dezembro 26, 2010

A falta do assobio

Menino besta, sete, oito anos, aprendi a assobiar; única maneira de tentar  imitar os bicos de flauta, que ouvia pelos caminhos do sertão ou na calada da noite, mas também como forma de estar desde cedo ligado a uma de minhas manias, a música; tanto que não demorei a dominar a gaita de boca, balançando numa rede, em dezenas (ou centenas) de horas de lazer infantil. 

Durante todo o processo de afiar o bico, recomendação especial de minha mãe: Ninguém enrola a língua quando está assobiando! O som deve sair solto, não embolado, como uma rumba, ora!!!

Nunca questionei aquelas instruções, mesmo sabendo que a mamãe desconhecia  rudimentos do canto, nunca ouvira falar em pauta, métrica, sustenido ou  semitom, sendo apenas capaz de cantar as músicas prediletas sem desentoar.  Dei-lhe, contudo, um reconhecimento silencioso, no dia em que assisti ao filme Sempre no meu coração, na cena em que o galã, passeando de bicicleta, assobia a música-tema, usando  trinados limps, soltos, sem bailar com a língua.
Durante a maior parte da vida adulta, fiz questão de manter fidelidade a certas molecagens infantis, como atirar pedras em mangueiras  carregadas, colher frutas em terreno alheio e assobiar durante caminhadas solitárias.
No período  de serviço militar, marchava com ânimo redobrado, quando a banda de música atacava  o dobrado do filme A ponte do Rio Kwai, no qual o forte é o assobio da tropa. O filme Meu tio, de Jacques Tati,  foi outra bendita homenagem à instituição do assobio, prontamente imitada  em diversos westerns, especialmente italianos.
O amadurecimento nunca me fez ficar sisudo, circunspecto, de modo a me fazer aposentar o bico. Infortunadamente, porém, foram sequelas da idade que terminaram prejudicando  minha relação de amor com o assobio. Dez ou doze anos atrás, durante um tratamento dentário com uma bela dentista,  fui forçado a receber um pivô em três dentes  na arcada superior, com uma estética de segurança que exigia uma espécie de degrau, de cauda, na parte interna. A partir de então,  aquela ligeira alteração na caixa de emissão dos sons foi suficiente para emudecer meus assobios, que se transformaram em  meros (e horrendos) sopros.
Como vingança inútil e sem graça, costumo dizer que a bela e desumana odontóloga castrou-me o assobiador.
Artunani Martins

Um comentário:

Maria de Fátima Martins disse...

É isso aí Zélia. O homem não assobia mais mas mesmo com "uma certa idade" continua atirando pedra nas mangueiras e tocando "realejo", embora tenha acalmado muito os ânimos musicais.
Esse meu irmão "c'est un personnage hors série".
beijos