agosto 16, 2009

O bálsamo da desilusão

"A desilusão é considerada um mal. Trata-se de um preconceito irrefletido . Como, se não através da desilusão, iríamos descobrir o que esperamos e desejamos? E onde encontrar um momento de autoconhecimento, senão precisamente a partir desta descoberta? Como alguém poderia ter clareza acerca de si próprio sem a desilusão?
Não deveríamos sofrer as desilusões suspirando como algo sem o qual nossa vida seria melhor. Deveríamos procurá-las, persegui-las, colecioná-las. Por que me sinto desiludido com o fato de todos os atores idolatrados da minha juventude agora revelarem os traços da idade e da decadência? O que a desilusão me ensina sobre quão pouco vale o sucesso? Muitos precisam de uma vida inteira para admitir a decepção com seus pais. O que esperamos deles? Pessoas que passam a vida sob o jugo inclemente das dores muitas vezes se decepcionam com o comportamento dos outros, mesmo os que persistem junto deles e lhes ministram os medicamentos . É sempre pouco demais o que fazem e dizem e também pouco o que sentem. “ O que esperam?”, pergunto. Eles não sabem dizer e ficam perturbados com o fato de terem carregado durante vários anos uma expectativa que pode ser frustrada sem que a conheçam de perto.
Alguém que realmente quer conhecer a si mesmo deveria ser um colecionador obcecado e fanático de desilusões, e a procura de experiências decepcionantes deveria ser, para ele, como um vício, na verdade o vício dominante de sua vida, pois então ele compreenderia com toda a clareza , que a desilusão não é um veneno quente e destruidor, e sim um bálsamo refrescante e tranquilizante que nos abre os olhos para os verdadeiros contornos sobre nós mesmos.
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Alguém poderia ter a esperança de, através da redução de expectativa, se tornar mais real e de se reduzir a um núcleo duro e confiável , estando imune contra a dor da desilusão. Mas como seria levar uma vida que se proibe qualquer expectativa ousada e imodesta , uma vida em que somente houvesse expectativas banais , como a espera pelo próximo onibus?"


Do Trem noturno para Lisboa de PASCAL MERCIER

Ziggy

"ATÉ QUANDO , ó Catilina, abusarás da nossa paciência?", indagou Marco Túlio Cícero ao senador Lúcio Sérgio Catilina, a 8 de novembro de 63 a.C., em Roma. Flagrado em atitudes criminosas, Catilina se recusa a renunciar ao mandato.
Cícero, orador emérito, respeitado por sua conduta ética na política e na vida pessoal, pôs em sua boca a indignação popular: "Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disso conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?".
"Ó tempos, ó costumes!", exclamou Cícero, movido por atormentada perplexidade diante da insensibilidade do acusado. "Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite, com suas trevas, pode manter ocultos os teus criminosos conluios; nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração; se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público?"
Jurista, Cícero se esforçou para que Catilina admitisse os seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia".
Se Catilina permanecia no Senado, não era apenas a vontade própria que o sustentava, mas sobretudo a cumplicidade dos que teriam a perder, com a renúncia dele, proveitos políticos. Daí a exclamação de Cícero: "Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?".
Cícero não temia ameaças e expressava o que lhe ditava o decoro: "Já não podes conviver por mais tempo conosco; não o suporto, não o tolero, não o consinto. (...) Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que ignomínia de vida particular não anda ligada à tua reputação? (...) Refiro-me a fatos que dizem respeito não à infâmia pessoal dos teus vícios, não à tua penúria doméstica e à tua má fama, mas sim aos superiores interesses do Estado e à vida e segurança de todos nós".
Os crimes de Catilina escancaravam-se à nação. Seus próprios pares o evitavam, como assinalou Cícero: "E agora, que vida é essa que levas? Desejo neste momento falar-te de modo que se veja que não sou movido pelo rancor, que eu te deveria ter, mas por uma compaixão que tu em nada mereces. Entraste há pouco neste Senado. Quem, dentre esta tão vasta assembleia, dentre todos os teus amigos e parentes, te saudou? Se isso, desde que há memória dos homens, a ninguém aconteceu, ainda esperas que te insultem com palavras quando te encontras esmagado pela pesadíssima condenação do silêncio?".
Catilina fingia não se dar conta da gravidade da situação. Fazia ouvidos moucos, jurava inocência, agarrava-se doentiamente a seu mandato.
"Se os meus escravos me temessem da maneira que todos os teus concidadãos te receiam", bradou Cícero, "eu, por Hércules, sentir-me-ia compelido a deixar a minha casa; e tu, a esta cidade, não pensas que é teu dever abandoná-la? E se eu me visse, ainda que injustamente, tão gravemente suspeito e detestado pelos meus concidadãos, preferiria ficar privado da sua vista a ser alvo do olhar hostil de toda a gente; e tu, apesar de reconheceres, pela consciência que tens dos teus crimes, que é justo e de há muito merecido o ódio que todos nutrem por ti, estás a hesitar em fugir da vista e da presença de todos aqueles a quem tu atinges na alma e no coração?"
Cícero não demonstrava esperança de que seu libelo fosse ouvido: "Mas de que servem as minhas palavras? A ti, como pode alguma coisa fazer-te dobrar? Tu, como poderás algum dia corrigir-te?". E não poupou os políticos que, apesar de tudo, apoiavam Catilina: "Há, todavia, nesta ordem de senadores, alguns que ou não veem aquilo que nos ameaça ou fingem ignorar aquilo que veem".
Acuado, Catilina se refugiou na Etrúria e morreu em 62 a.C. Cícero, afastado do Senado por Júlio César, foi assassinado em 43 a.C. Um século depois, Calígula, desgostoso com o Senado, nomearia senador seu cavalo Incitatus, com direito a 18 assessores, um colar de pedras preciosas, mantas de cor púrpura e uma estátua, em tamanho real, de mármore com pedestal em marfim.
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FREI BETTO

