agosto 05, 2009
Utopia da eterna juventude
O culto à beleza e à juventude é sem dúvida uma marca do nosso tempo. A corrida em busca da perfeição estética foi bastante acelerada pela tecnologia. E a decadência do corpo é adiada por métodos cada vez mais sofisticados. Parece que desaprendemos como envelhecer. O Café Filosófico CPFL convidou o sociólogo e jornalista Marcelo Coelho para falar sobre o significado de nossa procura incansável pela fonte da eterna juventude. Clicando no título desta postagem vc acessa o vídeo (duração:103 minutos). Muito bom!
agosto 04, 2009
Premio São Paulo de Literatura
Ronaldo Correia de Brito venceu com o livro "Galiléia" a categoria Melhor Livro do Ano, no Premio São Paulo de Literatura. Algumas crônicas dele podem ser lidas aqui no blog. O que disse Paisagens da Crítica em janeiro, a propósito do livro premiado: "Galiléia talvez seja o melhor romance brasileiro de 2008. Certamente é um dos dois ou três que marcaram o ano.
Ronaldo Correia de Brito, médico e cearense que mora no Recife, já mostrara sua prosa reflexiva e cortante nos contos de As noites e os dias, de 1997, e em Faca, de 2003.
Com Galiléia, porém, vai bem mais longe e conta a história de uma família que gira em torno de seu patriarca, Raimundo Caetano. O lugar de encontro é a fazenda Galiléia, no sertão do Ceará, onde Raimundo sempre imperou e, agora, moribundo, vai morrer. Para lá vão netos que migraram para a cidade, lá estão os que permaneceram no campo. Cada membro da família construiu, ao longo do tempo, seu repertório de aflições e a visita à Galiléia provoca o cruzamento terrível das angústias.
Por isso, o livro é uma odisseia em busca do passado e apresenta, de modo proustiano, nossas dúvidas frente ao que nos compôs – lugares, pessoas, gestos e desesperos. A dificuldade de entender os momentos que definiram o que somos, para o bem e para o mal. O tempo – disse Borges, substância formadora dos homens.
A questão – e Adonias, o narrador de Galiléia sabe muito bem – é que o passado não existe em si, nem dispõe de qualquer concretude ou unicidade: “Se fosse possível ter a resposta de todas as perguntas…”, pondera e lamenta Adonias. Mas ele não tem porque o tempo não é sequência, como gostaríamos de acreditar. O passado se faz e refaz a cada instante e suas dimensões, inúmeras, existem simultaneamente. Daí a dor de revisitar a fazenda; daí a dificuldade, vivida também pelos primos Ismael e Davi, de lidar com a imagem que seus itinerários pessoais produziram.
Não se trata mais de averiguar o que é falso e distingui-lo do verdadeiro. Porque a impossível verdade do passado impede qualquer julgamento posterior e assegura a persistência da dor. Irreversivelmente, o tempo resta perdido e nos aflige para sempre. Irreversivelmente.
É o efeito das dobras da memória, de sua impertinência e de sua violência. Mas Correia de Brito não confina seus personagens apenas aos labirintos do passado. Eles se perdem também na geografia do sertão. E Galiléia sonda, assim, o lugar do regionalismo na nova prosa brasileira.
Enquanto seus personagens viajam e cruzam estradas perdidas, o narrador constata saber de cor os nomes das plantas da caatinga, sem ser capaz, porém, de reconhecê-las. O almanaque mental – espécie de catálogo imaginário nos moldes de Funes, o memorioso: denso, complexo e inútil – ilustra a infertilidade do que é deslocado, do que se pretende autônomo e autossuficiente.
Porque o sertão de Galiléia é como o de Euclides da Cunha, de Graciliano Ramos ou de Guimarães Rosa. É como a Amazônia de Milton Hatoum – para ficar num paralelo atual. É a localidade “conversadora do mundo”. A parte que, sem o todo, não é parte. A parte que só existe nos vínculos complexos com o todo, com o que está além de seus limites estritos e restritos. É a aldeia – lembremos Octavio Paz – que permite pleitear a universalidade.
A ubiquidade do sertão, porém, não traz liberdade para seus filhos; o sertão os acompanha quando vão para o Recife, para Nova York ou para a Noruega. Ele se entranha na pele, assim como a infância, com todos os traumas possíveis e a dificuldade de decifrar o que nos formou. Tal qual o tempo, que devia libertar, mas não o faz, a geografia é prisão, é limitação. Não pelo que foi, mas pelo que somos e não conseguimos deixar de ser.
