setembro 29, 2013

Galinha ou foguete?



"Foguete ou galinha?
Um jornal inglês há algum tempo escreveu que o Brasil estava deslanchando como um foguete céu acima, ninguém segurava mais. Agora voltaram atrás, e perceberam que o vôo era de galinha. Ora… E as críticas maiores, de todos os lados vão para a educação, tantos analfabetos, uma pena.
Estávamos na cozinha de uma festa quando a Fernandinha Torres veio nos visitar, linda e esfuziante de inteligência e graça. Só depois, em casa, é que comecei a rir baixinho. Pois não é que aqueles cozinheiros (os e as) que há segundos mexiam suas panelas, fritavam seus bolinhos, se transformaram não mais que de repente em paparazzi experimentados? Um tirava a foto, o outro a abraçava, enquanto um terceiro já se preparava para o beijo numa coreografia sem problemas que parecia ensaiada? E ninguém pediu autógrafo, quer mais autógrafo do que a cara da moça abraçada a você com um belo sorriso?
E eu, a letrada, também fã da moça, me restringi a uma pergunta ambíguas, que podia significar muita coisa. “Ah, Fernanda, que prazer eu tive ao ver que você sabe escrever.” Como se ela fosse uma periguete sem possibilidades literárias. Estava me referindo aos belos artigos dela na Folha, é claro. Melhor teria feito explodindo uma foto em close do que na frase desastrada
Não tenho bola de cristal e sou bastante burra para previsões, mas já percebo que nos transformamos em seres que olham mais do que escrevem. E nós, os privilegiados pela escola, ainda queremos que todos entendam textos compridos, que leiam livros de receitas, que leiam, que leiam, que leiam. Talvez estejamos errados. Suspeito que em breve as receitas estarão na parede em tela grande. Depois de pressionarmos um botão, Palmirinha começará a dar sua receita de pavê, passo a passo, lá, inteira, gravada na parede.
Ao mesmo tempo que imagino essa cultura totalmente baseada no olhar, percebo que o facebook, ajudou muito a minha equipe de trabalho. Através dos anos havia cozinheiras, como a Nalva, por exemplo, que não lia e não escrevia. Era alfabetizada mas não tinha interpretação de texto, pegava o lápis com estranheza.
Com o Facebook que é um grande divertimento para todos ela começou a mandar mensagens, o que não é difícil, você olha o que o outro escreveu e repete, copia, escreve errado mas se comunica. Em três meses já se é capaz de ter uma conversa de facebook e com o tempo, a Nalva abriu um bufê caseiro e conversa com clientes por email. E não foi só ela, todos melhoraram muito depois do facebook, alguns estão com o texto quase perfeito, que ainda por cima é conjugado à foto.
A Leila escreveu sob a foto da Fernanda. “Fernandinha é eu”. Um simples erro de digitação, de acento, e ninguém imaginou que ela se transformara na atriz.
Nós que vivemos reclamando da mão de obra que nem ler sabe, talvez estejamos na encruzilhada em que saber ler não será tão importante, mas saber ver e ouvir, sim, o principal.
Por enquanto vou tratando de colocar um telão com filmes na cozinha, não é uma boa ideia? Ou todos já tiveram a ideia, menos eu?
Ninguém me obedece, mando uma instrução por escrito, de uma festa, três páginas com os mínimos detalhes e a pessoa não absorve, percebo que não leu, me dá uma tristeza e pelo jeito a tonta sou eu.
Ninguém, ninguém mesmo lê uma receita de 3 páginas e é o mínimo que uma receita bem explicada costuma ter.
Fico pensando em como me comunicar com a cozinha com mais eficiência. Aí vem o meu problema que me viro muito bem com as letras e muito mal com o virtual. São eles que me ensinam coisas de computador, que consertam o bicho quando trava, todos na cozinha são melhores do que eu com o computador.
Tudo me diz que estamos em transição de galinha para foguete só que nós, os detentores dos saberes da galinha ainda não aprendemos a lidar com as técnicas foguetórias que vão tornar a mão de obra mais sábia e produtiva.
Só a moça que lava a louça não se comunica por computador. Acho que é por que não tem um. Vamos já fazer um experimento, colocar uma maquininha falante e cheia de figuras na mão dela e ver se a Ivone não se esquece do vôo da galinha e por ser inteligente e esforçada, num minuto se torne líder alçando um belo vôo de foguete americano".

NINA HORTA

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