"RECENTEMENTE, VISITEI o Castello de Rivoli, perto de Torino. É uma antiga residência régia, transformada (admiravelmente) em museu de arte contemporânea.
Gostei da exposição temporária do momento (Thomas Ruff, o artista-fotógrafo), mas me decepcionei com a coleção permanente (o que estava à mostra era, sobretudo, "arte povera", um movimento italiano, forte nos anos 70, que compõe obras com restos e materiais humildes, achando e declarando que, com isso, ele criticaria, sei lá, o capitalismo).
Manifestei minha decepção: não acho graça em obras que só nos proporcionam algum tipo de experiência à condição de sermos "instruídos" pelo discurso programático que as acompanha. Uma parte da arte contemporânea, aliás, parece existir para garantir a plena ocupação dos críticos, pois, sem seus comentários, as obras nos diriam pouco ou nada.
A amiga que me acompanhava desdenha de minhas preferências estéticas (mas tranquilize-se: não é verdade que eu goste só de arte figurativa). Na ocasião, ela me administrou um chavão: a arte contemporânea não imita a natureza, ela se preocupa em questionar o próprio ato de criar, como um prestidigitador que tivesse a gentileza de mostrar as pombas na manga de seu casaco em vez de nos iludir com seu truque. Além disso, a arte contemporânea pede que o artista prefira expressar sua "subjetividade" a "imitar" o mundo.
Pois é, mas parece que perdemos a capacidade de enxergar, na arte realista em geral, os mil jeitos pelos quais o artista (clássico, acadêmico ou moderno) SEMPRE expressou sua subjetividade e SEMPRE questionou a tradição e os meios de sua arte.
A novidade é que, frequentemente, a arte contemporânea é devorada por uma paixão pedagógica, uma vontade de explicitar. Por exemplo, o olhar de "Olympia" de Manet, desafiador, direto para nossos olhos, é suficiente para evocar a complexidade da relação entre o pintor e seu modelo. Mesmo assim, poucas décadas mais tarde, Cézanne pintou "Une Moderne Olympia", em que o pintor está incluído no quadro, de costas, sentado diante de seu cavalete. Ou seja, para que os modernos se lembrem de que, em cada quadro, trata-se não só do objeto retratado mas também do ato de pintar, ele sentiu a necessidade de explicitar.
Provavelmente, uma "Olympia" contemporânea seria: nenhum quadro, apenas um cavalete no meio de uma sala. Com essa explicitação, ganhamos algum entendimento? Talvez. Mas a que preço?
Na base da vocação pedagógica da arte contemporânea há uma concepção simplista da "reles" imitação. Três casos, para refletir.
1) Na mesma viagem em que visitei Rivoli, passei por Arles, no sul da França, e revi o Hôtel-Dieu, onde, no fim de 1888, cuidaram de Van Gogh, que acabara de cortar sua famosa orelha. No ano seguinte, os cidadãos de Arles, com um abaixo assinado, pediram que o pintor fosse internado de vez, e Van Gogh viveu num asilo o pouco que sobrava de seus dias.
Num dos quadros que Van Gogh pintou em Arles, ele representou o pátio florido do Hôtel-Dieu. Bom, já faz décadas que a municipalidade de Arles instrui seus paisagistas para que cultivem e podem de forma que o pátio do Hôtel-Dieu se pareça com o quadro de Van Gogh.
2) Oscar Wilde disse um dia que, antes de William Turner (o pintor romântico inglês), o crepúsculo não existia. É um paradoxo, mas nem tanto: é desde Turner que a gente começou a espreitar o pôr do sol como se fosse uma espécie de obra de arte da natureza.
3) Depois da Segunda Guerra Mundial, Varsóvia e Dresden eram um amontoado de escombros. Para reconstruí-las, as municipalidades confiaram nas obras de Bernardo Bellotto, um pintor do século 18 que pintara, justamente, paisagens urbanas de Dresden e Varsóvia. Ora, Bellotto alterava alegremente a disposição e a forma dos edifícios, caso isso melhorasse a composição de seus quadros.
Nos três casos, uma mesma pergunta: quem "imita" quem ou o quê?
Duas sugestões.
"Exactitude", de J.R. Taylor (Thames & Hudson) é uma esplêndida monografia sobre o grupo Exactitude e seu realismo fotográfico (a história de Bellotto, aliás, aprendi na introdução de Taylor).