Assim, tempo e espaço de origem rodeiam os egressos da Galiléia e seguem com eles para onde forem. E a narrativa de Correia de Brito nos afoga a cada página, nos transtorna, como um bom romance tem que fazer. Como uma corda na garganta, o mar para quem se afoga"
por Júlio Pimentel Pinto
O gato que gostava de cenouras
"O TELEFONE tocou. Queriam uma entrevista sobre o livrinho "O gato que gostava de cenouras". Não entendi o nome da revista porque estou ficando meio surdo e, por vergonha, não pedi que repetissem. A entrevista começou...
Gato gosta de peixe, de rato e de passarinho. Gato não gosta de cenoura. Numa terra de gatos, um gato que gostasse de cenoura seria uma aberração, uma vergonha para os pais, motivo de chacota e zombaria na escola...
O nome dele era Gulliver; carinhosamente, Gullinho. Seus pais não sabiam do seu gosto pelas cenouras. Comer cenouras era um ato secreto, escondido. Seus pais só se preocupavam com o fato de que ele não comia os deliciosos ratinhos recém-nascidos, os pardais saborosos, os peixes cheirosos que lhe traziam para abrir o apetite.
Gullinho era diferente dos demais gatos. E isso fazia seus pais sofrerem muito porque o que os pais mais desejam é que seus filhos sejam iguais aos outros.
O fato era que os pais de Gullinho ignoravam que ele, escondido, comia a comida proibida, cenoura... A mãe acabou por desconfiar das incursões secretas do Gullinho e disse ao pai que seria melhor segui-lo para ver onde ele estava se metendo. Foi o que o pai "sogateiramente" fez.
Gullinho caminhava com cuidado, olhando para todos os lados para ver se estava sendo seguido. Andou até chegar ao sítio do senhor Joaquim. Havia canteiros com todos os tipos de hortaliça. Gullinho foi até o canteiro de cenouras e -oh! Coisa horrenda para um pai gato- começou a comer cenouras.
O pai do Gullinho quase morreu de susto. Seu filho que ele sonhara tigre não passava de um coelho. E chorou amargamente...
Resolveu procurar auxílio. Procurou um padre que ameaçou Gullinho com o Inferno. "Deus é gato. Deus ordenou que nós comêssemos peixes, ratos e passarinhos.Comer cenoura é pecado mortal!" Mas não adiantou...Gullinho continuou a vomitar peixes, ratos e passarinhos...
Aí eles o levaram ao psicanalista. A análise durou vários anos. Mas o que o doutor Gatan lhe dizia com linguagem complicada não alterava o seu gosto: ele continuava a gostar de cenouras...
Foi então que um professor da escola chamou o Gullinho para uma conversa e lhe disse: "O nosso destino está escrito nas células do nosso corpo num "chip" bem pequeno chamado DNA. Ele já está no feto, determinando a cor do seu pelo, a cor dos seus olhos, se você vai ser menino ou menina, daltônico ou não, canhoto ou destro. Você nada pode fazer para mudar as ordens que estão no seu "chip". E acontece o mesmo com o nosso gosto por ratos ou por cenouras... Não é pecado, como o padre disse, porque foi o DNA que o fez assim... Não é resultado de educação porque foi o DNA que o fez assim... E nem pode ser curado, como se fosse uma doença, porque é o DNA que o fez assim... Igual ao daltonismo".
Gullinho olhou em silêncio para o professor e, pela primeira vez, entendeu tudo. E ele sentiu que um enorme peso fora tirado de cima dele. Entendeu então que ele podia gostar de cenoura porque fora o DNA que o fizera assim -e ninguém tinha nada com isso.
* * * * *
Eu ainda estava na cama quando minha filha me acordou.
"Pai, você apareceu na "G Magazine", a reportagem do gato..."
"Mas o que é "G Magazine'?", perguntei.
Aí eu entendi por que o assunto da entrevista tinha sido "O gato que gostava de cenouras"..."
RUBEM ALVES
Gato gosta de peixe, de rato e de passarinho. Gato não gosta de cenoura. Numa terra de gatos, um gato que gostasse de cenoura seria uma aberração, uma vergonha para os pais, motivo de chacota e zombaria na escola...
O nome dele era Gulliver; carinhosamente, Gullinho. Seus pais não sabiam do seu gosto pelas cenouras. Comer cenouras era um ato secreto, escondido. Seus pais só se preocupavam com o fato de que ele não comia os deliciosos ratinhos recém-nascidos, os pardais saborosos, os peixes cheirosos que lhe traziam para abrir o apetite.
Gullinho era diferente dos demais gatos. E isso fazia seus pais sofrerem muito porque o que os pais mais desejam é que seus filhos sejam iguais aos outros.
O fato era que os pais de Gullinho ignoravam que ele, escondido, comia a comida proibida, cenoura... A mãe acabou por desconfiar das incursões secretas do Gullinho e disse ao pai que seria melhor segui-lo para ver onde ele estava se metendo. Foi o que o pai "sogateiramente" fez.