agosto 15, 2009

Por aqui...

Estive lendo “como se escreve” num dos links da minha lista. Não que busque alguma fórmula ou queira aprender o ofício. Não tenho a menor pretensão de 'fisgar' leitores, nem compromissos com 'boas aberturas'. Também não sofro com ' brancos' que são a angústia de quem vive de escrever. Acontece de, às vezes, não ter para quem contar alguma história pessoal. Só isto. Neste post conto duas.
Resolvi fazer uma pequena obra em minha pequena cozinha. De tão pequenas - a obra e a cozinha - acreditava que os inevitáveis aborrecimentos guardassem alguma proporcionalidade com o tamanho delas. Não foi bem assim.
Começou mal desde o primeiro telefonema para a empresa indicada por um amigo arquiteto. Desisti e resolvi adiar. Não estava disposta a me aborrecer. Cedi diante de um pedido de desculpas e o compromisso de que viriam, na data marcada, para conferir as medidas. No mais, foi aprovar o orçamento e aguardar o dia, escolhido por 'eles', para a instalação.
Como não são permitidos barulhos depois do meio dia de sábado, a solução foi marcar para um dia de semana: sexta feira!. Para viabilizar o serviço naquele dia, tive que me desfazer do fogão, esvaziar armários, antecipar a academia, faltar ao trabalho, cancelar almoço, remarcar a diarista e me programar para ficar de plantão em casa. Tudo resolvido, eis que às 9,45 hs recebo telefonema avisando que só seria possível o início do trabalho depois do meio dia. Não seria concluído na sexta, o sábado é dia santo, depois é domingo e eu que ficasse com tudo pelo meio da casa. É como as coisas funcionam...Sem o menor respeito!
Outra experiência, esta meio chocante para quem esteve algum tempo fora e esqueceu de como intimidade e privacidade aqui são conceitos um tanto flexíveis, me aconteceu faz alguns dias. Embarco no 19° andar. No elevador que vinha descendo, o meu ' bom dia' foi respondido com um comentário (elogioso) para o meu vestido, seguido da imediata recomendação de que ele ficaria melhor se usado com uma legging. Ainda estava sob o impacto do que ouvia, quando a porta se abre e entra outra mulher que pegando o final da conversa, sem ser solicitada, se manifesta concordando quanto ao uso do legging sob o meu vestido. “Estaria muito curto?” consegui perguntar. “Não apenas fica melhor e deve ser branca...” acrescentou. (O vestido tem o fundo branco e estampas monocromáticas, em roxo). Quando dei por mim, estava me justificando constrangida: “sou muito pequena para usar estas coisas....” Abre-se novamente a porta. Desta vez era um rapaz que, felizmente, não entrou na conversa. O alívio durou pouco. Em seguida, nem sei a que alturas, entra um casal. Os homens começaram uma conversa em que falavam muito mal da síndica....Mas a mulher foi convidada a opinar. Volto a ser o alvo da observação e dos comentários unânimes quanto ao uso de uma legging.
Finalmente o elevador para e todos saem. A última delas a sair ainda olhou para trás com um ar interrogativo. A porta do elevador se fechou e ele começou a subir. Foi quando me dei conta de que tínhamos estado no subsolo (garagem) e eu, de tão perplexa, não tinha saído do elevador que agora subia direto ao vigésimo. Estaria exposta ao assédio de uma nova 'leva'. Me encolhi no canto, tentando me esconder atrás da bolsa para que ninguém percebesse que faltava uma legging branca sob o meu vestido.
É assim por aqui...

