como não são permitidos barulhos depois do meio dia de sábado, a solução foi marcar para um dia de semana: sexta feira!. Para viabilizar o serviço naquele dia, tive que me desfazer do fogão, esvaziar armários, antecipar a academia, faltar ao trabalho, cancelar almoço, remarcar a diarista e me programar para ficar de plantão em casa. Tudo resolvido, eis que às 9,45 hs recebo telefonema avisando que só seria possível o início do trabalho depois do meio dia. Não seria concluído na sexta, o sábado é dia santo, depois é domingo e eu que ficasse com tudo pelo meio da casa. É como as coisas funcionam...Sem o menor respeito!
Outra experiência, esta meio chocante para quem esteve algum tempo fora e esqueceu de como intimidade e privacidade aqui são conceitos um tanto flexíveis, me aconteceu faz alguns dias. Embarco no 19° andar. No elevador que vinha descendo, o meu ' bom dia' foi respondido com um comentário (elogioso) para o meu vestido, seguido da imediata recomendação de que ele ficaria melhor se usado com uma legging. Ainda estava sob o impacto do que ouvia, quando a porta se abre e entra outra mulher que pegando o final da conversa, sem ser solicitada, se manifesta concordando quanto ao uso do legging sob o meu vestido. “Estaria muito curto?” consegui perguntar. “Não apenas fica melhor e deve ser branca...” acrescentou. (O vestido tem o fundo branco e estampas monocromáticas, em roxo). Quando dei por mim, estava me justificando constrangida: “sou muito pequena para usar estas coisas....” Abre-se novamente a porta. Desta vez era um rapaz que, felizmente, não entrou na conversa. O alívio durou pouco. Em seguida, nem sei a que alturas, entra um casal. Os homens começaram uma conversa em que falavam muito mal da síndica....Mas a mulher foi convidada a opinar. Volto a ser o alvo da observação e dos comentários unânimes quanto ao uso de uma legging.
Finalmente o elevador para e todos saem. A última delas a sair ainda olhou para trás com um ar interrogativo. A porta do elevador se fechou e ele começou a subir. Foi quando me dei conta de que tínhamos estado no subsolo (garagem) e eu, de tão perplexa, não tinha saído do elevador que agora subia direto ao vigésimo. Estaria exposta ao assédio de uma nova 'leva'. Me encolhi no canto, tentando me esconder atrás da bolsa para que ninguém percebesse que faltava uma legging branca sob o meu vestido.
É assim por aqui...

Shelter



Shelter (abrigo, proteção) chegou aqui com um título bobo e sem sentido: De repente Califórnia. É um filme romântico, com final feliz, lindas cenas de surf e uma ótima trilha sonora, que trata de amizade, respeito e compreensão. De tão açucarado, tinha tudo para passar na sessão da tarde, não fosse o detalhe de ser a bonita relação de amor entre dois rapazes. Um filme para ser visto sobretudo pelos homofóbicos para quem os problemas das pessoas são necessariamente decorrentes de com quem se deitam. Na sessão que fui era a única mulher. Alguém explica? ou seria coincidência?