Gullinho caminhava com cuidado, olhando para todos os lados para ver se estava sendo seguido. Andou até chegar ao sítio do senhor Joaquim. Havia canteiros com todos os tipos de hortaliça. Gullinho foi até o canteiro de cenouras e -oh! Coisa horrenda para um pai gato- começou a comer cenouras.
O pai do Gullinho quase morreu de susto. Seu filho que ele sonhara tigre não passava de um coelho. E chorou amargamente...
Resolveu procurar auxílio. Procurou um padre que ameaçou Gullinho com o Inferno. "Deus é gato. Deus ordenou que nós comêssemos peixes, ratos e passarinhos.Comer cenoura é pecado mortal!" Mas não adiantou...Gullinho continuou a vomitar peixes, ratos e passarinhos...
Aí eles o levaram ao psicanalista. A análise durou vários anos. Mas o que o doutor Gatan lhe dizia com linguagem complicada não alterava o seu gosto: ele continuava a gostar de cenouras...
Foi então que um professor da escola chamou o Gullinho para uma conversa e lhe disse: "O nosso destino está escrito nas células do nosso corpo num "chip" bem pequeno chamado DNA. Ele já está no feto, determinando a cor do seu pelo, a cor dos seus olhos, se você vai ser menino ou menina, daltônico ou não, canhoto ou destro. Você nada pode fazer para mudar as ordens que estão no seu "chip". E acontece o mesmo com o nosso gosto por ratos ou por cenouras... Não é pecado, como o padre disse, porque foi o DNA que o fez assim... Não é resultado de educação porque foi o DNA que o fez assim... E nem pode ser curado, como se fosse uma doença, porque é o DNA que o fez assim... Igual ao daltonismo".
Gullinho olhou em silêncio para o professor e, pela primeira vez, entendeu tudo. E ele sentiu que um enorme peso fora tirado de cima dele. Entendeu então que ele podia gostar de cenoura porque fora o DNA que o fizera assim -e ninguém tinha nada com isso.
* * * * *
Eu ainda estava na cama quando minha filha me acordou.
"Pai, você apareceu na "G Magazine", a reportagem do gato..."
"Mas o que é "G Magazine'?", perguntei.
Aí eu entendi por que o assunto da entrevista tinha sido "O gato que gostava de cenouras"..."
RUBEM ALVES
agosto 03, 2009
Nem as paredes confesso
Lindo fado! Cantado sem drama por Antonio Zambujo que se acompanha ao violão e é acompanhado por um baixo e uma guitarra portuguesa.
Gonzagueando
Não sabia da existência da Orquestra Filarmônica do Ceará. Ontem a conheci num concerto em que prestava homenagem ao Rei do Baião, Luiz Gonzaga, na passagem de 20 anos de sua morte. O concerto Filarmônica Gonzagueando aconteceu no Theatro José de Alencar, tendo no repertório clássicos do forró, xote e baião, sob a regência do maestro Gladson de Carvalho, com participação especial do sanfoneiro paraibano Luizinho Calixto. Como dizem aqui: " Pense num programa bom!"
agosto 02, 2009
Exste uma estética homossexual (?)
A interrogação é minha pois a comparação entre uma série de obras literárias, entre às quais o inédito “O Pombo-Torcaz”, de André Gide, põe em dúvida o argumento.
"Assim como a homossexualidade não existe — o "homossexual" é só um personagem inventado pela psiquiatria do século 19 —, é no mínimo temerário falar de uma estética homossexual. Se existem apenas as relações homoeróticas, e não os personagens imaginários que o senso comum arrola no clichê do "terceiro sexo", preferir as relações com o mesmo sexo não define ninguém. Essa impossibilidade se reafirma na leitura de O Pombo-Torcaz, delicado conto que o francês André Gide escreveu no verão 1907 e que só reapareceu um século depois. No texto, publicado agora no Brasil, Gide conta a noite memorável que passou com um jovem chamado Ferdinand Pouzac, em Bagnols-de-Grenade, perto de Toulouse. O "pombo" do título é Ferdinand, apelidado assim por "arrulhar" quando fazia amor.
Com sua ética protestante e seus conflitos interiores, André Gide (1869-1951) se esforçou para produzir uma explicação "natural" para a homossexualidade, da qual nunca afastou seus ideais religiosos. Em um livro como Corydon (1924), ele apresenta a pederastia (no sentido grego, de amor entre um homem mais velho e um jovem) como um ramo da pedagogia e a homossexualidade como um fenômeno biológico. O esforço para tornar aceitável o amor homossexual levou-o a fundar uma ética naturalista e biológica, que percorre toda a sua escrita. Ética segundo a qual o amor (seja ele qual for) é, antes de tudo, uma manifestação da natureza. Ética que bane de cena o desejo e a subjetividade, e que está presente também no conto que agora se publica.