Acaba de sair "San Paolo" (PubliFolha), que reúne os desenhos paulistanos de Vincenzo Scarpellini, de 2000 a 2006: é um bom jeito para constatar que, em arte, "imitar" significa, de fato, enxergar, revelar e sonhar."
CONTARDO CALLIGARIS
agosto 13, 2009
agosto 12, 2009
agosto 10, 2009
Carrascos sutis
"TENHO LIDO Philip Roth, graças a dois amigos, um de mais de 50 anos, comunista, outro de menos de 30, conservador. O primeiro sempre tentou me convencer de que seria essencial lê-lo -não sou fácil de ser convencido porque sou uma criatura de hábitos e por isso tendo a inércia, o que pode ser uma reação espontânea ao fato de eu desde criança achar o mundo um lugar hostil-, o segundo me presenteou com dois livros de Roth que foram os primeiros que li.
Roth escreve como homem. Hoje "escrever como homem" é raro, porque homens estão fora de moda (sim cara leitora, eu sei que você sofre calada com isso à noite, sozinha na cama). Sua letra, repleta de gosto pelo pecado, passeia como mãos por baixo da saia das mulheres, sem querer dar uma de sensível -como vemos no "Homem Comum". Um erro crasso da mulher é confundir esta insensibilidade com falta de vínculo afetivo por parte do homem. Ler Roth para as mulheres é uma chance de vasculhar a sensibilidade dura de um homem que as adora.
Em "O Fantasma Sai de Cena", Roth revela as dores do seu personagem Nathan Zuckerman definhando diante da velhice (a potência no homem é mais do que simples ereção mecânica e, ao mesmo tempo, é uma simples e miserável experiência mecânica).
Após narrar o horror da incontinência urinária em um homem que até ontem devorava mulheres 30 anos mais jovens, Roth salta para uma espécie de poesia rude do mundo na qual homens e mulheres sempre voltam à fúria dos elementos inorgânicos e, aí, descansam.
Em "A Marca Humana", ele fala das alegrias diante da maior invenção da humanidade depois do computador, o Viagra -que aliás, fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo.
O personagem principal será acusado injustamente de racista por alguns alunos negros vagabundos (junto de seus professores oportunistas), que se aproveitam da canalhice do politicamente correto para destruir uma vida dedicada à universidade e ao conhecimento. Mas um segredo terrível revelará o ridículo e o trágico dessa acusação (não vou contar, é claro).
A heroína feminina desse romance é descrita por Roth como aquele tipo de pessoa cujo olhar carrega o tédio que só a monotonia da infelicidade repetida mil vezes pode causar. O livro narra o amor improvável, graças ao Viagra, entre um homem de mais de 70 anos e uma infeliz de menos de 40.
No "Animal Agonizante", Roth afirma que o maior ganho para o homem, na emancipação feminina, foi poder se libertar do eterno jogo da mulher frágil. Mas esta libertação, como toda libertação, pode ser fatal: pode deixar o homem só. A dependência da mulher é uma das coisas que mais dá tesão aos homens. E aí reside o perigo: elas sabem disso.
Ela sempre foi dependente (e não só financeiramente) e, portanto, uma escrava, sem grandes papeis além de filha, esposa, mãe, amante (ou seja, o tal segundo sexo). O problema é que esse quadro não tinha só uma escrava, tinha outro escravo. Nos termos de Roth, "os melhores entre nós, homens", aqueles que se sentiam culpados quando não mais queriam estar com suas mulheres, mas ainda assim permaneciam, porque elas eram de fato dependentes deles. Para os cruéis, isso nunca foi problema.
Com a emancipação feminina, o jogo se desmancha, e "os melhores entre nós" podem respirar e dizer "não quero mais você e não sou responsável por você nem pela sua vida, porque você é hoje independente". A emancipação feminina nos libertou a todos, pelo menos aos dois tipos de escravos: a mulher trancada entre a cozinha e o tanque e o homem asfixiado entre o escritório (porque deve sustentar a falsa fragilidade e incapacidade feminina) e uma cama habitada por uma mulher sem desejo.
"Indignação" (uma espécie de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" a la Roth) traz o terrível tema da paranoia como consciência aguda da fragilidade da vida.
Um pai açougueiro que intui desgraçadamente a autodestruição do filho de 19 anos através de seus micro-atos diários: uma irritação besta aqui, um exagero ali, um palavrão acolá. Nada mais aterrorizador do que o pior paranoico (seu pai) ter razão sobre seu destino trágico. O que a fuga de um filho do controle do pai (algo esperado) seguido por um simples sexo oral praticado em você por uma gostosa colega de faculdade no escuro de um carro parado na estrada (sonho de todo homem) podem fazer para te matar? Enfim, os detalhes e o acaso podem ser carrascos sutis."