A natureza e as cidades

"Às vezes, vivemos situações que atuam em nós por muito tempo. As emoções e sensações que ali experimentamos, as compreensões que tivemos reverberam e modificam alguma coisa em nós.
Há alguns anos, em Fernando de Noronha, fiz um passeio de barco. Com o balanço e o som das águas me embalando, entretive-me contemplando a paisagem, os golfinhos que nos acompanhavam e... milagre.
Senti minha mente se aquietar. Nunca mais esqueci o que é ter o pensamento silenciado.
Recentemente, outra experiência decisiva. Também junto ao mar, num lugar de natureza exuberante: o Rio de Janeiro.
Em dois dias, caminhei pela praia, percorri a cidade de carro, fui ao teatro e a livrarias, vi amigos. Também faço isso aqui, mas, lá, sempre encontrava um ponto de onde espiar alguma beleza estonteante.
Quando a gente está envolvida pela beleza, parece que tudo está bem. Até me esqueci do problema da criminalidade.
A beleza, o mar, a natureza dão calma. Tive a sensação de voltar à São Paulo dos anos 60 e 70, quando minha cidade, que amo tanto, ainda era tranquila.
A filha de uma amiga, quando veio de Maceió para estudar, disse-me que era difícil se locomover aqui porque São Paulo não tinha frente. Uma cidade que tem mar tem frente.
No Rio é assim. Entre o mar e as montanhas, a cidade tem frente e fundos. Ela nos oferece referências, não ficamos perdidos. Outra razão para aquela calma que senti, justo eu que me desoriento no meu bairro.
O que mais ficou ecoando em mim, no entanto, foi aquela beleza natural exuberante me perseguindo. As construções não conseguiram escondê-la.
As cidades têm a tendência de esconder o mundo natural sob os seus artefatos. Soterramos e encobrimos rios com avenidas, o asfalto dissimula a terra, os edifícios vedam o sol e as prováveis montanhas ao longe... Quando a construção das cidades toma conta de todo o ambiente, os artefatos artificializam o mundo.
A questão é que a natureza é um colo de mãe inesgotável.
Apenas ela é capaz de nos oferecer o sentimento de enraizamento necessário à vida.
O artefato é a demonstração do poder do homem de refazer um mundo à sua imagem e semelhança. Todavia, pontes, casas, indústrias, computadores, móveis e automóveis, tudo se desgasta, quebra, é substituído.
Todo artefato se desfaz. No meio de tal mutação, sentimo-nos também de passagem, sem vínculos e compromissos. Quase apátridas. Vivendo apenas em um mundo artificial, que camufla a natureza, ficamos esquecidos da perenidade desse solo original.
Saber que o mundo já estava aí antes de nós e que permanecerá aí quando partirmos empresta à vida o sentimento de duração e de segurança. Sem ele, a existência jamais consegue avançar nem se simplificar.
Mas, na presença do mundo natural, lembramos que nascemos e morremos. E nos lembramos de nos perguntarmos: o que, de fato, queremos e precisamos, enquanto vivemos?
"
DULCE CRITELLI , terapeuta existencial