Menos dogmático que Gide, o furioso Oscar Wilde (1854-1900) lustrou sua vida sexual com o verniz do desafio, do vício e da decadência. Ao mostrar quão efêmera é a beleza, um relato como O Retrato de Dorian Gray reafirma um vínculo entre a homossexualidade e o "estilo" — seja ele nobre ou doentio. O amor homossexual não passaria, nesse caso, de uma afetação, como o esnobismo ou o pedantismo — que estão sempre presentes nos escritos do inglês. Em carta ao amigo Robert Ross, escrita dois anos antes de morrer, ele se arrepende dessa posição. Mas, em vez de avançar rumo à aceitação de si, recua. Escreve: "Eu teria alterado a minha vida se admitisse que o amor uranista era ignóbil". De fato, uma sombra negra percorre toda a obra de Wilde — sinal do vínculo entre a homossexualidade e o vício, que nunca conseguiu desfazer.
Efeitos e estéticas muito diferentes foram obtidos no século 20 pelos autores da literatura beat americana, sobretudo por William Burroughs (1914-1997), autor de Almoço Nu, livro inspirado na temporada de sexo livre que passou em Tânger, no Marrocos. Ao lado de poetas como Allen Ginsberg e Jack Kerouac, Burroughs trata a homossexualidade não como uma questão biológica, tampouco como uma afetação, mas sim como uma perigosa e excitante viagem interior. Politizada pela contracultura, essa viagem se tornou não só marginal, mas contestadora. Por isso, em suas mãos, a estética homossexual assume tons violentos, de grande força política, atitude que o leva para uma espécie de "pansexualismo".
Antes dele, um autor como Marcel Proust (1871-1922) via as práticas homossexuais como uma espécie de maldição. Algo que, de alguma forma, se ligava à asma que, desde cedo, o infernizou. Em uma reversão, Proust fez da homossexualidade uma versão mundana da elevação espiritual, que ele encenou com sua vida reclusa. Repetiu, de certa forma, a herança dos poetas franceses Arthur Rimbaud (1854-1891) e Paul Verlaine (1844-1896), para quem a paixão homossexual que os uniu (e os separou) foi, sempre, um trafegar à beira do abismo; posição que se reflete na poesia que escreveram.
UMA FORMA DE VIOLÊNCIA
No século 20, um autor como o brasileiro Lúcio Cardoso (1913-1968) tratou a homossexualidade como um doloroso atestado de incompreensão. "Médicos, professores do futuro; exponho-me nu aos vossos olhos de certeza", escreveu, sintetizando sua posição de rejeitado. Místico e autodestrutivo, Cardoso via a homossexualidade não como uma realidade biológica, tampouco como uma ética; nem como afetação, ou uma "viagem"; mas como uma forma de violência.
Visão que o aproxima de dois outros artistas do mesmo século, o escritor cubano Reinaldo Arenas (1943-1990) e o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975). Para Arenas, a homossexualidade — vivida sempre às escuras, nos parques, nas vielas — se torna uma bandeira política contra Fidel Castro. Nas mãos de Pasolini, ela se transforma em uma afirmação de desejos arcaicos (e "populares") e de uma verdade que nem sempre é saborosa. Ao morrer assassinado brutalmente em uma praia de Ostia, com o rosto desfigurado e a postura de um santo, Pasolini, de alguma forma, fechou uma estética de revolta e da luta, na qual o homossexual aparece como uma espécie de arauto do futuro.
Hoje, nas telenovelas, a estética homossexual se afasta também da doença (o que é positivo), mas se aproxima do modismo — o que, de fato, corresponde à forte expansão da indústria gay. As narrativas homossexuais ganham no vídeo, assim, um ar um tanto chique — como uma nova grife. Muitas estéticas são construídas em torno das relações homoeróticas; todas tentam enquadrar e disciplinar a esfera do desejo, que, em vez disso, é sempre singular e ingovernável.
Supor que o amor homossexual é sempre o mesmo é tão ingênuo quanto imaginar que as relações heterossexuais, só porque se repetem entre parceiros de sexos opostos, se equivalem. Todos sabemos que, sob a estética oficial do vestido de noiva, do casal perfeito e dos filhos saudáveis, esconde-se uma infinidade de variações do amor. E que é nessas particularidades, nesses desvios do singular, que as relações amorosas são sempre vividas.
Por isso — e o livro de Gide é só mais uma prova dessa impossibilidade — se torna cada vez mais difícil pensar em uma estética homossexual. Os amores, homossexuais ou heterossexuais, não comportam modelos. É na singularidade e na invenção, e não na repetição de fórmulas eróticas e estéticas, que eles revelam sua potência."