LUIZ FELIPE PONDÉ
Roth escreve como homem. Hoje "escrever como homem" é raro, porque homens estão fora de moda (sim cara leitora, eu sei que você sofre calada com isso à noite, sozinha na cama). Sua letra, repleta de gosto pelo pecado, passeia como mãos por baixo da saia das mulheres, sem querer dar uma de sensível -como vemos no "Homem Comum". Um erro crasso da mulher é confundir esta insensibilidade com falta de vínculo afetivo por parte do homem. Ler Roth para as mulheres é uma chance de vasculhar a sensibilidade dura de um homem que as adora.
Em "O Fantasma Sai de Cena", Roth revela as dores do seu personagem Nathan Zuckerman definhando diante da velhice (a potência no homem é mais do que simples ereção mecânica e, ao mesmo tempo, é uma simples e miserável experiência mecânica).
Após narrar o horror da incontinência urinária em um homem que até ontem devorava mulheres 30 anos mais jovens, Roth salta para uma espécie de poesia rude do mundo na qual homens e mulheres sempre voltam à fúria dos elementos inorgânicos e, aí, descansam.
Em "A Marca Humana", ele fala das alegrias diante da maior invenção da humanidade depois do computador, o Viagra -que aliás, fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo.
O personagem principal será acusado injustamente de racista por alguns alunos negros vagabundos (junto de seus professores oportunistas), que se aproveitam da canalhice do politicamente correto para destruir uma vida dedicada à universidade e ao conhecimento. Mas um segredo terrível revelará o ridículo e o trágico dessa acusação (não vou contar, é claro).
A heroína feminina desse romance é descrita por Roth como aquele tipo de pessoa cujo olhar carrega o tédio que só a monotonia da infelicidade repetida mil vezes pode causar. O livro narra o amor improvável, graças ao Viagra, entre um homem de mais de 70 anos e uma infeliz de menos de 40.
No "Animal Agonizante", Roth afirma que o maior ganho para o homem, na emancipação feminina, foi poder se libertar do eterno jogo da mulher frágil. Mas esta libertação, como toda libertação, pode ser fatal: pode deixar o homem só. A dependência da mulher é uma das coisas que mais dá tesão aos homens. E aí reside o perigo: elas sabem disso.
Ela sempre foi dependente (e não só financeiramente) e, portanto, uma escrava, sem grandes papeis além de filha, esposa, mãe, amante (ou seja, o tal segundo sexo). O problema é que esse quadro não tinha só uma escrava, tinha outro escravo. Nos termos de Roth, "os melhores entre nós, homens", aqueles que se sentiam culpados quando não mais queriam estar com suas mulheres, mas ainda assim permaneciam, porque elas eram de fato dependentes deles. Para os cruéis, isso nunca foi problema.
Com a emancipação feminina, o jogo se desmancha, e "os melhores entre nós" podem respirar e dizer "não quero mais você e não sou responsável por você nem pela sua vida, porque você é hoje independente". A emancipação feminina nos libertou a todos, pelo menos aos dois tipos de escravos: a mulher trancada entre a cozinha e o tanque e o homem asfixiado entre o escritório (porque deve sustentar a falsa fragilidade e incapacidade feminina) e uma cama habitada por uma mulher sem desejo.
"Indignação" (uma espécie de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" a la Roth) traz o terrível tema da paranoia como consciência aguda da fragilidade da vida.
Um pai açougueiro que intui desgraçadamente a autodestruição do filho de 19 anos através de seus micro-atos diários: uma irritação besta aqui, um exagero ali, um palavrão acolá. Nada mais aterrorizador do que o pior paranoico (seu pai) ter razão sobre seu destino trágico. O que a fuga de um filho do controle do pai (algo esperado) seguido por um simples sexo oral praticado em você por uma gostosa colega de faculdade no escuro de um carro parado na estrada (sonho de todo homem) podem fazer para te matar? Enfim, os detalhes e o acaso podem ser carrascos sutis."