agosto 13, 2009

Imitar e mostrar as pombas

"RECENTEMENTE, VISITEI o Castello de Rivoli, perto de Torino. É uma antiga residência régia, transformada (admiravelmente) em museu de arte contemporânea.
Gostei da exposição temporária do momento (Thomas Ruff, o artista-fotógrafo), mas me decepcionei com a coleção permanente (o que estava à mostra era, sobretudo, "arte povera", um movimento italiano, forte nos anos 70, que compõe obras com restos e materiais humildes, achando e declarando que, com isso, ele criticaria, sei lá, o capitalismo).
Manifestei minha decepção: não acho graça em obras que só nos proporcionam algum tipo de experiência à condição de sermos "instruídos" pelo discurso programático que as acompanha. Uma parte da arte contemporânea, aliás, parece existir para garantir a plena ocupação dos críticos, pois, sem seus comentários, as obras nos diriam pouco ou nada.
A amiga que me acompanhava desdenha de minhas preferências estéticas (mas tranquilize-se: não é verdade que eu goste só de arte figurativa). Na ocasião, ela me administrou um chavão: a arte contemporânea não imita a natureza, ela se preocupa em questionar o próprio ato de criar, como um prestidigitador que tivesse a gentileza de mostrar as pombas na manga de seu casaco em vez de nos iludir com seu truque. Além disso, a arte contemporânea pede que o artista prefira expressar sua "subjetividade" a "imitar" o mundo.
Pois é, mas parece que perdemos a capacidade de enxergar, na arte realista em geral, os mil jeitos pelos quais o artista (clássico, acadêmico ou moderno) SEMPRE expressou sua subjetividade e SEMPRE questionou a tradição e os meios de sua arte.
A novidade é que, frequentemente, a arte contemporânea é devorada por uma paixão pedagógica, uma vontade de explicitar. Por exemplo, o olhar de "Olympia" de Manet, desafiador, direto para nossos olhos, é suficiente para evocar a complexidade da relação entre o pintor e seu modelo. Mesmo assim, poucas décadas mais tarde, Cézanne pintou "Une Moderne Olympia", em que o pintor está incluído no quadro, de costas, sentado diante de seu cavalete. Ou seja, para que os modernos se lembrem de que, em cada quadro, trata-se não só do objeto retratado mas também do ato de pintar, ele sentiu a necessidade de explicitar.
Provavelmente, uma "Olympia" contemporânea seria: nenhum quadro, apenas um cavalete no meio de uma sala. Com essa explicitação, ganhamos algum entendimento? Talvez. Mas a que preço?
Na base da vocação pedagógica da arte contemporânea há uma concepção simplista da "reles" imitação. Três casos, para refletir.
1) Na mesma viagem em que visitei Rivoli, passei por Arles, no sul da França, e revi o Hôtel-Dieu, onde, no fim de 1888, cuidaram de Van Gogh, que acabara de cortar sua famosa orelha. No ano seguinte, os cidadãos de Arles, com um abaixo assinado, pediram que o pintor fosse internado de vez, e Van Gogh viveu num asilo o pouco que sobrava de seus dias.
Num dos quadros que Van Gogh pintou em Arles, ele representou o pátio florido do Hôtel-Dieu. Bom, já faz décadas que a municipalidade de Arles instrui seus paisagistas para que cultivem e podem de forma que o pátio do Hôtel-Dieu se pareça com o quadro de Van Gogh.
2) Oscar Wilde disse um dia que, antes de William Turner (o pintor romântico inglês), o crepúsculo não existia. É um paradoxo, mas nem tanto: é desde Turner que a gente começou a espreitar o pôr do sol como se fosse uma espécie de obra de arte da natureza.
3) Depois da Segunda Guerra Mundial, Varsóvia e Dresden eram um amontoado de escombros. Para reconstruí-las, as municipalidades confiaram nas obras de Bernardo Bellotto, um pintor do século 18 que pintara, justamente, paisagens urbanas de Dresden e Varsóvia. Ora, Bellotto alterava alegremente a disposição e a forma dos edifícios, caso isso melhorasse a composição de seus quadros.
Nos três casos, uma mesma pergunta: quem "imita" quem ou o quê?
Duas sugestões.
"Exactitude", de J.R. Taylor (Thames & Hudson) é uma esplêndida monografia sobre o grupo Exactitude e seu realismo fotográfico (a história de Bellotto, aliás, aprendi na introdução de Taylor).
Acaba de sair "San Paolo" (PubliFolha), que reúne os desenhos paulistanos de Vincenzo Scarpellini, de 2000 a 2006: é um bom jeito para constatar que, em arte, "imitar" significa, de fato, enxergar, revelar e sonhar.
"
CONTARDO CALLIGARIS