José Castello é jornalista e escritor.
"Assim como a homossexualidade não existe — o "homossexual" é só um personagem inventado pela psiquiatria do século 19 —, é no mínimo temerário falar de uma estética homossexual. Se existem apenas as relações homoeróticas, e não os personagens imaginários que o senso comum arrola no clichê do "terceiro sexo", preferir as relações com o mesmo sexo não define ninguém. Essa impossibilidade se reafirma na leitura de O Pombo-Torcaz, delicado conto que o francês André Gide escreveu no verão 1907 e que só reapareceu um século depois. No texto, publicado agora no Brasil, Gide conta a noite memorável que passou com um jovem chamado Ferdinand Pouzac, em Bagnols-de-Grenade, perto de Toulouse. O "pombo" do título é Ferdinand, apelidado assim por "arrulhar" quando fazia amor.
Com sua ética protestante e seus conflitos interiores, André Gide (1869-1951) se esforçou para produzir uma explicação "natural" para a homossexualidade, da qual nunca afastou seus ideais religiosos. Em um livro como Corydon (1924), ele apresenta a pederastia (no sentido grego, de amor entre um homem mais velho e um jovem) como um ramo da pedagogia e a homossexualidade como um fenômeno biológico. O esforço para tornar aceitável o amor homossexual levou-o a fundar uma ética naturalista e biológica, que percorre toda a sua escrita. Ética segundo a qual o amor (seja ele qual for) é, antes de tudo, uma manifestação da natureza. Ética que bane de cena o desejo e a subjetividade, e que está presente também no conto que agora se publica.
Menos dogmático que Gide, o furioso Oscar Wilde (1854-1900) lustrou sua vida sexual com o verniz do desafio, do vício e da decadência. Ao mostrar quão efêmera é a beleza, um relato como O Retrato de Dorian Gray reafirma um vínculo entre a homossexualidade e o "estilo" — seja ele nobre ou doentio. O amor homossexual não passaria, nesse caso, de uma afetação, como o esnobismo ou o pedantismo — que estão sempre presentes nos escritos do inglês. Em carta ao amigo Robert Ross, escrita dois anos antes de morrer, ele se arrepende dessa posição. Mas, em vez de avançar rumo à aceitação de si, recua. Escreve: "Eu teria alterado a minha vida se admitisse que o amor uranista era ignóbil". De fato, uma sombra negra percorre toda a obra de Wilde — sinal do vínculo entre a homossexualidade e o vício, que nunca conseguiu desfazer.
Efeitos e estéticas muito diferentes foram obtidos no século 20 pelos autores da literatura beat americana, sobretudo por William Burroughs (1914-1997), autor de Almoço Nu, livro inspirado na temporada de sexo livre que passou em Tânger, no Marrocos. Ao lado de poetas como Allen Ginsberg e Jack Kerouac, Burroughs trata a homossexualidade não como uma questão biológica, tampouco como uma afetação, mas sim como uma perigosa e excitante viagem interior. Politizada pela contracultura, essa viagem se tornou não só marginal, mas contestadora. Por isso, em suas mãos, a estética homossexual assume tons violentos, de grande força política, atitude que o leva para uma espécie de "pansexualismo".
Antes dele, um autor como Marcel Proust (1871-1922) via as práticas homossexuais como uma espécie de maldição. Algo que, de alguma forma, se ligava à asma que, desde cedo, o infernizou. Em uma reversão, Proust fez da homossexualidade uma versão mundana da elevação espiritual, que ele encenou com sua vida reclusa. Repetiu, de certa forma, a herança dos poetas franceses Arthur Rimbaud (1854-1891) e Paul Verlaine (1844-1896), para quem a paixão homossexual que os uniu (e os separou) foi, sempre, um trafegar à beira do abismo; posição que se reflete na poesia que escreveram.
UMA FORMA DE VIOLÊNCIA
No século 20, um autor como o brasileiro Lúcio Cardoso (1913-1968) tratou a homossexualidade como um doloroso atestado de incompreensão. "Médicos, professores do futuro; exponho-me nu aos vossos olhos de certeza", escreveu, sintetizando sua posição de rejeitado. Místico e autodestrutivo, Cardoso via a homossexualidade não como uma realidade biológica, tampouco como uma ética; nem como afetação, ou uma "viagem"; mas como uma forma de violência.