LUIZ FELIPE PONDÉ
agosto 09, 2009
Sem praia... e de blog novo
Depois que minhas semanas voltaram a ter só um domingo, este passou a ser o dia em que fico comigo e aproveito para me proporcionar os mimos e gostinhos impossíveis de serem desfrutados na correria dos dias 'úteis '(?). Não caberia aqui descrevê-los e quem lesse ia considerar trivial demais. Então me reservo. Uma coisa é certa, tenho dispensado a praia e os seus congestionamentos de carros e de gente. Muita gente. Todos sedentos, ávidos, excitados e barulhentos. A música, às vezes de gosto discutível, em alguns lugares 'ao vivo', está, em qualquer caso, num volume acima do que seria desejável. Não se ouve o quebrar das ondas, as caixas de som 'brotam' dos coqueiros. Mal se pode caminhar entre as mesas. Sim, porque aqui “ir à praia” tem quase nada a ver com mar, areia, caminhada, banho ou mergulho. Significa ir para um grande bar/restaurante, ao ar livre, chamado 'barraca' (todas tem um nome) . Cada ' tribo' tem a sua e é muito importante ser reconhecido pelo 'garçom', pois se vai à praia para beber, nem que seja água de coco. De preferência, beber muito. Mais tarde, 'atacar' bacias (literalmente) de caranguejos lindos, enormes e deliciosos num 'ritual' meio primitivo. Depois de colocados vivos na panela, de onde tentam escapar à medida que a água vai começando a ferver, são servidos inteiros, mergulhados num molho que parece trazer lembranças do mangue...Para quebrá-los ( parti-los) se usa, à guisa de talher, pedaços de madeira que parecem ter conhecido melhores dias, como cabo de vassoura... Para comer caranguejo, tem que saber chupar. Do contrário não se aproveita o que vem depois. Nada de se recusar com a desculpa de serem cabeludos ou outros pruridos. Bobagem! O melhor é cair de boca mesmo. Depois é preciso aprender (com um nativo, claro!) a separar o intestino do resto, com o que se prepara, ali mesmo, uma farofa dentro da própria casca.Ótima com uma pimentinha! Como não poderia deixar de ser, faz a maior sujeira e meladeira. Mas tem chuveiro de água doce à disposição, que também serve para aliviar o calor. O banho é no meio do povo. No início parece estranho, logo se percebe que ninguém 'tá nem aí' e tem uma fila que não pode esperar que se supere eventual constrangimento. Se não se permitir tamanhos prazeres, pode pedir umas 'casquinhas' e comer de colher. Mas asseguro, não será a mesma coisa...Isto que aqui é uma 'instituição'intocável, não se repete pelo litoral do nordeste. Ia esquecendo de mencionar que, na praia, se vende “de um tudo”. De CD/DVD à roupa, cosméticos, bijoux, passando por sanduiches, frutas, castanhas, óculos, brinquedos e artesanatos, sandálias e bolsas, redes e toalhas, rendas e bordados. O assédio é constante. Para sobreviver, a “técnica” é se fazer de cega e surda, pois se o seu olhar trair algum interesse ou curiosidade o melhor é ir embora. Eles não irão e outros mais passarão a te importunar. Ao fim de um domingo, cheguei a conclusão de que só não ofereceram à venda casas e carros. Não duvido de que a qualquer momento comece a acontecer. Afinal além da vocação mercantilista que demonstram, - há quem arrisque afirmar que o 'embrião' do fenômeno 25 de março em Sampa está aqui, no chamado “beco da poeira”,- são muito criativos. Misturam-se aos vendedores os que pedem esmolas e como ninguém se perde por falta de talento, ainda se pode ser mote para uma cantoria da qual ninguém se livra nem pagando. Para não falar dos que 'pastoram' o carro...Uff! Alguns irão concordar comigo, não se consegue repetir esta orgia toda semana. Mas outros dirão que não podem passar sem...Eu passo!
Neste domingo, fiz uma 'descoberta' (já disse que estou sempre meio atrasada): O blog da MARCIA TIBURI. Coloquei-o na minha lista de links: GNT PINKPUNK (lá embaixo) mas poder ser acessado clicando no título desta postagem. Concordando ou não com ela, que tem suas idéias conhecidas pela participação no programa Saia Justa , vamos ter que reconhecer: o blog é ótimo!
Sorris da minha dor
"...mas eu te quero ainda,
sentindo-me feliz, sonhando-te mais linda.
