fevereiro 02, 2008

A amadora arte de viajar


Consta que o termo “turismo” se popularizou a partir das viagens do poeta inglês lorde Byron há quase 200 anos, quando ele era um jovem parlamentar, estava enjoado de Londres e decidiu fazer “tours” pelo Velho Continente. Foi para Portugal, Espanha, Malta, se apaixonou por mulheres e homens, seguiu para Grécia e Albânia; decidiu passar mais tempo na Grécia e conheceu a Turquia também. Nesse período, de 1808 a 1811, escreveu poemas como Childe Harold que definiram o movimento romântico, por seu misto de melancolia e ilusão, por sua crítica aos desdobramentos da civilização e sua entrega à sensualidade e tolerância que via no Mediterrâneo.

Tudo que fez depois foi marcado por essa peregrinação solar. Ele ainda casaria duas vezes, se envolveria com Shelley, moraria um tempo em Veneza. Mas sua busca era por aquela sensação de idílio juvenil que jamais seria recuperada, mesmo no período em que, morando na Toscana, embebido em sua vida italiana, escreveu Don Juan. Tanto que, mais tarde, de volta a Londres, decidiu defender a causa grega contra os turcos e foi participar da invasão da fortaleza de Lepanto, onde se feriu gravemente. Bonito e epiléptico, acabou morrendo na Grécia, como herói nacional, com apenas 36 anos. Os turistas não sabem, mas a sombra de Byron paira acima de todos os 840 milhões de deslocamentos feitos a cada ano – um número que não pára de crescer.

“Turismo é coisa de gentinha”, escreveu Millôr Fernandes, provavelmente depois de se deparar com uma dessas hordas de americanos ou japoneses ou brasileiros com máquinas fotográficas, sacolas e um permanente olhar de espanto, como que surpreendidos e ameaçados pela variedade e complexidade do mundo. Mas o problema não é só esse turismo fast-food, essas viagens e excursões que parecem feitas para dizer que foram feitas – para contar aos íntimos, na volta, que você andou de gôndola ou subiu na Estátua da Liberdade, mesmo que tenha ficado meros dois dias em Veneza e confundido Nova York com Miami. Por trás de tudo isso há o espectro do romantismo, a idéia de que estar nesses lugares fará de você outra pessoa, a expectativa de que mudanças se dão magicamente como Byron em seu “santuário”.

Por mais que queiram escapar ao lar, resta uma vontade de voltar rápido a ele, por isso o turista parece sempre tenso e ansioso. É como se toda rotina precisasse dessas fugas e refúgios para depois se fortalecer ainda mais. Nesse jogo de compensação, quem fica de fora é exatamente o conhecimento, a imersão mais lenta porém mais duradoura num ambiente estranho que, muitas vezes, pode até parecer estranhamente familiar. Acho curioso que as pessoas viajem para os lugares com nada além de algumas informações genéricas ou utilitárias que qualquer guia de bolso ou matéria de jornal traz. E que, uma vez ali, não façam pelo menos duas coisas fundamentais: ler a imprensa local, para não dizer a literatura; e andar a esmo, flanar, como a chutar pedrinhas pelas ruas. (Todo bom viajante é um chutador de pedrinhas imaginárias.)

Ler e caminhar, ambos sem muita “objetividade”, fazem a diferença entre o bom e o mau turista. É com olhos livres e sapatos gastos que se faz uma viagem marcante. Não basta visitar os lugares manjados e comer os pratos típicos; é preciso estar aberto ao novo, correr os riscos, ter a paciência de não sair catalogando o que vê como “maravilhoso” ou “decepcionante” e nada mais. Outra coisa: não se visitam países, mas cidades e regiões; o mundo não cabe num roteiro de “lugares para conhecer antes de morrer”. Também não vejo sentido em não alternar o estilo de viagem, das mais sofisticadas às mais rústicas, das mais próximas às mais distantes, das mais breves às mais longas. Certa hierarquia é necessária, mas os acasos – viagens para países que não eram prioridade, mudanças de rotas decididas no último instante – devem sempre ser bem-vindos, porque o inesperado é o ingrediente mais importante de qualquer viagem. Agora, voltar a um lugar que se conhece é essencial, como reler um livro que nos absorveu.

Se viajar é uma arte, como disse Alain de Botton, somos todos amadores nela. O bom de viajar não é nem ir nem voltar, é poder ir. É saber que se é livre para escolher entre tantas alternativas, mesmo que se escolha mal ou se prefira “viajar à roda do quarto”, feito o outro. O único pecado que um viajante pode cometer é ficar parado.
fonte: O Estado de São Paulo

Um comentário:

Anônimo disse...

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