Visão que o aproxima de dois outros artistas do mesmo século, o escritor cubano Reinaldo Arenas (1943-1990) e o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975). Para Arenas, a homossexualidade — vivida sempre às escuras, nos parques, nas vielas — se torna uma bandeira política contra Fidel Castro. Nas mãos de Pasolini, ela se transforma em uma afirmação de desejos arcaicos (e "populares") e de uma verdade que nem sempre é saborosa. Ao morrer assassinado brutalmente em uma praia de Ostia, com o rosto desfigurado e a postura de um santo, Pasolini, de alguma forma, fechou uma estética de revolta e da luta, na qual o homossexual aparece como uma espécie de arauto do futuro.
Hoje, nas telenovelas, a estética homossexual se afasta também da doença (o que é positivo), mas se aproxima do modismo — o que, de fato, corresponde à forte expansão da indústria gay. As narrativas homossexuais ganham no vídeo, assim, um ar um tanto chique — como uma nova grife. Muitas estéticas são construídas em torno das relações homoeróticas; todas tentam enquadrar e disciplinar a esfera do desejo, que, em vez disso, é sempre singular e ingovernável.
Supor que o amor homossexual é sempre o mesmo é tão ingênuo quanto imaginar que as relações heterossexuais, só porque se repetem entre parceiros de sexos opostos, se equivalem. Todos sabemos que, sob a estética oficial do vestido de noiva, do casal perfeito e dos filhos saudáveis, esconde-se uma infinidade de variações do amor. E que é nessas particularidades, nesses desvios do singular, que as relações amorosas são sempre vividas.
Por isso — e o livro de Gide é só mais uma prova dessa impossibilidade — se torna cada vez mais difícil pensar em uma estética homossexual. Os amores, homossexuais ou heterossexuais, não comportam modelos. É na singularidade e na invenção, e não na repetição de fórmulas eróticas e estéticas, que eles revelam sua potência."
José Castello é jornalista e escritor.
O gênio das cores
"Ele seguia à risca a rotina. Acordava cedo e passava a manhã toda no ateliê. Voltava às telas por mais um tempinho depois do almoço. O fim da tarde era reservado às aulas de violino. No jantar, servia-se sempre do mesmo cardápio: salada, uma sopa de legumes, dois ovos cozidos e uma taça de vinho. Volta e meia, confidenciava que a convivência com os filhos, Marguerite, Jean e Pierre, atrapalhava um pouco seu processo criativo. Precisava de um ambiente tranquilo para desenvolver as peças. Para ele, uma boa obra de arte era aquela capaz de transmitir equilíbrio e serenidade às pessoas. Serviria como uma espécie de refúgio à mente dos observadores. As manias e crenças, por si sós, não surpreendem. Tudo muda, no entanto, quando se avisa que o artista em questão é Henri Matisse (1869-1954).
A princípio, o apego às regras e a busca por um estado de calma não combinam muito com as cores nervosas e as cenas repletas de detalhes associadas imediatamente ao pintor francês. Mas insistir em olhar seu trabalho dessa forma significa manter-se sobre a superfície de uma influência fundamental para a arte do século 20, que se estende até o século 21. Há silêncio por trás das padronagens chamativas de seus quadros. Há, também, muito esforço e menos intuição, ao contrário do que se pode pensar diante de composições tão explosivas. Perceber isso vai ser bem mais fácil a partir do mês que vem, quando a Pinacoteca do Estado de São Paulo apresenta Matisse Hoje, a primeira exposição individual do artista no país."Leia para saber mais na BRAVO! clicando no título
Vanguardas Russas

Uma grande homenagem à arte russa, tanto à pintura quanto ao cinema, acontece na Virada Russa, promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil, entre BSB, Rio e Sampa. É a maior e mais significativa exposição já realizada no Brasil sobre vanguardas russas, abrangendo o período que vai de 1890 a 1930. São 123 obras vindas diretamente do acervo do State Russian Museum, onde se encontra a maior coleção de arte russa do mundo. Dentre os artistas participantes estão Kandinsky, Maliévitch, Chagall, Rodchenko, Tátlin, Goncharova, dentre outros. Como o movimento vanguardista russo não ficou restrito às pinturas, a exposição também terá filmes que vão desde a década de 1920 até os dias atuais, muitos deles ligados intimamente às obras e ainda peças de vestuário criadas por Malevich e roupas desenhadas por Bárbara Stepanova.