Essa canção de versos pungentes, de autoria de Paulo Medeiros, era ouvida frequentemente na minha casa, na adolescência e na juventude, assim como muitas outras da mesma época. Não me lembro se na voz de Silvio Caldas ou Carlos Galhardo, ou ainda na de Orlando Silva ou Nelson Gonçalves. Que era um deles, tenho certeza, pois eram eles que formavam o quarteto de ouro do cancioneiro popular, sob o comando indiscutível de Francisco Alves, também conhecido como Chico Alves e Chico Viola, e eternamente cognominado de O Rei da Voz.
Minha avó cochilava ouvindo essas canções. Não cochilava por desinteresse ou tédio, como podem pensar alguns leitores mais apressados, mas para sonhar. Minha avó Leonor, nascida em Sergipe, gorda e boa, e de coque no alto da cabeça, sonhava muito, sonhava sempre. Não apenas ouvindo essas canções românticas de versos sofridos e resignados, mas também acompanhando o radioteatro da companhia de Manuel Durães e Edith de Moraes pela Rádio Record de São Paulo, campeão de audiência desde 1939, como nos conta o Google. O radioteatro era a novela das 8 até os anos 50. E Manuel Durães e Edith de Moraes, o Francisco Cuoco e a Regina Duarte daqueles tempos sem televisão.
Já se falou muito que Orlando Silva era o Roberto Carlos da época, pois atraía multidões em suas apresentações públicas. Ainda não se falava em show, pelo menos não que eu me recorde. Dizia-se audição, espetáculo e até mesmo recital. Lembro de uma dessas apresentações de Orlando, na Praça do Patriarca, em São Paulo, quando ele cantou da marquise de uma emissora de rádio para milhares de pessoas. Como também não me sai da lembrança a última apresentação de Francisco Alves no Largo da Concórdia, também na capital paulista, para um público incalculável, antes de viajar e morrer na Via Dutra, a caminho do Rio. Pois é, as praças eram do povo, como queria o poeta Castro Alves, mas também dos cantores populares. Era nesses espaços públicos que tudo acontecia: a música, os comícios e os protestos.
A praça, a praça é do povo,
como o céu é do condor!
Não tenho como garantir se antigamente se sofria mais por amor do que nos dias de hoje. Mas sofria-se à beça. E era um sofrimento silencioso. Portanto, mais dolorido. Afinal, como ouvimos sempre, as grandes dores são mudas. Abrir-se com os amigos e com o analista, que pagamos para nos ouvir, acaba por abrandar a nossa dor. À época dessas canções e do radioteatro, sofria-se calado, no escuro do quarto. Ou no banho. Conheci uma jovem que abria a torneira e ficava ali, misturando suas lágrimas à água do chuveiro. Quase sempre saía do banheiro curada do impossível amor, mas, não raro, resfriada e febril. Sim, adoecia-se com o sofrimento que nos causava a inútil paixão. Quando se conhecia uma jovem magra e com olheiras, percebia-se logo que estava doente, e que a sua doença tinha um único nome: amor não correspondido. Amor que custava a passar, quando passava. E quantas vezes passava, mas não curava? Meses, anos depois, já noiva de outro rapaz ou mesmo casada, podia-se ouvir, vindo do mais fundo do seu peito, um suspiro involuntário. E podia-se ver, sob a roupa de linho, um arfar dos seus seios. E podia-se presenciar uma saída rápida da sala, para que uma lágrima não lhe aflorasse aos olhos, à vista de todos. Então alguém já não disse que só existe um tipo de amor eterno, que é o amor não correspondido?
Sorris da minha dor, mas eu te quero ainda,
sentindo-me feliz, sonhando-te mais linda.
Escravo eterno teu, farei o que quiseres,
tens para mim a alma eterna das mulheres..."
Manoel Carlos na Revista VEJA Rio, hoje.
sentindo-me feliz, sonhando-te mais linda.
Essa canção de versos pungentes, de autoria de Paulo Medeiros, era ouvida frequentemente na minha casa, na adolescência e na juventude, assim como muitas outras da mesma época. Não me lembro se na voz de Silvio Caldas ou Carlos Galhardo, ou ainda na de Orlando Silva ou Nelson Gonçalves. Que era um deles, tenho certeza, pois eram eles que formavam o quarteto de ouro do cancioneiro popular, sob o comando indiscutível de Francisco Alves, também conhecido como Chico Alves e Chico Viola, e eternamente cognominado de O Rei da Voz.