Shelter



Shelter (abrigo, proteção) chegou aqui com um título bobo e sem sentido: De repente Califórnia. É um filme romântico, com final feliz, lindas cenas de surf e uma ótima trilha sonora, que trata de amizade, respeito e compreensão. De tão açucarado, tinha tudo para passar na sessão da tarde, não fosse o detalhe de ser a bonita relação de amor entre dois rapazes. Um filme para ser visto sobretudo pelos homofóbicos para quem os problemas das pessoas são necessariamente decorrentes de com quem se deitam. Na sessão que fui era a única mulher. Alguém explica? ou seria coincidência?

A natureza e as cidades

"Às vezes, vivemos situações que atuam em nós por muito tempo. As emoções e sensações que ali experimentamos, as compreensões que tivemos reverberam e modificam alguma coisa em nós.
Há alguns anos, em Fernando de Noronha, fiz um passeio de barco. Com o balanço e o som das águas me embalando, entretive-me contemplando a paisagem, os golfinhos que nos acompanhavam e... milagre.
Senti minha mente se aquietar. Nunca mais esqueci o que é ter o pensamento silenciado.
Recentemente, outra experiência decisiva. Também junto ao mar, num lugar de natureza exuberante: o Rio de Janeiro.
Em dois dias, caminhei pela praia, percorri a cidade de carro, fui ao teatro e a livrarias, vi amigos. Também faço isso aqui, mas, lá, sempre encontrava um ponto de onde espiar alguma beleza estonteante.
Quando a gente está envolvida pela beleza, parece que tudo está bem. Até me esqueci do problema da criminalidade.
A beleza, o mar, a natureza dão calma. Tive a sensação de voltar à São Paulo dos anos 60 e 70, quando minha cidade, que amo tanto, ainda era tranquila.
A filha de uma amiga, quando veio de Maceió para estudar, disse-me que era difícil se locomover aqui porque São Paulo não tinha frente. Uma cidade que tem mar tem frente.
No Rio é assim. Entre o mar e as montanhas, a cidade tem frente e fundos. Ela nos oferece referências, não ficamos perdidos. Outra razão para aquela calma que senti, justo eu que me desoriento no meu bairro.
O que mais ficou ecoando em mim, no entanto, foi aquela beleza natural exuberante me perseguindo. As construções não conseguiram escondê-la.
As cidades têm a tendência de esconder o mundo natural sob os seus artefatos. Soterramos e encobrimos rios com avenidas, o asfalto dissimula a terra, os edifícios vedam o sol e as prováveis montanhas ao longe... Quando a construção das cidades toma conta de todo o ambiente, os artefatos artificializam o mundo.
A questão é que a natureza é um colo de mãe inesgotável.
Apenas ela é capaz de nos oferecer o sentimento de enraizamento necessário à vida.
O artefato é a demonstração do poder do homem de refazer um mundo à sua imagem e semelhança. Todavia, pontes, casas, indústrias, computadores, móveis e automóveis, tudo se desgasta, quebra, é substituído.
Todo artefato se desfaz. No meio de tal mutação, sentimo-nos também de passagem, sem vínculos e compromissos. Quase apátridas. Vivendo apenas em um mundo artificial, que camufla a natureza, ficamos esquecidos da perenidade desse solo original.
Saber que o mundo já estava aí antes de nós e que permanecerá aí quando partirmos empresta à vida o sentimento de duração e de segurança. Sem ele, a existência jamais consegue avançar nem se simplificar.
Mas, na presença do mundo natural, lembramos que nascemos e morremos. E nos lembramos de nos perguntarmos: o que, de fato, queremos e precisamos, enquanto vivemos?
"
DULCE CRITELLI , terapeuta existencial