agosto 01, 2009
Criado-mudo
Da mesma forma que a nós, aos portugas também acontece de estranhar certas expressões de nossa língua comum. Criado-mudo é uma delas. Me ocorre à lembrança enquanto olho para o meu. Caladinho, ali no canto, enquanto carrega a pilha de livros que não venho conseguindo ler. Mais de tres anos (me espantei quando fiz a conta) sem rotina, fazendo nada, onde me convinha, voltei a ter uma rotina, um trabalho e muito no que pensar e para o que tentar arranjar solução.Agora, me falta tempo...para tudo! Sobretudo para ler. Venho apenas 'beliscando' uns e outros, sem concentração, nem tempo para prosseguir. Me aguardam, além dos que havia despachado pelo correio de Portugal para cá: Deus: um delírio (depois que o Richard Dawkins passou por aqui na Flip, ficou 'na moda' de novo); Jerusalém, cujo autor é um jovem portugues, Gonçalo M Tavares, que o Saramago diz escrever tão bem que “dá vontade de lhe bater”. Deste, não fui além do primeiro capítulo: uma mulher de 35 anos com uma doença terminal, perambulando pelas ruas de madrugada, em busca de uma Igreja aberta e suas experiências estranhas. Mas, se é premiadíssimo, fico pensando se devo procurar gostar... Retomarei noutro momento.
Outro que comecei foi Sagrado, um suspense policial do mesmo autor de Sobre Meninos e Lobos. É daqueles que dá para levar para o salão de beleza sem se sentir armada de intectual, mas de tão óbvio e previsível não se quer prosseguir.
No entanto, prossigo no Trem Noturno para Lisboa. Título que passou a ser uma expressão usada com o siginificado de 'querer mudar o rumo da vida'. E quem nunca pensou nisto ou em fugir para uma pasárgada qualquer? No romance, um culto professor de línguas clássicas, um dia se levanta e sai da sala de aula assustado com a súbita consciência de que o tempo se esvai. “O dia a partir do qual nada mais continuaria como antes na vida de Raimund Gregorius começou como outro dia qualquer...” Deixa sua rotina para trás e pega um trem noturno para Lisboa. Não, não vou contar porque Lisboa. Na bagagem leva apenas um livro, do portugues Amadeu de Prado que caiu em suas mãos por acaso. São reflexões sobre as variadas experiências da vida: solidão, finitude e morte, amor e amizade.
Uma ótima “ viagem”!
Pascal Mercier é o pseudônimo do autor Peter Bieri que é professor de filosofia em Berlim.
julho 30, 2009
TEMPOS
“Eu morro ontem ...
Nasço amanhã.
Ando onde há espaço
— Meu tempo é quando.”
(Vinicius de Moraes, “Poética”)
"Uma amiga tem uma dúzia de relógios. E nenhum tempo.
Seu tempo é nunca, sua pressa, sempre. Ela reclama do tempo todo o tempo. Aprendi que tempo não é questão de relógio, mas de prioridade. Alguém já viu uma pessoa apaixonada não dispor de tempo para encontrar o ser amado? E alguém já não se viu sem tempo para o desagrado ou para o desafeto? O aprendizado do tempo — como o do espaço — vem do começo. O bebê aprende a noção de tempo pela sua necessidade vital: há a hora da fome e a do alimento. O choro é reclamo pelo tempo negado e o que nele no momento certo não veio. Carência do leite e do colo. O feto não tem e nem precisa da noção de tempo. O corte do cordão umbilical marca o início do “sentimento do tempo”. O mais é aprendizado.
Aprende-se, desde cedo, haver tempo para cada coisa. E aprende-se mais, que se há de respeitar o tempo, porque a ele nada se impõe. Respeitar o tempo é respeitar a si mesmo e ao outro.
Aprende-se a conter a fome, quando se sabe que há hora certa da comida.
Mas não se tem noção de tempo quando a fome esbarra na incerteza do que comer. Aprende-se a suportar o sono e a adiar o dormir, a calar o grito porque é momento de ouvir; aprendese que o tempo corre diverso quando é hora de alegria e quando a dor se eterniza. Ainda que os ponteiros apontem minutos iguais.
Diz-se que o tempo mudou. O homem é que mudou. Não vivemos tempo de mudanças, mas mudança de tempos. As máquinas cada vez mais velozes viriam para que cada um tivesse mais tempo para si mesmo e para o outro. No entanto, passa-se mais e mais tempo escravos delas.
Senhoras de mais tempos nossos, as máquinas se multiplicam.
Fico lembrando minha mãe: ela não tinha computador. Mas tinha uma penteadeira.
Os sete filhos não lhe tiravam o tempo preciso de se assentar e se olhar. Via o seu tempo traduzido nas linhas que ela decerto notava brotarem e vicejarem em seu rosto. A banheira devia mostrar-lhe o corpo que mudava até o fim. Ela tinha hora para cada coisa, para cada gesto, para cada pessoa que desenhava a sua paisagem humana.
