Quando conheço alguém que me parece interessante fico muito curiosa por conhecer a sua casa. Claro que não manifesto. Mas se me é dada a oportunidade, nunca me interesso pelo que querem me mostrar. Coisas como o sofá bacana, a mesa de grife ou a reforma que fez, está fazendo ou sonha fazer. Nada disso me parece interessante tanto quanto o que está nas paredes. Enquanto não tiver nada nas paredes, para mim a casa não diz nada, ainda não tem alma. Daí ter achado bem interessante este texto.
"Jornalistas, como detetives e dramaturgos, tratam o que as pessoas colocam nas paredes -ou em qualquer superfície plana- não como objetos, mas como portas para a personalidade delas. Como diz o ditado, o Diabo está nos detalhes, assim como a delícia. Então, quando entrevisto alguém para um perfil, meus olhos esquadrinham o ambiente atrás de minúcias que rendam um retrato mais claro e colorido do entrevistado. Esses binóculos embutidos não descansam nem mesmo quando o resto de mim tenta relaxar.
Um exemplo foi, muitos anos atrás, quando conheci uma feminista californiana numa festa, dei-lhe uma carona e ela me convidou a entrar. Dentro de sua casa, tirei os sapatos (como pedira) e sentei no sofá em frente a uma grande placa que dizia "Agradeço por não fumar". A mensagem nada sutil me fez imaginar se havia outra placa no banheiro, dizendo "Agradeço por não urinar no chão", e outra no quarto, dizendo "Agradeço por me esperar gozar". Essas imagens, reais e imaginadas, me sugeriram que deveria dar boa noite cedo.
Na sala de uma emergente carioca, uma pintura abstrata -cujas cores e estampas eram idênticas às do sofá em frente- também me deu uma dose cavalar de desconforto, assim como o comentário da dona -de que a encomendara para combinar com o sofá. Um quadro no consultório de um neurologista também me distanciou do dono. O óleo mostrava os Beatles em detalhes ovais, coroando outro detalhe oval com o do médico. Eu me perguntei se o quinto Beatle curaria minha insônia ou a agravaria.
Uma vez, um amigo capixaba me levou para conhecer a mãe, de 83 anos. O salão da mansão tinha paredes nuas, exceto por dois retratos da mãe, feitos 50 anos antes. Eles revelavam uma mulher linda e elegante, disse a ele. "Mamãe adoraria ouvir isso", disse, confirmando o que os quadros haviam me sugerido. Então, numa sala no segundo andar, enquanto sua ainda bela mãe o abraçava, eu disse: "Não me falou que tinha uma irmã mais velha", o que a conquistou de vez.
Uma vez, fui ver um editor da "Newsweek" sobre um emprego. A tendência centrista da revista não combinava comigo, mas era a linha editorial da grande mídia e isso não me impedira de trabalhar como freelancer para eles. Mas, ao entrar na sala dele, dei de cara com uma foto de George H. W. Bush (o primeiro Bush na Casa Branca) e a mulher, com os dizeres: "Feliz Natal, fulano, de George e Barbara". A mensagem da foto -não questione o poder, respeite e mostre deferência- era difícil de ignorar. Primeiro, vinha de um jornalista. Segundo, cobria quase toda a parede. Então, quando fulano me ofereceu um emprego nas Filipinas, recusei. Eu não queria trocar o Rio, onde morava, por Manila e sabia que não tinha futuro na revista. Não estava escrito nas estrelas, mas sim na parede."
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MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 26 anos no Brasil,
Um comentário:
Gostei do texto sobre os quadros nas paredes da casas e o das cadernetinhas de anotações, guardadas.
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