janeiro 28, 2008

NO VERÃO DE 1808


200 anos atrás, um espetáculo inédito desenrolou-se sob os olhos incrédulos dos moradores do Rio de Janeiro. No começo da tarde de um dia ensolarado, a esquadra do príncipe regente D. João e a família real portuguesa entrou na baía de Guanabara, fugindo das tropas do imperador francês Napoleão Bonaparte. Um vento forte soprava do oceano para aliviar o calor sufocante. Depois de três meses e uma semana de viagem, centenas de nobres e ilustres passageiros se comprimiam na amurada dos navios para contemplar o soberbo espetáculo que se desdobrava diante de seus olhos: uma cidadezinha de casas brancas, alinhadas rente à praia, debruçada às margens de uma baía de águas calmas emoldurada por altíssimas montanhas de granito cobertas pela floresta luxuriante.
Começava ali o mais notável período de transformações no Rio de Janeiro. A chegada da corte foi o encontro de dois mundos até então estranhos e distantes. De um lado, uma monarquia européia, envergando casacas de veludo, sapatos afivelados, meias de seda, perucas e galardões, roupas pesadas e escuras demais sob o sol escaldante dos trópicos. De outro, uma cidade colonial e quase africana, com dois terços da população formada por negros, mestiços e mulatos, repleta de traficantes de escravo, tropeiros, negociantes de ouro e diamantes, marinheiros e mercadores .
Na verdade, o Brasil não existia 200 anos atrás. Pelo menos, não como é hoje: um país integrado, de fronteiras bem definidas e habitantes que se identificam como brasileiros. O Brasil era apenas uma grande fazenda extrativista de Portugal, sem nenhuma noção de identidade nacional. Nem mesmo a expressão "brasileiro" era reconhecida como sendo a designação das pessoas que nasciam no Brasil.
Tudo isso mudaria com a vinda da corte. Coube a D. João e seu ministério criar uma nação a partir do nada. As novidades começaram a aparecer num ritmo alucinante e teriam grande impacto no futuro do país. As decisões mais importantes foram a abertura dos portos e a concessão de liberdade de comércio e indústria manufatureira no Brasil que representavam, na prática, o fim do sistema colonial.
A cidade que acolheu a família real portuguesa era uma esquina do mundo, na qual praticamente todos os navios que partiam da Europa e dos Estados Unidos paravam. Protegidas do vento e das tempestades pelas montanhas, as águas calmas da baía de Guanabara serviam como abrigo ideal para reparo das embarcações e reabastecimento de água potável, charque, açúcar, cachaça, tabaco e lenha. Era também o maior mercado de escravos das Américas. Seu porto vivia congestionado de navios negreiros que atravessavam o Atlântico, vindos da África.
O príncipe regente iria morar num palácio amplo e agradável, situado no atual bairro de São Cristóvão, perto de onde ficam hoje o morro da Mangueira e o estádio do Maracanã. Sua mulher, a princesa Carlota Joaquina, de quem vivia separado, preferiu ficar numa chácara na praia de Botafogo. Mais complicado foi encontrar habitação para os milhares de acompanhantes da corte, recém-chegados à cidade que ainda era relativamente pequena.
Com a chegada da família real, a área urbana triplicou com a criação de novos bairros e freguesias. A população dobrou e o número de escravos triplicou, de 12 mil para 36 182. O tráfego de animais e carruagens ficou tão intenso que foi preciso criar leis para discipliná-lo. A criminalidade atingiu índices altíssimos. A maioria da população andava armada e pouca gente se arriscava a sair sozinha à rua depois do anoitecer. A tarefa de colocar alguma ordem no caos foi confiada por D. João ao advogado Paulo Fernandes Viana. Desembargador e ouvidor da corte, carioca, formado pela Universidade de Coimbra, foi nomeado intendente-geral da polícia. Era "um agente civilizador" dos costumes no Rio de Janeiro. Cabia a ele transformar a vila colonial, provinciana, inculta, suja e perigosa em algo mais parecido com uma capital européia, digna de sediar a monarquia portuguesa. Sua missão incluía aterrar pântanos, organizar o abastecimento de água e comida e a coleta de lixo e esgoto, calçar e iluminar as ruas usando lampiões a óleo de baleia, construir estradas, pontes, aquedutos, fontes, passeios e praças. Ficou também sob sua responsabilidade policiar as ruas, expedir passaportes, vigiar estrangeiros, fiscalizar as condições sanitárias dos depósitos de escravos e providenciar moradia para os habitantes que a cidade recebeu com a chegada da corte.
O primeiro jornal publicado em território nacional, a Gazeta do Rio de Janeiro, começou a circular em 10.09.1808, impresso em máquinas trazidas ainda encaixotadas da Inglaterra. Ler os anúncios publicados na Gazeta é uma forma divertida de observar a sofisticação dos hábitos da população carioca naquela época. Esses primeiros anúncios tratam de aluguel de cavalos e carroças, venda de terrenos e casas e alguns serviços básicos, como aulas de catecismo, língua portuguesa, história e geografia.
O tom e o conteúdo dos anúncios mudam de forma radical, a partir de 1810. Em vez de casas, cavalos e escravos, assam a oferecer pianos, livros, tecidos de linho, lenços de seda, champanhe, água-de-colônia, leques, luvas, vasos de porcelana, quadros, relógios e uma infinidade de outras mercadorias importadas: bijuteria, chapéus para senhoras, livros franceses, vestidos e enfeites de senhoras modernas, cheiros de todos os gêneros, pêndulos, espingardas e leques.
A indumentária e os novos hábitos transplantados pela corte eram exibidos nas noites de espetáculo do teatro São João ou nas missas de domingo. Nessas ocasiões, um símbolo indiscutível de status era o número de escravos e serviçais que acompanhavam seus senhores. Os mais ricos e poderosos tinham as maiores comitivas e faziam questão de exibi-las como símbolo de sua importância social.
Quando a corte retornou para Portugal, em 1821, um novo país estava pronto para caminhar sem a tutela portuguesa.
Veio a independência, em 1822.

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