Minha avó cochilava ouvindo essas canções. Não cochilava por desinteresse ou tédio, como podem pensar alguns leitores mais apressados, mas para sonhar. Minha avó Leonor, nascida em Sergipe, gorda e boa, e de coque no alto da cabeça, sonhava muito, sonhava sempre. Não apenas ouvindo essas canções românticas de versos sofridos e resignados, mas também acompanhando o radioteatro da companhia de Manuel Durães e Edith de Moraes pela Rádio Record de São Paulo, campeão de audiência desde 1939, como nos conta o Google. O radioteatro era a novela das 8 até os anos 50. E Manuel Durães e Edith de Moraes, o Francisco Cuoco e a Regina Duarte daqueles tempos sem televisão.
Já se falou muito que Orlando Silva era o Roberto Carlos da época, pois atraía multidões em suas apresentações públicas. Ainda não se falava em show, pelo menos não que eu me recorde. Dizia-se audição, espetáculo e até mesmo recital. Lembro de uma dessas apresentações de Orlando, na Praça do Patriarca, em São Paulo, quando ele cantou da marquise de uma emissora de rádio para milhares de pessoas. Como também não me sai da lembrança a última apresentação de Francisco Alves no Largo da Concórdia, também na capital paulista, para um público incalculável, antes de viajar e morrer na Via Dutra, a caminho do Rio. Pois é, as praças eram do povo, como queria o poeta Castro Alves, mas também dos cantores populares. Era nesses espaços públicos que tudo acontecia: a música, os comícios e os protestos.
A praça, a praça é do povo,
como o céu é do condor!
Não tenho como garantir se antigamente se sofria mais por amor do que nos dias de hoje. Mas sofria-se à beça. E era um sofrimento silencioso. Portanto, mais dolorido. Afinal, como ouvimos sempre, as grandes dores são mudas. Abrir-se com os amigos e com o analista, que pagamos para nos ouvir, acaba por abrandar a nossa dor. À época dessas canções e do radioteatro, sofria-se calado, no escuro do quarto. Ou no banho. Conheci uma jovem que abria a torneira e ficava ali, misturando suas lágrimas à água do chuveiro. Quase sempre saía do banheiro curada do impossível amor, mas, não raro, resfriada e febril. Sim, adoecia-se com o sofrimento que nos causava a inútil paixão. Quando se conhecia uma jovem magra e com olheiras, percebia-se logo que estava doente, e que a sua doença tinha um único nome: amor não correspondido. Amor que custava a passar, quando passava. E quantas vezes passava, mas não curava? Meses, anos depois, já noiva de outro rapaz ou mesmo casada, podia-se ouvir, vindo do mais fundo do seu peito, um suspiro involuntário. E podia-se ver, sob a roupa de linho, um arfar dos seus seios. E podia-se presenciar uma saída rápida da sala, para que uma lágrima não lhe aflorasse aos olhos, à vista de todos. Então alguém já não disse que só existe um tipo de amor eterno, que é o amor não correspondido?
Sorris da minha dor, mas eu te quero ainda,
sentindo-me feliz, sonhando-te mais linda.
Escravo eterno teu, farei o que quiseres,
tens para mim a alma eterna das mulheres..."
Manoel Carlos na Revista VEJA Rio, hoje.
Shirley Valentine
Ontem fui ao teatro ver esta peça que faz parte do programa do teatro ambulante do Centro Cultural Banco do Brasil. O tema da peça é uma 'novidade' que se repete eternamente. Ainda que as mulheres tenham conquistado, dentre outros, o direito de sair de casa para trabalhar - o texto original é do começo do século passado - o mundo está cheio de 'shirleyvalentines'. Shirley Valentine é uma dona de casa comum que vive numa solidão monumental . Depois de criar os filhos e estes passarem a viver fora de casa, restou-lhe um marido que faz pouco mais do que percebê-la. Shirley conversa com as paredes para não cair em desespero. Numa versão moderna ela teria um blog, um terapeuta,talvez um amante, faria muitas plásticas e muitas compras... Na peça, ela dribla todas as dificuldades e faz uma viagem à Grécia, a convite de uma amiga. Surge então a oportunidade para uma redescoberta de si própria e de seus sonhos perdidos na rotina e no casamento. Dito assim parece mesmo muito banal, mas é uma peça bem gostosinha. Numa entrevista recente, dizendo-se uma pessoa muito solitária, a atriz Betty Faria, declarou que preferia não estar fazendo um monólogo pois queria se ver ao lado de colegas. Seja como for, ela está ótima e muito orgulhosa por estar voltando aos palcos após 10 anos.
agosto 08, 2009
Cherchez la femme
No blog do Antonio Ribeiro: A bela dominou a fera.
