maio 10, 2009

Frasco de perfume de outros tempos

“Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.” A frase é do sobrinho Tancredi Falconeri ao tio, o principe Fabrizo Salina — ambos personagens do magnifico romance O Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, duque de Parma. Ninguém enunciou o postulado de forma tão encantadora e impenetrável quanto o ator francês Alain Delon na obra-prima cinematográfica de Luchino Visconti, a história dos tormentos de um príncipe da nobreza siciliana durante a tomada do poder pelos revolucionários do Risorgimento na Sicília.
A colônia masculina Eau Sauvage, da Dior, continua igual desde que foi criada pelo perfumista Edmond Roudnistka em 1966. Naquele ano, Alain Delon tinha 31 anos, era considerado o James Dean francês, bonito (beau gosse) como Brigitte Bardot de calças. Desde então, a aparência do ator de 74 anos — quando refere-se a ele mesmo faz como o mito vivo Pelé, na terceira pessoa — mudou muito.
Para que tudo continue como está, ou seja, o clássico Eau Sauvage, mudou o rosto do seu garoto propaganda. Doravante ele é Alain Delon. Mas com uma fotografia do ator feita por Jean-François Périer no balneário de Saint Tropez… em 1966. Algumas mudanças foram feitas na imagem original para adaptar aos novos tempos. Ela perdeu a cor. Virou preto e branco para dar uma ar de nostalgia. O cigarro entre os dedos do galã desapareceu.
A Dior explica a escolha da imagem de Delon para vender o perfume, usado também pelo pai deste blogueiro, que se lembra da fragrância como uma espécie de madalene de Proust: “A imagem não envelheceu, vai nos permitir atrair tanto homens que lembram do Delon na época quanto aos consumidores jovens, seduzidos pelo ar rebelde e irreverente.” Na França, há boa chance de funcionar e além das suas fronteiras? Você sabe quem é o Delon, meu jovem leitor? Se não é o caso, veja O Samurai para começar.
A jogada marqueteira da Dior é alvissareira para ícones destronados pela ação do tempo e chegada de novas beldades. O baú pode conter prosperidade. Condição: não seguir uma moda atual, o puro deleite visual sem nenhum significado além da forma. Delon era bonito, mas tinha conteúdo, mesmo. Hoje, ele equivale a um frasco de perfume de outros tempos."

Do Blog do Antonio Ribeiro, de Paris

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