agosto 13, 2009

Imitar e mostrar as pombas

"RECENTEMENTE, VISITEI o Castello de Rivoli, perto de Torino. É uma antiga residência régia, transformada (admiravelmente) em museu de arte contemporânea.
Gostei da exposição temporária do momento (Thomas Ruff, o artista-fotógrafo), mas me decepcionei com a coleção permanente (o que estava à mostra era, sobretudo, "arte povera", um movimento italiano, forte nos anos 70, que compõe obras com restos e materiais humildes, achando e declarando que, com isso, ele criticaria, sei lá, o capitalismo).
Manifestei minha decepção: não acho graça em obras que só nos proporcionam algum tipo de experiência à condição de sermos "instruídos" pelo discurso programático que as acompanha. Uma parte da arte contemporânea, aliás, parece existir para garantir a plena ocupação dos críticos, pois, sem seus comentários, as obras nos diriam pouco ou nada.
A amiga que me acompanhava desdenha de minhas preferências estéticas (mas tranquilize-se: não é verdade que eu goste só de arte figurativa). Na ocasião, ela me administrou um chavão: a arte contemporânea não imita a natureza, ela se preocupa em questionar o próprio ato de criar, como um prestidigitador que tivesse a gentileza de mostrar as pombas na manga de seu casaco em vez de nos iludir com seu truque. Além disso, a arte contemporânea pede que o artista prefira expressar sua "subjetividade" a "imitar" o mundo.
Pois é, mas parece que perdemos a capacidade de enxergar, na arte realista em geral, os mil jeitos pelos quais o artista (clássico, acadêmico ou moderno) SEMPRE expressou sua subjetividade e SEMPRE questionou a tradição e os meios de sua arte.
A novidade é que, frequentemente, a arte contemporânea é devorada por uma paixão pedagógica, uma vontade de explicitar. Por exemplo, o olhar de "Olympia" de Manet, desafiador, direto para nossos olhos, é suficiente para evocar a complexidade da relação entre o pintor e seu modelo. Mesmo assim, poucas décadas mais tarde, Cézanne pintou "Une Moderne Olympia", em que o pintor está incluído no quadro, de costas, sentado diante de seu cavalete. Ou seja, para que os modernos se lembrem de que, em cada quadro, trata-se não só do objeto retratado mas também do ato de pintar, ele sentiu a necessidade de explicitar.
Provavelmente, uma "Olympia" contemporânea seria: nenhum quadro, apenas um cavalete no meio de uma sala. Com essa explicitação, ganhamos algum entendimento? Talvez. Mas a que preço?
Na base da vocação pedagógica da arte contemporânea há uma concepção simplista da "reles" imitação. Três casos, para refletir.
1) Na mesma viagem em que visitei Rivoli, passei por Arles, no sul da França, e revi o Hôtel-Dieu, onde, no fim de 1888, cuidaram de Van Gogh, que acabara de cortar sua famosa orelha. No ano seguinte, os cidadãos de Arles, com um abaixo assinado, pediram que o pintor fosse internado de vez, e Van Gogh viveu num asilo o pouco que sobrava de seus dias.
Num dos quadros que Van Gogh pintou em Arles, ele representou o pátio florido do Hôtel-Dieu. Bom, já faz décadas que a municipalidade de Arles instrui seus paisagistas para que cultivem e podem de forma que o pátio do Hôtel-Dieu se pareça com o quadro de Van Gogh.
2) Oscar Wilde disse um dia que, antes de William Turner (o pintor romântico inglês), o crepúsculo não existia. É um paradoxo, mas nem tanto: é desde Turner que a gente começou a espreitar o pôr do sol como se fosse uma espécie de obra de arte da natureza.
3) Depois da Segunda Guerra Mundial, Varsóvia e Dresden eram um amontoado de escombros. Para reconstruí-las, as municipalidades confiaram nas obras de Bernardo Bellotto, um pintor do século 18 que pintara, justamente, paisagens urbanas de Dresden e Varsóvia. Ora, Bellotto alterava alegremente a disposição e a forma dos edifícios, caso isso melhorasse a composição de seus quadros.
Nos três casos, uma mesma pergunta: quem "imita" quem ou o quê?
Duas sugestões.
"Exactitude", de J.R. Taylor (Thames & Hudson) é uma esplêndida monografia sobre o grupo Exactitude e seu realismo fotográfico (a história de Bellotto, aliás, aprendi na introdução de Taylor).
Acaba de sair "San Paolo" (PubliFolha), que reúne os desenhos paulistanos de Vincenzo Scarpellini, de 2000 a 2006: é um bom jeito para constatar que, em arte, "imitar" significa, de fato, enxergar, revelar e sonhar.
"
CONTARDO CALLIGARIS