" Rosto angélico, ela tem silhueta quase perfeita. A destreza mental, a habilidade de atrair admiração sobre si está bem acima da média do mundo que a fez célebre — o ambiente onde a beleza reina sobre todas virtudes e abranda os piores defeitos. Contudo, Carla Bruni, primeira-dama da França, vem sendo louvada e, ça va de soi, criticada por mais um papel inusitado nos seus 41 anos de existência — eles parecem menos. A bela dominou a fera. Carla conseguiu imprimir ascendência na forte personalidade do marido Nicolas Sarkozy.
Pelo início — há quem diga: “pela fraqueza da carne”. A primeira-dama colocou o corpo do presidente francês, de 54 anos, sob sua tutela. Seguindo instruções de Bruni, Sarkozy abandonou o velho hábito de devorar chocolates, doces e sorvetes. Ele agora é do time que come com moderação. Frutas e queijos magros entraram no cardápio presidencial.
Três vezes por semana, o presidente corre e faz exercícios com Julie Imperiali, de 26anos, a personal trainer de Carla, famosa por seu médoto que fortalece os músculos da região pélvica — espécie de Pilates, brevetado após toques pessoais da ex-bailarina e ginasta cuja máxima sustenta o fazer bem ao físico, conforta a alma.
Sarkozy é aluno exemplar na avaliação de Imperiali. Para outros, ele exagera na dose. Isto para agradar ou acompanhar - ou ambos — o ritmo de Carla, 14 anos mais jovem. A dedicação é tamanha que, depois do mal-estar durante 45 minutos de jogging sob calor de 30 graus, nos arredores da residência presidencial de La Lanterna, em Versalhes, seguido de internação hospitalar, o dedo acusador foi apontado para primeira-dama.
Verdade ou não, pondera-se, Sarkozy não tem queda por meias medidas. Obsessivo é um adjetivo justo. Cai-lhe muito bem, ele não contesta. Um dado emblemático: Sarkozy voou 300.000 quilômetros em um ano, média de 820 quilômetros por dia para realizar visitas oficiais fora da França.
Já não se vê mais o presidente francês com ostensivos relógios Rolex no pulso. Procure o mordomo? Não, busque a mulher. Aqui é inegável. Bruni acabou com o estilo Bling Bling do marido. O mau gosto típico de endinheirados sem refinamento, “o cheguei, olhem para mim”, motivo de escárnio. Doravante ou pós-Carla, Sarkozy lê as horas pelos ponteiros de um elegante Patek Philippe, presente do rapidíssimo casamento.
Os ternos presidenciais agora tem a sobriedade dos tons escuros. As camisas inglesas, brancas ou azuis claras, são marca Hilditch & Key, pano de fundo para as gravatas negras ou, no máximo, cinza chumbo. Se a França, referência mundial de elegância, deve algo a italiana Bruni, é de ter feito seu presidente parecer presidente.
A influência não ficou só no visual. Carla operou em profundidade. Algo que pode, se sensibilidade houver, despertar admiração de Marisa Letícia à Michele Obama. Inspirar seria sugerir o impossível. Bruni despertou em Sarkozy o interesse pela literatura francesa — de Guy Maupassant a Françoise Sagan. Isto não é pouco em um país que se vê como o mais autêntico herdeiro da cultura ocidental.
No mês passado, em lance raro, Sarkozy surpreendeu os franceses declarando que estava lendo La Princesse de Clèves, livro anônimo da escritora Marie-Madalene de La Fayette, publicado em 1678. O romance histórico, considerado o pontapé inicial da prosa moderna francesa, relata um encrencado triangulo amoroso, parte incontornável do currículo escolar dos colegiais franceses.
A primeira-dama introduziu a obra de Bod Dylan no Palácio do Elysée, o autor americano que fez a cabeça dos Beatles com drogas e versos desconcertantes, a sua voz de taquara rachada foi fiel trilha sonora dos conturbados anos 60.
“Você não pode vencer só com o apoio dos intelectuais, mas não ganhará sem eles”, disse Sarkozy em uma surpreendente entrevista a revista Nouvel Observateur que deita lhe o malho muito antes do primeiro dia do seu mandato. Isto é Carla Bruni, esculpida na toscana Carrara, sem tirar nem por. O presidente francês prepara sua reeleição. O seu melhor cabo eleitoral dorme debaixo dos lençóis de sua cama."
