agosto 09, 2009

Sem praia... e de blog novo

Depois que minhas semanas voltaram a ter só um domingo, este passou a ser o dia em que fico comigo e aproveito para me proporcionar os mimos e gostinhos impossíveis de serem desfrutados na correria dos dias 'úteis '(?). Não caberia aqui descrevê-los e quem lesse ia considerar trivial demais. Então me reservo. Uma coisa é certa, tenho dispensado a praia e os seus congestionamentos de carros e de gente. Muita gente. Todos sedentos, ávidos, excitados e barulhentos. A música, às vezes de gosto discutível, em alguns lugares 'ao vivo', está, em qualquer caso, num volume acima do que seria desejável. Não se ouve o quebrar das ondas, as caixas de som 'brotam' dos coqueiros. Mal se pode caminhar entre as mesas. Sim, porque aqui “ir à praia” tem quase nada a ver com mar, areia, caminhada, banho ou mergulho. Significa ir para um grande bar/restaurante, ao ar livre, chamado 'barraca' (todas tem um nome) . Cada ' tribo' tem a sua e é muito importante ser reconhecido pelo 'garçom', pois se vai à praia para beber, nem que seja água de coco. De preferência, beber muito. Mais tarde, 'atacar' bacias (literalmente) de caranguejos lindos, enormes e deliciosos num 'ritual' meio primitivo. Depois de colocados vivos na panela, de onde tentam escapar à medida que a água vai começando a ferver, são servidos inteiros, mergulhados num molho que parece trazer lembranças do mangue...Para quebrá-los ( parti-los) se usa, à guisa de talher, pedaços de madeira que parecem ter conhecido melhores dias, como cabo de vassoura... Para comer caranguejo, tem que saber chupar. Do contrário não se aproveita o que vem depois. Nada de se recusar com a desculpa de serem cabeludos ou outros pruridos. Bobagem! O melhor é cair de boca mesmo. Depois é preciso aprender (com um nativo, claro!) a separar o intestino do resto, com o que se prepara, ali mesmo, uma farofa dentro da própria casca.Ótima com uma pimentinha! Como não poderia deixar de ser, faz a maior sujeira e meladeira. Mas tem chuveiro de água doce à disposição, que também serve para aliviar o calor. O banho é no meio do povo. No início parece estranho, logo se percebe que ninguém 'tá nem aí' e tem uma fila que não pode esperar que se supere eventual constrangimento. Se não se permitir tamanhos prazeres, pode pedir umas 'casquinhas' e comer de colher. Mas asseguro, não será a mesma coisa...Isto que aqui é uma 'instituição'intocável, não se repete pelo litoral do nordeste. Ia esquecendo de mencionar que, na praia, se vende “de um tudo”. De CD/DVD à roupa, cosméticos, bijoux, passando por sanduiches, frutas, castanhas, óculos, brinquedos e artesanatos, sandálias e bolsas, redes e toalhas, rendas e bordados. O assédio é constante. Para sobreviver, a “técnica” é se fazer de cega e surda, pois se o seu olhar trair algum interesse ou curiosidade o melhor é ir embora. Eles não irão e outros mais passarão a te importunar. Ao fim de um domingo, cheguei a conclusão de que só não ofereceram à venda casas e carros. Não duvido de que a qualquer momento comece a acontecer. Afinal além da vocação mercantilista que demonstram, - há quem arrisque afirmar que o 'embrião' do fenômeno 25 de março em Sampa está aqui, no chamado “beco da poeira”,- são muito criativos. Misturam-se aos vendedores os que pedem esmolas e como ninguém se perde por falta de talento, ainda se pode ser mote para uma cantoria da qual ninguém se livra nem pagando. Para não falar dos que 'pastoram' o carro...Uff!
Alguns irão concordar comigo, não se consegue repetir esta orgia toda semana. Mas outros dirão que não podem passar sem...Eu passo!
Neste domingo, fiz uma 'descoberta' (já disse que estou sempre meio atrasada): O blog da MARCIA TIBURI. Coloquei-o na minha lista de links: GNT PINKPUNK (lá embaixo) mas poder ser acessado clicando no título desta postagem. Concordando ou não com ela, que tem suas idéias conhecidas pela participação no programa Saia Justa , vamos ter que reconhecer: o blog é ótimo!

6 comentários:

Edson Freitas disse...

Zelinha, retratastes com absoluta fidelidade o tormento que é ir à praia nessa cidade destratada. É, literalmente, um lazer primitivista.

O que fazer??! As pessoas não vão mudar, os hábitos não se corrigirão com o passar do tempo. E o mar, o inocente útil, sofrerá eternamente as agruras da poluição e da indiferença, sem ter a quem reclamar.

E nós, os que dele precisamos para subtrair energias e sensações de bem-estar físico e mental, nos privamos de tê-lo por companhia. Nos resta a solidariedade de um texto entre amargo e impotente, mas rico em imagens e ritmo.

Belo, belíssimo!!! O teu texto, digo.

Raios triplos.

Parabéns, Zelinha, textos assim devem se repetir mais vezes. Vou em busca da recomendação do blog por ti mencionado.

1 Abraço!

Edson

Edson Freitas disse...

Ah, contando com a tua indispensável conivência, vou reproduzi-la (a ida à praia) no PQN.

Com o perdão do abuso.

Edson

hugo medina disse...

Eu hem? Tô te estranhando descrever o nosso ritual dominical com tanto desgosto. So por causa de um pobre de um carangueijo que entra vivo na panela fervente? Pois eu gosto é dessa zorra. Aliás, nem noto. Quero mesmo é ficar com os amigos e nem vejo o auê que nos circunda. Eu senti mesmo sua falta nessas praias da vida. Nada nao, quando quiser ir para uma paradisíaca eu te levo. Vai ouvir o marulho do mar e sentir o cheiro da maresia e pegar bicho de pé. E, o que é pior, vai preferir a praia nossa de cada dia. bjim.

JULIO CELESTINO disse...

Esqueceste dos queijim assado, oferecido a cada qual, a um quem seja no entorno, àquela multidão vociferante! A praia, e se pode generalizar sem equívoco, do Futuro, Barra do Ceará, Icaraí, Taíba etc., é comparável à primeira parte da Divina Comédia - Dante que me perdoe - só que menos legal, uma vez que já se sabe antecipadamente o que vai acontecer.
Ir a praia, sim. Para tanto, lá aparecer com o sol e ir-se embora rapidim.

Sebastião disse...

Engraçado, tem coisas na vida que quando se vive parece que se viveu pra vida toda e basta assim. Passo meses sem ir à praia, não vou sentindo falta, pq muito do que vc descreveu talvez inconscientemente me afaste dela. Mas a Praia não sai de mim, já tenho muito dela guardado em mim, pois não há como esquecer o Icaraí antigo, lindo, quase deserto, quando menino; Ou os corpos, sol, calor e mar profundo da antiga e deliciosa praia do Ideal, quando rapaz. Agora, retratando fielmente um atual domingo de praia, como vc o fez, não dá pra perder o que de sociológico há nesse fenômeno. Afinal, o que existe de índio em mim pede carangueijo, a música da multidão pode ser escutada, e o sol, ah, esse sempre vai ser o sol, até mais quente (aquecimento global), mas sempre o sol. Sem esquecer do mar que é lindo. Vamos encarar num domingo destes qualquer? Bjão.

Anônimo disse...

Que tal um cartazinho caprichado, espetado na areia, pra espantar vendedores:

Sou surda-muda e nao quero comprar nada!
AH AH AH!
Bia