agosto 10, 2009

Carrascos sutis

"TENHO LIDO Philip Roth, graças a dois amigos, um de mais de 50 anos, comunista, outro de menos de 30, conservador. O primeiro sempre tentou me convencer de que seria essencial lê-lo -não sou fácil de ser convencido porque sou uma criatura de hábitos e por isso tendo a inércia, o que pode ser uma reação espontânea ao fato de eu desde criança achar o mundo um lugar hostil-, o segundo me presenteou com dois livros de Roth que foram os primeiros que li.
Roth escreve como homem. Hoje "escrever como homem" é raro, porque homens estão fora de moda (sim cara leitora, eu sei que você sofre calada com isso à noite, sozinha na cama). Sua letra, repleta de gosto pelo pecado, passeia como mãos por baixo da saia das mulheres, sem querer dar uma de sensível -como vemos no "Homem Comum". Um erro crasso da mulher é confundir esta insensibilidade com falta de vínculo afetivo por parte do homem. Ler Roth para as mulheres é uma chance de vasculhar a sensibilidade dura de um homem que as adora.
Em "O Fantasma Sai de Cena", Roth revela as dores do seu personagem Nathan Zuckerman definhando diante da velhice (a potência no homem é mais do que simples ereção mecânica e, ao mesmo tempo, é uma simples e miserável experiência mecânica).
Após narrar o horror da incontinência urinária em um homem que até ontem devorava mulheres 30 anos mais jovens, Roth salta para uma espécie de poesia rude do mundo na qual homens e mulheres sempre voltam à fúria dos elementos inorgânicos e, aí, descansam.
Em "A Marca Humana", ele fala das alegrias diante da maior invenção da humanidade depois do computador, o Viagra -que aliás, fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo.
O personagem principal será acusado injustamente de racista por alguns alunos negros vagabundos (junto de seus professores oportunistas), que se aproveitam da canalhice do politicamente correto para destruir uma vida dedicada à universidade e ao conhecimento. Mas um segredo terrível revelará o ridículo e o trágico dessa acusação (não vou contar, é claro).
A heroína feminina desse romance é descrita por Roth como aquele tipo de pessoa cujo olhar carrega o tédio que só a monotonia da infelicidade repetida mil vezes pode causar. O livro narra o amor improvável, graças ao Viagra, entre um homem de mais de 70 anos e uma infeliz de menos de 40.
No "Animal Agonizante", Roth afirma que o maior ganho para o homem, na emancipação feminina, foi poder se libertar do eterno jogo da mulher frágil. Mas esta libertação, como toda libertação, pode ser fatal: pode deixar o homem só. A dependência da mulher é uma das coisas que mais dá tesão aos homens. E aí reside o perigo: elas sabem disso.
Ela sempre foi dependente (e não só financeiramente) e, portanto, uma escrava, sem grandes papeis além de filha, esposa, mãe, amante (ou seja, o tal segundo sexo). O problema é que esse quadro não tinha só uma escrava, tinha outro escravo. Nos termos de Roth, "os melhores entre nós, homens", aqueles que se sentiam culpados quando não mais queriam estar com suas mulheres, mas ainda assim permaneciam, porque elas eram de fato dependentes deles. Para os cruéis, isso nunca foi problema.
Com a emancipação feminina, o jogo se desmancha, e "os melhores entre nós" podem respirar e dizer "não quero mais você e não sou responsável por você nem pela sua vida, porque você é hoje independente". A emancipação feminina nos libertou a todos, pelo menos aos dois tipos de escravos: a mulher trancada entre a cozinha e o tanque e o homem asfixiado entre o escritório (porque deve sustentar a falsa fragilidade e incapacidade feminina) e uma cama habitada por uma mulher sem desejo.
"Indignação" (uma espécie de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" a la Roth) traz o terrível tema da paranoia como consciência aguda da fragilidade da vida.
Um pai açougueiro que intui desgraçadamente a autodestruição do filho de 19 anos através de seus micro-atos diários: uma irritação besta aqui, um exagero ali, um palavrão acolá. Nada mais aterrorizador do que o pior paranoico (seu pai) ter razão sobre seu destino trágico. O que a fuga de um filho do controle do pai (algo esperado) seguido por um simples sexo oral praticado em você por uma gostosa colega de faculdade no escuro de um carro parado na estrada (sonho de todo homem) podem fazer para te matar? Enfim, os detalhes e o acaso podem ser carrascos sutis."

LUIZ FELIPE PONDÉ