" Rosto angélico, ela tem silhueta quase perfeita. A destreza mental, a habilidade de atrair admiração sobre si está bem acima da média do mundo que a fez célebre — o ambiente onde a beleza reina sobre todas virtudes e abranda os piores defeitos. Contudo, Carla Bruni, primeira-dama da França, vem sendo louvada e, ça va de soi, criticada por mais um papel inusitado nos seus 41 anos de existência — eles parecem menos. A bela dominou a fera. Carla conseguiu imprimir ascendência na forte personalidade do marido Nicolas Sarkozy.Pelo início — há quem diga: “pela fraqueza da carne”. A primeira-dama colocou o corpo do presidente francês, de 54 anos, sob sua tutela. Seguindo instruções de Bruni, Sarkozy abandonou o velho hábito de devorar chocolates, doces e sorvetes. Ele agora é do time que come com moderação. Frutas e queijos magros entraram no cardápio presidencial.
Três vezes por semana, o presidente corre e faz exercícios com Julie Imperiali, de 26anos, a personal trainer de Carla, famosa por seu médoto que fortalece os músculos da região pélvica — espécie de Pilates, brevetado após toques pessoais da ex-bailarina e ginasta cuja máxima sustenta o fazer bem ao físico, conforta a alma.
Sarkozy é aluno exemplar na avaliação de Imperiali. Para outros, ele exagera na dose. Isto para agradar ou acompanhar - ou ambos — o ritmo de Carla, 14 anos mais jovem. A dedicação é tamanha que, depois do mal-estar durante 45 minutos de jogging sob calor de 30 graus, nos arredores da residência presidencial de La Lanterna, em Versalhes, seguido de internação hospitalar, o dedo acusador foi apontado para primeira-dama.
Verdade ou não, pondera-se, Sarkozy não tem queda por meias medidas. Obsessivo é um adjetivo justo. Cai-lhe muito bem, ele não contesta. Um dado emblemático: Sarkozy voou 300.000 quilômetros em um ano, média de 820 quilômetros por dia para realizar visitas oficiais fora da França.
Já não se vê mais o presidente francês com ostensivos relógios Rolex no pulso. Procure o mordomo? Não, busque a mulher. Aqui é inegável. Bruni acabou com o estilo Bling Bling do marido. O mau gosto típico de endinheirados sem refinamento, “o cheguei, olhem para mim”, motivo de escárnio. Doravante ou pós-Carla, Sarkozy lê as horas pelos ponteiros de um elegante Patek Philippe, presente do rapidíssimo casamento.
Os ternos presidenciais agora tem a sobriedade dos tons escuros. As camisas inglesas, brancas ou azuis claras, são marca Hilditch & Key, pano de fundo para as gravatas negras ou, no máximo, cinza chumbo. Se a França, referência mundial de elegância, deve algo a italiana Bruni, é de ter feito seu presidente parecer presidente.
A influência não ficou só no visual. Carla operou em profundidade. Algo que pode, se sensibilidade houver, despertar admiração de Marisa Letícia à Michele Obama. Inspirar seria sugerir o impossível. Bruni despertou em Sarkozy o interesse pela literatura francesa — de Guy Maupassant a Françoise Sagan. Isto não é pouco em um país que se vê como o mais autêntico herdeiro da cultura ocidental.
No mês passado, em lance raro, Sarkozy surpreendeu os franceses declarando que estava lendo La Princesse de Clèves, livro anônimo da escritora Marie-Madalene de La Fayette, publicado em 1678. O romance histórico, considerado o pontapé inicial da prosa moderna francesa, relata um encrencado triangulo amoroso, parte incontornável do currículo escolar dos colegiais franceses.
A primeira-dama introduziu a obra de Bod Dylan no Palácio do Elysée, o autor americano que fez a cabeça dos Beatles com drogas e versos desconcertantes, a sua voz de taquara rachada foi fiel trilha sonora dos conturbados anos 60.
“Você não pode vencer só com o apoio dos intelectuais, mas não ganhará sem eles”, disse Sarkozy em uma surpreendente entrevista a revista Nouvel Observateur que deita lhe o malho muito antes do primeiro dia do seu mandato. Isto é Carla Bruni, esculpida na toscana Carrara, sem tirar nem por. O presidente francês prepara sua reeleição. O seu melhor cabo eleitoral dorme debaixo dos lençóis de sua cama."
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Esta é para quem gosta de música, de cinema ou dos dois. Descobri só hoje (estou sempre meio atrasada!) esta radiocinema.fm, que toca somente trilhas sonoras.
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