agosto 10, 2009

Carrascos sutis

"TENHO LIDO Philip Roth, graças a dois amigos, um de mais de 50 anos, comunista, outro de menos de 30, conservador. O primeiro sempre tentou me convencer de que seria essencial lê-lo -não sou fácil de ser convencido porque sou uma criatura de hábitos e por isso tendo a inércia, o que pode ser uma reação espontânea ao fato de eu desde criança achar o mundo um lugar hostil-, o segundo me presenteou com dois livros de Roth que foram os primeiros que li.
Roth escreve como homem. Hoje "escrever como homem" é raro, porque homens estão fora de moda (sim cara leitora, eu sei que você sofre calada com isso à noite, sozinha na cama). Sua letra, repleta de gosto pelo pecado, passeia como mãos por baixo da saia das mulheres, sem querer dar uma de sensível -como vemos no "Homem Comum". Um erro crasso da mulher é confundir esta insensibilidade com falta de vínculo afetivo por parte do homem. Ler Roth para as mulheres é uma chance de vasculhar a sensibilidade dura de um homem que as adora.
Em "O Fantasma Sai de Cena", Roth revela as dores do seu personagem Nathan Zuckerman definhando diante da velhice (a potência no homem é mais do que simples ereção mecânica e, ao mesmo tempo, é uma simples e miserável experiência mecânica).
Após narrar o horror da incontinência urinária em um homem que até ontem devorava mulheres 30 anos mais jovens, Roth salta para uma espécie de poesia rude do mundo na qual homens e mulheres sempre voltam à fúria dos elementos inorgânicos e, aí, descansam.
Em "A Marca Humana", ele fala das alegrias diante da maior invenção da humanidade depois do computador, o Viagra -que aliás, fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo.
O personagem principal será acusado injustamente de racista por alguns alunos negros vagabundos (junto de seus professores oportunistas), que se aproveitam da canalhice do politicamente correto para destruir uma vida dedicada à universidade e ao conhecimento. Mas um segredo terrível revelará o ridículo e o trágico dessa acusação (não vou contar, é claro).
A heroína feminina desse romance é descrita por Roth como aquele tipo de pessoa cujo olhar carrega o tédio que só a monotonia da infelicidade repetida mil vezes pode causar. O livro narra o amor improvável, graças ao Viagra, entre um homem de mais de 70 anos e uma infeliz de menos de 40.
No "Animal Agonizante", Roth afirma que o maior ganho para o homem, na emancipação feminina, foi poder se libertar do eterno jogo da mulher frágil. Mas esta libertação, como toda libertação, pode ser fatal: pode deixar o homem só. A dependência da mulher é uma das coisas que mais dá tesão aos homens. E aí reside o perigo: elas sabem disso.
Ela sempre foi dependente (e não só financeiramente) e, portanto, uma escrava, sem grandes papeis além de filha, esposa, mãe, amante (ou seja, o tal segundo sexo). O problema é que esse quadro não tinha só uma escrava, tinha outro escravo. Nos termos de Roth, "os melhores entre nós, homens", aqueles que se sentiam culpados quando não mais queriam estar com suas mulheres, mas ainda assim permaneciam, porque elas eram de fato dependentes deles. Para os cruéis, isso nunca foi problema.
Com a emancipação feminina, o jogo se desmancha, e "os melhores entre nós" podem respirar e dizer "não quero mais você e não sou responsável por você nem pela sua vida, porque você é hoje independente". A emancipação feminina nos libertou a todos, pelo menos aos dois tipos de escravos: a mulher trancada entre a cozinha e o tanque e o homem asfixiado entre o escritório (porque deve sustentar a falsa fragilidade e incapacidade feminina) e uma cama habitada por uma mulher sem desejo.
"Indignação" (uma espécie de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" a la Roth) traz o terrível tema da paranoia como consciência aguda da fragilidade da vida.
Um pai açougueiro que intui desgraçadamente a autodestruição do filho de 19 anos através de seus micro-atos diários: uma irritação besta aqui, um exagero ali, um palavrão acolá. Nada mais aterrorizador do que o pior paranoico (seu pai) ter razão sobre seu destino trágico. O que a fuga de um filho do controle do pai (algo esperado) seguido por um simples sexo oral praticado em você por uma gostosa colega de faculdade no escuro de um carro parado na estrada (sonho de todo homem) podem fazer para te matar? Enfim, os detalhes e o acaso podem ser carrascos sutis."

