Sair do seu ambiente, que é um quarto, um bairro, um país, é sempre desestabilizador. Se me disseram que meu bairro em Porto Alegre tem uma maior incidência de crimes que tal outro, dificilmente vou conseguir mudar minha atitude de andar mais tranquila no meu bairro, e mais alerta naqueles com os quais não sou familiar. O hábito dá uma (falsa) ideia de segurança, e portanto mais seguro é aquele que eu conheço, e pronto. É muito mais subjetivo do que lógico.
Quando se muda de país, busca-se estabelecer logo uma relação com o lugar, que nada mais é do que uma relação de domínio: conhecer e entender para sentir-se segura e, mais do que isso, integrada. Há uma pressa então em se compreender o que está em volta, que obviamente nunca pode ser decodificado de uma forma tão rápida e simples. E o pior, erro frequente que eu mesmo cometo às vezes, é tentar "ler" um país pela lógica que se aplica a outro. Não dá. Um piso improvisado num prédio de classe média parisiense vai além da negligência ou descaso, como podemos de cara pensar. Séculos de história explicam essas coisinhas triviais, e mesmo os hábitos para os quais torcemos o nariz, como "francês não toma banho" fazem parte de uma cadeia da qual muitas vezes insistimos em ver só a ponta. Essa gente teve IDADE MÉDIA! Tal é a frase que às vezes me arremata, e que explica muitas coisas que se vê por aqui, para o bem ou para o mal.
Desconfio que essa ansiedade em entender onde diabos estamos agora, e como diabos essas pessoas são e como essas pessoas agem e o que pensam elas, pode descambar para as piores generalizações. Afinal, colar etiquetas é sempre mais fácil que parar para pensar: digo é assim, colo em cima aquela verdade definitiva, e passo para o próximo assunto. De forma que, se o vizinho está escutando Macarena com o volume alto, minha verdade definitiva é:
Vizinho ouvindo Macarena = todo francês é mal-educado
Então a máxima preconceituosa dá um alívio imediato de "uau, entendi como é", de modo que toda vez que um francês for grosseiro, minha verdade será alimentada. Quando um francês for simpático, simplesmente ignoro o fato, considerando isso como uma exceção. Ah, e nunca leva-se em conta o número de "exceções". Até porque não há a possibilidade de, uma vez posta, descolar-se a etiqueta.
O curioso é que as pessoas que cometem generalizações desse tipo sempre se mostram ofendidas quando o movimento contrário (alguém fazendo generalizações sobre brasileiros) acontece:
Brasileira fazendo ponto no Bois de Boulogne = toda brasileira é puta
Nossa, isso os deixa loucos. Querem mostrar, de todo jeito, que é uma visão preconceituosa e absurda (e é, mas isso é outra questão). Em outras palavras, exigem que um europeu-médio compreenda o Brasil em todas as suas nuances, que nem nós compreendemos muito bem, aliás. Bem, se esse brasileiro, que está aqui, tem todas as generalizações sobre franceses na ponta da língua, ele que não exija de um francês, que conhece o Brasil só por uma cena de carnaval transmitida por algum jornal televisivo, algum tipo de grande tratado sociológico.
Mas há ainda outra coisa mais perigosa, que ilustro com o exemplo a seguir: a última vez que estive com quatro brasileiros no mesmo ambiente (faz tempo), tão logo pararam de se queixar da maneira estereotipada pela qual eram vistos pelo europeus, engataram, uma atrás da outra, histórias preconceituosas sobre árabes ("árabes são grosseiros, são sexistas, árabes são o problema da França"). Claro. Tenta-se escalar a pirâmide pisando no que está mais embaixo, socialmente falando. Uma atitude desprezível.
Por isso eu recomendo: perca tempo tentando entender as coisas que, sim, muitas vezes são contraditórias e que sim, muitas vezes jamais compreenderemos. É verdade que nunca vamos escapar de uma generalização ou outra, é humano, mas não custa observar um pouco mais antes de sair gritando despropósitos.
Do blog Paris 75004, da jovem jornalista Carol Bensimon (75004 é o cod.postal de seu endereço), de onde narra suas aventuras cotidianas. Dá para ler mais clicando o título desta postagem.
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