março 28, 2012

Batata Palha

Quem não gosta de batata palha? 
Como se eu também não tivesse meus preconceitos! Ah, se tenho! Macarrão com extrato de tomate. Peixe com queijo, bandeja de bifes, camarão ao molho branco.
O caso do estrogonofe é um dos exemplos mais clássicos. Alguém que se sente um entendido de cozinha, que estudou para isso, comprou livros, não pode pedir um estrogonofe dentro de um grupo sem perder todo o seu status.
Os outros, mais sabidos, pedem pato, javali, cordeiro, e o cara tão sem noção quer estrogonofe. Onde foi que aprendeu isso? Cruzes! E, no entanto, todo o mundo sabe que em casa todas as crianças adoram estrogonofe. Bem, não só as crianças. Uma comidinha tão simples, fácil de comer e de fazer, desce pela garganta com facilidade... E ainda tem a batatinha palha. Quem não adora uma batata palha? O estigma de brega. A lepra de brega.
Em "Wall Street", filme dos anos 80 do qual não me lembro o nome em português, Michael Douglas interpreta Geeko, o yuppie inescrupuloso, e Martin Sheen interpreta o iniciante na Bolsa de Valores. A primeira coisa que Geeko faz é levar o rapaz para comer beef tartare.
Ele primeiro se assusta, cara de nojo, mas se adapta tão bem ao grupo que lá pela metade do filme está fazendo sushi de máquina.
Esse filme é um dos melhores em matéria de cotejar comida com status, comida e o grupo, gosto e status. Tem um livrinho da escritora Lillian Hellman e do namorado, Peter Feibleman, no qual contam histórias sobre suas vidas de cozinheiros. Ele se lembra de que nos Hamptons preparou um arroz com uma flor de tomate por cima. As visitas estavam chegando e Lillian o segurou pela gola e o obrigou a arrancar a flor de cima do arroz, feroz: "Você entende que por causa desse tomate poderemos passar toda a temporada sem sermos convidados para um jantarzinho sequer?".
O caso do ovo. O ovo de baixo cozimento indica que você é um entendido. Ovo com a clara muito frita e gema dura, hum, já não é a mesma coisa. Sobre o ovo feito em baixa temperatura você pode comentar que é coisa antiga, que os japoneses que iam fazer piqueniques numa região de gêiseres mornos levavam ovos crus e os deixavam cozinhando na água morna até o almoço, quando estava bem no ponto.
Já o outro ovo vai fazer lembrar lancheiras escuras com cheiro de couro e os sanduíche de ovo escorrendo gema ou com as claras para fora. Vamos convir que não é o que há de mais sofisticado.
Um dos motivos de abordar esse assunto foi a carta de um leitor que me diz que devo ser uma pessoa "muito macho" por falar na Folha que gosto de "mexidinho"*.
Considero minha vida de bufê justificada por ter conseguido introduzir de volta, nas festas, o pernil de porco. Mas ser agraciada com medalha de honra em campo de batalha por um "mexidinho" feito de restos é demais. Vou rapidamente aprender a desmembrar e reconstituir azeitonas e tomates, sem me esquecer da espuma colorida.
NINA HORTA

Nota: a foto é de um mexidinho de sobras.

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