LUIZ FELIPE PONDÉ

agosto 09, 2009

Sem praia... e de blog novo

Depois que minhas semanas voltaram a ter só um domingo, este passou a ser o dia em que fico comigo e aproveito para me proporcionar os mimos e gostinhos impossíveis de serem desfrutados na correria dos dias 'úteis '(?). Não caberia aqui descrevê-los e quem lesse ia considerar trivial demais. Então me reservo. Uma coisa é certa, tenho dispensado a praia e os seus congestionamentos de carros e de gente. Muita gente. Todos sedentos, ávidos, excitados e barulhentos. A música, às vezes de gosto discutível, em alguns lugares 'ao vivo', está, em qualquer caso, num volume acima do que seria desejável. Não se ouve o quebrar das ondas, as caixas de som 'brotam' dos coqueiros. Mal se pode caminhar entre as mesas. Sim, porque aqui “ir à praia” tem quase nada a ver com mar, areia, caminhada, banho ou mergulho. Significa ir para um grande bar/restaurante, ao ar livre, chamado 'barraca' (todas tem um nome) . Cada ' tribo' tem a sua e é muito importante ser reconhecido pelo 'garçom', pois se vai à praia para beber, nem que seja água de coco. De preferência, beber muito. Mais tarde, 'atacar' bacias (literalmente) de caranguejos lindos, enormes e deliciosos num 'ritual' meio primitivo. Depois de colocados vivos na panela, de onde tentam escapar à medida que a água vai começando a ferver, são servidos inteiros, mergulhados num molho que parece trazer lembranças do mangue...Para quebrá-los ( parti-los) se usa, à guisa de talher, pedaços de madeira que parecem ter conhecido melhores dias, como cabo de vassoura... Para comer caranguejo, tem que saber chupar. Do contrário não se aproveita o que vem depois. Nada de se recusar com a desculpa de serem cabeludos ou outros pruridos. Bobagem! O melhor é cair de boca mesmo. Depois é preciso aprender (com um nativo, claro!) a separar o intestino do resto, com o que se prepara, ali mesmo, uma farofa dentro da própria casca.Ótima com uma pimentinha! Como não poderia deixar de ser, faz a maior sujeira e meladeira. Mas tem chuveiro de água doce à disposição, que também serve para aliviar o calor. O banho é no meio do povo. No início parece estranho, logo se percebe que ninguém 'tá nem aí' e tem uma fila que não pode esperar que se supere eventual constrangimento. Se não se permitir tamanhos prazeres, pode pedir umas 'casquinhas' e comer de colher. Mas asseguro, não será a mesma coisa...Isto que aqui é uma 'instituição'intocável, não se repete pelo litoral do nordeste. Ia esquecendo de mencionar que, na praia, se vende “de um tudo”. De CD/DVD à roupa, cosméticos, bijoux, passando por sanduiches, frutas, castanhas, óculos, brinquedos e artesanatos, sandálias e bolsas, redes e toalhas, rendas e bordados. O assédio é constante. Para sobreviver, a “técnica” é se fazer de cega e surda, pois se o seu olhar trair algum interesse ou curiosidade o melhor é ir embora. Eles não irão e outros mais passarão a te importunar. Ao fim de um domingo, cheguei a conclusão de que só não ofereceram à venda casas e carros. Não duvido de que a qualquer momento comece a acontecer. Afinal além da vocação mercantilista que demonstram, - há quem arrisque afirmar que o 'embrião' do fenômeno 25 de março em Sampa está aqui, no chamado “beco da poeira”,- são muito criativos. Misturam-se aos vendedores os que pedem esmolas e como ninguém se perde por falta de talento, ainda se pode ser mote para uma cantoria da qual ninguém se livra nem pagando. Para não falar dos que 'pastoram' o carro...Uff!
Alguns irão concordar comigo, não se consegue repetir esta orgia toda semana. Mas outros dirão que não podem passar sem...Eu passo!
Neste domingo, fiz uma 'descoberta' (já disse que estou sempre meio atrasada): O blog da MARCIA TIBURI. Coloquei-o na minha lista de links: GNT PINKPUNK (lá embaixo) mas poder ser acessado clicando no título desta postagem. Concordando ou não com ela, que tem suas idéias conhecidas pela participação no programa Saia Justa , vamos ter que reconhecer: o blog é ótimo!

Sorris da minha dor

"...mas eu te quero ainda,
sentindo-me feliz, sonhando-te mais linda.