Não se estranhava, decerto, em cada tempo e em cada mudança em sua vida. Quem não tem tempo para se ver enxerga de verdade o outro? Pergunto-me ciente de ser de uma geração que, em geral, nem ao menos curte o banho; toma uma ducha. E com a água, escorre sem se perceber também a vida e o tempo de prestar atenção no que vai e não volta. Tempos sem tempo. Mal me dou conta de que minha cabeça vai ficando branca, porque o espelho três por quatro enquadra apenas um rosto curvado com o celular num dos ombros, colado ao ouvido, atenta/desatenta ao que escuto e falo: não tenho tempo de me ver por inteiro.
Meu tempo é depois. Mas será que há um depois quando todos os agoras são tão imperceptivelmente vividos nesta eterna falta de tempo? Tempos idos e vividos, diziam os antigos... Não há como lidar com o ido. Por isso é de se pensar em como seguir vivendo nestes nossos apressados tempos. O que viver nem sempre é escolha humana.
Como se vive é opção de cada um. “Encontro você depois, pois estou atrasada” é o nosso até logo. Que nem sempre se faz logo. Às vezes é nunca. O poeta tinha razão: meu tempo é quando... Um quando que, às vezes, não chega."
CÁRMEN LÚCIA ROCHA é ministra do Supremo Tribunal Federal (STF)
Nasço amanhã.
Ando onde há espaço
— Meu tempo é quando.”
(Vinicius de Moraes, “Poética”)
"Uma amiga tem uma dúzia de relógios. E nenhum tempo.
Seu tempo é nunca, sua pressa, sempre. Ela reclama do tempo todo o tempo. Aprendi que tempo não é questão de relógio, mas de prioridade. Alguém já viu uma pessoa apaixonada não dispor de tempo para encontrar o ser amado? E alguém já não se viu sem tempo para o desagrado ou para o desafeto? O aprendizado do tempo — como o do espaço — vem do começo. O bebê aprende a noção de tempo pela sua necessidade vital: há a hora da fome e a do alimento. O choro é reclamo pelo tempo negado e o que nele no momento certo não veio. Carência do leite e do colo. O feto não tem e nem precisa da noção de tempo. O corte do cordão umbilical marca o início do “sentimento do tempo”. O mais é aprendizado.
Aprende-se, desde cedo, haver tempo para cada coisa. E aprende-se mais, que se há de respeitar o tempo, porque a ele nada se impõe. Respeitar o tempo é respeitar a si mesmo e ao outro.
Aprende-se a conter a fome, quando se sabe que há hora certa da comida.
Mas não se tem noção de tempo quando a fome esbarra na incerteza do que comer. Aprende-se a suportar o sono e a adiar o dormir, a calar o grito porque é momento de ouvir; aprendese que o tempo corre diverso quando é hora de alegria e quando a dor se eterniza. Ainda que os ponteiros apontem minutos iguais.
Diz-se que o tempo mudou. O homem é que mudou. Não vivemos tempo de mudanças, mas mudança de tempos. As máquinas cada vez mais velozes viriam para que cada um tivesse mais tempo para si mesmo e para o outro. No entanto, passa-se mais e mais tempo escravos delas.
Senhoras de mais tempos nossos, as máquinas se multiplicam.
Fico lembrando minha mãe: ela não tinha computador. Mas tinha uma penteadeira.
Os sete filhos não lhe tiravam o tempo preciso de se assentar e se olhar. Via o seu tempo traduzido nas linhas que ela decerto notava brotarem e vicejarem em seu rosto. A banheira devia mostrar-lhe o corpo que mudava até o fim. Ela tinha hora para cada coisa, para cada gesto, para cada pessoa que desenhava a sua paisagem humana.
Não se estranhava, decerto, em cada tempo e em cada mudança em sua vida. Quem não tem tempo para se ver enxerga de verdade o outro? Pergunto-me ciente de ser de uma geração que, em geral, nem ao menos curte o banho; toma uma ducha. E com a água, escorre sem se perceber também a vida e o tempo de prestar atenção no que vai e não volta. Tempos sem tempo. Mal me dou conta de que minha cabeça vai ficando branca, porque o espelho três por quatro enquadra apenas um rosto curvado com o celular num dos ombros, colado ao ouvido, atenta/desatenta ao que escuto e falo: não tenho tempo de me ver por inteiro.
Meu tempo é depois. Mas será que há um depois quando todos os agoras são tão imperceptivelmente vividos nesta eterna falta de tempo? Tempos idos e vividos, diziam os antigos... Não há como lidar com o ido. Por isso é de se pensar em como seguir vivendo nestes nossos apressados tempos. O que viver nem sempre é escolha humana.
Como se vive é opção de cada um. “Encontro você depois, pois estou atrasada” é o nosso até logo. Que nem sempre se faz logo. Às vezes é nunca. O poeta tinha razão: meu tempo é quando... Um quando que, às vezes, não chega."
CÁRMEN LÚCIA ROCHA é ministra do Supremo Tribunal Federal (STF)
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