Essa canção de versos pungentes, de autoria de Paulo Medeiros, era ouvida frequentemente na minha casa, na adolescência e na juventude, assim como muitas outras da mesma época. Não me lembro se na voz de Silvio Caldas ou Carlos Galhardo, ou ainda na de Orlando Silva ou Nelson Gonçalves. Que era um deles, tenho certeza, pois eram eles que formavam o quarteto de ouro do cancioneiro popular, sob o comando indiscutível de Francisco Alves, também conhecido como Chico Alves e Chico Viola, e eternamente cognominado de O Rei da Voz.
Minha avó cochilava ouvindo essas canções. Não cochilava por desinteresse ou tédio, como podem pensar alguns leitores mais apressados, mas para sonhar. Minha avó Leonor, nascida em Sergipe, gorda e boa, e de coque no alto da cabeça, sonhava muito, sonhava sempre. Não apenas ouvindo essas canções românticas de versos sofridos e resignados, mas também acompanhando o radioteatro da companhia de Manuel Durães e Edith de Moraes pela Rádio Record de São Paulo, campeão de audiência desde 1939, como nos conta o Google. O radioteatro era a novela das 8 até os anos 50. E Manuel Durães e Edith de Moraes, o Francisco Cuoco e a Regina Duarte daqueles tempos sem televisão.
Já se falou muito que Orlando Silva era o Roberto Carlos da época, pois atraía multidões em suas apresentações públicas. Ainda não se falava em show, pelo menos não que eu me recorde. Dizia-se audição, espetáculo e até mesmo recital. Lembro de uma dessas apresentações de Orlando, na Praça do Patriarca, em São Paulo, quando ele cantou da marquise de uma emissora de rádio para milhares de pessoas. Como também não me sai da lembrança a última apresentação de Francisco Alves no Largo da Concórdia, também na capital paulista, para um público incalculável, antes de viajar e morrer na Via Dutra, a caminho do Rio. Pois é, as praças eram do povo, como queria o poeta Castro Alves, mas também dos cantores populares. Era nesses espaços públicos que tudo acontecia: a música, os comícios e os protestos.

A praça, a praça é do povo,
como o céu é do condor!


Não tenho como garantir se antigamente se sofria mais por amor do que nos dias de hoje. Mas sofria-se à beça. E era um sofrimento silencioso. Portanto, mais dolorido. Afinal, como ouvimos sempre, as grandes dores são mudas. Abrir-se com os amigos e com o analista, que pagamos para nos ouvir, acaba por abrandar a nossa dor. À época dessas canções e do radioteatro, sofria-se calado, no escuro do quarto. Ou no banho. Conheci uma jovem que abria a torneira e ficava ali, misturando suas lágrimas à água do chuveiro. Quase sempre saía do banheiro curada do impossível amor, mas, não raro, resfriada e febril. Sim, adoecia-se com o sofrimento que nos causava a inútil paixão. Quando se conhecia uma jovem magra e com olheiras, percebia-se logo que estava doente, e que a sua doença tinha um único nome: amor não correspondido. Amor que custava a passar, quando passava. E quantas vezes passava, mas não curava? Meses, anos depois, já noiva de outro rapaz ou mesmo casada, podia-se ouvir, vindo do mais fundo do seu peito, um suspiro involuntário. E podia-se ver, sob a roupa de linho, um arfar dos seus seios. E podia-se presenciar uma saída rápida da sala, para que uma lágrima não lhe aflorasse aos olhos, à vista de todos. Então alguém já não disse que só existe um tipo de amor eterno, que é o amor não correspondido?

Sorris da minha dor, mas eu te quero ainda,
sentindo-me feliz, sonhando-te mais linda.
Escravo eterno teu, farei o que quiseres,
tens para mim a alma eterna das mulheres..."


Manoel Carlos na Revista VEJA Rio, hoje.

Shirley Valentine

Ontem fui ao teatro ver esta peça que faz parte do programa do teatro ambulante do Centro Cultural Banco do Brasil. O tema da peça é uma 'novidade' que se repete eternamente. Ainda que as mulheres tenham conquistado, dentre outros, o direito de sair de casa para trabalhar - o texto original é do começo do século passado - o mundo está cheio de 'shirleyvalentines'. Shirley Valentine é uma dona de casa comum que vive numa solidão monumental . Depois de criar os filhos e estes passarem a viver fora de casa, restou-lhe um marido que faz pouco mais do que percebê-la. Shirley conversa com as paredes para não cair em desespero. Numa versão moderna ela teria um blog, um terapeuta,talvez um amante, faria muitas plásticas e muitas compras... Na peça, ela dribla todas as dificuldades e faz uma viagem à Grécia, a convite de uma amiga. Surge então a oportunidade para uma redescoberta de si própria e de seus sonhos perdidos na rotina e no casamento. Dito assim parece mesmo muito banal, mas é uma peça bem gostosinha.
Numa entrevista recente, dizendo-se uma pessoa muito solitária, a atriz Betty Faria, declarou que preferia não estar fazendo um monólogo pois queria se ver ao lado de colegas. Seja como for, ela está ótima e muito orgulhosa por estar voltando aos palcos após 10 anos.